CIPM - Corpus TextoSécDocumento Demanda do Santo GraalXVDSG Título Fólio 11a Véspera de Pinticoste foi grande gente assu~ada em Camaalot assi que podera homem i veer mui gram gente, muitos cavaleiros e muitas donas mui bem guisadas. el-rei, que era ende mui ledo, honrouos muito e fezeos mui bem servir. E toda rem que entendeu per que aquela corte seeria mais viçosa e mais leda todo o fez fazer. Aquel dia que vos eu digo, direitamente quando querriam poer as mesas – esto era hora de noa – aveeo que u~a donzela chegou i mui fremosa e mui bem vestida e entrou no paaço a pee, como mandadeira. Ela começou a catar de u~a parte e da outra polo paaço e preguntavamna que demandava. – Eu demando, disse ela, por dom Lançarot do Lago. É aqui? – Si, donzela, disse u~u~ cavaleiro. Veedelo: está a aquela freesta, falando com dom Galvam. Ela foi logo pera el e salvouo. Ele, tanto que a vio recebeua mui bem e abraçoua, ca aquela era u~a das donzelas que moravam na ínsoa da Lediça que a filha Amida delrei Peles amava mais que donzela da sua companha. Título Fólio 21a Como a donzela disse a Lancelot que fosse com ela. – Ai, donzela, disse Lançalot, que ventura vos adusse aqua? Que bem sei que sem razom nom veestes vós. – Senhor, verdade é, Título Fólio 21b mais rogovos, se vos aprouguer, que vaades comigo a aquela foresta de Camaalot e sabede que manhãã, hora de comer, seeredes aqui. – Certas, donzela, disse el, muito me praz, ca teudo som de vos fazer serviço em todalas cousas que eu poder. Entam pedio suas armas. E quando elrei viu que se fazia armar a tam gram coita foi a el coa raía e disselhe: – Como? Leixarnos queredes a atal festa u cavaleiros de todo o mundo veem aa corte e mui mais ainda por vos veerem ca por al, deles por vos veerem e deles por haverem vossa companha? – Senhor, disse el, nom vou senam a esta foresta, com esta donzela que me rogou; mais cras, hora de terça, seerei aqui. Título Fólio 31b Como Lancelot se foi com a donzela. Entom se saio Lançarot do paaço e subio em seu cavalo e a donzela em seu palafrém. E forom com a donzela dous cavaleiros e duas donzelas. E quando ela tornou a eles, disselhes: – Sabede que adubei o por que viim: dom Lançarot do Lago [se há] ir com nosco. Entam se filharom andar e entrarom na foresta. E nom andarom muito per ela que chegarom a casa do ermitam que soía a falar com Galaaz . E quando el viu Lançarot ir e a donzela, logo soube que ia pera fazer Galaaz cavaleiro e leixou sua irmida por ir ao mosteiro das donas, ca nom queria Título Fólio 31c que se fosse Galaaz ante que o el visse, ca bem sabia que pois se el partia dali, que nom tornaria i, ca lhe convenria, tanto que fosse cavaleiro, entrar a as venturas do Regno de Logres. E por esto lhe semelhava que o havia perdudo e que o nom veeria ameu´de. E temia ca havia em ele mui grande sabor por que era santa cousa e santa creatura. Título Fólio 41c Como Lancelot chegou aa abadia. Quando eles chegarom a[a] abadia, levarom Lançarot pera u~a camara e desarmaromno. E veo a ele [a] abadessa com quatro donas, e adusse consigo Galaaz. Tam fremosa cousa era [que] maravilha era! E andava tam bem vestido que nom podia milhor. E [a] abadessa chorava muito com prazer tanto que viu Lançarot e disselhe: – Senhor, por Deus, fazede vós nosso novel cavaleiro ca nem queríamos que seja cavaleiro per mão d’outro, ca milhor cavaleiro ca vós nom no pode fazer cavaleiro. Ca bem creemos que ainda seja tam bõõ que vos acharedes ende bem e que será vossa honra de o fazerdes. E se vos el ende nom rogasse vólo devíades de fazer ca bem sabedes que [é] vosso filho. – Galaaz, disse Lançalot, queredes vós seer cavaleiro? El respondeo baldosamente: – Senhor, se prouves[se] a vós, bem no queria seer, ca nom há cousa no mundo que tanto deseje como honra de cavalaria e seer da vossa mão, ca doutro nom no queria seer, que tanto vos ouço louvar e preçar de cavalaria Título Fólio 41d que niu~u~, a meu cuidar, nom podia seer covardo nem mao quem vós fezéssedes cavaleiro. E esto é u~a das cousas do mundo que me dá maior esperança de seer homem bõõ e bõõ cavaleiro. – Filho Galaaz, disse Lançalot, estranhamente vos fez Deus fremosa creatura. Par Deus, se vós nom cuidades seer bõõ homem ou bõõ cavaleiro, assi Deus me conselhe; sobejo seria gram dano e gram mala ventura de nom seerdes bõõ cavaleiro ca sobejo sodes fremoso. E ele disse: – Se me Deus feze [assi] fremoso, darmiá bondade, se lhe prouver. Ca em outra guisa valeria pouco. E ele querrá que serei bõõ e cousa que semelhe minha linhagem e aqueles onde eu venho. E metuda hei minha esperança em Nosso Senhor. E por esto vos rogo que me façades cavaleiro. E Lançalot respondeu: – Filho, pois vos praz, eu vos farei cavaleiro. E Nosso Senhor, assi como a ele aprouver e o poderá fazer, vos faça tam bõõ cavaleiro como sodes fremoso. E o irmitam respondeu a esto: – Dom Lançalot, nom hajades dulda de Galaaz, ca eu vos digo que de bondade de cavalaria os milhores cavaleiros do mundo passará. E Lançalot respondeu: – Deus o faça assi como eu queria. Entam começarom todos a chorar com prazer, quantos no lugar estavam. Título Fólio 51d Como Galaaz prometeo ao ermitam o que lhe pedia. Aquela noite ficou Lançalot ali e fez Galaaz vigília na egreja. E o irmitam, que sobejo amava Galaaz, velou toda aquela noite [e] nom quedou de chorar porque viu ca se havia de Título Fólio 52a partir dele. Quando veeo a manhãã, disse a Galaaz: – Filho, cousa santa e honrada, frol e louvor de todos os meni~os, outorgame, se te praz, que te faça companha em toda minha vida mentre te pude seguir dê que te partires da côrte delRei Artur, ca eu bem sei que nom morarás i mais de u~u~ dia ca a demanda do Santo Graal se começará tanto que tu i chegares. E eu te demando ta companha, assi como tu ouves, que eu sei tua santa vida e ta bondade mais ca tu. E nom sei no mundo que me tanto pudesse confortar dês oi mais como de veer tam santo cavaleiro como tu seerás e como tu veerás maravilhas a que darás cima. Ca Deus, que te fez nascer em tal pecado como tu sabes, por mostrar seu gram poder, essa gram virtude te outorgou per sua piedade e pola bõa vida que tu começaste de tua menenice atáaqui que te dará poder e força e bondade d’armas e d’ardimento sobre todolos cavaleiros que nunca trouxerom armas no regno de Logres, assi que tu darás cima a todalas outras maravilhas e aventuras u todolos outros falecerom e falecerám. E por em quero todos teus feitos saber que acabarás, que foste feito em tal pecado, u os outros nom poderom i avi~ir, que forom feitos em leal casamento. Eu te quero teer companha como sei que em nosso tempo nunca fez tam fremosos Título Fólio 52b milagres Nosso Senhor, nem tam conheçodos como fará por ti. Esto quero eu milhor saber por veer as grandes aventuras e milagres que Deos por ti fará. E mentrê em escripto todalas maravilhas que Deus mostrará por teu amor [em] esta demanda. Filho, outorgame o que te demando, que Deus te faça homem bõõ. E Galaaz lho outorgou. Título Fólio 62b Como Lancelot fez Galaaz cavaleiro. Aquel dia, hora de prima, a missa dita, fez Lançalot seu filho cavaleiro, Galaaz, assi como era custume. E sebede que quantos i estavam se pagavam em como el parecia; e nom era maravilha, ca, em aquel tempo, nom podia homem achar em todo o regno de Logres donzel tam fremoso nem tam bem feito ca em todo era tal que nom podia homem achar rem em que lhe travasse, fora que era manso sobejo em seu continente. E sabede que, quando Lançarot o fez cavaleiro, que se nom pôde sofrer de chorar porque sabia que todalas partes era de grande guisa que nom podia de maior seer e havia tam pobre festa e tam pequena ladiça em sua cavalaria; nem el nom no podia ja mais cuidar que pudesse vi~ir a tam gram cousa como pois veeo. O corpo havia bem talhado e o contenente era manso. Título Fólio 72b Como Lancelot viu Boorz e Lionel que veerom após el. Pois que Lançarot houve feito Título Fólio 72c quanto a cavaleiro convinha, disse: – Filho Galaaz, ora sodes cavaleiro. Deus mande que seja a cavalaria tam bem empregada em vós como em nosso linhagem. Ora dizede: iredevos aa corte del-Rei Artur, u muitos homens bõõs de todalas partes do mundo veem e todolos cavaleiros do Regno de Logres som assumados em esta festa d’hoje? E ele disse: – Senhor, eu irei, mas nom [convosco]: outrem me guiará i. – E quando? disse Lançarot. E outros cavaleiros que com ele andavam disserom: – Senhor, pois já cavaleiro é, ele irá mais toste aa corte ca vós nom no cuidades, ca el será i mui cedo. – Pois comendovos a Deus, disse Lançalot, ca me quero eu ir aa corte, ca hora de terça hei i de seer. Entam filhou suas armas e cavalgou; e u queriam sair do mosteiro, viu ante u~a câmara Boorz e Lionel armados, que outrossi queriam cavalgar e, tanto que o virom, forom pera el. E ele lhes disse: – Que ventura vos adusse aqui? Eu cuidava que érades na corte. – Senhor, disserom eles, nós nos partimos por pavor de morte que houvemos de vós como menos que nós, ca vos nom partíades senom por algu~a coita mui grande. Por esso veemos pós vós atee aqui e nos encobrimos o melhor que podemos. Quando soubemos que vos queríades tornar aa corte, armámosnos por nos tornar com vós ca por al nom. – Pois cavalgade e vaamosnos, disse ele. Entam cavalgarom Título Fólio 72d e iindo pola carreira preguntou Boorz: – Senhor, quem é este cavaleiro que ora fezestes? – Cedo o saberedes, disse Lançarot. Leixade ende ora a pregunta. Er disse Lionel: – Quem quer que seja é [tam] mais fremoso que nunca eu vi de sua idade e, se for [tam] bõõ cavaleiro como fremoso, muito bem lhe faria Nosso Senhor. Título Fólio 82d Como Lancelot e Boors e Lionel chegarom aa côrte. E assi falando, chegarom a Camaalot, e sabede que quantos na côrte eram foram ende mui ledos, ca muito fora a festa e mui [me~or] e mais pobre d’eles i nom seerem. E el-rei fora entam ouvir missa aa see, com gram companha de cavaleiros que maravilha terríades de os veer. E ele trazia tam rico guarnimento que maravilha era. E com a rainha iam tantas donas e donzelas que era grande maravilha. E ela e eles ouvirom missa e foramse ao paaço.E aveeo que entramente, andando catando as seedas da Távola Redonda, acharom: “Aqui deve seer foam; e aqui foam”. E quando chegarom aa Seda Prigosa, acharom i leteras novamente feitas, que diziam: “A #CCCCLIII anos compridos de morte de Jhesu Cristo, em dia de Pinticoste, deve haver esta seeda senhor”. – Par Deus, disse Lançalot quando esta maravilha ouviu, pois hoje deve haver senhor, ca da morte de Jhesu Cristo a este Pinticoste há #CCCCLIII anos. E bem querria, se podesse, que estas leteras nom visse niu~u~ atee que veesse aquele que a há de acabar. E eles disserom: Título Fólio 83a – Nós a guardaremos bem. Entam cobriram a seeda com u~u~ pano de seeda vermelha, assi como as outras eram cubertas. Quando elrei veeo da egreja, a rainha se foi pera a câmara com todas suas donzelas e companha. el-rei preguntou se era hora de comer. – Senhor, disse Queia, já tempo é de comer, ca já é preto de meo dia; mais, se vosso costume que mantevestes ata aqui em todalas grandes festas queredes manteer, nom me semelha que comer possades, ca a tam gram festa como esta nom veeo ainda aventura niu~a; que, tanto que aventura vos veesse, nom soíades vós a comer em niu~a gram festa. – Verdade, disse elrei; este costume manteve sempre dês que foi rei, e manterrei mentes viver. E polas grandes aventuras que aa minha côrte vierem [me] chamam o Rei Aventuroso ca a sazom que elas sairám deve mostrar; mas bem sei que a Nosso Senhor nom prazerá que muito reine dês aqui a diante. Mas como quer que as venturas soíam avi~ir aas festas grandes, em esta eu sei bem que o dia d’hoje nom falezerám, ante verám i as mais grandes e as mais maravilhosas que nunca i veerom, [adivi~a] meu coraçom esto. Nom m’em chal de [atendermos] u~u~ pouco, ca bem sei verdadeiramente que nossa festa nom é hoje sem ventura; mais houve tam gram prazer da viinda de Lançalot e de seus coirmãos que me esqueciia o custume. Título Fólio 93a Como o cavaleiro caiu da freesta braadando. Título Fólio 93b E entre que elrei esto dizia, dom Lançalot e muitos outros cavaleiros catavam contra u~a s freestas que estavam sobre a água, e virom i seer u~u~ cavaleiro que era natural de Iriãs, mui fidalgo e bõõ cavaleiro de armas e de mui grande nomeada e mui bem vestido. E siia pensando tanto que niu~u~ o nom podia acordar de seu pensar, em guisa que nom metia mentes em festa nem em côrte. E u siia assi pensando deu u~a voz: – Ai, cativo, morto som. E leixouse cair da freesta e quebroulhe o pescoço. E os cavaleiros que i siiam foram a ele pera veerem o que era e acharom que lhe saía pela boca e pelos nareces chama de fogo tam forte como se fosse de u~u~ forno aceso e tiinha em suas mãos u~a s letras, que lhe caírom ende. E, quando ele veo, os cavaleiros filharom as leteras e elrei chegou i com seus cavaleiros veer aquela maravilha. E, porque era companheiro da Távola Redonda, quando elrei viu que era morto mandou que o levassem fora do paaço, ca nom quis que sua côrte fosse torvada com ele. E entam o levarom fora a mui gram trabalho, ca ardia tam forte mente que toda a roupa era tornada em ciinza e nom se podia a el chegar niu~u~ que se nam queimasse. E, posto fora do paaço, er começarom sua lidice como antes. E muito haviam gram pesar todos do cavaleiro, porque era mui preçado. A elrei Título Fólio 93c muito pesava, mais nom no ousava mostrar por seer mais triste. E depois que soube que era na egreja, disse: – Cavaleiros, ora podedes comer, ca já por aventura maravilhosa nom leixaredes comer ca me semelha mui estranha [a]ventura esta. Título Fólio 103c Cando o escudeiro disse a elrei as novas do padrom. E eles desto falando aquevos vem u~u~ escudeiro que disse a elrei: – Senhor, eu vos trago as mais maravilhosas novas que ouvistes falar. – E que novas sam? disse elrei, dizedenolas. – Em este vosso paaço apar[eceu] u~u~ padram de mármor que está metuda u~a espada, e sobre esta pedra, em no aar, u~a bai~a. E eu vos digo que vi assi nadar por sobre a água como se fosse madeiro. E elrei o teve por chufa. Disselhe se podia veer esse padram. E entam disse o escudeiro que: – Já alá som muitos cavaleiros da vossa companha, por veerem maravilha. E elrei, tanto que esto ouviu, foi logo pera alá com sua companha de homees bõõs. E Lançarot, tanto que soube que era, logo foi alá após eles; e Estor e Persival, que o já outra vez viram e queriam veer antre tam gram companha como alá era assu~ada [se] haveria alguém que [desse] cima a aquela ventura. Quando elrei chegou aa rebeira e viu o pedram e a espada que estava metuda polo encantamento de Mer[lim], assi como o conto há já devisado, e u~a bainha, que estava preto dela, no meo do ar, e as Título Fólio 103d leteras que Merlim fezera, foi todo espantado. – E, amigos, novas vos direi. Ora sabede que per esta espada será conhecido o milhor cavaleiro do mundo, ca é a prova per que se há de saber. E niu~u~, se nam for o milhor cavaleiro do mundo, nom poderá sacar a espada deste padram. Título Fólio 113d Como el-rei disse a Lancetot que tirasse a espada do padrom, e Lancelot nom quis. Quando os cavaleiros ourirom esto, fezeromse afora os mais daqueles que se queriam provar pera sacála. E elrei disse a Lançarot: – Dom Lançarot, filhade esta espada, ca ela é vossa, por testimunha de quantos aqui estam que vos teem por milhor cavaleiro do mundo. E quando esto ouviu houve mui grande vergonha e respondeu: – Senhor, estes me teem pelo milhor cavaleiro do mundo; certas eu nom som que esta espada devo haver, ca mui milhor cavaleiro ca eu a haverá, e pesame que nom som atam bõõ como o que cuidades. Desto que Lançarot disse houverom muitos pesar, e mais os da linhagem do rei Bam que o tinham polo milhor cavaleiro do mundo. el-rei, que entendeu que havia já quanto de pesar, disse: – A provar vos convém. E assi nom seredes pois culpado se per ventura falecerdes. – Senhor, disse ele, salva a vossa graça, nom me chegara i: ca, se Deus me valha, nom valho eu tanto que deva meter mão em arma de tal homem Título Fólio 114a com aquele seráque esta espada háde trazer. Título Fólio 124a Como Galvom provou a espada per mandado delrei. Entam disse el-rei a Galvam: – Sobrinho, pois Lançarot receou a espada, provadea vós e veremos que averá. – Eu, Senhor, disse el, prováloei por comprir vosso mandado, mais sei que nom é rem ca bem sabedes vós e quantos aqui estam, quando dom Lançarot leixa algu~a cousa por míngua de cavalaria, ca eu nom acabarei i rem, ca ele é mui milhor cavaleiro que eu. – E todavia, disse elrei, prováloedes ca assi me praz. Entam se chegou Galvam e filhou a espada polo mogorom e tiroua o mais que pôde, mas nunca que a podesse sacar da pedra, e leixoua entam e disse a elrei: – Senhor, ora podedes buscar quem na prove, ca eu nom meterei i mais mão, ca eu bem vejo que Deus nom ma quer outorgar. – Dom Galvam, disse Lançarot, elrei fez seu prazer dês que volo mandou provar, ca nom pode durar longo tempo que vós nom hajades mal ende, ca vós receberedes por ende o maior golpe ou chaga onde haveredes pavor de morte ou morreredes. – Amigo, disse ele, nom pude eu mais ca, se aqui cuidasse Título Fólio 124b a morrer, nom leixaria fazer mandado delrei. – Pois feito é, disse elrei, nom é culpa se [minha] nom. E entam preguntou a todolos outros: – Amigos, há aqui tal que queira provar esta espada? E eles se calarom todos. E, quando el-rei viu que nom faziam i mais, disse: – Ora vaamos jentar, ca já tempo é, e Deus nos dê quem a esta aventura dê cima, ca, certas, muito me prazeria que veesse cedo. Título Fólio 134b Como os clérigos acharom letras em duas seedas. Depós esto, chegatomse ao paaço e mandarom poer as mesas. E os clérigos que se trabalhavam de catar as seedas da Távola Redonda, o que haviam de fazer, andarom de u~a parte e da outra. E acharom entam que em duas seedas nom havia leteras assi como ante, senam outras novamente. Em a u~a seeda era escrito o nome de Erec, e era a seeda daquel cavaleiro que fora morto, assi como o conto há já devisado. E a outra seeda fora de u~u~ cavaleiro d’Escócia., que havia nome Dragam, que matara Tristam aquela domãa ante a Insoa Grande porque aquel Dragam demandara amor aa rainha Iseu. Mas esto nom divisa ora na estória do Santo Graal, ca nom tange a seu livro, mas a grande estória de dom Tristam o divisa no livro. Título Fólio 144b Como Erec e Alaim houverom as seedas. Título Fólio 144c Quando os clérigos virom as seedas guarnidas de novos nomes, conhecerom logo cujas foram que eram mortos. E acharom na seeda outro nome d'Alaim o Branco. E entam que a Deus aprazeria de eles entrarem no lugar deles. Entam foram a elrei e disseromlhe o que acharom. E elrei o agardeceu muito a Nosso Senhor, que tanto lhes poinha conselho na fazenda do Santo Graal e da Távola Redonda. E com Elaim outrossi forom todos mui ledos. Mais bem sabede que de Alaim o Branco houverom todos os do linhagem de rei Bam mui grande prazer, ca Alaim era filho de Boorz de Gaunes, e fezerao aquel dia cavaleiro rei Artur. El-rei Artur, que muito amava Erec e que o prezava de cavalaria, pola nomeada que dele ouvira, que nom prezava tanto niu~u~ cavaleiro de sua idade, quando viu que esta honra lhe viera, disse ledo e com mui grande prazer: – Hu Erec, meu amigo, filho delrei Lao que em esta corte de sua idade nom devia homem mais preçar homem mancebo de cavalaria. Venha a mim e porremolo na alteza que Nosso Senhor lhe deu, ca outrem nom. Entam foi por ele aa câmara da rainha, u siia falando com as donzelas. E depois filhouo elrei pola mão e assentouo na seeda da Távola Redonda, u o seu nome era escrito, e disselhe, ao seer: Título Fólio 144d – Erec, Deus voz faça, dês aqui adiante, tam bõõ cavaleiro como fostes atee qui. Depois se foi a Alaim o Branco e disselhe: – Filho, muito sodes fremoso, mas Deus, por sua bondade, vos faça semelhar em cavalaria o vosso linhagem de rei Bam. Quando virom que ali ganhara el a seeda da Távola Redonda per prazer de Nosso Senhor forom mui ledos aa maravilha. E disse Lançarot: – Alaim ainda sairá a grandes feitos. E saibam todos que este conto ouvirem que aquel Alaim o Branco foi filho de Boo[r]z de Gaunes e fezeo em u~a filha delrei de Gram Bregonha. Pero ante que esto fosse, prometera Boo[r]z a Nosso Senhor de lhe guardar sua virgindade. Mas tam toste que o ela vio pagouse dele dês ali e amouo. E depois enganouo per encantamento e jouve com ela e fez ali aquela noite que foi depois emperador de Cons[tan]tinopla. E se Boo[r]z britou aquelo que prometeu nom foi per seu grado, mas polo encantamento que lh’a donzela fez. E depois o corregeo, aquelo que fez, que todolos dias da sua vida manteve [castidade]. Título Fólio 154d Como os que catavam as seedas as acharom. Aquel dia que vos eu digo, que Erec e Ela[i]m foram postos nas seedas da Távola Redonda, mandou elei cobrir as mesas, ca já tempo era de comerem. E elRei se foi assentar na sua alta Título Fólio 155a seeda. E depois os companheiros da Távola Redonda forom seer cada u~u~ em seu lugar. E os outros, que nom eram de tam gram nomeada, severom cada u~u~ per u devia. Aquela hora, ante que lhes dessem de comer, mandou elRei contar quantos companheiros da Távola Redonda veerom aaquela festa e os que ende faleciam. E os que os contarom acharom todas #CL seedas compridas fora duas e disseramno a elRei. E elRei tendeu as mãos contra o ceu, e disse: – Jhesu Cristo, Padre Senhor de todalas cousas, beento sejas tu que me leixaste tanto viver que visse a Távola Redonda comprida, que nom falecessem ende fora dous. Entam disse a aqueles que as seedas haviam de catar: – Quaes som esses que falecem? – Senhor, disserom eles, Tristam e a seeda perigosa, que nom é comprida. – Nom vos pese, disse elRei, que cedo será comprida, ca por al nom fiz eu viir tanta gente aa minha corte senam por veerem as maravilhas que averram a esta mesa, ca hoje seráa minha corte chamada por sempre Corte Aventurosa. Título Fólio 165a Como Galaaz entrou no paaço e acabou a seeda perigosa. Eles em esto falando catarom e virom que todalas portas do paaço se çarrarom e todalas freestas pero que nom escureceo por ende o paaço, ca entrou i u~u~ tal raio de sol que per toda a casa se estendeu. Título Fólio 165b E aveo entam u~a gram maravilha: nom houve tal no paaço que nom perdesse a fala. E catavamse u~u~s aos outros e nom podiam rem dizer, e nom houve i tam ardido que ende nom fosse espantado; pero nom houve i tal que saísse da seeda enquanto esto durou. Aveo que entrou Galaaz armado de loriga e de brafoneiras e d’elmo e de dous sobressinaes d’eixamete vermelho; e depós ele chegou o ermitam que lhe rogara que o leixasse andar com ele, e tragia u~u~ manto e u~a garnacha [de] eixamete vermelho em seu braço. Mas tanto vos digo que nom houve no paaço quem podesse entender per u Galaaz entrara, ca em sua viinda nom abriram a porta nem ouvirom abrir nem freesta. Mas do irmitam nom vos digo, ca o virom entrar pola porta grande. E Galaaz, tanto que foi no meo do paaço, disse, assi que todos ouvirom: – Paz seja com vosco. E o homem bõõ pôs os panos que trazia sobre u~u~ alfâmbar e foi a rei Artur e disselhe: – Rei Artur, eu te trago o cavaleiro desejado, aquel que vem do alto linhagem delrei David e de Josep Baramatia, per que as maravilhas desta terra e das outras haverám cima. E [d]esto que o homem bõõ disse foi elrel mui ledo. E disse: – Se esto é verdade, vós sejades bem viindo. E bem seja veu´do o cavaleiro, ca este é o que háde dar cima aas aventuras do Santo Graal. Nunca foi feito em esta [casa] tanta honra, Título Fólio 165c como lhe nós faremos. E quem quer que ele seja, eu querria que lhe fosse muito bem pois de tam alto linhagem vem como vós dizedes. – Senhor, cedo o veredes em bõõ começo. Entam lhe fez vestir os panos que trazia e foio assentar na seeda perigosa. E disse: – Filho, ora vejo o que muito desejei quando vejo a seeda perigosa comprida. E quando virom Galaaz na seeda, logo todos os cavaleiros houverom poder de falar, e bradarom todos a u~a voz: – Dom Galaaz, vós sejades o bem veu´do – ca eles já seu nome sabiam, ca o irmitam o nomeara já i. Título Fólio 175c De quem Merlim e todolos profetas falarom. El-rei tanto que viu na seeda prigosa o cavaleiro de que Merlim e todolos outros profetas falarom na Gram [Bretanha] entam bem soube ele que aquele era o cavaleiro per que seriam acabadas as aventuras do Regno de Logres, e foi com ele tam alegre e ledo, que beenzeo Deus e disse: – Deus, beento sejas tu que te prouve de tanto viver eu, que eu em minha casa visse aquele onde todolos profetas desta terra e das outras profetizarom, tanto gram tempo há já. Ora falece, disse el, da Távola Redonda dom Tristam e nom outrem. Mas maldita seja a beldade de Iseu per que o assi havemos perdudo ca, Título Fólio 175d se ela nom fosse, nom leixara el em niu~a guisa que ele nom veese a esta festa tam grande. Título Fólio 185d Como u~u~ donzel deu novas aa rainha de Galaaz. Assi falava elrei de Tristam, com mui gram pesar de que nom vinha aa corte; mas os outros nom haviam ende pesar, ante eram mui ledos, porque a seeda perigosa havia cima já, que nom podiam mais. E honravam e serviam Galaaz quanto podiam. Ca bem sabiam que este havia dar cima aas maravilhosas aventuras de Regno de Logres; mas sobre todos era Lançarot mais ledo, ca bem viia que, se Galaaz vivesse, que passaria d[e] bondade e de cavalaria todolos do Regno de Logres. Estas novas foram de u~a parte e da outra assi que chegarom aa rainha, ca u~u~ donzel lhe disse: – Senhora, maravilha grande aveo ora no paaço. – E que maravilhas sam? – disse a rainha – dizedenolas. – Senhora, disse ele, a seeda perigosa é comprida; u~u~ cavaleiro see i. – Si? disse ela. Par Deus, fremosa aventura i Deus deu. Ca de muitos que já i severom nunca i tal foi que i nom fosse morto. E de que idade pode seer? disse a rainha. – Senhora, disse el, de dezooito anos. E ela maravilhouse das maravilhas que ende ouvio, pois disse: – Maravilha pode ende avi~ir, se rem Título Fólio 186a eu nunca soube. E sabees de qual linhagem é? E o donzel disse que nom, fora que dizem todos que semelha do linhagem de rei Bam mais que de outro. E ela começou a pensar e logo esmou em seu coraçom que era filho de Lançarot ca lhe dissera Estor que era já Galaaz gram donzel e que cedo seria cavaleiro. E disse a rainha ao cavaleiro: – Donzel, sabes como há nome? – Senhora, disse el, o nome Galaaz. E ela, quando ouviu o nome, logo soube certamente ca era filho de Lançarot, ca peça havia que ela sabia como havia nome. Entam disse aas donas que com ela siiam: – Certas seede, se ele é bõõ cavaleiro nom me maravilho muito ca de todalas parte vem de bõõs cavaleiros que nom pode errar que nom seja milhor ca outro cavaleiro. – Senhora, disserom elas, quem é bõõ sobre todos? – Saberedes, disse ela, mais nom per mim. Título Fólio 196a Como Galaaz acabou a aventura. Aquel dia foi grande lidice antre eles. E elrei mandou que lhes dessem de comer. A tam toste que comerom preguntou elrei a quantos no paaço eram: – Que vos semelha do que nos aveo? Ca a mim tal hora foi, ante que viesse Galaaz, que nom pudi falar. E todos disserom que bem assi aveera a eles. Título Fólio 196b – Par Deus! disse elrei, gram maravilha foi esta. E podedes entender porque foi? – Nom, disserom eles. – Par Deus! disse ele, muito me pesa. Grande foi a ledice e prazer que todos houverom. E elrei se ergueu da mesa e foi aa mesa u siia Galaaz, e vio i seu nome escrito, e foi mui ledo e disse a Galvam: – Sobrinho, ora podedes veer Galaaz, o mui bõõ cavaleiro sobejo, que nós tanto atendemos e que tanto desejamos a veer. E os da Távola Redonda falavam o mais ameu´de ca todolos outros. E diziam: – Pois nolo Deus adusse, servamolo e honremolo mentre for antre nós, cá ja ´nom viverá muito com nosco pola demanda do Santo Graal que se começará logo. – Assi me Deus ajude, disse Galvam, bem no devemos servir, cá Deus nolo enviou por nos livrar a terra da[s] grandes maravilhas e das estrãias aventuras que tanto ameu´de veem e de tam longo tempo. Entam veeo elrei a Galaaz e disselhe: – Senhor, vós sejades bem vindo, ca muito tempo háque vos desejei a veer; e graças a Deus e a vós que quisestes aqui vi~ir. – Senhor, disse ele, eu viim aqui, ca me convinha a fazer, ca de mover haverám ora todos aqueles que aa demanda do Santo Graal queiram ir. E bem sei que cedo será começada. – Senhor, disse elrei, vossa viinda nos é mui mester por muitas aventuras maravilhosas a que Título Fólio 196c nom podemos dar cima. E digovolo por u~a que nos hoje aveeo. Idea veer, se vos aprouver. E Galaaz disse que iria mui de graado. Entam o filhou elrei pola mão e levouo a rebeira do rio, u o padram estava. E os do paaço forom todos com eles, por veerem que poderia seer. E quando a rainha viu ca elrei levava Galaaz pola mão ao pedram, saiu ela com gram companha de donas e de donzelas; e elrei disse a Galaaz: – Queredes sacar esta espada deste padram? Ca a nom quer niu~u~ provar, de quantos aqui som, ca dizem que a ventura nom é sua. E a provade, se vos aprouver; ca, se o vós nom provades, nom acharemos cavaleiro que o prove. Entam filhou Galaaz a espada polo mogoram e tiroua tam ligeiramente como se nam tevesse em rem. E depois filhou a bainha e meteoa dentro e cingeoa logo, e disse a elrei: – Senhor, ora hei já a espada, mais o escudo nom hei. – Amigo, disse elrei, pois Deus e a ventura vos a espada deu, nom tardará muito o escudo. Título Fólio 206c Como a donzela disse as novas a elrei. Eles em esto falando virom vi~ir pola rebeira u~a donzela sobre u~u~ palafrém branco; e quando chegou a eles, preguntou se era i Lançarot. Ele estava ante ela. Disselhe: – Donzela, que voz praz? Disse ela: – Eu te trago as mais maravilhosas Título Fólio 206d novas que viste, peça há, e nom de teu prazer mas de teu pesar. E saibas que hás tu nome britado dês hoje a manhãã ca o que te ontem chamava ca eras o milhor cavaleiro do mundo diziate verdade, mas ora nom é assi. E esto podes tu bem veer, por prova desta espada ca tu vees, que milhor cavaleiro ca ti a ganhou. – Donzela, disse ele, vós nom dizedes rem que eu por verdade nom soubesse, peça há, ca já eu outra vez vi esta espada e nom ousei a provála. E entam tornou a donzela a elrei e disselhe assi: – Rei Artur, enviate dizer o irmitam que em este dia d’hoje te vinrá a maior maravilha e honra que te nunca veeo. E nom vinrá por te, mas por outrem. E tanto que esto disse volveu a rédea ao palafrém e tornouse. E muitos houvera i que quiserom mais saber dela, mas nom quis ficar por rogo de niu~u~ nem dizer mais da sua fazenda. Título Fólio 216d Como rei Artur fez armar o trebelho no campo de Camaalot. Entam disse elrei aos que estavam a cabo dele: – Amigos, assi é que a demanda do Santo Graal é sinal verdadeiro que vós iredes i cedo; e porque sei verdadeiramente que ja mais vos nom veerei assu~ados Título Fólio 217a em minha casa, assi como agora vejo, quero que em aquel [ca]mpo de Camaalot seja ora começado trebelho tal que depois da minha morte seja contado e onde hajam que retraer nossos herees. E eles se outorgarom i todos. E tornarom aa cidade e pediram suas armas e armaromse e tornarom ao campo. E elrei nom fezera esto senam por veer algu~a cousa da cavalaria de Galaaz, ca bem sabia que nom estaria muito em Camaalot. Título Fólio 227a Como Galaaz justava, e como elrei partio aquel trebelho. Aquele dia, rogou Lançarot seu filho Galaaz que trouxesse armas em aquele trebelho de sinaes de linhagem de rei Bam. E ele o fez mui de graado, ca nom há rem que ele receasse que lhe seu padre mandasse; mas nom quis trazer escudo. Pois que forom assunados no chão de Camaalot, começaromse a ferir das lanças, de guisa que muitos veríades i cair e muitos havia i que o faziam mui bem. E Galaaz, que entrou no campo, começou as lanças a britar e a derribar cavaleiros e a fazer tantas maravilhas que todos diziam que nunca virom tam bõõ cavaleiro de justa. Ca, sem falha, nunca el acalçava cavaleiro a dereito, já tam ardido nom seria, que o nom metesse em terra. E fez i tanto que todos aqueles Título Fólio 227b que o virom disserom que nunca tam altamente começara cavaleiro a dirribar cavaleiros. E bem parecia no que naquel dia fezera. Ca todos aqueles que eram companheiros da Távola Redonda nom ficarom sernam poucos que ele nom derribasse. Este trebelho desta justa durou atee hora de véspera. Entam mandou elrei que se partissem ca se temia de viir a acima algu~u~ eixeco. E disselhes que se fossem desarmar, e fez tolher o elmo a Galaaz e deuo a Boo[r]z de Gaunes que lho tevesse, ca aquele era o em que ele havia fiu´za mui grande, que sempre fora em sua honra e em sua ajuda. Título Fólio 237b Como elrei e os cavaleiros virom viir Tristam. Ainda o preito nom era acabado nem partido, quando virom viir u~u cavaleiro per fundo da ribeira, sobre u~u~ cavalo tam bõõ que poucos havia no campo de milhores. e vinha tam toste como se todolos diaboos do inferno viessem depós ele. E nom trazia de todas as armas fora a espada e o escudo. E elrei catou o escudo e mostrouo a Lançalot que cabo dele estava, e disselhe: – Ora som ledo e hei gram sabor ca vejo aqui viir Tristam, o sobrinho de rei Mars de Cornualha, ca bem conheço aquele escudo que nom vi depois que me fez muito pesar. E Lançarot começou a ferir o cavalo das esporas e foi contra ele, Título Fólio 237c e disselhe, de tam longe como o pôde entender que o poderia ouvir: – Dom Tristam, vós sejades o bem vindo. E Tristam, que o conheceo, salvouo e abraçouo. E depois preguntou: – Amigo Lançarot, é verdade que veeo Galaaz, o mui bõõ cavaleiro, aa corte, aquele que háde acabar a seeda perigosa e háde dar fim aas aventuras do Regno de Logres? – Certas, amigo, disse Lançarot, ele veeo aa corte e acabou a sceda perigosa e deu cima a aventura de u~a espada, u niu~u~ cavaleiro da Távola Redonda nom ousou meter mão. Mais como soubestes vós ca el dia d’hoje aqui havia de seer? – Esto vos direi eu, disse el, mais esto será outra vez, mas nom ora. Em todo esto, aquevos elrei saio contra ele, ca muito era ledo da sua vinda, e disselhe: – Dom Tristam, vós sejades o bem vindo. E Tristam salvouo mui ensinadamente. Elrei lhe disse: – Dom Tristam, eu som mui ledo da vossa viinda, ca nom falecia niu~u~ dos companheiros da Távola Redonda fora vós. Título Fólio 247c Como elrei falava com Tristam e da ledice dos cavaleiros. Quando os cavaleiros virom que aquele era Tristam com que elrei falava, foram pera alá Título Fólio 247d mui ledos e com mui gram prazer da sua viinda ca muito prezavam sua cavalaria e sua cortesia. E, tanto que virom o escudo, disserom outrossi: – Enganados fomos noutro dia, ca este era o cavaleiro que levava a dona, o que derrebou os cavaleiros daqui. Grande foi [a] alegria e o prazer que todos com Tristam houverom. E ele rogou a elrei que lhe mostrasse Galaaz, o mui bõõ cavaleiro. E elrei lhe disse que fora pera a cidade com peça do linhagem de rei Bam. – Ai, Senhor, disse Tristam, fazede que o veja, ca por al nom viim acá. – De grado, disse elrei. Entam se forom pera o paaço e decerom. E quando entrarom no paaço acharom Galaaz com seu linhagem que já se desarmarom. E elrei filhou Tristam e levouo a el e disselhe: – Amigo Tristam, vedes vós aqui o que demandades. – No nome de Deus, disse Tristam, bem seja el viindo, ca da sua viinda som eu mui ledo. Entam ficou os giolhos ante ele e disselhe: – Senhor, beento seja o dia em que vós nascestes, quando vos Deus deu tal graça. Galaaz nom lhe quis sofrer que estevesse assi a seus pees; e dês i erguêo, e be[ijo]uo em significança de companheiro e de ermindade. E bem ouvira já dizer que aquele era já o mais nomeado e o milhor cavaleiro da Távola Redonda, fora Lançarot soo. Título Fólio 257d Como os da Mesa Redonda houverom da graça do Santo Graal. Título Fólio 258a Grande foi a lidice e o prazer que os cavaleiros da Távola Redonda houverom aquele dia, quando se virom todos de consu~u~. E sabede que, depois que a Távola Redonda foi começada, que nunca todos assi forom assu~ados, mas aquele dia sem falha aveo que forom i todos mas depois nunca i er forom. Contra a noite, depois de vésperas, quando se assentarom aas mesas, ouvirom vi~ir u~u~ torvam tam grande e tam espantoso que lhes semelhou que todo o paaço caía. E logo depois que o torvam deu, entrou u~a tam grande claridade que fez o paaço dous tanto mais claro ca era ante. E quantos no paaço siam logo todos forom compridos da graça do espírito Santo. E começaroms’a catar u~u~s aos outros e viromse mui mais fremosos mui gram peça que soiam a seer; e maravilharomse ende muito desto que aveo e nom houve i tal que pudesse falar por u~a gram peça, ante siam calados e catavamse u~u~s aos outros. E eles assi seendo entrou no paaço o Santo Graal, cuberto de u~u~ [ei]xamente branco; mas nom houve i tal que visse que[m] no tragia. E tanto que entrou i foi o paaço todo comprido de bõõ odor, como se todalas espécias do mundo i fossem. E ele foi per Título Fólio 258b meo do paaço de u~a parte e da outra, e arredor das mesas. E per u passava, logo todalas mesas eram compridas de tal manjar qual em seu coraçom desejava cada u~u~. E depois houve cada u~u~ o que houve mester a seu prazer, saiuse o Santo Graal do paaço que niu~u~ nom soube que fora dele nem per qual porta saira. E os que ante nom podiam falar falarom entam. E derom graças a Nosso Senhor que lhes fazia tam grande honra e que os assi confortara e avondara da graça do Santo Vaso. Mas sobre todos aqueles que ledos eram mais o era rei Artur, porque maior mercee lhe mostrara Nosso Senhor que a niu~u~ rei que ante reinasse em Logres. Desto forom maravilhados quantos i eram, ca bem lhes semelhou que se lembrara Deus deles, e falarom i muito. E elrei disse aos que cabo dele siam: – Certas, amigos, muito devíamos a seer ledos que Deus nos mostrou tam gram signal de amor que em tam bõa festa como hoje, de Pinticoste, que nos deu a comer do seu santo celeiro. Título Fólio 268b Como Galvam começou a gram demanda do Santo Graal. Galvam, que servia ante elrei, disse: – Senhor, ainda i al há, que vós nom cuidades. Sabede que nom há cavaleiro no paaço que nom houvesse de comer quanto pensou cada Título Fólio 268c u~u~ em seu coraçom. E esto nunca houve em niu~a corte senam em casa delrei Peles. Mas de tanto fomos enganados que o nom vimos senam coberto. Porque, quanto em mim é, prometo ora a Deus e a toda cavalaria que, de manhãã, se me Deus quiser atender, entrarei na demanda do Santo Graal, assi que a manterrei u~u~ ano e u~u~ dia e, pela ventura, mais. E ainda mais digo: que ja mais nom tornarei aa corte, por cousa que avenha [ante que] milhor e mais a meu prazer veja o que ora vi. Mas se nam poder seer, tornareime entam. Título Fólio 278c Como os da Mesa Redonda começarom a demanda do Santo Graal. Quando os cavaleiros da Távola Redonda ouvirom que aquele era Galvam e virom o que disse [sofreramse] ataa que per comerom; mas, tanto que as mesas foram levantadas, foram todos ante elrei e fezerom aquela promessa que fezera Galvam e disserom que ja mais nom quedariam de andar ataa que vissem atal mesa e tam saborosos manjares e atam guisados como eram aqueles que eles aquel dia comerom, se era cousa que lhes outorgada fosse por afam e por trabalho que sofrer pudessem. Título Fólio 288c Como elrei disse a Galvam mal. E quando elrei viu que todos haviam Título Fólio 288d feita esta promessa houve gram pesar e grande amargura em seu coraçom, ca viu ca os nom podia tornar em niu~a guisa. E disse a Galvam: – Vós me havedes morto e escarnido, ca por esta promessa que fezestes me tolhestes o milhor companheiro mais leal que nunca foi no mundo – a companha da Távola Redonda. Ca, depois que se ora partirem daqui, eu sei bem que nom tornarom acá tam cedo ante morrerám gram peça deles em esta demanda, ca nom haverá tam cedo cima como cuidades. E por esto me pesa, ca sempre lhes fiz honra de todo meu poder e quislhes bem e quero como se fossem meus irmãos ou meus filhos. E por esto me e grave seu partimento, e, quando os eu soia a veer e haver sua companha e os nom vir, gram coita sofrerei e gram pesar. Depois que esto disse, elrei começou a pensar muito. E el pensando começaromselhe ir as lágrimas dos olhos polas faces, assi que todos o viiam. E, a cabo de u~a peça, disse assi que todos o ouviram: – Galvam, Galvam, vós me metestes tam gram pesar no coraçom que ja mais nom sairá ende ataa que a esta demanda veja cima, ca meterei gram pesar e pavor de perder i meus amigos. – Ai, Senhor! disse Lançarot, que dizedes? Tal homem como vós nom deveria haver pavor, mas esforço e bõa esperança. Certas, se Título Fólio 289a nós morressemos todos em esta demanda maior honra nos seria ca de morrermos alhur. – Ai, Lançarot! disse elrei, o mui grande amor que eu sempre houve a vós e a eles me faz esto dizer. E nom é gram maravilha se eu hei gram pesar ca nunca rei cristão houve tantos cavaleiros nem tantos home~e~s bõõs aa sua mesa como hoje eu hei, nem haverá ja mais. E por esto me temo que ja mais nom seram assu~ados aqui nem algur como ora som. Título Fólio 299a Como a donzela laida chegou a casa de rei Artur. A esto que elrei disse nom soube Galvam que respondesse, ca bem sabia que dizia verdade, e fezerase de [grado] afora, se podesse, mais nom podia polos outros que prometerom já assi como ele; e de mais que o sabia já a rainha e as donas e as donzelas todas que a demanda do Santo Graal era já começada, e os que se alá haviam de ir haviamse sair de manhãã. Entam começarom as donas seu doo tam grande a fazer que era maravilha e quiserom entrar no paaço como sandias. Mas elrei acordou a estas vozes e a esta volta que as donas faziam em casa da rai~a. Siia elrei com seus ricos home~e~s com gram pesar, pensando em aquesto, aquevos u~a donzela que entrou a pee Título Fólio 299b e tragia u~a espada, que havia a maçãã mui rica e mui fremosa e a bainha mui bem lavrada. E ela conhoceu elrei e foi a elrei e disselhe: – Rei, nom penses, ca teu pensar nom val nada; mais recebe esto que te trago e faze ende o que eu te mandar. Eu te digo que verás ainda tal cousa viir que a terrás por maravilha. Título Fólio 309b Como a donzela fez tirar a espada. Entom ergueu elrei a cabeça e disselhe: – Que dizedes, Senhora? – Digovos que tomedes esta espada e a façades tirar da bainha a cada u~u~ de vossos cavaleiros da Mesa Redonda, e veredes que grande maravilha vos ende averrá; e depois conselharvosel o que i havedes a fazer. Ele filhou entam a espada e sacoua da bainha, e achoua entam mui fremosa. E a donzela lhe disse: – Ora a podedes dar a outrem, ca nom sodes vós o que eu demando. – Ora me dizede vós, donzela, disse elrei, que maravilha pode ende avi~ir, e creervosemos ende mais, quando a virmos. – Eu volo direi, disse ela, pois sabor havedes de o saber. Sabede que esta espada, que ora veedes tam fremosa e tam limpa, será toda tinta de sangue caente e vermelho tanto que a tever na mão aquel que fará a maravilha de matar cavaleiros ca Título Fólio 309c ele fez em esta demanda mais que outrem. Esta espada trouve eu aqui polo conhocerdes e polo fazerdes aqui ficar, ca, sem falha, se ele i vai, tanto de mal e de pesar aver[r]á ende e tanta mortura de home~e~s bõõs que vós vos chamaredes, a[a] sua tornada, rei pobre, eixerdado de bõõs filhos d’algo. – Par Deus! donzela, disse elrei, mais me val de perder el ca me vi~ir tanto mal per ele. E milhor é de ficar cada u~u~. – Pois, disse ela, provade qual é, ca o podedes entender e conhocer per esto que vos eu digo. Entam deu elrei a espada a Galaaz e sacoua da bainha e nom se modou de qual era. El-rei disse: – Vós sodes quite. E Galaaz deua a seu padre; e tiroua e nom pareceu rem. E depois a Boorz de Gaunes e a Estor e a Persival de Galas e a Erec, filho delrei Lao e a Ga[eri]et; mas rem nom se mostrou em niu~u~ destes. E entam a filhou Galvam e, tanto que a sacou da bainha, tornou toda cuberta de sangue, toda, de u~a parte e da outra, tam queent[e] e tam vermelho como se a sacassem do corpo de homem ou de chaga. Título Fólio 319c Como elrei defendeu a Galvam que nom fosse. Quando os do paaço virom Título Fólio 319d , esto, disserom: – Esta é das grandes maravilhas que vimos peça há. E disse elrei a Galvam: – Rogovos que nom vaades em esta demanda, ca mui gram mal pode ende sair. Donzela, cuidades que é este o homem que vós buscades? – Nom no cuido, disse ela, mas sei veradeiramente que se i vai que fará tam gram dano nos cavaleiros que aqui som que todo seu linhagem nom nos poderácobrar. E elrei bem no creeu que dizia verdade e disse a Galvam: – Sobrinho, eu vos rogo que fiquedes aqui e nom vaades a esta demanda. E el houve gram pesar sobejo daquela aventura antre tanto homem bõõ [e] respondeu: – Senhor, nom devedes de creer quanto vos disserem. Sabede que todo é encantamento e chufa, a maior que vistes peça há. Nom vos nembra quando vistes a rainha Morgaim e toda sua companha tornada em pedra? E por em nom devedes creer esto. Entam disse a donzela: – Esto nom é encantamento, assi me Deus ajude, ante direita verdade. E, par Deus, se ides, tam gram dano se faráque vós nom no poderedes cobrar, nem rei Artur que aqui see. A esto respondeo Título Fólio 3110a elrei: – Donzela, eu vi tal sinal da sua ida ca, assi me Deus ajude, eu sei verdadeiramente que averá ende mal. E por esto lho defendo, como senhor faz a cavaleiro, que nom vaa i, mais a toda guisa que fique. – Como? Senhor, disse Galvam, chus creedes vós a esta donzela ca a mim? – Eu creeo, disse elrei, o que vejo. E por em vos defendo de todo em todo que nom vaades esta carreira. – Senhor, disse el, semelhame que nom catades i minha honra mas meu mal e minha vergonça, ca, se eu i nom vou, som perjurado e desleal; dês i, nom me devia a teer niu~u~ por cavaleiro. – Nom sei, disse, elrei, que vós i façades; mas se i fordes pesarmeá muito sobejo. Título Fólio 3210a Como a rainha houve pesar por Lancelot. – Galvam, que desto houve gram pesar, partiuse d’ante elrei e foise pera sua pousada. E a rainha disse ao donzel que lhe dissera as novas da demanda: – Ora me di, fust[e] tu u prometerom os cavaleiros de buscar o Santo Graal? – Si, Senhor, disse el. – Galvam e Lançarot ham de ir? – Senhor, disse el, dom Galvam o jurou primeiro; e dês i Lançarot, e dês i todolos outros da Mesa Título Fólio 3210b Redonda. – Assi? disse ela; em mal ponto foi começado este preito, ca muitos home~e~s bõõs morrerám i e haverá ende gram dano no Reino de Logres. Entam houve tam gram pesar de Lançarot que as lágrimas lhe veerom aos olhos e disse outra vez: – Certas, este é gram dano sobejo, ca sem morte de muitos home~e~s bõõs nom será esta demanda acabada. E maravilhome delrei como o pode sofrer, ca os milhores cavaleiros do mundo se partiróm dele e a sua terra valerá ende mui mais pouco. Entam começou a chorar mui fermosamente e as donas e as donzelas outrossi. E a donzela, que estava ainda no paaço, quando lhe dera já dom Galvam a espada e que viu que se partira já dali com sanha, disse a elrei que lhe dizia da ida de dom Galvam: – Sabede que muito mal ende vinrá e averá. E ele disse: – Sabede que nom irá i cavaleiro que me muito nom pese; mas muito mais daqueste me pesará ca bem sei que muito mal averá ende. – Pois, disse ela, Senhor, rogovos que o façaes ficar. – Eu vos digo, disse el, que nom será tam ousado que o prove ca bem lho defendi eu e vós o ouvistes. – Multas mercees, disse ela. Entam se foi com sua espada. Título Fólio 3310c Como os da corte souberom que Galaaz era filho de Lancelot. Como leeram as letras. Aquele serão souberom os mais da casa delrei Artur que era Galaaz filho de Lançarot, ca nom podia seer que fazenda de tam grande homem como Galaaz podesse ser encuberta tam longamente. Muito falarom elrei e a rainha aquela noite com Galaaz e os altos home~e~s que i eram e seu linhagem que o amavam muito. Quando a noite chegou, nom esqueceu a elrei a maravilha do cavaleiro que ardeu manhãã e preguntou quem havia as leteras que tiinha na mão quando ardera. Entam disse u~u~ cavaleiro de Norgales: – Senhor, vedes as leteras que tiinha na mão. E ele filhou as leteras na mão e leoas, e achou que diziam assi: “Al! Arcebispo de Conturbe[l], homem santo e de bõa vida e sisudo, conselhame em minha maa ventura e em meu pecado assi como to contarei. Sabe verdadeiramente que eu descobro a Deus e a ti que som pecador mais dos pecadores, que eu jouve com minha mãi e com minha irmãã e depois mateias ambas em u~a hora porque nom queriam comprir minha vontade. E depois eu estando catandoas u as matara, sobreveeo meu padre, o Título Fólio 3310d rei da Insoa do Porto. Depois que viu aquela morte meteu mão aa sua espada e eu meti aa minha e mateio. E eu estando catandoo sobreveo i meu irmão, o conde de Geer, e trousseme mal e mateio. Todo este mal que te eu digo, eu hei feito em u~u~ soo dia. Ora me conselha, padre santo, ca já tam grande pendença nom me darás que a eu nom tenha.” Todo esto dizia nas leteras que o cavaleiro tiinha quando morreo. Depois que elrei leeu as leteras, assim que as ouvia Galaaz e os outros home~e~s que com el eram, disse: – Ora podemos saber por que este cavaleiro morreo tam cruelmente. Sabede que esto foi vingança de Jhesu Cristo. E os outros disserom que bem semelhava verdade, segundo como as leteras diziam. Entam fez elrei poer em u~a abadia as leteras, que era de Santo Estiano que era see de Camaalot, e fez fazer mui rico moimento ao cavaleiro e escrever em cima: “Aqui jaz o cavaleiro que em u~u~ dia matou seu padre e sua madre e seu irmão e sua irmãã.” Este escrito foi feito depois que os cavaleiros foram aa demanda do Santo Graal. Título Fólio 3410d Como o homem velho disse que nem u~u~ nom levasse consigo amiga na demanda. Depós esto, enviou elrei pola rainha e polas donzelas e donas que veessem a ele. E depois que foram no paaço cada u~u~ dos cavaleiros foi seer com sua mulher ou com sua entendedor ou com sua amiga. E taes houve i que puserom com Título Fólio 3411a suas amigas de as levarem. E assi fora se nam fosse [u~u~] homem velho que i chegou vestido de u~u~s panos de ordem que disse tam alto que todos ouvirom: – Cavaleiros da Távola Redonda, ouvide! Vós havedes jurada a demanda do Santo Graal. E Naciam o ermitam vos envia dizer per mim que niu~u~ cavaleiro desta demanda nom leve consigo dona nem donzela, senam fará pecado mortal. E nom seja tal que i entre se nam for bem menfestado, ca em tam alto serviço de Deus como este nom deve entrar se nam for bem menfestado e bem comungado e limpo e purgado de todolos cajões e de pecado mortal. Ca esta demanda nom é de taes obras, ante é demanda das puridades e das cousas ascondidas de Nosso Senhor que fará veer conhocidamente ao bem aventurado cavaleiro que el escolheu por seu sargente antre todolos cavaleiros terreaes, ao qual mostrará as grandes maravilhas do Santo Graal e lhe fará veer o que coraçom mortal nom poderia pensar nem língua d’homem nom poderia dizer. Título Fólio 3511a Como a rainha preguntava Galaaz. Por esta palavara ficou que niu~u~ cavaleiro nom levou consigo sua amiga. Elrei mandou mui bem pensar do homem bõõ e preguntouo por sua fazenda, mas el disse a elrei mui pouco, ca alhur Título Fólio 3511b tiinha o coraçom. E a rainha veeo a Galaaz e assentouse a par dele e disselhe: – Amigo, onde sodes, ou de qual linhagem? E ele lhe disse u~a peça, mas pero nom lhe disse ca era filho de Lançarot e que Lançarot o fezera na filha delrei Peles, ca muitas vezes ouvira já ende ela falar. E pero, porque ela queria saber a verdade del, preguntouo outra vez e disselhe: – Dizedeme, quem é vosso padre? – Senhora, disse el, nom no sei mui bem. – Ai, senhor! disse ela, vós mo encubrides. Porque o fazedes? Se me Deus ajude, em vós emmentardes vosso padre nom havedes i vergonha niu~a, ca el é o mais fremoso cavaleiro do mundo e de todas as partes veem dos reis e de rainhas e do mais alto linhagem do mundo e que houve preço do milhor cavaleiro do mundo. Por que, per direito, nom divíades de passar per todolos cavaleiros do mundo. Título Fólio 3611b Como a rainha disse a Galaaz que era filho de Lancelot. E quando el esto ouviu houve gram vergonha e respondeu: – Senhora, pois que vós tam bem conhocedes, tam bem o poderedes vós a mim dizer como eu a vós. E se aqueste é que eu cuido nom volo negarei; mais se por este nom dizedes vós, eu nom me outorgarei em outro. – Pois que Título Fólio 3611c mo vós nom queredes dizer, disse ela, eu volo direi. Vosso padre é dom Lançarot do Lago, o milhor cavaleiro d’armas e o mais fremoso e o de milhor doairo e o mais desejado e o mais amado de todos aqueles que nacerom em nosso tempo. Todas estas bondades é vosso padre. E por em me semelha que o nom devedes vós a negar a mim nem a outrem, ca de milhor padre nem de milhor cavaleiro nom podíades vós seer filho. – Senhor, disse el, pois que o vós assi sabedes, porque volo diria eu? Ca bem no saberám jásempre. Título Fólio 3711c Como rei Artur pessava nos cavaleiros que iam aa demanda. Aquela noite fez elrei Galaaz jazer em u~a câmara u ele soia a jazer em u~u~ leito seu, ca muito havia sabor de lhe fazer honra. E todolos do linhagem de rei Bam jouverom em casa delrei, por amor de Galaaz. E muito lhe era cousa cara se haviam de partir tam toste, ca todo aquel linhagem se amavam muito, ca mais queriam viver de consu~u~ ca se partirem. E sem falha [em cas d'] elrei, entam havia daquele linhagem #XIX cavaleiros que todos eram mui bõõs. E todos foram tam avizibõõs que nom houve i tal que nom fosse companheiro da Távola Redonda. E por esto era Título Fólio 3711d aquel linhagem atam honrado e tam nomeado que nunca falavam d’outro linhagem no Regno de Logres fora daquele. Aquela noite, quando rei Artur viu que o linhagem de rei Bam – que a aquel tempo era frol e louvor dos cavaleiros do mundo – ficarom em sua casa por amor de Galaaz, começouos a catar e a pensar que estes eram os home~e~s do mundo que lhe mais vezes milhores foram e que o milhor vingarom de seus imigos. E quando er pensava que seria[m] manhãã a atal lugar onde nom cuidaria que ja mais tornassem, houve tam gram pesar que se nam pôde conselhar, ca este era o linhagem do mundo que mais amava, afora o seu. E foise entam deitar soo em u~a câmara e começou a fazer o maior doo do mundo e mal dizer muito Galvam seu sobrinho. E disse que maldita fosse a hora que o vira primeiro, ca ele lhe tolheria [mui] toste todolos bõõs cavaleiros e todolos bõõs home~e~s per que era mais temudo que todolos do mundo. Título Fólio 3811d Como elrei fez seu doo por seus cavaleiros, e como lhe pesava de sa ida. Assi se aqueixava e fez seu doo elrei por seus cavaleiros que se dele partiam, e, tanto que foi manhãã, levantouse o mais cedo que pôde, ca muito era em gram cuidado do que havia de fazer, mais nom Título Fólio 3812a se levou tam cedo que jánom achou mais de #LX cavaleiros dos que haviam de ir aa demanda, que vestiam já as lorigas e que cingiam as espadas. E elrei, que havia gram pesar ende que nom há homem no mundo que o esmar podesse, quando os viu assi estar houve tam gram coita que nom houve poder de os salvar e houvelhe de falecer o coraçom com gram pesar. E viu Gaariet e disselhe assi: – Gaariet, morto me há vosso irmão que me tolheu tantos home~e~s bõõs como havia em minha casa. E ao meos se me ficasse o linhagem de rei Bam nom haveria tam gram pesar. Quando Gaariet esto ouvio calouse, ca bem entendia que dizia elrei verdade. Aquel dia ajudou elrei [a] armar Galaaz, e depois que foi armado, fora do elmo e do escudo, foi ouvir missa na capela delrei, ele e seu linhagem. E depois tornaromse ao paaço e acharom já i os outros que haviam de ir aa demanda, que nom [a]tendiam al seriam eles, e assentaromse u~u~s cabo dos outros. Entam se ergueu elrei Bandemaguz e falou tam alto que todos ouvirom: – Senhor, disse, elrei Artur, pois que este preito assi é começado que nom pode já seer leixado e os que i ham de ir nom atendem se vós nom, eu louvaria Título Fólio 3812b que os santos evangelhos veessem aqui e os cavaleiros fezessem tal juramento como devem a fazer os que vãão a tam alta demanda. – Bem é, disse elrei, pois al já nom pode seer. Entam enviarom polos clérigos e trouxerom o livro sobre que faziam o juramento da corte e depois o poserom em [a] alta seeda delrei. E elrei chamou Galaaz porque o tiinha por milhor cavaleiro de quantos i havia e disselhe: – Galaaz, vós sodes como meestre dos cavaleiros da Mesa Redonda e milhor. Viinde adiante e fazede o juramento desta demanda. E el disse que o faria mui de grado. Entam foi ficar os geolhos ante o livro e jurou que se Deus o guardasse de mal e o guiasse, que manteria esta demanda u~u~ ano e u~u~ dia e mais se mester fosse e que ja mais nom tornaria aa corte ataa que soubesse em algu~a guisa. Depois jurou Lançarot e Tristam. Outrossi sabede que de todolos #CL cavaleiros da Mesa Redonda nom ficou niu~u~ que este juramento nom fezesse, afora Galvam solamente. Aquele, sem falha, nom era i ca já se fora pola manhãã bem armado, por atender os outros na foresta de Camalot. Ca bem sabia, se com os outros quisesse sair, que o nom leixaria elrei, far[i]ao ficar. Título Fólio 3912b O conto dos #C e #L cavaleiros da Tavola Redonda. Os nomes deles. Título Fólio 3912c Por esto se partiu Galvam pola manhãã da corte. E elrei, polo gram pesar que havia quando recebia o juramento, nunca lhe nembrou de Galvam, quantos eram os outros. Mas porque a estoria nom nomeou os nomes daqueles que foram na demanda do Santo Graal, convém que divise eu aqui os nomes dos que foram companheiros da Mesa e fezerom juramento. Dos #CL cavaleiros que fezerom juramento desta demanda foi o primeiro Galaaz; dês Tristam e Lançarot e Boorz de Gaunes e Blioberis e Lionel e Estor d[e] Mares; Brandinor, seu irmão e Elaim o Branco; Banim, o afilhado de rei Bam; Abam, boo cavaleiro a maravilha; Tadram; Lanor; Tauri Pincados; Lelas o Ninho; Crinides o Negro; Ocarsus o Negro; Acantam o Ligeiro; Danubre o Curioso. Todos estes cavaleiros, sem Tristam, eram do linhagem de rei Bam e vierom aa corte de rei Artur por amor de Lançarot. E aveolhes assi, per bõa cavalaria e per sua bõa vida, que foram companheiros da Tavola Redonda e eram preçados dos cavaleiros sobre todolos cavaleiros da casa de rei Artur. E pola bondade destes que eram andantes era o linhagem de rei Bam nomeado assi como vos eu digo. Os outros — do linhagem de rei Ba[m] nom eram fora estes: Galvam e Gaariet; Agravaim; G[u]eres; Morderehet estes Título Fólio 3912d eram irmãos. Os outros eram estes: Agroval e Persival; Corsidares; Maidaires, seu primo coirmão; e Persives de Langaulos. Os outros eram filhos de Lot. E vieram seu irmão de Ganaor, mui bõõ cavaleiro de armas, mas era tam sobrevoso que maravilha era. Os outros: Q[u]eia, o Mordomo; e Sagramor, o Decimador; E Gliflet, o filho de Lucam, o Copeiro. E Dondinas o Salvagem; Olongraves; Ivam, filho de rei Uiriom; Ivam das Mãos Brancas; Ivam de Canelones d'Aleimanha; Gurei o Pequeno; Gures o Negro; o Laido Ardido; Garnaldo, seu irmão. Mador da Porta. O gram Cavaleiro; Craidandos; Isaias; rei Benemaguz; Patrides, seu sobrinho; Madam, seu coirmão; o Donzel da Saia Mal Talhada de que o conto do Brado fala muito; Dinadeira, seu irmão, bõõ cavaleiro aa maravilha e que foi muito no regno de Logres; Tar da Montanha; Clamade que pouco havia que ganhara a seeda da Tavola Redonda; Galaaz o Grande, da Dese[r]ta; Senala, seu irmão; Caradam; Damas; Damatab que eram seus primos coirmãos. Sabede que todos estes aqui eram tam bõõs cavaleiros que nom podia homem achar milhores no regno de Logres, fora se fossem do linhagem de rei Bam. Estes #V queriam mal a este linhagem com enveja porque nom faziam Título Fólio 3913a a eles tanta honra como aos outros. E outro, Lambeguem, que foi Aio de Booz e de Lionel. Sinados, Arcel, Bagarim, Sanasesio, Arnal o Fremoso e o Cavaleiro do Chão. Angelis d[a]s Naaos, Baradam o Manso que era seu irmão, Manrat o da Torre, Hicorant o Bem Feito e o preçado d’espada, Alaim dos Prados, Marchel do Grande escudo, Melez o Longo; Dinas seu irmão, Codias das Longas Mãos, Pinabel da Insoa, Daniel o Cuidador; e Gaudaz o Negro e Gaudim da Montanha, que eram ambos irmãos. Acaz, Calendim o Pequeno, Utrinal, Raface, Conais o Branco, Agrigam o Sanhudo, Guigaar o filho de Galvam de que o conto do Brado fala. E Anarom o Grosso, Amatim o bõõ justador, Canedam o Delgado, Canedor o da fremosa amiga, Arpiam da Estrai~a Montanha, Saret, Dinados, Peliaz o Forte — aquel sem falha era natural de Logres —, Alamam, Tanadal, Lucas de Camalot, Brodam, Endalam, Meliam, Julliam, Ganadam, Cardoilon de Londres, bõõ cavaleiro ardido feramente; Delimaz o Pobre, Asalm o Pobre, Caligante o Pobre — estes três eram irmãos. E Cubes e Ladinam, Título Fólio 3913b seu irmão. Todos estes de que vos eu ante disse os nomes eram da Mesa Redonda, e nom houve i tal que nom fosse cavaleiro escolheito e provado de muito bõa cavalaria. Rei Artur, sem falha, era ende com eles, e com ele, sem falha, som #CL. Título Fólio 4013b Como a Rainha pesava por Lancelot, que se ia aa demanda. Pois que houverom feito o sacramento e comerom u~u~ pouco, por elrei que os rogou, er poserom seus elmos em suas cabeças, encomendarom muito a rainha a Deus [e] espidiromse com lágrimas e com choro. E ela começou u~u~ tam gram doo como se visse todo o mundo morto ante si, E, pola nom entenderem, tornouse aa sua câmara e leixouse cair em seu leito e começou a fazer tam gram doo que nom há homem que a visse que se nam maravilhasse. Quando Lançarot foi já todo guisado e que havia pesar da sua senhora que maior nom podia, foi aa câmara u a viu entrar. E tanto que o ela viu, disse: – Ai, Lançarot! Morta me havedes que leixades a casa delrei por irdes aas terras estranhas, que jámais nom tornaredes se nam por maravilha. – Ai, Senhora, disse el, tornarei, se Deus quiser, mui mais cedo cá vós cuidades. – Ai! diz ela, meu coraçom me diz que me mate com tal pavor e com tal coita como nunca foi Título Fólio 4013c dona de tal guisa por cavaleiro. – Senhora, disse el, eu me irei com vossa graça quando vos aprouver. – A meu prazer, disse ela, nunca pode seer. Depois que viu que nom havia [a]l de fazer, disse: – Vades a graça de Deus Nosso Senhor, que vos guie e que vos torne acá com sau´de e vos dê honra em esta demanda. – Senhora, disse el, assi o guise Deus, se lhe aprouver. Título Fólio 4113c Como elrei foi ataa fora com os cavaleiros. Entam se partio Lançarot da rainha e foise ao paaço delrel e achou que já cavalgavam todos se nam ele porque atendiam a el. E ele foi a seu cavalo e cavalgou. E elrei, que viu Galaaz sem escudo, disselhe: – Amigo, nom me semelha que bem fazedes que nom levades escudo assi como estes outros. – Senhor, meu mal faria se o daqui levasse. E sabede que nom tragerei escudo atee que a ventura mo nom dê. Agora seja no nome de Deus. Título Fólio 4213c Como os cavaleiros iam ledos aa demanda do Santo Graal. Entam se partirom do paaço e foramse pola vila, mas nunca vistes tam gram doo como faziam os cavaleiros de Camaalot e a outra gente que ficava. Mas os que se haviam de ir nom faziam sembrante que davam por em rem, ante vos semelharia, se os vissedes, que iam mui ledos e mui alegres. Sem falha assi era. Título Fólio 4313d Como a donzela laida disse a Galvam que se tornasse, ca muito mal faria em aquela demanda. Quando eles chegarom aa entrada da foresta de contra o castelo do Granco esteverom todos a u~a cruz. Entam disse Lançarot a elrei: – Senhor, tornadevos. Assaz viestes com nosco. – Se me Deus ajude, disse elrei, o tornar me será grave, ca sobejamente me parto de vós da envidos. Mas porque vejo ca me convenrá a fazer tornarm’ei. Entam tolheo Lançarot o elmo e os outros outrossi e abraçouos elrei e beijouos mui de coraçom chorando. E os outros home~e~s qui i estavam outrossi. Depois que houverom seus elmos alçados, encornendaromse a Deus u~u~s aos outros e choravam mui de coraçom. Entam se partio elrei deles e tornouse a Camaalot. E eles entrarom na furesta, e entam cavalgarom tanto que chegarom ao castelo de Negam, u foram mui bem servidos de quanto mester haviam. E em aquel Negam era u~u~ cavaleiro bõõ e de bõa vida e, quando vio os cavaleiros da Távola Redonda que soube qui iam demandar a aventura do Santo Graal, recebeoos mui bem e tevese por bem andante de que lhe Deus adussera tantos home~e~s bõõs, pois os podera albergar. Aquela noite albergarom com Negam e foram tam bem servidos de quanto eles mester houverom que eles foram Título Fólio 4314a maravilhados onde houvera tam asinha aguisado de a tam gram companha fazer tanto algo. Ao serão, quando siiam comendo, aquevos vem a donzela laida, que vos disse que doestara Erec e que ferira Lançarot com o freo. E viu Galvam estar e foise parar ante ele e disselhe assi per sanha: – Galvam, Galvam, cavaleiro desleal, como és tam ousado que a esta demanda queres ir quando sabes que tanto mal end[e] averá! E rogamte estes cavaleiros da Távola Redonda, se te quiseres nembrar da morte de [Lamorat] e de seu irmão Briam de Monjaspe, e da deslealdade que i fezeste, tu te devias ora mais guardar ca outro cavaleiro de fazer cousa desleal ca assaz ende hás feito aaquele tempo. Tu queres ir a esta demanda, assi como os outros; mas cata o que ende haverás. Sabe que dom Galaaz que aqui see – este é ora o milhor cavaleiro do mundo – nom fará tanto bem a esta demanda como tu farás de mal, ca tu per tua mão, que em mau ponto filhaste a espada, matarás em #XVIIII destes teus companheiros, ataes que valem mais ca tu de cavalaria. E esto verás per ti em esta demanda. Ora cata como eles devem a [changer] e a maldizer a tua viinda. Título Fólio 4414a Como Galvam se salvou e como a donzela disse que alguns a creriam, que a nom criiam. Galvam houve mui gram Título Fólio 4414b vergonha do que lhe disse a donzela e respondeo: – Donzela, se eu cuidasse que tanto mal per mim averia em esta demanda, eu me tornaria; mas porque sei verdadeiramente que o que homem diz nom vem todo por em, por esso nom creo o que me dizees. – Nom? disse ela. – Senhora, nom. – Nom crees? Creerm’ás pois todo em verás que assi como to eu digo que assi te veerá. E eu nom hei coita deste preito partir por ti, mas polo sisudo do Regno de Logres que tu matarás. Entam tornou a rei Bandemaguz e disselhe: Rei Bandemaguz, eu hei mui gram pesar porque vaas a esta demanda, ca tu i morrerás. E seria gram dano por duas cousas: u~a , porque és mui bõõ cavaleiro; e a outra, porque es o mais sesudo do Regno de Logres. E saibe que u~u~ soo cavaleiro te matará ti e teu sobrinho Patrides e Erec e Ivam e tantos destes outros que em mao ponto naceo este pecador que tanto mal fará que mais valera que ainda houvesse por nacer, ca per suas armas seeram depois da sua morte mais de #C anos muitos regnos orfãos de bõõs cavaleiros e senhores. Entam tornou a Galvam e disse: – Galvam, cree que tu e Morderet, teu irmão, nom nascestes senam por fazerdes maas aventuras e doorosas. Se os que aqui seem o soubessem como o eu sei sacarvosiam os corações, ca ainda os vós faredes morrer a door e a marteiro. E estes que me ora nom creem o que lhes eu digo ainda o creerám tal hora que nom poderám i poer conselho. Título Fólio 4514c Como o cavaleiro disse a Galaaz que ou o matasse ou o mataria el. Tanto que a donzela esto disse, partiuse deles e foise quanto se pôde ir. E eles ficarom tam espantados que nom sabiam que devessem creer. E leixarom i falar por amor delrei Artur e Galvam que amavam. E eles seendo assi, aque u~u~ cavaleiro que entrou desarmado fora da espada e era mui grande e mui forte. E tanto que viu Galaaz, ficou os geolhos e disselhe: – Galaaz, bemaventurado cavaleiro e escolheito sobre todos aqueles que trouxerom armas na Gram [Bretanha], eu te togo pola gram fe que tu deves a toda cavalaria que me dês u~u~ doom que te homem nom pedio depois que recebeste ordem de cavalaria. E, se o nom fezeres, estranhamente errarás. Galaaz catou o cavaleiro que de tam gram coraçom lhe pedia, e nom sabia que responder porque cuidou que era gram cousa, e disselhe: – Erguedevos, cavaleiro: eu vos dou o que me pedistes, se cousa é que possa dar ou deva. – Muitas mercees, disse o cavaleiro. Pois ora vos peço que me talhedes a cabeça com esta espada que trago, que nom desejarei tanto cousa como de morrer per mão de tam bõõ cavaleiro como vós sodes, ca bem sei que tam bõõ cavaleiro como vós nom me poderá matar. Entam tirou a espada da bainha e posea na mesa e disse: – Galaaz, Título Fólio 4514d filhade esta espada e fazede o que vos eu rogo. E el catouo e começouse a sinar polo que lhe dizia, ca o teve por maravilha. E respondeo: – Ai, Senhor cavaleiro! Al me pedide, ca vós nem outro cavaleiro nom matarei se nam em defendendo meu corpo ou meu Senhor. – Certas, disse o cavaleiro, esto nom faredes em começo da vossa cavalaria que me nom tenhades o que me pormetestes, ca por tanto seriades o pior cavaleiro do mundo e o mais mentirees se assi começássedes. – Nom vos é prol, disse Galaaz, de me tal rogo rogardes, ca nom há rem no mundo por que vos matasse assi. – Nom? disse el, nom me terredes minha promessa? – Outra promessa vos terria, disse Galaaz, mas esta nom faria eu a poder que podesse. Entam se ergueu o cavaleiro e filhou a espada na mão e disse: – Ora vos departerei outro rogo: ou vós me matade ou eu matarei vós. Ora escolhede qual quiserdes. E Galaaz começou a sorrir e sinouse, tanto tiinha esto por gram maravilha. – Veede pois, disse el, per bõa fé, cavaleiro, vós sodes o mais sandeu e o mais neicio de que nunca ouvi falar, que queredes que per força vos homem mate. – Se me nom matardes, disse o cavaleiro, de manhãã me matará outro, que niu~u~, fora Deus, nom me pode guardar, ca Título Fólio 4515a aquel é o homem do mundo a que pior quero e que menos preço. E por em queria que me matássedes vós, que me nom achassem de manhãã vivo. – Como quer que avenha, disse Galaaz, em niu~a guisa nom vos matarei. – Nom? disse el. Pois querovos eu matar. Entam ergueu a espada e fez enfiinta que o queria matar. Mas Galaaz, que nunca houvera medo, nom se moveo, ca nunca el dultara cousa que fosse. E quando o cavaleiro vio que o nom podia espantar, disse: – Galaaz, ora veio eu bem que tu acabarás as aventuras do Regno de Logres, ca te vejo esforçado que nunca cuidei a veer homem tanto. E por esso te provei eu: porque és mais ardido que outro te leixei de matar ca muito seria gram dano se atal sazom morresses. E pero, pois que eu de manhãã heide morrer nom per ti, quero coitar minha morte. Entam meteo a espada per si e com coita de morte caeu. Disse a Galaaz: – Senhor, roga a Deus por mim. Logo que esto disse, foi morto. E quantos na casa siiam foram maravilhados. Entam vierom os cavaleiros e escudeiros e sacaromno do paaço u comiam. Os cavaleiros disserom ao senhor do castelo que o fezesse soterrar e que preguntasse por seu nome e por sua fazenda e que a fezesse escrever sobre o seu muimento, que os que depois viessem que soubessem aquela maravilha. Aquela hora Título Fólio 4515b filharom conselho de se partirem de manhãã e que se fosse cada u~u~ per sua carreira, ca por mal e por covardice lho terriam se andassem de consu~u~. Título Fólio 4615b Como se partirom os cavaleiros. E outro dia pola manhãã ouvirom missa e, dês i, cavalgarom e encomendarom a Deus seu hóspede e guardeceromlhe muito o algo que lhes fezera. Depois sairomse do castelo e, tanto que chegarom a[a] furesta, partiose cada u~u~ per u achou a carreira ou semedeiro e muito chorarom ao partir. Título Fólio 4715b Mais leixa o conto a falar dos cavaleiros e torna a Galaaz. Ora diz o conto que quando se Galaaz partiu da sua companha andou três dias sem aventura achar que de contar seja. E nom trazia escudo. E sabede que sempre o ermitam iia após ele a pee, que nom queria sobir em besta. A[o] quarto dia aveolhe que chegou a hora de véspera e u~a abadia de monges brancos; e os frades colheromno mui bem ca o conhocerom por cavaleiro andante e fezeromno dicer e levaramno a u~a câmara e desarmaromno. E el catou e vio dous cavaleiros da Mesa Título Fólio 4715c Redonda: u~u~ era rei Bandemaguz e o outro era Joham o Bastardo. E tanto que se conhocerom foram mui ledos e abraçaromse; e bem no deviam a fazer que eram tanto como irmãos espões a Mesa Redonda. Aquel serão, depois que comerom, sairom por u~a horta por folgarem e Galaaz preguntou que ventura os adussera ali. E rei Bandemaguz disse: – Nós veemos aqui por veer u~a aventura maravilhosa que aqui há. – E que ventura é? disse Galaaz. – Eu volo direi, disse rei Bandemaguz; aqui há u~u~ escudo que nom pode homem levar u~a jornada daqui, se o deitar a seu colo, que nom seja morto ou mal chagado. E dom Ivam veo aqui polo veer e eu queroo provar e queroo levar como quer que seja. – Par Deus, disse Galaaz, de gram maravilha falades. Esta é u~a das grandes maravilhas que vi e tenho por bem que o provaredes. E, se o vós nom poderdes levar, eu o levarei se poder, ca eu nom hei escudo. – Senhor, disse Bandemaguz, se vós a aventura provardes primeiro, creo que [a] acabaredes; mais leixademe filhar o escudo e veeremos se é verdade o que dizem. Título Fólio 4815c Como os frades contarom [a] aventura do escudo a Galaaz e os outros. Aquela noite foram os cavaleiros mui Título Fólio 4815d bem albergados de quanto os frades poderom haver. E fezerom muita honra a Galaaz polo bem que ouvirom dele dizer aaqueles dous cavaleiros. Manhãã, depois que ouvirom missa, preguntou rei Bandemaguz a u~u~ frade que lhe dissesse u era o escudo onde tanto falavam pola terra. E o frade disse: – Porque o preguntades vós? – Queroo provar, se o puder levar, e veerei se hátal virtude qual dizem. Esto nom vos louvarei eu, disse o frade, ca eu cuido que ganharedes i desonra. – Nom vos [em cal], disse el, mais, se vos prouver, mostrademo. – De grado, disse el. E levouos entam pera o altar e mostroulhes entam o escudo que estava de trás o altar, e o escudo era branco e tiinha u~a cruz vermelha. E o frade lhes disse: – Vede lo escudo aqui que demandades. E eles o catarom e semelhoulhes que era o mais fremoso e o mais rico que nunca virom. E dava i tam bõõ odoor, como se todalas espécias do mundo i fossem. Quando lvam o Bastardo viu o escudo, disse: – Se Deus m[e] ajude, deste escudo digo eu tanto que niu~u~ cavaleiro nom no divia a deitar a seu colo, se nom fosse milhor cavaleiro. E certas eu seerei aquel que o nom provarei ca me nom sento por tal que o deva a fazer. – No nome de Deus, disse rei Bandemaguz, eu o quero daqui sacar a que quer que me ende avenha. Entam o filhou e deitouo Título Fólio 4816a a seu colo e disse a Galaaz: – Senhor, eu queria, se a vós aprouvesse, que me atendessedes aqui ataa que víssemos o que podia avi~ir desta aventura. E, se me mal aviesse deste escudo, queria que o provássedes vós, ca bem sei que nom lazaredes vós. – Eu vos atenderei, disse Galaaz, mui de bõa mente. E os frades lhe derom u~u~ escudeiro que fosse com ele em sua companha e que trouxesse o escudo, se o levar nom pudesse, e se tornasse a[a] abadia com ele. Título Fólio 4916a Como rei Bandemaguz foi chagado. Assi ficou entam Galaaz e Ivam com ele, e rei Bandemaguz se foi. E pois andarom quanto seria duas légoas, virom sair de contra u~a irmida u~u~ cavaleiro de u~a s armas brancas. E vi~i~a quanto o cavalo o podia aduzer, a lança sô o braço, contra rei Bandemaguz. E elrei, que o vio vi~ir, volveu a ele e britou a lança em ele. E o cavaleiro, que o acalçou em descoberto, ferio tam rijamente que lhe falsou a loriga e metêlh’o ferro da lança per sô a espadoa seestra, e lançou[o] em terra. Depois deceu e filhoulhe o escudo e subiu em seu cavalo e disselhe: – Muito foste sandeu, cavaleiro, Título Fólio 4916b que este escudo filhaste, ca nom é outorgado senam pera u~u~ homem soo e aquel convem que seja o milhor cavaleiro do mundo. Polo grande erro que vós i fezestes me enviou acá aquel que as grandes venditas prende, por filhar de vós vingança segundo o erro que fezestes. Depois que esto disse rei Bandemaguz er tornou ao escudeiro e disselhe: – Filha este escudo e levao ao sergente de Jhesu Cristo, aquel quem chamam Galaaz. E di que o alto meestre lho manda que o traga, ca sempre será tam fresco como agora é e tam fremoso. E esto é gram cousa por que o homem deve muito de amar e saudademo da minha parte. – Senhor, disse o escudeiro, quem sodes vós? – Esto nom podes ora saber nem depois. Disse o escudeiro: – Pois que assi é, que vosso nome nom querees dizer, eu vos rogo pola rem do mundo que mais amedes que me digades a verdade do escudo e de quem o adusse a esta terra, ca nunca vi cavaleiro que o a seu colo deitasse que lhe mal nom viesse. – Tanto me conjuraste, disse o cavaleiro, que to direi. Mais nom direi a ti soo, ante quero que adugas aqui o cavaleiro a que hásde levar o escudo, Título Fólio 4916c e direito ant’ele, e dilhe da minha parte que, se quiser saber a verdade, que venha falar com migo ca bem aqui m’achará. E entam foi o escudeiro a rei Bandemaguz e preguntouo se era chagado. – Eu cuido, disse elrei, que som chagado aa morte. – E poderedes cavalgar? disse o escudeiro. – Prováloel, disse el, ca de ficar nom me pode vi~ir se mal nom. Entam se ergueo como pôde e cavalgou a mui gram trabalho. E o escudeiro após ele polo teer. Título Fólio 5016c Como o escudeiro deu o escudo a Galaaz. Assi se partirom daquele campo e tornaromse a abadia, e os frades filharom rei Bandemaguz e levaromno a u~a câmara e trabalharomse de lhe guardar a chaga, que era mui grande. E Galaaz preguntou a u~u~ frade que lhe guardava a chaga: – Cuidades que possa guarecer? Certas, gram dano seria se por tal aventura morresse, ca o ouvi muito lo[u]var de sangue e de cavalaria. – Senhor, disse o frade, nom vos temades de morrer; pero nom devia niu~u~ dele haver doo, ca ante lho dissemos ca se levasse o escudo colheria ende mal. Entam veeo o escudeiro a Galaaz e dísselhe ante quantos Título Fólio 5016d i estavam: – Senhor, enviavos saudar o bõõ cavaleiro das armas brancas; enviavos dizer que vos envia este escudo, que o tragades, ca nom há ora, assi como el diz, homem no mundo fora vós que o tanto mereça. E diz que se vós quiserdes saber donde veeo o escudo e por quantas maravilhas ende aveem, dizvos que vaades a el e el volo dirá. E eu vos levarei u ele é. Quando os frades esto ouvirom humildaromse muito a Galaaz e disserom: – Beentas sejam estas novas e beento seja Deus que o pera aqui adusse, ca ora sabemos bem que per este seeram acabadas as aventuras maravilhosas do Regno de Logres. E Ivam o Bastardo disse: – Senhor Galaaz, deitade este escudo ao vosso colo. E assi será já quanto minha vontade comprida, ca, se me Deus ajude, nunca tanto desejei rem como veer o bõõ cavaleiro que deste escudo seer senhor. E Galaaz disse que o faria, pois lho enviarom, mas que ante queria haver suas armas; e adusseromlhas. Depois que foi armado e que subiu em seu cavalo e deitou seu escudo ao colo comendou os frades a Deus e foise. E Ivam o Bastardo, que estava já armado por sobir em seu cavalo, disse que lhe faria companha. E el Título Fólio 5017a disse que lho guardecia muito, mas non queria que niu~u~ fosse com ele senam o escudeiro e o irmitam. Sem falha o irmitam andava sempre após ele, quando longe e quando preto, e contavalhe cada dia as vidas dos padres santos e as estórias antigas. E contoulhe donde era e de qual linhagem e de quaes cavaleiros. E contoulhe de Josep e de rei Mordaim e de Naciam e de quaes home~e~s foram e de quaes cavaleiros e de qual amor Nosso Senhor os amara. Esto era a cousa que el de grado mais do mundo escuitava e que o mais confortava, e tanto havia gram sabor de o ouvir que rem do mundo nom lhe prazia tanto. Título Fólio 5117a Como o irmitam disse a dom Galaaz a verdade do escudo. Quando Galaaz chegou a[a] ermida u o cavaleiro das armas brancas o atendia, o escudeiro que ia com Galaaz, tanto que viu o cavaleiro, disse a Galaaz: – Senhor, vedes o cavaleiro que vos enviou o escudo. E o cavaleiro, tanto que [o] viu saiu contra ele e salvouo. E Galaaz outrossi ele. – Senhor, disse o escudeiro, ora contade a dom Galaaz o que dissestes que lhe contaríades ante mim. – Muito me apraz, disse el, ca nom háno Título Fólio 5117b mundo homem niu~u~ a que o ante devesse a contar ca a ele, ca el é ora o escolheito que nom há par antre todos os cavaleiros que ora sam nem foram gram tempo há. Entam disse a Galaaz: – E sabedes que me demanda este escudeiro que eu lhe faça saber a verdade deste escudo. E porque tantas maravilhas ende avierom aaqueles que, per seu fol ardimento, sobre a defesa de Nosso Senhor o deitarom a seus colos, porque lhes aveem tantas maas andanças como sabem a esta terra. Todo esto me el rogou que lhe eu dissesse, ca nom é direito que o outrem saiba ante que vós. Mas pois vós aqui viestes, eu volo contarei ante ele e ante este irmitam que anda com vosco e que vos contou já ende u~a peça. – Senhor, disse Galaaz, certas, esto é u~a cousa que eu desejei a saber. – Pois eu volo direi, disse o cavaleiro, todo assi como aveeo. Entam lhe começou a contar em tal guisa como vos depois contará o livro. Título Fólio 5217b Como o cavaleiro branco contou a Galaaz seu linhagem. Galaaz, disse el, aveeo, já gram tempo há passado, que, depois da morte de Jhesu Cristo a #LXII anos, que Josep Abaramatia veeo aa cidade de Sar[r]as, assi como o alto meestre o guisava per sua vontade. Pois el chegou aa cidade de Sarras com seus parentes, Título Fólio 5217c que entam eram novamente sergentes e discípulos de Jhesu Cristo, elrei da cidade, que havia nome Evalac era entam pagão, os recebeu mui bem. Elrei era entam mui triste e mui desconfortado de Tolomer, u~u rei seu vizinho mais rico e mais poderoso ca ele, que o guerreava. E ligeiramente fora desbaratado ca seus home~e~s lhe faleciam, se nom fosse Josefes, o filho de Josep, que lhe disse: – Rei Evalao se me tu quiseres creer, eu te aconselharei em tal maneira que haverás ledice sobre todolos teus enmigos. E demais fareite ganhar a lediça que nunca haverá fim. Elrei foi mui ledo destas novas e preguntouo que homem era. – Eu som cristão, disse Josefes. Quando elrei esto ouviu foi maravilhado e mandou logo chamar seus clérigos que desputassem com ele sobre a lei dos cristãos. E quando foram assu~ados, Josefes, que do Espírito Santo falava chãamente, os venceu todos, assi que nom houvi i tal que o[u]visse [que] falasse. Quando elrei vio Josefes tam sisudo creeu. E, quando aveo que elrei queria ir contra Tolomer que lhe entrava na terra, Josefes lhe disse: – Rei, fazeme aduzer o teu escudo. E elrei o fez aduzer logo. E Josefes filhou u~u~ cendal vermelho e fez u~a cruz del, e pregoua no escudo com pregos bõõs, pequenos. Pois disse a elrei: Título Fólio 5217d – Veedes este sinal? – Si, disse ele: é mui bõõ. – Certas, disse Josefes, no mundo nom há perigoo de que nom escapasse o que perfeitamente creesse em aquel por que nós este sinal oramos. E por em quero que o leves tu. E quando fores em tal perigoo que nom cuides escapar ja mais, entam o descubri e dize: “Deus, que em este sinal prendeste morte, tu me torna ledo e são a receber tua creença”. E bem sabe verdadeiramente, se o chamares de bõõ coraçom, que tu nom morrerás ante haverás ledice e honra. Entam cobrio Josefes de u~u~ pano o escudo. Título Fólio 5317d Como Evalac viu a prova do escudo e como prendeu Tolamer. Entam creeo elrei Josefes, que bem podia dizer verdade. E pero que se dultava daquelo que dizia fez levar consigo o escudo aa batalha que havia d’haver com Tolomer. Entam se partiu de Sarraz e foi contra Tolomer e juntaromse u~a s gentes com as outras. E aveeo assi que Evalac foi preso e desbaratado e levado fora da batalha contra u~a furesta, u o queriam matar os que o prenderom. Quando Evalac se vio alongado das gentes, esmou que ja mais nom poderia escapar se aqueles que o levavam o houvessem de meter na furesta. Entam tolheu o pano do escudo com que era cuberto e viu na cruz u~a omagem do crucifiço que lhe Título Fólio 5318a semelhava que lhe caia dos pees e das mãos gotas de sangue. Quando el esto vio, filhouxelhe ende gram piedade no coraçom que era maravilha. E entam disse em seu coraçom: “Senhor Deus, que em este sinal tomaste morte, fazeme tornar aa minha cidade são e ledo, que receba a tua santa creença e que os outros saibam per mim que tu és verdadeiro e poderoso em todalas cousas”. – Per esta palavra que vos eu digo disse o branco cavaleiro a Galaaz, foi elrei Evalac livre do periigo em que era ca Nosso Senhor me enviou i por lhe acorrer, e tam bem no ajudei, polo poder que me deu aquele que me alá enviou, que o livrei daqueles que o tiinham e fiz eu i tanto que Tolomer foi preso e toda sua gente destruída. Título Fólio 5418a Como Evalac venceu seus inmigos. Pois elRei Evalac venceo seus inmigos, tornouse a Sarraz e recebeo baptismo polos grandes milagres que lhe Nosso Senhor mostrara, ca viu que o cavaleiro q[ue] o braço talhado havia, tanto que o escudo tangeo, logo foi guarido. E ainda aveeo i outra maravilha, que a cruz se desaprendeo do escudo Título Fólio 5418b e aprendeose ao braço do cavaleiro. Quando elrei vio esto mandou guardar mui bem o escudo ca moveo muito polos milagres que lhe Nosso Senhor mostrava per ele. E, quando aveo pois que el veeo a esta terra por livrar Josep de prisom e o livrou, andou com Josefes seu filho, de Josep, por que Nosso Senhor fazia tanto bõõ milagre que maravilha era. Título Fólio 5518b Como o cavaleiro contou a Galaaz como fora feita a cruz no escudo. Depois que Evalac durou em esta terra gram tempo com Josefes, havia de comprir sua vida. Quando elrei vio que el havia de passar, rogoulhe por Deus que lhe leixasse algu~a cousa per [que] todavia se nembrasse dele. – Rei, disse Josefes, pois fazedeme aduzer o vosso escudo u vós vistes o sinal do verdadeiro crucifiço per que fostes livre das mãos de Tolomer. E elrei lhe fez aduzer o escudo. Aquela hora que o escudo adusserom ante Josefes saílhe tanto de sangue dos narizes que o nom podiam estancar. Josefes filhou o escudo e fez i do seu sangue esta cruz, tal qual ora vós veedes. E este [é] o escudo de que vos eu conto. E, pois el houve feita a cruz tal qual vós ainda podedes veer, deu o escudo a elrei e disselhe: – Veedes aqui a renembrança Título Fólio 5518c que vos eu leixo de mim, ca vós sabedes bem que esta cruz é de meu sangue. E sabede que sempre assi será fresca e assi vermelha, bem como vós ora veedes, enquanto o escudo durar. E nom durará pouco, porque nunca o deitará cavaleiro a seu colo que se mal nom ache, atee vinda do bõõ cavaleiro Galaaz, que será o postumeiro da linhagem de Naciam, que o deitará a seu colo. E por em vos digo que niu~u~ nom será tam ardido que o a seu colo deite senam aquel a quem o Nosso Senhor há outorgado. E assi como mais maravilhas avirrom deste escudo ca doutro, assi haverá mais bondade d’armas e de santa vida em aquel que o háde trazer, ca em outro cavaleiro. – Pois assi é, disse elrei, que tam bõa renembrança aqui leixades de vós, dizedeme, se vos prouver, u leixarei o escudo. Ca queria eu mui de grado que ele fosse posto em tal lugar u o achasse o bõõ cavaleiro, quando viesse. – Direivos como façades, disse Josefes. Aí u virdes que Naciam se mandará lançar a sua morte, ali leixade o escudo. E ali verá o bõõ cavaleiro logo ao quinto dia que ordem de cavalaria receber. – E ora assi é, disse o cavaleiro branco a Galaaz, que ao quinto dia que vós fostes cavaleiro veestes a este mosteiro u Naciam jaz, e achastes i o escudo. Ora vos contei porque as mal Título Fólio 5518d aventuras e as grandes avierom aos cavaleiros que per seu fol ardimento, sobre esta defesa queriam levar o escudo que nom era outorgado senam a vós. Título Fólio 5618d Como o escudeiro rogou a Galaaz que o fezesse cavaleiro. Tanto que el esto houve contado a Galaaz, sumise em tal guisa que nunca soube Galaaz que fora dele nem contra qual parte se fora. E quando o escudeiro que estava ante Galaaz e que todo isto ouvira viu que aquel que lhe todo contara que era sumido, deceu de seu rocim e foi ficar os geolhos ante Galaaz e disselhe chorando: – Ai, Senhor! Eu vos rogo, por amor daquele Senhor cujo sinal vós trazedes em vosso e[s]cudo e que em tal sinal prendeu morte, que vós me recebades por vosso escudeiro e que me façades cavaleiro. – Amigo, disse Galaaz, se eu quisesse companha de escudeiro nom recearia a vossa. Mas assi é que eu parti de mim meus escudeiros porque eu nom quero companha de niu~u~, fora pola ventura se me achar assi com alguém que nom possa end' al fazer. – Senhor, diz el, fazedeme cavaleiro, por Deus, ca vos digo lealmente, segundo Deus, nem já por me louvar, que, pola ajuda de Deus, que seráem mim mui bem empregada cavalaria, segundo Título Fólio 5619a a força e o ardimento que em mim há; e Deus, por sua bondade, que me fará bem fazer a minha fazenda. Título Fólio 5719a Como Galaaz fez o rogo do escudeiro. Galaaz catou em o escudeiro e vio chorar tam feramente como se visse o homem do mundo que mais amava morto ante si e filhouo de gram doo. E por em lhe outorgou que o faria cavaleiro. – Senhor, disse o escudeiro, pois assi é que me outorgades que me faredes cavaleiro, rogovos que me tornedes aa abadia, ca ali haverei cavalo e armas. E nom tornedes alá tanto por mim como por veer u~a aventura que i há, que vós terredes pola maior maravilha que nunca vistes; e como eu cuido, vós lhe darês cima, ca nunca foi cavaleiro que [a] acabar podesse. E por em seria bem de tornardes alá. E ele disse que iria de bõamente. Entam tornarom aa abadia, e os frades saírom contra ele e receberomno mui bem, e preguntaromno, o escudeiro, porque tornara alá; e el disse que tornava polo fazer cavaleiro e por veer a aventura que i havia. E Galaaz, tanto que deceu, preguntou se poderia veer a aventura que ali era. – Senhor, dise u~u~ homem bõõ, bem na podedes veer, e nunca de tal maravilha ouvistes Título Fólio 5719b falar. E direivos como. Peça há que houve aqui preto u~u~ cimitério u corpos de muitos home~e~s bõõs e mui santos jaziam. E aveo que u~u~ pagão, o mais desleal cavaleiro que nunca homem na Gram Bretanha e mais endiabrada cousa do mundo, foi aqui soterrado. E, logo que foi soterrado, quantos em esta abadia eram virom logo os diaboos sobre seu muimento e começou ende sair u~a voz tam estrosa que todo o homem que a ouvia podia perder a coor por u~a mui gram peça. E por esta maravilha vierom i muitas vezes muitos home~e~s bõõs, e nunca i tal foi que se nam achasse mui mal, ca, tanto que ouvia a voz, nom havia poder de se levar do lugar; e taes i havia que morriam; e taes que viviam, mas estes eram poucos. – Aquel moimento querria eu veer, disse Galaaz. E ele disse que lho mostraria, e levouo entam fora da oussia da egreja e passarom por u~u~ cimitério. Depois mostroulhe, em um gram campo ermo, u~a grande árvor que i estava e disselhe que: – Sô aquela árvor está o muimento onde sae a voz que todo o homem que a ouve perde o sem e fica [es]morecido per sempre; e se vós i queredes ir e Deus quer que possades erguer a campãã, algu~a maravilha acharedes i sô ela que é mui grande verdade. Título Fólio 5819c Como Galaaz acabou a aventura do mosteiro. Depós esto nom atendeo mais Galaaz mas foise toste ao muimento. E tanto que i chegou, ouviu logo u~a voz de tam gram door que maravilha era, e dizia assi: – Ai, Galaaz, servo de Jhesu Cristo, nom te chegues a mim, ca me farás leixar este lugar em que ata aqui foi. Pero Galaaz esto ouvio nom se espantou, como aquele que era mais esforçado ca outro cavaleiro. E foi ao muimento e quis erguer a campãã, e viu sair u~u~ fumo tam negro como pez, depois u~a chama, depois u~a figura em semelhança de homem, a mais fea e a mais estranha cousa que nunca homem viu. E sinouse, ca bem lhe semelhou cousa de diaboo. Entam ouviu u~a voz que lhe disse: – Ai, Galaaz, santa cousa em ti vejo: eu te vejo cercado d’ângeos, que nom posso durar contra ti. E por em te leixo meu lugar em que longo tempo folguei. Quando el a voz ouviu, guardeceu muito a Jesu Cristo e sinouse e deitou a campãã a longe do muimento. E viu jazer no muimento u~u~ corpo de cavaleiro todo armado, e u~a espada cabo dele, e quanto havia mester pera cavaleiro fazer, fora Título Fólio 5819d cavalo e lança. E quando el esto viu, chamou os frades e disselhes: – Vinde veer o que aqui achei, e diredesme que farei ende, ca eu mais farei i, se mais devo a fazer. E eles vierom e virom o corpo jazer no muimento e disserom: – Senhor, assaz havedes i feito e nom convém que mais i façades, ca este corpo nom será daqui movido, assi como nós cuidamos. – Si, será, disse u~u~ homem velho que i estava; convém que este homem seja sacado deste cimitério, ca em esta terra beenta e sagrada nom deve tam desleal corpo, e tam mao como este era, jazer. – Amigo, disse Galaaz, fiz a este aventura quanto divia a fazer? - Si, Senhor, disserom eles, ca ja mais a voz nom sairá onde tanto mal viinha. – E que demostrança podia seer esta voz, disse Galaaz, e esta aventura? Ca sem gram demostrança tal nom podia seer. – Senhor, disse u~u~ homem bõõ velho, eu volo direi, e bem no devedes ouvir ca muito maravilhosa cousa é. Título Fólio 5919d Como Galaaz fez Melias cavaleiro. Entam se partirom do muimento e tornaromse ao mosteiro. E Galaaz disse ao escudeiro: – Amigo, esta noite teende vigília, como sejaides de manhãã cavaleiro, assi como direito costume. E o escudeiro Título Fólio 5920a fez assi como lhe ele mandou e ensinou. E o homem bõõ levou Galaaz a u~a câmara e fezeo desarmar e depois fezeo deitar no leito e disselhe: – Senhor, vós me perguntastes pola sinificança desta aventura, a que vós hoje destes cima. E eu vola direi mui de grado. Em esta aventura havia #III cousas mui duvidosas. A u~a era a campãã do muimento, que nom era mui ligeira de erguer. A outra era o corpo do cavaleiro. A terceira era a voz de que todo homem que a ouvia perdia o sem e a força dos braços e do corpo e de todolos nembros. Destas três cousas vos direi eu as significanças. Título Fólio 6020a Senificança da campãã. Sabede que a campãã que cobria o muimento demonstra os durezados corações que Nosso Senhor achou no mundo quando i veeo, ca na terra nom achou el se duros corações nom. E bem parecia ca o filho nom amava o padre nem o padre o filho ca por esto iiam todos ao inferno. Quando o Padre dos ceus viu que em na terra era tam grande a dureza dos corações que os home~e~s nom queriam teer as palavras dos profetas e que faziam seus novos deuses, Título Fólio 6020b envio[u] na terra seu filho que aquela forte dureza dos corações podesse amolentar e por fazer os corações dos home~e~s novos e obedientes. Depois que el foi em terra, achou os corações tam duros e tam envoltos nos pecados mortaes, que tam maus lhe eram de tornar a si quam mau seria a u~u~ homem molentar u~a pedra mui grande. Onde disse el pola boca do seu profeta Davi: “Eu som selheiro na minha paixam”. Tanto quer esta palavra dizer como se dissesse “Padre, muito haverei pequena parte convertida deste duro poboo ante minha morte”. Ora é assi que aquela enviada, que o Padre enviou seu filho a terra por livrar o poboo, que ora é renovado. Ca assi como o eixeco e a folia enfugiu pola viinda dele e a verdade i ficou conhocidamente per ele, bem assi vos escolheu Nosso Senhor sobre todolos outros cavaleiros por vos enviar polas terras estranhas por desfazerdes as graves aventuras e por fazerdes conhocer como vierom e por qual guisa foram começadas. E por esto deve homem ensinar vossa vida [como] a de Jhesu Cristo, quando em semelhança, ca nom por alteza. E assi como os profetas, gram tempo ante da viinda de Jehsu Cristo, profitezarom sua viinda, e o que ele livraria Título Fólio 6020c o poboo das coitas do inferno, bem assi profitizarom os santos ermitães e outrossi muitos home~e~s bõõs [vossa] viinda mui gram sazom ante que vós viéssedes. E bem diziam todos que ja mais as aventuras do regno de Logres nom averiam cima atee que vós viéssedes. E tanto vos atendemos que ora aa mercee de Deos havemosvos já. Título Fólio 6120c Senificança do cavaleiro que demostra. – Ora me dizede, disse Galaaz, que dizedes polo cavaleiro? Ca já mui bem me divisastes que demostrava a campãã do muimento. – Eu volo direi, disse o homem bõõ. O corpo do cavaleiro nos faz entender o poboo que vivera sob aquela dureza gram tempo dos corações, assi que eles eram mortos e confundidos por muitos pecados mortaes que haviam sobre a si achegados e acrecentavam sobre si de dia em dia. E bem parecia que eram todos confundudos, quando Jhesu Cristo veeo na terra. Ca eles, quando virom entrar antre si o Rei dos Reis e o Salvador do mundo, nom no conhocerom ante o teverom por pecador e cuidarom que era tal como eles e creerom mais a voz do diaboo ca aas Título Fólio 6120d outras palavras, e justiçarom a sua carne polo mandamento daquele que todo mal há mandado – polo diaboo, que lhes andava todo o dia aa orelha. E por em fezerom tal feito per que despois Vespesiom os eixerdou e os destruio tanto que ele soube a verdade daquel profeta que eles justiçarom tam deslealmente. Assi forom todos mortos e confundidos porque creerom o conselho do imigo. Ora devemos a creer como esta semelhança d’agora e a de antam se concorda de consu~u~. Esta campãã, que aqui demostra a gram dureza dos corações que Jhesu Cristo achou nos judeus. E o corpo do cavaleiro que demostra os judeus e todos seus herees, que eram todos mortos polos pecados mortaes de que se nam podiam partir. A voz que do muimento saía demostra a dorosa palavra que eles disserom a Pilatos, quando eles disserom “O sangue seu seja sobre nós e sobre nossos filhos”. Per esta palavra foram confundudos e foram estruídos e foram descridos pera sempre. Título Fólio 6220d Senificança do cavaleiro da paixom de Jhesu Cristo. Assi podedes entender em esta aventura a significança da paixom de Jhesu Cristo e a relembrança Título Fólio 6221a da sua santa vida. E outra cousa aviinha i ora muitas vezes, que os cavaleiros andantes viinha[m] aqui e queriam entrar contra o muimento e o diaboo, que os conhocia por pecadores e por envoltos em nos pecados, os espantava em tal guisa que, pola voz espantosa que fazia que eles perdiam o poder dos corpos e dos nembros. Nem ja mais esta força que perdiam nom podiam cobrar em ela. Mas esto nom ousou traladar Ruberte de Borem [em] francês [de] latim, porque as puridades da Santa Egreja nom nas quis ele descobrir, ca nom convem que as saiba homem leigo. E, doutra parte, havia medo de descobrir a demanda do Santo Graal, assi como a verdadeira estória o conta de latim, como os home~e~s, em quanto nom sabem em estudar, caem em erro e em meospreço de fé. E por esto poderia cair ca seu livro seria defeso que niu~u~ nom usasse del nem leese o que el nom querria em niu~a guisa. E por esto promete na terceira parte de seu livro que departa a demanda do Santo Graal, as cavalarias e as perfeitanças que os cavaleiros da Mesa Redonda fezerom em aquela demanda e as maravilhas que i acharom, e como o Santo Graal se foi de Inglaterra per a cidade de Sarraz. E bem saibam todos que a divindade e o filho sofria o que lhe nom convem nom quer ele divisar que seja ele culpado da Santa Egreja. Mas quando esto quiser trabalharse de saber, o livro do latim, aquel livro Título Fólio 6221b vos fará entender e saber enteiramente as maravilhas do Santo Graal. Ca nós devemos louvar as puridades da Santa Egreja. Nem eu nom direi mais, segundo meu poder, ca o que aa estória convem, ca nom convem ao homem descobrir as puridades do alto Meestre. Título Fólio 6321b Como Melians rogou a Galaaz que fosse com ele. Dês que aquel homem divisou a Galaaz a significança daquela aventura que acabara, disse que muito era milhor demostrança ca el divisaria. Aquela noute lhe fezerom os frades muito serviço ca muito o prezavam e amavam. Ante de hora de prima fez Galaaz o escudeiro cavaleiro, assi como era custume em naquel tempo, e depois preguntouo como havia nome. E disse que havia nome Melias e que era filho de rei. – Amigo, disse Galaaz, pois sodes de gram sem, guardade que seja empregada bem em vós a cavalaria, de guisa que honra do vosso linhagem seja per vós aventada. Certas, pois que filho de rei chega a tempo de receber ordem de cavalaria, devese de adiantar de bondade de cavalaria e de toda proeza ante todolos outros cavaleiros, assi como faz o raio do sol sobre as estrelas. E el disse que a honra do seu linhagem nom se perderia per ele, ca por afam de seu corpo que el deva a prender em cavalaria, nom ficaria de seer bõõ Título Fólio 6321c cavaleiro. Entam pediu Galaaz suas armas por se ir dali e dusseromlhas e armou[o] Melias. E disselhe: – Galaaz, senhor, vós me fezestes cavaleiro, aa mercee de Deus e a vossa. E por ende houve tam gram prazer em meu coraçom que adur volo poderia eu dizer. Ca, sem falha, o milhor cavaleiro do mundo me deu armas. E vós sabedes qual é o costume quem fazem cavaleiro novel: que se nom pode escusar de dar u~u~ dom, se virem que razom é. – Verdade é, disse Galaaz. – Senhor, disse el, pois peçovos por mercee que me leixedes ir em vossa companha com vosco a esta demanda, ataa que a ventura no[s] parta; e se a aventura nos ajuntar, que me nom tolhades vós vossa companha. E ele lho outorgou de grado. Entam pedio suas armas e, depois que foi armado, subiu em seu cavalo e encomendarom os monges a Deus e andarom aquele dia e outro sem aventura achar. Assi que u~u~ dia lunes lhes aveo, de manhãã, que chagarom a u~a cruz que se partia em duas carreiras. E aquela cruz estava a entrada de u~u~ gram chão, e a cruz era de madeira mui velha, e acharom i leteras que diziam: – “Ouves tu, cavaleiro andante que aventura demandar ve~e~s. Aqui há duas carreiras, u~a a destro e a outra a seestro. E aquela de seestro te Título Fólio 6321d defendo eu, ca sobejo deve seer bõõ cavaleiro aquele que em ela entrar ca, se bõõ nom fosse, nom poderia sair ende sem gram dano. E a destro nom te digo tanto, ca nom há i tanto perigo; mas pero se i entrares e nom fores bõõ cavaleiro, nom acabarás i rem”. Quando Melias viu as leteras, disse a Galaaz: – Senhor, por cortesia, leixademe esta carreira de seestro ca quero provar se há em mim cousa per que deva haver prez de cavalaria, se vos prouver. – Certas, disse Galaaz, eu iria per i, que saberia milhor dar cabo a algu~a aventura; creeo que passaria per i mais ligeiramente que vós. E ele disse que todavia per i queria ir a el lho outorgou, pois que vio que o muito rogava. E entam se abraçarom e encomendaromse a Deus e partiromse, e cada u~u~ se foi per sua carreira. Título Fólio 6421d Mais ora leixa o conto a falar de Dom Galaaz e torna a Melias. Diz o conto que Melias se partio de Galaaz e andou tanto tempo ata que passou aquel chão e chegou a u~a furesta velha e antiga que durava de longo duas jornadas. E andou tanto per ela que chegou a u~a rebeira. E achou muitas choças feitas e dous tindilhões armados e fremosos Título Fólio 6422a e bem feitos de pano de seda vermelha. E antre os tendilhões, em meo, havia u~a cadeira mui fremosa e mui rica, e em cima daquela cadeira siia u~u~ homem velho, mas nom sei se era cavaleiro se nam; mas tiinha coroa d’ouro tam fremosa e tam rica como se fosse feita pera emperador algu~u~. Sabede que dormia tam feramente como se nunca dormisse; mas nom estava com ele homem nem outra cousa senam. os tendilhões. Quando Melias esto vio, chegou aa cadeira, assi de cavalo como estava, e lhe semelhou a mais fremosa que nunca vira. Mas, quando viu que o homem bõõ dormia, pensou como o espertaria ca muito lhe aprazia de saber da sua fazenda ante que se partisse. E disse alta voz: – Amigo senhor, quem sodes vós? Dizeemo, se vos aprouver! E ele nom respondeu nada. Er chamou outra vez, mais alta voz ca antes. E ele dormia tam feramente que se nam espertou. E entam disse Melias antre si: – Ai! Deus, se é este homem rei, que nunca vi rei assi dormir. E por a maldade que eu em ele vejo querolhe tolher a coroa, ca eu cuido que nunca este homem foi rei, se nam de dormir. E entam lhe tomou Título Fólio 6422b a coroa e a meteo em seu braço seestro e leixouo dormir e foi pola furesta quanto se pode ir a poder de cavalo. Título Fólio 6522b Como Melias levou a coroa. E como levou a donzela d’Amado[r] de Beel. E Melias indo assi pola furesta, achou u~a donzela que fazia gram doo por u~u~ cavaleiro que havia pouco que era chagado. E a donzela era mui fremosa e Melias pagouse dela e perguntoua porque fazia tam gram doo por aqueste cavaleiro. Disse ela que “outro cavaleiro o chagou agora mal de morte, que nom pode cavalgar nem pode sair daquesta furesta”. E Melias lhe disse: – Donzela, o cavaleiro é morto e nom no podedes levar, e mais val que o leixedes e vos irdes a algu~u~ lugar a salvo, ca sei que, se aqui ficardes em esta furesta, toste vos poderia vi~ir ende mal algu~u~. – Nom, Senhor, disse ela, em leixálo farei gram mal e fazêloei mui da invidos, ca muito me amava; mas pois que por ficar a mim nom averia se nam mal e ele da minha ficada nom averia bem, irm’ei com vosco, ca hei medo de andar errada por esta furesta. – Donzela, disse Título Fólio 6522c ele, eu vos guiarei e vos levarei a salvo. – Senhor, disse ela, se esto soubesse , irm’ia com vosco, ca bem vejo que deste cavaleiro nom posso haver ajuda, bem o cuido, Entam disse Melias: – Semelhame preto de morto, mas ainda a alma em ele jaz. E entam se foi a donzela a seu palafrém que atara a u~a árvor e cavalgou e leixou o cavalo do cavaleiro a cabo dele, que ainda o tiinha pola rédea; e tiinha a cabo de si o escudo e a lança, e nom era tam mal chagado que ainda nom gorecesse, se houvesse quem no gorecer, ca, sem falha, Boorz de Gaunes o feriu tam feramente que jazia esmorido. Mas a chaga nom era atam grande e entendeu bem o cavaleiro quanto Melias e a donzela disserom e soube que nom [era] Boorz aquele com que se ela ia e houve mui gram pesar de que o leixara tam toste a donzela ante que soubesse se era morto. Título Fólio 6622c Como Amador foi depós Melias. Entam se ergueo donde jazia e, dês i, lançou seu elmo e alimpou seus olhos que tiinha cheos de sangue e depois ergueuse o milhor que pôde, como aquele que havia gram força e gram coraçom, cavalgou sobre o seu cavalo e foise depós Melias por se vingar. E acalçouo Título Fólio 6622d e deilhe vozes: – A leixar vos convém a donzela ca em mao ponto a vistes. Pois baixou a lança. E, quando Melias o viu vi~ir, pos a coroa em u~a árvor e tornou a ele e ferio tam feramente que meteo a lança polo cavaleiro. E o cavaleiro, que era de gram força, ferio Melias tam feramente que lhe falsou o escudo e a loriga e meteolhe polas costas seestras o ferro da lança e cairom em terra tam mal feridos que nom houve i tal que nom houvesse mester de folgar e de quem o gorecesse. E o cavaleiro alevantouse, ca muito era esforçado de coraçom, e, pois que viu que era ferido aa morte, meteu mão aa espada e foi aa donzela e disselhe: – Eu som por vós morto e direito é que moirades vós por mim, ca em outra guisa seria mal vingada minha morte. E entam alçou a espada e talhoulhe a cabeça. Depois que esto houve feito nom houve tam gram força que podesse subir no cavalo nem ir a Melias ante caiu em terra tam mal chagado que nom cuidou a gorecer ende. Título Fólio 6722d Mais ora leixa o conto e torna a Galaaz. Quando Galaaz se partio de Melias andou todo aquele dia sem aventura achar que de contar seja. Aquela noite, chegou a casa de u~a dona viu´va que morava em meeo de u~a foresta que o albergou mui bem. E aquela [noite] Título Fólio 6723a contou o ermitam a vida e o feito de seu linhagem, como eram servos leaes de Jhesu Cristo e o grande amor que lhes mostrava Jhesu Cristo por seu serviço. Manhãã ouviu missa e espediuse da dona e cavalgou e andou atá a meo dia. E entam achou u~a donzela que andava em u~u~ palafrém negro que lhe preguntou: – Senhor, sodes cavaleiro andante? – Donzela, si, som; porque o preguntades? – Por u~a mui gram maravilha, disse ela, que vos ora direi que agora achei em aquela foresta. - E que maravilha é? disse Galaaz. – Eu achei ora mortos dous cavaleiros e u~a donzela que tiinha a cabeça corta e jazem todos três em meo do caminho, E, se quiserdes ir per esta carreira per u eu venho, vos levará a eles. – E é longe? disse el. – Nom, disse ela; nom há i mais de dous treitos de beesta. Título Fólio 6823a Como Galaaz achou Melias chagado. E entam se foi Galaaz contra u lhe disse a donzela e achou o que buscava. E quando conhoceo Melias houve gram pesar, ca bem cuidava que era morto, e deceose e pregunto[u]o como se sentia. E el alçou a cabeça e, quando o viu, foi mui alegre e disse: – Ai! Senhor Título Fólio 6823b dom Galaaz, vós sejades bem vindo. Por Deus, levademe a algu~a abadia u possa haver meus direitos da Santa Egreja, ca bem sei que som chagado aa morte. – Muito me pesa, disse Galaaz; e quem vos chagou assi? – Senhor, disse el, aquel cavaleiro que jaz ali. E bem creo que é mui mal ferido, tam mal como eu ou pior. – E aquela donzela, quem na matou? disse Galaaz. – Esse cavaleiro, porque se viinha com migo, disse el. Entam foi Galaaz ao cavaleiro e tolheulhe o elmo, ca, se podesse, queria saber quem era. E pois lhe tolheu o elmo e o almofre abriu o cavaleiro os olhos que tiinha cheos de sangue e falou entam e disse a Galaaz: – Quem sodes vós que m’o elmo tolhestes? – Mas quem sodes vós, disse Galaaz, que a esta donzela fezestes tal crueza? – Eu nom fiz tanto quanto devera fazer, ca som morto, e da minha morte haverám muitos pesar grande. – E quem sodes vós? disse Galaaz. Pola ventura sodes vós da casa de rei Artur ou sodes da Mesa Redonda? – Si, som, disse el, e movi com os outros na demanda do Santo Graal; mas assi me aveeo, por meus pecados, que som morto. E Deus dê milhor andança aos outros ca a mim deu. Quando Galaaz ouviu que era da Mesa Redonda houve gram pesar e houve medo que nom fosse dos do Título Fólio 6823c seu linhagem de rei Bam. E por esso o preguntou: – Como havedes nome? Entam disse el: – Eu hei nome Amador de Belrepaire. E Galaaz conhocêo ca este era o pestomeiro cavaleiro que entrara na demanda do Santo Graal e pesoulhe muito da sua morte ca muito o ouvira preçar da corte de cavalaria e de cortesia. E disselhe entam: - Amador, muito me pesa da vossa morte, ca érades bõõ cavaleiro. E Galaaz esto dizendo, estendeuse el com a coita da morte e disse: – Ai, Jhesu Cristo, Padre de piedade, nom catês aos meus pecados, mas assi como o padre há piedade a seu filho, se lhe erra, assi havede vós a mim como de vossa creatura e de vosso filho, como quer que eu seja pecador. Entam jouve gram peça assi, e Galaaz houve tam gram pesar que começou a chorar. E disse outra vez: – Galaaz, mui santa cousa e mui santo cavaleiro, roga por mim ao Rei dos reis que haja mercee de tal pecador qual eu som, ca sei certas que, se o rogares, que haverá de mim mercee e el ma dará ca el recebe o rogo do justo. Tanto que esto disse saílhe [a] alma do corpo. Quando Galaaz vio que era morto tolheu e elmo e beij[ou]o; e esto fazia el porque era da Mesa Redonda. Pois que viu que era morto, çarroulhe a boca. Depois foi a Melias e preguntou-lhe Título Fólio 6823d que lhe faria. – Senhor, disse el, levarm’edes a u~a abadia que aqui há preto e se eu houver de morrer, que moira ante i que alhur em no ermo; e se houver de guarecer, asinha gorecerei. Entam o desarmou Galaaz e tiroulhe o ferro da ferida e atoulha o milhor que pôde. E el que o querria poer em na besta, chegou Ivam o Bastardo. E, tanto que viu Galaaz conhocêo e foi a el e salvouo e preguntoulhe quem matara aquel cavaleiro e aquela donzela. E ele contoulhe a verdade como a [provara] e maravilhouse e houve gram pesar do cavaleiro e disse: – Certas, muito haverá gram pesar rei Artur quando souber a morte deste cavaleiro ca, sem falha, Amador era u~u~ dos nomeados cavaleiros que havia na corte de rei Artur de bondade d’armas. E Galaaz disse: – Agora me pesa mais da sua morte ca em ante, ca todo homem deve haver gram pesar da morte de homem bõõ, e de mais de tam bõõ cavaleiro como este e seer companheiro da Távola Redonda. Título Fólio 6923d Como Galaaz avisou Melias dos cavaleiros. Eles esto dizendo aque veem dous cavaleiros armados, que chegarom i e preguntarom qual era o cavaleiro que trazia o escudo branco e a banda vermelha. E Galaaz disse; – Veedelo aqui. E mostroulhes Melias Título Fólio 6924a que estava i. E os cavaleiros disserom: – Nós o andamos buscando ca el nos há tanto mal feito ca, se nom émorto, matá-loemos nós. – Assi? disse Galaaz; certas, nom o faredes ca o defenderei eu a meu poder. Entam meteu mão a espada. E eles, que o virom a pee, disseromlhe: – Cavaleiro, vós sodes sandeu que vos queredes matar a vosso esciente. E cuidades com nosco a poder, nós estando a cavalo e vós a pee? E el nom respondeu ao que lhe eles disserom. Amam feriu o primeiro que acalçou tam rijamente que lhe talhou a mea da loriga com a coixa assi que o corpo caiu a u~u~ cabo e coixa ao outro. Quando o outro viu este golpe nom houve coraçom pera o atender, de mais viu que bem seria folia de atender golpe de homem que assi feria. E foi aa coroa que viu estar na árvor e tomoua e tornouse e começouse a ir quanto pôde. E Galaaz pôs Melias em seu cavalo e depois foise depós ele e levouo a u~a casa de ordem que estava em u~u~ vale que era cercada de cárcava e de pedra porque havia[m] medo dos ladrões, que havia muitos na foresta. E assi fez Ivam o Bastardo Amador de Belrepaire, que o levava [a] aquel lugar polo [soterrar] em [sagrado]. E a donzela leixaromna ca a nom poderem levar Título Fólio 6924b nem o conto nom fala mais dela. Mas diz do cavaleiro que foi soterrado e foi seu nome escrito sobre o muimento. E Galaaz preguntou aos monges se havia i algu~u~ que soubesse guarecer chagas. – Senhor, disserem, si, há. E adusserom u~u~ homem velho que fora cavaleiro. E el catou logo Melias e disselhe que o daria asinha guarido com [a] ajuda de Deus. E Galaaz foi mui alegre e esteve i tres dias depois. Título Fólio 7024b Como Galaaz e Ivam o Bastardo foram hóspedes do Senhor do Castelo. Pois que Galaaz se partiu de Melias aveeolhe que chegou a u~u~ castelo que estava em u~a montanha, ca o caminho era per i. E Ivam o Bastardo ia com ele. E quando entrarom pola rua do castelo aquevos u~u~ cavaleiro, que era senhor daquele castelo e era velho, veeo a eles e disselhes: – Senhores, sodes cavaleiros andantes? – Si, disserom eles, mas porque o preguntades? – Eu o pregunto, disse ele, por vossa honra e por vosso bem. E pois que sodes cavaleiros andantes eu vos peço tanto que sejades meus hóspedes. E sabede que seredes honrados e servidos, a meu poder, como se fôssedes em casa de rei Artur. – Senhor, Título Fólio 7024c disserom eles, nom ficaremos com vosco mas comendamosvos a Deus e gardecemovolo muito quanto vós dizedes. – E como? disse el, assi vos cuidades ir tam ligeiramente que nom ficaredes comigo u~a noite? Já Deus nom m’ajude se assi for, ca seria minha gram vergonça e minha desonra e bem mostraríades que me nom prezades quando em meu castelo nom façades o que vos eu rogo. Quando eles virom que os tiinha em tam gram coita nom souberom como se escusar contra ele. Houveromlh’a outorgar o que el quise. Título Fólio 7124c Como se foram com o senhor do castelo e virom Domdignaos Entam os levou o senhor do castelo pera o alcáçar, e decerom e fezeos desarmar. E tanto lhes fez de honra que eles se maravilhavam ende. E lhes disse: – Senhores, se me praz com vosco e vos faço honra nom vos maravilhedes ende ca, certas, eu volo faço de bõõ coraçom. E bem no devo de fazer, ca eu hei u~u~ filho cavaleiro andante e eu andei em companha com rei Pelinor que foi em seu tempo o milhor cavaleiro que eu soube no regno de Logres nem em outro lugar. Mas com todo esto eu hei u~u~ filho cavaleiro andante Título Fólio 7124d de que me mais pago que de outra cousa que em no mundo seja. E eles o preguntarom como havia nome seu filho. – Senhores, disse el, há nome Dalides; nom sei se o conhocedes. E Galaaz disse que o nom conhocia; e Ivam o Bastardo disse que o conhocia bem ca o vira já em muitos lugares. – E que vos direi? disse o padre, em esta terra o teem por mui bõõ cavaleiro. – Quem al dissesse, disse Ivam o Bastardo, diria mui gram torto ca, assi Deus me conselhe, eu o tenho por u~u~ dos bõõs cavaleiros que eu sei ca nom ha ´ homem que del tanto visse como eu nem que mais bem dele dissesse ca eu sei. Em aquelo foi o padre mui alegre quando del esto ouviu, ca, sem falha, el amava aquel filho que nom podia mais. Quando veeo a noite, assentaromse a comer em u~u~ prado. E o hóspede fazialhes mui bõõ contenente e era mui alegre. E seendo falando daquele cavaleiro que ao padre nom podia esqueecer aquevos u~u~ escudeiro que vinha a pee, tam asinha como se fosse piom. E, quando o homem bõõ o viu, preguntouo de: – Que novas trazedes do torneo? – Senhor, mui bõas. – Quaes? disse el. – Meu Senhor, vosso filho venceu o torneo assi que todo o prez é seu de u~a parte e da outra. – Beentas sejam taes novas e beento seja Deus que me tal filho deu que de cavalaria me semelha. – Senhor, disse Título Fólio 7125a Galaaz, u foi esse torneo? – Senhor, disse el, a sex léguas preto de u~u~ castelo que há nome o Castelo escuro. Mas este nome lhe cambarom por enveja de dom Lançarot do Lago porque el deu cima a ua aventura daquel castelo. - E ele esto dizendo, logo veeo u~u~ homem que lhe disse: – Senhor, vosso filho vem com gram companha de cavaleiros e é aqui. Quando el esto ouviu saio e foise ao paaço. E pois achou seu filho com gram companha de cavaleiros que vinham com ele do torneo. E ele foi ao padre e beijoulhe a mão e disselhe: – Senhor, vedes aqui u~u~ cavaleiro que trago aa vossa prisam dos da Mesa Redonda, com que me com[b]ati depois que me parti do torneo. Título Fólio 7225a Como Dondignaos e Dalides chegarom. O padre o preguntou que eixeco houvera antre eles. E el disse: – Houve i palavras que me pesarom ca disse que quem este torneo vencera que nom havia gram bondade de armas. E eu lhe dissi:. “Nom faledes i mais, ca nom pode mais fazer do que fiz”. E el respondeo: “Nom sei que vós i fezestes, mas eu sei u~u~ tal cavaleiro que, se taes quatro cavaleiros como vós tevesse em campo, Título Fólio 7225b que os venceria todos em u~a hora do dia. Esto seria mui toste. E nom volo digo se nam porque sei que é verdade». Eu, quando esto ouvi, leixeime ir contra ele e fiz tanto de armas que o venci e assi é preitejado comigo que ja mais nom saia da minha prisam ataa que me mostre aquel cavaleiro onde me tanto falou”. Título Fólio 7325b Como Dondinnos disse a Dalides que é Galaaz. Quando o padre esto ouviu, disse: – Filho, filho, leixade este preito sobre mim ca este cavaleiro irá comigo ali u estam dous cavaleiros da Mesa Redonda que sam hoje meos hóspedes, mas nom de seu grado. – Senhor, disse o filho, fazede dele o que quiserdes. E o padre lho agardeceo muito. E depois preguntou ao cavaleiro como havia nome. Disse el: – Hei nome Dondinax o Salvagem. – Em nome de Deus, disse o hóspede, muitas vezes ouvi falar de vós e bem sejades vós viindo; eu ouvi tanto bem dizer de vós que nom acharedes aqui homem que vos mais algo nom faça ca em casa de rei Artur. E el lho agardeceu muito. Entam vierom escudeiros de u~a parte e da outra que o desarmarom, ele e aqueles que com ele viinham do torneo. Entam foi mui grande alegria no paaço. E o senhor do castelo leixou-os Título Fólio 7325c no prado u leixara Galaaz e Ivam o Bastardo. E quando eles virom Dondinax, logo sairam contra ele e receberomno mui bem. E quando el vio Galaaz, logo disse: – Senhor, vós sejades hem viindo, ca por vós som livre de prisam. Eu prometi a este cavaleiro, filho deste homem bõõ, que lhe mostrasse o que lhe dissera do cavaleiro e, quando lho mostrasse, fosse quite de prisam. Entam disse a Dalides: – Vedes aqui este cavaleiro que vos eu disse que vos mostraria. Agora som quite de prisam. Quando Dalides esto ouviu começou a catar Galaaz muito e vio[o] tam menino que nom pôde creer que fosse verdade. E Dalides disse contra Dondinax: – Eu dês hoje mais vos quito a menagem por amor daquele de que vós tanto bem dizedes. Eu vos quito de prisam aqui ante ele. E el lho agardeceu muito. Título Fólio 7425c Como Dalides nom criia que dom Galaaz era tam bõõ. Aquela noite foi grande [a] alegria dos cavaleiros estranhos e dos da casa. Mas, como quer que os outros houvessem, Dalides catava todavia Galaaz ca o preçava de fremosura sobre todolos cavaleiros que nunca vira; mas nom Título Fólio 7425d podia creer que tam bõõ cavaleiro era como Dondinax dissera ca nom havia tal corpo nem tal rosto. E dizia em seu coraçom: – Se me Deus valha, nom vejo eu i tal cousa, per que o nom cuidasse de vencer. Assi dizia Dalides antre seu coraçom. E, sem falha, ele era u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo e niu~a manha maa nom havia em si senam que se preçava muito, tanto que nom cuidava que no regno de Logres milhor cavaleiro havia que ele. Outro dia manhãã foi Galaaz ouvir missa com sua companha em u~a capela que i estava. E, depois que ouvirom missa, armaromse e fezerom ajuntar sua companha. E comendarom a Deus o senhor do castelo e seu filho e sua gente toda e foramse ataa que a aventura os espartisse. Título Fólio 7525d Como Dalides pediu sas armas por ir depós dom Galaaz. Sairom eles do castelo e nom se alongarom três treitos de beesta quando pediu Dalides suas armas. E o padre preguntouo pera que as queria. E el disse: – Eu nom leixaria de ir em niu~a guisa depós Galaaz que aqueles outros cavaleiros gabarom tanto de cavalaria ca eu cuido que o dizem Título Fólio 7526a por oufana e bem sei verdadeiramente que conhoçam que é mentira o que disserom. – Ai, filho, disse o padre, por Deus, havee de mim mercee que som tam velho e tam febre e tam enfermo! Nom vaas ala ca, se te nam vir, eu som morto! E nom me leixes, assi vejas prazer de ti, pois que te eu tanto amo, – Ai, padre, disse Dalides, nom hajades de mim dulda contra Galaaz ca eu quero que me talhem a cabeça se o nom vencer ante de hora de terça. – Filho, disse o padre, nom conheces tu Galaaz assi como eu conheço. Ainda que tu fosses maior e milhor cavaleiro que és, de[via]s a ficar, pois eu te rogo, ca mandado de padre nom deves de passar. – Senhor, disse Dalides, nom há cousa no mundo per que ficasse e, se me força fezerdes, eu me matarei com minhas mãos. Quando o padre esto ouviu houve pavor grande e disse: – Maas novas sam estas, ca me temo de vi~ir mal a mim e a ti; mas, pois vejo que tanto te apraz, Deus te guie. Entam lhe derom suas armas e, depois que foi armado, partiose de seu padre e leixouo mui triste e foram com ele dous cavaleiros e dous escudeiros de casa de seu padre. Título Fólio 7626a Como Galaaz derribou Dalides. Título Fólio 7626b Pois se partirom do castelo andarom tanto que acalçarom Galaaz. E Dalides filhou seu escudo e sua lança que lhe o escudeiro trazia e deu vozes a Galaaz: – Galaaz, guardadevos de mim, ca [a] lidar vos convém. E Galaaz tornou a ele e ferioo tam bravamente que lhe falsou a loriga e o escudo e metêlhe o ferro da lança polas costas seestras, mas nom foi a ferida tam grande que bem nom podesse guarir; dês i derribouo em terra que o fez sair dantre ambos os arções e foi todo quebrantado da queeda. E quando os outros o virom cair a terra leixaromse correr a Galaaz e quebrantarom em ele as lanças; mas da sela nom no moverom nem outro mal nom lhe fezerom ca era de gram coraçom e de maior força que outro homem. E ferio tam rijamente que o deitou em terra do cavalo mal ferido a maravilha e a lança avoou em peças. E depois meteu mão a espada e quis ir contra aquel outro; mas el, quando o viu vi~ir e viu que havia feitos taes dous golpes, nom no quis atender e começou a fugir contra o castelo. E Galaaz, que nom houve sabor de ir após ele, tornou a Dalides que subira já em seu cavalo. E os outros cavaleiros nom queriam em ele mão Título Fólio 7626c meter, pola honra que lhes seu padre fezera. E, quando Dalides viu que u~u~ dos seus cavaleiros jazia mal ferido, houve tam gram pesar que bem queria seer morto, em tal que se vingasse. Título Fólio 7726c A batalha de Galaaz e de Dalides e do cavaleiro que com el andava. Entam meteu Dalides mão aa espada e disse a Galaaz: – Cavaleiro, se me dirribastes nom som vencido por em e chamovos aa batalha das espadas; e, se nom vierdes, nom vos terrei por homem bõõ. E Galaaz disse: – Nom val nada nem vos há prol que me chamedes aa batalha ca nom veio razom por quê e eu nunca vos errei nem vos desamei. E el disse: – Ou vos terredes por vencido de mim ou vos defenderedes de mim ca este preito nom ficará assi. E entam se foi a Galaaz e deilhe o maior golpe que pôde, mas o elmo era bõõ e nom lhe fez mal a Galaaz. E Galaaz, que se nam podia assi partir dele, alçou a espada, que era bõa, e ferio tam esquivadamente que lhe fendeo o elmo e o escudo por meeo. E Dalides, que o nom pôde sofrer, caiu em terra esmorido e quebroulhe o sangue polos narizes e pola boca ca foi mal quebrantado do golpe e da queeda. E Dondinax, quando o viu jazer em terra, disse: – Senhor, que atendedes? Título Fólio 7726d Decede e talhadelhe a cabeça e livrarvosedes dele ca mais sobrevoso nunca vi no mundo. E Galaaz disse: – Se Deus quiser, nom meterei em ele mais mão ca de matar tal cavaleiro esta seria a maior nemiga do mundo. Mas vaamonos daqui ca nom quisera fazer tanto quanto fiz. – Bem dizedes, disse Ivam o Bastardo. E, certas, se vós creerdes a Dondinax o Selvagem, muitas diabluras faríades que nom faredes, se Deus quiser. Entam entrarom todos três em seu caminho. Título Fólio 7826d Como o padre de Dalides foi depós o filho. Dalides se partiu de seu padre. E o padre o amava muito como ama padre filho. E el houve dele doo como devia, e el nom no ousou descobrir a niu~u~ de seus vassalos com medo de lho terem por covardice mas mandou a u~u~ seu homem que lhe selasse o cavalo. Depois saíose do castelo por u~u~ postigo e nom quis que com ele fosse niu~u~ e achou o rasto dos outros e foise per i. Título Fólio 7926d Como se Dalides matou com sa espada. Dalides jouve gram peça esmoricido e alevantouse e achou seu companheiro mal ferido u jazia e preguntouo como se sentia. – Senhor, disse ele, som ferido aa morte. – Assi? Título Fólio 7927a disse Dalides. Assi me Deus valha, pesame ende; agora fosse eu ferido aa morte que ja mais nunca haverei honra de cousa que faça ca este cavaleiro me escarneceu por sempre. E por esto querria seer morto mais que vivo. Entam se desarmou e deitou suas armas alonge e jurou que ja mais nunca trouxesse armas pois que tam gram onta recebera que maior nom podia haver. E entam começou a fazer seu doo que nunca homem maior viu e disse com gram pesar que as lágrimas lhe corriam polas faces: – Amigo, eu e vós fomos companheiros d’armas; creede que som morto mais de pesar que das feridas e nom quero mais viver atam gram sabor hei de morrer; de mais, som mal ferido. Mas rogovos, polo amor que com vosco hei, que logo que a alma me sair do corpo que me levedes ao Castelo estranho, que é daquela dona que sabedes que eu amei assi como vós sabedes. Entam sacou a espada da bainha e disse: – Senhor por que eu tanto mal sofri e servi sempre dês que foi cavaleiro, rogo eu ao Deus de amor que, assi como vos eu amo verdadeiramente e sem falsidade, assi vos meta el em coraçom de vos eu nom esquecer nem que amedes outro depós minha morte se nam for tam bõõ cavaleiro como eu. Entam alçou a espada e feriu-se Título Fólio 7927b polo peito, de guisa que pareceu o ferro da outra parte, e disse que mais querria assi morrer cá outra vez prender desonra per u~u~ cavaleiro soo. Entam caio em terra morto. E o outro cavaleiro, quando o viu, disse: – Ai, mezquinho, que dano e que perda hoje hei recebuda! Entam esmoreceu. Título Fólio 8027b O doo que fazia o padre de Dalides. Depós esto nom tardou muito que veeo o padre de Dalides, mas nom trazia armas se nam u~a espada. E, quando viu o filho morto, disse. – Ai, mizquinho! Morto som! Morto é o meu filho! Entam se leixou cair do cavalo em terra e jouve esmorido u~a gram peça. E, quando o outro cavaleiro o viu assi jazer, tolheu seu elmo e esforçouo o mais que pôde. E quando o homem bõõ acordou e viu seu filho morto ante si e a espada metuda em ele, disse: – Ai, filho, que é esto? Senhor, que vejo? E foio logo beijar, assi coberto de sangue como jazia, e disse: – Filho, par Deus, mal vos guardei. Filho, vós érades bõõ cavaleiro, filho mui fremoso, filho mui bem talhado, filho ardido, filho esforçado, vós sodes morto por minha culpa cá, se vos eu nom outorgasse hoje manhãã o que me pedistes, ainda agora fôrades Título Fólio 8027c vivo e são. E esta terra valerá menos per vossa morte e tornerá ela a coita e a pobreza ca nom haverá quem na defenda nem na mantenha em paz. Certas, filho e amigo, se eu mais vivo depós vós, minha vida seerá em lágrimas e em coita ca de veer alegria som desesperado pois vós morto sodes. E, se eu ende al fezesse, todo o mundo me devia a querrer mal e apedrarme por ende; e por ende val mais, ai filho senhor, que eu moira logo após vós que viver longamente, ca a vida me seránojo e trabalho e morte me será folgança e conforto. De mais, filho, se eu agora morresse, nom poderia seer que a minha alma nom fosse com a vossa ao paraíso ou ao inferno. Entam preguntou ao cavaleiro que jazia ferido: – Amigo, como morreo meu filho? – Senhor, disse el, como quer que morresse el, nom vos há prol de volo dizer nem a ele de vos desconfortardes. Mas por Deus vos rogo que vos nom desconfortedes e que hajaes doo de vós e nom catedes vosso gram dano que vos ende veo e metede mentes em Deus. – Esto nom posso fazer, disse o homem bõõ. Mas, por Deus, dizedeme como morreo meu filho. E ele lho rogou Título Fólio 8027d tanto que lho outorgou a contar, assi como a estória há já devisado, como se el matou com pesar de que o escarnecera Galaaz que milhor cavaleiro era que ele. – E bem o podedes veer em na espada com que se el matou, que vós lha destes ainda muito nom há. – Entam filhou o padre a sua espada e meteoa per si e caiu logo morto a cabo de seu filho. Título Fólio 8127d [Como Galvam se foi depós Galaaz.] Quando o cavaleiro esto viu, disse: – Ai, Deus! Vio nunca homem tanta maa aventura de taes dous home~e~s se matarem com suas mãos. E ele esto dizendo chegou u~u~ cavaleiro que viinha armado de todas armas. E, se me algu~u~ preguntar quem era, eu lho diria que era Galvam que andara dês dia de Pinticoste ataa aquel dia que nom achara aventura de que contar seja. E, quando viu o padre e o filho jazer mortos e o cavaleiro ferido, maravilhouse e preguntou ao ferido que fora aquelo. E ele lho disse todo como fora; mas nom disse que fora Galaaz, ante disse que era u~u~ cavaleiro que tragia o escudo branco da cruz vermelha. E disse aquel cavaleiro ao outro como Título Fólio 8128a havia nome: – Eu hei nome Galvam. – Pois vós sodes, disse ele, vós o devedes de vingar; ca este é Dalides, u~u~ dos cavaleiros do mundo que vós mais amávades, segundo como vós dizíades. E esto é seu padre que vos fez muito serviço e muita honra. E bem sabedes vós que se Dalides fosse assi como vós falades el querria perder a cabeça ante que vos nom vingasse de seu grado. Assi me Deus valha, este é o cavaleiro do mundo que vos mais amava que vosso parente nom fosse. Quando Galvam vio Dalides jazer morto conhocêo e houve gram pesar, ca o amava muito. E preguntou ao cavaleiro per u ia aquele que o matara e elo lho amostrou. Pois o ouviu Galvam, nom atendeo mais e começouse a ir mui de rixo pós ele Título Fólio 8228a [Como os três cavaleiros acharom a Besta Ladrador.] Em esta parte diz o conto que depois que os três cavaleiros que andavam em companha se partirom de Dalides, quando o derribou Galaaz, nom andarom u~a légoa que acharom u~a furesta que havia em longo u~a jornada e mea. E, depós esto, nom andarom muito que acharom u~a cruz u se partiam Título Fólio 8228b três carreiras. Entam se chegarom os cavaleiros por filhar conselho como fariam, pois que achavam três carreiras partidas; ca a partir lhes convinha porque eram três da demanda. E eles estando a este departimento virom sair da mata a besta desassemalhada, a que rei Pelinor soía a seguir de caça, tempo foi, a que Rei Artur viu quando siia pensando a par da fonte, aquela mesma que em si tragia os cães que ladravam. Título Fólio 8328b [Como Ivam o Bastardo rogou que lhe outorgassem que seguisse a Besta.] Quando a besta chegou aos cavaleiros e eles ouvirom os ladridos bem cuidarom que eram cães que siiam trás aquela besta; mas, pois ouvirom bem e virom que nom ia com ela niu~u~, mas como se ela ia chegando assi se chegando iam mais os ladridos, começaromse a sinar tanto virom a gram maravilha ca bem virom que os ladridos de dentro dela saiam. Galaaz disse entam: – Par Deus, amigos, fremosa aventura e maravilhosa é aquela e semelhame que seria aventurado quem soubesse onde estas vozes saem que aqui jazem ascondidas. – Senhor, disserom eles, verdade é. A besta passou per antre eles. Título Fólio 8328c Entam disse Ivam o Batardo: – Senhor Galaaz, eu vos rogo, pola fé que devedes a rei Artur, que vós da vossa parte me ortorguedes que siga esta besta ataa que saiba donde saem estas vozes. E bem vos digo que nom quedarei ataa que saiba a verdade, se é cousa que eu possa acalçar. E ele e Dondenax lho outorgaram quando virom que tam de coraçom o havia. Depois disse Ivam o Bastardo: – Agora nos convém que nos partamos em senhas carreiras. Título Fólio 8428c Como Galaaz e Dondignax aveerom. Entam se abarçarom e se espedirom e comendaromse a Deus e virom d’outra parte u~u~ cervo todo branco como a neve. E guardavamno quatro liões, os dous diante e os dous detrás. Quando Dondenax e Ivan o Bastardo esto virom, disserom a Galaaz: – Par Deus, bem devemos esto entender por das grandes maravilhas que nunca homem viu, de leões guardarem cer[v]o! E, por quanto eu entendo, quem o cervo quiser haver convém que ante mate os leões. – Se Deus me ajude, disse [Galaaz], nom há i al: bem vos digo verdadeiramente que esta é u~a das aventuras do Santo Graal! E esta aventura me ortorgaredes, se vos aprouguer. E em esta aventura Título Fólio 8428d me trabalharei de grado. Se vos praz, outorgãimolo. – Senhor, de grado, disserom eles, ca bem sabemos que a nom podemos nós acabar tam ligeiramente como vós. E ele lho aguardeceu muito. Título Fólio 8528d Como Galaaz e Dondinax se partirom. Depois que o cervo entrou nas matas por u~u~ semedeiro estreito com tal companha qual vos disse, e Galaaz que se queria partir deles, catarom da outra parte e virom vi~ir sobre u~u~ gram cavalo u~u~ gram cavaleiro armado que era mui grande de corpo e trazia ante si u~u~ cavaleiro armado de loriga e d’elmo, ferido mui mal de muitas feridas. E sabede que era da Mesa Redonda e havia nome Asguare o Triste e era natural da cidade de Cardoi e era bõõ cavaleiro d’armas; e aquel que o trazia era milhor ca el. E se alguém me preguntasse quem era o cavaleiro, eu lho deria que era Tristam, o sobrinho de rei Mars de Cornoalha. E esto fez el porque nom conhocia Asgare. Quando eles esto virom, disserom: – Per bõa fé, bem andantes somos; aqui há três aventuras e nós somos três cavaleiros. Mercee nos faz Deus que enviou a cada u~u~ a sua. E Dondinax disse: – Senhores, cada u~u~ de nós há sua aventura e eu [som] o terceiro e devo haver a terceira. Título Fólio 8529a E por em vos rogo que me outorguedes esta. E eles lha outorgarom. Título Fólio 8629a Como Galaaz se foi polo cervo branco. Entam se encomendarom a Deus e partiromse u~u~s dos outros. E dom Ivam o Bastardo foi atrás a Besta Ladrador e Galaaz depós o cervo por saber verdade de tam gram maravilha. E Dondinax o Selvagem depós dom Tristam por tolherlhe o cavaleiro, se poder. Título Fólio 8729a Mais ora leixa o conto a falar de Dondinax. Ora diz o conto que quando Galaaz se partio de Ivam o Bastardo e de Dondinax o Salvagem, foise depós o cervo o mais asinha que pôde por amor de o acalçar. E nom andou muito e escuitou e viu vi~ir empós ele tam rijamente u~u~ cavaleiro sobre u~u~ cavalo fazendo tamanho arruído como se fossem dez cavaleiros. E se me alguém preguntasse quem era o cavaleiro eu lhe diria que era dom Galvam que ia atrás Galaaz por vingar a morte de Dalides. Mas nom sabia quem era Galaaz, ca em niu~a guisa nom se tomaria com ele. E o escudo que trazia Galaaz, que el nunca vira, o fazia ir contra ele. Título Fólio 8829b Como dom Galaaz chagou Galvam. Quando chegou Galvam a Galaaz deulhe vozes e disse: – Cavaleiro desleal e bravo, guardedevos de mim. Quando Galaaz ouviu que o chamara desleal maravilhouse. E pois que vio que se nam podia del partir sem lidar, tornou a el e ferioo tam rijamente que lhe nom prestou escudo nem loriga que lhe nom metesse o ferro da lança polo costado seestro; mais de tanto lhe aveo bem que a chaga nom foi mortal. E Galaaz, que era de gram coraçom e de gram força, deu com ele em terra tam gram queeda que se nam pôde alevantar. E Galaaz tirou dele a lança sãa e ao tirar esmoreceu Galvam. E el nom no catou mais e leixouo jazer em meio do caminho e foise depós o cervo branco. Título Fólio 8929b Como Boo[r]z foi após Galaaz por vingar Galvam. Galvam jazia arrevesado em no caminho. E entanto aquevos Boorz que chegou i per ventura. E quando vio o escudo de Galvam, conhecêo per i e houve gram pesar ca sempre lhe fezera amor. Entam deitou Boorz em terra a lança e o escudo e disse com gram pesar: – Ai, cuitado! Quem vos fez atal perda? Depois deceu do cavalo e disse: Título Fólio 8929c – Ai, meu Senhor dom Galvam, como vos sentides? Cuidades a gorecer? Galvam abrio os olhos e nom no conhoceu e disse quem era: – Eu som, disse Boorz, u~u~ vosso amigo a que pesa do vosso mal e, por Deus, dizedeme como vos sentides. – E como havedes nome? disse Galvam. – Eu som Boorz de Gaunes, disse el. – Ai, meu Senhor! Vós sejades bem vindo. Certas, eu nom sentiria mal nem ferida se me vós vingássedes do mais bravo e do mais desleal cavaleiro de mundo. E vaise per esta carreira; e vai tam preto que o alcançaredes se o bem seguirdes. E nom no hei tanto por mim como por u~u~ cavaleiro que matou que era, sem falha, o milhor cavaleiro desta terra e havia nome Dalides. Eu cuido que o conhocíades. – Verdade é, disse Boorz, mas, se o eu nom vingar, vingareivos da desonra que vos fez. Agora dizede que escudo traze ca eu nom quedarei ataa que o alcalce. E ele disse que era o escudo branco e a cruz vermelha. Título Fólio 9029c Como dom Galaaz derribou Boorz. Boorz nom atendeu mais e tomou seu escudo e sua lança e cavalgou em seu cavalo e foise per aquela carreira que lhe mostrara Galvam. E nom andou muito quando alcançou Galaaz ante u~a irmida; e ia mui passo e ia cuidando. E tanto que Boorz viu o escudo branco e a cruz vermelha logo o conhoceu Título Fólio 9029d que era o cavaleiro de que se lhe aqueixara Galvam e deulhe vozes: – Dom cavaleiro, tornade. Eu vos desafio, que tanto mo merecestes que vos desamo mortalmente. Galaaz, quando esto ouvio, que se nam podia partir del, tornou e ferio tam bravamente que deu com ele e com o cavalo em terra. E Boorz ficou mal quebrantado da queeda ca o cavalo caiu sobre ele. Título Fólio 9129d Como Boorz foi após Galaaz. Pois Galaaz esto houve feito, nom no catou mais nem lhe disse mais nada, ante se foi em paz depós seu cervo. E, logo que se o cavalo de Boorz alevantou de sobre el, logo se el alevantou como aquel que era de gram força e de gram coraçom. E dês i subiu em seu cavalo como aquel que era de gram força e disse que se nom quitaria assi deste preito ataa que vingasse sua desonra e a de Galvam; ca, se o el trouxera mal de lança, el nom cuidava achar quanto há no regno de Logres que o milhor ferisse de espada que ele. Título Fólio 9229d Como dom Galaaz houvera de matar Boorz. Pois Boorz sobio em seu cavalo, coitouse de acalçar Galaaz. Título Fólio 9230a E a esto foi toste, e disse: – Tornade, cavaleiro; nom digades que me vencestes porque me derribastes ca esto seeria honra [dõada] mas viinde me provar a espada e entam veerei que cavaleiro sodes. Quando Galaaz esto ouviu, que sem seu grado se havia a combater com ele e que al nom podia fazer que a mal lho nom tevessem, meteo mão a espada e disse: – Cavaleiro, torto me fazedes: combater com vosco contra minha vontade. E entam alçou a espada e feriu de toda sua força Boorz, tam esquivamente que lhe talhou o escudo per meio do arçom de diante e o cavalo per meio das espáduas, assi que a metade caiu de u~a parte e da outra em meio da carreira. E Galaaz, quando esto golpe houve feito, disse: – Cavaleiro, bem vos aveeo que nom sodes chagado; e bem me é em, assi Deus me valha, ca bem cuido que sodes bõõ cavaleiro. Agora vos rogo que me quitedes e me leixedes ir. E eu vos quitarei quanta querela de vós hei, o que nom faria se nom quisesse pois que me vós cometestes primeiro. Título Fólio 9330a Como Boorz conheceu Galaaz. Boorz, que foi espantado do Título Fólio 9330b golpe que nom sabia que dissesse, bem conhoceu que aquele era o milhor cavaleiro do mundo, e respondeu: – Senhor, eu vos cometi sandiamente e achome ende mal ca bem vejo que mal e vergonça me ende veeo. E tanto veio per este golpe que sodes o milhor cavaleiro que nunca vi. E por esto querria rogarvos que me disséssedes vosso nome, ca tal podedes seer que vos darei por quite e tal que nom. – Certas, disse ele, amor me fezestes; e por esto quero vossa paz. E por partirme de vosso eixeco vos direi meu nome: Galaaz. E, quando Boorz ouvio o nome de Galaaz, deitou o que lhe ficou do escudo em terra e foi em geolhos a ele e disselhe: – Ai, Senhor Galaaz, por Deus, perdoaime ca vos nom errei se nam per desconhocença. – Quem sodes vós? disse Galaaz, que vos tanto pesa porque me errastes? – Eu som Boorz, disse ele, primo de vosso padre. Quando Galaaz esto ouvio foi mui alegre e deceu do cavalo e foi a Boorz e abraçouo e disselhe: – Senhor, bem sejades vós viindo, que aventura vos trouxe aqui depós mim? E el lhe contou como achara Galvam ferido e como viera após el por vingálo. – Como? disse Galaaz, fiz eu mal a Galvam? – Si, disse Boorz. – A gram torto me cometeo Galvam, disse Galaaz, empero pesame dele que lhe aveeo mal. E, se o eu conhocera, Título Fólio 9330c recear[a]o quanto podesse. Mas agora dizedeme de meu padre: sabedes ou ouvistes novas algu~as, depois que vos partistes dele? – Nom, disse Boorz. Título Fólio 9430c Como Queira matou o cavaleiro ante dom Galaaz. E eles em esto falando, aque u~u~ cavaleiro que vinha contra eles correndo quanto o cavalo o podia aduzer. E, quando chegou a eles, disselhes: – Senhores, havedeme mercee e defendême de u~u~ cavaleiro que sem razom me quer matar. – E quem é? disserom eles; conhocêlo? – Nom, disse el, mas traze u~u~ escudo negro e o liom d’argem. E eles entenderom que era Queia, o Mordomo, e responderom: – Deste nom vos podemos emparar nem defender, senam per bõa palavra, ca é nosso companheiro da Távola Redonda. Eles em esto falando aquevos Queia. E eles estando assi a pee disserom a dom Queia: – Leixade este cavaleiro, que lhe nom façades mal. E Queia nom respondeu nada ao que eles disserom, ante se leixou correr per antre eles e ferio tam feramente que lhe passou o escudo e a loriga Título Fólio 9430d e a lança passou per meo do corpo da outra parte; e metêo em terra atam mal ferido que nom houve mester meestre. E quando Galaaz esto vio disse a Boorz. – Mal nos escarneceu Queia que este homem matou ante nós e é nossa viltança e nossa vergonha. – Senhor, disse Boorz, nom podemos i al fazer ca é nosso companheiro da Mesa Redonda. E se nós em el mão metermos nom serábem por cousa que nos fezesse se nam por perigo da morte, ca seríamos perjurados e desleaes e perderíamos a seeda da Tavola Redonda. E convém que o leixemos. E entam disse a Queia: – Vós nos fezestes desonra maior que nós faríamos a vós. E se vós assi rogãssedesnos assi como nós rogámos a vós, tevéramosvos i vosso rogo. E Queia, que catou o escudo a Boorz, conhecêo e disse: – Ai, Senhor, mercee, ca muito vos errei. Assi Deus me valha, nom vos conhocia; perdoademe! – Queia, disserom eles, perdoamosvos, pois i al nom podemos fazer. Entam tomou Boorz o cavalo do cavaleiro porque era já o seu cavalo morto e o cavaleiro nem havia mester Título Fólio 9431a cavalo. Depois preguntarom a Queia porque matara o cavaleiro. Título Fólio 9531a Como se queixou dom Galaaz contra Queia que matou o cavaleiro. Queia disse: – Eu o matei porque o achei em u~u~ vale u queria talhar a cabeça a Lucam o Copeiro e ferirao mui mal e, sem falha, talharalh’a cabeça, ca o desamava, se eu aquela hora nom chegara. E eu cheguei e vingueio assi como vistes. E bem vos deveria a seer ca vós ganhastes u~u~ cavalo per i que vós nom havíades. Entam catou o golpe que fezera Galaaz no escudo e no cavalo e preguntou a Boorz a verdade. E Boorz lha contou, todo como fora, e el se santificou e disse que de preto nunca tal golpe vira e nom seria sesudo o que atendesse o que tal golpe dava. Ca este golpe nom foi de homem, mas de diaboo. Entam preguntou a Boorz quem lhe dera tal golpe. E el mostroulhe Galaaz. – E como há nome? disse Queia. E Galaaz, que nom quis que o conhocessem: – Queia, disse el, u~u~ cavaleiro estranho som e nom podedes agora mais saber. – Senhor, disse el, pesame, assi Deus me valha, ca vós sodes Título Fólio 9531b o milhor cavaleiro que eu sei. E ele nom respondeu a cousa algu~a que lhe dissesse, ca era mui sanhudo polo cavaleiro que matara ante ele. E, se nam fosse polo amor sem arte e mui sobejo que havia a Boorz, o cavaleiro fora vingado logo sem falha e fora a dano de Queia. Título Fólio 9631b Como Queia foi veer Galvam. Entam preguntou Queia a Boorz: – Vistes algu~u~s, depois, da Mesa Redonda, ou vistes Galvam? – Galvam podedes vós achar a preto daqui ca el há mester nossa ajuda. Entam lhe amostrou u o acharia. E Queia cavalgou em seu cavalo e chegou u Galvam jazia que fazia mui gram doo. E Queia deceu do cavalo a el e preguntouo como se sentia. – Bem, disse ele, se fosse em lugar u podesse haver o sangue estanhado. Pois, que fezestes ao cavaleiro que esto fez? E esto disse el porque cuidava que era Boorz. Entam entendeu Queia que o nom conhocia. E disse: – Senhor, nom sei de qual cavaleiro vós dizedes. Entam abriu Galvam os olhos e vio Queia Título Fólio 9631c [e] disse: – Eu cuidava que érades Boorz que se partiu de mim pouco há por ir depólo cavaleiro que me esto fez. – E que escudo trazia esse cavaleiro? disse Queia. E ele contoulho. – Senhor, disse Queia, eu os achei. – Esta v[e]z nom atendades vós, disse Boorz, ca nom verrá acá. – E sabedes, disse Galvam, quem é este cavaleiro? – Certas, nom, diss’el; pero muito preguntei nom me quis nada dizer da sua fazenda. E pesame muito, nom por al tanto como por u~u~ [colbe] que me disse Boorz que lhe dera. E contoulhe qual. – Ai, disse Galvam, enganado foi hoje. Galaaz é, ou Lançarot ou Tristam, ca nom há outro cavaleiro no mundo que esta maravilha fezesse. E entam lhe tolheu o elmo e desvestiulhe a loriga e chegouo a seu cavalo o milhor que pôde e cavalgou a gram pena. E ele lhe levou as armas e cavalgarom tanto que chegarom a u~u~ mosteiro que fezera rei Artur quando começou a regnar. E, tanto que chegarom ao mosteiro, saírom os monges que o receberom mui bem e pensaromlhe mui bem das chagas. E sabede que foi preto de dous meses ante que podesse filhar armas. Título Fólio 9731c Mais ora leixa o conto a falar de Galaaz e torna a Ivam. Ora diz o conto que pois Ivam o Bastardo se Título Fólio 9731d partio de Galaaz e de Dondinax por ir depóla Besta Ladrador, andou todo aquel dia sem aventura achar que de contar seja. E chegou esse dia noite a casa de u~u~ irmitam u houve mui pouco viço. E nom houve de comer senam ervas, que colhera o homem em sua horta que tinha, e beveu daquela água da fonte, depois que comeu daquelo que teve. E o homem bõõ lhe preguntou onde era e ele disse ende a verdade. – E que aventura, vos adusse aqui, a tam estranho lugar e tam longe? disse el. – Eu vos contarei a verdade. Eu andei depóla Besta Ladrador e ando, ataa que saiba onde saem os ladridos; e depois que soubesse que vozes eram aquelas que dela saiam nom iria após ela mais. Quando o homem bõõ esto ouviu mergeu a cabeça e corriamlhe as lágrimas polas faces. E bem fazia contenente de homem triste e pensou gram peça e disse: – Ai, Senhor, vós ides por vossa morte e aquela besta que vós buscades é besta do diaboo. E aquela besta me fez tanto dano donde me sempre doerei , ca eu havia cinco filhos mui fremosos e os milhores cavaleiros desta terra e, tanto que virom a besta, assi como vós a vistes, ouverom Título Fólio 9732a sabor de saber o que vós em queredes saber e meteromse a buscála, assi como vós agora fezedes; e eu entam era cavaleiro andante, assi como vós agora sodes, e andava com eles. Título Fólio 9832a Como o irmitam contou a Ivam a maravilha da besta. U~u~ dia aveo que estávamos a cabo de u~a água e vimos a besta cercada de todas partes assi que nom podia escapar em niu~a guisa. E o milhor de meus filhos tiinha u~a lança e estava mais preto dela ca seus irmãos. E o me~or de meus filhos lhe deu vozes: – Feridea, feridea, e veremos que traz no corpo onde estas vozes saem E ele creeu seu irmão e os outros que assi diziam e ferioa pola coixa seestra, ca lhe nom p[ô]de alhur dar. E quando se ela assi sentio ferida deu u~a voz mui espantosa, tanto que era maravilha. E pois que deu a voz, saiu da água u~u~ homem mais negro que o pez e seus olhos vermelhos como as brasas; e aquel homem tomou a lança com que a besta foi ferida e ferio aquel meu filho que a ferira de tam gram ferida que o matou. E depois ao outro; dês i, ao terceiro; dês i, ao quarto; Título Fólio 9832b dês i, ao quinto. E depois meteuse na água de guisa que depois nunca a vi. Esta coita que vos digo me aveeo em u~a hora per aquela besta depós que vós ides. E pois que vi que nom podia i mais fazer fiz meus filhos aqui aduzer e fizeos todos cinco em u~u~ muimento meter, em u~a capela que aqui está, e por amor deles fiquei aqui e leixei os viços e as requezas do mundo e quero já sempre servir a Deus por eles e por mim. – Esto vos conto, disse o irmitam, porque vos daria por conselho que nom fôssedes buscar a besta. E, se vós entrastes na demanda por folia, quitadevos ende por cordura ca, assi Deus me aconselhe, eu espero de vós ende mais a morte ca a vida ca esto nom é cousa de Deus mas do diaboo. – Certas, disse Ivam o Bastardo, pois que a comecei nem me farei afora, ca mo retraeriam os que sabem e mais querria morrer ca leixála assi. – Vós faredes i vossa vontade, disse o homem bõõ, e nom cuido que vos ende bem venha. Título Fólio 9932b Como o irmitam disse a Ivam que lhe nom diria u acharia a besta. Aquela noite jouve Ivam o Bastardo com gram pesar daquelo que lhe o homem bõõ Título Fólio 9932c dissera, ca era cousa que o fazia muito espantar e fazer afora da demanda. E pero bem que sabia que se fosse na côrte nunca haveria honra se se quitasse. Manhãã, tanto que ouviu missa, cavalgou e comendou a Deus o homem bõõ e disselhe: – Por Deus vos rogo que me digades u acharei mais asinha a besta. – Par Deus, amigo, esto vos nom amostrarei ca, se volo amostrasse, amostrávoia por vossa morte. – Senhor, disse Ivam o Bastardo, pois que mo nem queredes dizer, comendovos a Deus que vos mantenha em seu serviço. Entam se partiu dele e foise u aventura o aguiasse, como aquel que nom sabia u [a] acharia. E assi andou de u~a parte e da outra ataa que achou u~u~s home~e~s que guardavam vacas e preguntoulhes se virom a besta desassemelhada e contoulhes qual. – Nós sabemos bem o que demandades: vós demandades a Besta Ladrador. Ide acima daquela montanha e acharedes u~u~ campo e em aquele campo acharedes u~a grande árvor e sob aquela árvor u~a fonte grande; e sob aquela árvor a par daquela fonte, soe ela vi~ir folgar Título Fólio 9932d e eu a vi vi~ir i pouco há. Título Fólio 10032d Como Ivam foi chagado do cavaleiro da besta. Quando Ivam esto ouviu foi mui alegre e foi acima aa montanha e, quando chegou aa árvor, vio sob ela u~u~ cavaleiro armado de todas armas e sobre bõõ cavalo; e trazia consigo #XXX canes mui fremosos e bõõs a semelhar. – Amigo, disse Ivam o Bastardo, saberm’íades dizer novas da Besta Ladrador que aqui soe a vi~ir? Entam lhe disse o cavaleiro: – E porque a demandades vós ou que lhe queredes? – Querria[a] de grado achar, disse Ivam o Bastardo, de que a ando buscando e nom na hei de leixar ataa que saiba a maravilha dela. – Certas, disse o cavaleiro, vós sodes sandeu e neicio é o que se de tal demanda trabalha, ca tal demanda como esta nom é pera vós. Muito há i mester milhor cavaleiro ca vós; e eu, que som o mais nomeado cavaleiro desta terra, andei depós ela mais de #XII anos com tantos caes como vós aqui veedes e nunca a pude prender nem matar nem saber mais do que vós sabedes dela. Título Fólio 10033a E vós sodes cavaleiro estranho e soo lhe cuidades dar cima? Certas, gram folia buscades. – Qual folia quer que seja, disse Ivam o Bastardo, a mim teer me convém pois que o comecei. – Na demanda, disse o cavaleiro, nom vos metades mais, ca eu volo defendo. Ca, certas, nom sodes de tal poder nem de tal bondade que tam alta demanda devades mais a teer. E mais vos digo, que fôssedes o milhor cavaleiro do mundo, nom vos sofreria que fôssedes depós minha caça que eu mantive tam longo tempo em que sofro tanta coita e tanto trabalho. Ante me combateria com vosco atee morte e, se me matássedes, siguissedes a caça; mas, enquanto eu viver, nom volo sofrerei a vós nem a outro. – Esto nom me podedes vós vedar, disse Ivam o Bastardo, nem me podedes tolher que a nom mate e que nom vaa depós ela; e, se a acho em lugar que a matar possa, matálaei. – Esso faredes por mui gram vertude, disse o cavaleiro. Aa bõa fé, ante vos cortarei a cabeça que i mais façades. – Assi? disse dom lvam o Bastardo, agora sabede que o nom leixarei por vós. – Nom? disse, pola minha cabeça, si faredes. Entam se leixou correr Título Fólio 10033b a ele quanto o pôde o cavalo levar e ferio tam feramente que lhe falsou o escudo e a loriga e metêlhe a lança polos peitos. Mas aveeolhe bem que nom foi a chaga mortal e lançouo em terra do cavalo e em caer quebroulhe lança e ficou o ferro em ele. E, depois que o houve em terra, disse: – Senhor cavaleiro, agora me leixaredes minha caça; al de meos este mês nom poderedes ir buscála. Assi Deus me valha, se vergonha nom fosse talharvosia a cabeça porque fostes começar cousa que nom era pera vós. Título Fólio 10133b Como o cavaleiro da besta chagou Gilfret. Eles esto falando aquevos a besta que veeo aa fonte pera bever. E tanto que a os cães virom foram a ela pera matála. E quando ela vio água mal parada começou de fugir. E Glifet, que entam chegara, quando a vio começou de ir após ela. E, quando a vio decer pola montanha e os cães após ela, começouse a sinar pola ligeirice que lhe viu. Onde o disse depois em Camaalot a rei Artur que lhe demandava as novas: – Senhor, quando a seeta sae da beesta nom vai tam toste como a eu vi correr. Quando Título Fólio 10133c Glifet vio a caça começada, começou ir empós ela e deu vozes aos cães e arriçavaos. E, quando o cavaleiro deceu da montanha e viu esto, nom lhe aprouve ende ca lhe semelhava que lhe queria tolher sua caça, e disselhe: – Tornadevos, seriam sodes morto! E Glifet nom se quis tornar por el, ca muito desejava dar cima aaquela caça. Quando o cavaleiro vio que se nam tornava semelhoulhe que o nom fazia por desdém, que o nom prezava tanto que se por ele quisesse tornar. Entam meteu mão aa espada e leixouse ir a ele. E o cavaleiro era grande e arrizado e ensinado feramente de gram bondade de armas; e feriu Glifet per cima do elmo tam rijamente que meteo toda a espada per ele, assi que lhe levou o quarto da cabeça ataa o testo e, ao tirar da espada, caiu Glifet em terra atordoado que nom sabia de si parte nem se era noute nem se era dia. Quando o cavaleiro o vio em terra, disse: – Agora leixaredes minha demanda, ca a fazer vos convém. E mais vos valera ir veer vosso companheiro que jaz em na montanha. Esto dizia porque presumia que era de casa de rei Artur. E, depois que esto disse, foi depós a besta e leixou Glifet jazer em terra. Título Fólio 10233d Como Gilfret foi veer Ivam o Bastardo. Assi se foi o cavaleiro depós a besta, que bem mostrou aos dous companheiros da casa de rei Artur que niu~u~ nom querria que fosse depós a caça. E quando Glifet se alevantou foi a seu cavalo e cavalgou em ele e esmou que iria aa montanha u o outro cavaleiro jazia. E assi o fez. Foi aláe achou Ivam o Bastardo que se vinha já e que tirara já o ferro de si. Mas perdera tanto do sangue que se espantava como nom era morto. E pero, quando conhoceu Glifet, foi mui alegre e esforçado, tanto como se fosse são. E disselhe: – Amigo, bem venhades. E Glifet deceu e foi pera ele e preguntouo como lhe ia. – Mui mal, disse el, ca bem cuido que som chagado aa morte, ca som ferido per meo dos peitos, de u~a lança. E ele esto dizendo caeu em terra esmorido polo sangue que lhe caeu muito. E quando esto vio Glifet pesoulhe muito ca, sem falha, Ivam o Bastardo era dos arrizados cavaleiros que havia em casa de rei Artur. E, se tam arrizado fosse do corpo como de braços, aa maravilha seria prezado. Daquela ferida jouve Ivam o Bastardo Título Fólio 10234a três meses que nom pôde cavalgar. E jouve em u~u~ mosteiro que era de donas, em essa montanha. E Glifet, que nom era tam mal ferido, nom jouve senam #XV dias. E, quando pôde cavalgar, entrou em essa demanda como ante. Título Fólio 10334a Mais ora leixa o conto a falar de Gilfret e torna a Dondignax. Diz o conto que, quando Dondinax se partiu de Galaaz e de Ivam o Bastardo, foise empós Tristam. Mas Tristam nom iia seriam a passo, ca iia o cavalo a passo com o levar taes dous cavaleiros. E sabede que nom era o seu cavalo, que chamavam Bastardo, ante era outro, porque Tristam iia passo. E Dondenax iia toste e acalçouo. E quando chegou a el nom no conhoceu, ca el havia aquel dia quebrantado o escudo e leixarao em u~u~ tendilham que nom era longe dali. Esto foi porque o nom conhoceo. E deu vozes a Tristam: – Cavaleiro, leixar vos convém o que levades ca nom havedes i direito, assi como eu cuido. E se o nom poderdes, ferirvosei desta lança e a perda e desonra toda serávossa. Título Fólio 10434b Como Tristam conhoceu Dondignaos e Asgare o Triste. Quando Tristam esto ouvio que lhe o cavaleiro dizia, embraçou o escudo e meteo a espada na mão e tornou a ele. E Dondinax lhe deu u~u~ mui gram golpe da lança que lhe falsou o escudo e quebrantoulhe a lança em meio dos peitos, mas outro mal lhe nom fez nem no moveo da sela. E Tristam, que era muito arrizado, ferio per cima do elmo tam rijamente que o lançou em terra esmorido que nom soube se era morto se era vivo; mas outra ferida lhe nom fez. Mas pero foi a ferida que lhe saiu o sangue polos olhos e polos narizes e pola boca. E pois que foi em terra, Tristam o catou e conhoceo e houve gram pesar e bem cuidou que o matara e, se fosse morto, ca perderia per i a seeda da Tavola Redonda se lho soubessem e seria períurado. Entam deceo e atou o cavalo a u~a árvor e foi a el e tolheulhe o elmo da cabeça. E, quando o vio tam mal treito, houve gram pesar. E quando Dondinax se vio alivado do elmo levantouse e alimpou os olhos que tiinha cheos de sangue. E Tristam lhe disse: – Amigo, como vos sentides? E el o catou e quando Título Fólio 10434c o vio a pee o nom conhoceu e disse a Tristam: – Porque vos pesa ora muito? E quem sodes vós? disse Dondinax. – Eu som Tristam, vosso companheiro da Mesa Redonda, que me pesa aa maravilha porque vos meti mão. E sabede que, se vos conhocesse, nom há no mundo homem nem cousa per que eu vos metesse mão. – Senhor, disse el, pois vós sodes Tristam eu vos perdoo de todo coraçom. E Tristam tolheu o elmo e ficou aos geolhos ante el e pediulhe mercê. E Dondinax lhe perdoou e el tomouo pola mão e levantouo. Título Fólio 10534c Como Tristam rogou a Asgare e a Dondinaos que lhe perdoasse. Quando Asgares o Triste, que mal ferido era a maravilha, viu o escudo de Dondinax, conhocêo e conhoceo Tristam e, tanto que o elmo tolheu, foi mui alegre ca bem vio que eram ambos companheiros da Mesa Redonda. Entam se ergueu e foi a eles e disse: – Dom Tristam, vós me fezestes mal a torto e nom no devíades a fazer. Entam tolheu o elmo Dondinax e conhecêo e levantouse a el logo e abraçouo e disselhe: – Amigo Asgares, vós sejades bem vindo. E como vos sentides? Disse el: – Bem, aa mercee de Deus, mas a poucas me matara dom Tristam, que aqui está, e por Título Fólio 10534d mui pouco d’erro. E quando Tristam entendeu que era da Mesa Redonda houve tam gram pesar que nom pôde maior. E chamavase cativo e astroso; e disse que ja mais nom haveria honra e que nom na devia d’haver, como aquele que era perjurado e desleal contra os da Mesa Redonda. E foi a seu cavalo e subio em ele e foise correndo quanto o cavalo [o] pôde levar e fazendo tam gram doo como se tevesse ante si morto a cousa do mundo que mais amasse. E os outros, que de su~u~ ficavam, quando virom ir Tristam assi, fazendo tam gram doo e ir tam toste como se corressem empós ele, [maravilharomse] muito. E Dondinax disse a [Asgares]: – Agora podedes veer o bõõ talante e a mesura do cavaleiro. E bem podedes creer que lhe pesara se vos errasse sem razom. Quando pola desconhocença assi faz el, assi lhe pesa, ca nunca homem vio ir cavaleiro com tam gram pesar. Mas u vos achou el ou como aqueceu esta sanha antre vós e ele? – Certas por mui pouca cousa, e direivos como foi, se quiserdes. Título Fólio 10634d Como Asgare o Triste contou sa rezam. “[A]qui preto havia u~a donzela Título Fólio 10635a em u~u~ castelo que me queria gram bem, gram tempo há. Mas porque amava eu outra dona mais rica e mais fremosa nom queria eu fazer nada do que me ela demandava. E hoje em este dia me aveeo que passava per ante aquele castelo e saio a mim u~u~ cavaleiro armado de todas armas e disseme que entrasse aláca a donzela queria falar comigo. E eu nom quis alá tornar. E quando el viu que nom queria tornar, desfioume; e, ante que me muito alongasse, combateose comigo e aveo assi que o matei e dês i fuime. E ante que fosse longe daquel lugar vi vi~ir dom Tristam empós mim; e, se eu cuidasse que era ele, nom fora assi o preito como foi. E ele me rogou que tornasse, mas eu nom quis tornar por seu rogo, ca o nom conhocia. E começámos nossa peleja antre mim e ele; mas esta foi toste acabada, ca contra ele nom durei nada, e aparelhoume tal qual vós veedes e poseme ante si como vistes e levavame ante si. E levarame a[a] donzela, se vos ambos nom achárades, e mais quisera seer morto ca me levar alá”. – E sodes mal ferido? disse Dondinax. – Si, disse Título Fólio 10635b Asgares. Mas bem cuidaria a gorecer se em lugar fosse que me catassem as feridas. – Eu vos levarei, disse Dondinax, u possades guarecer. Aqui preto háu~u~ meu amigo e meu parente que vos fará todo bem que vos fazer puder. – Pois nom há i mais, disse Asgares. Entam calvalgarom ambos no cavalo de Dondinax, e foromse pera casa do cavaleiro. Título Fólio 10735b Como Galaaz e Boorz forom ataa a companha. Quando se [Queia] parti[u] de Galaaz por ir a Galvam, Boorz cavalgou no cavalo do cavaleiro que i matara e leixou o cavaleiro morto em meio da carreira. E nom lhe quis al tomar ergo o cavalo e pois entrarom no campo, disse Boorz a Galaaz: – Muito me praz que vos achei ca muito cubiçava vossa companha em esta demanda; e nom me partirei de vós ataa que a ventura nos parta. E Galaaz disse que lhe prazia de coraçom. – Senhor, disse Boorz, contra qual parte queredes vós ir? – Assi Deus me valha, disse Galaaz, nom sei, Hoje manhãã éramos três companheiros da Távola Redonda; eu e Ivam o Bastardo e Dondinax o Salvagem. E aveonos que achámos u~as encruzilhadas. E, [onde] nos queríamos Título Fólio 10735c partir, aveeonos três aventuras mui maravilhosas. E disse entam quaes eram. – E pois nos partimos tomou cada u~u~ sua. “Per esta carreira, disse eu, quero ir. Ca per aqui se vai o cervo que os quatro liões guardam!”. Título Fólio 10835c Como Galaaz e Boorz foram hóspedes delrei Brutos. Quando Boorz esto ouvio, disse: – Assi Deus me valha, bem aventurados fostes, ca peça há que nom ouvi que três aventuras taes aveessem. E de taes, quaes eu ouvi contar, prouvesse a Deus que aqueecesse eu i quando a vós acabássedes. – Nom sei, disse ele, se vós seredes i; senam d’oi mais nom quedarei buscálo se minha aventura nom tolhe, ataa que eu saiba a verdade do que quer significar. Assi andarom falando todo aquel dia. E depós vésperas, quando começava a noitecer, aveeo que acharom u~u~ castelo em u~u~ chão pequeno. E havia nome Castel Brut, por amor de Brutos que o fezera. E este castelo esbulharom os de Troia e o destroírom, quando os Troiãos foram deitados polos Gregos e quando foram deitados por Elena a mui fremosa. Título Fólio 10935d Como a filha delrei Brutos começou a amar Galaaz. Aquel castelo havia nome «Brut» e era bem assentado, se houvesse abastamento d’água. E o senhor daquel castelo era rei e havia nome Brutos, por amor daquel que o poborara primeiro. E sabede que o senhorio daquele castelo se estendia a todas partes u~a jornada. Aquel Brutos que entam reignava era u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo e mui rico aa maravilha; e havia muito conquerido per sua cavalaria e havia u~a filha de #XV anos que era a mais fremosa donzela de regno de Logres. E aquela sezom que os cavaleiros vierom estava elrei accostado a u~a freesta em seu paaço. E quando os vio assi armados vi~ir e sem companha conhoceu que eram cavaleiros andantes e foi mui alegre com eles, ca muito amara sempre cavalaria e aqueles que se trabalhavam dela. Entam lhe enviou dizer per dous cavaleiros que viessem com ele pousar, ca nom queria que pousassem com outrem. Quando Galaaz e Boorz ouvirom seu mandado, teverom que era ensinado Título Fólio 10936a a bõa barba e guardeceromlho muito e foramse com os cavaleiros. E, depois que foram dentro e foram desarmados, elrei fezeos assentar a par de si e fezlhes muita honra e começoulhes a preguntar das suas fazendas. E eles disserom já que dalgu~as cousas. E a filha delrei Brutus, que era mui fremosa cousa, catou mui gram peça Galaaz e semelhoulhe tam fremoso e tam bem talhado que o amou de coraçom, que nunca amou cousa do mundo tanto, que nom partia del os olhos. E quanto o mais catava, mais se pagava del e o mais amava. Título Fólio 11036a Como a ama preguntou aa donzela porque chorava. Assi amou a donzela Galaaz, pero nunca o vira nem soubera que cousa era amor. E catava Galaaz e prezavao tanto em seu coraçom, mais que todalas cousas e que nunca mulher homem prezou. E por esso lhe semelhava que se o nom houvese a sua vontade que morreria. E por esto o cuidava ela acabar mui ligeiramente ca o cavaleiro era mui mancebo e mui fremoso. E ela cuidava que de grado se outorgaria em tal cousa, porque Título Fólio 11036b ela era das fremosas mulheres do regno de Logres, e esto a confortava que era ele cavaleiro mancebo. E por aquesto o cuidaria acabar mais toste seu desejo. Mas era em seu coraçom tam triste que, se fezesse algu~a infiinta que o queria amar, que lhe seria a mal teu´do se lho soubessem; e se algu~a cousa nom fezesse como houvesse aquelo que desejava que o nom poderia sofrer. Esto cuidou a donzela enquanto seu padre siia falando com os cavaleiros. E, depois que cuidou tanto que nom pôde mais, foise pera a camara e leixouse cair em seu leito e começou a fazer tam gram doo como se tevesse seu padre morto ante si. Pero nom dava vozes, mas chorava tam de coraçom que maravilha era. E ela assi fazendo seu doo entrou sua ama, que era dona de gram guisa que a criara de pequeno e a amava tanto como se fosse sua filha. E quando ela vio a donzela tam de coraçom chorar maravilhouse que era. E disse: – Ai, Senhora! Que havedes? Fezvos alguém algu~u~ pesar? Dizede, minha senhora, porque chorades e eu vos porrei i algu~u~ conselho, ca ja mais nom serei leda em mentre vós fordes triste. E a donzela nom lhe quis dizer porque chorava. E ela começoua a confortar, e disselhe: – Em todalas Título Fólio 11036c guisas, dizeme que havedes e donde vos vem este pesar. E a donzela calouse e leixou jáquanto seu dito. E disselhe a ama: – Se me nom dizedes o que havedes, eu o direi a vosso padre. Pero será milhor que mo digades ca, se cousa é de cobrir, nom hajades medo que vos eu descobra nunca. Título Fólio 11136c Como a donzela prometeu a sua ama que nom amaria Galaaz. Quando a donzela vio que a sua ama o queria dizer a seu padre foi muito espantada, ca havia mui gram medo, ca era mui bravo e de forte coraçom. – Ai, dona, por Deus, disse ela, nom vaades; ante vos direi o que me preguntastes, mas per tal preito que me nom descobrades. – Nom hajades medo, disse ela, ca pois é cousa d’encobrir, eu vola encobrirei mui bem. Entam disse a donzela: – Eu amo tanto u~u~ destes cavaleiros andantes que aqui som que, se o nom houver aa minha vontade, que nom chegarei a cras ante me matarei com minhas mãos. Quando a dona esto ouviu houve tam gran pesar que nom soube que fezesse, ca bem sabia que, se a donzela o cavaleiro houvesse aa sua vontade, que nom podia seer que o elrei nom Título Fólio 11136d soubesse, que tarde ou cedo; e quando o soubesse, que o cavaleiro com ela era, ele era tam bravo que mataria a donzela e quantos a i ajudassem. Título Fólio 11236d Como a ama [seso disse] aa donzela. Entam lhe disse a dona: – Vai, cousa sandia a mizquinha e cativa, que é esto que me dizes? Ou hás o sem perdido ou és encantada, que és donzela de gram guisa e és tam fremosa e metes teu coraçom em u~u~ tam pobre cavaleiro estranho que nom conheces? E, se esta noite aqui for, nom fará aqui de manhãã nem ficará aqui por lhe dar teu padre toda sua terra. Guarda o que dizes e o que pensas e o que te poderávi~ir. Vai, cousa sandia, e como ousaste esto pensar? Certas, se o teu padre souber, todo o mundo nom te poderá valer que te nom talhe a cabeça. Quando a donzela esto ouvio foi tam espantada que bem quisera seer morta, ca do cavaleiro nom podia tolher o coraçom em niu~a guisa, ante se trabalharia d’haver em toda guisa o que pensava. Er desconfortavaa muito a braveza de seu padre. A donzela, que em duas Título Fólio 11237a cousas pensava, chorava todavia. E quando falou, disse: – Ai! estrosa, cativa e a mais maldita cousa do mundo, maldita seja a hora em que eu naci! – Ora me dizede, disse a ama, semelhavos bõõ conselho o que vos dei, de tolherdes vosso coraçom daquel cavaleiro? – Si, disse ela, a quem no podesse fazer de seu coraçom o que quere. – Convém, disse ela, que o façades, se escarnida nom queredes seer. – Dona, disse ela, eu o farei, pois que vejo que al nom se guisa de ora seer. Título Fólio 11337a Como a donzela falava consigo em amor de Galaaz. Assi disse a donzela por se encobrir, mas al tiinha no coraçom e al mostrou aquel serão. Pois que se ambos os cavaleiros deitarom em u~a câmara, a donzela, que bem cuidava que já dormiam e que sabia o leito de Galaaz, ela saiu de seu leito em camisa empero mui vergonhosa e com gram pesar de que havia de fazer contra sua vontade o que lhe amor mandava, ca por sua maa aventura tiinha a donzela de rogar o cavaleiro. E pois ela veeo a[a] câmara u eles jaziam entrou dentro e foi tam espantada Título Fólio 11337b que nom soube que fazer e pero tornou em seu primeiro pensar que lhe o amor conselhava. E esforçouse tanto contra sua vontade que foi a Galaaz e ergueo o cobertor e deitouse a cabo dele. E Galaaz que dormia mui feramente polo trabalho que houvera, nom se espertou. Quando a donzela viu que dormia nom soube que fezesse ca, se o espertasse, terria[a] por sandia e que assi soia fazer aos outros que i viinham e haveria ende maior espanto e maior sanha quando visse que se assi denodava sem rogo. Entam disse antre si a voz baixa: – Cativa, escarnida som e arrafeçad[a] e jamais nunca haverei honra de rem que faça quando per meu pecado e per meu feito e sem rogo me vi~a deitar com este cavaleiro estranho que nom sabe rem da minha vida. Depois disse: – Ai, cousa sandia e neicia que e esto que tu dizes? Tu nom poderás fazer cousa por este cavaleiro que te seja vergonha nem desonra. E ela cuidava que, pois se ela ia deitar a par dele, que el comprisse Título Fólio 11337c seu coraçom. E em niu~a guisa nom cuidava, pois que ela era atam fremosa e de tam gram guisa, que el tam vilão fosse que nom comprisse sua vontade. Entam se chegou a ele mais que ante e pôs mão em ele mui passo pelo espertar. Mas quando sentiu a estamenha que o cavaleiro vestia – ca sem estamenha nunca ele era, noite nem dia – ela foi tam espantada, que disse logo: – Ai, cativa, que é esto que vejo? Nom é ele cavaleiro dos cavaleiros andantes, que dizem que sam namorados, mas é daqueles que a sua vida e a sua lidice é sempre em penitência, pola qual lhes vem gram bem pera o outro mundo e perdoa Deus aaqueles que erro houverem feito contra ele. E per niu~a rem, disse ela, nom posso eu acabar com ele o que querria. E, como quer que este cavaleiro seja ledo pera parecer, grande é o marteiro da sua carne; mas mostra bem que o seu coraçom pensa em al. [T]al a minha carne mizquinha cativa hei quanto pensava. E este é dos verdadeiros cavaleiros da demanda do Santo Graal e em mal ponto foi atam fremoso por mim. Entam começou a chorar e fazer seu doo o mais baixo que ela pôde, que a nom ouvissem. Título Fólio 11437d Como dom Galaaz achou a donzela com sigo no leito. A cabo de u~a peça espertouse Galaaz e tornouse contra a donzela, e quando a sentiu, maravilhouse e abrio os olhos. E quando vio que era donzela espantouse e foi sanhudo muito e fezese afora dela quanto lhe o leito durou. E sinouse e disse: – Ai, donzela, quem vos enviou acá? Certas, mau conselho vos deu; e eu cuidava que d’outra natura érades vós; e rogovos, por cortesia e por honra de vós, que vos vaades daqui ca, certas, o vosso fol pensar nom catarei eu, se Deus quiser, ca mais devo dultar perigoo da minha alma ca fazer vossa vontade. Título Fólio 11537d Como a donzela ameaçava Galaaz. Quando a donzela esto ouvio houve tam gram pesar que nom soube que fezesse ca a resposta de Galaaz, que ela amava sobejo, lhe fez perder o sem e lhe fez perder todo o coraçom. E el lhe disse: – Ai, donzela, mal conselhada sodes! Metede mentes em vossa fazenda, e catade a alteza do vosso linhagem e de vosso padre e fazede que nom prendam desonra per vós. Quando a donzela esto ouviu respondeu como molher fora do sem: – Senhor, nom há i mester al, pois que me tam pouco preçades Título Fólio 11538a que em niu~a guisa nom me queredes se nam matarme. E a morte é migo cedo, ca me matarei com minhas mãos e haveredes ende maior pecado ca se me tevéssedes i com vosco, ca vós sodes razom da minha morte e vós ma podedes tolher, se vós queredes. E Galaaz nom soube que dissesse, e disse a`donzela que, se se matasse como dizia e per tal razom, bem entendesse que nom daria el rem por sua morte; e de outra guisa lhe disse ca se fosse a mais fremosa que Nosso Senhor fezesse el nom cataria mais por ela. E disselhe ca mais lhe valeria de estar em virgindade ca, se lhe os outros fezessem tanto como ele, bem poderia seer que morreria virgem. E a donzela, que era toda como tolheita, quando viu que nom poderia de Galaaz haver seu prazer, disse: – Como, cavaleiro, todavia queredes seer tam vilão que me nom queredes al fazer? – Nom, disse el, bem vos digo e bem seede em seguro. – Por bõa fé, disse ela, esto será folia, ca morreredes por em ante que daqui saiades. – Nom sei, disse el, o que será, mas, se esso fosse, ante eu querria morrer fazendo lealdade ca escapar e fazer torto, o que nom querria. Título Fólio 11638a Como a donzela se matou por amor de Galaaz. Título Fólio 11638b Depois que esto ouvio, nom atendeu mais, ante saiu do leito e foi correndo a[a] espada de Galaaz, que pendia a[a] entrada da porta da câmara, e sacoua da bainha e filhoua a âmbolas mãos e disse a Galaaz: – Senhor cavaleiro, veedes aqui o engano que havia nos meus primeiros amores. E mal dia fostes tam fremoso que tam caramente me converrácomprar vossa beldade. Quando Galaaz vio que ela já tiinha a espada na mão e que se queria ferir com ela, saio do leito todo espantado e deulhe vozes: – Ai, bõa donzela! Sofrete u~u~ pouco e nom te mates assi ca eu farei todo teu prazer! E ela, que era tam cuitada que nom poderia mais, respondeo per sanha: – Senhor cavaleiro, tarde mo dissestes. Entam ergueu a espada e feriose de toda sua força per meio do peito, de guisa que a espada passoua de u~a parte e caeu em terra morta que nom falou mais cousa. Título Fólio 11738b Como Boorz se maravilhou. Quando Galaaz esto vio foi tam espantado que era maravilha e vestiose o mais toste que Título Fólio 11738c pôde, e saio do leito e disse: – Ai, Santa Maria! Que é esto que vejo? A esto se espertou Boorz e saí do leito e disse – Senhor, que é esto? – Par Deus, Boorz, disse Galaaz, esta é a maior maravilha que vós nunca vistes. Esta donzela se matou em dõado com minha espada. Quando Boorz esto ouvio, disse: – O diaboo lho fez fazer. Ora nom sei que façamos ca seu padre nom nos creerá, ante dirá que a matámos. – Nom vos dedes a atam gram coita, disse Galaaz, ca Deus é direito e nos ajudará. Assi aveeo aa donzela, como vos eu conto, que se matou por amor de Galaaz. Cabo daquela casa u a donzela jazia morta, jaziam duas donas doentes. E quando ouviram o que os cavaleiros diziam, sairom dos leitos em camisas e foram alá. E quando virom a donzela morta, começarom u~u~ doo atam grande que era mui gram maravilha. Título Fólio 11838c Como rei Brutos saio a volta. Elrei, que jazia em sua câmara peça alongada dali, quando ouviu a volta, ergueuse todo espantado e foi alá. E quando achou sua filha jazer morta foi mui sanhudo e disse: – Ai, Deus! Quem fez este dano? – Senhor, disserom os que i estavam, quem volo poderia fazer se estes cavaleiros nom que a oitem Título Fólio 11838d convidastes? –– Ai, disse elrei, morto me ham. Prendedemos, ca ja mais nom seerei ledo ataa que prenda deles vingança tal qual me for julgada per minha corte. Quando Boorz esto ouvio nom lhe morreo o coraçom, como aquele que era muito esforçado e que fora já em muitos perigos. E Boorz foi aa espada e tiroua da bainha e disse a Galaaz: – Senhor, filhade vossas armas e pensade de vos defender, ca me semelha ca vos é mui mester. E eu vos defenderei ataa que vós sejades armado. Galaaz foi correndo aas suas armas, que estavam ante seu leito, e armouse o milhor e o mais toste que pôde. Entam quiserom eles cometer logo Boorz e quiseromno prender; mas nom poderom ca el se defendeo tam maravilhosamente com sua espada que lhes talhava as cabeças e os braços e derribava u~u~s acá e outros aláe limpou tam bem a câmara deles que, a pouca d’hora, nom ficou i outrem afora eles ambos e o corpo da donzela, fora se foi cavaleiro morto ou mal chagado que nom pôde sair. Pois esto houve feito, çarrou muito bem a porta da câmara e foi filhar suas armas e armouse mui bem. E dês que foram mui bem armados ambos, disse Boorz a Galaaz: – Maa ventura foi desta donzela, que se assi matou Título Fólio 11839a . A poucas d'horas haveremos comprar sua morte caramente. E pero pois vos eu vejo já armado nom hei deles pavor niu~u~. – Se Deus quiser, disse Galaaz, nós sairemos daqui sãos, assi como El sabe que nós nom havemos culpa em na morte desta donzela. Entam tirou dela a espada e alimpoua do sangue. E depois foi aa porta da câmara e disse: – Nós nom avemos aqui por seer presos. E el abrio as portas e foramse ambos ao paaço. E os outros, que estavam ja armados polos combaterem na câmara, quando os virom consigo tam vivamente sair e já guisados de ferirem e de se defenderem, foram todos espantados, ca todos diziam “Lume!”. E o lume era mui grande na casa, ca todos aduziam candeas e quem fachas acesas. E elrei, que já estava armado, quando vio aqueles que no paaço estavam, que nom eram fora dous e que atendiam aqueles todos que no paaço eram, que bem passavam per cincoenta armados, maravilhouse que podia seer e entendeu que eram os milhores dous cavaleiros que nunca vira. E ou eram os chus sandeus. E elrei, que era mui boo cavaleiro e muito ardido feramente, disse a seus home~e~s que se fezessem afora ataa que falasse com aqueles cavaleiros. Título Fólio 11939a Como elrei e Boorz se razoavam por sa filha. Título Fólio 11939b Entam se meteo elrei diante e disse: – Cavaleiros, rezom hei de me aqueixar de vós que em minha casa, u vos eu recebera mui bem por honra da caval[aria], me matastes minha filha. Certas, muito me pesara se deste aleive nom hei vingança aa minha vontade. A esto respondeu Boorz e disse: – Senhor, vós sodes rei, e rei que mente nom deve nem val trazer coroa. Certas, muito vos deviríades de guardar de dizer cousa que nom soubéssedes por verdade. – Eu sei bem, disse elrei, que u~u~ de vós ambos a matou. Se vos praz, eu o provarei a qual de vós quiserdes que é assi. – Certas, disse Boorz, cada u~u~ de nós se defenderá de vós e contra o milhor que vós teendes, se nam fosse u~a cousa. – Que cousa é? disse el-rei. – Esto vos direi eu, disse el. Vós sabedes que nos albergastes e nos fezestes muita honra e muito amor aa vossa mercee sempre enquanto com vosco fomos. Onde pois nos fezestes tanta honra sem nosso merecimento a bravura e a maldade se nos tornaria se vos pois matássemos. – Ai! disse elrei, este engano nom vos há mester; ou vós vos defenderedes contra mim desto que de vos eu reto ou eu Título Fólio 11939c farei de vós como de cavaleiro aleivoso. – E se me eu de vós poder defender, disse Boorz, seremos seguros de vós e de todolos outros? – Certas, disse elrei, si, que ja mais nom acharedes quem vos pesar faça. – Pois feita nos é, disse Boorz, per mim nom ficará. Título Fólio 12039c A batalha de rei Brutos e de Boorz. Depós esta palavra nom houve outra tardada e leixouse correr u~u~ a outro as espadas e deromse tam grandes golpes como poderom aduzer as espadas d’alto. E elrel era sanhudo feramente da morte da sua filha e cuidava que eles a matarom, e cuidava se ende vingar per si, ca se sentia mui arrizado e por muí ardido. E leixouse correr a Boorz e deulhe u~u~ golpe per cima do elmo, o maior que pôde, mas gram mal nom lhe fez ca o elmo era mui bõõ. E Boorz, que mui gram golpe havia dado e que o nom quis enganar de rem, ferio tam feramente per cima do elmo que elrei ficou estorgido que se nam pôde teer em pees e deu das palmas e dos geolhos em terra e caiolhe a espada da mão. E Boorz Título Fólio 12039d tornou a el outra vez e ferio de tam gram golpe que lhe deitou o elmo alonge da cabeça assi que ficou a cabeça delrei discoberta e desarmada fora da cofia d[e] ferro. Entam caeu elrei em terra er levantouse o mais toste que pôde mui mal treito e mui mal menado. Entam lhe disse Boorz: – Ora veedes vós como é. E, se eu quisesse, já vos ora matara. Mas nom quero, ataa que saiba se haveremos paz com vosco. E de paz me semelha que havedes mais mester ca de guerra; e vós bem veedes que sodes sem armas e que ligeiramente vos poderei matar se quiser. A esto respondeo elrei e disse: – Certas, cavaleiro, eu conhosco que vós dizedes verdade e vejo que vós, Boorz, me mataredes se vós quiserdes; mas vossa cortesia nom vos leixou. E por em vos dou por quite deste reto, e façoo mais por vossa bõa cavalaria ca por al, ca muito seria gram bravura se, depós morte da minha filha que eu nom posso cobrar, fezesse matar tam bõõ cavaleiro como vós sodes. Mas rogovos, por Deus e por cortesia, que me digades como ou porque matastes minha filha. – Senhor, disse Boorz, sobre toda minha creença e sobre Título Fólio 12040a toda honra de cavalaria e pola fé que eu devo a meu senhor e a meu irmão Lançarot que a nom matámos nós. – E pois como foi? disse elrei. Muito o cobiçaria a saber. – Senhor, esto vos direi eu que vos nom menterei i rem. Entam lhe começou a contar assi como o conto há jádevisado. Quando elrei entendeo que sua filha se matara com suas mãos, disse: – Ai, Deus! Como esto foi maa ventura! Entam er disse a seus home~e~s: – Idevos desarmar, ca, se Deus me salve, tam bõõs home~e~s como estes e que mal me nom merecerom nom receberám de mim mal. Ca esta maa ventura e esta vergonha nom nos veeo senam polo nosso mui grande pecado. Título Fólio 12140a Como Galaaz e Boorz virom a BestaLadrador. Os cavaleiros que ante elrei estavam quando ouvirom mandado de seu senhor desarmaromse logo. Entam amanhecia já. Galaaz e Boorz, quando virom que era já luz, disserom a elrei: – Senhor, se vos praz, fazedenos dar nossos cavalos ca havemos tanto de fazer Título Fólio 12140b que nom podemos aqui estar. E elrei lhos mandou logo dar. E eles se espedirom e entrarom logo em seu caminho e disserom que bem lhes aveera acima, segundo o começo, que fora mau. E quando se partirom do castelo u acharom quem lhes fezera muita honra e muito pesar pola donzela que cuidarom que matara[m], cavalgarom de consu~u~ ataa hora de meodia. Entam lhes aveeo que virom sair de u~u~ vale a Besta Ladrador. E vilinha soo, mas pero mui cansada per semelhar, ca muito correrom após ela aquel dia. Galaaz, atam longe como a vio, conhoceoa e amostroua a Boorz e disselhe: – Boorz, veedes aqui u~a aventura maravilhosa. Entam lhe contou o que em vira com Ivam o Bastardo que fora depós ela. – Semelhame, disse el, que a leixou. – Senhor, disse Boorz, esta cousa é tam maravilhosa que eu sei bem que nom é outorgada a sabêla todo homem. E bem cuido que nunca em verdade seja sabida, se per vós nom. Ca, certas, esta aventura nom é senam pera vós. – Nom sei, disse el, mas este bem querria que me Deus outorgasse, que é cousa que de mui grado querria saber. Enquanto eles esto diziam Título Fólio 12140c iam contra ela direitamente; mas, tanto que o ela entendeo, volveo a cabeça da outra parte e começouse de ir tam toste que nom há beesta no mundo que a alcançar podesse. E em pouca d’hora alongouse tam muito deles que nom souberom dela parte. E Galaaz disse: – Ora hei pavor que a havemos perdida. – Por perdida a devemos de teer, disse Boorz, ca nom há cousa do mundo tam corredor nem tam ligeira que a acalçar podesse; e sei quanto eu vejo, de fol preito se trabalham quantos se trabalham de a buscar. E por esto, quanto da minha parte é, nunca me trabalharei de a seguir, fora com vosco andar e se quiserdes ir i. – Nom vos espantedes, disse Galaaz, ca, se Deus quiser, em cujo esforço o nós fazemos, nós saberemos ende a verdade a mui pouco tempo. Título Fólio 12240c Como Galaaz e Boorz acharom Palamades, o da Besta Ladrador. Eles em esto falando, aque contra eles vem u~u~ cavaleiro armado de u~as armas negras, aquel que derribara Ivam o Bastardo e Glifet. El viinha sobre u~u~ cavalo mui bõõ e trazia mais de #XXX cães. E, tanto que chegou a eles, pregunto[u]os sem salválos: – Senhores, vistes pera aqui passar a besta ladrador? – Si, disse Boorz. Mas porque o preguntades vós? – Título Fólio 12240d Porque é minha caça, disse ele, e vou após ela e irei ataa que a aventura queira que a ache. – Pois, disse Boorz, ora podedes ir com nosco de consu~u~, ca assi começámos nós ir após ela e nom nos partiremos ende ataa que saibamos onde estas vozes veem que dela saem. – Esto é folia, disse o cavaleiro, que vós tal demanda começastes, ca a nom valedes. Em esta terra per ventura há u~u~ tal cavaleiro que, se souber que vós após ela queredes ir, que volo fará leixar aa vossa desonra, ca tanto andou após ela que nom querria que outrem vaa após ela. Boorz começou a riir entam e disse: – Eu nom sei cavaleiro no mundo per que a leixasse se da Mesa Redonda nom fosse. – Certas, disse o cavaleiro, nunca el foi da Mesa Redonda, empero per muitas vezes em casa de rei Artur. Digovos que nom há tam bõõ cavaleiro na Gram Bretanha que el nom cuidasse a vencer ante que o dia saísse. – Se eu cuidasse, disse Boorz, cuidaria gram folia, ca, certas, em casa de rei Artur há milhores cavaleiros que esse. E por esto que me dizedes prometo a Deus que, ante dom Galaaz, que aqui está, que manteerei esta demanda por veer se aquel cavaleiro onde Título Fólio 12241a me vós falastes é tam sandeu que mo querria defender. – Ora parecerá, disse o outro, o que i faredes, ca bem vos digo que, se assi quiserdes fazer como dizedes, que mal vos ende verrá, ainda que nom houvesse outro cavaleiro no mundo fora vós e ele. Pois esto disse, comecouse a ir o mais toste que pôde per u cuidou que a besta se ia. Outrossi fez Galaaz e Boorz, e andarom todo aquel dia ataa hora de vésperas. Entam lhes aveeo que acharom u~u~ cavaleiro velho que cavalgava desarmado fora d’espada e salvaromno e o cavaleiro a eles, e preguntouos onde eram. E eles disserom que eram da casa de rei Artur. – E sodes vós, disse el, da Távola Redonda? – Si, disserom eles. – Pois bem sejades vós vindos, disse el, ca da vossa viinda som eu muito ledo. E mais porque é tempo d’albergar, ca hoje mais me faredes companha aa vossa mercee e ficaredes comigo em u~a minha fortaleza fremosa e viçosa que é mui preto daqui, u seer[e]des albergados e viçosos aa vossa vontade. E rogovos que mo outorguedes de ir i. E eles lho outorgarom, porque entenderom que era Título Fólio 12241b já tempo de albergarse. Título Fólio 12341b Como Galaaz e Boorz forom hóspedes de Esclabor o Nom Conhecido. Entam se partirom e foramse com ele e, quando chegarom aa fortaleza, foram mui bem recebidos aquel serão. E, depois que comerom, sacouos o cavaleiro a u~u~ prado per folgarem e preguntouos que andavam demandando per aquela terra. E Boorz, que era moor e mais de palavra, respondeu ao hóspede. – Nós entrámos novamente em u~a demanda de u~a besta de que pós imos. E divisoulhe qual. Quando o cavaleiro esto ouviu, começou a pensar e, em pensando, chorar muito. E, se era ante ledo, tornou mui triste e disse: – Ai, Deus! Maldita seja a hora em que aquela besta naceu, ca per ela hei eu perdido, a meu ciente, o milhor cavaleiro que nunca trouxe armas na Gram Bretanha. E, depois que esto disse, tornou a seu pensar e a chorar como ante. E os cavaleiros nom lhe falarom com medo de lhe pesar. E, depois que pensou gram peça, esforçouse pera fazerlhes milhor contenente e disse: Título Fólio 12341c Senhores, por Deus, nom mo tenhades a mal por que vos pareço triste, ca nom posso mais; ca as novas desta besta que agora dissestes me confondem cada que as ouço e me nembra dela. E direivos como é: terrêlo por gram maravilha. E nom volo digo por me i ajudardes, ca nom poderíades. Título Fólio 12441c Como Esclabor contou sa fazenda a Galaaz e a Boorz. – Verdade é, e Deus e os home~e~s o sabem, que eu som natural de Galilea e foi pagão e som cavaleiro assaz bõõ, e por veer as proezas da Gram Bretanha e por provar a cavalaria, onde tam gram nomeada corria pola terra e polo mundo, viim eu aqui, unde pouco ante que rei Artur fosse coroado. U~u~ dia viim a[a] corte de rei Artur, quando ele começava a regnar, com um u~u~ cavaleiro que foi meu companheiro d’armas mais de três anos e cuidava que eu era cristão, mas eu nom no era. E rei Artur e muitos home~e~s bõõs que me conhociam, que me tiinham por bõõ cavaleiro, todos cuidavam que era eu cristão. Aquel dia que vos eu digo, aveeo que adusserom cavaleiros Título Fólio 12441d aa corte u~a mui fremosa donzela, filha de u~u~ jaiam que aquel dia matarom em u~a montanha e, quando a derom a elrei, preguntaromna se queria seer cristãã e que lhe dariam terra rica e bõõ cavaleiro por marido. E ela disse que ante querria morrer de qualquer morte ante que seer cristãã. E por esto nom houve cavaleiro i que a quisesse pedir a elrei, fora eu, que nom era cristão. E elrei me disse: – Que faredes dela? – quando a eu pedi – pois que cristãã nom quer seer? – Senhor, disse eu, mais me praz de seer atal ca de seer cristãã, ca bem sabede ca eu som pagão como ela, e por esso vola peço. E elrei, que bem me conhocia, ca muitas vezes me vira em muitos torneos, disse: – Como? Nom és tu cristão? – Nom, senhor, disse eu. – Par Deus, disse el, mal te conhoci. E por em posso dizer que hás nome Esclabor o Nom Conhocido. Assi como me elrei entam chamou, assi houve sempre nome dês ali. E porque pedi a donzela deuma, e disseme: – Ora seja tua, pois ambos sodes de u~a lei, mas muito vos amara mais se fôssedes cristãos. E depois que houve a donzela, partime mui ledo da corte e vivi com aquela donzela #XII anos e houve dela #XII filhos, que vi depois Título Fólio 12442a todos cavaleiros grandes e arrizados e mui ardidos, tanto que nom sabia homem na Gram Bretanha cavaleiros de tal nomeada. Assi me fezera Deus bem de tal companha, qual vos digo, pero que todos sabiam que eram pagãos e eram tam honrados, u quer que chegassem, como se fossem filhos todos de rei Artur. Título Fólio 12542a Como Esclabor contou a Galaaz e a Borrz como perdera seus #XII filhos. Uu~ dia aveeo que eu era com minha molher e com meus filhos em u~u~ castelo que me elrei Artur dera pouco havia. E depois que comeramos, que era hora de meodia, entam nos veerom as novas da Besta Ladrador que nos disse u~u~ nosso escudeiro que entam passava per ante a porta do meu castelo. Entam filhámos nossas armas e todos nossos filhos foram com nosco, fora u~u~ que era como doente. E depois que cavalgámos fomos após ela. E tanto que a acalçámos a u~u~ lago u entrara por bever o lago nom era mui ancho e cercámola de todalas partes, assi que nom podia sair se per u~u~ de nós nom. Quando se ela assi viu cercada, esteve e fez sembrante que nom querria mover, e disse eu entam a u~u~ de Título Fólio 12542b nossos filhos que a ferisse. E ele ferioa assi que o ferro da lança pareceo da outra parte da coixa. E ela deu u~a voz tam doorida e tam espantosa ca nom há no nundo cavaleiro que a ouvise que dela nom houvesse gram pavor. Que vos direi? A voz foi atam estranha e tam esquiva que nom houve i tal de nós que se podesse teer em sela, e caemos todos em terra esmorecidos. Título Fólio 12642b Como Esclabor louvava Palamades, seu filho. Quando eu acordei, acheime ferido de u~a lançada per meo do corpo tal que eu cuidei logo morrer. E, quando catei arredor de mim, cuidei haveer ajuda de meus filhos e acheios todos #XI mortos. Que vos direi? Esto foi sabudo per toda a terra e houverom todos mui gram pesar. E eu, que nom era chagado aa morte, subi em meu cavalo e enviei por meus filhos e fizeos soterrar. Aquel meu filho que ficou no castelo era o maior. E, quando viu como nos aviera, houve tam gram pesar que jurou que ja mais nom se quitasse d[e] aquela besta seguir ataa que a matasse, ou ela ele. E em tal guisa começou meu filho aquela caça que a manteve atá aqui, e ainda a mantém. – E que armas traze? disse Boorz. E ele lho disse. – Per bõa fé, disse Boorz, nós Título Fólio 12642c o vimos hoje. – Ora sabede, disse el, que vistes u~u~ bõo cavaleiro quando o vistes. E, se nom fosse meu filho e o conhecesse como ora conheço, eu diria que era o milhor cavaleiro que nunca foi na Gram Bretanha; mas tanto lhe falece que nom é cristão. – Como? disse Boorz, e vós sodes já cristão? – Si, disse ele, per u~a das fremosas aventuras que nunca aveeo a pecador. E direivos qual. Título Fólio 12742c Como Esclabor contou em qual guisa fora cristão. – Aveeome u~u~ dia, ora há sex anos, que ia per u~a furesta e #VI cavaleiros pagãos comigo, mui bõõs cavaleiros d’armas e mui nomeados em esta terra. E era tarde, tanto que nos [anouteceu] na foresta e houvemos i a ficar e pousámos em u~u~ prado que era preto do caminho e pousámos em u~a choça que i achámos; e começounos entam fazer u~u~ tempo tam forte e tam esquivo como se o mundo todo se houvesse a [a]fundar, e durou ataa mea noite. Entam caeu u~u~ corisco do céu e matou quantos cavaleiros comigo andavam; e eu fiquei esmorecido, mas outro mal me nom fez niu~u~, e jouve assi ataa manhãã grande. Título Fólio 12842c Como falavam em feito da Besta Ladrador. Enquanto eu assi jazia Título Fólio 12842d esmorido, veo u~a voz sobre mim que me disse: – Homem cativo e pobre de sem, já te guareci duas vezes de perigo de morte e nunca me deste niu~u~ galardom. Eu deitarei sobre ti minha vingança, se te nom conhoceres contra mim, e a vingança será tam maravilhosa que em todo o mundo será sabuda. Atanto me disse a voz e nom mais. E sabede que eu foi logo tam convertudo, porque sabia que dizia verdade, que esse dia foi baptizado com toda minha companha. Meu filho, sem falha, este que anda seguindo a besta, nom se quis bautizar, ante me disse que já mais cristão nom seria per rem ata que aveesse que soubesse verdade da besta. Assi me aveo como vos eu conto da besta maldita que perdi per ela meus filhos e som por em tam triste, cada que dela ouço falar, que nom posso per gram peça fazer fremoso contenente. – Certas, esto nom é gram maravilha, disserom eles, cá muito foi grande a vossa perda. Mas como quer que seja que a perda seja grande convém que a sigamos nós, pois que a começámos. Cá, se a leixamos, terriamnolo por mal. – Deus vos dê i conselho e mande que vos avenha ende milhor cá a mim. Certas, nunca se homem trabalhou que se mal nom achasse aa cima. Pois que esto houver[o]m dito foramse deitar e, a manhãã, quando se levarom, armaromse e espediromse do hóspede e foramse. Título Fólio 12943a Mais ora leixa o conto a falar de Galaaz e torna a Galvam. Conta a estória que, depois que Galvam foi guarido da chaga que lhe fezera Galaaz e sentio que poderia cavalgar, cavalgou er e colhêse a seu caminho e, andando assi per suas jornadas, aveeo u~u~ dia que achou Ivam de Cenel, bõõ cavaleiro e ardido que era da Mesa Redonda, e salvouo tanto que a ele chegou. E o outro outrossi a ele, pero nom se conhociam ca haviam as armas cambadas, E indo pola carreira começaromse a preguntar. E depois que se conhocerom foram mui ledos e aa cima acordaromse que se nom partissem, pois los Deus ajuntara, ataa que a ventura os fezesse partir. Título Fólio 13043a Como Galvam se tornou e como Ivam foi ao castelo. Aquel dia cavalgarom de consu~u~, falando de muitas cousas; e em outro dia chegaron a u~u~ castelo bem forte e bem fremoso que estava sobre u~a ribeira. Mas semelhoulhes que era já ermo. E, quando chegarom aa porta, acharom sobre u~u~ pedram leteras escritas dentro na pedra que diziam: Título Fólio 13043b “Aqui jaz Lamorat, o que per treiçom matou Galvam, o sobrinho de rei Artur.” Dês i er acharom outras leteras que diziam: “Esto defendem os do castelo que niu~u~ do linhagem de rei Artur seja ousado de entrar dentro; cá, se i soo entrar e soo for, todo o mundo nom no guorecerá de per morte.” Depois que eles leerom as leteras, Galvam, que bem sabia como era, tornou a rédea ao cavalo e disse: – Tornemonos, dom Ivam, cá, se acá dentro entrarmos, mortos somos. E aquel, que tanto ardido era que nom dultava morte se a visse vi~ir, disse: – Par Deus, esto nom m’aveerá, se Deus quiser, que eu por pavor de morte me torne [ca mio terram] por maldade e por covardice. – Tenham, disse el, ca tornarme quero eu, ca chããmente vejo minha morte, se adiante vou. – Pois, disse Ivam, comendovos eu a Deus, ca eu quero dentro entrar, como quer que m’avenha. Título Fólio 13143b Como o donzel disse a Ivam que mal lhi divia seer, pois era do linhagem d’Artur. Entam se partirom u~u~ do outro e Galvam se foi per outra carreira. E Ivam, que tanto ardido era e tam bõõ cavaleiro, Título Fólio 13143c que poucos havia no mundo de milhores, entrou no castelo. E, tanto que passou a porta do castelo, leixouse caer a porta coladiça. E logo entendeo que nom poderia tornar pera ali, mas pero nom se espantou, ca o mui gram ardimento que havia o confortava. Logo após esto ouviu tanger u~u~ corno. Entam veeo a el u~u~ escudeiro e disselhe: – Cavaleiro, dizedeme quem sodes. Nom me mentades pola fé que devedes a todolos cavaleiro do mundo. El respondeu: – Vós me conjurastes tanto que per rem nom vos mentisse: eu hei nome Ivam de Cenel e som da casa de rei Artur e de seu linhagem. – Certas, disse o escudeiro, ainda vos hoje muito pesar averrá, ca, por amor daquel linhagem, receberedes morte cuitada. – Nom sei, disse el, que será, mas, se a morte me convém, eu defenderei meu corpo quanto poder. Título Fólio 13243c Como Ivam de Cenel foi preso no castelo. Entam se partirom ambos e o escudeiro se foi a grand’ir ao alcáçar. E, a cabo de Título Fólio 13243d u~u~ pouco, vio Ivam de Cenel vi~ir contra si dez cavaleiros armados que todos disserom a u~a voz: – Agora a el! E entam se leixarom correr a ele e mataromlh’o cavalo e cercaromno de todalas partes. E quando o virom a pee, pero el se defendia mui bem aa maravilha, prenderomno, ca todos eram mui bõõs cavaleiros, e desarmaromno e acharomlhe dez chagas tam grandes que outro homem cuidaria a morrer da meor. Dês i preguntaromlhe como havia nome e ele disse que havia nome Ivam de Cenel. – E sabede que muito mal vos averrá da minha morte tanto que o rei Artur souber, ca por minha morte seeredes destroidos todos. – Nom nos em chal, disserom eles, tanto que vissemos vingada a morte de Lamora[t] que vosso coirmão dom Galvam matou. E matouo mui sem guisa e mui aleivosamente. Título Fólio 13343d Como Ivam de Cenel foi queimado. Depós esto filharom Ivam de Cenel e levaromno o mais vilmente que poderom Título Fólio 13344a atee o alcáçar. Ali havia u~a capela mui fremosa e mui rica u jazia Lamora[t] e fora feita per el a honra de Santa Maria, que Santa Maria rogasse por ele a seu beento filho. E sabede que a sepultura de Lamora[t] era tam rica e tam fremosa que adur poderia homem achar milhor no mundo. Quando eles entrarom ante a capela, mandarom fazer u~a cova alta de #VII pees e, a cova feita, filharom Ivam de Cenel e mostraromlhe a sepultura de Lamora[t] e disseromlhe: – Ivam, aqui jaz Lamora[t] que Galvam matou, teu parente, a mui gram aleive. E todos lhe deviam por em mal a fazer. El nos matou e confondeo e meteo em pobreza. E Deus, o gram vingador, nos dê em tal vingança qual desejamos. Entam começarom a fazer seu doo grande, que nom há homem no mundo que o visse tam duro de coraçom que nom houvesse de chorar. E, a cabo de u~a peça, disserom: – Ai, Lamora[t], bõõ cavaleiro e de gram coraçom, filho de rei e de rainha e d’avoos de gram guisa, como nos matou mal aquel que te matou! E pois que esto disserom ficarom os geolhos ante o muimento e beijavamno e diziam: – Senhor, que ventura nos matou e escarneceo que vos tolheo tam cedo? Pois houveron feito Título Fólio 13344b seu doo grande, sacarom Ivam fora e liaromlhe as mãos de trás e deitaromno na cova e filharom lenha seca e deitarom sobre ele e puseromlh’o fogo e ardeu que tornou cinza. Título Fólio 13444b Como rei Artur, depois da morte de Persival, veo a estruir o castelo. Assi foi Ivam de Cenel queimado pola morte de Lamora[t], E esta morte podera el escusar, se quisera. Mas o gram coraçom que havia de nom fazer covardice nom lho sofreo. E quando rei Artur esto soube houve gram pesar, tanto que destruio pois por ende o castelo, mas nom mentre Persival foi vivo. E sabede que desto foi pois mui profaçado Galvam e [teu´do] por covardo porque se partira assi de Ivam e o leixara em tam gram feito como o leixou, ca por niu~u~ pavor nom no devera a leixar a tal tempo como aquel. Título Fólio 13544b Mais ora leixa o conto falar de Ivam e torna a Galvam. Em esta parte diz o conto que, pois se partio Galvam do castelo u viu as leteras do padram, Título Fólio 13544c que se nom alongou muito que achou outro caminho que ia contra u~a montanha. E filhou aquela carreira e foi-se pensando muito e com gram pesar, ca lhe semelhou que era mal porque leixara assi seu companheiro por pavor de morte. E ele assi iindo aveeo-lhe que achou u~a donzela. Tanto que o viu, esteve, ca bem vio que era cavaleiro andante, pero nom o conheceo que era Galvam e disse: – Senhor cavaleiro, vós sejades bem vindo! – Donzela, disse el, Deus vos dê lidice. Quem sodes ou quem demandades? – Eu som, disse ela, u~a donzela estranha, que viim a esta terra pouco há e ando buscando u~u~ dos cavaleiros da Mesa Redonda. – E qual? disse ele. – Ivam de Cenel, disse ela. – Deste vos direi eu novas, disse el, quaes sei. Ide a u~u~ castelo que é daqui u~a légoa pequena e i o acharedes; e é esta a carreira e é pera alá e vos levará ao castelo. – Beento sejades vós, disse ela, ca me nom podedes dizer tam gram prazer de rem como destas novas que me Título Fólio 13544d dizedes; mas rogo-vos, por cortesia, que me digades vosso nome. E ele se nomeou. E ela disse: – Eu vos amo muito, ca som vossa parenta mui de preto. E ele a catou e conhoceo que era irmãã de Ivam de Cenel, e disse-lhe que lhe faria serviço e honra em todalas guisas que podesse. Título Fólio 13644d Como a irmãã de Ivam achou Ivam. Entam se partirom e Galvam se foi contra a montanha, e a donzela contra o castelo. A donzela se coitou de chegar ao castelo e, tanto que i entrou, aveeo-lhe que foi ante u~a capela u seu irmão queimarom. E quando ela vio o fogo, que ainda era grande, e a gente que estava em derredor, preguntou u~u~ homem bõõ: – Amigo, saber-m’-iades dizer novas de u~u~ cavaleiro que aqui entrou? E divisou-lhe que armas trazia. – Porque o demandades vós? disse o homem bõõ. – Amigo, disse ela, porque o querria veer, ca nom viim por al aqui. – Ora vos podedes daqui tornar, disse el, sem prender maior eixeco, ca ja mais veer nom no podedes. Título Fólio 13645a E entam lhe devisou como e porque o queimarom. – E sabede, disse el, que tanto fezerom do outro que com ele andava, que o leixou aa entrada do castelo. Título Fólio 13745a Como a donzela fez doo por seu irmão. Quando a donzela esto ouvio houve tam gram pesar que caeu esmorecida do palafrém em terra e jouve assi gram peça que nom foi i tal que nom cuidasse que era morta. E correrem todos a ela e preguntarom os escudeiros que linhagem havia com aquel cavaleiro. E eles disserom que era seu irmão e que fezerom gram torto que matarom tal cavaleiro e tam gram deslealdade e que sua morte seria vingada tanto que o rei Artur soubesse. – Nom daríamos rem, disserom eles, polo que rei Artur nos fará por tal que houvéssemos feito algu~u~ mal ao linhagem de rei Lot. Ca o gram traedor Galvam, seu filho, ofendeonos e toda nossa companha. A cabo de u~a peça acordou a donzela e, quando pôde falar disse: – Ai, meu senhor Ivam, meu amigo e meu irmão! Como hei hoje gram perda ganhada e confonderom a mim os que vos matarom, que tal pesar me meterom no coraçõm que nunca me sairá! Entam Título Fólio 13745b cavalgou em seu palafrém e foise com os seus escudeiros. E foise pola rua, gram doo fazendo e mal dizendo o castelo e quantos i moravam, dizendo que mau corisco o ferisse. E, depois que sairom do castelo, disse: – Tornemosnos per u saimos e veemos se poderiamos achar o treedor de Galvam, que leixou meu irmão morrer per sua covardice. E já mais nom haverei ledice ataa que nom seja vingada, que o faça morrer de maa morte, ca bem o mereceo. Título Fólio 13845b Como Patrides prometeu aa irmãa de Ivam sua ajuda. Entam se meterom aa carreira e acoitaromse d’andar. E a donzela coitavase muito d’andar por acalçar Galvam e andarom assi ataa hora de vésperas. E a donzela todavia ia fazendo seu doo mui grande. E aveolhe que encontrou com Patrides na carreira, o sobrinho de rei Bandemaguz, bõõ cavaleiro e ardido aa maravilha, e ia armado de todas armas, mas aquela hora ia mal chagado ca se combatera com Ivam, o filho de rei Uriam, e tanto fezera que a poucas o vencera; ca ele o matara, mas quis Deus que se conhocerom Título Fólio 13845c e assi se partio a batalha. Aquela hora que o ela achou, viinha de pequeno passo como aquele que lhe semelhava que havia grande coita. E sabede que trazia mui maas duas chagas. E quando chegou a ela e lhe vio tal doo fazer, disse-lhe: – Por Deus, donzela, e por cortesia, dizede-me porque fazedes tal doo. E eu vos prometo que vos ponha conselho a todo meu poder. – Ai, Senhor, disse ela, de o fazer faço mui gram direito, ca todo o mundo nom me poderia cobrar a perda que hoje hei recebida de u~u~ dos milhores cavaleiros do mundo, que era meu irmão, que ora matarom. – E quem era? disse Patrides. – Senhor, disse ela, era Ivam de Cenel. – Ivam, disse ele, e ´ morto? – Senhor, disse ela, sem falha. – E quem o matou? disse el, tanto me dizede, ca se Deus me ajude, eu o vingarei a meu poder. E, se eu o nom fezesse, todo o mundo mo terria a mal, ca foi gram tempo meu companheiro d’armas. – Senhor, disse ela, u~u~ cavaleiro o fez matar que aqui vai. E, se eu daquel fosse vingada, nom demandaria ora mais. – E que armas Título Fólio 13845d trazia? disse o cavaleiro. Ela lhe divisou quaes. – Par Deus, disse ele, eu o achei ora ali, e sol nom me quis falar; e nom sei se foi por sanha se por quê. – Ai, senhor, disse ela, se nunca amastes Ivam, vingade-o deste, ca per este prendeo morte. – Per bõa fé, disse ele, eu farei todo meu poder em guisa que será vingado, pero que mais havia mester de folgar que de lidar, que som mal chagado. Título Fólio 13945d Como Galvam talhou a cabeça a Patrides, sobrinho de rei Bandemaguz. Entam se coitou de cavalgar, e subio em cima da montanha e achou Galvam que estava em cima do cavalo, ante u~a irmida u queria já decer pera albergar i aquela noite, mas pero ainda nom decera. E tanto que o Patrides vio, disse aa donzela: – É este o de que vos aqueixades? – Si, Senhor, deste me dê Deus vingança, e assi haveria eu quanto o meu coraçom deseja. Patrides nom atendeo mais, ante lhe disse: – Cavaleiro, guardade-vos de mim, ca vos desafio! Quando Galvam esto ouvio, leixou-se correr a ele e derom-se tam grandes lançadas que as lanças voarom em peças e eles cairom em terra mal treitos e mal chagados. Galvam Título Fólio 13946a foi mal treito daquele golpe que o acalçou polo costado seestro e da lança ficou o ferro em ele. Patrides nom era tam mal treito ca este era u~u~ dos bõõs home~e~s do mundo que mais sesudamente justava, mas dante era tam mal chagado que nom fazia da vista de Galvam. Ergueromse ambos e nom se nembrarom de mal que houvessem, tanto haviam gram sanha e tanto se desejavam ambos vingar. Er meterom ambos mão aas espadas e feriromse de tam grandes golpes assi que, se i estevéssedes, veríades os fogos sair dos elmos. E Galvam, que muito sabia, da primeira vez tirou o ferro de si; e, pois folgarom u~u~ pouco, Galvam, que nom era tanto treito como Patrides, come[teo]o outra vez, ca bem lhe semelhou que o terriam por mau se se nom vingasse daquel que o endoado come[te]ra. E ergueo a espada e deilhe u~u~ tam gram golpe per cima do elmo que o meteo em terra estorgido, que nom soube se era noite se era dia. E Galvam, tanto que o viu em terra, foi a ele e tolheolhe o elmo e o almofre, por lhe talhar a cabeça Título Fólio 13946b . Quando a donzela esto vio, leixouse caer em terra, dando vozes como molher sandia: – Ai, Galvam, bravo e desleal! Nom mates tam bõõ cavaleiro como este, ca tu farás grande aleive conhocido. Al de menos porque é da Mesa Redonda como tu. Quando ele esto ouvio, deteve seu golpe, ca houve gram pavor de seer algu~u~ de seus irmãos ou algu~u~ seu parente, e disse a[a] donzela: – Qual é? – Patrides, disse ela, o sobrinho de rei Bandemaguz, tam bõõ cavaleiro como tu sabes. – Par Deus, disse el, n[o]m mim chal, ca me cometeo tam endoado e me chagou per ventura aa morte, que nom há rem per que o leixase a matar. E, quando mi da mão sair, nom cometerá homem bõõ sem razom. Entam lhe talhou a cabeça e deitoua alonge; dês i tornou aa donzela e disselhe: – Donzela, veede o que o sobervoso ganha per sua soberva e por creer tal como vós. Título Fólio 14046b Como a donzela doestou Galvam e o ameaçou. Quando ela vio que assi Galvam matara aquel cavaleiro, houve ende gram pesar que bem Título Fólio 14046c quisera seer morta e disse per sanha: – Ai, Deus! Porque sofredes vós que o aleivoso cavaleiro e treedor ande assi matando todolos home~e~s bõõs per tal maa aventura? Ai, Galvam! nunca ta treiçom foi conhocida como hoje aqui é! Nunca [eu] cuidara esto, nem mo podera homem fazer creente, que em ti houvesse tam gram treiçom como ora vejo, ca ora vejo eu que tu mataste meu irmão e mataste Patrides. E Deus nos dê ende tal vingança per que vejamos em prazer e per que tua treiçom seja conhocida. E depois que esto disse, sobio em seu palafre ´m. e el lhe rogou que ficasse, que já era tempo. E ela disse que com tam desleal cavaleiro como ele era nom ficaria ja mais, ca ja mais nom ficaria com ele homem nem mulher que aas vessas nom fosse. – E sabes tu, disse ela, já Galvam porque me vou tam toste daqui? Sabe que eu irei direitmente aa corte de rei teu tio e direi a el e aos outros a gram treiçom que em ti jaz e as maas obras que em esta demanda andas fazendo. E depois que todo teu mal andar dizendo ao poboo, buscar-[te]-ei morte e farei fazer o que tu fezeste a este que talhaste a cabeça. E tanto que esto disse, começou-se ir assi de noite como era e Galvam ficou na ermida. E pola manhããpartiu-se ende ante que ouvisse missa, ca nom queria que niu~u~ de casa Título Fólio 14046d de rei Artur o i achasse, por nom saberem o que ele fezera em com Patrides. Título Fólio 14146d Como Galvam achou Estor de Mares. Todo aquel dia cavalgou Galvam mui cuitado da sua chaga que nom houvera guardada bem aquela noite. E hora de meio dia chegou a cas de u~u~ cavaleiro que o conhocia, com que esteve toda u~a domãã. e tanto pensou del bem que mui cedo pôde cavalgar. E quando se el sentiu guarido começou sua carreira como ante e tanto cavalgou que achou estor de Mares. E, depois que falarom de consu~u~ e se conhocerom, foi a ledice mui grande antre eles, que peça havia que se nam virom. – Dom Estor, disse dom Galvam, como vos foi depois que eu de vós parti? – Bem, disse el, aa mercee de Deus, ca som são e ledo. Mas nunca depois achei aventura e som mui maravilhado, ca na demanda do Santo Graal cuidava eu mais d’aventuras e de maravilhosas achar ca em outra terra. – Bem outrossi vos digo eu de mim, disse Galvam; mas pero do vosso irmão Lançarot sabedes algu~as novas? – Nom, disse ele. – E de Galaaz e de Persival Título Fólio 14147a e de Boorz, sabedes algu~a rem? – Certas, nom, disse ele. Estes quatro sam assi perdudos que nom sabe deles homem parte. – De Tristam sabedes algu~a rem? – Nom, disse el, mas Deus os guarde todos u quer que eles sejam. – Certas, disse Galvam, se eles aas aventuras do Santo Graal falacerem, nom há i quem nas acabe ca estes som os milhores home~e~s da demanda. Depós esto, disse Estor: – Dom Galvam, vós andastes ataa ora soo e eu outrossi e nom achámos rem. Ora andemos de consu~u~ e veeremos se seremos milhores andantes. – Bem dizedes, e outorgo-o. ora vaamos de consu~u~, que Deus nos guie u acharemos cousa algu~a do que andamos demandando. – Daquela parte, disse Estor, onde eu venho, nom achamos rem, nem onde vós vindes; mas vaamosnos per outra carreira. E Galvam assi outorgou i. Título Fólio 14247a Como Estor e Galvom acharom Elaim o Branco. Entom entrou Estor em u~a carreira que tornava através da furesta. E entam cataram ante si e virom rasto fresco de u~u~ cavalo, e virom a logares tinta a terra de sangue. – Sem falha, disse Galvam, algu~u~ cavaleiro das aventuras vai pera aqui e vai mal ferido. Título Fólio 14247b Verdade, disse Estor. Vaamos após ele e veremos quem é. Entam se colherom polo rasto e nom andarom [muito] que acalçarom o cavaleiro, que ia passo, soo e queixandose muito e dizendo: – Ai, Deus, que pouco me durou minha cavalaria! E se alguém me preguntar quem é dirialhe eu que era Elaim o Branco, o filho de Boorz. E tanto que eles a ele chegarom, conhoceromno logo, ca nom cambara suas armas depois que entrara na demanda. E Estor disse a Galvam: – Vedes aqui o cavaleiro depós que íamos polo rasto do sangue; muito [é] mal chagado. – Pesame, disse Galvam, ca muito é nosso amigo. Tanto que a ele chegarom, salvaromse, e, dês i, preguntou quem eram eles. E eles nomearomse. – Ai, amigos, disse ele, vós sejades os bem vindos. E eles disserom: – Quem vos chagou assi? – Par Deus! Disse Alaim, u~u~ cavaleiro que aqui vai, depós que eu vou, se me poderia vingar. E se me podesse vingar, nom daria rem por cousa que me depois viesse. – E quem é o cavaleiro? disse Estor. – Nom sei, disse ele, fora que anda a sua caça depós u~a besta com mui gram companha de cães; e aquela é a mais dessemelhada besta que eu nunca vi. – E a qual parte se vai? disse Estor. – Per esta carreira, disse Ela[im]. – Dom Galvam, disse Estor, ora vos Título Fólio 14247c rogo que fiquedes com [Elaim] e lhe façades companha, ca hei pavor de seer chagado aa morte e, se soo ficasse, poderlhe[i]a ende vi~ir dano. E eu irei depós o cavaleiro, se o poder vingar. – Ficarei, disse Galvam, pois vos ende praz. Entam preguntou Estor a Elaim: – Que armas trazia o cavaleiro que vos esto fez? – Senhor, disse el, ele leva suas armas negras, fora que leva no escudo u~u~ leom vermelho. Entam disse Esto[r] a Alaim: – Cavalgade passo e, no primeiro lugar que achardes u possades folgar, folgade. Título Fólio 14347c Como Estor foi po ´s o cavaleiro. Entam se foi Estor quanto se ir pôde contra u esmou que poderia achar o cavaleiro mais toste. E nom andou muito que achou u~a donzela que vinha fazendo tam gram doo que era maravilha. – Donzela, disse Estor, achaste u~u~ cavaleiro de u~as armas negras? – Ai, senhor, disse ela, par Deus, achei; mas em mau ponto por mim. Ca me matou u~u~ meu irmão. e era, disse ela, mui bõõ homem e mui bõõ cavaleiro, e leixou-o ali jazer ante u~a fonte. – E porque o matou? disse Estor. – Porque lhe aprouve, disse ela; outra razom i nom sei. – Ora Título Fólio 14347d vos nom acoitedes, disse el, ca, se Deus quiser, cedo ende seredes vingada, ca nom é este o primeiro torto que el fez. E irá ora longe, se cuidades? disse el. – Nom, disse ela. Entam se meteo Estor aa carreira quanto pôde ir a troto e a galope, e nom andou muito que acalçou o cavaleiro ante u~a fonte, que decera já e tolhera seu escudo e sua lança e seu elmo e bevia da água. Tanto que Estor viu o escudo conhoceu logo que aquel era o que ele demandava e deu-lhe vozes: – Senhor cavaleiro, filhade vossas armas e cavalgade, ca vos convém que vos defendades de mim, ca vos desafio. Título Fólio 14447d Como o cavaleiro da Besta Ladrador derribou Estor de Mares Quando o cavaleiro vio que a batalha tiinha na mão, ergueo-se mui vivamente e foi filhar suas armas e cavalgou e disse a Estor: – Senhor cavaleiro, guardade-vos, se vos aprouver, ca vós vos poderíades bem sofrer desta batalha, ca eu cuido que nunca vos errei per que me devíades a cometer. – Vós me [e]rrastes tanto, disse Estor, ca nom há homem no mundo que tanto desame. E por em Título Fólio 14448a guardade-vos de mim. – Bem o farei, disse el, pois que a fazer me convém. Depós esto, sem mais dizer, leixouse correr u~u~ ao outro, e feriramse tam feramente que nom houve i tal que nom fosse mal treito e ambos chagados de mui grandes chagas. E Estor caeo em terra, ele e o cavalo, ca muito era de gram força o cavaleiro que o ferio. E quando o vio em terra, disselhe: – Cavaleiro, vós me chagastes sem razom e, se me a velania nom tornasse, eu me vingaria ora. Mas nom no farei, ca o quero mais leixar por cortesia ca por vós. E pois esto disse, partiose dele e foise assi como era chagado, quanto o pôde levar o cavalo. E, quando se Estor vio em terra e que era mal chagado, disse em seu coraçom: – Fé que devo a Deus, bõõ é o cavaleiro que se vai e bem conheço, por quanto vi, que é milhor cavaleiro que eu som. E por esto o leixarei esta vez, ca bem vejo que nom som de tam gram bondade d’armas que o possa vencer. Entam foise a seu cavalo e sobio em ele, chagado como Título Fólio 14448b era. Entam se tornou contra u cuidou que acharia mais toste Galvam e Elaim. Título Fólio 14548b Mais ora leixa o conto a falar de Estor e torna a Galvam. Aqui diz o conto que se foram de consu~u~ Galvam e Elaim, que era mal chagado. E iindo assi, aveeolhes que acharom a irmãa de Ivam. E trazia com sigo rei Bandemaguz, e contaralhe como e em qual maneira Patrides fora morto, mas nom lhe nomeou que o matara Galvam, ca duvidava que se nom combateria com ele porque eram ambos da Tavola Redonda. E todo esto ela fazia por ordir morte de Galvam a seu poder, que muito desejava a sua morte. Título Fólio 14648b A batalha de rei Bandemaguz e de Galvam. Tanto que ela vio, Galvam e o conhoceo, disse a rei Bandemaguz: – Rei Bandemaguz, ora havedes tempo de vingar morte de vosso sobrinho. Vedes aqui o que o matou. Ora veremos o que aqui faredes, se sodes tam ardido que o ousedes a cometer. Elrei vio que eram dous, preguntou a donzela: Título Fólio 14648c – Qual daqueles é o que o matou? E ela disse: – Aquel que traz o escudo branco e o liom vermelho. – Assi? disse ele. Já Deus nom me leixe trazer coroa se eu nom vingo meu sobrinho Patrides, a rem do mundo que eu mais amava. Entam deu vozes a Galvam: – Guardadevos de mim, cavaleiro, que vos desafio! Quando Galvam ouvio que o desafiava, leixouse ir a ele, e feriromse ambos tam rijamente que caerom ambos em terra, eles e os cavalos sobre los corpos, e as lanças avoarom em peças; mas ergueromse mui vivamente, ca muito eram ambos de gram coraçom e de gram força. Er meterom mãos aas espadas e começarom antre si u~a tam gram batalha e tam brava que nom há homem no mundo que, se a visse, que os nom tevesse ambos por mui bõõs cavaleiros. E mui toste poderiam veer qual deles era o milhor cavaleiro, se nam fosse que a ventura dusse i Estor de Mares, assi chagado como vos disse que o cavaleiro caçador o chagara. Quando ele viu ambos os cavaleiros, que tam bravamente começarom sua batalha, logo conhoceo Galvam, mas rei Bandemaguz nom. E pero, porque o viu tam bõõ em armas, logo esmou em seu coraçom que era da Távola Redonda e que se combatia com Galvam per desconhecença. Entam se chegou a eles e disse a Galvam: – Senhor, Título Fólio 14648d leixade esta batalha ataa que fale com vosco e com esse cavaleiro que se combate com vosco. E ele o leixou logo. Título Fólio 14748d Como se partiu a batalha. Estor disse entam al rei Bandemaguz: – Senhor cavaleiro, eu vos rogo, por amor e por cortesia, que me digades quem sodes. – Eu volo direi, disse ele. Eu hei nome rei Bandemaguz. [Quando Galvam ouviu] com que se combatera foi tam maravilhado e, porque se sentia que lhe errara do que havia feito a seu sobrinho, foi ficar os geolhos ante ele e disselhe: – Ai, meu Senhor! Eu me tenho por vencido desta batalha, pois vós sodes rei Bandemaguz. Ora fazede de mim o que vos aprouver, ca ja mais, se a Deus aprouver, nom me combaterei com vosco. E entam filhou a espada e deulha. Elrei vio que nom vencera o cavaleiro, maravilhouse do que dizia e, por saber quem era, fastouse u~u~ pouco afora e disselhe: – Dizedeme quem sodes. – Senhor, disse ele, eu som Galvam, sobrinho de rei Artur. – Ai, Galvam! disse elrei, em verdade sodes esse? – Si, senhor, disse ele. Elrei, que entendeu que era Galvam Título Fólio 14749a tal homem onde se nam poderia vingar aa sua vontade, houve tam gram pesar que filhou a espada e deitoua o mais longe que pôde. E depois disse: – Galvam, vós me havedes morto e escarnido, que me matastes meu sobrinho, o homem do mundo que eu mais amava. E sabede que eu vingaria sua morte se nam fossedes meu irmão da Távola Redonda. Mas nom no poderia fazer que me nom perjurasse. E por em me leixarei e serei eu mais leal ca vós fostes contra ele. E Deus vos leixe ende haver o gualardom. – Ai, Senhor! disse Galvam, sabede que, se o eu matei, foi per desconhocença. E por em nom me deve niu~u~ a poer culpa. – Nom andastes i bem, disse elrei, ca se vós mal obrastes, mal vos fará Deus por em. Entam foi filhar sua espada u a deixara e subio em seu cavalo. Estor veo a ele e disselhe: – Senhor, por Deus, perdoade a Galvam, ca per desconhecença vos errou. Entam se chegou a donzela e disse: – Senhor, quem sodes vós? – Eu som, disse el, Estor de Mares. – Senhor, disse ela, vós sejades bem vindo. Ora sabede que, se vós soubéssedes como andou Título Fólio 14749b este preito como o eu sei, que nom há rem do mundo per que o leixássedes a matar per vossa mão, ca este é o mais desleal cavaleiro de que nunca ouvi falar, segundo o que ende eu vi. – Ai, donzela, disse Estor; que é esso que dizedes? Como quer que o outrem culpasse, vós o deveríades salvar, ca bem sabedes vós ca este é o cavaleiro das donzelas. – Este é, disse ela, o cavaleiro do diaboo, ca este nom é cavaleiro em que Deus haja parte. Entam lhe contou como Ivam de Cinel fora morto per seu desemparamento e como lhe vira matar Patrides depois que lh[o] ela fezera conhocer. – Ai, Senhor! disse Galvam, par Deus, nom creades esta donzela, ca ante eu querria haver a cabeça talhada ca taes feitos fazer quaes ela conta. – Senhor, disse Estor, nom há rem per que o creesse, nem o creerei nunca, se o nom vir, ca nom haveríades depois seer chamado cavaleiro, senam desleal e treedor. Entam disse rei [Ban]demaguz: – Ainda que vos eu visse matar Patrides, nom vos mataria por em, pero houvesse poder de vos matar, ca nom queria fazer deslealdade per homem do mundo. E se vós a deslealdade fezestes que nos esta donzela conta, Deus em prenda sua vingança. Entam se partio deles e nom quis ficar por rogo que lhe Estor fezesse Título Fólio 14749c . E no partir disse a donzela a Galvam: – Galvam, vós me confondestes. Mais ja mais nom serei leda ataa que de vós nom haja vingança e que vos veja morrer de tam crua morte como vi Patrides. Tanto que esto disse, partiose deles e foise pera rei Bandemaguz. Título Fólio 14849c Como Elaim e Estor e Galvam dormirom no campo. Os três cavaleiros entrarom em seu caminho, Galvam e Estor e Alaim, e preguntou Galvam a Estor se achara o cavaleiro que andava catando depós a besta desassemelhada. – Si, disse ele, verdadeiramente o achei. – E como vos partistes ambos? Entam lhe contou quanto ende aveera. – E per quanto eu vi, disse ele, da sua bondade, eu sei verdadeiramente que nom há em toda a demanda quatro cavaleiros taes como ele, salvo Galvam e Tristam e Lançarot e Boorz. E por em leixei a batalha, ca bem vi que nom tiinha i prol. Quando Galvam esto ouvio, sinouse tanto o teve por maravilha. E em esto falando andarom ataa hora de véspera, E entam chegarom a u~a egreja velha e antiga, u nom morava homem nem mulher, a seu semelhar. E aquela egreja estava em meio de u~u~ gram chão mui Título Fólio 14849d ermo, e foram pera alá pera pousarem i aquela noite, como quer que fosse, ca era mui longe de todos os castelos e de todas as vilas. Ca ante querria[m] jazer em coberto ca no chão tal qual tempo quer que fezesse. Quando eles entrarom dentro tolherom aos cavalos os freeos e as selas por pacerem; dês i entrarom na egreja, desarmaromse e teveromse viçosos do que acharom e poderom, sem rem que houvessem de comer, e pensarom da chaga Alaim, que lhe acharom grande. Mas na oussia nom podia entrar niu~u~ que i veesse, ca era çarrada com bõoas guardizelas de ferro. E em meo da oussia, ante o altar, havia u~u~muimento tam rico que maravilha era. E era o muimento grande na bõa mensura. E Estor, que o viu tam rico, disse a Galvam: – Como poderíamos acá entrar? – De lá entrarmos, disse Galvam, nom me semelha, se nam britássemos as guardizelas; mas esto nom seria cortesia nem bem, ca bem semelha que os que esto aqui fezerom que nom quiserom que todo homem que aqui viesse que entrasse dentro. E, por esto, bõõ é que o leixedes. E Estor se outorgou i. Título Fólio 14950a Como Elaim viu as grandes maravilhas na capela. Tanto que foi noite dormecerom ambos, ca muito eram cansados. Elaim nom dormia, com coita da sua chaga, ca muito era mal chagado. E quando foi o primeiro sono, aveeo que toda a capela começou de tremer tam feramente como se se houvesse de ir em avisso. E entam aveeo u~u~ gram sõõ, como se fosse de torvam, assi que Elaim, que nom dormia, ficou ende esmorido; e depós esto, a cabo de u~u~ pouco, entrou u~u~ lume tam grande na oussia como se cem candeas acesas i estevessem; e com o lume veerom muitas vozes, que todas diziam: “Ledice e honra e louvor seja ao Rei dos Ceus”. Mas em sa viinda foi a capela tam comprida de bõõ odor como se todalas espécias do mundo i estevessem. E depós que as vozes cantarom gram peça tam saborosamente que Elaim era ende maravilhado, entam parecerom quatro home~e~s em semelhança de ângeos, tam fremosos que Elaim foi tam maravilhado da sua beldade. E vierom aa campaa, Título Fólio 14950b e filharomna aos #IV cantos e ergeromna em alto bem u~a lança e alá a teverom. Depois que esto fezerom deceu sobrelo altar u~u~ homem em semelhança de bispo e siia em sua cadeira mui rica; e, depois deceu sobrelo altar, disse, em guisa que Elaim o pôde bem entender: – Vem adiante, santa molher, e verás teu pam de ca[da] dia. E ele tiinha, sem falha, antre ambas as mãos u~a hóstia. Depois que esto disse, saio do muimento onde ergueram a campaa u~a molher toda nu~a mui velha e nom cobria rem fora seus cabelos que eram tam longos que lhe di[c]iam ataa terra, tam brancos como u~a neve; e foi ficar os geolhos ante aquele que estava sobre o altar e disse em guisa que Elaim o pôde mui bem entender: – Senhor, dáme o em que vivo, se te aprouver. E ele se abaixou logo e deilhe a hóstia que tinha e disselhe: – Vês aqui o teu Salvador. E pois o houve recebido, beixou o pee aaquel que siia na cadeira. E, dês i , foise meter em seu muimento, e a campaa foi logo posta sobre ele, assi que semelhava que nunca fora tirada. E entam quedarom as vozes de cantar. E aquel que siia na cadeira, que veera com gram claridade, foise em ela, e ficou a capela escura como ante. Título Fólio 15050b Como falavam Galvam e Estor nas maravilhas que vira Elaim. Pois esto aveeo em tal guisa Título Fólio 15050c como vos eu conto, Elaim, que todo vira, foi logo guarido e são de todas suas chagas e de todas suas feridas. Entam entendeo que aquelas cousas eram esperituaes e santas, e guardeceo muito a Deus o bem que lhe fezera e que lhe sofrera de aquelo veer e que houve tal mercee que o guareceu per tal virtude. Entam espertou os outros, e eles lhe disserom: – Amigo, que havedes? – Eu hei tam gram ledice e tam gram prazer camanho nunca cuidei haver em dias da minha vida. – Beento seja Deus, disse Estor, ca bem como a vós veo fremoso milagre, assi aveo a mim. Sebede que eu som são da chaga que me fez o cavaleiro caçador. Bem sei verdadeiramente que algu~u~ corpo jaz aqui per que estes milagres veem. – Verdade é, disse Elaim, se vissedes o que eu ende vi, vós o cre[e]ríades pola maior maravilha do mundo. – Ai, Deus! disse Galvam; como fremosas maravilhas aqui há! Verdadeiramente sam demostradas de Nosso Senhor e sam altas maravilhas do Santo Graal e sam as grandes puridades da Santa Egreja. Certas, disse Galvam a Estor, per esto que Deus mostrou [a] Alaim devemos nós a entender que jazemos em pecado mortal e que nom nos ama Deus como ele e que mais deve seer cavaleiro do Santo Graal que nós. Título Fólio 15150c Como o hóspede lhes devisou a aventura. Título Fólio 15150d Muito falarom em aquelo que lhe Elaim disse. Outro dia já manhãã deitaromse em prezes e fezerom suas orações, que Nosso Senhor os conselhasse assi que entendessem em sua vida em tal guisa que pudessem seer direitos demandadores da demanda do Santo Graal. E, depois que cada u~u~ esteve em sua oraçom quanto lhe aprouve, foram filhar suas armas e sobirom em seus cavalos e entrarom em seu caminho. E ante hora de terça os levou a aventura a u~a cruz u se partia o caminho em três carreiras. – Ora nos partimos, disse Galvam, pois três carreiras achámos partidas e nós somos três cavaleiros. Entam s’abraçarom e encomendaromse a Deus e partiromse; e Galvam foi a destro e Estor foi a seestro e Alaim pola carreiro de meo. Mas depós esto nom andarom muito que a carreira per que ia Galvam e Estor se ajuntarom. E Galvam disse a Estor: – Vós sejades bem vindo. Ora vejo que Nosso Senhor nom quer que nos partamos tam cedo, quando nos tam cedo ajuntou. – Assi me semelha, disse Estor. Em esto falando, cavalgarom todo aquele dia sem aventura achar que de contar seja. A noite chegarom a cas de u~u~ infançom que os albergou mui bem, por Estor que conhocia. E eles preguntarom: – Senhor Título Fólio 15151a háem esta terra aventura ou maravilha algu~a u se cavaleiros vãão provar? – Certas, assaz maravilhas e muitas aventuras aveem em esta terra. – E u aveem mais? disse Galvam. – Certas, Senhor, nom sei, disse ele, fora que aqui preto há u~a montanha e em aquela montanha u~a capela que chamam a Capela Perigosa. Ali vão cavaleiros noite e dia, maiormente os da Távola Redonda. E, sem falha, nunca homem alá foi onde eu ouvisse falar que nom achasse i aventura tam maravilhosa que se teem ende por mal treitos e mal chagados ou espantados do que virom. – E u poderíamos nós achar essa capela? disse Galvam. – Per u~a carreira, disse ele, que vai contra o sol quando se leva, vos levará i sem falha. E entam leixarom i falar. Título Fólio 15251a Como a donzela disse as novas da batalha de Gaeriet. Manhã partiromse de seu hóspede e foramse contra a irmida, e muito chegarom i cedo se nam fora u~a donzela que acharom que lhes disse novas onde se nam pagarom rem. E esta donzela acharom eles a[a] entrada de u~u~campo e ia com ela u~u~ escudeiro. E Galvam salvou ela Título Fólio 15251b e ela ele. – Donzela, disse el, sabermeíades dizer novas de algu~u~ dos cavaleiros da Távola Redonda? – Nom sei, disse ela, fora que vi ontem vencer u~u~ cavaleiro e era mui bõõ cavaleiro d’armas e de gram nomeada e chamavamno Gaeriet. – Ai! disse Galvam, como há aqui maas novas! E Estor disse outrossi. Galvam, que desto houve gram pesar tamanho que as lágrimas lhe veerom aos olhos, disse aa donzela: – Vistes vós a batalha? – Si, disse ela. – Como foi? disse ele. – Ai Deus! disse ela. Gaeriet ficou no campo tam mal chagado que bem cuido que ora logo seja morto; mas nunca vi cousa onde me tanto maravilhasse como daquela batalha. Ca sem falha, vi que per três vezes teve Gaariet preto de vencido o outro cavaleiro; e cada vez que se o cavaleiro partia da batalha tam mal chagado que, se o vós víssedes, terríades que logo devia a morrer, tornava a cabo de u~u~ pouco tam são e tam guarido como se nunca tevesse chaga. Assi foi aa batalha três vezes, todavia são das chagas que lhe Gaariet fazia; e per esto sofreu tanto que aa acima foi vencido, assi que bem cuido que jáora é morto e endurou mais que niu~u~ cavaleiro poderia endurar. – Ai, Deus! disse Galvam; e quem foi o cavaleiro que me fez esta perda? – Assi Deus me ajude, disse ela, nom sei, Título Fólio 15251c fora que trage duas bandas vermelhas atravesso no escudo e o campo é verde. – E u foi a batalha? disse ele. – A entrada, disse ela, da Foresta da S[er]pe, direitamente ante o Castelo de Jaiam. – Ai, dom Galvam, disse Estor, ora vos nom cuitedes, ca já nom haverei lidice ataa que saiba a que se pode este preito tornar. – Ai, Estor, disse Galvam, morto e escarnecido me há quem me tal irmão matou, ca este é o milhor cavaleiro do meu linhagem. Entam se partirom da donzela com gram pesar [t]amanh[o] que era maravilha. E foramse contra u mais toste poderiam achar Gaariet; mas nom andarom muito que errarom o caminho e andarom de u~a parte e da outra, assi como a aventura os guiava. E per esto lhes aveo que chagarom aa capela onde lhes o seu hóspede falara. Quando Galvam vio que nom podiam achar o que queriam aquela vez, disse a Estor: – Ai, amigo! Ai, amigo! Todo havemos perdido: ja mais nom iremos u meu irmão jaz morto nem saberemos quem no matou. – Amigo, disse Estor, nom vos dedes atam gram pesar, ca, se Deus me ajude, meu coraçom me diz que nom vai tam mal a Gaariet como a donzela disse. – Assi o mande Nosso Senhor, que pode, disse Galvam. Título Fólio 15351c Da visam que viu Galvam. Título Fólio 15351d Entam decerom ca a noite era já mui escura e pensarom de seus cavalos o milhor que poderom, e entrarom na capela u nom viam rem ca nom havia i lume de candea nem de al. E eles haviam gram pesar das novas que lhe a donzela dissera, da outra parte er andavam cansados e adormecerom logo que se deitarom. E eles dormindo, viu cada u~u~ sua visam mui maravilhosa, que nom devemos a leixar. A que viu Galvam: Semelhavalhe que estava em prado verde u havia muitas flores. E em aquel prado havia u~u~ curral u estavam #CL touros, e os touros eram argulhosos e louçãos maravilhosamente e todos eram dessemelhados, afora três; destes, era u~u~ ainda nem bem malhado nem bem sem malha, pero que parecia branco e que houvera já malha. Os dous eram atam fremosos e tam brancos que nom podiam mais seer. E estes touros eram liados polos corpos de sogas fortes e rijas. Todolos outros touros diziam antre si: – Vaamosnos daqui buscar outro milhor pasto ca este. Os touros se partirom dali. Entam se foram polo chão, ca nom polo prado, Título Fólio 15352a e viverom alá muito. E, quando tornarom, eram meos ca ante e os que tornarom eram tam magros e tam cansados que nom podiam estar se adur nom. Dos três que eram sem malha veera u~u~, e os dous ficarom. E quando todos tornarom a seu curral, houverom mui gram coita de fame, ca lhes faleceo o pasto e houveromse a partir u~u~s acáe os outros alá. Título Fólio 15452a Da visam que viu estor de Mares. Esta visam vio Galvam, mas Estor vio outra mui maravilhosa e dessemelhada desta. Ca lhe semelhava que ele e seu irmão La[n]çarot deciam de u~a cadeira e sobiam sobre dous cavalos grandes, e diziam u~u~ ao outro: – Vaamos buscar o que nom poderemos achar já. E assi andarom per muitas jornadas, tanto atee que Lançarot caia do cavalo. E derribavao u~u~ homem que o depois fazia subir em u~u~ asno, e espiao da roupa e de quanto lhe achava. E depois sobia no asno e andava assi longo tempo, ataa que chegava a u~a fonte, a mais fremosa nem a mais saborosa que nunca vira, e decia i por bever. Título Fólio 15452b E, u queria bever, f[u]gialhe [a] água. E, quando vi[a] que lhe fugia, tornavase pera donde viera. Estor todavia cavalgava e andava errado de cá e de lá, ataa que vinha aa casa de u~u~ rico homem que fazia grandes vodas e ricas. E vinha aa porta e dizia: – Abride alá. E o rico homem lhe dizia: – Outra pousada buscade, ca nom entra aqui homem que em asno anda encavalgado como vós. Entam se tornavam com gram prazer aa seeda que leixara em sua terra. Deste sonho foi tam espantado que se espertou com coita e revolvêse de u~a parte. E Galvam, que nom dormia, que outrossi se espertara por seu sonho, quando viu que se revolvia, disselhe: – Amigo, dormides? – Nom, disse Estor, ante me espertou u~u~ sonho que era mui maravilhoso. – Bem assi aveo a mim, disse Galvam, e ja mais nom serei ledo ataa que saiba que é. Título Fólio 15552b Do que virom Galvam e Estor de Mares na capela, de que se maravilharom. Eles em esto falando, virom entrar pola capela u~a mão que parecia atee o côvado, cuberta de u~u~ eixamete vermelho; e daquela mão pendia u~u~ freeo mui rico e trazia no punho u~a candea acesa que dava gram lume; e passou per antre eles e entrou Título Fólio 15552c na oussia. E, dês ali, nom n[a] er virom. Dês i disse u~a voz: – Cavaleiros de pouca fé e de pouca creença! Estas três cousas, que aqui vistes, vos falecem. E por esto nom podedes vi~ir a[a] demanda de Santo Graal, que hajades ende honra. Quando esta palavra foe dita, foram tam espantados que per u~a gram peça nom souberom que dissessem. E Galvam falou primeiro e disse: – Estor, entendedes vós esta palavra? – Nom, disse ele, mas bem na ouvi. – No nome de Deus, disse Galvam, nós vimos tanto dormindo, tanto como espertos. E o milhor que eu vejo da nossa fazenda é que vaamos buscar algu~u~ homem bõõ ou algu~u~ ermitam que nos diga a sinificança dos nossos sonhos e desto que ouvimos. E depois, segundo que nos aconselhar, assi o faremos, ca em outra guisa andaríamos em vão. Estor disse que em este conselho nom havia em ele senam bem. Assi aveeo aos cavaleiros ambos na capela. E nom er puderam dormir aquela noite. Quando o dia veeo, foram a seus cavalos e meterom-lhes os freeos e deitarom-lhes as seelas e armarom-se e cavalgarom e partirom-se da capela. E quando chegarom a u~u~ vale que era preto dali, acharom u~u~ donzel. – Amigo, disse Galvam, saber-nos-íades Título Fólio 15552d dizer preto daqui algu~a ermida poborada ou casa d’ordem? – Senhor, disse o donzel, ali em u~a montanha poderedes achar [N]aciam, u~u~ ermitam, o milhor homem que eu sei em esta terra e o mais sesudo e que milhor a todo o homem sabe conselhar que a el vai. E sabede que u~u~ semedeiro pequeno que acharedes ante vós a u~a cruz, que vai a seestro, vos levará i direitamente. – Ora te encomendo a Deus, disse Galvam, ca bem nos ensinaste o que andávamos buscando. E entam se partirom dele e começarom a andar. E, depois que andarom u~u~ pouco, disse Galvam a[o] seu companheiro Estor: Título Fólio 15652d Como Galvam matou Ivam o Bastardo. – Ai, Estor, morto so[m], por este feito nos esqueceu meu irmão Gaeriet. Que faremos i? – O que vós quiserdes, disse Estor. Mas terria por bem que falemos ante com aquele homem bõo; e depois iremo-lo buscar ataa que o achemos. E ele se outorgou i bem. Quando foram u~u~ pouco adiante, acharom u~u~ cavaleiro armado de todas armas que lhes pedia justa. – No nome de Deus, disse Galvam, peça há que nom achei cavaleiro que me [ju]sta Título Fólio 15653a demandasse. E pois a este demanda nom falecerei eu i. – Amigo, disse Estor, leixade-me vi~ir. – Nom farei, disse Galvam, salva a vossa graça, mas eu irei primeiro e, se me ele derribar, iredes vós que sodes milhor cavaleiro ca eu. Entam filhou sua lança e embraçou o escudo e foi contra o cavaleiro e o cavaleiro contra ele quanto o pôde o cavalo levar. E ferirom-se tam feramente que fezerom as lorigas desmalhar. E foi [o cavaleiro] chagado no peito tam mortalmente que a lança pareceo da outra parte e ambos caerom em terra e, ao caer, quebrarom as lanças. E o cavaleiro sentiu-se que era chagado aa morte e nom se pôde erguer. E Galvam ergueu-se mui vivamente e meteo mão a[a] espada e deitou o escudo ante o rostro e guisou-se de mostrar gram bondade d’armas como aquele que havia muita. Mas, quando viu que o cavaleiro nom se podia erguer, esmou logo que era chagado aa morte. Entam veeo a ele e disselhe: – Ou vos outorgade por vencido ou vos matarei. – Ai, Senhor, disse ele, matarme nom podedes mais do que me matastes. Minha morte podedes bem coitar, se vos praz. Mas, por Deus e por cortesia, fazede Título Fólio 15653b vós u~a cousa que vos rogo. Galvam disse que o faria de grado, se podesse. – Eu vos rogo, disse o cavaleiro, que vós me levedes a algu~a abadia preto daqui u possa receber direituras da Santa Egreja como cristão deve fazer em cima da sua vida. – Se me ajude Deus, disse Galvam, nom sei lugar preto daqui u vos possa levar. – Pois fazede tanto por mim, disse o cavaleiro: levademe ante vós e eu vos guiarei. Entam o filhou Galvam e deitouo antre os arçones da sela e cavalgou trás ele polo manteer e deu a Estor o escudo a levar. E andarom tanto que chegarom a u~a abadia que era em u~u~ vale preto dali. E depois que o decerom, meterom no cavaleiro em u~a câmara. E pedio logo seu Salvador e adusseromlho. E, quando o viu vi~ir, começou a chorar mui feramente e tendeu as mãos juntas contra ele e menfestouse logo a Deus ante quantos i estavam de todalas cousas onde se sentia culpado e [e]rrado contra seu Creador e pediolhe mercee maravilhosamente chorando. E pois disse quanto lhe nembrou mostroulhe o clérigo o seu Salvador. E ele o recebeu mui humildosamente. E, depois que o recebeo, disse a Galvam Título Fólio 15653c que lhe sacasse o ferro do peito. E Galvam lhe preguntou donde era ou de qual terra. – Senhor, disse el, eu som da casa de rei Artur e som companheiro da Távola Redonda e hei nome Ivam o Bastardo e foi filho de rei Uriam. E entrara na demanda do Santo Graal com outros meus companheiros. Mas assi me aveeo per meu pecado que vós me matastes. E eu vos perdoo do milhor coraçom que posso e Deus vos perdoe. Quando esto ouvio Galvam, disse com gram pesar: – Ai, Deus! como esto foi gram maa aventura! Par Deus, Ivam, muito me pesa da vossa morte. – Senhor, disse ele, e quem sodes vós? – Eu som, disse ele, Galvam, sobrinho de rei Artur. – Pois nim mim chal, disse el, da minha morte, pois som morto da mão de tam bõõ cavaleiro. Mas rogovos por Deus que, quando tornardes aa corte, que me saudedes meus companheiros, aqueles que ende achardes vivos, ca sei que muitos entrarom em esta demanda que nom tornaróm alá; e rogadelhes que se nembrem de mim em suas orações como de seu irmão. Entam começarom a chorar Galvam e Estor e Ivam outrossi. E Galvam meteo Título Fólio 15653d a mão no ferro da lança e sacou-lha do peito. E ao tirar estendeuse Ivam com a coita que sentio, e logo se lhe partio [a] alma do corpo. E Galvam e Estor fezerom por ele gram doo, ca muita bõa cavalaria lhe virom fazer muitas vezes, e fezerom-no meter em u~u~mui rico pano de seda que lhes os frades adusserom tanto que souberom que era filho de rei. E cantarom-lhe suas missas e fezerom-lhe ante o grande altar poer o muimento e meterom-no i e escreverom de suso o seu nome e daquel que o matou. Título Fólio 15753d Como chegarom aa ermida. Entam se partirom da abadia Galvam e Estor com gram pesar e cavalgarom tanto que chegarom a[a] ermida. E prenderom seus cavalos a dous grandes carvalhos que i acharom e pendurarom seus escudos nos ramos e foram-se per u~u~ estreito semedeiro per que sobiam a enfesto para [a] ermida, que era mui pedregoso e mau de subir. E quando foram a cima ficaram cansados ca sobejo era mau de subir. E depois que foram em cima acharom u~a ermida Título Fólio 15754a que chamavam de Naciam e era u~a casa pobre e pequena e u~a capela que i havia assaz pequena. E o homem bõõ andava colhendo ortigas a cabo da capela pera seu comer, ca muito havia gram tempo que al nom comera. Quando el vio vi~ir os cavaleiros armados pensou logo que eram cavaleiros andantes que andavam na demanda do Santo Graal, onde ele sabia novas, peça havia. E leixou de colher suas verças e foe contra eles e salvou-os e eles se humildarom muito contra ele er salvarom-no. E ele lhes preguntou: – Que razom foi porque acá viestes? – Senhor, disse Galvam, com sabor que havemos de falar com vosco e por havermos conselho onde somos desaconselhados e por seermos certos onde somos em du´vida. Quando el ouviu o que dizia Galvam, entendeo logo que era entendido das cousas terreaes e disse: – Certas, Senhor, de cousa que eu possa e saiba nom vos falecerei. Entam os levou pera sua capela e preguntou-lhes quem eram e fezerom-lhe conhocer, assi que bem soube ele cada u~u~ quem eram. Entam lhes disse que lhe dissessem onde Título Fólio 15754b eram desaconselhados e que lhes porria conselho i, se podesse. E Galvam lhe disse logo: – Senhor, ontem aveeo a mim e a este cavaleiro que chegámos a u~a capela e albergámos i. E, depois que nos deitámos e dormimos, sonhei eu meu sonho. E entam lhe contou qual. E depois que lhe contou seu sonho er contou-lhe Estor o seu sonho. E depois contarom-lhe da mão que virom e o que a voz lhe disse. E pois que lho contarom todo rogarom-no por Deus que lhes dissesse daquele sonho e da voz como era. Título Fólio 15854b Como o irmitam devisou a Galvam a visom do prado e dos #C e #L touros. Quando o homem bõõ ouvio o por que a ele veerom, respondeo e disse a Galvam: – Polo prado que vós vistes, u havia o curral, devemos a entender a Távola Redonda, ca assi como no curral há departimentos de sebes que divisam as estadas dos gaados, assi na Távola Redonda há piares e departimentos que divisam as u~as seedas das outras. Polo prado, que era verde, devemos a entender a humildade e a sofrença. No curral, u vistes os #CL touros e que nom saiam pelo prado, mas polo Título Fólio 15854c chão, devedes a saber e entender que, se polo prado saissem, seriam humildosos e obedientes. E os touros eram argulhosos e desassemelhados, fora três. Polos touros devedes vós a entender os companheiros da Távola Redonda, que por seu fornízio e por sua maa vida caerom em soberva e em mortal pecado, tam muito que seus pecados nom se podem absconder em eles, ante parecem por defora assi que sam todos desassemelhados. Dos três touros que eram sem malha devedes entender que som sem pecado, os dous que eram brancos e fremosos. Fremosos e brancos som os que sam perfeitos de todalas virtudes. Os dous touros que eram brancos significam Galaaz e Persival, que sam brancos ca sam virge~e~s limpos e sem malha. O terceiro, u houvera já sinal de malha, esse era Boo[r]z, que peça havia que errara em sua virgindade, mas depois o corregeu em guisa que tam bem guardou sua castidade que todo aquel erro foe perdoado. Os três touros eram liados polos corpos: sam estes três cavaleiros que sam assi liados de humildade que jásoberva nom pode a eles entrar. Os outros touros que diziam: “Vaamos buscar milhor pasto que este é”, estes sam os companheiros da Távola Redonda que disserom, em dia de Pintecoste Título Fólio 15854d : “Vaamos aa demanda do Santo Graal e seremos avondados das honras no mundo e do manjar celestial que a graça do Espírito Santo envia a aqueles que saem aa mesa do Santo Graal. Ali é o bõõ pasto; leixemos esto e vaamos alá ”. E eles se partirom da corte e foram polo chão, ca nom polo prado, ca nom foram aa confissam como deviam a fazer, quem entra ao serviço do Nosso Senhor, nem moverom com humildade nem com sofrença que entendemos polo prado verde. Mas foram polo chão seco u nom havia verdura nem frol nem fruita. Esta foi a carreira do Inferno, u todalas cousas sam secas que i vãao. E, quando tornavam, faleciam ende os chus; pera que havedes de entender que ao tornar desta demanda falecerám muitos, ca morrerám i. E os touros que tornavam eram tam magros e tam cansados que adur podiam estar. Estes sam os cavaleiros que da demanda escaparom e que tornarom aa corte, que seeram tam mazelados de pecados e tam envoltos i que os u~u~s mataróm os outros. E nom haveram bondade nem virtude em que possam estar, que nom caiam no Inferno. Dos três sem malha tornará u~u~, e os outros dous ficarám; assi se entende Título Fólio 15855a que dos três bõõs cavaleiros u~u~ tornará aa corte por contar o bõõ pasto que perderam os que jaziam em pecado mortal. Os outros dous ficarom, porque acharom tam gram sabor no manjar do Santo Graal que se nam partiram ende em niu~a guisa, pois que o houverom a sua vontade. A postomeira palavra do Nosso Senhor, disse ele a Galvam, nom vos direi, que poderia ende vi~ir mal e bem nom. – Senhor, disse Galvam, eu sofrerm’ei ende, se a vós apraz. E bem o devo a fazer, ca bem me fezestes certo da minha du´vida que toda a verdade vejo de meu sonho. Título Fólio 15955a Como o ermitam soltou o sonho a Estor. Entam disse o homem bõõ a Estor: – A vós semelhava que vós [e] Lançarot decíades de u~a cadeira. A cadeira significa senhorio. O senhorio onde vós decíades, a gram honra da Mesa Redonda, onde decestes, ca a leixastes quando vos partistes da casa de rei Artur. E subíades em dous cavalos grandes: os dous cavalos sam Argulho e Soberva. Depois dizíades: “Vaamos buscar o que nom podemos achar”. Título Fólio 15955b Este era o Santo Graal. Estas sam as puridades de Nosso Senhor e as cousas abscondidas que vos nam serám descobertas nem demostradas ca nom sodes taes quaes devedes a [s]eer. E, pois vos partíades u~u~ do outro, Lançarot cavalgava tanto que caía do cavalo. Esto quer dizer ca el cairá do argulho e abaixará em humildade; e sabes tu quem no derribará do argulho? Aquel que derribou o argulho do Ceu: e este é Jesu Cristo que abaixou Lançarot e que o espio dos pecados assi que se conhoceu e se viu nuu de todas bõas virtudes que cristão deve haver e pedio mercee; e, logo [a]o pedir, o vestio o Nosso Senhor. E sabedes de quê? De castidade e de humildade e de sofrença grande e de mesura. Esta foi a roupa que lhe deu. Depois faziao sobir em u~u~ asno; esta é a batalha que significa humildade. E bem pareceu, tempo foi, que polo asno devemos a entender humildade, ca em dia de Ramos entrou Nosso Senhor na cidade de Jerusalém, que era Rei dos reis, e cujas todas as requezas eram. E nom quis vi~ir em cavalo nem em palafrém, ante veeo na mais vil besta que pôde, como Título Fólio 15955c vi~ir em asno, por prenderem ende dele, dês ali adiante, os ricos e os pobres façanha d’humildade. Em tal besta vistes vós cavalgar Lançarot em vosso sonho. E, pois andava assi longo tempo, vinha a u~a fonte, a mais fremosa que nunca vira, e decia por bever. E quando querria bever, fugialhe [a] água. E, quando ele via que nom podia bever, tornavase per u viera. A fonte era fremosa e era feita em tal guisa que nunca homem tanta água pode sacar que mingue rem. Esta fonte é saborosa, a palavra do Evangelho. O coraçom do que se acha mal de seus pecados que fez há tam gram sabor que, quanto mais beve, tanto há maior sabor de bever. Esta é a graça do Espírito Santo e do Graal que, de quanto mais avondada, tanto i fica mais e mais porque nom há de minguar, deve seer chamada fonte. Quando el viinha aa fonte e decia, esto mostra que ele vierá preto do Santo Graal, e estará i e mudarseá tanto que se nam terrá por homem, ante aquel Santo Vaso, por que caia em pecado. E, quando se abaixava a bever e lhe [a] água fugia, esto quer mostrar que ficaráos geolhos ante o Santo Vaso por veer algu~a cousa das puridades Título Fólio 15955d que i sam. Entam se lhe esconderá o Santo Graal, ca perderá o lume dos olhos porque os deitou a veer os lixos terreaes. E perderá o poder do corpo, porque serviu longo tempo o poder do diaboo; e durará esta vingança #XXIIII dias, porque foi #XXIIII anos sergente do demo. E depois que estever assi #XXIIII dias, que nom comerá nem beverá nem contangerá pee nem mão ante lhe semelhará que é em tam bõõ estado como ante que perdesse o lume dos olhos. Entam dirá u~a peça do que vio e logo se partirá da terra e irsea ´pera Camalot. E vós, que todavia cavalgades no gram cavalo, esto mostra que ficaredes em pecado e em argulho e enveja, e iredes de cá e de lá, tanto desviando que chegaredes aa casa do Rei Pescador u os home~e~s bõõs e os cavaleiros farám as festas e as grandes lidices das grandes cousas que acharom. E, quando vós i chegaredes e cuidaredes dentro entrar, ali vos diram que nom ham cura de homem que jaz em pecado mortal e em argulho e em soberva. E vós vos tornaredes entam pera Camaalot, e nom adubaredes i rem da vossa prol na demanda. Ora vos devisei gram peça do que vos háde vi~ir. Título Fólio 16055d A devisam da mão que vio Estor. Ora convém que vos diga que quer Título Fólio 16056a seer a mão que vistes passar per ante vós cuberta, que tragia a candea e o freo. E pois a vós dizia a voz que “estas #III cousas vos falecem”. Pola mão devedes vós a entender a caridade; polo eixamete vermelho, onde era cuberta, devedes a entender o fogo do Santo Espírito, onde vem caridade sem acendimento. E [quem] há caridade em si há quentura e é vermelho e aceso do amor do seu Senhor Jesu Cristo. Polo freo devedes a entender a estença, ca assi como o cavaleiro leva e manda seu cavalo a qual parte quer polo freo e o faz estar quando quer, assi faz a esteença quando é bem firme no coraçom do cristão; essa o tem bem apertado, que nom pode caer em pecado mortal nem andar a sua vontade, senam andar em carreira de bõas obras. Pola candea que trazia que dava lume, devemos a entender a verdade do Evangelho que fala do filho de Deus que dá lume e claridade a todos aqueles que se fazem afora da carreira do pecado e torn[am] a dereita carreira, que é de Jesu Cristo. E assi vistes caredade e estença na capela. E por esto veeo Deus a sa capela, que nom fezera ele por entrarem i pecadores nem maus, mas que verdade fosse pregada i. E quando vos achou i, foise logo polo lugar que confondêrades sol per vosso catar. E quando se houve de ir, disselhes: – Vós, cavaleiros Título Fólio 16056b de pequena fé e de pequena creença, estas #III cousas vos falecem! E por esto nom podedes vi~ir aas aventuras grandes do Santo Graal. Título Fólio 16156b Como o homem bõõ disse a Galvam que nom acabaria rem na Demanda mentre andasse em pecado mortal. Ora vos departi a significança dos vossos sonhos e da mão. – Certas, disse Galvam, vós o departides e departistes em guisa que bem vejo que assi é. Ora vos rogo que me digades porque nom achamos tantas aventuras como soíamos. – Esto vos direi eu bem, disse o homem bõõ. As grandes aventuras que agora aveem sam demostranças e os grandes signaes do Santo Graal. Mas os signaes e as significanças do Santo Graal nom parecem ao pecador nem a homem que é envolto nos sabores do mundo. E por em se vos nom mostram já, ca vós sodes desleal pecador. E nom devemos cuidar que as aventuras que ora correm sam de matar cavaleiros nem outros home~e~s. Já desto nom veerá homem vi~ir aventura, ante seram as cousas que se mostraróm aos home~e~s bõõs significança das outras cousas, ca as cousas celestiaes sam escondidas, que já mais coraçom mortal Título Fólio 16156c nom as poderá conhocer se polo Santo Espírito nom é. – Senhor, disse Galvam, per esta razom que me dizedes me semelha que, seendo eu em pecado mortal, em vão me trabalharei desta demanda, ca nom farei i rem. – Certas, disse o homem bõõ, vós dizedes verdade; e quaes i vão que nom haverám se mal nom! – Per bõa fé, disse Estor, se nós vos creermos, tornaremos a Camaalot. – Certas, disse o homem bõõ, eu vos disse e ainda digo que, mentre fordes em pecado mortal, nom faredes i rem onde hajades honra. E eles, quando esto ouvirom, comendaromno a Deus e partiromse dele. E, quando se alongarom u~u~ pouco, chamou o homem bõõ Galvam e tornou a ele e disselhe: – Galvam, Galvam, já longo tempo há que foste cavaleiro a primas e, dês que recebeste ordem de cavalaria, nom serviste teu Creador se pouco nom. E agora és árvore velha, tanto que nom ficou em ti ramo nem folha nem fruto. Ora pensa oimais tanto que Nosso Senhor haja de ti a cortiça e o meolo, pois que o demo de ti levou os ramos e as folhas e a fruita. – Senhor, disse Galvam, se eu houvesse vagar de vos falar, falaria com vosco mui de grado; mas vedes, aquel outro cavaleiro Título Fólio 16156d com que hei companha tempo há se vai. E por em me convém que me vaa daqui, ou queira ou nom. Mas, tam toste que poder tornar, tornarei, ca muito hei gram sabor de falar com vosco em puridade mui grande. Título Fólio 16256d Como Estor e Galvam se partirom do outeiro u a ermida estava. Entam se partirom e deceromse ambos os cavaleiros do outeiro u a ermida estava, e vierom a seus cavalos e cavalgarom e filharom suas armas e andarom atee a noite e chegarom aa noite a casa de u~u~ montaneiro que os albergou mui bem, tanto que os conhoceu. E pola manhãã se partirom dali e se meterom na demanda e cavalgarom gram tempo de consu~u~, sem aventura achar que de contar seja. Título Fólio 16356d Mais ora leixa o conto a falar deles e torna a Galaaz e a Boorz quando se partirom de Esclabor. Ora diz o conto que, depois que Galaaz e Boorz se partirom de Esclabor o Desconhocido, cavalgarom aquel dia sem aventura achar ataa hora de noa. E entam lhe aveo, sem falha, que acharom, a entrada da foresta per que passarom o dia dante, aquel cavaleiro meesmo que tam gram Título Fólio 16357a tempo havia que andava após a Besta Ladrador. Boorz disse a Galaaz: – Ora podedes veer o cavaleiro que seu padre vos louvou de bondade de cavalaria sobre todos os cavaleiros da Gram Bretanha. – Certas, disse Galaaz, bem parece em ele que é bõõ cavaleiro, mas bem cuidaria eu que algu~u~ há milhor no Regno de Logres. – Nom sei, disse Boorz, que me ende averrá, mas ja mais nom haverei lidice ataa que eu prove per mim se é tal cavaleiro qual seu padre disse. – Vós i faredes vosso prazer, disse Galaaz, mas pavor hei de vos vi~ir algu~u~ pesar. Título Fólio 16457a Como Galaaz e Boorz acharom o cavaleiro da Besta Ladrador e como justou com Boorz e o derribou. Tanto que o cavaleiro chegou a eles, disselhes sem salválos: – Senhores, que andades buscando? Entam respondeo Boorz: – Nós buscamos o que vós buscades: a Besta Ladrador. – Como? disse o cavaleiro, minha demanda buscades e filhades vós, de que me eu tam longamente andei trabalhando e vos defendi que nom trabalhássedes em chus? Certas, esta é velania e folia grande e vós vos acharedes ende mal, se eu posso. Entam meteo a mão sob o braço, e o escudo ante o peito. E Boorz er fez outro tal, quando vio Título Fólio 16457b que a justa tiinha na mão. E o cavaleiro, que era mui vivo e de grande bondade d’armas, feri[u]o tam rixamente, que lhe falsou o escudo e a loriga e lhe fez gram chaga no peito, mas nom mortal, e lançouo em terra, ele e o cavalo, que sobejamente era de gram força. E daquela queda foi Boorz mui mal treito, ca o cavalo lhe caeo sobre o corpo chãamente. E pois o cavaleiro houve feito este golpe nom no catou chus, ante se meteo na foresta e corisco semelhava que ia empós ele, tam toste se ia. E Galaaz, quando vio Boorz em terra, houve ende pavor de seer chagado a morte. E por em leixou assi o cavaleiro quite e foi a Boorz, que era de gram coraçom e de gram força e que se levara já. Preguntoulhe: – Amigo, como vos sentides? – Senhor, disse ele, bem, mercees a Deus, eu nom hei niu~u~ mal. Esto dizia por confortar Galaaz. Mas muito se sentia doutra guisa ca ele dizia. – Vedes, disse Galaaz, ante volo eu disse. Sabede que este é u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo. – Eu o hei já por provado, que ja mais nom o er provarei pola gram bondade que eu sei em ele. Digo que é gram pecado e grande mal porque nom era cristão. – Verdade é, disse Galaaz.. Título Fólio 16457c Mas, pois vós sodes meu companheiro e da Távola Redonda e vos el matou ante mim, eu vos vingarei a meu poder, senam terriamme ende por covardo cavaleiro. Ora ficade vós e ide vosso passo e eu irei após ele e seguiloei tanto ataa que o acharei, se Deus quiser. Tanto que esto disse, meteose na foresta, e foise per u cuidou que acharia o cavaleiro quanto o cavalo o pôde levar. Título Fólio 16557c Como Galaaz foi depós o cavaleiro da Besta Ladrador por vingar Boorz. Boorz, quando viu Galaaz ir, cavalgou em seu cavalo e foise pós ele, cá, se podesse, queria veer o que havia de avi~ir desto. E assi se foi chagado agi~a e nom andou muito que achou u~u~ homem d’ordem vestido de panos e ia em u~u~ asno e ia rezando vésperas de Santa Maria, ca jáera ende hora. Quando Boorz a ele chegou, salvouo; e el leixou o que dizia er salvo[u]o e esteverom ambos entam. – Senhor, vistes vós pera aqui passar u~u~ cavaleiro de u~u~ escudo branco e de u~a cruz vermelha? – Si, disse ele, e vaise tam toste que o nom poderedes já hoje acalçar. E por ende vos louvaria de ficardes já hoje comigo, cá é hora d’albergar e, de mais, semelhadesme chagado. E eu vos Título Fólio 16557d levarei a lugar u pensarám bem de vós e vos faram muito serviço. E Boorz lho outorgou, cá era já tempo e semelhoulhe homem bõõ. Título Fólio 16657d Como Boorz ficou com o ermitam e como o ermitam conselhou e lhe devisou que era demanda do Santo Graal. Entam começarom a falar de muitas cousas tanto ataa que o homem bõõ lhe preguntou: – Senhor, quem sodes vós? – Eu som, disse ele, u~u~ cavaleiro de casa de rei Artur. – E que demandades vós, disse ele, em esta terra? – Eu demando, disse Boorz, o que adur será achado, a meu cuidar, u muitos home~e~s poserom já grande afam e prendem: na demanda do Santo Graal, u entrámos em dia de Penticoste #CL cavaleiros, todos home~e~s bõõs e de gram nomeada. – Como? disse o homem bõõ, começada é a demanda do Santo Graal? – Si, disse Boorz. – E vós sodes ende companheiro? disse ele. – Sem falha, disse Boorz. – Certas, de gram cousa vos trabalhades, de demandardes as puridades de Nosso Senhor e de cercardes as maiores maravilhas do mundo. – Senhor, disse Boorz, assi é. – Ora me dizede, disse o homem bõõ, como cuidades vós vi~ir aa cima de tam alto começo? – Senhor, disse Título Fólio 16658a ele, eu me meti a aventura i como os outros meus companheiros e, se prouver a Deus que me venha em bem, prazermeá. E se me ende al vier, sofrerloei mui bem. – E como havedes nome? disse o homem bõõ. – Senhor, disse ele, eu hei nome Boorz e som filho de rei Boors de Gaunes. – Certas, disse o homem bõõ, eu conheço vosso padre e vossa madre; e per razom devíades de seer homem bõõ, ca a Escritura diz que a árvor bõa faz bõõ fruto. E [a] árvor u vós saistes foi bõa, por que vós seredes bõõ, se pecado e maldade nom volo tolhe. Mas esto me dizede: como entrastes em esta demanda? – Senhor, disse Boorz, como os outros meus companheiros. – Par Deus! disse o homem bõõ; sandiamente entrastes i, e direivos como. Mas esto me dizede primeiramente: sabedes que é a demanda do Santo Graal? – Nom mui bem, disse Boorz. – Eu vos direi, disse ele, o que é a demanda do Santo Graal buscar: tanto quer seer como buscar as maravilhas da Santa Egreja e as cousas abscondidas e as maravilhas e as grandes puridades que Nosso Senhor nom quis outorgar que homem as achasse que jouvesse em pecado mortal. A demanda do Santo Graal é que, pois el espartiu os cavaleiros dos maus assi como o grão da palha, e quando ele partir os luxuriosos dos bõõs cavaleiros Título Fólio 16658b , entam mostrará a estes home~e~s bõõs e a estes bem aventurados as maravilhas que andam buscando do Santo Graal. Entam os avondarádo bem do Santo Graal e da sua santa graça e do beento manjar, onde os profetas e os home~e~s bõõs desta terra que sabiam já, que das cousas que haviam de vi~ir falarom chãamente, quando escondudamente desta beenta demanda, que é chamada graça do Santo Graal, serám avondados os bõõs cavaleiros que em esta demanda andarám que verdadeiramente se maenfestarem e se doerem de seus pecados e limpamente se guardarám em tam gram feito como este, que paricidamente é serviço de Nosso Senhor. E os que em pecado i andarem, averrálhes como diz o Evangelho que aveeo ao homem que foe sem panos de voda aas vodas do rico homem; ca diz que era i rico homem e fazia suas vodas mui grandes e teve olho polo paaço u siiam aas mesas e vio antre outros u~u~ homem que nom andava guisado de panos de voda, e mandouo filhar e atarlhe as mãos e os pees e deitálo em u~u~ cárcer. Esto diz a Escritura, que vos eu digo, por vós e por vossos companheiros: assi como aquel rico homem convidou os u~u~s e os outros pera a sua festa Título Fólio 16658c e pera seu manjar, assi convidou Nosso Senhor todolos companheiros da Távola Redonda por veerem as maravilhas do Santo Graal e por gostarem daquele doce manjar onde foram servidos em dia de Pinticoste, se eles entrarem em esta demanda assi guisados como devem e como aqueles que entram em serviço de Deus. Mas se entram em pecado e entram em luxu´ria como ante, em vão se trabalham, ca ja mais dele nom gostarám, ante receberám i muitas desonras e perdas, porque se chamarám cavaleiros da demanda do Graal, e tanto quer dizer como cavaleiros do Nosso Senhor, e nom no serám; e partirseam a desonra e viltança, assi como aquel que foi aa voda do rico homem sem panos de vodas. E bem sabede, dom Boorz, que, se vós fôssedes o milhor cavaleiro que nunca no mundo houve, a vossa cavalaria nom vos faria senam mal ataa que fôssedes bem menfestado e que houvéssedes rec[eb]u[do] o Corpus Domini. Mas se vós assi fezerdes e vos sofrerdes de pecar mortalmente, e pois entrastes na demanda do Santo Graal, sabede que eu cuido, per muito bem que em vós háonde muito ouvi falar, que vós haverídes em esta demanda honra e lidice [t]amanha como vosso coraçom nom poderia Título Fólio 16658d pensar. Ora havede conselho sobre esto que vos digo, ca, certas, se o em outra guisa fezerdes, em vão entraredes i, a meu cuidar. Título Fólio 16758d Como Boorz disse ao homem bõõ que valeria mais polo que lhe el dissera e que se confessaria logo. Quando Boorz esto ouvio, respondeo: – Certas, Senhor, vós corregestes tanto em mim per esto que me dissestes, que eu cuido per i mais valer todolos dias da minha vida; e bem cuido e conheço que me dissestes verdade. E creo bem que todo homem que em esta demanda entrar que faleça em serviço de Nosso Senhor, se bem menfestado nom for, que receberá i onta. E eu som aquel que, dês aqui em diante, nom entrarei i se me ante nom confessar o milhor que poder e que receba meu Salvador. E depois que houver feito assi, e que houver em minha campanha tam alto guiador como o Salvador do mundo, entam poderei seguramente cavalgar e buscar a todalas partes as aventuras do Santo Graal. – Esta é a verdade, disse o homem bõõ. Título Fólio 16858d Como Boorz se partiu do homem bõõ, e como achou seu irmão Lionel levar preso. E como u~u~ cavaleiro levava u~a donzela contra sua vontade. En esto falando, andarom Título Fólio 16859a ataa que chegarom, ao serão, u o homem bõõ morava. Aquela no[u]te nom dormio Boorz pensando no que lhe o homem bõõ dissera, ca bem via que lhe dissera verdade. Manhãã, ante que ouvisse missa, recebeo o Corpus Domini. O homem bõõ lhe disse: – Boorz, vós albergastes vosso Salvador. E ora vos guardade que lhe nom tolhades sua pousada. E sabede que se vós vos guardardes de pecar mortalmente em esta demanda, que tam gram honra vos verrá e tanta lidice e tanta bõa ventura que vós nom poderedes cuidar, ataa que o vejades. E ele respondeo logo: – Deus me lhe leixe fazer tal serviço em esta demanda que lhe apraza. – Assi como o eu desejo, assi o fazede todavia, disse o homem bõõ. E entam lhe deu a bençom, e Boorz filhou suas armas e armouse e sobio em seu cavalo e espediuse dele e foise pensando muito no que lhe o homem bõõ dissera. E fez logo u~a promessa, que em toda aquela demanda nom comesse senom pam e água, e teve pois esta promessa mui bem. Todo aquel dia cavalgou sem aventura achar que de contar seja. E a quantos achava preguntava por novas do cavaleiro que trazia o escudo branco e a cruz vermelha. Mas nunca achou quem lhe dele novas algu~as dissesse. Em outro Título Fólio 16859b dia lhe aveo que ia per u~u~ gram mato e aveeromlhe duas aventuras mui maravilhosas e ambas de consu~u~. Aveolhe que achou u~a carreira que se partia em duos semedeiros; per aquela carreira iam dous cavaleiros que levavam Lionel, seu irmão, desarmado e chagado mal e mal treito; e queriamno meter em u~u~ mato, u era mais espesso, polo matarem, e iamlhe dando das espadas chãas mui grandes feridas. Tal era u~a aventura. A outra er foe tal que u~u~ cavaleiro que levava u~a donzela ante si e ia polo outro semedeiro, e ela ia chorando e fazendo tam gram doo que bem vos semelharia que ante queria seer morta ca viva, ca o cavaleiro a presara em casa de seu padre e queria[a] levar ao mato por haver dela sua virgindade a seu pesar. E tanto que a donzela vio Boorz conhoceo bem que era dos cavaleiros do Santo Graal, dos que nom faleceriam a donzela coitada por rem que aveesse, e deulhe vozes quanto pôde: – Ai, cavaleiro bõõ, por Deus e por piedade, acorredeme e livrademe deste desleal que me quer escarnecer, se tu és dos bõõs cavaleiros que andam na demanda do Santo Graal! Assi disse a donzela a Boorz que lhe acorresse. E Lionel, que conhoceo seu irmão, deulhe vozes: – Ai, irmão Título Fólio 16859c Boorz, nom me leixedes aqui morrer, mas acorredeme e livrademe destes cavaleiros desleaes que me levam a estas montanhas preto daqui por me matarem. Título Fólio 16959c Como Boorz fez sa oraçom contra Deus, que guardasse seu irmão e como acorreu aa donzela ante que a seu irmão. Quando Boorz esto ouvio, nom soube que fezesse. Se a seu irmão nom acorresse, esto seeria a maior diabrura do mundo. E doutra parte, se nam acorresse a[a] donzela, seria desleal contra Deus e contra o mundo, ca havia prometudo a Deus e aos da Távola Redonda que ja mais nom faleceria dar ajuda a donzela que lha demandasse. E ela lhe demandava e dizia: – Ai, bõõ cavaleiro, por Deus e por piedade, havede de mim mercee e nom me leixees escarnecer assi. Quando Boorz ouvio que o rogava tam humildosamente, foi em tam coitado em seu coraçom que ergueo as mãos contra o céu como pôde e disse: – Padre Jhesu Cristo, se vos apraz, guardademe e guardade meu irmão, que nom moira, ca eu som aquel que me matarei e meterei em aventura desta donzela acorrer. Mas por esto vos rogo que nom moira meu irmão em mentre lhe eu acorrer. Entam ferio o cavalo das esporas e foise depós a donzela que era jáquanto Título Fólio 16959d alongada. Encomendouse muito a Deus e nom andou muito que vio em u~u~ vale o cavaleiro que decera e tiinha a donzela sub si por jazer com ela. E ela dava voz quanto podia. Entam, quando Boorz esto ouvio, leixouse correr ao cavaleiro e deulhe vozes: – Dom cavaleiro, leixade a donzela, ca em mau ponto a filhastes. Quando o cavaleiro esto ouvio, ergueose mui toste e disse: – Cavaleiro, nom sodes cortês que vos trabalhades de cousa que vos nom convém. Ca ela é tam minha que eu farei dela toda minha vontade, mau seu grado e vosso. – Assi me Deus ajude, Senhor, disse a donzela, nom é assi, cánunca foi sua nem d’outrem, ante me filhou hoje pola mãã em casa de meu padre. – Eia, cavaleiro, disse Boorz, vedes o que diz? Certas, vós vos acharedes mal de quanto já fezestes, se eu posso. Entam deceu e atou o cavalo a u~a árvor e tirou a espada e leixouse ir a ele. E o outro, que o vio vi~ir, semelhoulhe que era bõõ cavaleiro e fezese u~u~ pouco afora polo conhocer. E disselhe: – Senhor cavaleiro, rogovos que me digades quem sodes. E Boorz disse: – Eu som Boorz de Gaunes. Quando o cavaleiro ouvio que este era Boorz de Gaunes, u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo e mais Título Fólio 16960a nomeado, deitou a espada em terra e disse: – Senhor, ora podedes de mim fazer vossa vontade, ca eu som aquel quer per rem nom me combaterei com vosco, ca bem sei que a cima me veerria mal. Entam ficou os geolhos ante el e disse: – Senhor, eu me meto em vosse mercee, mas rogovos, por mercee e por cortesia, que esta donzela, que eu amei tam longamente e por que sofri tanto trabalho, que ma dedes e eu a filharei por mulher e terreia a tam grande honra como filho de rei e de rainha deve a fazer a filh[a] de rei e de rainha. – Esto nom farei eu, disse Boorz, em niu~a guisa, a menos de saber dela se lhe apraz. E entam preguntou a donzela, e a donzela lhe respondeo logo: – Senhor Boorz, eu sei verdadeiramente que ele me quis bem, tempo há, e conheço verdadeiramente que é de tam gram guisa como eu; mas esto nom farei em niu~a guisa, sem conselho de meus amigos, ca seeria mais profaçada, pois som donzela. – Ai, donzela, disse Boorz, pois que vos ele quer fazer tam grande honra que vos quer filhar por molher e que vos tanto ama, rogovos, e, certas, eu vos digo que bem e honra vos ende verrá. E, se i profaço há, seja meu, e a honra seja vossa. – Senhor, disse a donzela, vós sodes teu´do por mui bõõ cavaleiro e por mui bõõ homem; por Deus nom me façades fazer cousa onde Título Fólio 16960b a meu linhagem venha desonra. – Eu sei, disse Boorz, que lhes nom pesaráe que serásua grande honra e por em [vos rogo] que o façades. – Senhor, disse ela, eu o farei, pois que me vós tanto esforçades. Entam lhe prometeu o cavaleiro que a filharia por molher. Pois disse Boorz: – Ora vos podedes ir de consu~u~, e eu irmeei alhur, u hei muito de fazer. Entam foi a seu cavalo e cavalgou e leixou o cavaleiro e a donzela que bem fezerom pois quanto prometerom. E saibam todos aqueles que este conto ouvirem que daquel cavaleiro e daquela donzela saio pois Licanor o Grande, bõõ cavaleiro que matou Meragis do Porto dos Vaas, depós morte de rei Mars, assi como este conto devisará, pois, em cima do nosso livro. Mais chus nom fala em mais desto ora esta vez. Título Fólio 17060b Como Boorz foi por acorrer a seu irmão Lionel. Como Boorz se partiu do cavaleiro e da donzela, foise o mais toste que pôde contra u cuidou que mais asinha poderia achar seu irmão. Mas em vão se trabalhava ende que, de canto se mais metia na furesta, tanto se mais alongava dele. Mas, porque vos nom divisei quaes eram os dous cavaleiros que levavam Lionel preso, quero volo divisar Título Fólio 17060c , assi como a estória verdadeira o conta e diz. Título Fólio 17160c Como Lionel chegou aos tendelões u achou a dona soo. Aquel dia meesmo se partira Lionel em casa de u~u~ infançam. u jouvera aquela noite. E pois se meteo em seu caminho, assi como outros, aveolhe que a ventura o levou, a hora de prima, [a] u~a torre que estava sobre u~u~ campo em aquela foresta meesma primeira. Quando el chegou preto da torre, em meo de u~u~ prado, viu dous tendilhões tendudos, mui fremosos e mui ricos, e ante cada u~u~ estavam dous escudos e duas lanças. Tanto que Lionel vio os escudos foi pera alá, ca era mui desejoso ca muito havia gram peça que andara na demanda e nom achara rem com que muito lhe aprouvesse. Quando ele chegou aos tindilhões, catou dentro, mas nom viu niu~u~ , fora u~a dona que jazia i dormindo em u~u~ leito. E pero espertouse polo cavalo de Lionel que começou a rinchar. Quando ele vio a dona soo deceu por folgar e por lhe preguntar algu~a rem da sua fazenda. E pôs em terra sua lança e seu escudo e liou seu cavalo Título Fólio 17160d a u~a estaca do tendilhom e entrou dentro. E ela, que era mui cortesa, recebeu[o] mui bem e disselhe: – Senhor, sodes cavaleiro andante? – Dona, disse el, si. Mas porque o preguntades vós? – Senhor, disse ela, por vos fazer quanto serviço e quanta honra poder mais, pois cavaleiro andante sodes. Ora seede e folgade, se vos prouver, ca, certas, da vossa viinda me praz muito. – Dona, disse ele, vossa mercee. Título Fólio 17260d Como a dona conhoceo Lionel e como o marido da dona e o padre del quiseromna matar. Entam se assentou a cabo dela, e ela lhe disse: – Senhor, donde sodes? – Dona, disse ele, eu som da casa de rei Artur. – Senhor, disse ela, semelhame que sodes natural do reigno de Gauna ou que vivestes i muito, segundo a linguagem que falades. – Certas, disse [ele], e vós assi me semelhades ende. – Verdadeiramente som, disse ela, e do regno de Benoic e de bõõ linhagem assaz. Mas quando rei Artur foi a Gauna, por destroir rei Claudas que se metera na cidade de Gaunes, entam foi dada a u~u~ cavaleiro do regno de Logres, que me pedio a rei Artur em galardom de seu serviço e filhoume por molher e, dês que me houve em esta terra, fez aqui esta torre que veedes. Mas rogovos, pois cavaleiro andante sodes e do regno de Gaunes, Título Fólio 17261a que me digades como havedes nome. E ele se nomeou. E quando ela esto ouvio ficou os geolhos ante ele e quislhe beijar o pee, mas el nom quis, ante a ergueo muito asinha. E ela lhe disse: – Ai, Lionel! Vós sejades bem vindo! Por Deus, que faz meu senhor dom Lançarot, o milhor cavaleiro que eu sei e que eu mais de grado veria? – Certas, disse ele, peça háque o nom vi; pero creo que é são, ca nom há muito que me u~u~ cavaleiro da nossa companha disse novas assaz mui bõas. - Deus lhe dê sau´de, disse ela. Ca, certas, quando ele morrer, malamente abaixará a cavalaria. Entam lhe preguntou Lionel: – Estes tindilhões cujos sam? – Do que me filhou por molher, disse ela. – E os escudos, disse el, cujos sam? – Este escudo branco, disse ela, é seu; e aquel negro, de seu padre, e aqueles outros dous sam de seus irmãos. – E u sam? disse Lionel. – A pee, disse ela; foram folgar per esta foresta, e logo ora aqui serám. E eles em esto falando, aquevos vem o marido da dona e seu padre que viinha contra os tendilhões. E quando vio o cavaleiro armado dentro no tendilhom e que lhe tiinha a molher tam leda foi ende mui espantado, e houve tam gram pesar que nom soube que fezesse nem que dissesse. E feze-se afora e começou a pensar muito a maravilha. E o padre, que o viu pensar, preguntouo: – Filho, que hás? – Que hei? disse ele; nom veedes a minha molher desleal e aleivosa Título Fólio 17261b , que fez assi aqui vi~ir u~u~ cavaleiro estranho por me escarnir, enquanto nós fomos andar per esta foresta? Ora fez já o cavaleiro quanto quis em ela e pois er filhou suas armas por nos fazer semelhar que nom viera aqui por niu~u~. – Par Deus, filho, diz o padre, eu bem cuido que dizees verdade. Ora fazede i quanto teverdes em coraçom, ca eu volo louvo. – Eu nom sei, disse o cavaleiro como me possa vingar milhor deles ca de os matar. Matarei ela primeiro, que o fez aqui vi~i~r. E dês i ele, que veeo i por meu mal. Título Fólio 17361b Como o marido da dona matou a dona ante Lionel e como Lionel chagou o padre aa morte. Entam meteu mão a espada e foise direitamente aos tindilhões, e disse aa dona, ante que lhe ela rem podesse dizer: – Dona, vós me escarnistes, e eu vos escarnerei, ca no me[re]cestes Entam ergueo a espada e talhoulhe a cabeça e disse a Lionel: – Esto hei feito por vossa desonra ca vós me fezestes escarnho da rem do mundo que eu mais amava. E eu vos farei escarnho na rem do mundo que mais amades, em vosso corpo. Guardadevos de mim, ca nom há i senam morte. E entam se leixarom a ele ir el e seu padre, desarmados como estavam, tanto era grande a sanha e o despeito que haviam. E Lionel, que Título Fólio 17361c outrossi havia grande sanha e gram pesar da desonra que prendera, disse: – Cavaleiro, morto m’havedes de seer, que esta dona matastes a tam gram torto e a desonra de mim. Assi Deus me ajude, se desarmados nom fôssedes, eu me vingaria em guisa que ja mais em outrem nom metessedes mão, ca se eu armado vos cometesse, que sodes desarmados, terriammo por velania. E por em vos conselho que me nom cometades ca sabede, sem falha, que vos matarei como quer que mo aa vilania tenham. E eles, que estavam sanhudos e com pesar, nom leixarom a fazer rem do que começarom. Quando Lionel vio que nom podia guarecer, se se nom defendesse, ergueo a espada e ferio o padre, que o coitava mais, tam feramente que lhe talhou a espádua seestra e ele caio logo em terra. E quando o filho esto vio pensou que Lionel o mataria, se o mais cometesse, e fezese u~u~ pouco afora. E Lionel lhe disse: – Cavaleiro, mal me desonrastes e bem me vingaria de vós, se desarmado nom fôssedes. Mas bem vos digo que u quer que vos armado ache, que me porredes i a cabeça, se eu posso. Título Fólio 17461c Como o marido da dona e dous seus irmãos foram após Lionel e como Lionel matou do primeiro golpe o marido da dona e os outros dous irmãos prenderom Lionel. Título Fólio 17461d O cavaleiro nom respondeo a rem que lhe dissesse, como aquel que se viia em perigo de morte. E por em se saiu do tendilham. E Lionel meteo sua espada em sua bainha e foi a seu cavalo e cavalgou e meteose em seu caminho com gram pesar da morte da dona. E nom andou muito que ouviu vi~ir pós si cavaleiros e catou e vio três. E estes três eram filhos daquel que el matara. E eles vinham mui toste e, tanto que a el chegarom, disseromlhe: – Guardate de nós, cavaleiro desleal e treedor, ca nom há i fora morte, ca bem a mereceste. Quando ele vio os escudos conheceo bem que eles eram e logo viu que se nam poderia deles partir sem perigosa batalha. Entam volveo a eles e meteo todo em aventura e baixou a lança e ferio o primeiro tam rixamente que lhe meteo a lança polo peito e lançouo em terra e, ao caer, quebroulhe a lança em ele e o cavaleiro ficou chagado aa morte. E sabede que este era aquel que matou a dona. E os outros dous irmãos, que nem temiam Lionel de rem, firiram Lionel tam feramente que u~u~ lhe fez mui gram chaga, mas nom mortal, e o outro lhe matou o cavalo assi que ele houve a ir a terra, mal a seu grado. Mas ergueose mui vivamente, ca muito era vivo e ligeiro, e meteo mão a espada e guisou-se Título Fólio 17462a de se defender ca bem vio que lhe era mui mester. E aqueles, que estavam mui sanhudos e com gram pesar, foram a ele assi de cavalo como estavam, e filharomlhe a espada per força e prenderomno, ca muito eram ambos mui bõõs cavaleiros, e desarmaromlhe a cabeça e u~u~ deles lha quis talhar. E o outro lhe disse: – Nom no matedes, mas levemolo a nosso padre e, se o acharmos vivo, prenderemos entam del qual vingança nos demandar. Entam lho tornarom contra os tendilhões. E ali fez Deus mui fremoso milagre por Boorz, que rogara a Nosso Senhor por seu irmão que lho guardasse de morte, pois ele ia [a]correr a donzela por seu amor e por nom errar juramento que havia feito da Távola Redonda que havia de acorrer a toda donzela coitada. E por esto quis Deus assi que, por amor de Boorz que tanto fezera por ele, que ambos os cavaleiros que levavam Lionel caerom mortos a[a] entrada do campo u aqueles dous tindilhões e os III escudos dos cavaleiros estavam. Título Fólio 17562a Como Lionel se partiu du o livrou Deus dos cavaleiros que o levavam preso e ameaçava iindo Boo[r]z. Quando Lionel viu esta aventura, foi Título Fólio 17562b mui ledo e foise aos tendilhões e guisouse de cavalo e de armas o milhor que pôde e er colheuse a seu caminho, pero que tam mal era chagado que mais lhe seria mester de folgar ca de cavalgar. E ia com gram pesar sobejo de que lhe falecera seu irmão a atam gram coita, assi que lhe houve u~u~ tam gram desamor mortal que disse que lhe talharia a cabeça, se o podesse vencer per armas, que nunca irmão errou tal erro a outro. Com tal sanha e com tal pesar andou Lionel todo aquel dia e aa noite chegou a u~u~ mosteiro de monges brancos u havia muitos bõõs home~e~s e de santa vida. E aquel mosteiro estava sobre u~a grande água, que havia nome Celeça. Ali foi Lionel mui honradamente recebudo e servido aa sua vontade, e bem lhe pensarom das chagas ca os freires lhe faziam esto mui grado porque dous cavaleiros andantes faziam entam novamente aquel mosteiro. Ali jouve Lionel enquanto lhe aprouve ataa que viu que poderia cavalgar, mas ante nom, em mentre era pior treito. E menfestouse a u~u~ dos milhores freires de i e disselhe o mal que queria a seu irmão e porquê e como escapara de morte. O homem bõõ, que bem conhocia Boorz, ca ante aquela domãã se lhe menfestara, e bem sabia sua bondade Título Fólio 17562c e bem cria que Nosso Senhor o amava muito maravilhosamente, respondeolhe: – Senhor cavaleiro, vós me contastes u~a das fremosas aventuras que nunca ouvi falar; e façovos saber que este foi gram milagre de Nosso Senhor; mas esto nom aveo por bondade vossa nem por amor que Nosso Senhor vos haja; ante veo por algu~u~ rogo que Boorz fez a Nosso Senhor por vós, que eu creo verdadeiramente que ele é u~u~ corpo santo e u~u~ dos cavaleiros do mundo que ele mais amava. Por tal conheço eu sua vida e sua maneira. – Senhor, disse Lionel, vós diredes o que vos aprouver, mas nom creo eu que, se ele atal fosse como vós dizedes, que me leixasse em tal perigo como me leixou. E por esto digo bem que nunca per niu~a guisa seerei ledo ataa que me vingue dele a toda minha gram vontade. Título Fólio 17662c Como Lionel chegou u havia de seer o torneo e como achou seu irmão Boorz. Pois que Lionel viu que poderia cavalgar, armouse e cavalgou, e foise e andou tanto que chegou a u~u~ castelo que havia nome Cidela, u havia aquela hora mui gram gente fora e dentro porque havia i pola manhãã u~u~ torneo e eram i assunados muitos bõõs cavaleiros da Távola Redonda e de muitas terras. Quando Lionel soube que ali haviam d’haver torneo, pensou que nom poderia seer que algu~u~s cavaleiros da Título Fólio 17662d Távola Redonda i nom viessem. E se i seu irmão viesse que ali se vingaria do erro que lhe fezera. Entam preguntou a u~u~ donzel que i estava: – Cuidas que poderia achar albergue em este castelo, se alá entrasse? – Nom, disse o donzel, ca tam muitos sam i que nom cabem dentro. Mas quando el ouviu esto partiuse de ante a porta do castelo. E tanto andou boscando albergue preto do castelo u pousasse como homem estranho que nom sabia a terra, e tanto andou que chegou a u~a ermida e deceo i e pensou que ficaria já ali aquela noite, que pousaria i milhor ca em no páramo. E, pois foi desarmado, tolheo a sela e o freo ao cavalo e deitouse sob u~u~ carvalho por folgar que estava ante a porta da ermida. E ele assi jazendo viu vi~ir contra si Boorz, seu irmão. E tanto que o conhoceu, logo que lembrou do perigoo em que o leixaria e começou a morrer de sanha e de mal talante. E ergueuse contra ele, mas nom pera salválo, mas pera fazerlhe mal e pesar, se podesse. Quando Boorz conhoceu que aquele era Lionel, seu irmão, houve tam gram lidice que vos nom saberia homem contar. E deceo asinha de seu cavalo e disse: – Amigo irmão, vós sejades bem vindo. Quanto háque aqui viestes? Lionel nom lhe quis a esto responder, mas disselhe: – Boorz, nom faleceo por vós de seer eu morto noutro dia, quando vistes que os dous cavaleiros me levavam Título Fólio 17663a e vós nom me quisestes acorrer, ante acorrestes a u~a donzela que nom sabíades quem era. Nunca irmão fez tam gram deslealdade como vós fezestes a aquela hora; e por aquele feito vos desafio, assi que nom há i al se morte nom; ca ja mais nom seerei ledo ataa que me vingue de quanto me vós fezestes. Título Fólio 17763a Como Lionel fez mala seu irmão Boorz e como matou o ermitam que rogava que nom matasse seu irmão, Quando Boorz viu seu irmão tam sanhudo houve gram pesar sobejo e ficou logo os geolhos ante ele e, dês i, ajuntou as mãos e pediulhe mercee e rogoulhe que lhe perdoasse aquele erro. E ele respondeu: – Já Deus nom me ajude se vos perdoo, mas guardadevos de mim ca, certas, eu vos farei o que homem deve a fazer a cavaleiro treedor e desleal; ca, certas, vós sodes o mais treedor que eu nunca vi. E entam filhou suas armas e subiu em seu cavalo. E depois disse a Boorz: – Guardadevos de mim, ca, assi Deus me aconselhe, eu vos matarei. E, se todo o mundo por vós me dessem, eu vos nom remeria de morte. Quando viu Boorz que o preito era assi e que se havia de combater com Título Fólio 17763b seu irmão ou senom morrer nom soube que fezesse, ca nom há rem que se com ele combatesse a seu poder, ca era seu irmão maior, a que devia de teer humildade e senhorio. E porque em niu~a guisa nom lhe queria fazer mal disse ca o provocaria outra vez, se acharia em ele mercee. Entam tolheu seu elmo e ficou os geolhos ante seus pees do cavalo de seu irmão, e chorou mui feramente e disse: – Amigo, bõõ irmão, havee de mim merceee e nom me mates, mas perdoame esto erro, e nembrate do grande amor que deve haver antre mim e ti. Por quanto Boorz dizia nom dava Lionel u~a palha, como homem que havia diaboos que lhe davam coraçom de matar seu irmão. E Boorz todavia estava em geolhos ante ele e as mãos juntas e pedindolhe mercee. E quando Lionel viu que se nom erguia por rem que lhe dissesse, feriu o cavalo das esporas e feriuo dos peitos do cavalo tam feramente que o meteu em terra, e Boorz foi mal ferido da caeda. E Lionel passou tantas vezes sobre ele que o quebou todo. E Boorz foi tam coitado que bem cuidou a morrer ali, sem menfesto. E, tanto que ele viu que se nam podia erguer, deceu, como aquel que havia gram sabor de lhe talhar a cabeça; e ele por lhe talhar, saiu o ermiram Título Fólio 17763c da ermida, u~u~ homem de grande idade, que bem ouvira quanto fora dito antre os irmãos. E, quando viu que Lionel estava guisado de talhar a cabeça a seu irmão, foi correndo alá mui espantado, deitouse sobre ele e disse: – Ai, bõõ cavaleiro, have de mim mercee e de teu irmão, ca, se o matas, tu és morto em pecado e nunca rem valerás e será gram dano da morte de tal homem. – Assi Deus me ajude, disse Lionel, dom créligo, se vos ende nom erguedes, matarvosei. E pero por em nom seráele quite que eu i nom faça o que comecei. – Certas, disse o homem bõõ, mais quero que mates mim ca o veer ante mim morrer. Entam se deitou sobre ele de longo em longo e abraçouo polas espádoas e disse a Lionel: – Ora podedes fazer o que quiserdes ca eu morte quero receber por ele. Quando Lionel esto ouvio nom quis tardar nimigalha, como aquel que havia mui gram sanha, e deu ao homem bõõ u~u~ tal golpe que o fendeu todo, sem falha, atee os dentes. Título Fólio 17863c Como Calogranac chegou u Lionel queria talhar a cabeça a Boorz e como se combateo com Lionel por Boorz. Pero Lionel esto fez, nom Título Fólio 17863d lhe minguoo nada da sanha que tiinha, ante correo a seu irmão e deulhe da maçãã da espada tal golpe na cabeça que lhe fez o sangue sair por sete lugares. E matarao sem falha se aaquela hora nom veera per i Calogrenac u~u~ cavaleiro da Mesa Redonda, que ia armado pera o torneo. E quando el i chegou e vio o homem bõõ morto maravilhouse. E quando er vio o cavaleiro que tiinha o outro sob si e que lhe queria talhar a cabeça e pois os catou bem, conhocê-os bem ambos e houve gram. pesar e deceo do cavalo e filhou Lionel polas espádoas e tiroulhe Boorz da mão e disse: – Que é esto, Lionel? Sodes sandeu, que queredes matar vosso irmão, o milhor cavaleiro e o milhor homem que eu sei? Certas, esto nom sofreria eu a ne~hu~u~ homem bõõ. – Como, disse Lionel, queredesmo vós tolher? Por bõa fé, se vos ende mais trabalhades, leixarei ele e filhareime com vós. Quando esto ouvio Calogrenac foi espantado e disselhe: – Verdade é que o queredes matar? – Matar o quero, disse ele, que o nom leixarei por vós nem por outrem ca muito mo mereceu. Entam alçou a espada pera dar a Boorz pola cabeça, e Calogrenac se meteo Título Fólio 17864a antre ambos e disse que se o quisesse mais ferir que ele na batalha era. Quando esto ouvio Lionel filhou seu escudo e preguntoulhe quem era e ele se nomeou. E Lionel lhe disse: – Vós sodes da Mesa Redonda, mas Deus nom me ajude se me por em leixo a combater com vosco, porque me tolhedes que nam tome vingança do homem do mundo a que eu pior quero, e desafiovos logo. Entam lhe deu logo a maior espadada que pôde per cima do elmo. E quando Calogrenac vio que se começava a peleja, foi correndo a seu escudo que deitara em terra, e filho[u]o e meteo mão a espada. E ela era bõõ cavaleiro e muito ardido e defendiase mui vivamente. E durou tanto a batalha ataa que se ergueo Boorz e em seendo tam mal treito ca ja mais nom cuidava a filhar armas, se Deus nom posesse sobre ele mão. Quando Calogrenac viu que se combatia com seu irmão, houve gram pesar ca, se Calogrenac matasse seu irmão ante ele, nunca ja mais seria ledo tanto o amava de coraçom. E se seu irmão matasse Calogrenac a desonra ende seria sua, ca bem sabia ca por ele começara Título Fólio 17864b el aquela batalha. Desto havia el gram pesar sobejo e de grado os iria partir, se podesse, mas nom podia por rem, ca muito se doia, e atendeu tanto que Calogrenac houve o pior da batalha, ca muito era Lionel ardido e arrizado. E Calogrenac havia já assi seu elmo metudo em peças e seu escudo e sua loriga que nom atendia já se morte nom. E tanto perdera já do sangue que nom podia jáestar, e houve gram pavor de morrer. E catou e vio Boorz que se erguia já a mui grande afam. E disselhe: Ai, dom Boorz! que me nom viindes sacar deste perigo de morte em que entrei por livrarvos, que érades tam preto da morte ou chus ca eu ora som? Certas, se vós me leixades morrer, todos aqueles que ouvirem falar vos porám culpa ende, e seráa desonra vosssa e o dano meu. – Todo esto nom vos há mester, disse Lionel. A morrer vos convém desta vez, e todo o mundo nem vos goreceráque vos ambos nom mate. Quando Boorz esto ouvio nom foi bem seguro ca, pós morte de Calogrenanc matáloia seu irmão, se o desarmado achasse. E por esto foi a seu elmo e atouo. E quando achou o ermitam morto houve gram pesar e disse: Título Fólio 17864c – Ai, Deus! que mala ventura e que pecado! E Calogrenanc deu vozes outra vez: – Ai, dom Boorz. Assi me leixaredes matar? Se vos praz que eu moira, muito me praz de morrer ca, certas, por milhor homem ca vós nom poderia eu, ora nem depois, morte receber. Título Fólio 17964c Como Lionel matou Calogrananc. Desto ergueo Lionel a espada e ferio Calogrananc tam de rixo que lhe deitou o elmo a longe. E, quando el vio sua cabeça nua e viu que nom poderia escapar, disse: – Ai, Senhor Padre Jesu Cristo, que me sofrestes que eu entrasse em esta demanda nom tal nem tam quite de pecado como eu divia, haveeme mercee a alma, em tal guisa que esta door que eu aqui sofrerei por bem e por esmola que fazer queira me seja aliviamento e pendença da minha alma. Entam deitou o elmo a longe e deitouse em cruz. E Lionel, que estava com gram sanha fera, ferio dizendo esta parávoa, tam rijamente que o matou. Em esto aveo u~u~ milagre mui fremoso, assi como a estória verdadeiramente o divisa, nem nós nom no leixaremos a contar. O milagre foi tal: Quando Lionel o chagou na cabeça, e o sangue que houvera Título Fólio 17964d de sair da chaga, que era mui grande, saio leite tam branco como a neve e saio ende tanto como a maiadade de u~u~ barril. E foi verdade que lhe do corpo saio foi tal. E daquel sangue, que tam branco era onde a terra nem pôde seer bem limpa, aveo que saíram ende flores ante que passasse u~u~ meo ano depós sua morte. E ainda em aquel tempo há cada ano flores que daquelas saíram e todo o verão as poderá achar e ham nome aquelas flores calogres e prestam ainda ora a quem se vai o sangue, que lho estanca[m], mas besta que as come, logo morre. Assi como vos eu conto morreo Calogrenanc e aveo ende tam fremoso milagre como vos eu diviso. E aquela ermida, cabo donde el morreo e u foi soterrado, houve nome a Ermida de Calogrenanc e nunca se lhe cambou seu nome. Título Fólio 18064d Como Nosso Senhor enviou fogo antre Lionel e Boorz, que se nom matassem, e como disse a Boorz u~a voz que se nom ficasse com seu irmão, Depois que Lionel matou Calogrenanc nom no catou depois nem no milagre que fora feito ante se leixou ir a seu irmão e deulhe per cima do elmo u~u~ tam gram golpe que o fez todo emborcar. E Boorz amava humildade naturalmente e rogavalhe ainda, Título Fólio 18065a por Deus, que leixasse esta batalha. – Ca se aveer, irmão, que vos mate ou vós a mim, esto seeráa maior deslealdade e a maior maravilha que nunca aveo no regno de Logres e seeremos mortos em pecado. E por em vos rogo, por Deus, que vos leixedes ende. – Já nom me ajude Deus, disse Lionel, se vos eu mercee houver, se mais posso ca vós. Ca nom ficou por vós de eu morrer. Entam tirou Boorz a espada e disse: – Senhor Padre Jesu Cristo, nom se me torne a pecado se me eu defendo contra meu irmão. Entam ergueu a espada e u quis ferir seu irmão per cima do elmo ouvio u~a voz que lhe disse: – Filho Boorz, nom no feiras, ca o matarás! Entam deceu antre eles u~a chama de fogo em semelhança de corisco, tam acesa que lhes queimou todolos escudos. E eles foram em tam coitados que cairom em terra e jouveram gram peça esmoridos. E, pois se ergueram, cataromse e viram antre si [a terra] toda acesa de fogo que ardia. Mas quando Boorz vio que seu irmão hom havia niu~u~ mal, tendeu as mãos contra o ceeo e guardeceo muito a Deus. E entam lhe disse u~a voz: – Boorz, nom tenhas mais companha a teu irmão, mas vaite dereitamente contra o mar, e nom te detenhas Título Fólio 18065b nenhur ca Persival te i atende. Quando el esto ouvio, tendeo as mãos e disse: – Padre dos ceeos, beento sejas tu que te praz de me chamares pera o teu serviço. Entam foi a Lionel e disselhe: – Por Deus, irmão, perdoademe. E ele disse que lhe perdoava de grado. E depois lhe er disse Boorz: – Irmão, mal fezestes que matastes Calogrenano nosso companheiro da Mesa Redonda, e outrossi destes ao homem bõõ irmitam. Mas ele nom entendia ainda a maravilha que aveera de Calogrenao ca nom prazia a Deus de se mais deteer de ir u o Persival atendia. E Lionel respondeo: – Muito me pesa de quanto i fiz, mas meu pecado e minha maa aventura mo fez fazer. Ora me dizede o que i faça. – Irmão, disse Boorz, eu nom posso aqui mais estar, mas vós ficade, e comendovos a Deus, ca nom sei se vos er virei mais, e rogovos, por Deus e por honra do nosso linhagem, que outra vez nom façades tam gram braveza nem tam gram crueza como fezestes, ca nom vos pode ende vi~ir algu~u~ bem, mas todo mal. E ele disse que ja mais nom lhe veria outra tal. Título Fólio 18165b Como Boorz se foi contra o mar se acharia Persival assi como lhe a voz dissera. Boorz foi entam a seu cavalo e subio tam mal treito como era. E Lionel ficou por fazer soterrar aqueles que matara. Mas pois Boorz cavalgou Título Fólio 18165c , foise per u entendeo que mais toste iria ao mar e andou tanto per suas jornadas que chegou a u~a abadia que estava em riba do mar. E jouve ali aquela noite e foi mui servido de quanto os home~e~s bõõs podiam haver. A hora de mea noute, disselhe u~a voz: – Boorz, levate e vaite ao mar, que já Persival i é que te atende na riba. Quando ele esto ouvio, ergueose mui toste e sinouse e rogou a Nosso Senhor que o guiasse e nom quis espertar niu~u~, por lhe nom entenderem que se tal hora ende saía, e foise enfrear seu cavalo e selouo e filhou suas armas e armouse e saiose da abadia pola porta que era aberta contra o mar e partiose ende em guisa que niu~u~ nom no vio nem entendeu. Título Fólio 18265c Mais ora leixa o conto a falar de Boo[r]z e torna a Persival. Persival diz a sua estória que andou grande peça que nom achou aventura de que lhe aprouvesse, por seus companheiros, por Lançarot, por Estor e por Tristam e por seu irmão Agloval, ca destes se nembrava mais e estes amava mais. E avi~alhe tam bem que nom ia a lugar Título Fólio 18265d que nom achasse novas que d[e] u~u~s que d’outros. Esto o confortava. E em aquela demanda vos digo bem que fez mui bõa vida, ca mais estava em orações e em rogos que em al, e nunca houve i dia que nom jejunasse, e os mais dos dias comia a pam e água, e nom achava ermitam nem empardeado a que se nom confessasse e com que nom filhasse conselho de sua alma. E Deus lhe fazia tanta mercee que era tam fremoso e tam ledo per semelhança que no mundo nom havia mais ledo cavaleiro de ledices e de prazeres e dos sabedores que os cavaleiros andantes haviam em aquel tempo. Nom semelhava que niu~u~ nom havia mais namorado ca ele nem que mais se deitasse ao sabor do mundo. Mas al havia dentro e al havia de fora. Título Fólio 18365d Como Persival chegou a[a] ermida. U~u~ dia lhe aveo u~a aventura maravilhosa de u~u~ homem de ordem que fora muito alto homem e fora do linhagem do rei Uter Padregão. Aquel alto homem fora cavaleiro de mui gram bondade de armas e bõõ Título Fólio 18366a em outra guisa. E meterase em u~a ermida por amor de Nosso Senhor e vivera assi bem #XXX anos ou chus. Essa ermida estava em meio de u~a gram mata em cima de u~a montanha, longe de toda gente, em lugar muito estranho. E, quando Persival i chegou, nom havia el em sua companha fora u~u~ cavaleiro que i entrara novamente. Aquel dia que Persival chegou a[a] ermida, era dia sestafeira e hora de prima, o nom veeo i per ensino de niu~u~, mas assi como o aventura adussera. E quando chegou e vio a casa atam pobre logo conhoceo que era ermida e deceo como aquel que havia em costume de falar com os home~e~s bõõs em preito de sua alma. E, pois pôs em terra seu escudo e sua lança e tolheo seu elmo e sua espada, entrou na ermida e, ao entrar, signouse e rogou a Nosso Senhor que o conselhasse. E ele fazendo o sinal da santa cruz ouvio, em u~a capela pequena que i havia, voz de u~u~ homem que lhe disse: – Entrade diante, Parsival, santa cousa e beenta. Beento seja Deus que vos aqui adusse. Vossa vinda me livrou da morte do Inferno. Verdadeiramente vós sodes dos verdadeiros cavaleiros e dos bem aventurados que ham dar cima aa demanda do Santo Graal. Quando Persival esto ouviu, foi espantado Título Fólio 18366b e maravilhouse que poderia seer, quem era que o conhocia e nom no vira ainda. E ele deu vozes chus chus: – Ai, Persival! santo cavaleiro, dáme tua bençom, ca tu és dos bem aventurados que conhocidamente veram o Santo Vaso. Quando Persival chegou aa porta da capela vio ante o altar u~u~ homem velho e antigoo e cão e magro e pobre. E vestia u~a saia e havia a barba tam grande que lhe dava per terra e tiinha darredor do pescoço u~a corda já quanto grossa assi como quem levavam a enforcar. E, tanto que vio Persival preto de si, ficou os geolhos ante ele e disselhe: – Ai, Persival! vós sodes amigo de Deus e vós sejades bem vindo, que me livrastes de morte maa e de nojosa. E pero nom vós mas fezemo Nosso Senhor por vosso amor. Título Fólio 18466b Como o homem que achou Persival na irmida o rogava que o benzesse. Persival foi tam espantado quando viu que ficava os geolhos ante ele e quiseo erguer, mas nom quis ele, ante lhe disse: – Aqui morrerei, se me nom dás tua bençom, ca eu te conheço por tam bõõ homem e por tam santo cavaleiro que tua bençom me há mui mester e que me poderá gorir do poder do diaboo. – Ai, Senhor! disse Persival, Título Fólio 18466c mercee; eu nom som bispo nem clérigo de missa que vos bençom possa dar, ante som cavaleiro pecador e mizquinho mui mais que me mester seria. _ Ai, Persival! disse o homem bõõ, faze o que te rogo, se nam moverei nunca daqui. – Senhor, disse ele, por Deus, mercee; já vos disse que nom era prelado da Santa Egreja, que vos possa dar bençom. E ainda volo digo: esto é gram maravilha que me demandades. – Ai, Persival! disse el, ante eu queria tua bençom que de quantos prelados hoje eu sei, ca tu és bõõ homem contra Deus e mais santa cousa que tu cuidas. E por em te rogo ainda que faças o que te demando, ou eu te prometo que ja mais nom me moverei daqui por morte nem por al. Entam o filhou a ambas as mãos pola abaa da loriga e disse: – Ora me faze aqui morar quanto te aprouver. Quando Persival vio que o tiinha em tal coita, nom soube que fezesse nem que dissesse, ca aquel tempo nom era costume que cavaleiros andantes fossem demandados de dar sua bençom, ca, sem falha, poucos havia que nom jouvessem em pecado mortal e em luxu´ria grande, que mui poucos havia i que nom fossem namorados de suas entendedores. Título Fólio 18566d Como Persival benzeu o homem bõõ. E como lhe beijou o pee. O homem bõõ estando assi, como vos eu digo, disse Persival: – Farei o que me rogastes, mas nom é per meu grado, ca, sem falha, nom é costume do regno de Logres que se cavaleiro trabalhe de tal cousa. Entam ergueo a mão e disse: – O Rei dos reis vos dê a sua bençom, ca a de tam pobre cavaleiro como eu som nom vos pode valer. Mas esto vos valha! Entam o assinou no nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, e o homem bõõ se chegou mais a ele e beijoulhe o pee. E Persival foi todo espantado do que lhe vio fazer a aquel tempo e aquela hora. Título Fólio 18666d Como o homem bõõ disse a Persival que lhe contaria a maravilha que Deus fezera por ele. Entam se ergueu o homem bõõ e disse a Persival: – Beento seja Deus que vos aqui adusse a esta saçom! Certas, ca muito me era mester, como vos eu contarei. Ora seede, e divisarvosei a maior maravilha que.peça háque aveesse a pecador. Esta maravilha me aveo hoje. E Persival se assentou logo, como aquele que desejava muito a saber sua fazenda daquel homem. E o homem bõõ começou a contar em tal guisa. Título Fólio 18767a Como o homem bõõ contou a Persival a maravilha que lhe veera. “Persival, amigo, muito hágram tempo que naci; bem há #C e #XX anos e chus, e nom terria estes dias por mal empregados, se os metessse em bõas obras; mas tanto foi pecador, velho e mancebo, que todos meus dias tenho perdudos, ca fiz pouco bem e fiz muito mal. E foi rei de gram terra e rica e foi companheiro d’Uter Padregão e deste rei Artur quando começou a reinar. Mas por u~u~ pecado que me aveo, [o]nde me sentia por mui culpado contra Nosso Senhor, entrei aqui por salvar minha alma; e u~u~ meu irmão, que era mui bõõ cavaleiro, leixou o segre por mim e entrou aqui por me teer companha e viveu com migo #XXIX anos em tal vida como Deus sabe. Quando meu irmão morreu, nom há ainda dous anos, e morreu, assi como eu cuidava, em tam gram pendença e em tam bõa vida e em tantas lágrimas, pedindo assi mercee a Nosso Senhor, que eu nom cuidaria en niu~a guisa que, tanto que a alma se lhe partisse do corpo, que logo nom fosse ante a face de Deus com gram companha de anjos e de arcângeos. E eu fiquei soo bem Título Fólio 18767b u~u~ ano e nom houve companha fora a de Deus. E nom háainda u~u~ meo ano que veo aqui u~u~ cavaleiro e ficou com migo por fazer pendença de dous seus filhos que matara. E disse que viveria sempre em ela; mas nom me semelhou que de bõõ coraçom sofria a pendença, ante cuido que se tornaria ao segre mais de grado que de ficar aqui, se vergonça nom fosse. Assi ficou comigo bem #XIII meses e nom semelhava que rem fez que lhe Deus devesse a guardecer. E, por ora há #III dias que morreu, aveo u~a cousa ante mim onde som muito maravilhado, e direivos qual. Aquela hora que lhe [a] alma queria sair do corpo, me disse: – “Amigo, Ai! Roga por mim, ca eu cuido que teu rogo me será bõõ contra Deus, e eu prometo que, se o eu fazer posso, que eu te vinirei veer a meu poder de hoje ao terceiro dia e direite novas de teu irmão e darteei novas quanto hás de viver.” Título Fólio 18867b Como o homem bõõ disse a Persival como soubera novas de sa vvinda per u~u~seu companheiro que morrera i pouco havia, e lhe disse quanto havia de viver. Esto dizendo, passou, pedindo mercee a Nosso Senhor mui feramente. E eu me maravilhei, porque me dizia o que lhe eu nom demandava, que ja mais pudesse seer o que me prometia. Mas pero foi ca, u estava eu – era ante o altar – fazendo minha oraçom, aveeo que me pareceu tam fremoso Título Fólio 18867c e com tam gram claridade que adur o podia veer. Pero todavia soube que era ele, e disseme: – “Amigo, novas te trago mui maravilhosas. Teu irmão jaz em na pena e na ardura do purgatório, e jará ainda i três anos, ante que cime sua pendença; mas nom vai assi me, mercee Deus, ca tam toste que me parti deste mundo, logo se me a alma foi pera a lidice do paraíso, que ja mais nom falecerá. Ora guarda bem o que farás, ca tu te partirás deste mundo daqui a dezassete dias; e entam haverás o que mereceste. E eu nom posso ja mais estar aqui, ca vês aqui Persival o bem aventurado e o gl[or]ioso, que te vem aqui buscar ora e veer.” Título Fólio 18967c Como o hornem bõõ contou a Persival em qual guisa o Deus livrara. Em tal guisa como vos eu conto me apareceu meu companheiro e se ar foi, e nom soube quando. E eu fiquei pensando e muito espantado da bõa vida que vira fazer a meu irmão e da longa pendença que tevera e semelhoume que achara pequena mercee em seu Criador e pequeno gualardom Título Fólio 18967d da gram lazeira que por ele sofrera. Entam comecei a pensar de que estevera tanto em aquela ermida e disse per sanha que era folia e mal sem e por se trabalhar homem tam muito polo que nom sabe que háde seer, ca tanto bem receberáe mais depós sua morte o mau como o bõõ. E esto dizia eu por meu irmão, que tanto e mais merecera de ir a paraíso ca meu companheiro. Assi caí em desperança, e, pensando i, veeo u~a voz que me disse mais sei que foi demo que me quis enganar– a voz me disse: – Outro tanto ou pior podes de ti atender como de teu irmão. E este seerá o galardom que haverás de teu trabalho. Tanto que eu esto ouvi, [disse] per sanha: – Ai, cativo! Escarnido som e enganado de tal vida que fiz tam longamente. Mal empreguei meu trabalho. Ja mais nom me trabalharei de servir Deus, pois vejo que o gualardom é tal. Entam foi tam tolheito e tam sanhudo que pensava de me matar com minhas mãos e filhei logo esta corda e deiteia na minha garganta, assi como veedes e pensei que me penduraria naquela trave que vós ali veedes, assi que pensaria todas minhas coitas em u~u~ golpe. Assi guisava Título Fólio 18968a minha morte como vos eu conto e como mo o demo fazia fazer; mas semelhava a mim que nom prazia a Nosso Senhor que morresse tam desonrada morte, ante me quis acorrer per vossa viinda; onde aveo tam bõõ milagre que, tam toste como quisestes aqui entrar e vos sinastes, logo se partiu de mim o demo, estando tam preto da morte como vos eu conto, ca nom houve poder de sofrer o santo sinal que foi feito per mão de tam santo homem como vós. E logo tornei em meu sem o conhoci como o demo me quisera fazer perder o corpo e alma e soube verdadeiramente que som livre per vossa viinda e guardeçoo muito a Nosso Senhor. Certas, se vós nom fôssedes santo homem e de santa vida e comprido de graça de Nosso Senhor, já per vós nom avera tam fremosa aventura. Por esto demandei vossa bençom, tanto que entrastes, ca eu conheço mui milhor vós e vossa bondade ca vós meesmo. Persival nom soube que responder a esto, como aquel que nom queria niu~u~ louvor terreal, mas pero disselhe: – Nosso Senhor vos guardou de tam grande erro. A ele só dade grado, ca bem vos digo que esto nom veeo per mim, mas [per] aquel que vos fez e vos nom quis perder. Título Fólio 19068b Como Persival rogou ao homem bõõ que lhe dissesse que podia seer da demanda do Santo Graal. Entam tolheu o homem bõõ de si a corda e deitoua alonge. Depois começou a falar com Persival e preguntou u~u~ o outro da sua fazenda, e pois falarom gram peça das suas cousas, disselhe Persival: – Senhor, desta demanda do Santo Graal, que ora começámos novamente, que vos semelha ende? Cuidades que lhe possamos dar cima? – Certas, nom sei, disse o homem bõõ, mas por vosso amor rogarei a Nosso Senhor na segrada da missa, que per sua mercee me amostre que pode ende seer, e vós outrossi rogade a Nosso Senhor que me mostre ende algu~a rem, ca eu sei bem que vosso rogo me poderá i muito ajudar. E Persival disse que assi o faria. Título Fólio 19168b Como o homem bõõ contou a Persival quanto lhe aveeria na demanda do Santo Graal e como morreria em pendença. Aquel dia e aquela noite ficou Persival com o ermitam e pola manhãã, tanto que o ermitam foi vestudo nas armas de Jesu. Cristo e houve cantada missa com a segrada, aaquela hora caiu u~a carta sobre o altar. Mas, sem falha, nona virom quem na deitara, ca as esprituaes Título Fólio 19168c cousas nona se nostram em todos lugares u veem, sa nam a quem Deus quer. Depois que houve dita a missa e se espiu da vestimenta, tomou a carta e disse a Persival: – Amigo, Nosso Senhor ouviu vosso rogo; vêdes aqui u~a carta que nos enviou. Eu cuido que acharedes i escrito o por que me preguntastes. Entam abrio a carta e, pois a leo, disse a Persival: – Amigo, Persival, da demanda do Santo Graal vos digo que vós haveredes muito prazer e muita bõa aventura e muito trabalho e muita lazeira e que chegaredes a casa do Rei Pescador por haverdes o santo manjar do Santo Graal, e vós seredes i #XII companheiros dos bõõs a Deus e ao mundo e ali haveredes tam gram lidice e tam gram prazer que nunca maior houvestes. E, pois vos partirdes dali, sabedes o que vos convinrá pois sofredes muito trabalho e muita lazeira em fazendo companha ao Santo Vaso. Entam vos guiará Nosso Senhor, vós e Galaaz e Boorz de Gaunes, a u~a terra mui estranha e mui longe do regno de Logres, e em aquela terra morreredes vós e Galaaz em serviço de Nosso Senhor. – Todo seja, disse Persival, na vontade daquele que me fez, ca nom dou muito Título Fólio 19168d por morrer u quer, tanto que morresse em bõas obras que a minha alma fosse salva. Mas tanto me dizede vós, se vos aprouver: cuidades vós que ja mais eu possa veer a companha da Mesa Redonda assi assu~ada como a vi em dia de Pintecostes? – Certas nom, disse o ermitam, ja mais nom nos podedes assi veer ajuntados senam no dia do juizo, ca bem sabedes que em esta demanda há já muitos mortos e ainda i morrerám mais. – E de meu irmão Agraval, disse Persival, sabedes se o acharei? – Certas nam, disse o homem bõõ, já mais vivo nom no veredes, ca aquel que vos mais matou de vossos amigos, esse o matará. – E quem é? disse Persival. Quem matará? – Esto nom vos direi eu, disse o homem bõõ, em niu~a guisa, ca muito mal poderia ende vi~ir a vós e [a]aquel que o háde matar. – Como quer, disse Persival, que a meu irmão avenha, ou de morte ou de vida, Nosso Senhor lhe haja mercee a alma e lhe faça que o conheça bem a sua fim, ca na fim do homem é todo. – Ora, disse o homem bõõ, nom me preguntedes mais, ca mais vos nom direi. Título Fólio 19268d Como Persival se espediu do homem bõõ e s’ia cuidando. Pois falarom de Título Fólio 19269a muitas cousas antre si, Persival disse ao ermitam: – Senhor, a mim convém que me vaa depós meus companheiros, e rogovos, por Deus, que vos nembredes de mim em vossas orações, ca eu som pecador assi como outro homem. – Eu rogarei por vós, disse o homem bõõ. E vós outrossi rogade por mim. E Persival disse que assi o faria. Dês i, foise a seu cavalo e metêlhe o freo e deitoulhe a selo; e, dês i, armouse e cavalgou e espediose do ermitam e rogoulhe que pensasse de manteer o que começara. E ele lhe respondeu entam: _ Ai, Persival! Nom hajades duldança de me eu partir já mais do serviço de Jesu Cristo, ante o servirei mui milhor que ataa [a]qui servi, ca muito me é mester, pois o prazo da minha vida é tam pequeno, e muito me averria mal se em #XVII dias perdesse o que eu #XXX anos a grande afam servi. Persival o encomendou a Deus e foise entam e cavalgou todo aquel dia sem aventura achar que de contar seja e pensando muito no que vira e ouvira do homem bõõ e que havia de morrer em esta demanda tantos bõõs cavaleiros da Mesa Rendonda. Título Fólio 19369a Como Persival achou a Besta Ladrador. Outro dia a hora de meo Título Fólio 19369b dia lhe aveo que achou em u~u~ vale a Besta Ladrador. E quando a viu e soube que ela trazia em si onde vinham aqueles ladrados, maravilhouse mais de rem que nunca visse e disse: – Verdadeiramente esta é a besta pós que meu padre andou tam longamente e por que sofreu tanto trabalho. Certas, ir quero após ela por saber se Deus me querrerá i dar milhor andança ca a meu padre deu. Entam se partio do caminho e foise após ela. E nom andou muito que a perdeu de olho, ca a besta era tam ligeira e iase a tam gram ir como se corisco fosse após ela. E Persival se foi após ela seu passo, que nom queria cansar seu cavalo. E ele assi indo, aquevos o cavaleiro pagão que tam muito havia que andava depóla besta e era armado de u~as armas todas negras e andava em u~u~ bõõ cavalo outrossi todo negro onde dirribara el Gaariet, irmão de Galvam. Título Fólio 19469b Como Persival achou o cavaleiro pagão que lhe defendeo que nom fosse mais após a Besta Ladrador. Tanto que acalçou Persival preguntoulhe sem salválo: – Vistes pera aqui passar a besta desassemelhada Título Fólio 19469c e trinta cães após ela? – Dos cães, disse Persival, nom vi ende niu~u~, mas vi a besta verdadeiramente , e iase tam toste que nom há rem que a acalçar podesse, e bem é já ora daqui u~a gram légoa E el respondeo: – Ora vaa pera o diáboo a besta e os cães, ca aquela besta me fará morrer de pesar. E entam preguntou Persival: – Cavaleiro, quem sodes que me pola besta preguntades? – Eu som, disse ele, u~u~ cavaleiro andante da casa de rei Artur e companheiro da Távola Redonda. – E como havedes nome? – Persival, disse ele, de Galas. – No nome de Deus, disse o cavaleiro, eu ouvi muito falar de vós e louvarvos muito aos home~e~s bõõs de cavalaria. Mas tanto me dizede, assi Deus vos ajude, que andades buscando per esta terra assi soo. – Certas, disse Persival, eu nom trago companha comigo, porque nom é costume de cavaleiro andante que traga companha, se pola ventura a nom acha, ca lho terriam por covardice. – E que andades buscando? disse o cavaleiro. – Certas, disse Persival, eu ando na demanda do Santo Graal, como os outros Título Fólio 19469d cavaleiros da Mesa Redonda, e ando trabalhandome, gram tempo há já, e nom fiz i cousa per que valha mais nem menos. Mas agora verdadeiramente leixei o caminho por ir depós esta besta que vós andades buscando. – E que lhe querríades vós? disse o cavaleiro. Porque a seguíades? – Eu foi após ela, disse Persival, porque meu padre, rei Pelinor, a seguio gram tempo e nom lhe pôde dar cima, e era tam bõõ cavaleiro que ainda hoje per todo o mundo falam dele. E eu, que nom som de tam gram nomeada, querria veer de grado se poderia dar cima aquelo u ele falaceu. – Certas, Persival, disse o cavaleiro, de folia vos trabalhastes. Vós sodes bõõ cavaleiro, mas nom tam bõõ que de tam grande cousa como esta vos devêssedes a trabalhar, e eu vos rogo, assi como vós amades vosso corpo, que vos nom trabalhedes em chus. Mas teende vossa gram demanda do Santo Graal, ca bem sabede ca, se eu posso saber que vós esta besta mais seguides, que a peleja com vosco é, ca eu som aquel que per força Título Fólio 19470a ou per golpe de lança ou de espada vos mostrarei que nom devedes de entrar sobre mim na demanda, ca som milhor cavaleiro ca vós e seguia já tam longo tempo que me terriam mais que re[c]reu´do se vola nom defendesse. Persival teve por mui gram soberba e por grande argulho o que o cavaleiro dizia porque se louvava tanto ante ele, e nom pôde creer que tam bõõ cavaleiro era como ele dizia. E por em lhe disse: – Senhor cavaleiro, bem pode seer que vós sodes milhor cavaleiro e mais ardido ca mim; mas bem sabede que, se ainda fôssedes milhor cavaleiro que sodes, nom leixaria eu por vossa defensa esta demanda, ataa que força mo fezesse leixar. – Nom? disse ele, per minha cabeça eu.cuido que vola farei leixar mal a vosso grado. Ora vos guardade de mim,. ca eu vos mostrarei cedo qual éo milhor cavaleiro, ou eu ou vós. – Como? disse Persival, demandades vós batalha? – Si, disse o cavaleiro, já em outra guisa nom nos partiremos, eu e vós, pois vós nom queredes fazer meu rogo de grado. Título Fólio 19570a [Como o cavaleiro da Besta Ladrador derribou Persival.] Depós esto, sem outra Título Fólio 19570b deteença leixouse u~u~ correr ao outro quanto os cavalos puderam levar e feriramse tam rixamente que nom prestaram i escudos nem lorigas que nom fossem mal chagados u~u~ mais e outro menos. E Persival foi mui mal chagado de u~a gram chaga em meio do peito, mas nom foi mortal. E o outro foi chagado, mas nom tanto; aquel era de mui grande força e sabia de justa quante havia e puxouse com Persival do escudo e do corpo, tam rixo que se nam pôde teer em sela que per força daquele, porque era chagado; nom se pôde teer em sela e caeo em terra do cavalo, tam britado que se nom pôde levar. O cavaleiro foi correndo ao cavalo que se ia fugindo e adusseo a u~a árvor e liouo em tal que Persival o achasse quando quisesse cavalgar. Dês i foise quanto se pôde ir depós a Besta Ladrador. E Persival, que foi dirribado assi como vos conto, nom jouve em terra se nam o mais pouco que ele pôde, como aquel que era de gram coraçom. Mas quando ele nom vio aquele que o dirribara e que se ia com toda honra daquele começo houve tam gram pesar que nom soube que fazer e ergueose toste assaz e disse: – Ai, Deus! Que farei? Morto e escarnido me háeste cavaleiro que se daqui vai. Ja mais nom irei a lugar que saibam que Título Fólio 19570c fui dirribado per u~u~ cavaleiro que amor nem honra me façam. Ai, Deus! Que pode seer? Ja mais nom cuidei em cavaleiro estranho, que de cas de rei Artur nom fosse, achar tam gram bondade de armas. Ai, Deus! e u o poderei achar? Nom sei, disse el a si meesmo; mal sem é o que demandades, ca el vo leva toda a honra e leixouvos toda grande hon[t]a. Título Fólio 19670c [Como Persival lachou Gaeriet que o cavaleiro da Besta Ladrador derribara.] Muito fez grande doo Persival desta aventura que lhe aveera. E pero, quando catou e vio o cavalo que o cavaleiro lhe liara aa árvor, logo pensou na gram cortesia e refreou u~u~ pouco seu mal talam e disse: – Ai, Deus! Como iguades vós todalas cousas a seu direito e a sua razom! Esto dizia ele pola cortesia do cavaleiro e pola cavalaria boa que em el havia. Entam filhou seu escudo e cavalgou em seu cavalo e tanto era quente e com sanha que nom dava rem por sua chaga. E começou ir apólo rastro do cavaleiro e disse que se nam parteria assi dele quite. E se Título Fólio 19670d ele houvera o milhor da justa da lança, nom cuidava que o trouxesse tam mal a espada. Ca el se sentia e conhocia por u~u~ dos bõõs feridores de espada do mundo, e assi o era el sem falha. Assi cuidando se ia Persival depós o cavaleiro que o derribara, como aquel que andava buscando algu~a rem da sua desonra. E nom andou muito que achou Gaariet, e tanto que se virom e se conhocerom, foromse abraçar e fezerom tam gram ledice que maravilha. – Don Gaariet, disse Persival, que aventura vos trouxe aqui ou que andastes demandando aqui assi soo em esta terra? – Certas, disse Gaariet, eu ando buscando u~u~ cavaleiro das armas negras que anda após u~a besta, a mais desassemelhada que nunca vi. – E porque o buscades vós? disse Persival. – Eu volo direi, disse Gariet, que vos nom negarei ende rem, ca por volo encobrir ora, a acima saberlo podees vós. Aveome assi, hoje manhãã, que achei a Besta Ladrador e em #XXX canes que iam após da; e quando a vi tam estranha, pensei de ir após ela ataa que soubesse que maravilha era. E indo assi após ela, veeo após mim o cavaleiro onde vos eu conto: preguntoume que andava buscando tanto que eu lho Título Fólio 19671a disse. E quando el ouviu que eu depós a besta ia, disseme que eu nom era tal cavaleiro que tam alto começo devesse a começar e desfioume logo assi que por esto veemos a a justa e justámos, mas a honta foi minha, ca me derribou e filhoum’o cavalo porque era milhor que o seu. E quando eu em terra foi e vi que o cavaleiro se ia e me levava meu cavalo nom soube que fazer, ca eu nom era usado de andar a pee e demais armado. Mas de quanto me aveo bem que, u estava assi, veo u~u~ cavaleiro estranho – nom sei quem se era – e nom trazia mais deste cavalo e deumo nom sei por qual bondade que disse que lhe fezera u~a sazom Rei Artur, meu tio; assi que el ficou de pee e eu colhime ao cavalo e foi depós o cavaleiro se o poderia alcançar, por provar como fere de espada, pois que já sei como fere de lança. Ora vos contei o que ando buscando. Ora me er dizede a que veestes vós aqui. – Certas, disse Persival, essa razom meesma me adusse aqui que a vós, ca bem assi ando buscando o cavaleiro como vós, ca bem outrossi aveeo me hoje com ele como a vós aveo, ca me dirribou. E Gaariet se assinou, tanto o teve por gram maravilha, e disse: – Assi Deus me ajude e salve, bõõ é Título Fólio 19671b o cavaleiro. – Assi Deus me ajude, disse Persival, mui milhor que eu cuidava. Título Fólio 19771b [Como Gaeriet se foi depólo cavaleiro e Persival ficou.] Entam catou Gaariet contra a terra e vio tanto sangue que se ia da chaga de Persival, e disselhe: – Vós sodes mal chagado. Quem vos chagou? – Aquel cavaleiro, disse ele, que nós andamos buscando. – E como vos sentides? disse ele. – Mal, disse, ca som mal chagado, pero sei que posso em guarecer cedo, tanto que chegue u folgue. – Tornemosnos, disse Gaariet, a casa de u~u~ meu amigo que é preto daqui e moraremos i atá que sejades são, ca, se muito quiserdes cavalgar, nom há i se morte nom. E Persival disse que se nam podia quitar de ir depó1o cavaleiro, pois o começara, pero tanto o rogou Gaariet que se tornarom pera aquel cavaleiro que amava Gaariet. Ali ficarom atá que foi guarido. Mas Gaariet nom, como aquel que desejava a achar o cavaleiro. Mas porque o nom achou, nom fala ende o conto mais, ante diz de dom Persival. Título Fólio 19871b [Como Persival achou u~u~ cavaleiro que dormia.] Título Fólio 19871c Quando Persival foi guarido, cavalgou e espediuse de seu hóspede e foise; e nom ia a lugar que nom preguntasse polos da Mesa Redonda. E aas vezes achava bõas novas e aas vezes maas. U~u~ dia lhe aveo que a aventura o levou na entrada da foresta, e achou i, sob u~u~ carvalho, u~u~ cavaleiro dormindo sobre seu escudo, e tiinha seu elmo e sua espada e sua lança cabo de si, e seu cavalo andava pacendo. E Persival esteve e catouo e nom no pôde conhocer polo rosto que era tinto das armas; e pero semelhava tam bem feito que nom há homem que o visse que o nom devesse prezar. E ele catando assi, aque u~a donzela que veeo a pee que era mui fremosa. E quando vio Persival, disselhe: – Amigo, ide vossa carreira e leixade dormir o cavaleiro. Certas vós nom sodes tal que sol o devades catar. – Como? disse Persival, tara mau é ele que o nom deve catar cavaleiro? – Obem, disse ela, nom assi, ante val tanto e é de tam gram bondade que o nom deve a veer cavaleiro se nam for mui milhor ca outro. E por em vos defendo que o nom catedes, ca, sol porque o já vistes, Título Fólio 19871d hei pavor de seer ende el pior. Quando esto ouviu Persival foi espantado, ca duvidava que a donzela lhe vira fazer algu~a maldade, porque lhe dizia tal vilania. E calouse e pero todavia catava o cavaleiro. E a donzela disse outra vez: - Assi Deus vos salve, cavaleiro, ide vossa carreira, ca certas muito será gram vilania tal homem espertardes. – Donzela, disse ele, vós mo louvades muito. Assi Deus vos salve, dizedeme quem é. – Nom farei, disse ela, ca o nom sei nem no posso saber e trabalheime jáende muito. – Nom? disse Persival, pois como podedes saber que tal é como dizedes? – Eu o sei bem, dise ela, ca #III dias lhe tive ora companha, e estes #III dias lhe vi fazer tanto d’armas e o vi em tantas aventuras perigosas onde escapou por sua bondade a sa honra que o nom poderia fazer se nam fosse o milhor cavaleiro do mundo. E por esto volo hei tanto louvado. Título Fólio 19971d [Como o cavaleiro fazia gram doo pero dormia.] – Ora me [dizede], disse Persival, como nom sabedes seu nome, pois tanto com el andastes? – Par Deus, disse ela, nom ficou per mim, mas nunca ele quis dizer nem rem da sua fazenda. – E quem cuidades que é? disse Persival. – Assi Deus me salve, disse ela, nom sei que i cuidar, e por esso vos nom digo ende rem. – Título Fólio 19972a Nom me ajude Deus, disse Persival, se me daqui partir ataa que saiba quem é, se for assi que o queira dizer a cavaleiro estranho. E dês que se vai encobrindo e dês que é tam bõõ cavaleiro como vós dizedes, me dá maior vontade de o conhocer ca al. – Pois que vós por esto queredes ficar aqui, disse a donzela, eu vos rogo pola fé que devedes a toda cavalaria que me digades seu nome tanto que o souberdes. E ele disse que o faria de grado. – Ora d[ec]ede, disse ela. E el deceo e tolheo de si sua lança e seu escudo, mas nom no elmo, e foise assentar ante o cavaleiro que dormia e começouo a catar polo conhocer; e tanto meteo em ele mentes que a acima conhoceo que era Lançarot. Entam se ergueo e tirou a donzela afora e disselhe: – Ai, donzela! ora conheço este cavaleiro e, certas, se o vós louvades nom me maravilho ende ca, se Deus me ajude, mais é em ele de louvar ca vós nem eu poderíamos dizer. Ca este é sem falha o cavaleiro do mundo que mais há feito depois que armas prês. – Ai, dom cavaleiro! disse a donzela, por Deus e pola verdadeira cruz, pois vós o seu Título Fólio 19972b nome sabedes, dizedemo, ca nom háno mundo rem que tanto saber deseje. – Nom vos coitedes, disse Persival, eu volo direi ante que nos partamos. – Muitas mercees, disse ela. Entam se assentarom e falarom de muitas cousas. E aquel que todavia dormia, pois dormiu gram peça, começou a fazer u~u~ tam gram doo que maravilha era. Er revolvêse e começou a chorar tam muito que todalas faces houve molhadas de lágrimas, dando grandes sospiros. Título Fólio 20072b [Como Persival nom quis espertar Lancelot.] Quando a donzela esto vio, disse a Persival: – Senhor, por Deus, espertemolo guardecer-noloá, ca muito jaz coitado. – Nom vos trabalhedes ende, disse Persival, ca lhe pesaria ende muito. E ela se calou entam. E Lançarot dormindo assi fazia seu doo e gemia e suspirava tam feramente que semelhava que a alma lhe se queria partir do corpo. E se alguém me preguntar porque em sonho fazia tal doo, eu lho direi que esto foi u~a gram visam que vio e direivos eu qual. Título Fólio 20172b [Da visam que viu Lancelot.] Título Fólio 20172c Aquela visam que a Larnçarot aveo entam foi tal: Semelhavalhe que chegava a u~u~ rio, o mais feo e o mais espantoso que nunca vira, e que nom poderia homem entrar em el que nom fosse morto. E ele catava o rio e nom ousava i entrar, ca o via cheo de coobras e de verme~es que nom há homem que i quisesse bever que logo nom fosse morto, assi era [a] água empeçonhentada deles. E ele estava catando o rio e sinavase da maravilha que via. Em esto estando via sair u~u~ homem que trazia u~a mui rica coroa de ouro em sua cabeça, e ele andava cercado todo de estrelas. Depois via ende sair outro outrossi coroado que a maravilha semelhava homem bõõ e bõõ cavaleiro. E depois viu sair o terceiro e viu depois o quarto e depois o quinto e depois os sexto e depois o septimo; e todos eram coroados de coroas d’ouro que tiinha el pola maior maravilha que nunca ele vira. Depois via ende sair outro magro e cativo, pobre e lasso, e que nom havia nem ponto de coroa, e tam mal vestido e mal guarnido que se os outros que ante sairom do rio semelhavam ricos este semelhava pobre e mal aventurado e desejoso de todo bem. E pero, assi pobre como era ia contra onde os outros estavam por entrar Título Fólio 20172d em sua companha. Mas os outros nom no querriam receber em sua companha ante o alongavam de si. Depós estes sete que já sairom, viu Lançarot sair u~u~, aquele era mui mais fremoso e que valia mais pera semelhar ca todos os outros. E porque se aquele alongava u~u~ pouco do rio, via Lançarot vi~ir de contra o céu u~a companha d’anjos que traziam u~a coroa de ouro mui fremosa. e mui rica e metia[m]lha na cabeça e faziam em derredor dele u~a tam gram ledice e tam gram festa como se fosse u~u~ dos mais altos márteres do céu. E pois haviam cantando u~a gram peça e dado louvor ao Creador do mundo, entam se iam todolos coroados contra o ceu. Mas com niu~u~ faziam tam gram festa nem lidice como com aquele que saíra postumeiro. Assi foram todos os coroados levados contra o ceu. Mas o mal guarnido ficava. E quando se via soo, dava vozes: – Ai, Senhores, do vosso linhagem som e leixadesme pobre e tam cativo? Por Deus, quando fordes aa casa da lidice, membradevos de mim e rogade ao alto Meestre por mim, que lhe nom esqueça eu. E eles responderom todos a u~a voz: – Tu te fazes esquecer e tu hás feito per que esqueeças; tu nom merecerás gualardom, Título Fólio 20173a se nam segundo teu trabalho. Entam se chamava estroso e cativo e fazia seu doo grande; dês i sumiase, que nom sabia Lançarot dele parte niu~a. Título Fólio 20273a [Da outra visam que viu Lancelot.] Depós esta visom viu outra mui maravilhosa. Ca lhe semelhava que viia ante si Morgaim, a irmãã de rei Artur, mui fea e mui espantosa, assi que bem lhe semelhava que entam saira do Inferno; e nom trazia vestido rem do mundo, fora u~a pele de u~u~ lobo que a cobria mui mal. Ela gemia tam doridamente como se fosse chagada. E Lançarot, que bem a conhocia por Morgaim, catoua e vioa que andavam em sua companha mais de mil diaboos, e cada u~u~ deitava a mão em ela pola teer milhor. E dizia u~u~ ao outro: – Vaamosnos quanto podermos. Pero nom na poderam tanto coitar que ela u~a vez chegasse a Lançarot e que o nom filhasse polas mãos, e davao a aqueles que a guardavam e dizialhes: – Tendeo bem, ca este é dos nossos cavaleiros. Assi como Morgaim. o mandava assi o faziam Título Fólio 20273b eles e filhavamno e iamse com ele mui toste e levavamno a u~u~ vale mui fundo e mui escuro e mui negro e u nom havia rem de lume, se nam pouco. E em aquele vale havia tantos choros e muitas lágrimas que nom podia i homem ouvir cousa que ali deitassem. Tornavase e ouvia mais de cem mil vozes, que todas diziam [assu~adas]: «Ai, Ai, cativos! Ai, cativos! Porque merecemos nós veer esta grande mizquindade e esta grande catividade e tam gram door que passa todalas doores!» E Lançarot, que estas vozes tam dooridas ouvia, foi tam espantado que cuidava a morrer de medo e rogava aqueles que o levavam que o leixassem ir, mas eles nom querriam, ante o levavam a u~a cova muito escura e mui negra e chea de fogo que cheirava tam mal que maravilha era. E el catava na cova e viia u~a gram cadeira de fogo assim acesa como se i ard[e]sse todo o fogo do mundo. E em meo, daquele fogo u~a cadeira em que siia a rainha Genevra toda nua e suas mãos ante seu peito; e siia escabelada e havia a língua tirada fora da boca e ardialhe tam claramente como se fosse u~a grossa candea; e havia na cabeça u~a coroa de espinhas que ardia a gram maravilha e ela meesma ardia de todas partes ali u siia. Mas Título Fólio 20273c ela fazia u~u~ doo tam grande e dava u~as vozes tam grandes e tam dooridas que bem semelharia a quem na ouvisse que per todo o mundo era ouvida. E quando viia Lançarot nom se podia sofrer que lhe nom dissesse ali u siia em tam gram coita: – Ai, Lançarot! Tam mau foi o dia em que vos eu conhoci! Taes sam os galardões do vosso amor! Vós me havedes metuda em esta grande coita em que veedes; e eu vos meterei em tam grande ou em maior, e pesame muito, ca pero eu som perduda e metuda em gram coita do Inferno, nom querria que aveesse assi a vós, ante querria que aveesse a mim, se Deus aprouvesse. Esto dizia a rainha Genevra a Lançarot e assi lhe semelhava ali u dormia. E havia ende tam gram pesar que bem querria seer morto ali logo. E depós esto semelhavalhe que lhe avinha tam bem que escapara do poder de Morgaim e da sua companha são e ledo. E entrava em u~a horta, a mais fremosa e a mais viçosa que nunca vira. E viia gente tam fremosa e tam bem guarnida que maravilha era. E lhe semelhava que eram todos tam ledos e tam viçosos como se cada u~u~ houvesse o que podesse pensar Título Fólio 20273d . E nom havia i tal deles que nom tevesse coroa d’ouro na cabeça, tam fremosa e tam rica que maravilha era de como parecia. E ele catava os u~u~s e outros, que nom entendiam senam em goivo e em ledice fazer. E vio em aquela companha u~u~ homem de grande idade que tiinha em sua cabeça u~a coroa d’ouro mui fremosa e mui rica, e jazia em ela escrita: “Este foi rei Bam de Benoic”. E cabo dele estava u~a dona outrossi coroada e havia leteras na coroa que diziam: “Esta é Elena, que foi rainha de Benoic”. E Lançarot, que bem ouvira dizer que seu padre houvera nome rei Bam de Benoic e sua madre Elena, quando viu as leteras, disse a elrei: – Senhor, nom fostes vós meu padre? E elrei respondeo: – Si, tu foste meu filho. Pesame ende, ca tu és tal que leixaste o Salvador do mundo e mim que era teu padre e fostete meter em poder e em serviço do demo e em seu laço. Aqui u nós somos nom hás tu rem de adubar, ca teu lugar te tua seeda estána casa do Inferno com a rainha Genevra, que te adusse aa morte perdurável tu e ela, se vós antes nom leixades o pecado que ataa aqui mantevestes contra Deus e Título Fólio 20274a contra a Santa Egreja. Em vão entraste na demanda do Santo Graal e tu nom acharás i senam onta que sobre ti vinráse te nam quitas deste pecado. Tanto que el-rei seu padre lhe esto disse, chegouse a rai~a Elena, sua madre, er disselhe: – Filho, em mau ponto te trouxe, pois que com quanto bem e com quantas bõas manhas te Deus deu serviste o demo atá aqui. Filho, Deus te fecera fremoso e de milhor doairo que outro cavaleiro, e tua beldade e teu doairo sam perdudos, ca meteste todo em serviço do demo quando te ajuntaste com a rainha Genevra, que em mau ponto foi nada, e és gram tempo com ela contra Deus e contra direito. Aquel pecado te meteráem tam gram. coita ou em maior como tu viste a rainha Genevra. Filho, tu és morto e escarnido, e aquel pecado, se o nom leixas, te farámorrer em tam gram desonra que todolos do teu linhagem que vivos seram, seram ende desonrados. E sabe que niu~u~ coraçom mortal nom poderia pensar a gram door e gram mizquindade que tu por em sofrerás, por pouco sabor e por pequeno que tu ende houveste, ca atal Título Fólio 20274b é a pendença deste pecado que o sabor é mui pequeno e a cuita e a door é perdurável, se Nosso Senhor i nom põe conselho. E por esto te digo amado filho, fremosa creatura, que leixes aquel pecado, ca certas muito i erraste contra Deus e contra o mundo, ca mui grande pavor hei de seeres por em perdudo. Título Fólio 20374b [Como se espertou Lancelot e viu Persival ante si seer.] Estas maravilhas vio Lançarot em seus sonhos, onde havia tam gram pesar que as lágrimas lhes corriam polas faces e que sospirava e fazia doo. E depois que viu toda esta visam espertouse tam lasso e tam cansado como se saísse de u~a batalha, e deu entam u~a voz de gram doo e abriu os olhos. E quando vio Persival ante si seer e o conhoceo, ergeose e disselhe: – Amigo, vós sejades bem vindo. Pero muito lhe pesara de que o achara dormindo. – Amigo, disse Persival, muito houvestes grande afam em vosso dormir, e peça háque vos quiséramos espertar por em, mas houvemos pavor de vos pesar. – E espertar, disse Lançarot, Título Fólio 20374c nom há rem no mundo por que quisesse. Ca me tolhêrades de veer as maiores maravilhas que nunca cavaleiro em sonhos vio. E per este sonho cuido eu mais a valer todolos dias da minha vida. – Certas, disse Persival, nunca vi a homem tal coita levar em sonhos. – Se cuitado era, disse Lançarot, esto nom é maravilha, ca via todalas lazeiras e todalas coitas que coraçom mortal poderia pensar e todolos be~e~s do mundo outrossi. Que vos direi? eu vi as maravilhas das maravilhosas cousas ca eu [vi] em quanto desejava a veer, ca vi conhocidamente minha morte e minha vida e mais que poderia pensar mentre vivesse. E por esto chegarei a veer algu~a das maravilhas do Santo Graal, se i ja mais devo a chegar, ca em outra guisa em vão me trabalharia ende, ca [o] afam seria perdudo. Ora cavalguemos e vaamos a algu~a ermida, ca nunca folgarei ataa que saiba a verdade do meu sonho. E Persival se outorgou i. Título Fólio 20474c [Como a donzela se partio deles fazendo gram doo.] Entam filharom suas armas e o que lhe ende falecia e cavalgarom. E a donzela disse a Persival: – Senhor, dizede-me o que me Título Fólio 20474d pormetestes: o nome deste cavaleiro. E el pensou entam u~u~ um pouco e pois sacou Lançarot a u~a parte e disse-lhe: – Eu som teu´do de dizer vosso nome a esta donzela, ca lho pormeti. – Ora bem lho podedes dizer, disse Lançarot, se vos praz, mas pero per mim nom no saberia hoje nem cras. Ca esta é u~a das mais vilããs donzelas nem das mais nojosas que eu nunca achei, e prazer-m’-ia muito se ela quisesse de seermos livres da sua companha. – Ora vos nom cuitedes, disse Persival, ca eu vos livrarei. Entam se tornou contra a donzela e disse-lhe: – Donzela, eu vos direi o por que me preguntastes, per preito que me dedes u~u~ dom que rem vos nom custará. E ela lho outorgou. A Persival lhe disse: – Este é dom Lançarot do Lago. Disse ela: – Per bõa fé, muito me pesa, ca ora vejo ca nom poderei vi~ir a cima da rem do mundo que eu mais desejava, e tenho-me por sandia e por cativa que em tam alto lugar meti meu coraçom. E ela logo se tornou pera aquela carreira per que Persival viera, tam gram doo fazendo como se quantos amigos havia visse mortos ante si e chamando-se cativa e estrosa Título Fólio 20475a e mizquinha e mal aventurada, dizendo que ja mais nom haveria lidice quando lhe falecera a rem do mundo que mais desejara. Entam disse Persival a Lançarot: – Semelha-me que livres somos desta donzela. – Muito me praz, disse Lançarot, da partida. Entam entrarom em seu caminho, falando de poucas cousas, ca muito pensava Lançarot nas maravilhas que vira. E era tam espantado que bem querria que nunca houvesse que veer rem com Genevra, ca bem lhe semelhava que niu~u~ pecado nom no chegava tanto a perdiçom do corpo e da alma como aquele e que ambos eram perdudos per i. Assi ia pensando, tam espantado que rem. nom falava. E Persival havia ende tam gram pesar que nom sabia que dissesse. Pero disselhe, a cabo de u~a gram peça, polo tolher daquele pesar: – Ai, Lançarot! Confortadevos e nom vos dedes atam gram coita, ca nom é pera tam bõõ cavaleiro como vós sodes que se espante do sonho que via. – Ai, amigo! Mercee, disse Lançarot, que esso me dizedes. Assi me Deus conselhe: se vós víssedes as maravilhas que eu vi, nom cuido que ja mais houvéssedes prazer. E estas sam as maravilhas maiores nem mais espantosas que nunca pecador em sonho vio. – Que quer que seja, disse Persival, de confortar Título Fólio 20475b vos convém, ca haver homem pesar e sanha em tal guisa nom lhe poderia ende vi~ir se mal nom. E per ventura esta maravilha vos mostrou Deus por enmendardes em vossa vida e por vos tolher d’algu~u~ pecado mortal, se i sodes. E Lançarot nom lhe respondeu rem, mas per[o] todavia esmou Lançarot que lhe dizia verdade. Título Fólio 20575b [Como Lancelot e Persival chegarom aa ermida da Oliveira Vermelha.] Aquel dia cavalgarom em tal guisa os companheiros que nom houveram lidice nem prazer, ca sobejo era Lançarot triste e com pesar grande. Aa noite lhes aveo que chegarom a[a] ermida da Oliveira Vermelha, ca aquela oliveira chamavamlhe vermelha porque as folhas eram vermelhas todas em Inverno e em Verão. Mas a árvor nom era vermelha, ante era de tal coor como outra oliveira. E quando eles viram que as folhas havia vermelhas e o madeiro verde teveromno por mui gram maravilha. E Lançarot falou i primeiro e disse a Persival: – Amigo, que vos Título Fólio 20575c semelha desta árvore? – Amigo, disse ele, nom me semelha i al senam que é maravilhoso o Senhor onde as obras sam tam maravilhosas. Sabede que esta cousa aveo per algu~u~ milagre de Nosso Senhor, ca, sem falha, Natura nom poderia tam maravilhosamente obrar. Assi Deus me ajude, prazme muito que a vi, ca a muitos cavaleiros ouvi falar e nom o podia creer que era verdade. – Nunca a vi, disse Lançarot, nem ouvi dela falar. – Ora sabede, disse Persival, que esta é a oliveira vermelha. E esta ermida que veedes é a ermida que chamam da Oliveira Vermelha. E eu creo que na capela [é] u~u~ dos milhores home~e~s da Gram Bretanha e da milhor vida e que milhor vos conselhará da prol da vossa alma, ca eu ouvi muito falar a muitos cavaleiros da sua bondade. – Certas, disse Lançarot, muito me praz ende, ca muito me era mester. Título Fólio 20675c [Como Lancelot siia pensado e nom sabia que fazesse.] Tanto que chegarom a[a] ermida decerom. Título Fólio 20675d E o homem bõõ que i morava, quando ouvio os esturpos dos cavalos, saiu fora. E quando vio os cavaleiros armados logo entendeo que eram dos cavaleiros das aventuras e salvouos e rogoulhes que pousassem em tal casa como ele havia. E eles lhe disserom que muito lhes era mester, ca já muito era noite. Depois que eles pensarom de seus cavalos o milhor que puderom, entrarom na casa do homem bõõ, que era assaz pequena, e a cabo dela estava u~a capela mui pobre. E desarmaromse dentro por folgarem algu~u~ pouco, mas nunca vistes homem tam triste nem assi pensar como dom Lançarot, ca lhe nom podia esquecer em niu~a guisa o que vira em sonhos. Nem por rem que lhe Persival dissesse nem o homem bõõ nom se querria já confortar nem querria comer nem algo fazer fora pensar. E se me alguém preguntasse em que siia pensando... em grandes dous pensares: u~u~ era se se parteria da rainha sua senhora; o outro, se se menfestasse descobreria em sua confissam como amara tam alta dona, ca deste amor nom se trabalharia Título Fólio 20676a el em ne~hu~a guisa, se gram força sobejo lho nom fezesse fazer, e esto era porque amava mais a rai~a que si meesmo. Estas duas cousas o confondiam tam muito que nom sabia que podia fazer. E o homem bõõ, quando o vio assi pensar e que sabia já que era Lançarot do Lago, o cavaleiro do mundo que entam era de maior nomeada, perguntou a Persival: – Senhor, que há Lançarot que tanto cuida? – Nom sei, disse ele, assi Deus me ajude. Pero o que eu sei vos direi, porque vós, com ajuda de Deus, lhe porredes algu~u~ conselho. E entam lhe começou a contar como [o] achara dormindo e o que ende vio e o que Lançarot dissera: que vira em sonhos as maiores maravilhas que nunca cavaleiro pecador vira. – Certas, disse o homem bõõ, esto nom sei que possa seer. – Certas, nem eu, disse Persival. Entam abaixou o homem bõõ a cabeça contra a terra e caeo em tam gram pensar como ante e como Lançarot ou em maior, assi que Persival foi em mais maravilhado ca ante. Título Fólio 20776a [Como Lancelot viu outra visam.] A cabo de u~a peça, disse o homem bõõ: – Ai, Persival, bõõ cavaleiro Título Fólio 20776b a Deus e ao mundo, santa creatura, santo corpo, santa carne limpa e virgem, eu te conheço por tam santo homem e por tam leal sergente de Nosso Senhor que, se tu o rogares que ele te descobra o em que pensa Lançarot, conhocerás toda a verdade da sua vida, assi que lhe poderás dar conselho em sua coita, e eu, que som clérigo de missa, ajudarei i quanto poder. Em tal guisa pensarom aquel serão ambos os cavaleiros com o ermitam que nom comerom nem beverom. E quando foi já grande noite deitaromse a senhas partes, pensando e com gram pesar. E Lançarot dormio mui toste, ca muito trabalhara aquel dia. E quando quis dormir comendouse muito a Nosso Senhor e fez sobre si o sinal da cruz e disse tal oraçom qual sabia. E tanto que adormeceo, aveolhe u~a visam assaz maravilhosa, ca lhe semelhava que viia ante si Ivam o Bastardo todo nuu, tam laido e tam feo, e tam espantosa cousa que maravilha era. E era todo cercado de fogo assi que ardia de todas as partes tam claramente como candea bem acesa. E depós ele vinha u~a dona coroada com tam gram pesar e tam chorosa que bem semelhava que havia coita e lazeira. E havia a dona escrito na fronte: “Esta é Catanance Título Fólio 20776c , a rainha de Irlanda, a molher de rei Carados do Pequeno Braço”. Depós aquela viia outra rainha outrossi vi~ir coroada, mui triste e com gram pesar, e catavaa e conhocia que era a rainha Iseu. E depós ela viinha u~u~ cavaleiro dando vozes e fazendo doo, fazendo a mais estranha coita que nunca cavaleiro fez, que de todas partes era cercado de fogo. E Lançarot, que o catou, conheceo que era Tristam o fremoso. E a rainha Iseu ia dezendo a Lançarot: – Vai, Lançarot! tal é o gualardom dos meus amores. Outro tal ou pior podes tu haver, se te nom quitas da folia que fazes com a rainha Genevra. E Lançarot, que tam muito se maravilhava do que viia, nom se podia teer que nom dissesse a Iseu: – Este fogo é encantamento onde tu és assi cercada. – Esto nom é encantamento, disse Iseu, ante é trabalho e fogo do Inferno, e tu saberás como queima pois te nom queres castigar de teu pecado. Entam se chegou a ele e deilhe com u~u~ dedo na coixa. E Lançarot se espertou e deu u~a voz tam doorida que nom foi senam maravilha, ca sentia que lhe ardia a coixa tam feramente e que o fogo era i já tam aceso que nunca sentiu Título Fólio 20776d coita nem door que cem tanto lhe nom semelhasse esta maior. E chamou alta voz: – Ai, Persival, amigo bõõ! Socorreme que mouro da mais coitada morte que nunca homem morreo. A estas vozes se espertou Persival e achou nas mãos u~as leteras, mas nom sabia que jazia i, ca era noite. E ele metêas em seu seo, como aquel que havia sabor de saber o que i andava, e correu a Lançarot com gram pesar de seu mal. E disse: – Amigo, u vos deu este mal? – Na destra coixa, disse ele. Sabede que é fogo, o mais áspero nem que mais queima que nunca homem vio. E Persival foi espantado do que lhe via e pôs a mão u Lançarot dizia. E, tanto que lhe pôs a mão, aveo u~u~ tam fremoso milagre, assi como a verdadeira estória o diz, que per sua bondade, de Persival, e polo amor que lhe Nosso Senhor havia, foi logo o fogo morto e a door aquedada. E Persival o perguntou entam: – Amigo, como vos sentides? E ele lhe respondeu entam suspirando: – Como, bõõ amigo Persival? Eu me sento mui bem, ca Nosso Senhor me fez mercee pola vossa bondade, ca me tolheo a maior coita e a maior door que nunca cavaleiro houve. – Ora, sabede, disse Persival, que o nom fez per amor mas por vos castigar dês aqui em diante. E se vós atá aqui estevestes em pecado mortal, menfestadevos e guardadevos que nom tornedes a ele, e pensade em este milagre Título Fólio 20777a que Nosso Senhor vos mostrou. E, certas, eu cuido que se vós fôssedes menfestado depois que entrastes em esta demanda, que é demanda de Nosso Senhor e das suas grandes maravilhas, nom vos aveera tanto como vos aveo. E Lançarot respondeo muito espantado: – Certas, amigo Persival, se pior me aveera nom será gram maravilha. E se Nosso Senhor prende de mim vingança maior que de outro homem nom me maravilho ca, sem falha, depois que foi cavaleiro, a de leve nunca fiz cousa que nom fosse contra ele e contra direito da minha cavalaria. E o homem bõõ lhe disse: – Certas, Lançarot, este é grande dano, ca muito érades vós mais teu´do a servir Nosso Senhor ca outros muitos ca vos fez Deus de milhor doairo e mais valer em al ca outro cavaleiro onde homem, peça há, ouvi assi falar. – Senhor, disse ele, assi é que eu o servi mui mal e mau gualardom eu posso atender se correger nom quero quanto erro lhe fiz. – Vós o nom podedes correger, disse o homem bõõ, senam per confissam e per vos pesar de quanto mal fezestes e per fazerdes mandado de vosso abade. E sabede que em vão entrastes na demanda do Santo Graal se destas três cousas vos falecer u~a. E ele disse que todas #III as faria, pois que Deus tal milagre Título Fólio 20777b ende mostrara e que tam toste lhe acorrera a sua coita. Assi falando passarom a noite; e todavia lhes amoestava o homem bõõ, ca bem cuidava que se nam menfestaria do pecado da rainha, ca muitos home~e~s bõõs lhe disserom em confissam o que ende sem falha cuidava. Título Fólio 20877b [Como Persival deu a carta ao homem bõõ e el a leeu.] Manhãã catou Lançarot a sua coixa e achoua tam negra como se dous dias ou três jouvesse em fogo. E nom se podia dela tam bem ajudar como ante, ante se doía dela muito e saía dela u~u~ cheiro mui mau. O homem bõõ, que a catou, maravilhouse da quentura que ende vira e [Persival] outrossi. E disserom todos três que verdadeiramente aquel fora milagre de Jesu Cristo. Entam sacou Persival as leteras do seo e deuas ao homem bõõ e disselhe: – Esta carta me foi dada esta noite e nom sei onde veeo. Mas eu a recebi aquela hora que Lançarot começou a braadar. Ora catade o que há em ela e dizedeme o que i jaz, se é cousa que eu deva ouvir. E o homem bõõ guardeceo muito a Deus esta aventura Título Fólio 20877c e disse: – Ai, Persival, alegremosnos, ca Nosso Senhor ouviu o que lhe rogámos. Entam abrio a carta e achou que dizia: “Ai, Lançarot, vil cousa e mau cavaleiro, do Inferno filho, pousada de trevas do demo, perjurado e desleal contra seu rei, terreal senhor, como te nam castigas das fremosas maravilhas que te mostrei? Ca te mostrei toda coita e toda tristeza e todo prazer e toda lidice. E ou tu leixarás tua maa vida, ou te eu farei jazer em grande door com Iseu e com Tristam que merecerom seer perdudos pera sempre se nam leixam seu pecado. E tu, filho Persival, que tam limpa vida guardas tuas carne, como devem fazer cavaleiros da Santa Egreja, que nunca foste tangido do fogo da luxu´ria porque nunca ende desejaste o fogo daquela mala aventura, te farei ora tal honra que o fogo que eu deitei sobrelo luxurioso em vingança de luxu´ria morrerá tanto que tu i ponhas mão que se nunca abaixou a tal pecado. E esta honra te faço pola bõa vida que vejo que faces antre os vies e os maus que cuidam ca és doutra guisa que tu és.” Título Fólio 20977c [Como Lancelot se menfestou ao homem bõõ ouvindoo Persival.] Pois o ermitam leeu a carta Título Fólio 20977d disse a Persival: – Amigo, filho, santa creatura, ora vejo bem e entendo bem a bondade e a graça que te Deus há outorgada e a deslealdade deste outro cavaleiro. Ora ouvi a carta e leertaei em tal guisa que este desleal cavaleiro, que por milagre nem por virtude que Nosso Senhor lhe mostrasse nom se quer quitar da sua mal aventurada vida, poderá entender sua sandice e sua maldade. Entam leeu as leteras que ambos as ouvirom. E pois as leeo, er disse outra vez: – Lançarot, ora podedes veer que sodes escarnido e que morreredes a onta e a door se nam leixardes a maa vida que atá aqui mantevestes, e ainda vos Nosso Senhor mostrara milhor talam ca outro homem, que vos chama a si per tam fremosos milagres e per tam fremosas demostranças. – Verdade é, disse Lançarot, e polo grande amor que me ora mostrou lhe prometo que ja mais em tal vida fazer nom tornarei. E menfestouse logo de todos seus pecados ao homem bõõ e ouvindoo Persival. E sabede que aquela vez nom lhes encobriu rem do que houve com Genevra, ca tiinha Persival por tam leal e por tam bõõ que bem sabia que o nom descobriria em niu~a guisa. E depois que se menfestou disselhe o homem bõõ: – Lançarot, pesavos muito deste pecado Título Fólio 20978a que menfestastes ora? – Senhor, disse, o pensamento, que bem queria de nom haver de prender armas per preito que feito o nom houvesse, ca bem sei que este pecado m’imiziou mais contra Nosso Senhor mais ca outro. E por esto o leixo assi de todo em todo, que ja mais nunca a el tornarei. Título Fólio 21078a Como perguntou Lancelot e Persival do homem bõõ per que rezam a oliveira da ermida tinha as folhas vermelhas e el disse o que sabia. Em tal guisa como vos eu conto conheceu Lancelot o seu pecado e o da rai~a polas grandes maravilhas que lhe veeram, onde houvera gram pavor. Aquel dia pôs o homem bõõ a carta sobolo altar, que Persival lhe dera, e a no[i]te, quando a quis, nom na achou pero a catou muito. Lancelot e Persival esteveram ali #VIII dias e quando Lancelot se sentiu guarido em guisa que pôde tomar armas, cavalgou, e Persival com ele. Mas, sem falha, o dia ante que se del partissem, perguntaram ao ermitam pola verdade da oliveira vermelha. – Assi Deus me ajude, vós me demandades por cousa que eu nom sei, e bem o desejaria a saber tanto como vós. – Pois como o poderíamos saber? disse Persival. – Nom sei, disse o ermitam, assi Deus me ajude; pero u~a cousa que eu sei dirvolaei. Aqui preto está u~a crastra em u~a montanha pequena e há i u~a cadeira pequena, mui rica, em que see u~u~ Título Fólio 21078b homem mui velho, e nom sei se foi rei se príncipe. E já grande tempo que foi morto, em pero lee na cadeira tam bem como se fosse vivo. E tem na mão destra u~a carta, e muitos e bõõs cavaleiro veeram i por lha sacar da mão e nom poderam. – E pera que a queriam? disse Persival. Esto queria eu saber de grado. – Senhor, disse el, todos os desta terra dizem, e eu bem cuido que é verdade, que aquel que lhe poder tirar a carta da mão saberáa verdade desta árvor, ca em na carta jaz a verdade e pela carta outrossi poderia homem saber quem é o que sê na cadeira, mas em outra guisa nom. – Assi Deus me ajude, disse Lancelot, esto viria eu mui de grado, ca me nom semelha que cavaleiro poria seer adereito que de tal cousa ouvisse falar e se nom trabalhasse de a veer. E por em vos rogamos que nos levedes alá por vermos esta maravilha, ca se nós a carta nom podemos haver tomada, falaremos dela na corte aventurosa quando prouguer a Deus que nós assu~ados alá vaamos. Título Fólio 21178b Como Persival e Lancelot acharam o homem que siia na cadeira e nom lhe poderam tirar a carta fora da mão. Enesto se acordaram todos três e foramse a pee até a castra. A castra, sem falha, estava em meeo da subida per u subiam aa montanha. E era quadrada, feita de canto talhado, e era Título Fólio 21178c de longo e de ancho #XXVIII côvados. E em todo o meo estava a cadeira tam fermosa e tam rica como se fosse feita pera o corpo delrei Artur. E na cadeira lia u~u~ homem todo cão e tinha u~a espada cinta, e lia tam bem na cadeira que, se lhe a côr nom houvesse mudada, sernelharvosia que era vivo. E tinha a carta na mão destra e sabede que estava ainda armado de espada e de bafroneiras, e u~u~ seu escudo branco estava acostado aa cadeira aas suas espáduas. Quando o homem bõõ entrou dentro e lhes mostrou o que lia na cadeira, disse: – Senhores, que vos semelha? E eles disseram que era u~a das grandes maravilhas que nunca viram. E depois o Lançalot [viu] a cabo de gram pedaço, disse a Persival: – Amigo, bem assi está rei Pelinor vosso padre em u~a ínsua onde eu foi u~a vez, já gram tempo há. E, se este houvesse coroa como vosso padre, eu cuidaria ca este era e que mudaram de lá pera [a]qui. E estonce lhe contou em que guisa o vira e disse: – Ja mais se nom mudará de como está atá que seja Galvam. morto. – E que há i d[e] haver Galvam? disse Persival. E Lançalot se calou entom. Calouse, que nom quiria descobrir tal cousa, ca pela ventura poderia de i vi~ir grande mal, ca dultava que Persival matasse Galvam. se o por verdade soubesse. E Persival o perguntou outra vez, e el respondeu Título Fólio 21178d entom: – Amigo, desto nom me perguntedes cousa algu~a, ca vos nom direi verdade nem mentira. E Persival se calou entom, como aquel que em nenhu~a guisa nom podia creer que matara Galvam seu padre, pero algu~as vezes o ouvira dezer; mas tinhao por mentira. – Amigo, disse Lançalot, que faremos desta carta? – Convém que a provemos se a poderemos haver, ca em outra guisa nom nos deviriam a te~er por cavaleiros aventurosos, se nos nom trabalhássemos de todas venturas provar, disse Persival. Por al nom veemos nós acá. Entom deitou a mão na carta pola tirar da mão daquel que a tinha e nom pôde. E, quando viu que nom podia, afastouse afora e disse a Lançalot: – Ora o poderees vós ir provar. E Lançalot esso mesmo meteu ali a mão e nom pôde más fazer ca Persival, se fez afora com grande pesar que bem quisera seer morto, e disse com grande sanha: – Ai, Deus! camanha seçom é escarnido o mundo e enganado! – Amigo, disse Persival, porque disseste ora isto? – Porque, disse ele, todolos do mundo cuidavam que eu era o melhor cavaleiro do mundo e nom no so[m] pois nom no enganei quando eles tinham ca havia em mim mais de bondade que nom. E o homem bõõ lhe disse: – Senhor, se vós falecestes em esta [a]ventuira nom vos espantees, ca esta aventuira Título Fólio 21179a nom é outorgada, fora a u~u~ cavaleiro, e convém que aquel seja o melhor cavaleiro de todos que nunca trouxeram armas no reino de Logres nem que pois pós el veerrám. – Eu me calo, disse Lançalot, pois assi é. E nom falarei i chus, fora que rogo a Nosso Senhor que aduga aqui cedo aquel que desta aventura háde haver o louvor e que possamos per el saber a verdade da árvor vermelha. – Deus o sabe, disse o bõõ homem, ca bem o desejo a saber tanto como vós. Título Fólio 21279a [Como Persival e Lancelot acharom u~a dona que fora irmãã da madre de Persival.] Em tal guisa se partiram da crastra. E ficarom todo aquel dia com o homem bõõ e ao outro dia filharam suas armas e partiramse dele. Cavalgaram e andaram depois muitas jornadas ambos, sem aventura achar que de contar seja. U~u~ dia lhes aconteceu que iam falando de muitas cousas e chegaram a entrada da Gasta Foresta e acharam i u~a cruz ante u~a cela. E estenderam ali. E sabede que em aquela cela jazia u~a mui fremosa dona que fora rainha de grande terra e rica e fora irmãã da madre de Persival. Mas, polo pesar que houvera da morte de Lamorat Título Fólio 21279b , seu sobrinho, que ela amava muito e prezava de cavalaria sobre todolos cavaleiros do mundo, meterase ali, assi que homem nem molher de sua linhagem nom sabia onde era e que a buscaram já em muitos logares. E, se soubessem que ali era, nom era rem do mundo per que a i deixasse[m] estar. A dona jouvera ali longo tempo e vivia tam boa vida e tam santa que maravilha vos semelharia se a ouvissedes. E nunca outros panos houve fora se nam aqueles com que primeiramente entrou ali, que nom havia já de que se podesse cobrir fora de seus cabelos que aa maravilha eram mui grandes e todos cãos. Título Fólio 21379b Como o cavaleiro chagado chegou a Lançalot e Persival e rogou que o defendessem a u~u~ cavaleiro que vinha pós el. Pois Lancelot e Persival chegaram aa cruz que estava ante a cela, esteveram atees que disse Persival a Lancelot: – Ora quiria eu, se prouguesse a Deus, que achássemos algu~a aventuira maravilhosa. E tanto que esto disse viram vi~ir u~u~ cavaleiro armado, sem lança e sem escudo, mal chagado, e vi~a quanto o cavalo [o] podia aduzer. E tanto que Título Fólio 21379c viu os cavaleiros, deilhe vozes, dezendo: – Ai, Senhores! Por Deus, sodes cavaleiros andantes? Disseram eles: – Si, mas porque o perguntades? – Por haver vossa ajuda, disse el, ca u~u~ cavaleiro vem pós mim que me quer matar e nom me devedes a falecer a tal hora, ca todo cavaleiro andante deve ajudar todos aqueles que lhe ajuda demandarem. – Ora, disseram eles, nom temades, ca nós vos tomamos em nossa guarda pois um cavaleiro sae, quando quer que el seja. Disse el: – Ora eu ficarei com vosco. Entom ficou e disse: – Convémvos que ambos vades com el justar, que tam bõõ cavaleiro é em armas que de vós nom será ne~hu~u~ contra ele. Quando el disse isto, Persival disse: – Per boa fé, nom sei. Disse el: – Creede que é tal qual vos eu conto. E eles se maravilharam muito quando poderia seer. Título Fólio 21479c [Como Galaaz derribou Persival e Lancelot e deu por quite o cavaleiro que lhe pedia merce.] Pois, a cabo de u~a peça, viram sair da forestra Galaaz, o mui bõõ cavaleiro sob[e]jo, mas nom no conhiciam. – Ora podedes veer, disse o cavaleiro, aquel de que vos eu contava. Sabede que este é o melhor cavaleiro que nunca eu vi. E Lançalot disse logo a Persival: – Amigo, vamonos a el. E Galaaz que vinha Título Fólio 21479d co’a lança baixada, tam prestes que era gram maravilha, empero firiu Persival tam rijamente que o derrubou em terra, tam bem ele como o cavalo, e firio mui mal nas costas seestras. E depois que o derrubou em terra nom no catou e leixouse correr ao padre, mas nom no conhicia polas armas que havia cambadas, ca muitas vezes lhe viam que as cambou e espicialmente depois que entrou em aquela demanda. E a lança de Galaaz era ainda sãã e deu com ela u~u~ tam gram golpe a seu padre que o derrubou em terra atravessado na carreira, mas outro mal nom lhe fez ca a lança era muito boa; e desi passou per ele por ir ao cavaleiro depós que vinha. Mas aquel, que bem sabia sua bondade d’armas, nom houve vagar de atender contra el, mas antes se leixou cair do cavalo tanto que [o] vio perto de si. E ficou os giolhos em terra e ergueu as mãos juntas contra ele e disse: – Ai, cavaleiro muito bõõ! Mercee! Por Deus e por misericórdia, nom me mates ca eu me meto em tua mercee. E quando Galaaz vio que se humildava tanto, disse: – Cavaleiro, vós me arrastes Título Fólio 21480a muito, mas pois me mercee pidides, douvos por quiti de meu queixume, ca dire[i]to é que mercee ache quem mercee pede. Entom se tornou el contra a foresta, atam rijo como se corisco fosse depós ele. Título Fólio 21580a [Como Lancelot se partiu de Persival e foi depós Galaaz.] Quando Lancelot e Persival viram a esta aventura foraiso, mu~i muito maravilhados. E andaram muito por filhar seus cavalos que se lhe espantaram, atá que os filharam e subiram em eles. E Lancelot disse a Persival: – Deus vos ouvio a demanda que lhe fezestes que tanto que aventura pidistis logo vola deu. Disse Persival: – Verdade é, mas al quisera eu, ca vejo que somos escarnidos per u~u~ boo cavaleiro mal o p[o]diriam ora crer em cas delrei Artur que nos assi aviou. – Ora me deixade, disse Lancelot, ca, pola fé que eu devo a toda cavalaria, que ja mais nom serei ledo ataa que vingue esta desonra. E, se me cavaleiro derruba per força de lança, ja mais nom quero cinger espada, se per força de espada o nom dirribo. Ora pós el, ca ja mais nom folgarei ataa que vaa depós ele. – Em tal hora, disse Persival, seria trabalho perdudo, ca a noite se chega muito. E el ia tam gram pedaço como vistes, assi que, se ainda fosse grande Título Fólio 21580b dia nom no poderíamos achar se se algur nom [t]evesse. E por em bem seria de louvar que nos tornássemos a acolher algu~u~ logar e de manhãã irnosemos depós ele. E estonce disse Lancelot: – Assi repousaremosnos nem folgaremos que nom vinguemos esta desonra; e aquel que nola fez nom é ainda longe. Já Deus nom me ajude se me eu i outorgo, ante irei pós ele e, quando for noite escura, unde me anoutecer aí ficarei e entom nom me poerá ne~hu~u~ culpa. – Amigo, disse Persival, vós faredes o que quiserdes, mas eu ficarei ante esta cela e de manhãã moverei pós el. – Pois encomendovos eu a Deus, disse Lancelot, ca nom sei porque deixe ir após ele atá que saiba quem é. E se nom for de casa delrei Artur, haverei batalha com el em mentre poder firir com esta minha espada. Título Fólio 21680b [Como Lancelot achou u~a ermida u viviam dous homens bõõs.] Assi se partiram Lancelot e Persival. Persival se foi contra a cela ca havia sabor de ficar; e Lancelot, que era muito espantado do que lhe aveera, foise depós Galaaz pelo caminho da foresta estreita. E tanto andou que chegou a u~u~ vale mui fundo e andou tanto per ele atees que achou u~a ermida na qual viviam dois home~e~s bõõs que eram irmãos e bõõs cavaleiros feramente [e] eram da linhagem de Persival. E sabede que em aquel tempo havia Título Fólio 21680c no reino de Logres gram cousa de irmitães cada logar, ca nom era sem maravilha. E poucos havia i que nom fossem cavaleiros ou altos homens. E em aquel tempo era a graça de Deus que todos aqueles cavaleiros daquel reino, depois que usavam em armas trinta anos ou quarenta, leixavam suas terras e suas riquezas e toda sua linhagem e iamse aas montanhas e aos mais apartados logares que podiam achar, e ali faziam. sua pendença de seus pecados e de seus grandes viços e dos grandes sabores que houveram em essas grandes cavalarias. E nom vos digo que muitos i nom havia que se metiam i polos desconfortos e polos pesares das maas andanças que aviam ameu´de seus amigos e seus parentes. E por esto foi muito povoado o reino de Logres de frades e de irmitães. Título Fólio 21780c [Como Lancelot disse aos ermitães como aveera a Persival e a el.] Ora diz o conto que Lancelot chegou a[a] pousada daqueles dous irmitães que eram parentes de Persival. E sabede que pois, dês que o conheceram, que lhe fezeram. quanto serviço poderam, ca o prezavam de bondade de cavalaria sobre todolos cavaleiros do mundo que sabiam, Título Fólio 21780d fora solamente Galaaz; e Galaaz conheciam eles já muito bem. Aquel serão começaram a preguntar a Lancelot que aventura o trouxera ali e a tal hora. E el lhes disse todo como aveeera a Persival e a el, com u~u~ cavaleiro que tragia u~u~ escudo branco de cruz vermelha. – E pola desonra que nos fez viim eu depós ele, ca o cuidei a acalçar, mas nom pude, que a noite achegou-se cedo. – Certamente, disse u~u~daqueles irmitães, Deus o fez por vós que o nom acalçastes, ca por verdade vós sodes u~u dos melhores cavaleiros do mundo; todavia sabemos nós que el é tam boo cavaleiro, entanto que émelhor de todolos outros, que lhe nom podiríades escapar, nem vós nem cavaleiro que agora traga armas, se aveesse a ferir de espada, ca este é o seu prazer, o que nom duvida a outros melhores. Título Fólio 21880d [Como os ermitães derom a Lancelot u~a estamenha e el a vistiu.] Quando Lancelot ouvio estas novas foi espantado e perguntou quanto era aquel boo cavaleiro que de bondade passava todos os outros. Disseram eles: – Nós nom vos podemos dizer seu nome, ca nos rogou que o nom discubríssemos a cavaleiro Título Fólio 21881a andante, mas tanto vos dezemos bem que [é] da casa del-rei Artur e companheiro da Mesa Redonda. E el calou quando isto ouvio, ca logo maginou em seu coraçom que era Galaaz, seu filho. E aquela noite pensou muito nas aventuiras que lhe veeram e nas visões que vira em sonhos. O outro dia, depois que ouvio missa, contou aos ermitães, ca bem cuido que eram tam boos home~e~s contra Nosso Senhor que bem o souberam conselhar. E assi o fezeram sem falha ca entom lhe fezeram saber o conhicimento da sua linhagem e del-rei Mordaim e de Nasciam e de Cilodornes e de todos aqueles onde o conto vos já falou. E disseram-lhe discubertamente que era escarnido pola rainha Genevra e a rainha por ele. – E sabede, disseram eles, que, se este pecado nom deixades, que vos fará morrer aa lança e a maa ventura e faredes tam maa fim e tam vilãã que todolas proezas que por vós passaram seram per i abaixadas e tornadas a nimigalha. Quando el esto ouvio, respondeo com gram pesar: – Muito me pesa de já aqui vi~r e acho-me atam Título Fólio 21881b mal que mais quiria nunca vencer armas ca me veerem, que jápormiti ante o Senhor nunca tornar e prometo-o outra vez. E os homens bos disseram: – Sempre vos bem vinrá. E sabede que vos nom partiredes desta demanda sem honra se o vós assi queredes fazer. E el disse que bem nelo cuidaria e o entendia a fazer com ajuda de Deus. E u~u~ dos irmitães filhou logo u~a estamenha e muito áspera e deua a Lançalot. E disselhe: – Eu quero que vestades esta vistidura a caram da carne em nome de pendença entramente andardes na demanda [do] Santo Graal. E ele a filhou e vestiua e foise assi que nunca depois a despio atá que tomou a casa delrei Artur que tornou a cometer e fazer o pecado dante como o fazia. Título Fólio 21981b [Como os homens bõõs castigarom Lancelot.] Pois se confessou bem aos homens boos eles o castigaram muito e dissseramlhe que se leixasse se tirasse daquel pecado e posesse toda sua fiança em Deus, que desejavam sua honra, e vinciria na demanda do Santo Graal. E el prometeo que todo o assi faria. Dês i partise deles e metêse em sua demanda assi como ante e andou muitos dias que nom achou aventuira. E sabede Título Fólio 21981c que o mais do tempo fazia orações e rogava a Nosso Senhor que lhe perdoasse ca se non sentia de cousa algu~a que fezesse tanto como do pecado da rainha, ca lhe semelhava que era treedor e desleal contra elrei Artur, cujo vassalo era e lhe fezera sempre mais d’honra ca ne~hu~u~ homem. Título Fólio 22081c [Como Lancelot achou u~a donzela que lhi pediu u~u~ dom.] U~u~ dia lhe veo que andava pola Furesta Gasta, lasso e cansado, ca andara entam quando de u~a parte quando d’outra, sem comer e sem bever, que tal foi sua ventuira que em todos quatro dias nom achou u se acolhesse, ante andou desviado per essa furesta, que era mu~i grande. E nunca se queixou mas ante dizia que tal era a vontade de Nosso Senhor que sofria na demanda do Santo Graal. Depós o qual quarto dia lhe veo que chegou a u~a fonte que nacia em meo de u~u~ vale, ao pee de u~u~ carvalho. E a fonte era mui fermosa e ele havia mui gra[n]de fame e gram sede e semelhoulhe que, se per ventuira bevesse d[a] água, que morriria polo qual seria a sede e a fame maior. Entom decendeu o elmo, [t]olheo[o] e vio vi~ir um corço que vinha Título Fólio 22081d bever aa fonte. E el filhou sua lança e pensou que se o podesse matar que comeria dele ena qual guisa quer que seja, por matar fame. Entom lhe lançou sua lança e firiu[o] em guisa que o matou logo. E ele foi mui ledo. E el que o queria levar contra a fonte, aquevos vem u~a doncela sobre seu [p]alafrém e veo tam escondidamente que nunca a dantes vio senam quando a vio com sigo. E a donzela era mu~i fremosa e disselhe: – Ai, cavaleiro! Dáme um dom. E el olhou pera ela e disselhe: – Donzela, pidideo ca o haveredes, se nom for cousa que seja contra meu juramento. Respondeo ela: – Muitas mercees. Pois ora me dade este corço, ca por al nom viim eu aqui. – Ai, doncela! Por Deus, pidideme outro dom, que atal hora nom poderia eu este corço dar porque há muito que nom comi. Mas empero se o corço quiserdes, filhade quanto quiserdes; del me deixade que tam solamente per que eu possa minha fame perder. – Par Deus, ou eu todo levarei Título Fólio 22082a ou nom levarei del ninhu~a cousa. E rogovos pola fé que devedes a Deus que todo mo dedes. – Entom, disse el, eu volo dou ca, sobre tal conjuramento, nom no duvidaria eu a vós nem a outrem. – E rogovos pola fé que a Deus devedes que logo mo dedes. – Tomaeo, disse el. – Muitas mercees, disse ela, e sabede que aquel por cujo amor o vós dades a mim volo saberá bem galardoar e cedo. E ela entrouxou logo o corço em seu cavalo e quando Lançalot vio que se quiria partir, disselhe: – Ai, donzela, por Deus, olhade: queredes vós que vos tenha eu companhia e que me levedes algur u possa achar per que mate minha fame? E ela respondeo mui toste e disselhe: – Tu pensas u~a cousa e tu nom chegarás a vila nem a pousada atáque aprouguer a Deus. E esto nom será tam cedo como tu cuidas. E a donzela se lhe arredou logo tanto que em mui pouca d’hora perdeu el dela a vista. Título Fólio 22182a [Como Lancelot chegou a riba de Martoisa e ficou ençarrado de três partes.] Quando, Lançalot vio que a doncela se ia a gram pressa cuidou que nom era de longe e que lhe dissera aquelo polo Título Fólio 22182b espantar. E filhou logo seu elmo e seu escudo e sua lança e subiu em seu cavalo e pensou ir atrás ela e, quando a acalçasse, que a rogaria tanto atés que o chegasse a algu~u~ logar u achasse conforto de sua lazeira. E assi se [foi] depós a donzela. E tanto andou atés que chegou a u~u~ vale que era antre duas penas mu~i grandes e mu~i feras. E olhou e vio ante si u~u~ agro que chamam Martoisa que partia a foresta em duas partes. Quando el vio esto nom soube que fezesse. Que se quisesse passar ale~e~ conviria que passasse per meo do agro que era tam perigoso que bem cuidava que nom podia i homem entrar que podesse escapar. Empero el meteo sua esperança na fiança de seu Senhor que perdeo de todo o medo e pensou que o passaria bem com ajuda de Deus. E el esto assi pensando vio vi~ir u~a aventuira mu~i maravilhosa e mu~i estranha ca vio sair da ágoa u~u~ gram cavaleiro armado em u~as armas negras e armado, sobre u~u~ cavalo morzelo. E deixouse ir a Lançalot sem ne~hu~a cousa lhe dezer. E deilhe no cavalo e matoulho mas el nom matou. Dês i fôse pela foresta Título Fólio 22182c atam asinha que em pequeno espaço nom [soube] Lançalot del parte. Quando vio seu cavalo morto nom lhe pesou muito ca bem sabia que todo lhe vinha polo seu pecado. Empero deu louvor a Nosso Senhor e sol nom no catou mas foise pela riba do rio. E quando vio que nom poderia passar esteve e tomou sua lança e seu escudo e seu elmo e sua espada e pôs todo a cabo de u~a pena. E disse que ali estaria atá que Nosso senhor lhe enviasse algu~u~ conselho. Assi ficou Lançalot ençarrado de três partes: de u~a da parte d’água e da outra d’âmbolas penas. E nom sabia conselho per que fame perdesse. Ca, se per ventuira se metesse na foresta andaria gram tempo que nom acharia homem nem molher que lhe bem fezesse. Ca esta era a mais estranha foresta nem mais desviada em que nunca entrara. E se entrasse no rio era tam perigoso que se nele entrassem mil homens nom escaparia ne~nhu~u~ se Deus com sua mão o [nom] tirasse. Estas três cousas o faziam ficar na riba e fazer orações a Nosso Senhor. E rogavalhe ca por sua piedade o confortasse e lhe desse tal conselho por que nom caisse em desesperança nem em tentaçom do demo. Título Fólio 22282c Mais ora leixa o conto a falar de Lançalot e torna a Persival. Título Fólio 22282d Diz o conto que, depois que se Persival partio de Lançalot, que se foi aa cela, nom porque cuidava que i morava nengu~u~ mas por agasalhar seu cavalo cansado. E tanto que i chegou decendeo e, quando vio que nom podia meter dentro o cavalo, pensou del o melhor que pôde e desarmouse por folgar u~u~ pouco. E quando a dona que em na cela jazia o vio desarmar e sem companha logo entendeo que era dos cavaleiros andantes que andavam buscando as aventuiras do reino de Logres e houve gram sabor de falar com el por saber novas d’Agloval e Persival. E estonçe botou a cabeça fora o milhor que pôde e disse: – Ai, cavaleiro Senhor! Assi Deus vos ajude e salve, falade comigo. E Persival olhou e maravilhou-se quando viu que era empardeada e disse: – Dona, de boa mente. Entom se foi assentar ante ela e ela lhe perguntou onde era. – Dona, eu som de casa del-rei Artur e companheiro da Mesa Redonda. – No nome de Deus, disse ela, bem cuido ora que me saberedes dezer novas de dous cavaleiros andantes meus parentes que sam de sa corte. – E quaes sam? disse Persival. Disse ela: – U~u~éAgloval e o outro Persival, filhos del-rei Pelinor, que som meus Título Fólio 22283a sobrinhos, filhos de minha irmãã. E desejaria deles ouvir boas novas; e mais de Persival que era minino e ouço agora louvar de cavalaria. E a muitos homens boos ouvi dezer de sua bondade. – Dona, disse el, [A]gloval há peça que eu nom vi, pero deixei-o são e ledo quando me parti; e entra na demanda do Santo Graal com os outros cavaleiros da Mesa Redonda. – A Deus seja gardicido, disse ela, e Deus o mantenha em aquela bondade que começou, ca muito bem ouvi dezer dele depois que eu aqui entrei. E vós, Senhor, como havedes nome? disse ela. E el respondeo vergonhoso e disse: – Dona, disse el, eu som aquel Persival que vós deman[da]des. – E é verdade? disse ela. Vós sejades bem vindo e bento seja o espírito Santo que me vos demostrou ante da minha morte, ca esta era a cousa do mundo que mais desejava. Entam alevantou as mãos contra o céu e deu graças a Nosso Senhor por quanto lhe comprira seu desejo. E depois esteve gram pedaço em oraçam. E depois tornou a Persival tam leda que as lágrimas lhe corriam pelas faces com lidice, e disse-lhe: – Sobrinho, como vos vae? Disse el: – Dona, bem, mercees a Deus. – E de cavalaria Título Fólio 22283b , disse ela, como vos vae? – Dona, disse el, assi como aos outros cavaleiros andantes, aas vezes bem e aas vezes mal, assi como as aventuiras e andanças nos veem. – Sobrinho, disse ela, Nosso Senhor por sua piedade vos faça melhor andante ca foi vosso padre nem ca vossos irmãos, que morreram a gram coita e a gram marteiro. E cada vez que me lembra a morte de vosso irmão Lamorat que foi morto a gram treiçam, nom há conto a tristeza que hei, que em gram lazeira deitou-vos e toda vossa linhagem aquel que o matou. Pola sua bondade era toda vossa linhagem nomeada. – Verdade é, disse Persival. Certo, se eu soubesse verdadeiramente quem no matara, eu faria a todo meu poder por vingar sua morte. – Isso nom podiríades vós fazer, disse a dona, que fôssedes perjurado, que aquel que o matou é da Mesa Redonda e bem sabedes vós que nom havees em el poer mão em ne~hu~a guisa. – Dona, disse el, per aquela rezam que el matou meu irmão, posso eu a el matar. – Nom podedes, disse a dona, ca síriades em perjurado e desleal. E se el mal fez nom no devedes vós por ende a fazer, ca em ca[t]ardes a deslealdade de outrem nom é bem Título Fólio 22283c mas a vossa lealdade, ca bem sabedes vós que havees que de manter a lealdade que começastes. E se assi fezerdes, vós subiredes em mui maior honra ca poderíades cuidar. E por esto ja mais nunca trabalhedes por morte de vosso companheiro, ca por pouca cousa poderíades cair em vergonça, e quanto bem fezestes xe vos poderia tornar em desonra. E por tanto vos rogo que vos nom trabalhedes de tal cousa, mas se vos algu~u~ deles contra seu juramento errar, sofrêo, ca Deus, que é gram vingador, vos vingará mui melhor que vós vos vingaredes. – Dona, disse el, pois leixarme quero em Deus e te~er mentes aa vingança do gram vingador. – Assi fazede, disse a dona, e eu vos digo que bem vos sempre vinrá. E el lhe prometeo logo que assi o faria de mu~i boo grado. Título Fólio 22383c [Como a dona disse a Persival que era Galaaz o cavaleiro que o derribara.] Assi falaram aquel serão a dona e Persival, e foram ambos muito tristes quando contaram o gram dano da sua linhagem. E depois choraram muito, e disse a dona a Persival: – Sobrinho, que aventuira vos trouxe assi aqui soo? – Dona, disse el, eu houve hoje por companheiro Lancelot do Lago que é u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo, mas por u~a aventuira que nos aconteceo partise de mim sanhudo e com gram pesar. Entam lhe contou como fora e como Lançalot se fora depós o cavaleiro que os derrubou e el ficara ali. – E bem sei que, se o pode Título Fólio 22383d achar, que a batalha sera ´grande; ca Lançalot é o melhor cavaleiro d’espada que nunca vi, e o outro er é mu~i boo. Esto sei eu mu~i bem e nom sei que diga mas, tanto que for manhãã, irmeei depós eles; e se eu acho o cavaleiro, nom se pode de mim partir em ne~hu~a guisa ataa que o nom vença, ou el a mim. – E que armas tragia? disse ela. E el disse: – Seus sobressinaes vermelhos e u~u~ escudo branco, u~a curuz vermelha. – Tolhede ala, sobrinho, disse a dona, nom sabedes o que vós fazedes e começastes. Soo nom no pensedes de vencer, nem curees de vos tomar com ele, ca bem sabedes que lhe nom poderedes durar ne~hu~a maneira, vós nem cavaleiro nenhu~u~ que ora no mundo haja, ca este é Galaaz, o qual cavaleiro em dia de Pinticoste acabou a aventuira da seeda perigosa; este mesmo é o que dará fim aas aventuiras do reino de Logres e este é o que virá per bondade em sua vida as maravilhas e as puridades do Santo Vaso. Este é contra o que nenhu~a proeza terreal poderá durar. – Como dona? Disse Persival. Este é Galaaz, que Deus pôs sobre todolos cavaleiros da Mesa Redonda? – Si, disse ela, sem falha, e bem o deviríades a entender pelo que lhe fazer vistes, ca nenhu~u~ cavaleiro nom pode fazer taes dous colbes em u~a hora como lhe vós vistes fazer. – Dona, disse el, verdade dezees; de hoje a mais me quito de seu preito, ca bem sei ca é o melhor cavaleiro que ne~hu~u~ homem que eu saiba agora. Mas ora me pe[sa] Título Fólio 22384a mais de Lançalot ca nunca pesou, ca bem sei que se o achar que se nom pode del partir sem batalha e, se por pecado se nom conhecerem, esto será dano sobejo. – Desto nom hajades pesar, disse ela, ca dom Galaaz é cavaleiro de Nosso Senhor e nom quer pecar mortalmente per ne~hu~a guisa a seu padre. Título Fólio 22484a Como a dona nom comia senom ervas cruas. Muito falaram aquela noite. E esto em sua linhagem, ca muito lhes prazia de falarem, ca muitos homens foram que saíram a grandes feitos. Aquela [noite] nom comeu Persival nenhu~a cousa, ca nom havia que lhe desse a dona, como aquela que mais vivia d’ervas curuas mais que d’al. E se alguém me perguntar quem lhas davam – ca ela, ainda que dali quisesse sair nom poderia – eu lhe diria que lhas dava u~ ermitam que morava preto dela e vinhaa veer e confortar cada dia e falar com ela de confissam. Esta dona viveu assi #X anos e meo que ja mais nom comeu senam ervas curuas. E quando passou ave~o em u~ tam fremoso milagre, que rei Artur entrou em Camalot, bem #X jornadas dali, o soube aquela hora mesma que ela passou, e direivos em qual guisa. Título Fólio 22584a [Como a dona passou e do fremoso milagre que aveeo.] Verdade foi que [a dona] que era [tia] de Persival foi das fremosas donas do mundo e tam amiga de Deus e da Santa Egreja que todos aqueles que a conhiciam falavam ende. E pola bondade grande que havia Título Fólio 22584b foi causa que a amou rei Artur e lhe demandou seu amor; mas aquela que tam boa dona era que de ventuira poderia ne~hu~u~ achar melhor nom quis per ne~hu~a maneira e por ende o desamou sobre todos os homens do mundo, em guisa que nunca depois lhe mais esqueceo em seu coraçam. Onde aconteceo que aquel dia que foi morta que apareceu a essa hora a elrei Artur, onde jazia dormindo em sua câmara em Camaalot, e viua coroada, tam fremosa cousa e tam leda que muito haveria homem sabor de a veer. E u ela estava em tam gram ledice, disse a Artur: – Rei Artur, eu me vou pera o Paraíso, que me tu quisestes tolher per tua luxu´ria; minha castidade me meteo em lidice e tua luxu´ria meteráte em grande door e em marteiro se nom castigas. Em tal guisa como vos eu conto soube rei Artur a morte da dona. E esto foi em aquel ano mesmo que a demanda do Santo Graal foi começada, direitamente a entrada d’Abril. E pola grande bondade que el sentiu na dona foise aa Foresta Gasta com gram companha de cavaleiros e fez britar a cela e filhar o corpo da dona e leválo a Camaalot e fezeo soterrar com grande honra na egreja de Sam estiano que entom era a maior egreja. Mas porque bem nos saberemos tornar a esta cousa quando mester for, calamonos por agora. Título Fólio 22684b [Como Persival se partiu da dona e caeu em gram pensar.] Aquela noite passou Persival assi com sua Título Fólio 22684c tia, falando de muitas cousas, castigandoo que servisse seu Criador e que fosse a miu´de a confessar. – E sabede, sobrinho, disse ela, que se vos esquece Nosso Senhor sabede que ele se esquecerá de vós e nom vos dará honra de cousa que lhe façades se vos de seu serviço partides. – Dona, disse el, [t]antas quantas me dissestes de boas cousas que eu valerei per i mais em mentre viver. Em outro dia, quando foi luz, filhou suas armas e sobio sobre seu cavalo e comendou sua tia a Deus e foise, E ao partir choraram ambos muito e disselhe ela: – Sobrinho Persival, rogade a Deus por mim que sei que ja mais me nom verees nem eu a vós ataa o espantoso dia u cada u~u~ háde dar rezam de suas obras ante o grande julgador. Entom vera ´s tu a mim e eu a ti, e Deus mande que seja a nossa prol. Entom se foi Persival através da foresta chorando com doo da dona que via tam viçosa e agora a vira em tam grande coita e em tam gram marteiro. Aquel dia andou tanto de u~a parte e d’outra que chegou ao gram caminho. Entam caiu em u~u~tam gram pensar de que se lhe cortou muito o coraçam, ca pensou em Galvam que ouvira dezer que matara seu padre e seus irmãos. E pensou como o podera fazer. – Ca bem sei, disse el, que meu padre e meus irmãos foram melhores cavaleiros ca ele;e pois melhores cavaleiros eram, como os podia matar? Esto nom sei como podesse seer se nom fosse per treiçom, nem esto er nom sei como tam boo cavaleiro e tam cortês Título Fólio 22684d fezesse treiçam. Esto nom pode já de assi ser em ne~hu~a guisa. Título Fólio 22784d [Como Persival achou u~u~cavaleiro mui triste e u~a dona que chorava.] El indo assi andando catou a seu destro e viu u~u~ cavaleiro armado seer a cabo de u~a fonte, triste. E a cabo del sia chorando u~a dona mu~i fremosa. Quando el viu a donzela chorar foi alá por saber a rezam de seu doo e por lhe poer i todo conselho que podesse, ca este era o direito dos cavaleiros andantes de darem conselho a todas donzelas estranhas. E quando chegou a eles salvou primeiramente o cavaleiro. E o cavaleiro sia com tam gram cuidado que lhe nom falou ne~hu~a cousa. E el disse entom aa donzela: – Deus vos dee lidice, ca muito me parece que havees mester. Ela [respon]deo chorando: – Deus sabe minha fazenda. – Donzela, disse el, poderia seer que me disséssedes a rezam de vosso pesar? Eu vos prometo, como cavaleiro, que vos ponha todo conselho que poder. – Senhor, disse ela, quem sodes vós que tanto prometedes a fazer por mim? – U~u~cavaleiro andante sou, disse el. – E onde sodes? disse ela. El disse que era de casa del-rei Artur. – E sodes da Mesa Redonda? disse ela. – Si, sem ne~hu~a du´vida. – Pois rogo-vos que me digades vosso nome, disse ela. El se nomeou. E, tanto que [o] outro cavaleiro ouviu esto, ergueu-se mui ledo e disse: – Ai, senhor Persival! Vós sejades bem vindo. Vossa ajuda hei muito mester, disse el, a esta hora. – quem sodes? disse Persival. – Eu som Gansonais e som da Mesa Redonda como vós. – Em nome de Deus, disse el, eu vos conheço muito bem. Dizedeme vós vossa fazenda, ca eu vos porrei melhor Título Fólio 22785a conselho que poder. – Par Deus, disse Gansonais, eu vos nom encubrirei ne~hu~a cousa. Título Fólio 22885a [Como Gansonais contou a Persival o que aveera e lhe rogou que levasse a donzela a sua casa.] – Ontem me aconteceo que cheguei a u~a quintãã desta donzela que está aa entrada desta foresta; e depois deci, ca jáera tempo de folgar, e vi vi~ir dous de nossos companheiros outrossi por repousarem, u~u~ de u~a parte e outro d’outra. E, quando nos conhecemos, fomos mu~i ledos e repousámos todos três com esta donzela; e aa noite, depois que ceámos, rogounos que lhe fizéssemos companha ataa u~u~ castelo que acá adiante está, u jaz u~u~ seu irmão doente assi como a ela disseram. E nós lhe perguntámos se havia pavor d’algu~u~ homem que em aquela foresta morasse. – Si, disse ela, u~u~ meu primo, cõirmão de meu padre, herdou de quanto i havia, afora u~ castelo que lhe ficou, e, se me podesse prender, ja mais lhe nom sairia da mão ataa que sua terra houvesse cobrada. E nós a fezemos seer segura que a levássemos i a salvo. Hoje, tanto que foi manhãã, armámonos e ela [cavalgou] e entrámos a esta foresta. E andámos tanto que chegámos a u~ vale e, u nom cuidámos a haver de quem nos guardássemos, aque dez cavaleiros que veeram a nós. E começouse a peleja tam forte antre nós e de tam gram dano dâmbolas partes que meus dous companheiros foram i mortos e eu mal chagado. E de todolos outros #X nom ficou ne~hu~ vivo, fora [um] que fugi mal ch[a]gado Título Fólio 22885b . E este era o primo da donzela. E quando o eu vi conhicio e vio fugir. Fui pós ele e acalçarao, a meu cuidar, mas cansoume o cavalo e caiome ante esta fonte assi que semelhava morto. E eu olhando vi vi~ir a donzela pós mim que nom ousava ficar na foresta com medo de a prender alguém. Assi nos aconteceu de preito desta donzela, empero ainda no[m] fezemos ne~hu~a cousa que se lhe a prol torne, ca maior medo háagora que dantes. – porquê? disse Persival, nom fugia seu cõirmão? – Si, disse Gansonais, mas sabede que tornarálogo com maior companha que dantes. E por em queria tornar a sua casa s[e] i houvesse quem na tornar. E eu a levaria i de grado mas nom posso que som chagado mal e tenho o cavalo cansado. E por em vos rogo que vós a levedes i e por amor de mim e por guardardes a donzela de mal. Título Fólio 22985b [Como a donzela nom se queria ir com Persival.] Entom disse Persival aa donzela. – U queredes ir? a vossa casa ou u jaz vosso irmão doente. – Senhor, disse ela, se poder seer, ante u jaz meu irmão doente. – Pois cavalgade, disse el, e iredes vós com migo, ca, [a]ssi Deus me ajude, eu farei i todo meu poder de vos levar i em salvo. – Ir com vosco? disse ela. E três cavaleiros veeram com migo e nom me poderam guardar e guardar-m’-íades vós soo? Assi me seria eu sandia a feito de ir com vosco. – Ai, donzela! disse Gansonais, ja mais nom dultedes, ca mais val seu corpo soo ca de taes #XX cavaleiros que há em esta terra. E Persival er lhe disse: – Donzela, nom temades Título Fólio 22985c , ca eu farei todo meu poder por vos poer em salvo u vosso irmão está. – Alá, disse ela, nom iria eu em ne~hu~a guisa em guarda de u~ soo cavaleiro, ca bem sei que me veria em mal. – Nem alhur, disse el, nom vos levarei eu, ca se me tornasse com pavor de palavras, nunca homem ousaria a falar que o nom tevesse por covardice. – Ai, donzela, disse Gansonais, pois Persival vos quer guiar, metede-vos em sua guarda, ca eu vos digo que vos levará a salvo. – Meterei, disse ela, pois me vós conselhades. – E vós, disse Persival a Gansonais, que faredes? – Senhor, disse el, eu ficarei aqui e vós iredes com vossa donzela, e Deus vos guii bem. Título Fólio 23085c [Como a donzela se foi com Persival e como acharom Galaaz.] Persival se foi entom co’a donzela. E ela, que havia gram pavor, disse-lhe: – Senhor, nós deviríamos de ir per outra carreira, ca mais asinha nos podem veer per esta ca per outra. – Nom hajades medo, disse Persival, que certamente eu nom deixarei meu caminho por pavor. Em tal guisa se foi Persival co’a donzela, e ela com gram pavor e el muito esforçado, como aquel que era ardido muito aa maravilha. E nom andaram assi muito que acharam Galaaz que vinha soo, espantado feramente. E, tanto que o Persival vio e o conheceo, disse aa donzela: – Ora podedes veer o melhor cavaleiro do mundo. – Qual é? disse ela. – Este que aqui ve~e~. E este é sem falha o melhor cavaleiro que nunca Título Fólio 23085d foi na Gram Bretanha. – No nome de Deus, disse ela, bem seja ele vindo e bento seja Deus que a tal hora o aqui trouxe, ca muito nos faz mester sua ajuda. Entom achegou Persival por se chegar mais toste a Galaaz e, depois que a el chegou, disselhe: – Senhor, vós sejades bem vindo e benta seja a hora em que vós fostes nado. E Galaaz leixou entam seu pensar e fez sua misura e maravilhouse muito porque lhe dizia aquelo, e er salvou. A donzela disse a Persival logo: – Senhor Persival, hoje mais vos poderedes ir pera u quiserdes ca eu quero ir com este cavaleiro que me guiarámais em salvo ca vós. – Ai, donzela! disse Persival, e porque me leixades? – Porque, disse ela, pois eu posso haver dous cavaleiros boos, nom me terr[i]am por sandia e por neicia se nom escolhesse o melhor? E por esto vos leixo e quero este filhar, que é melhor ca vós, em assi como vós dezedes. Desto foi Galaaz espantado e perguntou quem era. E a donzela lhe contou toda aventuira sua, assi como o contou a Persival. E depois que ela contou toda sua aventuira disse Persival a Galaaz: – Ai, meu Senhor! eu vos rogo por cortisia e por mesura que, por que vós sodes melhor cavaleiro ca eu, que me nom tolhades o que comecei, ca si me tornaria a vergonha e a covardice; nem vós nom haviríades i nenhu~a honra. Eu comecei esta donzela a guiar; deixaema, se vos aprouguer. E a donzela chegouse e disse Título Fólio 23086a a Galaaz: – Senhor, vós sodes o melhor cavaleiro do mundo e eu som u~a donzela pobre e descon[se]lhada, pois que vos demando vossa ajuda. Por Deus, nom me faleçades a tal saçom. Ca, se o vós fezerdes, eu serei escarnida e a desonra seria vossa, ca bem sabedes vós que sodes teu´do da Mesa Redonda per direito de ajudares toda donzela que ajuda vos demandar. Disse el: – Verdade é, mas se outro cavaleiro o começa nom no devo eu de estorvar, se nam se o cavaleiro falece do que começa, ca me diriam que o queria fazer porque cuidava que o cavaleiro nom era tal que lhe podesse dar cabo. E por esto vos deixo a este cavaleiro e sabede que, se u~ cavaleiro soo pode dar cima ao que el começou, el o acabará; e eu vos digo o direito conselho que outra guarda melhor que a sua nom demandedes, ca bem podiria asinha vi~ir pior ca melhor. Título Fólio 23186a [Como a donzela pediu a Galaaz que fosse depós eles.] Quando a donzela esto ouvio começou a chorar mui feramente e disse com grande sanha: – Ai, Deus! Como hoje é abaixada e tornada a nemigualha a cavalaria! Senhor, que faram. daqui avante as donzelas deste reino? Título Fólio 23186b Como acharám ajuda nos cavaleiros do mundo quando o melhor cavaleiro do mundo me falece da ajuda aa maior coita que eu nunca ouvi? – Donzela, disse Galaaz, eu nom vos faleço, ca se eu filhasse o que este cavaleiro começou faria a maior vilania do mundo. – Vilania? disse ela, ante seria gram cortisia e direivos como. Nom sodes vós teu´do de ajudardes as donzelas estranhas como as conhicidas? – Si, disse el. – E se algu~u~ dos vossos companheiros começa cousa que nom pode acabar, nom sodes vós teu´do de lhe fazerdes ajuda de todo vosso poder? – Si, disse Galaaz. – Pois digovos, disse ela, que há mester de irdes depós nós, ca eu sei bem que de u~u~ castelo que acá adiante está sairám bem #X cavaleiros que me querrám prender. Si virem que dom Persival vai soo, e se ele soo for, como partirá dantre eles que nom seja morto ou preso? Vós, que sodes o melhor cavaleiro do mundo, certamente se #X cavaleiros vos cometessem e vós vos podéssedes defender, siria grande cousa; pois que fará el se nam seer i morto ou preso ca mais de #X cavaleiros o cometerám? e eu serei presa e desonrada e todo este mal vi~rá per vosso fiamento. Ca, se vós nos quiséssedes ajudar a esta hora, el ficaria são e ledo Título Fólio 23186c e eu leda. – Donzela, disse Galaaz, ora nom hajades pavor, mas ide seguramente com dom Persival e eu vos digo que, se vos cometerem, ca Deus vos dará i tal ajuda que vós vos partiredes de i leda e honrada. – Farêo, disse ela, pois mo conselháveis e conselhades, e Deus mande que me nom ache mal. Título Fólio 23286c [Como virom sair de todas partes cavaleiros que os cometerom e Persival se defendia.] Depós esto, sem outra tardança [leixou] a Galaaz. E Galaaz, que havia pavor daquelo que lhe ouvira, foise pós eles em pequeno passo e longe, que o nom vissem, e, se visse que houvessem mester sua ajuda, ajudálosia. Tanto andou Persival e a donzela que chegaram a u~ vale pequeno. E estonce viram sair de todas partes cavaleiros que disseram a Persival: – Cavaleiro, morto sodes! Vós nom na podedes defender. Quando esto vio a donzela, disse a Persival: – Ai, Persival! Morta me havedes e traída. Ora vejo eu bem que me nom partirei daqui sem desonra, ca vos nom podedes defender contra tantos cavaleiros. E el nom respondeu ne~hu~a cousa; ante se leixou correr a todos e ferio tam feramente o primeiro que nom trouve arma que lhe podesse prestar que lhe nom metesse o ferro da lança pela espádua sestra e fezeo ir a terra fora do cavalo. E os outros, que vinham depós el, feriramno de sete lançadas e mataram Título Fólio 23286d lhe o cavalo. Mas el ergeose mui rijamente, ca era muito vivo e mu~i ligeiro, e meteo mão aa espada e pôs o escudo sobela cabeça e bem fez semel[h]ança de homem que queria defender seu corpo. E quando a donzela vio Persival a pee antre tantos seus inimigos, começou a chamar alta voz: – Valia! Valia! E esto fazia ela porque cuidava bem que vinha Galaaz pós eles pera lhes acorrer. Título Fólio 23386d [Como galaaz derribou os cavaleiros e salvou Persival e a donzela.] Quando Galaaz, que nom vinha mu~i longe, ouvio esta voz, soube bem que era na peleja e achegou quanto pôde pera láe achou que tinham já a donzela presa e que tolheram a Persival o elmo e lhe quiriam talhar a cabeça. Quando Galaaz esto vio alevantou a voce e disse: – Leixade o cavaleiro, gente maa, todos sodes mortos e presos. E meteuse antre eles e começou a dirrubálos e darlhes da espada talhador de tam grandes colpes que nom acalçava homem que nom fezesse ir a terra. Nem havia tal que trouxesse tam boo elmo nem tam boa arma que podesse durar contra sua espada. E el era tam vivo e tam ligeiro que nom lhes semelhava a eles que era u~u~ soo homem, mas mais de #XX, porque nom havia i tal deles que em pouca d’hora nom houvesse já recibido colbe. E por esto se desempararam e começaram a fugir contra onde estava Título Fólio 23387a o mato mais espesso, por guarecerem i. E depois que Galaaz os houve desbaratados nom quis ir pós eles mais, ca nom havia vontade per que quisesse matar homem a seu grado. E tornou a Persival que já cobrava o cavalo daqueles que fugiram e Persival lhe disse: – Senhor, vós sejades bem vindo, ca muito nos [é] mester a esta hora vossa ajuda. – Muito me praz, disse Galaaz. Entom disse aa donzela: – Cuidades que sodes já ora segura de vossos inmigos? – Senhor, disse ela, porque me perguntades? – Eu volo pergunto porque me quiria ir, se vos prouguesse, ca muito hei d’aviar alhur, mais que aqui. – Certamente, disse ela, de hoje mais eu nom me temo de cousa algu~a, pois estes som desbaratados. E de hoje mais podês ir pera u quiserdes e Nosso Senhor vos guii. – E vós, dom Persival, iredes com esta donzela que havees de guardar, e eu me irei onde hei de ir, e encomendovos a Deus. – Senhor, disse Persival, Deus vos guii. Entom se partiram em tal guisa. Título Fólio 23487a [Como chegarom ao castelo do irmão da donzela e Persival nom entrou i.] Galaaz entrou na foresta per outra carreira e nom per aquela que veera. E Persival se foi com a donzela ataa que chegou a u~ castelo pequeno que estava sobre u~a ribeira. – Donzela, disse Persival, este é o castelo onde jaz vosso irmão doente? – Senhor, disse ela, este, verdadeiramente. – E sodes vós jáem salvo, disse el, de hoje mais irmeei eu. – Ai, Senhor! disse ela, esta vilania nom seráem ne~hu~a Título Fólio 23487b guisa. Pois atá aqui veestes com migo porque nom entraredes dentro? Disse el: – Esso nom farei eu em nenhu~a guisa, mas comendovos a Deus. E tornouse logo e ela entrou no castelo com gram pesar porque nom quisera el ir com ela, ca lhe quisera ela fazer muito serviço pola mu~i boa cavalaria que em ele vira. Título Fólio 23587b [Como Persival folgou #XXII dias em casa de u~a dona viuva e como ela queria que fizesse seu donzel cavaleiro.] Quando Persival se partio da donzela andou atés o serão pela foresta, assi chagado como era, e chegou assi per ventuira a casa de u~a dona viu´va que o albergou mui bem e que lhe pensou muito de suas chagas, como aquela que nelo muito sabia, e trabalhouse muito, depois que soube que era Persival, e fezeo folgar em sua casa #XXII dias. E quando ela vio que era já são que poderia cavalgar e filhar armas dissselhe: – Eu vos rogo que, em gualardam do serviço que vos fiz, que façades cavaleiro este meu donzel que [é] aqui com migo. – E quem é? diss[e] el. – Assi Deus me ajude, disse ela, nom sei; que eu o achei em esta foresta, mais háde #XV anos, acerca de u~ lago, envolto em panos de seda, e nom havia mais de três dias que nacera. Dês aquel tempo ataa agora o criei e fiz guardar ataa agora, que é mui fermoso donzel e grande, fortelazado, o tam vivo e tam ligeiro que nom há Título Fólio 23587c donzel nesta terra de sua bondade. E rogovos que o façades cavaleiro porque cuido que será a cavalaria nel bem empregada. – Como? Disse Persival, nom sabedes al de sa fazenda nem onde ou de qual lin[h]agem? – Certamente, disse ela, eu nom conheço mais que vós, fora de vista; mas porque o vejo tam vivo cuido que seja homem boo. Queria que fosse homem boo, e cavaleiro. – Dona, disse Persival, vós dezedes a vosso prazer. Mas certamente, pois que vós nada nom sabedes de sua linhagem, nom tenho rezam per que o quisesse fazer cavaleiro, ca hei medo de seer de linhagem de vilãos. E rogovos que vos nom pese delo. – Ainda que me pês, disse ela, a sofrer me convém, pois vejo que o [nom] queredes fazer por meu rogo que vos peço. Título Fólio 23687c [Como Persivol achou Galvam e como Galvam o nom conhecia.] Assi se partio Persival da dona que o servira muito e o tevera viçoso em sua casa; e tanto andou per suas jornadas, assi como a ventura o levava, atees que u~u~ dia achou Galvam sobre u~a fonte aa entrada de u~a foresta. E tolhera o elmo e folgava ali, ca era tam cansado que era maravilha. E quando o vio foi mui ledo e disselhe: – Deus seja com vosco. Título Fólio 23687d E deceu logo. E Galvam nom no conhicia, ca muitas vezes cambiara Persival suas armas depois que entrara na demanda. Empero, ergueose contra ele e Persival lhe disse: – Galvam, nom me conhecedes? – Nom, disse el, assi Deus me ajude. Mas nom vos pese desto. E Persival deceo logo o elmo e tirou[o] da cabeça, e tirou o almófer e, tanto que o Galvam conheceo [d]eitou em el os braços tendudos e disselhe: – Ai, dom Persival, vós sejades bem vindo! Se vos nom conhicia nom devo a seer por em culpado, ca nunca vos vi trager estas armas. Título Fólio 23787d [Como Persival pediu a Galvam que lhe dissesse verdade do que lhe preguntasse.] Grande foi a lidice e o prazer que ambos houveram. E, depois que se agasalharam, de i a gram peça, assentaramse sobela fonte e começaram a falar de muitas cousas. E perguntaramse das aventuras que lhes aveeram depois que entraram na demanda e contaram, sendo, muitas. Mas bem sabede que lhe nom disse Galvam toda verdade do que lhe aveera na demanda, nem dos companheiros da Mesa Redonda onde já matara muitos. Enquanto assi falavam, Persival começou a pensar tam feramente que nom entendia ne~hua cousa de quanto lhe dizia Galvam. E foi tam coitado em aquel pensar que as lágrimas Título Fólio 23788a lhe cairam polas faces; e Galvam entendeo logo o que pensava e calouse e começouo a catar. E, depois que Persival cuidou grande peça, deu u~u~ suspiro e ergueu a cabeça. E Galvam lhe disse: – Amigo, muito fostes cuidado em este pensar. Deus mande que vos venha em bem. E el começou a e~negrecer e a catar. Galvam houve gram pesar de que o vio pensar assi e disse: – Muito me pesa que em tal pensar caí[stes] ca a mim nom veerá melhor nem pior ca outrem. A cabo de u~a peça el disse a Galvam: – Dom Galvam, assi Deus vos guarde e pola fé que devees a todos os companheiros da Mesa Redonda, dezême verdade do que vos preguntar. E, pela fé que eu devo a Deus e toda cavalaria, nunca vos em mal vinrá. Galvam, que era muito enendudo e que passara. já muitos perigos taes, logo esmou que o queria preguntar por morte de seu padre e de seus irmãos e foi tam espantado que nom soube que fezesse ca, se lhe a verdade dissesse, cuidou que faria seu dano ca o tinha por melhor cavaleiro ca si; se lho encobrisse por pavor, nunca nenhu~ homem oeria a falar que lho por mal nom tevesse. Pero todavia teve por melhor de o encobrir ca de o dezer; posto que Persival lhe nom fezesse mal ora nem entom, sempre o desamaria. E respondeu entam: – Dom Persival, perguntade o que quiserdes, ca ne~hu~a cousa Título Fólio 23788b que eu saiba nom vos encobrirei, ainda por cuidar que me mal vinria. – Certamente, disse Persival, ja mais nom vos erraria mal per mim nem per outrem ca tal cousa é que eu quiria mais encobrir ca vós mesmo. Título Fólio 23888b [Como Persival preguntou Galvam se matara seu padre e seus irmãos e ele negou.] Persival disse entom: – Dom Galvam, eu ouvi dezer a muitos que vós matastes meu padre e meus irmãos. Mas, porque o nom posso creer, quis já por em mal a muitos cavaleiros. Se os vós matastes e me nom conhecedes, eu volo perdoo; e ja mais nom deixedes de falar que vos nom quero nenhu~u~ mal por em; [nem] ne~hu~u~ homem boo depois que souber que os vós matastes. Galvam, que houve todo pavor daquelo que Persival dizia aquelo por provar se descobriria sua maldade e sua deslealdade, disse logo: – Ai, dom Persival! vosso padre e vossos irmãos que eu amei de grande amor, que nom havia i tal por que eu nom metesse o corpo nem aventuira de morte por salvar sua [vida]? E ja mais i nom pensedes! E por me crerdes muito melhor quero volo jurar sobelos Sanctos Evangelos; e nom há no mundo tam boo cavaleiro que mo retasse a que me eu mu~i bem nom defendesse, porque bem sei que per mim nunca tal cousa passou. Título Fólio 23988b [Como o cavaleiro das armas brancas desfiou Persival.] Quando Persival esto ouvio, disse: – Certamente, dom Galvam, vós assaz havees d[i]to e di guisa o dixestes que sempre vos Título Fólio 23988c crerei. Por Deus, perdoademe, porque atá [a]qui vos tivi pior coraçam ca devia. E Galvam lhe perdoou. Assi falando, esteveram gram peça sobre a fonte. E, depois que viram que passava d’horas de noa, filharam suas armas e subiram sobre seus cavalos e entraram em seu caminho. Disse Galvam a Persival: – Amigo, sabedes vós preto daqui onde fôssemos albergar? – Nom, disse Persival, mas nom vos apressedes, que Deus dará i conselho. E eles indo assi falando cataram pós si e viram vi~ir um cavaleiro armado de todas armas brancas. – Semelhame, disse Galvam, que aquel é Lançalot que taes armas traz como quando foi cavaleiro; e chamavamno por em todos “o Cavaleiro Branco”. E ante que el esto todo perdissesse, acalçou os cavaleiros. E eles o salvaram e el a eles. – Senhores, disse el, donde sodes? E eles disseram que eram cavaleiros de casa delrei Artur e companheiros da Mesa Redonda. E [a] Persival disse o cavaleiro: – Saberm’edes dezer novas de [Persival]? – Que lhe quiríades? Disse Galvam. – Eu lho sabiria bem dezer, disse o cavaleiro, se o eu visse. E Persival respondeo entom: – Eu som aquel que vós demandades. Que me quiriades? – Vós sodes? Assi Deus vos ajude? disse o Título Fólio 23988d cavaleiro. – Certamente, disse Persival, nunca doutro Persival falar oie. – No nome de Deus, disse o cavaleiro, muito me praz porque vos achei tam cedo, ca de gram trabalho som quiti, ca ja mais nom quedara d’andar tá que vos achasse. Ora vos guardade de mim, ca ja mais nom serei ledo ataa que vos faça peleja. – Como? disse Persival, por vos combaterdes com migo vinhades depós mim? – Si, disse o cavaleiro. – E que querela [há] antre mim e vós, disse Persival, por que a batalha se há-de fazer? Ca eu nom me queria combater com vosco nem com outrem sem rezam; e, se vos eu tanto errasse que me quiséssedes mal mortal, eu vo-lo corrigiria ante, como dom Galvam mandasse. E o outro respondeu: – Nom vos aproveita. Vós nom vos podedes de mim partir sem batalha. Ora vos guardade de mim, se quiserdes. – Si farei, disse Persival, pois que vejo que a fazer me convém. Título Fólio 24088d [Como o cavaleiro derribou Persival e Galvam e se queria já partir.] Depós esto, sem mais tardar, leixou-se correr u~u~ao outro e feriram-se tam rijo que foram ambos mal treitos. Mas Persival foi em terra e foi mal britado daquela queda, ca o cavalo caiu sobre ele e o cavaleiro passou per cima dele que o nom catou. Quando Galvam vio este golpe, pesou-lhe muito e nom soube que i fezesse ca, se o quisesse vingar, nom cuidava que podesse, ca sabia que persival era Título Fólio 24089a melhor cavaleiro ca ele. Pero disse que todavia se meteria nelo a aventuira ca lho tinriam por gram covardice se nom fezesse i seu poder. Entom disse ao cavaleiro: – Guardade-vos de mim! E o cavaleiro volveu a ele e feri-o asi que lhe falsou o escudo e a loriga e lhe meteo o ferro da lança pelo costado sestro mas nom foi a chaga mortal, e deitou[-o] em terra e, ao cair, quebrou-lhe a lança. E depois que fez esse golpe tornou-se a Persival que se já irguia com gram pesar do que lhe aveera. Foi contra o cavaleiro e meteo mão aa espada e disse-lhe: – Senhor cavaleiro, eu vos chamo aa batalha ca, posto que me derrubastes, nom me vencestes. Polo qual vos convém que vos combatades atés que me vençades ou eu a vós. E el respondeo entam: – Nom me combaterei, que me nom praz. Entendo que muito hei feito, pois dirrubeivos e dom Galvam. – Como? disse Persival, assi vos cuidaes vós a ir e ganhardes [prez] por nada? – Assi, disse o cavaleiro, se me quiser, ca nós, que somos estrangeiros e que nom ganhámos ainda a honra da Mesa Redonda, havemos u~a avantagem sobre vós que vós nom havedes sobre nós ca nós vos podemos chamar a batalhas e a justas a nosso prazer, e vos nom podedes esto fazer que volo nom tenham por gram maldade. Mas, se vós nos i chamades, nós nos podemos bem sem culpa escusar se nom formos chamados Título Fólio 24089b por aleive ou por [trei]çam. Dixevos em verdade. – Certamente, disse Persival, mas pois que vos eu provei aas justas e vós houvestes a melhor ventuira, se vos depois chamo aa batalha e a vós nom queredes aceitar, fazêlo por covardice. – Dizede o que quiserdes, disse el, ca, por muito que digaes nom me combaterei com vosco. – E eu vos dou por quiti, disse Persival. Mas bem sabede que a desonra é mais vossa ca minha. – Nom vos dee, disse o cavaleiro: a honra e a desonra minha seja. Título Fólio 24189b [Como Galvam se combateu com o cavaleiro.] Enesto falando sobio dom Galvam, assi ferido como era, em cima de seu cavalo. E, quando vio que o cavaleiro se quiria já partir sem mais fazer, houve mu~i gram sanha e disse: – Como? dom mau cavaleiro, assi vos cuidaes vós a ir? Eu vos chamo a batalha. Se vos quiserdes defender, defendêvos, ca eu farei todo meu dever e poder de vos matar. – Dom Galvam, disse o cavaleiro, nom sejades tam sanhudo. E certamente, se esso for, eu me cuido bem a defender. – Pois defendedevos, disse Galvam, ca muito vos faz mester. E meteo mão aa espada. – Como? disse o cavaleiro, queredes que me combata com vosco? – Vindivos, disse dom Galvam. Entom disse Persival: – Dom Galvam, nom será. Pois que se o cavaleiro Título Fólio 24189c nom quer combater, leixaeo ir, que nom podedes i al fazer per custume da Mesa Redonda. – Maldito seja tal custume, disse Galvam, e quem no ora mantevesse; se vós nom fossedes ante mim, vingarm’ia deste mau cavaleiro. E o cavaleiro respondeo entam com sanha: – Como? dom Galvam, te~endes [me] vós por tam mau que me tam asinha cuidades a vencer? – Si, disse dom Galvam, que por maldade e covardice vos nom ousades a combater com dom Persival nem com migo. – Ora veredes, disse o cavaleiro, a minha covardice. E meteu logo mão aa espada e dei~lhe u~u~ tam grande golpe per cima do elmo que lho fez pior do que ante era. E Galvam o ferio de tam grandes golpes per u acalçava que nom havia homem que o visse que nom dissesse que sabia bem ferir d[e] espada, mas confiando muito, que andava chagado. Mas empero quem no entom visse dar golpes e receber nom lhe semelharia covardo nem preguiçoso. Mas do cavaleiro vos posso eu bem dezer que era mais vivo e mais ligeiro que dom Galvam; mas Galvam era mais arriscado e sabiase melhor cubrir. E já peça havia que deceram Título Fólio 24189d dos cavalos polos nom matarem e combateramse a pee. E quando o preito foi assi que foram tam cansados que houveram a leixar a batalha por folgarem, e que se afastaram afora um do outro, Persival, que pavor havia grande de Galvam porque lhe semelhava que se matariam melhor, disse: – Senhor cavaleiro, eu nom sei quanto vós sodes, mas tanto vos vejo bem manteer contra tam bõõ cavaleiro como dom Galvam que, assi Deus me ajude, eu vos prezo muito. E pola bondade que vos eu vejo, semelhame que siria gram dano de seerdes tolheito ou morto enesta batalha. E nesto nom podedes vós falecer se longamente a manteverdes ca, se vós matardes dom Galvam – o que nom pode seer tam ligeiramente ca, eu bem cuido que é melhor cavaleiro ca vós – entom convinria que vos combatêsseis com migo, que som tam folgado que me nom podiríades durar ne~hu~a cousa que vos logo nom matasse. Título Fólio 24289d [Como Galvam se partio da batalha e o cavaleiro outrossi.] Como? disse o cavaleiro. Se eu vencer ou matar dom Galvam com vosco me havirei de combater? – Certamente si, disse Persival. E dirvosei por que Título Fólio 24290a rezam. O custume da Mesa Redonda é tal que, se eu vejo meu companheiro vencer ou matar, convém que o vingue ante que me parta e que o mate per minha mão se ambos nom forem companheiros da Mesa Redonda. – Mau custume é esse, disse o cavaleiro. – Pois guarda[de]vos, disse Persival, ca, se vós esta batalha mantendes, nom vos podedes daqui partir sem gram dano. – Nam, disse el, leixoa, ca vós soes melhor cavaleiro de espada que nom eu. Entam disse a Galvam: – Dom Galvam, rogovos por vossa prol e por minha que vos dedes por quiti desta batalha. – Fareio, disse Galvam, se vos outorgardes por vencido. – De me eu outorgar por vencido, disse o cavaleiro, ne~hu~a honra vós i havedes ca bem sabedes que ainda me nom vencestes e que eu nom leixo esta batalha fora por amor de dom Persival. – Pola santa Curuz, disse Galvam, al vos farei eu dezer ante que nos partamos; já assi me nom escaparedes, ca eu nom som lá onde vós cuidaes. Entam se chegou Persival e disse Título Fólio 24290b a dom Galvam: – Amigo, leixade esta batalha pois volo o cavaleiro roga e eu vos rogo, pola fé que devees a vosso tio, elrei Artur. – Amigo, em guisa me rogastes que a deixarei, mas leixoa a minha desonra. Mas bem sabedes que, se culpa me poserem, que sobre vós a deitarei. Entom meteo sua espada na bainha e sobio em seu cavalo. E o outro cavaleiro er fez outrossi. E Persival lhe disse: – Rogovos que me digaes porque combatestes hoje. Em que vos errei por que me querês tam grande mal? – Eu volo direi, disse o cavaleiro. Título Fólio 24390b [Como o cavaleiro disse a Persival que havia nome o Cavaleiro Desconhocido.] “Eu som o menino de #XV anos por que vos rogou a dona que, em galardam de seu serviço, me fézéssedes cavaleiro. Mas vós nom quisestes fazer porque cuidáveis que era de linhagem de vilãos. Assi me delongastes de receber a ordem da cavalaria. Mas nom no fez assi dom Tristam, o melhor e mais cortês cavaleiro, que, tanto que o minha Título Fólio 24390c senhora rogou, assi me fez toda honra, e vós desonra. E por esto vos desamei atá aqui e desamaria se nom fosse porque vos acho por melhor cavaleiro ca eu cuidava; e por esto vos perdoo quanto me errastes.” – Nom hámais de #XII dias que me fez dom Tristam cavaleiro, dis[e] el. E Persival se maravilhou e depois disselhe: – Havedes boo começo, e Deus mande que a fim seja tam boa. Sabede que eu nom vos deixei de fazer cavaleiro por vosso mal mas por honra da cavalaria. Empero tanto me dezede, se vos prouguer, como havedes nome? – Eu hei nome, disse ele, “o Cavaleiro Desconhicido”. Assi me pôs nome Tristam quando me fez cavaleiro porque nom sabia meu nome. – E que havedes de fazer? disse Persival. – Certamente, disse o cavaleiro, eu me quero ir aa corte delrei Artur, se per ventura me filhará, que um homem sisudo me disse que ali sabiria meu nome e minha linhagem. Pero bem vos digo que, quando me parti de casa de minha senhora, que nom saí Título Fólio 24390d se nam por vos matar porque me nom quisestes fazer cavaleiro. Mas tanto bem vi ora e tanto vos ouvi louvar de cavalaria que vos nom quero mal, antes vos ajudaria a todo meu poder onde visse que vos fazia mester. E pero lho aguardeceo muito. – Ora me dezede, [disse] Persival, sabedes onde hoje poderíamos albergar? – Certamente, disse el, nom. – Pois que faredes vós? Dom Galvam disse: – Ca ainda hoje vós irês [a] algu~u~ albergue? – Certamente, disse o cavaleiro, nom no farei. Ja mais nom entrarei em vila se per ventuira nom for ou o cavalo me nom desfaleça, taa que chegue a casa delrei Artur, ca ali hei de seer certão da rem do mundo que mais desejo a saber; e esto é de meu nome e de minha linhagem. – Par Deus! disse Persival, muito hádaqui alá, ca bem há i seis dias. E Deus vos i leve a salvo vosso. – Amen, disse o cavaleiro. Título Fólio 24490d [Como Galvam e Persival acharom Claudim e lhes pediu justa e como Galvam o conheceu.] Assi se partiram e o cavaleiro se foi a u~a parte e Galvam e Persival per outra. Aquela noite jouveram em u~a foresta, mal albergados, que nom houveram que comer nem que Título Fólio 24491a bever, e chovêles toda a noite e fez mau tempo em toda guisa, que a seçam do inverno chegavase. – Outro dia, quando viram a luz, foram mui ledos ca bem cuidavam que toda via mais se achariam de boas aventuras de dia ca de noite. Entom entraram em seu caminho assi como ante. Aa hora de meo dia chegaram a u~a torre mui fremosa que estava antre u~as águas. E entraram dentro por folgarem algu~u~ pouco e foram recibudos mu~i bem e muito honradamente tanto que souberam quem eram. E, quando se partiram dali, entraram no gram caminho por mais asinha acharem aventuras. E nom andaram muito que acharam Claudim, filho delrei Claudas, o rei da Deserta. Aquele Claudim era boo cavaleiro aa maravilha e ardido e de mui boo doairo e partirase entom novamente do reino de Gaunes e fora a Gram Bretanha porque ouvira dezer que a gram demanda do Santo Graal era começada e quiria i entrar Título Fólio 24491b como outros cavaleiros da Mesa Redonda. E sabede que havia já feito muito d’armas depois que entrara na Gram Bretanha e acabara muitas e fremosas aventuras onde o conto nom fala por[que] nom era da Mesa Redonda. Quando Galvam o vio vi~ir, disse a Persival: – Ai, dom Persival! veedes aqui as armas du~u~ dos boos cavaleiros que eu nunca vi. E, se este é aquel cavaleiro a que as eu vi primeirarnente, bem vos digo que este é u~u~ dos cavaleiros do mundo a que eu vi mais trabalho sofrer em armas e mais de coitas e marteiros em batalhas mortaes. – E como há nome? disse Persival. – Nós o chamamos, disse Galvam, Claudim, e é filho delrei Claudas da Deserta. Enquanto eles iam assi falando de Claudim, Claudim se parou em meo do caminho e começou[o]s de chamar se quiriam justar. E Persival, que nunca falecera nem receava aventuira nenhu~a, pôs o escudo sobre a cabeça do peito e baixou a lança. E Galvam lhe disse: – Ai, Senhor! Por mercee, deixae a justa ca vos nom conhece o cavaleiro. – E Persival nom respondeu cousa algu~a, ante se leixou ir a Claudim e deulhe um tal golpe que o meteo em terra do cavalo, mas outro mal nom lhe fez Título Fólio 24491c que era boa a loriga. – Quando Claudim se vio em terra, ergueose asinha e com mu~i gram sanha e meteo mão aa espada e disse a Persival, que já passara per ele: – Cavaleiro, d’hoje mais vos guardêvos de mim ca, pois me dirrubastes de lança, se vos eu o galardom nom der aa espada, ja mais nom quero que me tenho[m] por cavaleiro. Quando Galvam esto ouvio, esmou logo que aquel era Claudim e chegouse a el um pouco e disselhe: – Amigo, assi Deus vos salve, dizeeme quem soes. – E porque volo direi? disse el. Eu som de tam longa terra e tam pouco há que vim aqui e som de tam pequena nomeada que bem sei que nunca de mim ouvistes falar e que nom conhicíades pero se vos meu nome dissesse. – Todavia, disse Galvam, vos rogo que mo digaes, vosso nome, que bem sabede que ne~hu~u~ mal vos nom vinrá. Entom disse el: – Direivolo. Sabede que hei nome Claudim e som natural do reino de Gaunes, e já outra vez fui mais rico e mais poderoso do que ora som. Quando Galvam esto ouviu, desceu correndo do cavalo e pôs o escudo e a lança em terra e foio correndo abraçar e disse. – Dom Claudim, vós sejades bem vindo. Assi Deus me ajude, vós sodes u~u~ dos cavaleiros estranhos do mundo que eu mais prezo de cavalaria. E esto vinha eu agora antes falando com dom Persival tanto que vi vossas armas. – Título Fólio 24491d Senhor, disse Claudim, quem sodes vós, que tanta honra me fazedes? – Eu som, disse el, Galvam, o sobrinho del-rei Artur. Algu~a vez me vistes em Gaunes, u vos eu tam bem vi fazer em armas em muitos logares, que nembrei de vós tanto que vi vossas armas. Quando Claudim viu que aquel era Galvam, ficou os giolhos em terra e disse-lhe: – Por Deus, senhor, perdoade-me porque chamei vosso companheiro aa batalha, ca sabede que sol nom cataria se por bem nom tanto que soubesse que de casa del-rei Artur era. Entom se foi a dom Persival e ficou os giolhos ante ele e deitou-lhe sua espada e disse-lhe: – Senhor, eu me tenho por vencido e meto-me em vossa prisam por enmenda de folia que comiti contra vós. E Persival o ergueo e perdoou-lhe todo. Dês i foram a seus cavalos e sobiram. Título Fólio 24591d [Como Claudim lhes contou como Tristam o vencera e o enviara a casa de rei Artur.] – Dom Claudim, disse Galvam, ora me dezede qual aventura vos trouxe a esta terra. – Senhor, disse el, eu vi que era um cavaleiro pobre be[m] como outro que fora avondado e rico ante que meu pai fosse enxerdado. E, depós este Pinticoste, quando ouvi dezer que era [a] demanda do Santo Graal Título Fólio 24592a começada houve sabor de vi~ir acá e de entrar em companhia dos cavaleiros da Mesa Redonda. E assi o fiz, ca eu vim cá o mais toste que pude e trabalhei-me de buscar as aventuras. E veo-me bem em muitos logares mas ora me leixarei ora queira ora nom. E dirê-vos como. Esta domaa me aveo que andava por u~a foresta buscando aventuras como cavaleiro andante deve fazer. Entom me acalçou, aa hora de terça, um cavaleiro que andava soo como eu. E pois cavalgámos u~u~ pouco, dês i perguntou-me que andava buscando. Eu lhe disse que buscava aquelo que os da Mesa redonda buscavam. – Como? disse el, sodes vós companheiro da Mesa Redonda? – Nom, dixe eu, “que nunca for a em casa del-rei Artur”. – Como? disse el, vós nom fostes de casa del-rei Artur nem sodes da Mesa Redonda e dezedes que sodes companheiro da demanda do Santo Graal? Vós sodes o mais afouto cavaleiro que eu nunca achei que vos tremedes de tam alta demanda. Ora vos guardade que ja mais ante cavaleiro rem nom faledes, taa que sejades companheiro da Mesa Redonda, ca vos terrám por sandeu. Eu lhe respondi entom: – Bem som pera tam alta demanda Título Fólio 24592b ca som melhor cavaleiro que algu~u~s da Mesa Redonda que se i meteram. E el me disse entom: – Ora, pela ventura, se vós sodes melhor cavaleiro que algu~u~s da Mesa Redonda, assi Deus me ajude, eu verei que cavaleiro vós sodes. Assi me começou a peleja, mas tam toste foi acabada ca el era sem du´vida o melhor cavaleiro e o melhor firidor d’espada que eu nunca achei, fora Lancelot do Lago. E pois me venceu fezme prometer que ja mais esta demanda nom mantevesse ta que Deus e a ventuira me desse a honra d’algu~a das sedas da Mesa Redonda. E pois que eu esto promiti el me mandou que me fosse aa corte e que morasse i tanto que prou[ves]se a elrei Artur de me receber por seu cavaleiro. E eu lhe perguntei: – Senhor, depois que eu for i, quem direi que som e quem me enviou alá? – Dezede a elrei Artur que Tristam, o sobrinho delrei Mars, vos lhe envia. Assi me parti de dom Tristam com gram pesar porque o achei, ca nunca achei cavaleiro, fora el, que me vencesse. E por Título Fólio 24592c esto hei gram pesar que nunca me tanto mal veo. – Pois, disse Galvam, por esto que me dezedes vos ides aa corte delrei Artur? – Senhor, disse el, si; ja mais nom serei ledo taa que ch[e]gue. – Ora vos rogo, disse Galvam, que me saudês rei Artur e a rainha Genevra e dizêlhe que me achastes com dom Persival e somos sãos e ledos mas nom achámos ainda rem do que buscamos. E el disse que aquela messagem faria el bem. Entom se partiram e Claudim. se foi a u~a parte e Persival e Galvam a outra. Título Fólio 24692c . [Como Galvam se partiu de Persival.] Aquel dia cavalgaram e tees a noite chegaram a u~u~ castelo que era de u~a mu~i fremosa dona, parenta de Persival. E tanto que os do castelo viram armados logo conheceram que eram cavaleiros andantes que andavam demandando ventuiras e receberamnos mu~i bem. Mas quando a donzela viu Persival e o conheceu foi tam leda que nom sei que vos direi. Assi foram albergados e viçosos como se fosse em casa delrei Artur. E outro dia espidiramse da donzela e cavalgaram e andaram tanto que chegaram, aa hora de meo dia, a u~a cruz unde se partiam duas carreiras. Título Fólio 24692d E Persival esteve e disse a Galvam: – Amigo , aqui nos devemos a partir, ca esta curuz nolo mostra. – Par Deus, disse Galvam, pesame. Mais quisera vossa companhia ca me partir de vós. Entom se abraçaram e se espidiram. Filhou cada um sua carreira: Galvam se foi a u~a parte, mui ledo por se partir de Persival ca havia mu~i gram pavor de o matar pola morte de seu padre e de seus irmãos; e Persival se foi doutra parte e andou tanto per suas jornadas, sem aventuira achar, que chegou ao mar. Título Fólio 24792d [Como Persival achou u~a donzela mui fremosa que dormia.] Quando Persival chegou ao mar catou sobre si e viu u~u~ tentilhom tendudo, mu~i fremoso e mu~i rico. E foi contra alá, ca bem cuidou i achar alguém, e deceo aa entrada, ca se nom visse o que dentro havia nom se prezaria rem. E depois atou seu cavalo a u~a árvor e acostou a ela seu escudo e sua lança e entrou dentro. E vio estar em u~u~ leito, o mais fremoso e mais rico que nunca vio, u~a donzela que dormia; e era tam fremosa que lhe semelhou mais fremosa que a rainha Genevra e ca rainha Iseu e ca a fremosa filha delrei Peles, ca lhe semelhou que depois que o mundo foi feito nom foi molher tam fermosa nem na Título Fólio 24793a vira, empero rem se foi aquela virgem que foi virgem e madre e rainha das rainhas. E depois se catou gram peça pola maravilha que houve de sua beldade, afastouse u~u~ pouco afora, assi todo espantado, ca bem semelhou a ele que se todas as beldades que foram em molheres pecadores fossem assuadas em u~a, nom seria tam fremosa como esta era. E a donzela abriu os olhos e, quando o viu ante si, ergueose como espantada e disse: – Ai, Senhor! Quem sodes que aqui assi entrastes armado? – Donzela, disse el, eu som u~u~ cavaleiro andante e a ventuira me trouxe aqui. Nom hajades pavor de mim pero hei sabor de vos olhar assi ca, se vos eu olho, nom é maravilha ca, assi Deus ajude, vós sodes a mais fremosa cousa que eu nunca vi. E a donzela lhe disse: – Nunca eu vi cavaleiro andante. – Nom? Disse el, pois donde sodes? – Eu som, disse ela, de u~a terra mu~i longe daqui e muito estranha, mas a ventuira e maa andança me trouxe aqui agora que a adur o podiríades cuidar. E ainda pior me aveo depois que aqui vim ca dantes. – Si Deus me ajude, disse el, pesame muito. E, se vos prouguer de me dizerdes vossa fazenda, eu vos i porrei todo conselho que poder. – Assi? Disse Título Fólio 24793b ela, eu volo direi por provar se sodes tam cortês como me vos mostrastes. Ora seede a cabo de mim e contarvosei minha maa andança e meu pesar. E el fez assi como ela mandou. Título Fólio 24893b [Como a donzela contou sua fazenda a Persival.] – Senhor cavaleiro, eu som natural d’Atenas, u~a cidade de Grécia, e som filha de rei e d[e] rainha. E pola beldade que o emperador de Roma ouviu dezer que havia em mim, enviou dezer a meu padre que me lhe enviasse e que me filharia por molher. E meu padre, que se tinria por bem aventurado, fez guisar u~a nave e metême dentro com gram companha de cavaleiros e de donas e de donzelas. E, depois que fomos no mar, crecênos tam mau tempo e tam gram tormenta que nos durou #XV dias, assi que nom houve i tam esforçado que nom houvesse maior esperança de morte ca de vida. E depois passou o mau tempo e aportámos e achámonos na Gram Bretanha. Pesounos entom mu~i muito e fomos muito tristes e fizemos armar este tendilham assi como vedes por folgarmos da tormenta que houvemos no mar. Outro dia, pola manhãã, aveo que a nossa companhia entrou em um batel da nave por andarem folgando e trebelhando per esse mar. E, tanto que i entraram, Título Fólio 24893c sobreveeo um vento tam forte que os alagou assi que os vi todos morrer ante mim. Enesta guisa, senhor, me veo minha maa andança, que perdi quanto me meu padre dera e toda minha companha e fiquei pobre e soo e desconselhada que nom hei nada fora esto que vós veedes. E por em vos rogo que me conselhedes assi como me pormetestes, que nunca vistes donzela de tam gram guisa atam desemparada. Título Fólio 24993c [Como Persival demandava de amores a donzela e veo de contra o ceeu u~u~ gram sõõ.] Persival catou a donzela que lhe semelhou tam fremosa que nunca viu donzela que sua beldade chegasse aa beldade que em ela vio. Estonce começoulhe a demudar o coraçam feramente que todo seu custume passou, ca seu custume era atal que nunca ja mais catava donzela por causa de amor nem com vontade de sua carne, mas ora era assi coitado de amor que nom desejava rem do mundo tanto que vio esta donzela; semelhavalhe que fora em boo dia nado se podesse seu amor haver. E ela lhe disse: – Senhor, que conselho me dades vós sobre aquelo que vos disse? E el respondeo assi como lh’o demo ensinava a comprir seu desejo e prazer: – Donzela, nom sei que vos diga, mas se quiserdes fazer Título Fólio 24993d o que vos eu direi eu vos conselharei em guisa que vós vos tenhades por muito bem pagada. – Senhor, disse ela, nom há cousa no mundo que por vós nom faça, salvante minha honra. E el nom respondeu a aquelo, mas demandavaa d’amores e disse que se quisesse seer sua amiga, que a filharia por molher e que a faria seer rainha de terra mu~i rica e boa. E ela disse que o nom faria. Empero tanto aprefiou com ela que lhe veo a outorgar todo o que mandasse, com tanto que fezesse o que lhe prometera. E el estando enesto falando, aquevos vem de contra o céu um tam gram sõõ como se fosse firida de torvam e fez u~a tam gram volta como se movesse a terra, assi que Persival tremeu todo com pavor. E ergueose espantado e ouvio u~a voz que dizia: – Ai, Persival! como aqui há tam mau conselho! Deixas toda lidice por toda tristeza, donde te vinrá todo pesar e toda maa ventuira. E semelhoulhe que aquela voz fora tam grande que deviria seer ouvida per todo o mundo. E caiu esmoricido em terra e jouve assi um gram pedaço. E depois que acordou e catou arredor de si e vio a donzela rir, porque o vira Título Fólio 24994a que houvera medo, e, quando a viu [r]iir, maravilhouse e logo entendeu que era demo que lhe aparecera em semelhança de donzela polo enganar e o meter em pecado mortal. Entom ergueu a mão e sinouse e disse: – Ai, padre Jesu Cristo verdadeiro! Nom me leixes enganar nem entrar na perdurávil morte. E se este é demo que me quer tolher de teu serviço e partir de ta companhia, mostramio. Título Fólio 25094a [Como a donzela se tornou em forma de demo e como u~a voz disse a Persival que entrasse na nave.] Tanto que el esto disse, vio que a donzela se tornou em forma de demo tam feo e atam espantoso que nom há no mundo homem tam ardido que o visse que nom houvesse a haver gram medo. Unde aveo a Persival que houve tam gram medo que nom soube que fezesse fora que disse: – Ai, Jesu Cristo, padre verdadeiro, Senhor, sei comigo! Entom viu o tendilhom e quanto i havia voar pelo aar e depós ele u~a escoridõe, como s’i todolos [diaboos] do Inferno fossem. E foi tam espantado desto que viu que se nom soube conselho haver. E catou derredor de si e nom viu al senom sas armas e seu cavalo, assi se como todo o de ante fosse sonho. El estando maravilhandose viu vi~ir pelo mar contra si u~a nave tam rígia como mais podia viir nave quando boo tempo houvesse aderençado e tam toste come se cem galées corressem pós ela. E Título Fólio 25094b quando chegou preto vio que era mui fremosa e que andava cuberta de u~u~ eixamete branco e nom na uviou muito a catar que aportou ante ele. E maravilhouse como podia vi~ir, ca nom viinha i marinheiro nem al que a podesse guiar, mais de todo al andava tam bem guisada que maravilha. E el em esto pensando oiu u~a voz que lhe disse: – Persival, tu venciste. Entra enesta nave e vaite u te ela levar e nom te espantes de rem que vejas e Deus te guiará u quer que vaas; e de tanto ti aveirá bem que acharás todos os companheiros do mundo que mais amas: Boorz e Galaaz. Quando el esto oiu houve tam gram ledice que nom poderia maior. E gradeceo muito a Nostro Senhor e filhou suas armas e entrou na nave e leixou o cavalo na riba. E o vento deu na vea assi que o fez tam toste partir da riba que em pouca dura perdeu a vista da terra. Mais ora leixa o conto a falar dele e torna a Boorz de Gaunes. Título Fólio 25194b [Como Boorz e Persival se acharom na nave.] Quando Booiz se partio da abadia u~a voz lhe dissera que fosse ao mar ca Persival o atendia i, el se partio ende, assi como o conto o há já devisado. E, quando chegou aa riba do mar a fremosa nave coberta de u~u~eixamete branco, deceo Título Fólio 25194c e encomendouse a Nostro Senhor e entrou dentro e leixou seu cavalo fora. E, tanto que entrou dentro, vio que a nave se partiu tam toste da riba como se voasse. E catou pela nave e nom viu rem que a noite era muito escura; e acostouse ao boordo e rogou a Nostro Senhor que o guiasse a tal lugar u sua alma podesse salvar. E, pois fez sa oraçom, deitouse a dormir. E manhãã, quando se espertou, viu na nave u~u~ cavaleiro armado de loriga e de brafoneiras. E pois o catou conhecêo e tolheu logo seu elmo e foio abraçar e fazer com ele maravilhosa ledice. E Persival foi maravilhado quando o vio vi~ir contra si, ca nom podia entender quando entrara na nave. E pero, quando o conheceo, foi tam ledo que nom poderia chus. E ergueose e abraçouo e recebêo como devia. E começou o u~u~ ao outro a contar de sas aventuras que lhes aveerom dês que entraram na demanda. Assi se acharom os amigos na barca que Deus los guisara, e atendiam i quaes aventuras lhes el quisesse enviar. E Persival disse que lhe nom faleciria de sa promessa, fora Galaaz. Mais ora leixa o conto a dar deles e torna a Galaaz ca muito há gram peça que se calou dele. Título Fólio 25294c [Como Galaaz andou gram peça pelo regno de Logres e como se tornou contra o mar.] Conta a estória que Título Fólio 25294d pois que o boo cavaleiro se partiu de Persival e que o leixara dos #XX cavaleiros que o perseguiram pola donzela, entrou no gram caminho da froesta e andou pois muitas jornadas, aas vezes acá, aas vezes alá, assim como aventura o levava. E pois andou gram peça pelo reino de Logres em muitos logares u lhe diziam que haviam aventuras d’acabar, tornouse contra o mar assi como sa vontade lhe deu. Título Fólio 25394d [Como Galaaz fazia gram maravilha no torneo.] U~u~ dia lhe aveo que a ventura o levou per ante u~u~ castelo u havia u~u~ torneo forte e maravilhoso. E havia i gram gente da u~a parte e da outra. E dos da Mesa Redonda havia i muitos, u~u~s que ajudavam os de dentro e outros os de fora; e nom se conheciam polas armas que haviam cambadas. Mais aquela hora que veo i Galaaz eram os de dentro tam desbaratados que nom atendiam s’a morte nom. E Tristam, que a ventura adussera a aquel torneo e que ajudava os de dentro, sofrera já i tanto que tiinha já mui grandes #IIII chagas. Ca todolos de fora estavam sobre ele polo prenderem porque viram que era melhor cavaleiro que ne~hu~u~ dos outros. E nom havia i tal dos outros que lhe tanto mal fezessem como Galvom e Estor que erom da outra Título Fólio 25395a parte e nom no conheciam. E pero el se defendia tam vivamente que todos os que o viiam eram maravilhados. Galaaz estava já muito preto da porta e viu ante si u~u~ cavaleiro mal chagado que saíra do torneo e ia fazendo tam gram doo que nom vistes maior. E Galaaz se chegou a ele e preguntouo porque fazia tam gram doo. – Porquê? disse el: polo milhor cavaleiro do mundo que vejo morrer per gram maa ventura. Ca todo o mundo é contra el, assi como veedes, e ainda nom quer leixar o torneo. – E qual é? disse Galaaz. E el lho mostrou. – Par Deus, disse Galaaz, verdadeiramente el é mui boo cavaleiro, Assi Deus vos salve, dizedeme como há nome. – Senhor, disse el, há nome dom Trístam. – No nome de Deus, disse Galaaz, eu o conosco mui bem. Ora me terriam por mau se o nom fosse ajudar. Entom se leixou correr a eles e meteo Gilflet em terra. Dês i, Estor; dês i, Sagramor; dês i, Lucam. E, depois que lhe quebrou a lança, meteo mão aa espada, como aquel que se sabia bem dela ajudar. E meteose u era a maior pressa e começou a derribar cavaleiros e cavalos e fazer tam gram maravilha d’armas que quantos o viam Título Fólio 25395b se maravilhavam em. E Galvam disse a Estor e aos outros seus companheiros que já cavalgarom: – Por esta cabeça, este é Galaaz, o boo cavaleiro. Ora seerá fol quem no mais tender, ca a seu golpe nom pode durar arma. E el isto dizendo aveo que chegou Galaaz a ele, assim como aventura o fazia. E deulhe u~a cuitalada que lhe talhou o elmo e o almofre e o coiro e a carne até o testo; mais aveolhe bem que nom foi a chaga mortal. E Galvom, que bem cuidou a seer morto, leixouse cair em terra. E Galaaz, que nom pôde teer seu golpe, acalçou o cavalo pelo arçom deante assim que o talhou per meo das espáduas e o cavalo caio morto a cabo seu senhor. Título Fólio 25495b [Como Galaaz se partiu do torneo e como os do castelo forom depós el.] Quando Estor vio este golpe maravilhouse e afastouse afora, ca bem entendeu que seria malsem e folia de mais atender. E Sagramor disse entom: – Per boa fé, ora posso bem dizer que este é o melhor cavaleiro que eu nunca vi. Nunca me creades de rem se este nom é Galaaz, o mui boo cavaleiro, aquel que háde dar cima aas aventuras do regno de Logres. – Sem falha, esse é, disse Estor E eles em esto falando viu que os de fora começaram a fugir. E os do castelo iam empós eles, prendendo em eles a seu plazer. E quando Galaaz viu que os de fora Título Fólio 25495c eram já assi desbaratados que nom podiam já recobrar, partiose ende tam escundudamente que nengu~u~ nom no entendeu, fora Tristam. Aquel verdadeiramente o seguio de longe, que aquel dia viu em el tam gram bondade de cavalaria que disse que ja mais nom seria ledo taa que nom soubesse quem era. Assi se foram ambos tam escondidamente que os da assu~ada nom poderam saber que fora deles. E Galvam, que foi tam coitado do golpe que nom cuidou a escapar vivo, disse a Estor: – Par Deus, dom Estor, ora vejo eu que é verdade o que me disse Lançalot ante vós todos, em dia de Pinticoste: que, se provasse de tirar a espada do padrom, que me acharia eu mal ante que o ano passasse e que seria per aquela espada meesma. E, sem falha, esta é aquela espada com que me ele ferio. E esto vejo que assi me aveo como me foi adevi~ado. – E sodes mal ferido? disse Estor. – Nom som tam mal ferido, disse el, que nom possa guarecer. Mais o pavor me fez peor que al. – Mais que podemos fazer? disse el. – Semelhame que já ficaremos, disse Estor. – Nom ficaredes vós, disse el, mais eu ficarei taa que seja guarido. E eles em esto falando chegaromse os do castelo a eles. E, quando souberom que era Galvam, muitos houve i a que pesou. E filharomno e levaromno ao castelo e desarmaromno e meteromno em u~a câmara escura e longe de gente e fezeromlhe catar sua chaga a u~u~ mu~i boo meestre que mu~i bem sabia de tal meestria, que os Título Fólio 25495d fez seguros e que o daria são a pouco tempo. Assi ficou Galvam no castelo e Estor que o nom quis leixar ataa que saasse. Os outros se foram e, quando se partiram do castelo, começaram a falar de Galaaz e disserom: – Que faremos? Aquel bõõ cavaleiro nom é longe: vaamos empós el ataa que o achemos. E, se Deus quer que o achemos, tenhamoslhe companhia mentre podermos. Ca, sem falha, maravilhas haveremos del. A esto i se acordaram e, per u iam, iam demandando por Galaaz. Mais, porque o nam acharam esta vez, se cala ora ende o conto e torna a Galvom. Título Fólio 25595d [Como Galvam se partiu do castelo.] Enesta parte diz o conto que, pois Galvam se partio do castelo u jouve doente da chaga que lhe fez Galaaz, que andou gram tempo sem aventura achar que de contar seja. Cada u que ia preguntava por novas de Galaaz e de Persival e de Boorz; e ouvia[a]s ameu´de mais nom nos podia achar. Título Fólio 25695d [Como Galvam achou u~u~ cavaleiro mal chagado que lhe pediu ajuda.] U~u~ serão lhe aveo que chegou a el u~u~ cavaleiro armado e viinha em seu cavalo o mais toste que podia. E, quando chegou a Galvam, disselhe: – Ai, senhor cavaleiro! Se nunca em vós houve cortesia ou bondade algu~a, acorredeme e denfededeme de u~u~ cavaleiro que vem empós mim e que me quer matar a torto. O lu~ar fazia mu~i boo, assi que bem poderia veer longe quem estava em u~u~ mu~i Título Fólio 25696a gram chão. Galvam catou o cavaleiro e vio tam sangoento e atam mal chagado que se lhe filhou em piedade. Por em lhe prometeo sua ajuda e que o defendiria a seu poder. E eles em esto falando cataram ante si longe e viram vi~ir, quanto u~a deitadura de beesta, u~u~ cavaleiro sobre u~u~ cavalo blanco, e tragia sa espada na mão. – Senhor, disse o cavaleiro, vedes o cavaleiro que vos eu digo. Se me nom ajudades, morto som. – Nom hajades pavor, disse Galvom. E leixouse logo correr ao cavaleiro que viinha d’espada e britoulhe a lança no peito, mais de sela nom no moveo. E o cavaleiro, que era de gram força, ferilhe o cavalo diante, per a par do arçom, assi que o talhou per meo das espáduas. E caíram ambos, o cavalo a u~a parte e Galvam aa outra. Mais el se ergeu mu~i toste, como aquel que era mu~i vivo e mu~i ligeiro, e tirou a espada. O cavaleiro tornou a ele e pregunto[u]o: – Dom cavaleiro, queredes vós defender este cavaleiro desleal contra mim? – Nom sei, disse Galvom, se é ele leal ou desleal, mais eu o defendirei a todo meu poder, pois comigo ficou em esperança de minha ajuda. – Pois ora somos na batalha, disse ele. Mais por me nom teerem por mal de me combater com vosco, vós a pee e eu a cavalo, decerei. Entom deceu e liou seu cavalo a u~a árvor e, quando o cavaleiro que ante fugia viu o outro a pee, semelhoulhe que ligeiramente Título Fólio 25696b lhe poderia fazer mal, e ferio dos peitos do cavalo tam rigiamente que o deitou travesso em terra. – Ai, cavaleiro! disse Galvam, escarnido me havedes. Este cavaleiro era seguro de tod’home, pois se comigo combatia, fora de mim. E vós sobre esto o cometestes de cavalo. Certas, vós fezestes a maior maldade do mundo. E sabede que, se i mais fazedes, eu o leixarei e filharmeei com vosco. – Calade i, disse o cavaleiro, que é o que dizedes? Nom há rem per que o leixe de matar, pois que a melhoria hei, ca muito me errou, mais que vós nom poderíades cuidar. – Eu vos defendo, disse Galvom, que o nam tangades mais. E, se o nom quiserdes fazer, guardadevos de mim que vos desafio. – Per boa fé, disse el, se vos nom calardes matarvosei. E ele entom aguilhou e foio ferir e metêo em terra outra vez e passoulhe o cavalo per cima do corpo que o britou todo e ficou esmorido e cuidou a morrer tanto houve gram coita. Título Fólio 25796b [Como Galvam fazia seu doo sobre o outro cavaleiro.] Quando Galvam esto viu, disse: – Ai, Deus! Como me hámorto este cavaleiro que eu havia de defender, que matou este cavaleiro com que me eu combatia! Entom foi a seu cavalo por sobir em ele por seer mais seguro. E quando o cavaleiro esto vio houve pavor que, depois que fosse em seu cavalo, que o mataria. E, u Galvom queria poer o pee na estribeira, leixouse correr a ele e firio tam Título Fólio 25796c de rígio dos peitos do cavalo que o deitou travesso em meo do campo. E pois foi o cavalo tantas vezes per sobre ele que ficou mal treito. E pois esto fez tornou ao cavaleiro que ante fugira e deceu e talhoulhe o elmo e pois tirou a espada como aquel que havia gram sabor de lhe talhar a cabeça. E talharalha se nom fora Galvam que se ergera já assi mal como el podera, e foi alá com gram pesar do cavaleiro que lhe o cavalo matara que era em perigo de morrer. Galvam nom tragia espada, que ali lhe caíra, mais nom leixou por em de ir a ele e prendeu ambolos braços e esforçouse tanto que o tirou tam de rigido que o meteu sô si. – E filho[u]o ao punho em que tiinha a espada e sacoulha per força. E dês i talhoulhe com ela as correas do elmo e deitoulho a longe e deulhe grandes golpes com a maçãã da espada, assi que lhe fez as malhas do almofre entrar pela cabeça. E quando o cavaleiro se viu tam mal treito pedia mercee e disse: – Ai, bõõ cavaleiro, que me prendiste em guarda, se me matas seerá grande deslealdade. Por Deus, have mercee de mim e eu te prometo que farei em toda ta vontade. – Certas, disse Galvam, tu mericias bem de morrer morte desonrada que, assi Deus me conselhe, tu és o mais desleal cavaleiro que nunca vi. E tanta vejo de treiçom em ti que a poucas Título Fólio 25796d te nom mato. Mais, porque te detive e te recebi em guarda, leixote por em viver. E toma ta espada, ca eu cha dou come ao peor cavaleiro que eu no mundo sei. Entom se ergeo e foi ao outro cavaleiro e achouo tam mal treito que pero ele o chamou e nom lhe pôde falar, come aquel que era todo britado. E Galvam fez sobre ele seu doo e disse que este era gram damno sobejo. Título Fólio 25896d [Como Galvam soube que era Gaeriet, seu irmão.] Gram peça jou[v]e o cavaleiro esmorido assi que nom sabia Galvam se morreria. E talhoulhe o elmofre, que recebesse vento, e pois sentouse a cabo dele que, se podesse, de grado quiria saber quem era. A cabo de u~a gram peça deu u~a voz doorida e abriu os olhos e viu ante si Galvam que siia mui triste. E disse, assi como pôde: – Ai, bõõ cavaleiro, por Deus, se sabedes aqui algur ermitam ou clérigo de missa ideme por el, que muito hei gram pavor de morrer cedo. – Certas, disse Galvam, nom sei preto daqui irmida nem casa d’ordem. – Ai, Deus! disse el, que pode seer que nom haverei a minha fim direito da Santa Igreja. Ai, rei Artur! como haverás gram pesar desta morte quando o souberes! Quando Galvam esto ouviu houve maior pesar que ante ca logo pensou que era de casa de rei Artur, e disselhe chorando: – Senhor Título Fólio 25897a cavaleiro, por Deus, dizedeme donde sodes e como havedes nome. – Senhor, disse el, eu som da casa de rei Artur. E hei nome Gaariet e som irmãão de dom Galvam e hei outros três irmãos mu~i boos cavaleiros que haveram gram pesar de minha morte. Título Fólio 25997a [Como Galvam e Gaeriet souberom que o cavaleiro desleal era Morderet, seu irmão.] Quando o outro cavaleiro o ouvio, leixouse cair sobre el e disse: – Ai, irmão! Como aqui há muito estranhas novas! – E tanto houve gram pesar que esmoreceo. E Galvam o catou e conheceu que era Mordret e assinouse da maravilha que ende houve e disse com gram pesar: – Ai, mizquinho! Assi perderei ora meus dous irmãos? Entom começou a fazer u~u~ doo tam grande que era maravilha e talhou seu elmo e disse a Gaariet: – Ai, irmão, que perda hoje perco em vós! E Gaeriet conheceo na fala que aquel era Galvam, seu irmão, o homem do mundo que mais amava. E foi em tam ledo que lhe disse: – Nom hajades pavor, que atam gram prazer hei com vosco em meu coraçom que bem sei que mu~i cedo seerei guarido. – Ai, irmão, disse Galvam, sabedes quem é este depós que vínhades pera matálo? – Nom, disse el. – Pois sabede, disse Galvam, que é Mordret, nosso irmão. E bem nos aveo, que pouco lhe faleceu de seer morto Título Fólio 25997b que per vós que per mim. – Maldita seja a hora, disse Gaariet, que el nom foi morto, ca muito o mereceo bem. E sabede que eu som aquele que dês hoje mais nom no catarei por irmão pola deslealdade que lhe hoje vi fazer. – Qual quer que el seja, disse Galvam, nosso irmão é e convém nolo amar como quer que o os outros desamem. Esto que disse Gaariet entendeu mu~i bem Mordret; e, se nom fosse que dultava Galvam, matarao logo, como aquel que era u~u~ dos desleaes cavaleiros que entom no mundo houvesse. Gaeriet houve tam gram ledice com seu irmão Galvam que disse que nom sentia mal ne~hu~u~ que houvesse. Mais nom era assi, e pero a gram ledice que havia lhe fazia algu~u~ tanto esqueecer a coita das suas feridas. Título Fólio 26097b [Como Gaeriet disse a Galvam a deslealdade que fezera Morderet.] Toda a noite jouverom ali per falimento de cavalos, ca nom haviam afora o de Mordret, ca o de Gaariet fugira a u~a foresta que era preto dali. Aquela noite jouverom ali e nom comerom nem beverom ca nom teveram quê. E falaram de muitas cousas, tanto que preguntou Galvam a Gaariet u achara Mordret. – Eu o achei, disse el, ontem em esta froesta u arrestrava u~a donzela Título Fólio 26097c a coa de seu cavalo, que matara pouco havia. E nunca homem de nosso linhagem fez tam gram deslealdade e, pola gram bravura que lhe vi fazer, fui a el que o nam conhecia. E pero el se defendeo gram peça contra mim e leixou a donzela e durou a batalha muito e mais durara. Mas porque nom viu sa prol, fugiu. – Irmão, disse Galvam a Mordret, dês quando soes vós tam desleal e atam bravo que vos soiam a teer por tam boo cavaleiro e atam leal? – Senhor, disse el, nom creades a Gaeriet o que vos diz. Nom é esta a primeira vilania que el de mim disse. – Eu nom posso de vós dizer bem, disse Gaeriet, se nom quiser mentir, ca vós sodes tornado o mais desleal cavaleiro que hoje eu sei. Título Fólio 26197c [Como os três irmãos acharom Morgaim a Fadada.] Aquela noite trouxerom mal Mordret ambolos irmãos do que lhe viram fazer. O outro dia per a menhãã, quando o sol era já levado, aveo que passou per i Morgaim a Fadada com gram companha de donas e de donzelas e de cavaleiros e escudeiros. Quando ela viu os três irmãos a pee chagados preguntouos donde eram. E eles se lhes deram a conhecer. E quando ela soube que aquel era Galvam e seus irmãos houve tam gram ledice que nom poderia maior. E disselhes: – Título Fólio 26197d Amigos, sabedes quem som? – Nom, disserom eles. – Sabede, disse ela, que eu som Morgaim a Fadada, vossa tia, e som irmãã de rei Artur. Tanto que eles isto ouviram foram mu~i ledos e foromna abraçar, que muito havia que a nom viram. E ela os preguntou de sa fazenda, e eles lhe contarom como se houveram de matar se nom fora que se conheceram per ventura. – Ora, disse ela, como quer que houvéssedes afam levarvosei a u~u~ meu castelo u folgaredes, taa que sejades sãos de vossas chagas. E eles lho agradecerom muito, e ela lhes fez dar cavalos e cavalgarom logo e chegarom aa hora da terça a casa de Morgaim, u Lancelot jouve preso dous invernos e u~u~ verão. Título Fólio 26297d [Como eles entrarom na camara u jouvera preso Lancelot e conhecerom sua fazenda e da rai~a.] Quando decerom mandouos deitar em u~a câmara e pensoulhes das chagas e das feridas, como aquela que o muito sabia, assi que, ante que os #VIII dias passassem, forom muito aliviados de seu mal. Ao oitavo dia que Mordret entrou per ventura na câmara u Lancelot jouvera preso, os fe[i]tos de Lançelot eram i pintados. E, quando i entrou houve gram sabor de catar a câmara, que sobejo era fremosa e viçosa e mu~i bem pintada. E pois catou a estória e leeo as letras que de cada u~a Título Fólio 26298a maneira diziam os nomes, maravilhouse muito, ca bem viu que a estória era de rei Artur e da rainha e de Lancelot, mais nom na soube entender. E pois catou gram peça e viu que per si nom podia saber rem, chamou Galvom e Gaeriet e disselhes: – Senhores, viinde veer que há aqui. E eles catarom a câmara e disserom que sobejo era fremosa e pagaromse muito [a] maravilha, mais nom poderom entender a estória. E quando virom que nom podiam per si saber rem, chamarom Morgaim. e rogaromlhe que lha fezesse entender. – Esto nom farei eu, disse ela, ca vós seríades mais espantados que de rem que nunca ouvistes, nem vos aprazeria, que haveríades i conhecidamente vossa honra. Disserom eles: – Todavia queremolo saber. Entom tendeu ela suas mãos contra u~a capela que i estava e disselhes: – Sobrinhos, por me creerdes mais do que vos quero dizer, jurovos por estes sanctos que vos nom mentirei de quanto vos desta estória disser. Entom lhes começou a contar fazenda de Lancelot e da rainha, como se amavam ambos. – E por esto, disse ela, o desamei mortalmente dês que o soube e desamarei em mentre viva, ca maior pesar nom me poderia fazer como fazer tal escarnho Título Fólio 26298b a tam alto homem como meu irmão e amarlhe sua molher e jazerlhe com ela. E, polo grande amor que lhe el havia, quando o eu tive aqui em prisom u~u~ ano e meo, pintou com sua mão todos seus f[ei]tos, dês que foi cavaleiro até que foi aqui preso. E cada menhãã, tanto que se erguia, abraçava e beijava as mãos da rainha tam de coraçom como se fosse ela meesma. E esto vi eu muitas vezes e somvos eu verdadeira testemunha. Porque nom é leal contra rei Artur, seu senhor, o desamei e desamarei sempre e vós o devíades a desamar mais mortalmente, ca vós, quanto mais valedes, tanto i havedes maior [des]onra. Quando esto ouvio Galvam foi tam espantado que de u~a gram peça nom pôde falar. E quando falou, disse: – Senhor, nom sei que i diga, fora tanto que o nom posso creer em ne~hu~a guisa, que tam boo cavaleiro como Lancelot fezesse treiçom. E, se el i errou, bem sei que per gram força d’amor foi que do mais leal cavaleiro do mundo faria ligeiramente treedor. E esto disse Galvom de Lancelot, porque nom podia creer que Lancelot amasse a rainha de fol amor, se o nom soubesse mais que per oída. – Sabede, disse Morgaim, que el jouve com a rainha, onde poderíades vós elrei bem vingar, já peça há, se bõõs fossedes. – Par Deus, disse Galvom, ja mais Título Fólio 26298c nom me trabalharei nem o creerei se o nam vir. – Pero, disse ela, quando chegardes aa corte, haveredes a contar todas vossas aventuras; e contaredes i quanto vistes e ouvistes em esta câmara. E eles disserom que a fazer lhes conviinha “ca em outra guisa seríamos perjurados”. – Par Deus, disse Galvam, nunca ouvi falar de cavalaria que Lancelot fezesse que aqui nom jaça pintada. Entom lhes mostrou a Doorosa Guarda e contoulhes a maravilha d’armas que i fezera Lancelot. Título Fólio 26398c [Como Morgaim lhes disse que contassem a verdade a rei Artur.] Tanto morarom os três irmãos em casa de Morgaim taa que forom guaridos e disseromlhe que se quiriam ir. – Pois que assi é, disse ela, conjurovos, pola fé que me devedes e pola rem que mais no mundo amades, que digades a meu irmão a verdade de Lancelot e da rainha. E devedelo a fazer, ca sodes seus vassalos e seus jurados, e se lho mais encobrirdes seredes perjurados e desleaes. E se ele é tam sandeu ou tam de boo talam que vos ele nom quer creer, vós lhe sodes tam chegados amigos que o devedes ende vingar o mais toste que poderdes. – Se Deus me ajude, disse Galvam, eu som aquele que ja mais nom no cre[e]rei, taa que o saiba mais verdadeiramente ca per estas pinturas. E por esso me calarei ainda. – E eu outrossi, disse Gaeriet. – Eu vos digo, disse Mordret, que tam toste que eu poder saber mais certas novas ca estas nom me Título Fólio 26398d calarei que o nom diga a rei Artur. – Esto seerágram folia, disse Galvam, e maior mal nom lhe poderia vi~ir que vós cuidades. Muito falarom em esto e muitas vezes, e pois partiromse de Morgaim bem guisados de cavalos e d’armas e andarom todo aquel dia que nom acharom aventura ne~hu~a. E aa noite albergarom com u~u~ irmitam que lhes fez muito serviço depois que os conheceo. E em outro dia, pois ouvirom missa, partiromse. E nom se alongarom muito que acharom u~u~ caminho que se partia em três carreiras. – Irmão, disse Gaeriet a Galvam, aqui há três carreiras. Cada u~u~ vaa por sua. E Mordret se i outrogou e partiromse logo e filhou cada u~u~ sua carreira. Mais ora leixa o conto a falar de Galvam e de Gaariet e torna a Mordret, por contar como lhe aveo. Título Fólio 26498d [Como Morderet achou u~a donzela qui ia com seus irmãos e a levou a força.] Aqui diz o conto que, pois se Mordret partiu de seus irmãos, que andou gram tempo sem ventura achar que de contar seja. U~u~ dia, aa entrada do inverno, que fazia já algu~u~ tanto frio, aveo que achou u~u~ cavaleiro desarmado, fora d’espada. E ia com el u~a donzela Título Fólio 26499a e u~u~ escudeiro, seus irmãos. E tanto que virom Mordret armado logo entenderom que era cavaleiro andante. E tanto que chegarom a el salvaromno, e [ele] eles, mais mui da envidos como aquel que era de mal talam e mu~i vilão. E pois passarom per ele, disse el: – Que mal fiz ora que nom filhei aquela donzela e que nom fiz em ela meu prazer. E, se eu fosse cavaleiro como me dizem, nom me escapara assi. Entom tornou mu~i toste e foi aa donzela e filhoua pelo freo e disselhe: – Donzela, a tornar vos convém e irdes com migo que assi me praz. – Par Deus, disse ela, nom irei, se Deus quiser, que nunca antre mim e vós houve por que o deva fazer. – Par Deus, disse el, iredes, queirades ou nom. E tiroua pelo freo pola levar a força. Título Fólio 26599a [Como Morderet matou o escudeiro e feriu o cavaleiro e arrestava a donzela que bradava.] Quando o cavaleiro viu isto meteu mão aa espada e leixouse ir a Mordret assi desarmado como era. E o escudeiro, que tinha u~a lança, firiu o cavalo de Mordret per meo do peito e meteo el e o cavalo em terra. E Mordret se ergueo mu~i toste, como aquel que era mu~i vivo e mu~i ligeiro, e meteu Título Fólio 26599b teu mão aa espada e firiu o escudeiro atam sanhudamente que o meteu morto em terra. E depois foi ao cavaleiro e firio assi que lhe talhou o braço destro e derribo[u]o em terra do cavalo. E depois foi aa donzela e derriboua do palafrém e levoua a u~as moutas que estavom preto d’i e espiu a loriga. E ela, que nunca houvera marido e se viu em hora de seer escarnida se Deus lhe nom acorresse em algu~a guisa, chorava e fazia doo e dizia mais alta voz que podia: – Valia! Valia! E quando el viu que lhe braadava assi feriua e fezlhe quantos escarnhos pôde; e filhoua pelos cabelos e arrastroua contra u~u~ semedeiro e doestoua o peor que pôde como aquel que era u~u~ dos bravos cavaleiros do mundo. E ela braadava chus e chus assi que Bandemaguz, que andava buscando aventuras como os outros, a ouviu e foi contra alá por veer que era e achegouse tanto que achou Mordret que tiinha a donzela em terra a que fazia tanto pesar e tanta mala ventura que maravilha era como já nom era morta. E ela dava vozes mais e mais, se vi~i ~ria acorro de algu~a parte. Título Fólio 26699b [Como rei Bandemaguz acorreu e como Mordret talhou a cabeça aa donzela.] Título Fólio 26699c Rei Bandemaguz, quando viu que Mordret tiinha assi a donzela, nom no conheceo ca tiinha o rostro tinto das armas que todavia tragia, nem Mordret nom no conheceo, porque elrei peça havia que havia cambadas suas armas, por seer menos conhecido. E elrei, que era mui cortês e de mu~i boo talante, rogou a Mordret por Deus e por cortesia que nom fezesse mais mal aa donzela. Quando ela viu o cavaleiro, deulhe vozes: – Ai, cavaleiro boo! Por Deus e por ta honra, sacame de mãos deste desleal cavaleiro que me matou dous irmãos sem rezom e que me quer haver a força. – Como donzela, disse Bandemaguz, nom sodes sua? – Si Deus me ajude, Senhor, disse ela, nunca o vi nem el mim, fora ora, que eu sábia. – Ai, cavaleiro! disse rei Bandemaguz, diz verdade? – Ainda que diga verdade, disse Mordret, que havedes d’adubar? – Hei i tanto d’adubar, disse rei Bandemaguz, que, se em ela mais metedes mão taa que eu saiba a razom, que vos acheredes mal. – Quanto pouco ora eu temo vossas ameaças! disse Mordret. E, per boa fé, por esse despeito ante vós a matarei por em. – E filhou logo a espada e deitoulhe a cabeça Título Fólio 26699d alonge e disse: – Dom cavaleiro, ora podedes veer o medo que de vós hei. E, se vós nom forades, nom morrera ela. Quando el esto ouvio houve gram pesar e, com mu~i gram sanha, nom se pôde teer que nom fosse a ele. Pero era vilania ca Mordret estava desarmado e a pee e el armado e a cavalo. E ferio per meo do peito em guisa que a lança foi da outra parte; e metêo em terra tam mal treito que cuidava a morrer, e foiselhe muito sangue que toda a terra darredor dele era cuberta. Quando elrei o viu assim cuidou que era morto. E por em nom no quis ferir e partiuse del e fôse com gram pesar da donzela que fora morta por ele. Título Fólio 26799d [Como Galvam achou Mordret que jazia chagado.] Assi se foi rei Bandernaguz com este pesar, que peça havia que nom vira tam grande. E nom se pôde muito alongar que chegou Galvom u Mordret jazia chagado. Quando o catou bem o conheceo que era seu irmão e deceu por veer se era chagado a morte ou se poderia garir, que bem viu que nom era morto, e preguntouo: – Irmão, quem vos chagou? Ou se cuidades que possades guarir? Quando se el ouviu chamar abriu os Título Fólio 267100a olhos e conheceo Galvam. E aprouguelhe muito quando o viu e disse: – Irmão, eu guarecerei bem se me vingardes do mais desleal cavaleiro que eu nunca achei, que me chagou assi como veedes, e a treiçom, ca era armado e de cavalo e eu desarmado e a pee. – E per u se vai? disse Galvam. – Senhor, disse el, eu cuido que se vai per aqui. E mostroulhe a carreira direita, assi como aventura o fazia. – E traz u~u~ escudo vermelho e u~u~ leom branco em ele. Título Fólio 268100a [Como Galvam foi pós rei Bandemaguz e se combateu com ele.] E quando em esto falavam chegou Ivam e, quando conheceu Galvam e Mordret, ficou com Mordret polo levar a u~a abadia que preto era dali u guarecesse de sa chaga. E Galvam sobiu em seu cavalo e andou tanto que acalçou rei Bandemaguz que ia soo e cuidando muito polo gram pesar que havia da donzela que fora morta por ele. E, quando Galvam foi tam preto dele que o poderia ouvir, disselhe: – Lixoso treedor, tornade a justar, que vos convém. Quando elrei se ouvio chamar treedor nom lhe prougue e tornou a ele e disselhe: – Dom cavaleiro, quem quer que vós sejades eu me defendirei mu~i bem contra vós, Título Fólio 268100b se Deus quiser, de treiçom. E el nom tragia lança, ca a britara em Mordret. E meteu mão aa espada e Galvam, que viinha quanto o cavalo o podia trager, ferio tam de rígido que meteo i todo seu poder, que o escudo nem a espada nom lhe prestou que lhe nom fezesse mui gram chaga no costado seestro e a lança voou em peças e foi topar com ele tam rigidamente do escudo e do corpo que elrei nom se pôde teer em sela, que era mal chagado, e houve de caer. E pero com todo este mal e com toda coita ergeose tam vivamente como homem de sa idade se poderia erguer. E Galvam, que o desamava mortalmente, deceo de seu cavalo e liouo a u~a árvor e pois tirou a espada e pôs o escudo sobela cabeça e leixouse ir a rei Bandemaguz. E elrei, que era de gram. bondade de cavalaria pero era chagado, defendeose maravilhosamente, que foi Galvam todo espantado. E começouse a batalha tam grande antre eles e atam pirigosa que todo homem que os visse teelosia por mu~i boos cavaleiros. E durou tanto Título Fólio 268100c que nunca houve i tal que nom perdesse muito do sangue, ca as espadas eram ambas mu~i boas. E levavamse ferindo com as espadas, u~a hora de cá, outra d’ala, assi como cada u~u~ prendia fôlego. Título Fólio 269100c [Como Galvam chagou rei Bandemaguz a morte.] Assi durou a batalha crua e brava dês meo dia ataa hora de noa. E entom fooram chagados mu~i mal. Mais rei Bandemaguz sofreu tanto que houve #X chagas que outro homem cuidaria morrer da meor delas. E Galvam, que o tiinha por mu~i boo e que o preçava tanto de cavalaria que se maravilhava muito quem poderia seer, coitavao todavia mais e mais. E, tanto o feriu aa espada talhador que lhe talhou o elmo da cabeça. E pois deulhe u~u~ tal golpe per cima da cabeça que lhe fez chaga mortal; e, se se lhe a espada nom tornara na mão, todo o fendera atee as espáduas. Deste golpe foi rei Bandemaguz tam estorgido que caiu em terra e caiulhe da u~a parte a espada e da outra o escudo. E, quando Galvam lhe quis talhar a cabeça, catouo e conheceu logo que era rei Bandemaguz e houve em tam gram pesar que nom soube que dissesse nem que fezesse; e culpouse muito e mal disse a hora em que fora nado. E Título Fólio 269100d disse contra si meesmo: – Ai, Deus! Como aqui há gram maa andança, que per tal maa ventura matei o milhor homem do mundo! Título Fólio 270100d [Como Galvam conheceu rei Bandemaguz e houve gram pesar.] Enquanto fazia atal doo, aveo que passava per i u~u~ homem mui velho a pee, vivido d’u~u~s panos brancos. E quando viu que tal doo fazia Galvam. — e nom no conhecia pero toda via sabia bem que era cavaleiro andante e que fazia aquel doo polo cavaleiro que jazia em terra — foi alá por saber quem eram aqueles dous cavaleiros. E Galvam, que havia gram pesar desta maa andança, disse a rei Bandemaguz: – Senhor, como vos sentides? Cuidades que possades guarecer? E elrei, que bem entendia que era chagado aa morte e que já sa vida nom era rem, disse: – Quem sodes vós, que me preguntades se posso guarir depois que me matastes? – Ai, Senhor! disse Galvam, se vos matei muito me pesa, que morte de tam boo homem deveria todo o mundo a chorar. E, se Deus me ajude, se vos eu conhecera ante como agora, nom metera mão em vós se me ainda mais houvérades errado ca errastes. E rogovos, por Deus e por piedade, que Título Fólio 270101a me perdoedes. Que, assi Deus me perdoe, nom vos conhecia. E elrei, que era tam cuitado que bem conheceu que sua morte era chegada, quando ouviu falar Galvam em esta guisa, conheceo que era companheiro da Mesa Redonda. Mas, sem falha, nom cuidou que era Galvam, polas armas que havia cambadas. E Galvam, que estava ante el em giolhos, todavia rogavalhe por Deus e por miericórdia que lhe perdoasse sa morte. – Quem sodes vós? disse elrei. Dizedeme vosso nome, que saiba quem me matou. Galvam, que houve gram pesar sobejo, respondeo chorando: – Senhor, eu som Galvam, o vosso amigo que vós amávades tanto. E, assi Deus me ajude, pesame desta maa andança tanto como se me aviesse com alguu~u~ de meus irmãos. E quando elrei entendeo o que dizia Galvam, respondeo assim como pôde: – Ai, dom Galvam! Sodes vós o que me matastes e amandovos eu como vos amava dês que vos vi? Mal me veo de vosso amor. Mais todavia, pois que assi é, perdoovos de boo coraçom. Assi perdoe Deus a mim os meus pecados. E rogovos, pola companhia que há antre mim e vos, que me saudedes dom Lancelot, o mais leal cavaleiro que nunca achei. Mais desta Título Fólio 270101b maa andança que vos aveeo nom lhe digades nada, nem a el nem a outrém, em mentre o poderdes encobrir. Título Fólio 271101b [Como rei Bandemaguz fez sa oraçom.] Pois houve esto dicto esmoreceo com a gram coita que houve. E Galvam cuidou que era morto e começou a chorar e a chantear sa bondade e sa lealdade. A cabo de u~a peça acordou elrei e abriu os olhos e ergeo suas mãos contra o ceu e, assi como pôde, disse: – Padre dos céus, verdadeiro perdoador, have mercee deste cativo rei. E nom cates a minha maa ventura nem as minhas maas obras que hei fectas mentre reinei em terra, pecador e mal aventurad[o] antre os outros pecadores. Senhor, que és piedade e misericórdia que nom falece e que chamas a ta piedade cada u~u~ pecador que se doe de seu pecado, que conheces as cousas escondudas e as sabudas, guardame em este meu postomeiro dia e em esta minha postomeira hora, em que a alma, pobre e esbulhada de todos boos fectos pela maa companhia do seu hóspede, se háde partir de sa pousada e ir aa escura [casa] de tristeza, se a ta misericórdia a nom enderença aa casa da ledice. Senhor, albergaa como o padre sesudo e ante vigiado alberga a seu filho, quando Título Fólio 271101c o filho conheceo seu erro. E como quer que seja, Senhor, de minha alma, que a meu cuidar comprará caramente o erro da carne, se a ta gram piedade nom prende i guarda, salv[a] o boo cavaleiro filho de rei Bandemaguz. E, como quer que el errasse contra ti mui ma[i]s ca nom deveria, perdoalhe, se ti prouguer e. outorgame que a minha alma seja com a sua depós a minha morte e depós a sua, em qual logar quer que el seja. Ca esta é a cousa que eu mais desejo: de a minha alma seer com a sua depós a nossa morte, ou em trabalho ou em folgança, assi como fomos em vida, se é cousa que seja outorgada a pecador. Título Fólio 272101c [Como Galvam fez seu doo quando viu que era morto rei Bandemaguz.] Tanto que rei Bandemaguz isto disse, pôs as mãos em cruz sobre seu peito. E quando viu Galvam que era morto, começou a fazer seu doo grande aa maravilha e a doestarse e a maldizerse muito. Quando o homem boo qui i estava viu a Galvom tal doo fazer, logo entendeu que o cavaleiro passado era e era homem de gram guisa, e, de mais, que lhe ouvira dizer que era rei. Disse entom a Galvam: – Senhor, porque fazedes tal doo? Vosso chorar nom vos vai rem. Esto é já cousa passada. Deus lhe haja mercee a alma. Mas, se vos prouguer, dizedeme quem é e como houve nome, ca muito o desejo a saber, porque o vi doerse bem Título Fólio 272101d de seus pecados. Galvam, que estava com tam gram pesar que nom sabia que dissesse nem que fezesse, respondeo chorando: – Sabede que este foi u~u~ dos bõõs home~s do mundo e u~u~ dos mais sesudos e tam boo cavaleiro como todo o mundo sabe. E este é rei Bandemaguz d[e] Gorra. – Bandemaguz? disse o homem boo, bem o conheci. Mal fezestes que o matastes, ca por esta morte tornarám tantas terras em pobreza e em destroimento que vós nem toda vossa linhagem nom poderíades cobrar o dano que ende aveerá, se maravilha nom for. – Certas, disse Galvam, de sa morte eu hei tam gram pesar que volo nom poderia dizer. E tenhome por tam errado que nom há rem, nom sei morte que nom sofresse por tal que me nom aveesse. Mais, pois que assi é, rogovos que me ensinedes algu~u~ lugar u o soterremos, ca el é tam boo e de tam gram guisa que deve a seer soterrado muito honradamente. – Certas, disse o homem boo, eu nom sei preto daqui abadia nem irmida, ca nom som desta terra, ante som de outro lugar estranho. Mais u~u~ meu irmão, que jaz doente em esta terra, me faz aqui vi~ir a gram coita. Pois assi é, disse Galvam, eu irei buscar, preto ou Título Fólio 272102a longe, u o soterre e rogovos que fiquedes com el pol[h]i fazer companha atáque eu venha. E ele lho outorgou, ca muito havia gram pesar da morte delrei. Título Fólio 273102a [Como Galvam foi buscar u~a ermida u soterrar rei Bandemaguz.] Galvam sobiu em seu cavalo e andou tanto como aventura o levava que chegou a u~a irmida que estava em u~a montanha em logar estranho de gente e longe de caminho. E havia i muitos de bõõs home~e~s ermitães que foram cavaleiros e home~e~s de gram guisa mais por corregerem sua vida entraram i contra cima de sa idade. Quando ouviram dizer a Galvam. que el queria i aduzer o corpo de rei Bandamaguz e ouviram dizer como fora morto, houveram pesa[r] e prazer – pesar da sa morte e prazer d’haverem em sa irmida tal homem como aquel. E disseram a Galvam. que lho agradiciam muito e que fosse por ele e recebêloiam de bõa vontade, e que lhi fariam toda honra que podessem. Galvam. partise logo e, quando chegou u o corpo de rei Bandemaguz jazia, achou i u~u~ cavaleiro armado de todas armas, que bem fazia sembrante de homem que havia gram pesar. E o cavaleiro estava sobre u~u~ cavalo murzelo e sas armas e seus sobressinaes eram todos negros. Título Fólio 274102a [Como o cavaleiro negro desfiou Galvam.] O cavaleiro pensava mui feramente e catava o corpo; e o seu cavalo, que estava folgado, quando viu vi~ir o cavalo de Galvam começou a rinchar tam fortemente que o cavaleiro houve de leixar seu pensar. E quando vi[u] vi~ir Galvam contra si, perguntou o homem: – É este o cavaleiro que matou elrei? – Si, disse el. – Ca me nom haveriam por cavaleio se nom fezesse meu poder de vingar tam bõõ homem. – Esto vos nom loo eu, disse o homem bõõ, ca este é tam bõõ cavaleiro d’armas que ja mais nom haveríades a este preito cima se nom fossedes de gram bondade d’armas sobejo. E por esso vos conselho que nom façades i rem. O cavaleiro respondeo que quiria seer ante morto que nom fazer i o que pensava, e deu vozes a Galvam: – Galvam, Galvam, eu vos desfio, ca bem merecestes morte quendo matastes tam bõõ rei como rei Bandemaguz. Quando Galvam, que era mui lasso e mui cansado da batalha delrei, viu que se havia de combater, nom lhe prougue em rem, como aquel que nom havia mester de se combater. De mais nom ti~nha escudo Título Fólio 274102b nem lança. E disse entom ao cavaleiro: – Senhor cavaleiro, pois que assi queredes que me combata vosco empero me nom era mester, ora vos rogo por cortisia que me leixedes filhar meu escudo, que jaz ante vós, e haveredes entom maior honra de me cometerdes. E el lho outorgou. E Galvam filhou logo o escudo. E depois deitou[o] ao colo, disse em seu coraçom que, se tevesse lança, que se te~e~nria em já quanto por mais pagado. E esto o desconfortava muito. E o cavaleiro que o havia desfiado leixouse correr a ele e Galvam meteo mão a espada, ca nom ti~inha al com que se defendesse. E o cavaleiro o ferio da lança, que lhe falsou o escudo, mais a lorgia era tam bõa que lhe nom britou em malha; e o cavaleiro era atam arriscado que o pôs em terra. E Galvam foi mui~ britado daquela caeda e mui mal treito, empero erguêse mui vivamente ca bem viu que lhe era mui mester e guisouse de se defender. E, quando o outro cavaleiro o viu a pee e guisado de batalhar, disselhe: – Galvam, estáquedo pois és a pee. E decereime eu, ca me te~e~riam por mal de te cometer assi. Título Fólio 275102b [Como Galvam se combateu com o cavaleiro negro.] Entom deceose e legou seu cavalo a u~a árvo[r] e acostou i sua lança. E pois fôse a Galvam a espada dereita e deulhe per cima do elmo o maior golpe que ele pôde, assi que foi em mal treito Galvam, pero ainda nom atam lasso que se mui bem nom defendia. Ca, se i al fezesse, bem viia que a morte em a mão era. E o cavaleiro que lhe queria gram mal, que era muito bõõ cavaleiro d’armas e são e ligeiro, começou a o trager aa espada talhador, u~a hora d’acáe outra d´ alá, quando a sa vontade, assi que todo homem que a batalha visse logo entendiria que o peor havia em Galvam. e o outro o melhor. Título Fólio 276102b [Como Erec rogou a Meraugis que leixasse a batalha e ele se outorgou i.] Enquanto Galvam se combatia tam descomunalmente como eu vos digo, que estava a tal pavor de morte, em hora de receber toda honra, aquevos que a ventura dusse i [a] Erec o filho de rei Lac aquel cavaleiro que nunca mentia a seu ciente. – Quando el viu a batalha esteve por catálos mais nom noceu ne~hu~u~. Empero porque tiinha que eram ambos bõõs cavaleiros ou pola ventura da casa de rei Artur, foi ao cavaleiro das armas negras e disselhe: – Senhor cavaleiro, eu vos rogo por cortisia que leixedes esta batalha [t]áque sábia quem sodes ambos. E o cavaleiro Título Fólio 276102c esteve, tanto que viu que o rogava de coraçom, e fastouse u~u~ pouco afora de Galvam e disse a Erec: – Senhor cavaleiro, eu vos direi meu nome, pois me tanto rogades. Eu hei nome Meraugis de Porlegues e som de Cornualha, cavaleiro que nom som ainda de muita nomeada, ca nom há muito que foi cavaleiro. – E de cal linhagem fostes? disse Erec. – Nom sei, disse el, assi me Deus ajude. Nunca soube quem foi meu padre nem minha madre nem conheci, a meu ciente, homem de meu linhagem. E por esto vim a esta terra e entrei em esta demanda u andam os cavaleiros da Mesa Redonda, ca u~u~ homem bõõ me disse, aquel dia em que foi novel cavaleiro, que nom saberia verdade de meu linhagem a mi~os d’entrar na demanda do Santo Graal, mais ali oíria ende a verdade, se a mantevesse longamente. E por esto entrei i depós os outros. – E quem é, disse Erec, esse cavaleiro que vós combatestes? – Este é, disse el, Galvam, o sobrinho de rei Artur, e combatome com ele porque matou rei Bandemaguz que vedes ali jazer morto. Quando Erec ouviu as novas da morte de rei Bandemaguz e o viu jazer morto houve gram pesar e foi mui sanhudo, ca sobejamente amava e prezava rei Bandemaguz de sem e de cavalaria. E se el tanto nom amasse Galvam como amava logo vingara sua morte. E por al ainda no no podia fazer ca seria desleal e perjurado: porque era da Mesa Redonda no no ar podia leixar matar ante si que nom fezesse deslealdade. Entom disse a Meraugis: – Se dom Galvam fez esto per desconocença nom deve a seer tam culpado como se o de seu grado fezesse. Certo som eu e creo que lhe pesa em mais ca a vós. E por esto vos rogo ante que [mal] ven[h]a ende: a vós peço e a [e]le que leixedes esta batalha, ca nom sofrerei eu ne~hu~a guisa mal de dom Galvam, se ainda fosse assi que fossedes vós mui milhor cavaleiro ca ele. E, se o vós nom queredes leixar por meu rogo, eu e vós somos em batalha. – E quem sodes vós? disse Meraugis, que a força queredes que leixe esta batalha? – Eu sou, disse ele, Erec; nom sei se ouvistes de mim falar. – Erec? disse Meraugis, vós sodes aquele que nunca mente? Assi Deus me ajude, eu vos ouí louvar em todas Título Fólio 276102d cousas, tanto que farei vosso rogo, ca bem crede que o nom faria por outro cavaleiro. E logo meteu cada u~u~ sa espada em sa bainha. Título Fólio 277102d [Como levarom rei Bandemaguz aa ermida por o soterrarem.] Quando a batalha foi partida, assi como vos disse, Erec deceu e tomou seu elmo e pôs em terra seu escudo e sua lança e foise a rei Bandemaguz e fez sobre ele o maior doo do mundo e chorou gram peça [e] disse a Galvam: – Que poderemos fazer deste corpo? Certas todo o mundo se deveria a seu poder trabalhar de lhe fazer honra, ca muita háele feita, e [é] muito bõõ homem. – Preto daqui, dissse Galvam, há u~a irmida u o quisera eu levar quando este cavaleiro me cometeo. Ali irá el bem e a gram honra. E, de mais, disseramme que home~e~s de sua linhagem fezeram aquela ermida. – Pois levemolo i, disse Erec. Entom fezeram âmedes e liaramnas a seus cavalos e deitaram elrei em cima e foram pós ele a pee com gram pesar e fazendo gram doo. E tanto andarom que chegarom aa ermida e soterraromno i o mais honradamente que poderom. Mais depois houve mais rica sepultura, ca rei Carados o do Pequeno Braço que a ventura dusse per i, fez sa sepultura tam rica com ouro e com prata e com pedras preciosas que, se o mais rico rei do mundo i jouvesse, jaria honradamente. E fez fazer leteras em cima da campãã que diziam: “Aqui jaz rei Bandemaguz de Gorra que matou Galvam o sobrinho de rei Artur”. E aquel escrito achou depois Lançarote que houve gram pesar daquelas novas e foi mui sanhudo da morte de rei Band[em]aguz, ca muito o amara em sa vida. Título Fólio 278102d [Como rei Mars fezera Meraugis.] Os cavaleiros folgaram alá #III dias e, indo, preguntou Erec a Meraugis de sa fazenda, mais nom pôde em saber rem, ca ele meesmo no na sabia nem de qual linhagem era. E esta razam devisa a estória de Tristam e em esta meesma a tange u~u~ pouco e passase per ela o melhor que pode, ca Meraugis se[m] falha era bõõ cavaleiro e ardido e u~u~ dos corteses da sa idade que houvesse em toda a terra. E era natural de Cornualha, filho de rei Mars, marido de Iseu. Mais no no havia dela, ante o havia Título Fólio 278103a de Ladiana, irmãã de Aldret, sobrinha deste rei Mars. E houveraa rei Mars de virgindade per força, e fez em ela Meraugis. Onde avendo depois, quando viu que era prenhada, que, por pavor de seer descuberto e seerem ambos prefaçados polo mundo, fezea meter em u~a torre taa que houvesse filho. E, quando chegou a aquela saçam, levoua a u~u~ muito esquivo logar e longe de gente e, depois houve seu filho, com pavor que sa sobrinha o nom descobrisse contra o meni~o o quando fosse grande, matoua. Assi matou rei Mars sa sobri~a ali u ainda estava em gram cuita de seu parto. E nom foi esta a primeira deslealdade que ele fez, ca muitas outras começou a que deu cabo. Do meni~o, sem falha porque era seu filho, houve u~u~ pouco maior piedade ca da madre, mais pero nom lhe houve tam gram piedade como padre devia haver a filho ca bem o amostrou. Ca ali u leixou jazer sua sobrinha no monte, u a depois comeram bestas feras, filhou o meni~o ante si e levouo ataa o caminho e pendurou[o] a u~a árvor polos pees, assi que as bestas nom o podessem atanger, e pensou que alguém ve~nria polo caminho que o acharia e que o levaria. E nom dava rem por morre[r] nem por viver, fora que o nom visse mais. Título Fólio 279103a [Como o homem bõõ achou o meni~o e o levou.] Assi se partiu rei Mars dali e leixou o meni~o pendurado na árvor. Mais Deus, que houve gram piedade del e porque nom havia que veer na maldade de seu padre, pensou dele. Ca, tanto que se elrei partiu, chegou logo u~u~ seu homem que lhe guardava a porta. E, quando chegou ao meni~o e o viu assim pendurado, houve del gram doo e despendurou[o] toste e maravilhouse quem o pendurara i. Ele viu o meni~o mui fremoso a maravilha de sa idade e levouo para sa casa e mostrouo a sa molher, que era bõa e sesuda, e disse: – Eu nom cuido que é cristão, e seria bem de o levarmos aa eigreja e bautizálo. – Amiga, disse o homem bõõ, este meni~o é muito fermoso e seeria bem a meu coidar, de o levarmos a elrei que é nosso senhor; pois faríamos i o qu’el mandasse. – Bem me parece, disse a molher. Título Fólio 280103a [Como meraugis chegou aa idade de seer cavaleiro e como se meteu na demanda do Santo Graal.] Título Fólio 280103b Assi como o falaram o fezerom e levaram o filho ao padre u siia no paço com seus ricos home~e~s, e contoulhe como o achara. E elrei, que bem conhoceo seu filho, disse: – Per bõa fé, algo achasti. E mandou[o] ir a bautizar. E houve nome Meraugis de Porlegues, por u~u~cavaleiro que lhe pôs seu nome que chamavam assi. E sabede que Porlegues era aquele castelo u a madre de Merlim foi morta. Rei Mars, que fazia sembrante de nom conhecer seu filho, disse ao montaneiro que o gardasse e que o criasse atá que fosse grande, que ainda seria homem bõõ, ca per ventura era fidalgo. E ele o fez assi como elrei lhe mandou, ca tanto o criou atá que veeo a idade de seer cavaleiro. E rei Mars o fez cavaleiro em dia de Páscoa. Mas, porque andavam dizendo pola casa que Meraugis semelhava rei Mars, ca muito bem podiam dizer que era seu filho, tanto que rei Mars ouviu o tõõ, disse que nom queria que vivesse com ele homem sem padre. Meraugis, que era homem de gram coraçom, tanto que esto ouvio tevese por mal treito e espediuse dos da corte e depois partiuse de Cornualha e disse que nom quedaria ja mais de cavalgar nem de demandar aventuras, sau´de havendo, ataa que achasse quem lhe dissesse cujo filho era, se era cousa que homem podesse saber. E por esta aventura demandar se meteo na demanda do Santo Graal. Mais ora leixa o conto de falar dele e torna a outra aventura. E, se alguém quer saber como veeo a cima de sua demanda e como soube como fora pendurado na árvor e como conoceo seu padre e como soube quem lhe matara sua madre, filhe a gram estória de Tristam, ca ali o poderá achar compridamente a verdade de todas estas cousas. Título Fólio 281103b [Como Erec e Meraugis se partirom da ermida e como acharom u~a donzela que pediu u~u~ dom a Erec.] Ora diz o conto que três dias esteverom na ermida Galvam e Erec e Meraugis depois que soterrarom rei Bandemaguz. Ao terceiro dia foise Erec e Meraugis e Galvam ficou porque era mal chagado. E os outros andarom dois dias de su~u~ sem aventura achar que de contar seja. [A]o terceiro dia lhes aveo que acharom u~a donzela que ia soo em u~u~branco palafrém. E quando ela chegou a eles salvouos, e eles ela. – Senhores, disse ela, saberm’iades Título Fólio 281103c dezer novas de u~u~ cavaleiro da Mesa Redonda que há muito que ando demandando? – Donzela, disseram eles, dezedenos como há nome e per ventura deremosvos algu~as novas. – Senhores, disse ela, el há nome Erec o que nom mente. – Erec? disse ele, porque o buscades? – Eu o busco, disse ela, porque me é teu´do de me dar u~u~ dom quando lho eu pider, e queria que mo desse. Ele catou a donzela e tanto a teve em olho que bem conoceu que era aquela que o levou aa ínsoa da irmãã de Persival; e, porque o aguiou alá lhe pormeteo o primeiro dõõ que lhe pedisse. Entom nom se pôde encobrir contra ela, ca teve que erraria, e disse: – Donzela, eu som aquele Erec que vós demandades. Que vos praz.? – Tolhede, disse ela, vosso elmo, e vervosei, ca em outra guisa nom vos derei rem do que quero. E ele o tolheo logo e ela o conheceo logo e disselhe: – Senhor, vós sejades o bem vindo. Muito vos andei buscando, graças a Deus que vos achei. Ora creede, amigo, que muito havia mester a vossa ajuda. Ele o outorgou. E tornouse a donzela e Erec com ela e foramse per u~a carreira que atravessava o caminho per que ante viinham. – Ai, senhora, disse Meraugis, eu som ainda novel cavaleiro e som de pequena nomeada e rogovos por Deus que me leixedes ir com vosco ataa que veja que vós havedes mester de companha, ca o coraçom me diz que vos há de contecer algu~u~ mal. – Nom fará, disse Erec se Deus quiser. – Todavia, disse Meraugis, vos rogo que me leixedes com vosco ir. E el lho outorgou. Título Fólio 282103c [Como Erec disse que nom mentiria por cousa que aveesse.] Entom filharom seu caminho todos #III de soo u~u~. E a donzela disse a Erec per ante Meraugis: – Erec, vós sodes teu´do de me dardes o que vos eu pidir. – Verdade é, disse el. – E mentirm’edes por cousa que [a]venha? – Nom, disse el, se Deus me ajude, ante queria seer morto. – Nom quero eu melhor, disse ela. Pois disse a Meraugis: – Senhor cavaleiro, como havedes vós nome? E ele se nomeou. – Bem sejades vós vindo, disse ela. Prazme do que ouvistes em ouvir esto. Ca, se me mentir, seeredesme vós em testimunha em casa de rei Artur. – Si Deus me ajude, disse ele, eu ouvi del dar tal testimui~a que é tam verdadeiro Título Fólio 282103d que bem cuido que vos nom mença. – Nom sei, disse ela, mais cedo o poderedes veer. Assi andarom todo aquel dia que nom falarom em al, se nom que dizia Erec que toda via teereia sua promessa. Mais muito se maravilhava que era o que queria pidir. Título Fólio 283103d [Como chegarom ao castelo Celis e como a donzela lhe pediu a cabeça de u~a donzela que i estava.] Quando já queria ano[i]tecerlhis aveo que chegarom a u~u~ castelo fremoso e rico que estava sobre u~a grande rebeira que chamavam Celisa. E o castelo havia nome Celis porque estava sobre Celisa. A lu~a era já levada quando eles ao castelo chegarom. A donzela disse a Erec: – Conocedes vós este castelo? E[l] disse: – Conosco. Deste castelo foi senhor meu padre rei Lac e aqui o matarom per traiçom; e meu devera seer e ainda aí som os treedores que meu padre matarom. E pois me Deus aqui adusse, ja mais nom me partirei atá que o vingue e ou me eles matarám ou eu eles. Entom entrou dentro e assinouse aa entrada. E a donzela lhe disse entom: – Erec, eu vos peço a cabeça de u~a donzela que alásuso é, que vos eu mostrarei, e entom seredes quite. E Erec disse: – Ai, donzela! Por Deus, al me pidedi, ca de meter mão em dona nem em donzela nom é meu custume, nem será se Deus quiser. Ca esta é a maor vileza que cavaleiro pode fazer. – Convém, disse ela, que o fazades, pois mo prometestes. – Pesame, disse ele, mais, pois me convém de fazer, fareio, mais bem sabede que é muito sem mê grado. Título Fólio 284103d [Como Erec entrou no castelo de seus enmigos com Meraugis e a donzela.] Tanto andarom pola vila falando de muitas cousas que chegarom ao alcáçar. O alcáçar era u~a torre pequena que estava em meo do castelo, pero era mui bem posta. E nunca acharom quem lhes rem falasse. – Dom Erec, disse Meraugis, eu vos ouí ora dizer que érades aqui antre vossos enmigos e vós sodes melhor cavaleiro ca eu; mais toda via vos digo que, se aqui fazer quiserdes algu~a rem d’armas, que por muitos nom o leixedes ca eu vos tenho por tam bõõ cavaleiro que, por pouca de ajuda que vos eu farei, nom vos empecerá se i nom for gram poboo sobejo. E el disse que nom haveria medo em mentre tevesse a alma no corpo. Título Fólio 285103d [Como desamavam rei Tanam e pensavam como o chegariam a morte.] Assi falando chegarom ao alcáçar e acharom a porta aberta, ca ainda os de dentro nom jaziam, ante andavam folgando per u~u~ prado que havia de arredor da torre. Mais porque este livro nom devisou ainda como fora morto rei Lac Título Fólio 285104a devisarvoloemos agora o mais ligeiramente que podermos assi como a verdadeira estória o diz. Verdade foi que rei Lac e Dirac foram irmãos de padre e de madre e foram naturaes de Graça, filhos d[e] [r]ei Tanam de Saloliqui. O rei Tanam nom fora de linhagem de reis mais de pobres cavaleiros. Empero tanto fez per sa proeza que foi rei ca muita gram terra e rica havia conquista. Ele havia em sa terra muitas gentes que mortalmente o desamavam mais nom o ousavam mostrar e pensavam como o poderiam chegar a morte, se podessem; mais nom podiam ca se guardava el bem. Depois aveo que adoeceo já quando entrada d’u~u~ verão. E u~u~ dia que siia em seu prado pediu de bever e algu~u~s de sua casa, que de mais seus privados eram, que encobertamente lhi queriam gram mal, guisaram a aquela hora peçonha que lhe dessem a bever. Pero nom foram tam ousados que lha dessem, mais per Dirac seu filho, que ainda era menino, ca nom havia mais de #X anos, lha enviarom e disseromlhi: – El-rei morre de sede, mais filha este bever e levalho e dálho ca lhe será mui proveitoso contra sua enfirmidade. Título Fólio 286104a [Como rei Tanam foi morto e u~u~ seu amo escondeu seus filhos e os levou a Gram Bretanha.] O meni~o, que se nom catava da peçonha, filhou o que lhi derom e levou[o] a seu padre. E, tanto que o padre o beveu foi morto. Quando elrei foi morto, assi como vos digo, os ricos home~e~s, que nom amavam o padre, nom amarom os filhos e disserom antre si: – Se estes meni~os vivem e forem reis que[r]rám vingar a morte de seu padre e podernosá mal vi~ir. Mais fazamos logo bem: matemoslos como matámos seu padre e assi nom nos vi~irámal por eles. A esto se acordarom os ricos home~e~s do reino, os chus, e fezeramno se nom fosse u~u~ seu amo que era homem bõõ e leal que os filhou u~a noite com gram haver. E foise ao mar com eles e entrarom em u~a nave tam ascondidamente que nom foram conoçudos. O vento foi bõõ e Deus os guardou assi que ante de u~u~ mês aportarom na Gram Bretanha. Título Fólio 287104a [Como rei Artur mandou criar os filhos de rei Lac.] Rei Artur, que era entom meni~o e que reinava novamente, andava caçando aquel dia preto do mar e achou a barca que entom aportara. E quando viu os meni~os que eram tam fremosos, prouguelhe em muito, ca bem lhe semelharom Título Fólio 287104b de gram guisa, e perguntou por sua fazenda. E o amo lho contou todo. E quando elrei ouiu a traiçom dos de Graça, pesoulhe muito e filhou os meninos e mandou[o]s criar. E, dês que foram tamanhos, fezeos cavaleiros e deulhes terra e depois fezeram eles que foram ambos reis e houveram por molheres duas irmããs de rei Peles. A molher de rei Dirac houve de seu marido #III filhos e u~a filha. Os #III filhos de rei Dirac, quando foram grandes cavaleiros, houveram gram enveja a rei Lac porque era de maor nomeada ca seu padre. Era de maior bondade em todo e desto lhe colheram tam gram desamor que nom era sem maravilha. Título Fólio 288104b [Como os filhos de rei Dirac mataram rei Lac seu tio.] Onde aconteceo que quando Erec, que desto nom sabia rem, era já cavaleiro e se partiu de seu padre [por] ir aa corte de rei Artur, u~u~ serão que rei Lac foi seu irmão veer a aquele castelo que vos disse, os filhos de rei Dirac, que seu tio desamavam, sairom contra el e mataromno. Rei Dirac, seu irmão, houve gram pesar, mais nom tanto como devia. Todolos ricos home~e~s da Gram Bretanha o teverom por gram deslealdade. U~u~ pouco ante que a demanda do Santo Graal fosse come[ça]da, prenderom eles a irmãã de Erec, que era u~a das fremosas molheres do mundo, e preseromna porque bem cuidavam que, se o Erec soubesse, que a todalas guisas do mundo venria i. E, se i veesse, que o matassem por lhes ficar a terra de rei Lac. Título Fólio 289104b Como Erec e Meraugis entram no castelo e matarom os filhos de Dirac e filharom o castelo e sacarom a irmãã de Erec de prisom e os outros que i jaziam. Assi como vos digo foi morto rei Lac e sa filha foi presa. Erec bem ouvira dizer da morte de seu padre mais, tanto lhi prazia a companha da casa de rei Artur que nom podia entender senom em cavalaria. Mais nom sabia de sua irmãã que era presa. Quando a donzela que o dom lhi pidiu o meteo no alcáçar e ele viu que Meraugis lhi queria toda via te~er companha, disse: – Dom Meraugis, aqui há gram gente que toste poderia fazer gram mal a milhores dous cavaleiros que nós. Por ende eu nunca fiz tanto por vós que devades por mim entrar em perigoo de morte. E por em queria, assi Deus me ajude, que vos tornássedes, ca, se vós aqui morrêssedes comigo, esto seeria gram doo em vossa morte e nom ganharia eu i rem. – Si Deus me ajude, disse Meraugis, nom é bem o que dizedes ca, assi me valha Deus, que ante Título Fólio 289104c eu queria ora morrer com vosco ca me ir sem vós daqui vivo e são. – Pois ora seja Deus em nossa ajuda, disse Erec. Entom preguntou Erec aa donzela: – Cuidades vós que os filhos de rei Dirac som aqui? – Si, sem falha, disse ela, eu volos amostrarei cedo. – Ai, Deus! disse Erec, be~ento sejades vós. E, tanto que chegarom ao paaço, deceramse, ca nom podiam entrar alá de cavalos. E, tanto que foram dentro, deu a donzela vozes: – Viinde adiante, senhores, viinde adiante. Ve[e]des aqui Erec, filho de rei Lao que vos trago. No paaço havia gram lume, assi que preto poderia homem veer tam bem como se fosse de dia. E, depois que a donzela deu as vozes, nom tardou muito que o paaço se encheo todo de cavaleiros e de sergentes, mas nom havia i tal que armas trouxesse. E os #III irmãos que eram filhos de rei Dirac, quando viram Erec armado, nom no conoceram, fora que ela lhes deu vozes outra vez: – Veedes aqui que tanto havedes demandado. Ora pareceráo qu[e] i faredes. E eles foram espantados quando viram que desarmados estavam ante Erec, que estava armado, que tinham por mortal emmigo e por mui boo cavaleiro e de gram nomeada. E Erec, que os desamava mortalmente, meteu mão a espada tanto que os conoceo e deulhis vozes: – Traedores falsos, vós me matastes meu padre a traiçom. Esta noite vos chegará a hora em que receberedes ende o galardom. Entom ergueo a espada e firiu o maior tam rijamente que o fendeo atés as espáduas. E Meraugis er matou o outro. Quando o terceiro esto viu, quis fugir, mais Meraugis o ante matou cabo dos outros. Entom se levaram as vozes mui grandes e a volta polo paaço. E quiseram fugir todolos outros do paaço, mais os dous cavaleiros, que eram bõõs e vivos, nom quiseram que escapassem em salvo Título Fólio 289104d e firiram da uma parte e da outra e matarom e achagarom e fezeram muitos deles saltar polas freestas e fezeram tanto em pouc[a] d’hora que entre chagados e mortos forom mais de #LX e tevero[m]nos em tam [gram] coita que nom ficou no paaço ne~hu~u~ vivo, fora eles todos três Erec e Meraugis e a donzela– que nom fossem mortos ou presos. Título Fólio 290104d [Como foi mui gram volta no castelo.] A volta foi mui grande polo castelo, ca u~u~s diziam: – Armas! Armas! E outros: – Valia! Valia! E leixaramse ir ao paaço todos por combaterem a quem lhis tanto dano fezerom. E por tanto que ouvirom dezer que aquel era Erec, filho de rei Lac que per direito deveria a seer seu senhor e do castelo e de muitos outros, perderom mal [t]alam e fastaromse fora; e os que eram mais sisudos começarom a dezer aas gentes: – Senhores, que queredes fazer? Sabede que Deus nos fez mui fermoso milagre e nos enviou a mais fremosa [cousa] que nunca enviou a gente, ca nos enviou nosso senhor natural que per sa proeza nos livrou de gram servidõe em que estes nos tiinha[m] per sa força. Ora nom havemos que tardar mais: vaamos a ele e peçamoslhi mercee e fazamolo senhor deste castelo, assi como deve a seer, e tornarxenosá em honra e seremos havidos por leaes. Título Fólio 291104d Como os do castelo houverom mui gram prazer com Erec. Em esto se acordarom todos e enviarom ao paaço aquel que acharom antre si por mais sisudo e por milhor razoado. E aquel fez tanto em pouco de hora que falou com Erec e com Meraugis, assi que a paz foi feita antre os do castelo e Erec. Erec foi mui pagado da preitasia e recebeu os do castelo por seus home~e~s e eles ele por seu senhor, e fezeram logo sacar os mortos do paaço. Meraugis os fez deitar nas alcárcovas de fora da vila, ca disse que treedores nom deviam a seer soterrados a ho[n]ra, mais como cães. Depois que esto teveram feito, a ledice Título Fólio 291105a foi tam grande antre eles que era maravilha. E os home~e~s bõõs velhos, quando conocerom Erec, choravam com ele de piedade e diziam: – Senhor Deus, beento sejades vós, que nosso senhor nos aguiastes aqui, ca maior ledice nem maior bõa ventura nom nos poderia em tam pequena hora vi~ir. Entom fezeram viir ante ele sua irmãã que tiinham os treedores presa. E, tanto que ela viu seu irmão e o conoceu, houve tam gram ledice que nom poderia homem contar; e fazia gram dereito, ca o amava mais ca outra rem do mundo. E ele foi mui ledo quando a viu e be~enzeu a Deus, que o ali adussera, que lhe amostrara sua irmãã. Título Fólio 292105a [Do sonho que sonhou Erec.] Muito foi grande a ledice que os do castelo fezerom aquela noite. E fezerom u~u~ leito a Erec, o mais rico que poderom, e a Meraugis outro preto dele. E pois Erec se deitou e dormeceu sonhou u~u~ sonho mui espantoso e direivos qual é. Semelhoulhi que estava em u~u~ chão ermo em que nom havia ervas nem árvor nem flor nem fruito nem rem per que homem podesse viver. E estando em aquel chão muito espantado do que via, viu vi~ir contra si u~a loba que tragia u~u~ cordeiro na boca e dizialhe: – Erec, mata este cordeiro, ca a ti convém a fazêlo. E ele o matava, mais mui da envidos, e partias’em logo e leixava a loba. E depois, a cabo de u~u~ pouco, vi~ia após ele u~u~ lobo que o cometia e o espedaçava em mais de cem partes e comiao. Título Fólio 293105a Como a donzela pediu a Erec a cabeça de sua irmãã. Tal foi o sonho que Erec sonhou aquela noite. E houve atam gram espanto que se espertou e assinouse muitas vezes e fez sua oraçom a Deus e a Santa Maria e a todolos santos que o guardassem de maa andança e de maa ventura. Toda a noite pensou em esto tanto que nom pôde dormir. E quando foi dia ergueuse ele e Meraugis e foram ouvir missa de Santo Espírito. Aquel dia, seendo todos comendo Título Fólio 293105b a gram ledice e a irmãã de Erec, que era mui fremosa e mui pagadoira, seendo a cabo de seu irmão, aveo que, per maa ventura, que a maa donzela entrou, aquela que levou i Erec e Meraugis. Quando ela viu Erec cabo de sua irmãã seer, foi a ele e disselhi: – Erec, vós me devedes u~u~ dom, qual vos onte eu amentei, e quero que o saibam quantos aqui estam. – Verdade é, disse ele; e, se Deus quiser, nom vos hei de mentir. – Pois, disse ela, atenderei ataa que veja tempo e sazom de o pidir. – Bem quero, disse ele, que atendês quanto vos aprouguer, ca se vos mentir do que vos prometer quero que me faleçades cando vos chamar. Assi o disse Erec e achouse tam mal pois que bem quisera seer morto. Ca, tanto que as mesas foram irguidas, foi a maa donzela ante Erec e disselhi: – Erec, eu te peço a cabeça dessa donzela que see a cabo de ti. Quando el esto ouviu, foi tam espantado que lhe faleceo o coraçom. Empero disse: – Ai, donzela, por Deus, mercee! Prendavos piedade de mim e dela ca, se eu minha irmãã matasse, e de mais tam fremosa donzela e tam pagadoira, esta seria a maior traiçom, que nunca fez cavaleiro em esta terra. E ao meos se vós por Deus e por mim nom queredes dela haver mercee, havede mercee porque é tam fremosa; ca, a meu ciente, nunca tam fremosa donzela vistes. – De sa beldade, disse ela, nem mim chal, ca esta é a rem do mundo que eu peor quero. Que me tenhades o que me pormetestes. Título Fólio 294105b Como Erec rogou a donzela que lhe nom aprouguesse matar sa irmãã. Quando Erec esto viu, ergueuse, de tam alto como estava, leixouselhi caer aos pees e disselhi chorando: – Ai, bõa donzela! Havee mecee de minha irmãã e eu me tornarei teu servo e quantos de mim terra teem; e leixaia ca, se ora morrer, a perda será grande e eu seerei ende escarnecido e tu, amiga senhora, nom ganharás i rem. Bem outrossi diziam todolos do paaço e braadavam e chamavam mercee, em guisa que nom há homem que os visse quem nom devesse a haver deles doo e piedade. Título Fólio 294105c E a donzela, com lágrimas e com choros: – Mercee, mercee, donzela aviziboa! Nom leixes morrer tam fremosa creatura como esta donzela é. Mais aquela em cujo coraçom nunca entrou piadade, quando viu que a rogavam tanto, muito foi mais brava e mais rugulosa e disse: – Toda via nom val rem, nom farei rem por vosso rogo. Ou eu haverei a cabeça desta donzela ou Erec me mentirá do que me prometeo. E quando Erec viu que nom podia al achar em ela, respondeu chorando muito: – Ai, donzela aleivosa e traedor, em mau ponto foi esta promessa outorgada, ca eu seerei mais escamido que nunca foi cavaleiro; e tu nom gaanharás i rem ca, se Deus quiser, ainda por em morrerás de maa morte. – Nom vos em cal, disse ela, mais fazede o que devedes ca, em outra guisa, nom vos quitarei. – Nom? disse el. Muito me pesa. Certamente mais quisera morte ca esto me viinir. Título Fólio 295105c Como a irmãã de Erec rogava seu irmão que nom a matasse e todolos do castelo o rogavam. Entom se ergeu com tamanho pesar que bem quisera seer morto e disse a sa irmãã: – Irmãã, fremosa creatura, que farei de vós? Ca nom posso estar que vos nom mate. Maldita seja a aventura que me aqui adusse a meu pesar e a mia morte u coidava a vi~ir a meu bem e a mia honra. Quando a donzela esto ouviu nom foi pequeno o medo que houve, ca duvidava sua morte como quem quer, e leixouse caer a seus pees e disse chorando: – Irmão, have de mim mercee e lembrate que som tua irmãã de padre e de madre e que te nunca mereci que me matasses; e acordate no direito que hásde fazer ca, se me matares assi, farás o maior pecado e a maior vileza que nunca cavaleiro fez. E, se por al nom é, develo leixar porque som donzela e tal cavaleiro como tu nom deve meter mão em donzela por rem que avenha. E os do paaço disserom entom todos a u~a voz: – Ai, Senhor, havede mercee de vossa irmãã. Nom fazades a gram bravura que esta desleal donzela vos conselha. E ele disse entom: – Que dizedes, senhores? Desto nom pode escapar, fora se me matardes. Ca, em mentre viva, nom s[a]irei de promessa que prometer; mais se [me] Título Fólio 295105d matardes ficará ela. Ora fazede qual teverdes pro melhor: ou me matade ou matarei eu ela. Ca mui de coraçom quero eu receber esta morte, ca outrossi nom seerei ja mais leal cavaleiro. Depois que esta crueza fezer, nom valerei u~a palha. Título Fólio 296105d Como Erec talhou a cabeça a sa irmãã e como a deu aa donzela. Os que em no paaço estavam nom sabiam que dizer, ca seu senhor nom matariam eles em ne~hu~a guisa. E tiinhamno por tam bõõ cavaleiro e por tam bõõ homem que poderia ainda a maior honra chegar ca a donzela. Meraugis, que havia tam gram pesar que se nom sabia conselho, disse a Erec: – Ai, dom Erec, em mentre sejades vivo seredes escarnicido se matardes assi vossa irmãã por u~a desleal donzela. E pois disse Erec: – Que farei do que prometi? Entom se foi a u~a câmara e filhou sa espada e pois tornouse ao paaço com gram pesar, que bem queria que do ceu caesse corisco que o ferisse. E quando chegou a sa irmãã sacou a espada. E ela toda via pediulhe mercee e disse: – Ai, irmão Erec, por Deus, mercee. Cata que nunca mereci morte; e se me nom queres leixar por Deus e por ta cavalaria, ao menos cata que som donzela tam fremosa como tu vees e som loada de beldade sobre todalas donzelas da Gram Bretan[h]a. Ele respondeu com gram pesar: – Irmãã, tod’esto rem nom val nada; a morte vos convém. Mais esto que me dezedes me fará morrer de pesar, se cavaleiro deve de pesar morrer. Entom ergeu a espada e tornou o rostro a outra parte, como aquel que nom podia veer tam gram coita. Ela estava já toda desacordada, que se nom podia guardar ao golpe; e ele a firiu. tam rijamente que l[e] fez a cabeça caer mais longe de u~a lança e o corpo caiu em terra. E ele disse logo aa donzela: – Donzela maldita, escomungada, a mais aleivosa donzela que nunca sobiu em palafrém, ora filhade vossa promessa e Deus vos leixe tal prazer haver como fezestes haver a mim. E ela foi logo aa cabeça e filhoua e disse: – Ora hei o que queria. Er disse a Erec ante todos: – Tu me profaças de traiçam; mais certamente nom me devem em tanto profaçar como ti; ca se tu nom fosses mais aleivoso cavaleiro Título Fólio 296106a ca outro nom mataras assi tua irmãã por u~a soo palavra que me prometeste. Entom se saiu do paço e levou a cabeça e sobiu em seu palafrém. Mais nunca vistes tam gram doo nem tam grandes vozes como iam fazendo depós ela quando virom que levava a cabeça. E, se a ousarom a matar nom na leixaram em ne~hu~a guisa que nom fora dela cem peças. Mais aaquele tempo era custume na Gram Bretan[h]a que nengu~u~ nom meteria mão em donzela mandadeira se nom quisesse perder honra por todolos dias da sa vida ou se nom fosse cavaleiro endiabrado. Título Fólio 297106a Como a donzela que levou a cabeça foi queimada de corisco. Assi se saiu a maa donzela do castelo o mais toste que pôde ca houve pavor de irem pós ela os do castelo e lhe fezessem mal. Mais ela nom se alongou do castelo mais de #III treitos de beesta que aveo ende u~a aventura maravilhosa. E esto foi sem falha milagre, ca veeo do ceu u~a gram nuvem chea de fogo e de chama que se pôs sobola donzela e sobre seu palafrém. E, quando ela viu que a filhava o fogo a ela, deu grandes vozes e dooridas assi que os do castelo a ouviram. E mais cedo quedarom sas vozes ca em pouca dura foi queimada e partiuse a nu~vem dela assi que os do castelo virom ela e seu palafrém jazer queimados. Título Fólio 298106a Como acharam a cabeça da irmãã de Erec sãã. Esta maravilha, como a viram, todos do castelo veeram e acharom a maa donzela e seu palafrém queimados; mais a cabeça de sua irmãã ,de Erec, era tam sãã que sol u~u~ cabelo nom ardeo em. E disseram todos: – Ai, Deus! Como aqui há bõõ milagre e fermosas virtudes! Ora parece a lealdade da nossa donzela e a traiçom desta outra. Entom fezerom gram doo e gram chanto sobola cabeça da donzela e derom graças a Deus da fermosa vingança que passa da maa donzela. Quando Erec, que ainda no paaço estava fazendo seu doo ouiu esto, disse a Meraugis: – Que vos semelha desto? E el respondeo: – Eu cuido que Nosso Senhor nom é muito ledo do que vossa irmãã recebeo em dandolhe vós morte. E se vos Título Fólio 298106b por em cedo nom vem mal nunca creerei cousa que meu coraçom diga. E Erec, que havia tam gram. pesar que nom sabia que fezesse, respondeo: – Certamente, amigo Meraugis, se a vingança de Nosso Senhor veesse tam coitadamente como meu coraçom desejaria, nom tardaria rem, ca certamente eu queria já que veesse corisco que me ferisse assim como fez a maa donzela e que todos os deste castelo vissem ende a vingança. E Meraugis respondeu entom: – Dom Erec, a morte nom vem segundo a vontade do pecador nem daquel que a deseja, mais assi como Deus quer. – Ai, cativo! disse Erec. Que mal errei! Que mal ofendi! Que mal me matei! _ Todo esto foi per vós, [disse] Meraugis. Nunca per meu rogo nem polos home~e~s bõõs daqui quisestes fizer rem. E eu bem tenho que vos vi~inrá mal. – No me poderia, disse ele, tanto mal vi~ir que eu mais nom merecesse. Entom pidiu suas armas, que nom quis mais ali ficar. E os do castelo lhas derom mui da anvidos, ca nom quiseram que tam toste se partisse deles. E Meraugis, quando o viu armar, disse que por ele veera ali e com ele se quiria ir. E armouse e sobiu em seu cavalo, depois que Erec sobiu no seu, e partise do castelo. Título Fólio 299106b O doo e a coita que Erec havia porque matara sa irmãã. Assi se partiu Erec de seu castelo u sa irmãã matou. E andou todo aquele dia chorando e fazendo gram doo, que nom há homem que o visse que o nom tevesse por sandeu. Aquele dia, quando começou a noitecer chegarom aa entrada de u~a foresta e entraram dentro e andarom tanto que chegarom a u~u~ vale fondo e cheeo de mato espesso e mau d’andar. E acharom sobelo caminho u~a casa velha e erma e o mais dela era caída. E Erec que andava com tam gram pesar que nom podia maior e leixara já seu doo por u~a cousa em que ia pensando. Ca pensava que se partiria de Meraugis, se podesse; e, se se dele partisse, sempre andaria soo e faria seu doo e seu chanto tá que houvesse de morrer, que per jeju~ar, que per velar, que per fazer seu doo. Nem ja mais nom haviria companha com el nem com outrem. “E esta seria a vingança que poderia tomar per sa irmãã que matou”, disse el. Título Fólio 300106b Como Erec se partiu de Mera[u]gis por o doo que i[a] fazendo. Título Fólio 300106c Enesto ia Erec pensando quando viu a casa erma. E pensou de ficar i. E tanto que Meraugis dormisse que se partiria dele e irs’ia a logar u [o] achar nom podesse, pero o buscasse. E assi poderia, dês ali, andar soo e fazer o que pensava. Tanto i chegarom, disse a Meraugis: – Amigo, sentome já tanto lasso, e de grado me desceria, se vos prouguesse, e folgaria aqui u~u~ pouco. E de mais que é já preto de noite e de noite nom faz bõõ cavalgar. E Meraugis foi em mui ledo, ca bem cuidou que o dizia por folgar, ca nom sabia o que el cuidava. E decerom logo e tolherom de se os escudos e as lanças e os elmos por folgarem mais e leixarom os cavalos ir pacendo e deitaromse eles sobola erva. E Erec nom dormia, ca pensava em al; e Meraugis adormeceu toste, ca nom cuidava que o Erec leixasse. Quando Erec soube verdadeiramente que Meraugis dormia, enfreou seu cavalo e deitoulhe a sela e filhou sas armas e cavalgou e tomouse polo gram cami~o per u veera. Toda a noite andou, desviand[o]se per u viia mais espessa a foresta, ca nom queria que em ne~hu~a guisa o achassem, ca havia sabor de andar soo e de fazer seu doo e seu chanto por sa irmãã. E pensou de nom comer e de se dar sempre a coita, ca bem esmava que per ali poderia mais cedo morrer. E esto queria el de grado, ca lhi semelhava que bem seeria per ali vingada a morte de sa irmãã. Título Fólio 301106c Como Erec chegou a casa da empardeada u havia cinco dias que nom comera. Assi andou todo aquele dia e outro, u~a hora d’acáe outra d’alá, desviandose. E aos #V dias chegou, assi como a ventura o levava, a casa de u~a empardeada, e esto foi u~a noite ante que aluzecesse. E ele era já entom muito lasso e mui vão, e nom era maravilha ca #V dias havia que nom comera nem folgara, andando fazendo doo. E seu cavalo era tam lasso que adur o podia trager. Quando el chegou aa cela nom cuidou que i jazia homem nem molher. E pero, porque se sentia lasso e que via que seu cavalo lhi falecia muito, deceuse e leixou[o] ir pacendo per u quisesse. E el tolheo seu escudo e seu elmo e deitouse sobola erva ante a frestra da empardeada e dormeceu. E era tam coitado de lassidu[r]a e de Título Fólio 301106d nojo que dormiu tá outro dia hora de meo dia. Título Fólio 302106d Como Erec fazia doo por sua irmãã que matara e como o confortou a empardeada. A hora de meio dia espertouse Erec e lembroulhe de sa irmãã onde lhe nom podia esquecer o pesar, e começou a fazer seu doo tam grande que nom há homem que o visse que o nom tevesse por maravilha. A empardeada, que o catara muito em mentre dormia, quando lhe viu seu doo fazer tam grande, maravilhouse que poderia seer, ca bem vira ela que nengu~ nom lhi fezera pesar per que o devesse a fazer. Entom o chamou e disselhi: – Ai, cavaleiro, que tal doo fazees! Si Deus te guarde, fala, amigo, e dimi unde este pesar te veeo, se pode seer que mo devas a dizer; ou se é cousa em que te possa conselhar, conselhart’ei. Quando el ouviu falar, maravilhouse, ca nom cuidava que ali havia homem nem molher. E catouse a redor como espantado e, quando viu a empardeada, leixou seu doo e disse: – Dona, que vos praz? – Por Deus, disse ela, dizedeme algu~u~a cousa de vossa fazenda e unde este doo vos vem, ca de grado o queria saber. – Dona, disse el, eu volo direi. Eu som u~u~ cavaleiro mal aventurado e cativo e o mais desleal de que nunca ouistes falar, ca eu fiz a maior aleive que nunca fez cavaleiro. E contoulho todo. E, pois lho contou, houve a dona mui grande pesar e disselhi: – Senhor cavaleiro, pois que assi vos aveo e veedes que nom pode já i al seer, vós vos havede a confortar o mais que poderdes e rogar a Nosso Senhor que vos perdoe. Ca, certas, fazerdes doo como começastes nom vos verrá senam mal, nem Deus nom volo gradecerá, nem homem nunca foi teu´do por tam astroso como vós seredes se morrerdes em tal guisa. Título Fólio 303106d Como a empardeada disse a Erec como se chegava a sua morte. Tanto lhi disse a dona e tanto o castigou que já quanto leixou seu doo. Disse: “E pero creo que nunca prazer haviria”. Depois al disse aa dona: – Dona, se me esta maa entençom me veeo nom é maravilha ca, certas, a noite ante aquel dia que eu minha irmãã matasse, me veío u~u~ grande sonho que nunca de tal oui falar. E tanto houv’i gram espanto que Título Fólio 303107a me espertei. Entom lhi devisou qual fora o sonho. – E se o eu soubesse soltar como outros sabem, eu volo soltaria, mas nom praz a Deus que as sas cousas ascondidas sejam descobertas. E pero tanto vos ouso dizer que vossa morte se chega mui fortemente. E por em vos digo eu em direito conselho que vos menfestedes bem e, que de boca que de coraçom, peçades mercee a Nosso Senhor. Ca vossa morte se chega, e matarvosá u~u~ cavaleiro mui bravo e mui desleal. E esto nom tardará. Título Fólio 304107a Como Erec se partiu da empardeada e como lhe deu que comesse a empardeada. Quando el esto ouvio começou mais a pensar ca ante, ca aquela que sa morte devisava faziao espantar. E pero a cabo de u~a peça, disse: – Dona, por Deus, sabedes vós quem é o que me háde matar? – Certas, disse ela, nom. Eu nom sei mais de quanto vos disse. – Pois, disse el, seja todo a vontade como Nosso Senhor quiser. Pero pois que minha morte háde seer per armas, eu vejo bem e sei que nom poderia morrer em maior serviço de Deus ca em na demanda do Santo Graal. Ca se eu moiro tam bem manifestado como som e com tam gram pesar de meus pecados, sei bem que Nosso Senhor me haverá mercee e meu linhagem haverá maior honra em tal morte ca se morresse em outra guisa. E por em leixarei meu doo o mais que poder e entrarei na demanda do Santo Graal com meus companheiros. E pero, porque som lasso mais ca mester me seeria, ca nom comei #V dias há, rogovos que me dedes algu~a cousa que coma. E ela lhi deu u~u~ pam d’orjo mui negro e mui duro e mui mau pera comêlo tal homem como Erec era, mais pero comêo el mui asinha, como aquel que fame coitava. E pois que tomou o pam foi a seu cavalo e cavalgou e comendou muito a dona a Deus e ela el. Disi, cavalgou pola foresta já passo, polo cavalo que nom sentia tam arrizado como soía seer. Em tal guisa andou u~u~ tempo sem aventura achar que de contar seja. Mais ora leixa o conto de falar dele e torna a Meraugis, por contar como el e Título Fólio 304107b Estor houverom companha e como acharom depois Erec em terra no Chão Doroso unde ne~hu~u~ cavaleiro bõõ nom se podia partir sem pesar. Título Fólio 305107b [Como Meraugis se espertou e nom achou Erec.] Diz o conto, depois que Meraugis ficou u Erec o leixou, assi como a estória o devisou já, que dormiu toda a noite. Pola manhãa, quando saio o sol, espertouse e catou darredor de si. Mais, quando nom viu Erec, ergueuse toste e andouo catando de u~a parte e da outra. E quando o no[m] pôde achar, esmou logo que se partira dele por fazer seu doo em seu cabo e por morrer longe de gente a desonra e a viltança. Título Fólio 306107b [Como Merauguis fazia seu doo.] Com esta coita de Erec houve Meraugis tam gram pesar que nom soube i conselho haver. E começou a fazer seu doo e seu chanto por Erec, pola gram bondade que el entendia, e disse: – Ai, bõõ homem, bõõ cavaleiro, bõõ d’armas, bõõ d’ardimento, bõõ de cortisia, ensinado, mesurado, prol, paação, do milhor donairo que nunca foi cavaleiro! Ora vejo eu que vos partistes de mim por fazerdes vosso doo e por vos afolardes e matardes e por nom veer vossa coita nem vossa morte nem por veer ende o pesar que ende haveria. Bem amostrades vossa cortisia! Assi dizia Meraugis contra si meesmo com tam gram pesar de seu partimento como se fosse seu irmão. Título Fólio 307107b [Como Estor pediu justa a Meraugis.] Meraugis estando no caminho u se Erec dele partiu, aquevos vem u~u~ cavaleiro per meo de u~u~ chão, armado de todas armas. E digovos que este cavaleiro era Estor de Mares. Quando Meraugis o viu vi~ir chegando, cuidou que nom queria fora demandar [ju]sta e filhou seu escudo e sa lança e subiu em seu cavalo o mais toste que pôde. E esteve em meo do caminho que, se a el quisesse demandar, que fosse guisado de se defender. E Estor, quando o viu assi estar na carreira, disse em seu coraçom: “Este cavaleiro nom demanda senom justa; el me teeria por mau e por covardo se me assi fosse sem mais fazer”. Entom deu vozes a Meraugis que se ti~ia por muito ardido e por muito arrizado. Respondeo: – Pois que vós de justa me perguntades, nom vos falecerei a meu poder. Entom se leixou u~u~ ir ao outro e feriramse tam Título Fólio 307107c rijamente que as lanças avoaram. em peças. Meraugis caiu em terra mui britado, ca muito caiu gram queda, e Estor ficou em seu cavalo, que era muito acustumado de caer. E Meraugis, quando se viu em terra, ergeose tost[e] mui vergonhoso desta aventura e meteu mão a espada e guisouse de se amostrar polo milhor que podesse, ca bem viu que aquel que o derribara que nom era mene~no. E quando Estor viu que se guisava de batalha assi a pee como estava, prezouo mais que ante e esmou que [e]ra algu~u~ dos da Mesa Redonda. E por em quis saber ante quem era que i mais fezesse, e disselhe entom: Título Fólio 308107c [Como Estor nom se quis combater quando soube que Meraugis amava Erec.] – Senhor cavaleiro, vós estades a pee e eu a cavalo, e ainda com tal andança queredes a batalha? E el disse que verdadeiramente a queria, ca em outra guisa seerlheia desonra. – Assi? disse Estor. Pois rogovos pola fé que devedes a toda cavalaria que me digades quem sodes e que andades buscando, ca tal poderedes seer que me combaterei com vosco e tal que nom. – Senhor, disse Meraugis, já meu nome vos nom será coberto, pois mo demandades. Sabede que hei nome Meraugis e som de Cornualha, e ainda nom hei feito tanto como deseja meu coraçom pagado nem onde haja minha nomeada. E pero acompanharame com u~u~ cavaleiro pouco havia pola gram bondade que em el vira. Entom lhe contou todo como fora. – E como havia nome?, disse Estor. E el lhe nomeou o seu. E tanto que Estor ouviu a Erec a ventura e andança que houve[r]a houve mui gram pesar, ca ele amava Erec de mui grande amor, como o conto vos devisou. Entom disse a Meraugis: Vós buscades u~u~ homem que eu amo sobre todos lhos cavaleiros de minha linhagem. E pois que vós tanto amades como mi dizedes, eu som aquele que per ne~hu~a guisa nem per nenhu~a razom nom me combaterei com vosco se nom fosse mortal desamor. E por em vos perdoo esta batalha ca, se Deus quiser, nom farei i mais e me dou por vincido. Entom deceu e tirou sa espada e disse: – Dom Meraugis, filhade esta espada que vos dou e, se vos praz, tenhome por vincido desta batalha. – Senhor, disse Meraugis, esto nom farei eu, se Deus quiser, que eu dato receba honra ca certamente vós sodes melhor cavaleiro ca eu. – Ora me dizede, disse Estor, o que vós queredes fazer em preito de Erec. – Senhor, disse el, eu me quero partir o mais cedo que poder e buscálo tá que o ache. – Pois rogovos Título Fólio 308107d disse Estor, que vos praza de vos teer companhia em esta demanda. Ca, se o vós buscar nom quiserdes, eu o buscarei atá que o ache polo confortar desta maa andança que lhe aveo. E Meraugis disse que de sua companhia era el muito ledo. Título Fólio 309107d [Como Estor e Meraugis buscavam Erec.] Em tal guisa se acompanharam Estor e Meraugis por irem buscar Erec. E, pois que cavalgaro[m], disse Estor a Meraugis: – Sabedes per u se foi? – Nom disse el, que nom vejo sê rastro nem ar sei quando se de mim partiu. – Pois vaamos, disse Estor, u aventura e Deus nos leve u o achemos. – Assi o mande Deus, disse Meraugis. Entom filharom seu caminho e andarom assi como aventura os guisava gram tempo sem aventura achar que de contar seja. Mais ora leixa o conto de falar deles e torna a Erec, por contar em que guisa foi morto. Título Fólio 310107d [Como Erec chegou a u~u~ castelo u faziam gram festa.] Quando Erec se partiu da empardeada andou gram saçom, assi como o conto diz, que nom achou aventura que de contar seja. E u~u~ dia, a entrada d’Agosto, lhi aveo que aventura o adusse preto de u~a foresta ante u~u~ castelo que estava em u~a veiga. Os do castelo faziam aquel dia gram festa por oitavas delrei, que presara coroa aquela domãã. E era assi posto em aquele dia, porque sabiam que passavam per ante aquel castelo cada dia cavaleiros andantes, que, se algu~u~ cavaleiro da terra ousasse provar de justar com quantos per i passassem aquel dia e se os dir[r]ibasse, que lhi dariam em galardom u~a coroa tam rica como a de seu senhor e u~a donzela, a mais fremosa que el escolhesse em toda a terra. Título Fólio 311107d [Como Galvam demandou justa a Erec.] Galvam o dia dante aquel veera a aquel posto e, tanto que viu a donzela que deveria haver em galardom daquel dia aquel a que Deus desse a honra daquele posto, pagouse dela muito, ca sobejo era de gram beldade. E atendeo tanto que u~u~ cavaleiro da terra soube o posto que poseram; e quando el viu que o cavaleiro filhou sas armas por gaanhar o preço daquel dia, Galvam foi i tam escondidamente como se fosse u~u~ pobre cavaleiro e pidiulhe justa. E o cavaleiro, que o nom preguntava rem, justou com el, e foi assi que o derribou Galvam e que o chagou a morte. Os da festa veerom a el e preguntaromlhi quem era; e el se nomeou. E quando eles ouviram que el era Galvam, u~u~ dos ardidos cavaleiros do mundo, disserom que el haveria esta honra que o cavaleiro começara e que defendesse aquel jornal dos cavaleiros que per i passassem. Título Fólio 311108a E el disse que assi o faria se nom veessem per i dous cavaleiros da Mesa Redonda. Assi estava Galvam em aquela festa a fiu´za d’haver aquela donzela que vira na festa. E quando veeo a hora de noa, que diziam todos que haviria Galvam aquela honra, aquevos vem Erec u~u~ pouco depós aquela hora, soo, assi triste e lasso e coitado como vos já disse. Galvam, que o nom conheceu polas armas que havia cambadas, demandoulhe justa. Título Fólio 312108a [Como Erec derribou Galvam.] Quando Erec entendeu que a justar lhi convi~I~a, disse que lhi nom era mester, ca seu cavalo era já tam magro e tam lasso que nom podia já estar. E pero disse: – Pois que al nom pode seer, ante quero justar ca me ir assi com vergonha. Galvam estava sobre u~u~ cavalo grande e fremoso e mui boo. Mais por Erec, que nom tragia lança, duxeromlha os do castelo u~a mui boa. Entom se leixou ir u~u~ ao outro e Galvam feriu Erec de toda força tam feramente que fez sa lança voar em peças, mais outro mal nom lhi fez. E Erec, que era de maior força ca el, o feriu tam rijamente que o meteu em terra do cavalo; mais outro mal no lhe fez e a lança voou em peças. E os do campo, que todo esto viiam, começarom a escarnecer e dar tam grandes vozes de todas partes que nom ouviria i homem torvam, se o fezesse. Título Fólio 313108a [Como disserom a Erec que ganhara u~a donzela e nom na quis.] Quando Erec viu Galvam em terra no no conh[oc]eu polas armas que havia cambadas, ca muitas vezes as cambara depois que entrara na demanda do Santo Graal. E foi ao cavalo de Galvam e sobiu em el e leixou o seu em que ti~i~a pequena prol. E quando o viu ir Galvam, houve tam gram pesar e tam gram vergonça que se nom soube dar a conselho. E u~u~ cavaleiro desarmado, daqueles que guardavam a festa, quando o viu assi ir, disselhi: – Ai, senhor cavaleiro! Se vos praz, atendede u~u~ pouco atá que fale com vosco. E el esteve logo e o cavaleiro o preguntou: – Senhor, porque vos ides? Certo, se vós soubéssedes o que havedes gaanhado em esta justa, ficaríades de grado e seríades em mui ledo quando o soubéssedes. Entom lhe contou todo assi como o conto hájádevisado. Quando Erec esto ouviu, disse: – Senhor, nom vos pés do que vos direi. Sabede que eu nom f[i]lharia Título Fólio 313108b agora a mais fremosa donzela do mu[n]do que ma dessem, ca tanto de mal e de pesar me veo, pouco tempo há, per donzela, que nom há donzela do mundo que me filhasse. E por em comendovos a Deus e toda vossa companha, ca me vou coitadamente, porque hei alhur muito que fazer. – Como? disse o cavaleiro, assi enjeitades esta honra que Deus vos deu? – Si, disse el, a enjeito de todo em todo. – Ao meos, disse o cavaleiro, por cortesia, dezedeme como havedes nome. – Hei nome, disse el, Erec, filho de rei Lac. E partiromse logo ambos. Título Fólio 314108b [Como Galvam pensou que se vingaria de Erec.] Erec se partiu e foise quanto se pôde ir contra a foresta, ca de grado queria já seer dentro. E o cavaleiro se tornou a sa companha e contoulhis as novas que achara. E quando Galvam ouviu que aquele era Erec, que o assi confundera ante tantos home~e~s boos, houve tam gram pesar e tam gram vergonça que ante quisera seer morto ca vivo, ca nom cuidava que podesse seeer tam boo cavaleiro. E pensou que se vingaria dele como nunca cavaleiro vingou de outro; nem já porque era companheiro da Mesa Redonda nom no leixaria que lhe a cabeça nom talhasse. E colhêlhe u~a tal sanha que nunca home mais mortalmente desamou outro. Aquel dia esteve em aquel castelo com maior pesar ca demostrava. E em outro dia, quando se partiu, deromlhi mui boo cavalo polo seu, que perdera, ca bem virom que o de Erec nom valia rem. Pois ele foi armado partiuse deles e foise aa foresta pola carreira per u viu ir Erec. Mais bem sabede que i[a] com tam gram pesar e tam sanhoudo que disse que ja mais nom seria ledo ataa que o achasse. Título Fólio 315108b [Como Galvam achou seu irmão Agravaim.] Ele indo assi com tal pesar, topou com Agravaim, seu irmão. Eles nom se conhecerom polas armas que tragiam cambadas, nem se al demandarom justa, ca viinham ambos pensando muito. E tanto que se chegou u~u~ ao outro, preguntouo Galvam, depois que o salvou: – Senhor cavaleiro, vistes hoje ou ontem u~u~ cavaleiro que trage u~as armas brancas com u~u~ leom vermelho? Agravaim, tanto que ouviu falar seu irmão, conhecêo e disselhe: – Ai, senhor! Bem sejades vindo, ca muito há que vos ando buscando. E Galvam, tanto que conheceu seu irmão, abraçouo e Agravaim ele. E Galvam lhe disse: – Irmão, porque me buscades? – Senhor, disse ele, ca me disserom que jazíades chagado em u~a abadia. – Nom é assi, graças a Deus, disse Galvam. Mais do cavaleiro de que vos pregunto saberíades Título Fólio 315108c dizer novas? – Si, disse ele, eu o achei ooi~te em mal ponto por mim. – Porquê? Disse el, fezvos alhu~u~ mal? Disse el: – Mui grande: derriboume tam bravamente que ainda ora me dol. – E por u se vai? disse Galvam. – Senhor, disse ele, el se vai pelo gram caminho da foresta. Mais pois assi é que o vós buscades, bem sei que nom é sem razom e rogovos que [mo] digades, se vos perguntar. E Galvam lho contou todo. – Pois assi é, disse el, eu quero tomar com vosco e prendamos em vingança qual quiserdes. E Galvam assi outorgou. Título Fólio 316108c [Como Agravaim disse a Galvam que se guardasse de Lancelot e Erec ca havia a morrer per u~u~ destes dous.] Entom tornarom os irmãos ambos e foramse pós Erec e [A]gravaim preguntou a Galvam: – Senhor, sabedes quem é o cavaleiro depós que imos? – Si, disse el: ele é Erec, o filho de rei Lac. Tanto que esto ouviu Agravaim, tirou a rédea e fastouse af[o]ra e disse:  – Par Deus, depós este nom iredes vós per meu conselho. – Porquê? disse Galvam. – Assi é, disse [A]gravaim, nom sei se o sabês vós, mais eu sei verdadeiramente que vós havedes a mor[r]er per u~u~ cavaleiro, mais eu nom sei seu nome, mais pero sei que ou será Lançarot ou Erec. E por esto quero que vos guardedes destes dous. – Quem vos disse esto? disse Galvam. – Senhor, disse el, esto nom descobr[i]rei eu em ne~hu~a guisa. Mais tanto sabede bem que averrá assi, como vos digo, se vos destes ambos nom guardades. – De u~u~, desse Galvam, nom me guardarei eu ca, se mester fosse, meteria el o seu corpo por salvar o meu: e este é Lançarot. E o outro sei eu ca nom é tal cavaleiro que aa cima podesse durar. E por esto nom hei dulta do que me dizedes. – Todo esto nom é rem, disse Agravaim, ca assi háde seer. Ora vos leixade, disse [A]gravaim. – Nom farei, disse Galvam, ca nom seerá verdade. – Muito me prazeria, disse Agravaim. Assi andarom todo aquel dia que nom acalçarom Erec nem acharom quem lhe dele novas desse. E houverom gram pesar em, ca de grado o quiseram achar. Ora leixa o conto a falar deles ambos e torna a Erec por devisar por qual aventura o matou Galvam a aquela saçom. Título Fólio 317108c [Como Erec achou u~a fonte mu~i fremosa.] Conta a estória que, depois que Erec se partiu de Galvam que derribara ante u~u~ homem boo, assi como o conto há já devisado, que cavalgou todo aquel dia tanto que entrou na foresta sem aventura achar que de contar seja. E no outro dia outrossi. Título Fólio 317108d [A]quela noite jouve em casa de u~u~ cavaleiro que morava na foresta, que lhe fez muita honra porque viu que era cavaleiro andante. Na manhãã parteuse e cavalgou todo aquel dia ataa hora de meo dia. E entom lhe veo que achou, cabo do cami~o, u~a fonte mui fremosa assi cercada d’árvores de todas as partes que nom há homem que i entrasse que se temesse de caentura, ca era em Agosto. Erec, que andava mui cuitado da quentura, quando viu a fonte tam fremosa e o logar tam guisado pera folgar, deceuse por se guardar da sesta e por folgar u~u~ pouco. E tolheu o freo ao cavalo e leixou[o] pacer e, disi, tolheo o elmo e a avantalha e asentouse cabo da fonte e catou a água que era mui fremosa e mui clara, e pensou que folgaria ali tá que a sesta saísse. Título Fólio 318108d [Como Erec viu vi~ir três donzelas e u~a dona.] Entom se deitou sobola erva e começou a pensar mui feramente, e el pensando tornouse de bruços. A cabo de u~u~ pouco achouse tam mal treito que nom podia tirar a si pee nem mão nem ne[m]bro que houvesse, e perdeu a fala. E maravilhouse que poderia seer, ca nom via preto di si homem nem molher que o en[c]antasse. Ele jazendo em tal coita viu vi~ir contra si a[a] fonte #III donzelas e u~a dona velha sobre mui boos palafre~e~s. As donzelas todas #III andavam guisadas como se andassem a caça, ca algu~a tragia u~u~ corno mui fremoso e mui rico; a outra, u~u~ arco com seu coldre de saetas; e a terceira um corço trouxado. A dona nom tragia rem, que era sa senhora. Tanto que chegarom aa fonte, decerom e atou cada u~a seu palafrém per essas árvores e tolherom dês i o que tragiam por folgarem. E cuidarom de Erec que dormia; mais a dona, que mais sabia ca elas, nom no cuidava: aquel[a] soube bem que nom dormia. E se alguém quiser preguntar unde aveera a Erec que era tam mal treito, eu lho direi a verdade assi como a achei na verdadeira estória. Título Fólio 319108d [Da aventura da Fonte da Virgem.] A verdadeira estória nos diz que esta fonte u aveo assi a Erec era chamada Fonte de Virgem. E esto foi per u~a fremosa aventura de u~a virgem que i aveo em tempo de rei Uter Pandragom Título Fólio 319109a . Havia u~u~ rei em aquela terra que havia nome Nasco. Aquel rei era em aquela vila mui boo home[m] e amava Deus e temiao; e havia por molher u~a mui fremosa dona e mui bõa; e havia u~u~ filho e u~a filha. E o filho era o mais fremoso donzel que homem visse em toda a terra e era de #XVI anos. A filha era a mais fremosa creatura de toda a Gram Bretanha e tanta era a gram nomeada de sa beldade preto e longe que a viinham veer como era fremosa. E, pola gram beldade que havia, a chamavam todos Angélica. E se a donzela semelhava ao povo tam fremosa como vos digo, mui mais fremosa era a Nosso Senhor ca, toda boa obra que podia fazer, faziaa ascondudamente. E nengu~u~ nom poderia haver tam grande sabor nas requezas do mundo como ela havia em Nosso Senhor. E verdade era que ela se entendia mui bem a maravilha de divi~idade, más por graça e por outorgamento de Nosso Senhor ca per ensino de seus meestres. E digovos que seus meestres eram de Roma, u aquela saçam eram as clerizias manteu´das que fora mudada gram tempo havia ante da cidade d’Atenas. Assi metera Deus seu espírito na donzela que os meestres que a ensinavam eram espantados do sem que achavam. [E conhecia a estória] que chamam dos Padres, que devisa gram partida da vida dos padres sanctos e da Trindade. Título Fólio 320109a [Como o donzel perdeu seus cães e seus homens e andou três dias errado.] Que vos direi? Aquela donzela foi a segunda Catelina em ciência e em bondade, aquela cuja vida bem deve seer contada, ca poderia seer enxemplo e espelho a todas bõas gentes que dela ouissem falar. A donzela, assi como vos digo, que Aglinda havia nome, quando chegou a idade de #XIIII anos, foi tam fremosa cousa que era maravilha; e de bondade foi tal como a estória vos conta. Seu irmão, que ainda nom era cavaleiro mais haviao cedo de seer, cavalgava u~u~ dia per u~a foresta u andara caçando e perdera todos seus cães e seus homens, que nom sabia deles parte. E ele estava em meo da foresta em u~u~ logar tam desviado que era maravilha, ca o mato era tam espesso e as carreiras tam maas que nom Título Fólio 320109b sabia qual filhasse. O donzel começou a andar de cá e de lá, buscando carreira que o trouxesse ao caminho, mais em nenhu~a guisa nom podia vi~ir. Assi andou todo aquel dia errado de u~a parte e da outra e aa noite e outro dia que nom comeo nem beveo. A foresta era grande #IIII jornadas de longo e #IIII d’ancho. E, quando veo ao terceiro dia u andava assi coitado, aparecêlhe o demom assi como vos direi. Título Fólio 321109b [Como o donzel chegou aa fonte e lhe apareceu o demo em semelhança de homem.] Ao terceiro dia i aveo que aquel donzel, que havia nome Nabur, chegou a aquela fonte com gram fame e com gram. sede e com maior lazeira ca soia haver, e foi tam, lasso que a poucas lhi fal[h]aria o coraçom. E da outra parte andava com gram pesar por seus homens, que nunca achar cuidava. Entom deceose de seu rocim que era já tal que se nom podia mover; e sentouse sobola fonte e começou a pensar mui f[e]ramente. E see[n]do assi pensando, aquevos u~u~ demo vem que lhe pareceu em semelhança de homem sesudo e que pensa e que há pesar e que é triste; e nom lhe fez semelhança que o conhecia mais de homem desconhecido. E foi aa fonte e fez semelhança de bever, mais nom bevê, ca nunca [a] Escritura nom devisa que o diaboo come nem beve; e pero aquel que o catava e ai[n]da pensava cuidou verdadeiramente que bevera. Título Fólio 322109b [Como o donzel preguntou ao demo toda sua fazenda.] Quando o demo, que assi pensava, catou gram. peça o donzel que outrossi pe[n]sava sobola fonte, nom lhe falou, ante começou a fazer seu doo e, a cabo de u~a peça, disse: – Ai, cativo! Todo meu serviço hei perdido. O donzel leixou entom seu pensar, quando esto ouiu, e começouo a catar, e viuo mais fremoso per semelhar e disselhe: – Amigo, quem sodes, que dizedes que perdestes vosso serviço? O demo respondeo assi como aquel que nunca disse verdade: – Eu som u~u~ homem de estranha terra, mui triste de conselho e da vida. E, se eu podesse em esta terra achar conselho em que me fiasse teeriame Título Fólio 322109c por rico e por vezibõõ, ca eu haveria entom quanto meu coraçom deseja e seeria quite de toda coita e de toda tristeza. O donzel, quando esto oíu, houve sabor de saber a fazenda daquel homem que lhe semelhou tam bõõ, e disselhe: – Se me vós amostrardes vossa fazenda, eu vos conselharei o melhor que poder. E o demo lhe disse: – Nom volo quer[o] dezer, ca é gram cousa, e pola ventura descobri[reis] mais em. – Nom no farei, disse o donzel. – E per que me creerei em? disse o demo. – Eu to jurarei, disse o donzel. E jurou logo sobre toda sa cristandade. – Mas convém, disse o donzel, que tu me digas toda tua fazenda e quem és e sobre que hás mester conselho, ca, certas, eu te conselharei de todo meu poder. – Si farei, disse o demom, ora escuta e direicho todo. Título Fólio 323109c [Como o demo disse que era sua a filha da rai~a.] “Verdade é que eu am[e]i nom há muito, u~a dona desta terra, rica e poderosa, e ela amava a mim outro tanto ou mais. Daquela dona aveo assi que houve de mim u~a filha, a aquela sazam que a rai~a desta terra houve outrossi sa filha. A rai~a, sem falha, fez sa filha matar tanto que naceu, por u~u~ sonho que sonhou que aquela filha havia [a] de matar. E, depois que a matou assi, nom soube que fazer com pavor de a matar el-rei, fora que filhou aquela mia fiha e fezea levar ante elrei e fezlhi entendente que aquela era a sua; e pero, ante que lha déssemos, pormetênos que nola daria cada que lha pedíssemos. Título Fólio 324109c [Como o demo disse que a donzela o nom queria conhocer por padre.] Assi houve a filha alhea em logar da sua, prometendonos todavia que nosla daria quando a quiséssemos. Ora é assi que lha pide e nom ma quis dar e negoume todo o preito, e, de mais, trouxime mal. E a donzela, que sabe verdadeiramente que soo seu padre, nom xe me quer i conocer, ante me disse que lhe i nunca falasse, senom que me faria matar. E este é o gram pesar que eu hei que a mia filha, que é a mais bela creatura Título Fólio 324109d do mundo e a mais sisuda, por em tanto há i e[r]gulho, porque me nom quer conhocer por padre. Ora te peço conselho do que farei e tu me conselha assi como me prometeste. Título Fólio 325109d [Como o demo disse ao donzel que o poeria em salvo se lhe levasse sa irmãa.] O donzel, quando esto oíu, começou a pensar e houve gram pesar de sa madre, que os criara, que fezera aquel[a] aleivosia que o demo dizia. E de outra parte pesavalhi muito daquela que tiinha por irmãã e por aquelo cuidava que nom havia com ela rem de linhagem. E o demo lhe dissi outra vez: – Que me dizês em esto? – Certas, disse o donzel, nom vos sei i conselhar, ca a rai~a é tam poderosa que lhe nom poderedes provar esto que lhe apoendes. E o demo disse: – Tu me poderás i bem ajudar, se quiseres. – Como? disse o donzel, ensiname tu e, se o posso fazer sem torto, fareio. – Eu cho direi, disse o demo. Eu te levarei cras manhãã a casa de teu padre, que é mui longe daqui e há por ti gram coita ca bem cuida que te há perdido. E, quando i fores, di aa donzela que vaa folgar contigo polo prado ao lu~ar que faz mui bõõ. E ela o fará mui de grado, que te ama tam de coraçom que nom há rem que lhi tu digas que por teu amor nom faça. E, se tu [mim] a dusseres ali, já tal dom nom me saberás pidir que te nom dê. O donzel respondeu entom: – Esso nom faria eu per rem, ca seeria traiçom. Disse o demo: – Nom no queres fazer em ne~hu~a guisa e rogandote ende eu? Ora sabe verdadeiramente que nunca tam gram f[o]lia fezeste, e direiche o que te ende avitirá. Tu és enesta foresta em lugar tam desvi~lado e tam longe de toda gente que ja mais a caminho nom irás, ante ficarás aqui como cativo mal aventurado e morrerás de fame e bestas e aves te comerám. E, certas, se me tu outorgasses de grado o que te peço, hoje te poeria em salvo. Título Fólio 326109d [Como o donzel prometeu ao demo que lhe levaria a donzela dali a quatro dias.] Título Fólio 326110a Entom se partiu o demom dele polo meter em maor cuidado e foise per outra carreira. E o donzel ficou na fonte mais cuidando que dante e mui desconfortado de fame e de lazeira, ca já #III dias houvera que nom comera. E nom no cuitava tanto a fame como de que nunca cuidava a achar poblado e que as bestas, tanto que o achassem, o comeriam ali. Entom começou a chorar e a fazer u~u~ doo tam grande que nom há homem que o visse que nom devesse ende a haver piedade. Entom ar tornou o demo a ele em tal semelhança como ante e disselhi: – Mal aventurado, ora vejo eu de ti o que queria veer. Agora parece teu mau siso que tu, per u~a donzela estranha, te leixas aqui matar a coita e a door. O donzel era mui coitado e disse: – Ora me leva a salvo. Eu te prometo que ta leve daqui a #IIII dias u quiseres. – Pois farálo assi? D[i]ssi o demom. E el lho prometeu lealmente, e o demom o guiou logo que o pôs em casa de seu padre. O donzel achou muitos que o receberom mui bem em casa de seu padre e que forom mui ledos com ele, ca muito haviam por el gram pesar. Título Fólio 327110a [Como o donzel disse a sa irmãa que a rai~a lhe mandava que fosse pós ela.] Ao terceiro dia aveo que rei Nascor foi a caçar em aquela foresta meesma e levou consigo a rai~a e muitas donzelas por folgarem e seerem viçosas com ele. Ao donzel nom lhe esquecia o que prometera ao demom, ante pensava como lhe poderia dar cabo. E foi com elrei e com a rai~a atea a foresta. [Dês i] tomou a sa irmãã e disselhi: – Irmãã, cavalgade e u~u~ de vossos maestros com vosco, ca vos manda a rai~a que vaades pós ela por veerdes o sabor da caça. Aquela, que nom ousou em dizer contra o mandado de sa madre, cavalgou, pero que o nom havia em custume. E, pois entrarom na carreira, o donzel foise per outra parte, ca nom per u os caçadores foram, e foise dereitamente aa fonte por se quitar do que prometera. E ele foi Título Fólio 327110b catando sa irmãã pola carreira e tanto houve gram sabor em ela e tanto lhe semelhou fremosa que lhi creceu voontade de a haver contra razom. Entom começou a pensar que seria mui mau e muito avol se nom comprisse sa voontade em tam fremosa donzel[a] e com quem nom havia rem de linhagem e de mais que a meteria em mão de tal que a levaria u per ventura a nunca visse. E, se o fezesse, ja mais nom acharia outra tam fremosa. Esto sabia el bem. Título Fólio 328110b [Como o donzel matou o meestre e queria jazer com sa irmãã.] Assi foi o donzel pensado toda a carreira e, tanto que chegarom aa fonte, disse a sa irmãã: – Desçamosnos aqui e atendamos os outros, ca ora seeram aqui. Pois dezerom, o donzel meteu mão a u~a espada que tragia e matou o mestre. E a donzela, que esto viu, foi muito espantada e disse: – Ai, irmão. Porque fezestes esto? Par Deus, mal fezestes! – Vosso irmão nom som, disse el, nem irmão nom me chamedes, ca al nom hei com vosco fora usança, ca de linhagem tanto hei com vosco como com a mais estranha do mundo. E por em vos dusse acá, tam longe de gente, porque quero jazer com vosco ante que vos haja outrem. E, se o nom queredes fazer, fareivos tanto como fiz a vosso meestre. Título Fólio 329110b [Como o donzel caeu morto e u~a voz disse aa donzela o que o demo fezera.] Quando a donzela ouiu esto foi muito espantada, ca viu seu irmão estar com os diaboos. Disse: – Ai, irmão! Por Deus, mercee! Nembrate quem és tu e quem som eu! – Esto nom há mester, disse Nabor; nom vos val rem que digades. E foia filhar e começoua sô si poer pera jazer com ela per força. Quando a donzela viu que estava em hora de perder o corpo e [a] alma, fez sa oraçom, que Nosso Senhor a livrasse daquela mala ventura. E, tanto que a fez, caeu logo el sobre ela morto em terra. Quando a donzela viu per tal mala ventura seu irmão morto houve gram pesar. E em quanto ela pensava por qual aventura esto aveera, disselhi u~a voz: – Donzela bõa e prezada, esto Título Fólio 329110c te fez o demo por te atolher a coroa das virgens, se o podesse fazer. E entom lhi descobriu todo o feito como foi, assi como o conto há jádevisado. Enquanto a donzela pensava em esto que oíra, aquevos vem seu padre que chegou i que andava caçando e perdera o [vea]do depós que ia e toda sa companha. Título Fólio 330110c [Como a donzela disse que ja mais cavaleiro nom viria aa fonte, se nom fosse virgem, que nom perdesse o poder do corpo.] Quando elrei viu sa filha, maravilhouse quem a levaria ali. E foi a ela correndo e disselhe surrii[n]do: – Filha amiga, quem vos adusse acá? – Senhor, disse ela, pecados e o demo, que sempre se trabalha de confundir os cristãos. Entom lhe contou toda aquela aventura como aveera e mostroulhe seu meestre e seu irmão mortos. E elrei disse com sanha: – Ora parece que meu filho serviu mau senhor e mau galardom lhi deu. Este logar é mau e maa é a fonte u o demo mora. – Ainda, disse a donzela, seerá dês aqui peor, ca ja mais cavaleiro nom verrá i, se nom for virgem, que nom perca o poder do corpo e de to[do]los membros mentre i for. Nem daqui nunca se moverá, se por molher em nunca sair. Esto seerá em renembrança do pecado per que meu irmão foi morto e durará esta renembrança de mim e de meu irmão tá que o bõõ cavaleiro verrá que dará cima aas aventuras do reino de Logres. E de mim seerá hoije mais esta fonte chamada, mentre o mundo durar, Fonte da Virgem. Título Fólio 331110c [Como a fonte foi chamada a Fonte da Virgem.] Assi aveo pois como a donzela disse ca, dês aquel tempo, foi chamada Fonte da Virgem. E este nome ainda hoje o averá. E nunca i veo cavaleiro, enaquel tempo, que nom cuidasse a morrer, fora solamente Persival e Galaaz. Ca nom veo i cavaleiro que nom fosse tangido de luxu´ria Título Fólio 331110d em algu~a guisa. E por esta aventura foi i Erec tam mal treito, quando i veeo, porque nom era virgem. Mais ora leixa o conto a falar desta aventura, ca assaz falou em, e torna aa dona e aas donzelas que chegarom aa fonte quando jazia i Erec, assi mal treito como vos disse. Título Fólio 332110d [Como as donzelas maldiziam Erec e a dona as doestava.] Enesta pane diz o conto que, pois as donzelas veerom aa fonte, que elas começarom a catar Erec que jazia assi como morto. – Ai, Deus! Disse u~a delas, a mais manceba, que pode esto seer? Quem adusse aqui este cavaleiro? – Nom sei, disse a outra. – Nem eu, disse a terceira – Eu volo direi, disse aquela que era senhor delas. Este é Erec que nom mente, que, no outro dia, matou sa irmãã; e por nom seer achado em mentira. – Ai! disserom elas, esta é maa andança e maa ventura lhi venha, ca el fez a maior deslealdade que nunca fez cavaleiro, de matar sa irmãã, e de mais tam fremosa donzela. E cedo vaa el a lugar u sandice seja vingada. – Ai, disse a dona, mal fezestes e pecado de o mal dizerdes assi, ca aquela vingança que vós tanto desejades lhi verrá tam cedo que todos aqueles que ende ouvirem falar se maravilharám. E seerá gram dano de morrer tam toste ca milhor cavaleiro ca ele nem melhor homem nom vi eu, peça há. E, certas, se eu podesse sa morte destrovar e alongar sa vida, fariao mui de grado. Mais nom no posso fazer ca No[sso] Senhor nom praz. Título Fólio 333110d [Como as donzelas filharom Erec e o alongarom da fonte.] Título Fólio 333111a Esto disse a dona de Erec. E Erec o entendia bem, mais nom lhe podia responder. E as donzelas, depois o catarom a gram peça, filharomno de partes, u~as de cáe outras de láe levaromno da fonte bem u~u~ trauto de beesta. E pois foi em tanto alongado tornou em sua força e em seu poder assi como ante e disse aas donzelas: – Vossa mercee me trouxe aqui, ca eu cuido que fôra morto se mais jouvesse a cabo da fonte. Mais, por Deus, o desamor que a mim havedes por mia irmãã, perdoad[e]mo, ca, certo, o que i fiz, muito o fiz sem meu grado, mais a fazer me convinha. Elas nom responderom a rem, mas foromlhe por seu cavalo e por as suas armas e deromlhas. E ele lho agradeceo muito e elas se tornarom aa fonte. E ele guisou seu cavalo e armouse e cavalgou e partiose dali e maldisse a fonte e todos aqueles que fezeram a fonte. Ca nunca achou aventura onde lhe semelhasse que fôra tam mal treito nem tam vergonhoso. Título Fólio 334111a [Como Erec esmava que haveria maa andança de morte per sa irmãa.] Assi como vos digo [foise] cavalgando e pensando muito no que lhe aveera. E aquela noite jouve em u~u~ vale da foresta, que nom comeo nem bebeo. Aquela noite foi mui coitado, mais do que soía, porque ouvira dizer de sa morte e havia gram pesar d[a] companha de Meraugis que perdera ca, se fosse com el, nom se temia que o cavaleiro podesse matar per armas. E pero Título Fólio 334111b pensou tanto em esto que bem lhe semelhou que, se o nom matasse a furto ou a treiçom e morresse per armas, que mais seria per pecado de sa irmãã que per maldade que el houvesse d’armas. Ca poucos cavaleiros sabia el que dultasse u~u~ por u~u~. E pero todavia lhe dizia seu coraçom e afirmava que haveria maa andança de morte e que seria por sa irmãã. Título Fólio 335111b [Como Erec chorava e fazia sa oraçom.] Aquela noite nom dormio pouco nem muito, ante pensou sempre em esto. U~u~ pouco ante que adormecesse começoulhe o coraçom. de chorar tanto que as lágrimas lhe sairom pelos olhos. Quando el vio que seu coraçom, que nunca fora espantado, começou entrar em medo e em espanto e que chorava e nom sabia porquê, disse: – Ai, Senhora Santa Maria, madre de piedade, socorreme e nom me leixes ainda morrer, se te prouguer, tá que lazere em terra o pecado que hei feito de minha irmãã. Ai, Padre Jesu Cristo, fonte de piedade e de misericórdia, salvador do mundo, have piedade deste cativo filho de rei que te errou mais que outro pecador. Nom cates ao meu pecado, que é atam vil que todolos anjos do ceu som espantados. Mais assi como tu és verdadeiro padre e verdadeiro guardador, que te alegras do pecador quando te chama de verdadeiro coraçom, e já tam gravemente nom te pecará que lhe nom hajas mercee. Senhor, assi como te eu chamo de bõõ coraçom e de limpa voontade e Título Fólio 335111c conheço verdadeiramente que meu pecado me matou e me confondeo, se tua mercee me nom val, Senhor, have piedade deste cativo e qual maa andança quer que venha ao corpo. Ai, Beento Padre! Ai, alma mezquinha que bem nom errou nas minhas obras! Mas, quando se partir de mim, Senhor, recebea e agasalhaa na tua pousada e em na tua santa casa u todas ledices e todas boas venturas som. Título Fólio 336111c [Como Erec derribou Sagramor.] Pois Erec fez esta oraçom deitouse estendudo em cruz contra o oriente e fez sas orações as melhores que soube, e jouve assi ataa que foi alto dia. Dês i filhou seu elmo e lançou[o] e e filhou seu escudo e sa lança e sobio em seu cavalo e foise sa carreira pela foresta. Aquel dia lhe aveo, antre prima e terça, que achou Sagramor armado de todas as armas e desejoso de se justar, se houvesse com quem, ca havia gram tempo que nom fezera rem d’armas. E prouguelhe muito quando viu Erec contra si viir, ca o nom conhocia nem Erec ele. E disselhe alta voz: – Senhor cavaleiro, a justar vos convém! Guardadevos de mim. E Erec ouvio que Sagramor pedia justa e nom na ousou recear, ca lho teriam por maldade. E entom se leixou correr u~u~ ao outro e deromse os maiores golpes que poderom. E Sagramor fez sa lança voar em peças; e Erec, que era de maior força, como aquel que se tiinha por u~u~ Título Fólio 336111d dos melhores cavaleiros do mundo, firio Sagramor em meo o peito de tam gram colpe que o meteo em terra per cima do alcáfar do cavalo, mas outro mal nom lhe fez. Dês i passou per ele e nom no catou mais. Título Fólio 337111d [Como Erec chagou Sagramor e se foi cuidando.] Quando Sagramor se vio em terra houve grande vergonça e ergueose mui toste e colheose a seu cavalo e foise pós Erec dando vozes: – Tornade, cavaleiro, tornade! Ca pero me derribastes nom me vencestes. Quando Erec isto ouvio nom soube que fezesse ca, se nom quisesse a batalha, seerlh’ia desonra; e tornou e meteo mão a espada e disse: – Senhor cavaleiro, esto é torto que me fazedes que a força me fazedes combater com vosco. Certas, se vos em mal viesse, ningu~u~ nom havia haver doo de vós, nem a mim poer culpa. E entom se leixou ir a el a espada em a mão e deulhe u~u~ tam gram golpe per cima do elmo que o elmo nem o alfmofre nom lhe guareceu que lhe nom fizesse sintir a espada no testo. Mais d’atanto aveo bem a Sagramor que nom foi a chaga mortal. A espada era boa e o golpe foi grande e ferido de gram força e foi em Sagramor tam mal treito que se nom pôde teer em seela e caeu em terra tam estorgido que nom soube se era noite se dia. E quando Erec o vio em terra meteo sa Título Fólio 337112a espada em sa bainha e foise logo mui mais cuidando ca ante, ca se temia d’este cavaleiro seer da Mesa Redonda. Título Fólio 338112a [Como Ivam das Brancas Mãos desfiou Erec.] Pois que se Erec partiuode Sagramor, assi como vos digo, nom andou muito que acalçou Ivam das Brancas Mãos. Os cavalos dos cavaleiros nom eram mui cansados e, tanto que se viirom, rincharom. E Ivam catou pós si e, tanto que viu Erec, conhecêo, ca o dia dant’aquele lhe ensinara Galvam que armas trazia e queixaraselhe da desonra que lhe fizera ante tantos home~e~s boos e Ivam lhe prometera que o vingaria, se o podesse achar. E tanto que o viu nembroulhe o que prometera a Galvam e pensou se o cometeria logo se depois. Que vos direi? Toda via prês voontade de o cometer logo, como o demo lhe conselhava sa maa andança, que i havia d’haver. Entom tornou cabeça ao cavalo e deu vozes: – Ai, Erec! Cavaleiro mau e desleal! Guardate de mim ca te desfio! Quando Erec se ouvio chamar mau e desleal maravilhouse quem poderia ser e respondeolhe em rii~ndo: – Certo, senhor cavaleiro, eu nom som qual devia a seer. Pero contra vós, se Deus quiser, defendirei meu corpo contra deslealdade, ca nom hei em rem. Título Fólio 339112a [Como Erec chagou a morte Ivam das Brancas Mãos.] Título Fólio 339112b Pois que esto foi dito, leixouse correr u~u~ ao outro e feriramse tam bravamente que escudos nem lorigas nom nos poderom guardar que se nom metessem pelas carnes nuas os ferros das lanças. E meteromse em terra, os cavalos sobre os corpos, tam mal treitos que bem haveriam mester mestre. Ca nom houve i tal que nom fosse mui mal chagado u~u~ a morte – e este foi Ivam das Brancas Mãos – o outro nom tam mal – e este foi Erec. E eles se erguerom sanhudos e com pesar grande, ca ambos eram de grandes corações. Título Fólio 340112b [Como Galvam achou Ivam morto e fez seu doo e como se foi pós o cavaleiro que o matara.] Título Fólio 340113a Quando Erec se partio du jazia Ivam morto nom tardou muito que aventura dusse por i Galvam, que andava soo, ca se partira aquel dia d’Agravaim seu irmão em u~u~ caminho que se partia em duas carreiras. E, tanto que chegou u a batalha fora e viu Ivam jazer morto e o conheceu, deceu correndo com gram pesar que bem cuidara ensandecer e disse: – Ai, Ivam! boo cavaleiro! Que dano de tal homem se perder! E, certas, de vossa morte haveram gram pesar muitos home~e~s bõõs, e a Mesa Redonda se deve malamente aqueixar, ca os que som ende bem podem dizer que som pobres e minguados d[e] u~u~ dos melhores cavaleiros do mundo. E, certas, pois vós sodes morto e tam pouco há, eu som aquele que ja mais nom haverei lidice ataa que vos haja vingado. E bem o poderei fazer, com’eu cuido, ca bem entendo que nom vai longe o que nos esta perda fez de vós. Entom se partiu del e cavalgou o mais toste que pôde e colheose polo rastro do cavalo e conheceo bem polo caminho, que viu cheo de sangue, que o cavaleiro que ante el ia era malamente chagado. E foi mui ledo desta aventura ca bem cuidou que nom era outro fora aquele que matara Ivam. E coitouse d’andar e nom andou muito que alcaçou Erec que ia em pequeno passo, como aquel que havia mais mister de folgar ca de cavalgar. Título Fólio 341113a [Como Galvam desfiou Erec.] Título Fólio 341113b Tanto que vio Galvom Erec, logo o conheceo. E pero canto sabia que era leal cavaleiro e tam boo que nom podia crer em ninhu~a guisa que el matara Ivam. E começou entom a pensar que faria, se o cometeria logo, se o leixaria pera outra vez. E em esto se acordou que o leixara aquela hora, ca nom achava entam razom boa. E pero, se podesse saber em algu~a guisa que ele matara Ivam, todo o mundo o nom guardaria que o nom vingasse. E tanto que a el chegou salvou[o] mui bem e muito aposto. E Erec o ar salvou, que o nom conhecia ainda, e preguntoulhe quem era. – Nom me conhecedes vós? disse Galvam. – Certas, senhor, nom, disse Erec. – Pois sabede, disse el, que eu som Galvam, o sobrinho de rei Artur. – Assi? disse Erec. No nome de Deus, vós sejades o bem viindo! – E quem vos chagou tam mal? disse Galvam. – Senhor, disse el, pecado e maa andança, que confonde muitos home~e~s boos. – Pecado? disse Galvam. Por Deus, dizedeme como. – Senhor, disse Erec, eu volo direi, já nom vos ende mentirei de rem, ca eu vos amo de tam grande amor que vos nom encubrirei cousa que possa a amigo discobrir. Sabede que isto me fez Ivam das Brancas Mãos. Entom lhe disse em qual guisa: – E bem vos juro, senhor, pola fee que eu devo a todolos cavaleiros da Mesa Redonda, que, se o eu conhecesse como el conhicia mim, que ante queria ser ferido du~a lança polo coraçom que meter em el mão. E ningu~u~ nom me deve poer culpa, ca seu orgulho e sa maa cordice o fez morrer. – Título Fólio 341113c E como vos sintides vós? disse Galvam. – Senhor, disse el, eu som mui mal chagado e hei [já tanto] perdudo do sangue que nom é se maravilha nom. E pero se fosse em lugar u folgasse e achasse meestre que me pensasse das chagas, bem cuidaria a guarir. – Eu nom sei, disse Galvam, como vos sintides, mais se vós fossedes o mais são e o mais folgado que nunca fostes eu nom vos leixaria a desfiar a atal sazom ca, certas, vós me errastes tanto que nom há haver mundo por que vos leixasse a matar, pois que vós Ivam das Brancas Mãos matastes. E por mau cavaleiro e por covardo me tiiriam se nom vingasse parente tam chegado. E por em vos desfio e guardadevos oimais de mim, ca bem sabede que vos matarei se mais posso ca vós. Título Fólio 342113c [Como Erec se nom queria combater.] Quando Erec ouvio o que dizia Galvam foi espantado, que bem cuidava que o amava Galvam de todo seu coraçom. E da outra parte tiinhao por tam leal que se lhe ainda mais errasse que nom meteria em el mão, ao mêos porque eram ambos da Mesa Redonda. Entom lhi disse: – Ai, dom Galvam! E que é isto que dizedes? Nembrevos o juramento e a menagem da Mesa Redonda onde somos irmãos e companheiros e nom vos escarneçades nem confundades per u~u~ tal homem como eu som. Ca, certas, se me matardes, vós em seredes perjurado e desleal e ja mais nom haveredes ende honra, seendo eu tal qual eu som, mais vergonha, desonra vos em veerrá ca eu Título Fólio 342113d som chagado e firido em tantos logares que tanta força hei como u~u~ cavaleiro morto. – Esto menos é ca nada, disse Galvam, que me vós dizedes. A combater vos convém e a defender vosso corpo; ou se nom eu vos matarei assi. – Como, senhor? disse Erec. Assi o queredes fazer? – Obem, disse Galvam, be[m] no cred[e]. – Certas, disse Erec, pesame que, se me vós cometessedes seendo eu são, eu vos cuidaria bem a vencer pola gram bondade d’armas que Deus me havia dado. Título Fólio 343113d [Como Galvam matou o cavalo de Erec.] Entom meteu mão a espada e disse outra vez: – Dom Galvam, vós me cometestes a gram torto e a tal hora que me nom hei poder de defender. Deus ajude o dereito e assi o fará ele, esto sei eu bem. Mais ora conheço verdadeiramente que aqui é minha morte julgada em vingança do que eu fiz a minha irmãã. Entom se encomendou a Nosso Senhor Deus muito humildosamente. E Galvam. lhi foi dar u~a espadada per cima do elmo, a maior que pôde, assi que Erec foi do colpe estorgido e vão, pero tevese em seela. Mais isto foi muito adur ca tanto havia perdudo do sangue que preto toda sa força ii era falida. E pero defendiase tam bem daquela força que havia que nom há homem que o visse e soubesse qual estava que o nom tevesse pola maior marivilha do mundo. E Galvam, que estava folgado, davalhe os maiores golpes que podia per u [o] acalçava e Erec a ele outrossi Título Fólio 343114a de seu poder, E pôs deante toda aquela força e toda aquela bondade d’armas que el pôde poer e amostrar, como aquel que bem sabia e conhocia que era sa morte chegada. E esto o fazia defender mais do que el podia e achou Galvam em el tam grande defensa que se maravilhou que podia ser, ca el nom era tam vivo nem tam ligeiro nem o sabia tam amiu´de ferir que o Erec nom ferisse outrossi, mais pero nom de tam grandes golpes como soía, ca sobejamente se lhi ia minguando o sangue. Que vos direi? Tanto se defendeu Erec maravilhosamente, como aquel que ainda estava caente de san[h]a e de mal talam e estava já, como diz o provérbio, “ou dôs ou quite”, assi que havia Galvam gram pavor de aa cima e nom poder vencer. E a verdade diz, assi como a verdadeira estória o testimunha, já Galvam nom no vencera se nom fosse que lhe matou o cavalo e Erec houve de cair em terra. Título Fólio 344114a [Como Galvam chagou Erec a morte.] Quando Erec se vio em terra, nom se pôde calar que nom dissesse: – Certas, dom Galvom, ora vos vii aqui u~u~ ramo de covardice e de maldade de meu cavalo que me matastes. Ora nom podedes dizer, pois me virdes morto, que vós me matastes, mais o falimento de meu cavalo. Mais nom me em chal que quer que me avenha desta batalha ca atáaqui Título Fólio 344114b houve ende a honra e vós a desonra. Galvam, que ainda se coitava muito, tanto que viu Erec em terra nom atendeo mais e foilhe dar dos peitos do cavalo e metêo em terra. E Erec caiu de rosto e esmoreceu da gram coita que houve e caílhe a espada da mão e o escudo da outra parte. E Galvam deceu tanto que o assi viu jazer e foi a ele e ergueilhe a aba da loriga e meteolhe a espada pelo corpo e Erec se estendeu como com coita de morte. Título Fólio 345114b [Como Erec pedia mercee a seu Salvador.] Pois que Galvam entendeu que o havia morto foi mui ledo, ca lhi semelhou que era bem vingado. E meteo sa espada em sa bainha e sobio em seu cavalo e foise o mais toste que pôde per outro caminho, ca nom queria em niu~a guisa que entendessem que el fezera aquel feito. Ca bem sabia verdadeiramente que seria em culpado de todos aqueles que ende ouvissem falar. E leixou Erec assi jazer, ca bem cuidava que era morto. Mais nom no era ainda, ante havia todo seu sem come ante, mais da força nom havia rem, ante jazia como se caíra. Mais d’atanto lhe aveo bem que, pero o corpo era marteirado e chagado e firido, toda via havia o coraçom tam aficado em seu Salvador que lhi nom podia esquecer, ante leixava todalas outras cousas por se nembrar dele. E pidiulhe mercee chorando e disse assi como pôde: – Aqui diz a oraçom que fez Erec quando o matou Galvam. – Jesu Cristo, padre piadoso e de boo talam, have mercee deste Título Fólio 345114c cativo que em esta coita te chama. Padre de piedade, a ti gradeço esta morte que me deste tal. Ca, certas, eu conheço bem que mereci por minha deslealdade de morrer da mais esquiva morte ca moiro. Senhor, guardame pola ta piedade em este postomeiro dia e em esta minha postomeira hora u conver[r]á que a minha alma desconfortada se parta do meu cativo corpo e vaa nom sei pera u. Senhor, por ta piedade confortaa, ca haverá d’ir a astrosa casa se a ta mercee a nom torna. Título Fólio 346114c [Como Estor e Meraugis acharom Erec.] Pois Erec fez sua oraçom, começou a chorar mui feramente como aquel que havia dulta e pavor de sa alma que bem via que estava preto da morte. E el assi chorando aquevos Estor e Meraugis que per ventura chegarom ali a aquela hora. E quando virom Erec que jazia de bruços seu escudo cabo si e sa espada, nom no conhecerom ca havia sas armas cambiadas com que o eles viro[m]. E pero, porque cuidarom que era cavaleiro andante, esteverom e disserom: – Deus, quem é este cavaleiro? Par Deus, disse Meraugis, quem quer que seja foi boo ca bem parece em sas armas como se defendeo ataa sa morte. – Ja mais, disse Estor, nom me creades se nom é algu~u~ dos da Mesa Redonda. E sabede que muitos home~e~s boos haverám pesar de sa morte. Ora deçamos e vejamos quem é, ca meu coraçom me diz que pesar nos em verrá Título Fólio 346114d que é algu~u~ de nossos amigos. Título Fólio 347114d [Como Erec lhes disse quem era e que o matara Galvam.] Entom decerom ambos e liarom seus cavalos a duas árvores. E Estor foi a Erec e ficou os goelhos ante el e tolheulhe o elmo o mais manso que pôde. E Erec nom boliu se pouco nom, ca a morte o cuitava já muito. E Meraugis se chegou o mais preto del que pôde e assentouse e filhoulhe a cabeça e posea sobre seus geolhos e começoulhe a ali[m]par os olhos que tiinha cheos de sangue e o rosto que já deneglecera com a coita; e achou[o] tam mal chagado que houve del mui gram doo. E Estor, que todavia o catava, disse a Meraugis: – Amigo, que vos semelha dele? Ainda é vivo mais eu sei bem que nom chegaráaa noite ca é mui mal chagado e semelhame que é gram dano, ca sei verdadeiramente que foi mui boo cavaleiro polo que vejo que sofreo. Ora lhe preguntade, disse Estor, quem é se o poderíamos conhocer. E Meraugis lhe disse: – Senhor cavaleiro, quem sodes? Por Deus, dizeden[o]lo, se poderdes. E Erec que bem entendeo o que lhe preguntava, respondeo assi como pôde, mais esto foi mui cansadamente: – Eu som Erec, filho del-rei Lac, e fui da Mesa Redonda, e matoume ora esta hora Galvam per deslealdade e per soberba e cometeume u vencera eu já dous cavaleiros Título Fólio 347115a e que sabia já verdadeiramente quem eu era. E nom me fez lealdade assi como devera a fazer. E Nosso Senhor lho perdoe, ca eu assi faço. Título Fólio 348115a [Como Estor e Meraugis fezerom gram doo por Erec.] Quando Meraugis isto ouviu leixouse caer sobi~o com tam gram pesar que bem quisera ser morto a aquela hora, que mui de coraçom amava Erec. E quando pôde falar, disse: – Ai, cativo! Que dano e que coita aqui há! Ai, Galvam! dête Deus maa andança e perda do corpo ca tu me mataste o meu amigo que eu nunca houvi e o mais leal cavaleiro que eu nunca vii. Deus te dê em o galardom. E quando Estor soube que aquel era Erec, o cavaleiro est[r]ãio que el nunca mais amou, houve maior pesar que poderia e maldisse Galvam e oroulhi muita maa aventura a el e a todo seu lin[h]agem. Dês i disse, ar com gram pesar, que as lágrimas lhe caerom polas faces: – Ai, Senhor, Erec, cuidades que possades guarir? E Erec falou assi como pôde, como aquel que era de gram coraçom e disse: – Senhor cavaleiro, quem sodes vós que mim assi preguntades? Disse el: – Eu som Estor de Mares, vosso companheiro e vosso amigo, que tam gram pesar hei de vossa maa Título Fólio 348115b andança que bem juraria que nunca trouxesse armas per preito que vos esto nom aveesse. E este outro que vos sofre é Meraugis de Porlegues que vos andava buscando com’eu. Quando Erec ouviu que aquestes #II eram seus amigos disse: – Vós sejades os bem viindos ca de vossa viinda som mui ledo e muito me praz que estaredes aa minha morte ca vós sodes os #II home~e~s do mundo em que me eu mais fiava. E pero ante que moira rogovos, assi como [a] amigos e a companheiros, que levedes meu corpo a casa delrei Artur e dadeo em presente aa Mesa Redonda onde Nosso Senhor me fez companheiro, assi como vós sabedes. E pois me poserdes em na seeda elrei fará entom de mim o que quiser. Mais toda via nom leixedes em niu~a guisa que nom contedes em na côrte a deslealdade que fez Galvam. contra mim. – Nom vos em chal, disse Estor, ca eu vos prometo de vos vingar e de lhe fazer tal desonra na côrte delrei Artur que muitos home~e~s boos em falarám depós nossas mortes. Título Fólio 349115b [Como Erec passou e como Gaeriet se maravilhou das novas que lhe contarom.] Depois desto disse Erec: – Jesu Cristo, Padre de piedade, comprido de toda misericórdia, have mercee de mim e nom me julgues segundo os meus pecados mais segundo a ta mercee. Depois Título Fólio 349115c ar disse: – Vós sodes meus companheiros e meus amigos: rogovos que vos nembredes de mim em orações e em esmolas ca sou mui pecador e por meu pecado, sem falha, me veeo esta maa andança. Tanto que isto disse partioselhe [a] alma do corpo. E Meraugis e estor fezerom mui gram doo. E disse Meraugis: – Ai, Deus! Como fora melhor de Galvam o desleal receber morte em esta batalha ca este, que tam boo era e tanto podia e tanto valia e que era leal sobre todolos cavaleiros que eu nunca vii! Ai, Galvam! desleal cavaleiro e bravo! Eu rogo a Deus que lhe praza que ainda me tu caias em mão. Certas eu nom filharia por ta cabeça todo o mundo, se mo dessem. – Ai, Deus Senhor! disse Estor, que coraçom houvestes de sofrerdes que tam boo homem como este houvesse tam maa andança! Muito o changerom e o chorarom e fizerom gram doo, ca muito lhe haviam gram amor. E eles seu doo fazendo, aquevos Gariet, seu irmão, de Galvam, E quando os viu conhecêos e esteve, espantado da maravilha que ende houve quando lhes viu tal doo fazer. E Estor, que o conheceo, nom pôde estar que lh[e] nom dissesse: – Gariet, ora podedes ver a gram lealdade de vosso irmão, que matou agora esta hora u~u~ dos milhores home~e~s da Mesa Redonda: Erec, filho de rei Lac que aqui jaz. Entom lhi contou todo como o matara. Quando Gariet, que era mui leal cavaleiro, ouviu estas novas, houve em gram pesar e disse: – Quem vos disse que assi foi? – Erec, disse Estor, nolo disse, que devia homem melhor creer ca outro homem, ca bem sabedes vós que nunca menti Título Fólio 349115d de cousa que soubesse. – Par Deus, disse Gariet, muito me maravilho como esto foi. Ca, se Deus me conselhe, eu cuidava que meu irmão Galvam era u~u~ dos chus leaes cavaleiros do mundo e ainda o cuido, fora per estas novas que me contastes. – Se Deus me ajude, disse Estor, se vós nom fossedes meu companheiro da Mesa Redonda eu vingaria a meu poder este feito em vós, pois vosso irmão nom acho. Gariet se calou, a que pesava muito. Título Fólio 350115d [Como se acordarom que levassem o corpo de Erec aa corte de rei Artur.] Meraugis, que toda via queria honra de Erec, disse a Estor: – Como podiríamos nós comprir o que nos rogou Erec? – Nom hái al, disse Estor, se nom guisáremos u~u~s amêades e deitarmolos a nossos cavalos e irmosnos pós el a pee, ta que Deus nos dê algu~u~ conselho de bestas. E Meraugis disse que era bem. E Gariet os preguntou u o queria[m] levar. – Nós o queremos levar, disse Estor, aa corte de rei Artur. E ali contaremos a lealdade de Galvam e em que guisa o matou ca assi nos rogou el aa sa morte. Quando Gariet entendeu esto houve maior pesar ca ante, ca bem entendeo que seu irmão seria per ii escarnido e apregoado por desleal per todo o mundo pois este feito for sabudo na côrte. E chorou muito por ele. E, polo gram pesar que ende houve, partiose deles sem espedirxelhes. Título Fólio 351115d [Como Meraugis se queria ir depós Gaeriet e o nom quis Estor.] Título Fólio 351116a [Q]uando Meraugis viu que se ia Gariet filhou seu elmo e enlaçou[o]. E Estor lhe preguntou porque o fazia. – Eu quero, disse el, ir depós este cavaleiro e vingar meu pesar em el pois que nom posso seu irmão achar. – Nom faredes, disse Estor, ca este que culpa há na deslealdade de seu irmão? E bem vos digo verdadeiramente que lhe pesa tanto como a vós ca, assi Deus me conselhe, ele [é] u~u~ dos mais leaes cavaleiros que eu sei e u~u~dos mais corteses. Eu vos rogo que o leixedes ir em paz. Por esto que Estor disse ficou Meraugis, que nom foi pós Gariet. Título Fólio 352116a [Como Estor e Meraugis chegarom a Camalot com o corpo de Erec.] Pois houverom guisado como levassem Erec, desarmaromno e deitaromno nos âmedes o melhor e o mais aposto que poderom e foromse a pee taa u~u~ castelo que era preto dali u lhes derom cavalos e o al todo que lhes falecia. E sabede que em tal guisa guisarom entom o corpo que o poderiam levar quam longe quisessem. Em tal guisa se quitarom do castelo e andarom tanto que chegarom a Camaalot u rei Artur era triste e com gram pesar e toda sua companha outrossi. Ca, em aquela sazom que eles i chegarom, eram todolos de Camaalot tristes e com gram pesar que nunca haviam lidice nem entendiam se nom em chorar e em doo fazer. E quem entom fosse i e visse o gram doo que as donas faziam, aquelas que atendiam seus amigos que foram na demanda, muito haveria duro coraçom e bravo, Título Fólio 352116b se nom houvesse delas doo. E a elrei crecia em tam gram pesar de dia em dia que bem queriria ser morto. E, se alguém me preguntasse porque o fazia, eu lhe responderia segundo a verdad[e]ira estória o diz. Título Fólio 353116b [Como rei Artur catava as seedas e sabia quaes senhores em morriam.] Rei Artur, sem falha, que tanto amava os da Mesa Redonda como se fossem seus filhos, havia gram pesar porque se partiram dele. E por esto havia tam de coraçom por saber como lhes ia que ia cada dia, ante que comesse, veer as seedas da Mesa Redonda. E catavaas e, quando i achava o nome que i ser devia, sabia bem entom que aquel era vivo que era senhor daquela seeda. E, quando i nom achava letras, sabia que era morto. E, sem falha, a Mesa Redonda era tam maravilhosa que em aquel lugar quer que ante nengu~u~ morresse, fosse preto fosse longe, logo as letras em morriam. E esto foi provado per morte de mu~i boos cavaleiros. Título Fólio 354116b [Como era grande o doo em Camalot pela morte de Erec.] Assi como vos digo sabia rei Artur a verdade da morte de cada u~u~ dos da Mesa Redonda aquel dia meesmo em que morria. E outrossi o faziam muitos home~e~s boos que bem cuidavam i tanto como el, ca nom havia i tal a de leve que nom houvesse alá algu~u~ parente. E por em fazia cada domaa mui gram doo, ca poucas domaas eram que nom morresse u~u~ ou dous. El-rei havia gram pesar Título Fólio 354116c da morte de Ivam o Bastardo e da morte de Ivam de Cenel ca sa irmãã veera já aa côrte e contara ante quantos ricos home~e~s i eram como Galvam leixara seu irmão matar no castelo e como matara Patrides, sobrinho de rei Bandemaguz, e que bem soube, aaquela hora que o matou, que era companheiro da Mesa Redonda. E rei Artur, que havia tam gram pesar destas novas que nom poderia maior, disse aa donzela: – Donzela, se assi é como vós dizedes, ele merece a ser escarnido e perder a seda da Mesa Redonda. E outrossi o julgarom todolos home~e~s que ii siam. El-rei havia gram pesar da morte destes #III mais, quando soube da morte de rei Bandemaguz e foi sabudo pola casa, houverom todos tam gram pesar que dous dias se fezerom que nunca foi na côrte posta a mesa ante cavaleiros. E diziam todos ca este dano era grande e maldiziam Galvam poque se começara aquela demanda. Muito houveram gram pesar el-rei e todos dessa morte de rei Bandemaguz. Mais quando foi morto Erec entom se começou o doo mais ca ante: por aquel chorou elrei e os ricoshome~e~s e os cavaleiros e as donas e as donzelas e por aquel foi o doo tam grande em Camaalot que nom oíria i homem torvom se o fizesse. Por aquel choravam cordos e sandeus e velhos e mancebos. E sabede que sa morte foi sabuda em Camaalot #V dias ante que o i dussessem. E quando já el ii chegou [er]a o doo já quanto leixado. Título Fólio 355116c [Como adusserom Erec a Camalot e o poserom em sa seeda e contarom em qual guisa o matara Galvam.] Título Fólio 355116d U~u~ dia lunes chegarom dous cavaleiros a Camaalot que levavam o corpo de Erec. E iam com tam gram pesar e tam tristes que nom há homem que os ouvisse quando iam pola vila que nom houvesse gram doo. E quando chegarom ao rico paaço u a Mesa Redonda era, decerom os âmedes e filharom o corpo de Erec entre seus braços chorando muito sô os elmos. E diziam: – Ai, boo cavaleiro! Que doo e que perda de vossa morte! E levaromno aa seda que Deus lhi outorgara per seu prazer e assentaromno ii e pois disserom chorando: – Ai, Senhor! Que pesar tam grande que nom seedes i tam são como já outra vegada s[e]vestes, ca todo o reino de Logres em mais [valria]. Rei Artur e os ricoshome~e~s que ii erom, quando isto virom, forom pera alá por verem que queriam fazer. Eles nom conociam Estor, polas armas que havia cambiadas. Meraugis nom poderiam eles conhocer, ca o nunca viirom. Erec nom conociam, polo rostro que trazia tinto e negro da morte. E el-rei preguntou Estor: – Amigo, por Deus, dizedeme porque posestes este cavaleiro morto em esta seeda? – Senhor, disse Estor, ca el nos rogou a sa morte que o adusséseemos aqui e que o poséssemos em esta seeda e que nos queixássemos a vós por el, ca el dizervolo nom pode, de Galvam, vosso sobrinho, que deslealmente e [a] aleive o matou. E contarvosemos em que guisa o matou, que em outra guisa nom compriríamos bem o que nos el mandou. Entom começarom Título Fólio 355117a a contar ante elrei e ante toda a côrte, que era já assu~ada, como Galvam cometera Erec pois que se combatera com dous cavaleiros e como o matara dizendolhi el que era Erec e pidindolhe mercee. Título Fólio 356117a [Como elrei Artur fez meter Erec em u~a rica sepultura em a igreja de Santo Estiano.] Quando aqueles que estavam a ouvir este conto entenderom que aquel era Erec, filho de rei Lac e que de tam longas terras se fezera levar, começouse entom o doo tam grande e tam fero como se todos seus amigos tevessem mortos ante si. E Meraugis, que havia em tam gram pesar que nom podia maior, disselhes: – Senhores, el nom pôde vi~ir vivo acá per xe vos queixar de Galvam e fezese aduzer morto. Ora fazede ii o que devedes a fazer a filho de rei que [a] aleive é morto. Elrei, a que pesava tanto como se fosse seu filho, respondeu: – Maldita seja a hora em que foi Galvam cavaleiro, que se trabalha de fazer tantas e tam maas deslealdades. El confessouse e todo seu lin[h]agem será rescrido. E se assi é deve perder a seeda da Mesa Redonda. Grande foi o doo e pesar que houverom todos per morte de Erec. E Meraugis disse a elrei: – Senhor, nom [é] este o primeiro mal que vosso sobrinho fez, ca em esta demanda vos matou a o[u]tros dous vossos companheiros por que nom devia homem a fazer Título Fólio 356117b menos chanto [que] per este. – E quaes? disse elrei. – Rei Bandemaguz, disse Meraugis. E deste sei eu verdadeiramente que vosso sobrinho Galvam. Esta morte vingara eu se nom fosse Erec, que sobreveeo e me partiu em. – Maldita seja a hora, disse elrei, que el ii chegou e que o nom matastes que bem o merecia pois tal homem como rei Bandemaguz matou. Elrei fez fihar Erec e fezlhe tam gram honra fazer como devia a filho de rei e a tam boo cavaleiro como el fôra. E fezeo meter em u~a rica sepultura na igreja de Santo estiano, u os outros companheiros da Mesa Redonda deitavam. Muito foi chorado e chanjudo de cavaleiros e de donas e de donzelas. Aquel dia nom poderíades vós achar homem nem molher per toda a cidade de Camaalot que nom fosse mui triste. El-rei, que era de maior coraçom ca homem de sa casa, chorou muito a marivilha por Erec quando o viu meter no muimento. Título Fólio 357117b [Como rei Artur preguntava novas de Galaaz e de Gaeriet e como preguntou quem era Meraugis.] Quando rei Artur tornou a seu paaço e conhoceu Estor fezeo desarmar e abraçou[o] e disselhe: – Fariavos boo acolhimento e seria ledo vosco, mais a morte destes home~e~s boos me tolhe lidice e prazer. E pero algu~u~as novas de vosso irmão e de vosso lin[h]agem e de Galaaz mi dizede, se as sabedes. – Certas, Senhor, disse estor, eu cuido que meu irmão Título Fólio 357117c é são e ledo e todo nosso linhagem. – E como ham feito em esta demanda? disse elrei. – Senhor, disse el, muitas acharom de aventur[a]s e de marivilhas a que nom derom cabo, ca nom praz a Nosso Senhor. Pero nom ficou per nom seerem eles boos cavaleiros assi como vós sabedes. – Certas, disse elrei, eu sei bem que som todos boos cavaleiros e, se alguém bem háde fazer em esta demanda eles i seeram dos melhores ca a sa cavalaria niu~u~ linhagem nom se igoa. Mais de Galaaz, que aca[b]ou a seeda perigosa, que me dizedes vós? – Certas, disse estor, senhor, sem falha ele é o milhor cavaleiro do mundo. Eu vii tanto dele que eu sei verdadeiramente que per bondade de cavalaria nom ficará quem nom dee cima aas aventuras de Logres. – Deus lo ajude, disse elrei. Certas, a mim prazeria muito se a Deus aprouguesse que o visse eu em minha casa como o eu jávii. E Gariet, meu sobrinho, vistelo vós em esta demanda? – Si, Sen[h]or ,disse el, nós lo vimos tanto que Erec foi morto. E sabede que houve gram pesar de sa morte. – Certas, disse elrei, be[m] no sei. Se Deus me ajude, este é o cavaleiro de meu linhagem mais preçadoiro e mais loadoiro. Entom lhe preguntou de Meraugis quem era. Disse Estor: – U~u~ cavaleiro estrãio que achei pola ventura em esta demanda e acompanhamos nos ambos. E é boo cavaleiro, muito ardido a marivilha, mais nunca pude saber de qual linhagem é nem quem foi seu padre nem sa madre. E disseromlhe que saberia ende a verdade em vossa casa. E esta é a razom per que veeo ao regno de Logres. – Par Deus, disse elrei, marivilhas me dizedes de ser tam boo cavaleiro e nom conhecer homem de seu Título Fólio 357117d linhagem. – Assi é como vos digo, disse Estor. – E u vivia, disse elrei, ante que a esta terra viesse? – Em Cornoalha, disse Estor, com rei Mars que o fez cavaleiro ainda nom há dous anos. – E queria nosco ficar? disse elrei. – Eu cuido que si, disse estor, ao menos taa que sábia verdade de seu linhagem, ca o há aqui de saber, assi como lhe fizerom entendente. – E vós ficar[e]des migo? disse elrei. E pois que hei vosso linhagem assi come perdudo, se ficardes migo sem errardes na jura que fezestes quando ii entrastes, e pero ainda errardes u~u~ pouco, devíades a ficar por meu rogo. – Senhor, disse estor, em al faria eu vosso rogo, mais de ficar a esta sazom queria ante haver a cabeça talhada. Título Fólio 358117d [Como Meraugis ganhou a seeda da Mesa Redonda.] Quando elrei isto ouviu nom no quis mais rogar ca entendeo que lhe nom havia prol. Entom tornouse a Meraugis e disselhe: – Amigo, como havedes nome? E ele se nomeou. – E onde sodes? disse elrei. – De Cornoalha, disse el. – E veestes, disse elrei, por viverdes nosco? – Senhor, disse el, eu vivirei vosco taa que Deus me dee conselho daquelo por que aqui viim. – Vós sejades o bem viindo, disse elrei. De vossa viinda me praz muito. E bem acharíades aqui taes que vos fariam honra e seriam leedos vosco, mas vós veedes que todos andam tristes e com pesar das maas andanças que veem vi~ir aos Título Fólio 358118a home~e~s boos desta casa. – Senhor, disse el, se vós havedes ende pesar nom é marivilha, ca pelos home~e~s boos que vós havíades era vossa côrte temuda e dultada tá aqui e a nomeada ia ende per todo o mundo. Aquel dia loou muito Estor a Meraugis e levou muito adiante sa bondade d’armas e dizia muito bem del a quantos lho preguntavom. Aquel dia rogarom tanto Estor elrei e a rainha que lhes outorgou que ficaria com eles dous dias. Em outro dia, aa hora de meeo dia, quando elrei veeo da igreja e se assentou em seu paaço, veeo ante el u~u~ dos clérigos que as venturas dos cavaleiros andantes haviam discrever e ficou os geolhos ante el e disselhe manso: – Senhor, se vós quiserdes eu vos mostrarei u~a cousa com que vos prazerá. – Pois mostrademi, disse elrei. – Senhor, diss’el, pois treides migo. – E entom o levou aa Mesa Redonda aa seda de Erec e mostroulhe letras novas que diziam: “Aqui deve ser Meraugis de Porlegues”. E quando elrei vio as letras chamou Estor e muitos outros home~e~s boos que ii eram e mostroulhas e disse: – Que vos semelha desto? Estor, que muito amava Meraugis e que era mui ledo desta aventura, falou primeiro: – Senhor, semelhame que há gaanhada a honra da Mesa Redonda, ca estas letras volo mostram. E todolos outros se outorgarom ii e el-rei disse: – Jesu Cristo seja louvado e beento Título Fólio 358118b que tam toste pom conselho na honra da Mesa Redonda, de tal homem como este é. Entom foi mais leedo e contente ca ante e foi a Meraugis e filhou[o]pola mão e disselhe: – Amigo, vós sejades o bem viindo. Se vos nós nom conhicíamos, conhecevos Deus e podedes o veer pola seeda da Mesa Redonda que vos Deus deu e nós vola entregamos por ele e Nosso Senhor queira per sa piedade que sejades vós tam boo como aquel cuja era. E ele respondeo: – Assi o faça Deus. E assi disserom todolos outros. Entom o foi assentar na seeda que fora de Erec; e entom se começou polo paaço a festa e a lidice assaz grande, mais nom tal como fora se nom houvessem o pesar que havia[m]. Título Fólio 359118b [Como Meraugis soube verdade de seu linhagem.] Aquel dia meesmo que Meraugis houve a seeda da Mesa Redonda aveeo, a hora de noa, que chegarom dous cavaleiros armados, u~u~ d’armas brancas e outro de negras. E se me alguém preguntasse quem eram, eu lhe diria que o das armas negras era Claudim, filho delrei Claudis; e o outro das armas brancas era o que Persival nom quis fazer cavaleiro. E gram peça ante que Estor viesse aa côrte, veeram eles ii, mais foram empeçados de muitas cousas per que tardaram mais do que quiserom. Eles decerom Título Fólio 359118c e entrarom no paaço, as[si] armados como eram. Quando forom ante elrei os cavaleiros salvarom elrei e sa companha e preguntarom se era ii Meraugis. – Si, disse el-rei, veedeslo ali. – Ora me fazede desarmar, disse Claudim. E desarmaromno. E el filhou u~as letras que trazia em seu seo e deuas a Meraugis e disselhe: – Estas letras vos envia u~a empardeada que eu achei bem longe daqui nom há gram tempo. Aquela dona é tia de Persival e mandavos dizer que esta carta vos fará certãio da cousa do mundo que mais desejades a saber – saberdes verdade de vosso linhagem. Quando Meraugis ouviu estas novas foi tam ledo que nom poderia chus. E filhou as letras e disse: – Vo ´s me fezestes tam gram amor que vo-lo nom poderia em galardoar. Entom meteo as letras no seo, ca as nom quis leer ante tanto homem boo. E elrei preguntou Claudim quem era e de qual terra e el lhi em disse toda a verdade. A elrei prougue muito com el, ca muito o prezava de bondade e de cavalaria. E elrei ar fez desarmar o cavaleiro das armas brancas e fezlhe fazer muita honra. Pois ar tornou a Claudim e preguntou como se partira do regno de Gaunes. E el lhe em disse toda verdade, assim como o conto há já devisado. Título Fólio 360118c [Como Claudim e Artur o Pequeno ganharom as seedas da Mesa Redonda.] Título Fólio 360118d Eles fazendo sa lidice e sa festa por honra dos cavaleiros estranhos, u~a donzela da rainha, que era bem letrada, veeo a elrei aa hora de vésperas e disselhe: – Senhor, na seeda de rei Bandemaguz e em na seeda de Ivam das Brancas Mãos há letras novas. Eu cuido que as seedas ham cobrados senhores. Elrei foi muito ledo destas novas e foi alá e achou em na seeda de rei Bandemaguz o nome de Claudim e na seeda de Ivam das Brancas Mãos achou letras que diziam: “Esta é a seeda de Artur o Pequeno”. E este era o cavaleiro das armas brancas. E sábiam todos aqueles que este conto ouvirem que era filho de rei Artur e fezerao em qual guisa vos eu contarei, ca em outra guisa nom no poderíades saber. Título Fólio 361118d Aqui diz em como rei Artur fez Artur o Pequeno. E como o padre da madre d’Artur o Pequeno matou sa filha e seu filho por deslealdade. Verdade foi e a verdadeira estória o devisa que rei Artur fôra caçar na foresta de Bretheam, u~u~ pouco depois que a rainha Genevra achou Lancelot com a filha de rei Peles. Aquel dia que el caçava lhe aveo assi que perdeu toda sa companha e todos seus cães e o veado depós que ia assi que andou errado pola foresta u~a hora d’acá e outra d’alá, assi como aquel que nunca muitas vezes caçara per aquela foresta. Ele andou assi errado como vos Título Fólio 361119a digo e ave~eo que a ventura o levou a u~a fonte que era a entrada de u~a veiga. E aquela fonte era mui fremosa e achou ii u~a donzela soa, a mais fremosa rem que el nunca viu. E era vistida e guisada tam ricamente que nom era se marivilha nom. Quando elrei viu a donzela tam fremosa cuidou verdadeiramente que era fada porque siia soa. E deceo e liou seu cavalo a u~a árvor e decengeu sa espada e posea sobre a erva e seu arco e sas seetas: tantas armas tragia e nom mais. E dis i fôse contra a donzela e salvoua. E ela se ergueo contra ele e salvou muito aposto. E elrei se assentou e ela outrossi, e começarom a falar de su~u~. E achoua el-rei tam sisuda e de tam boa palavra que marivilha e foi tam pagado que jouve com ela per força. E ela que era menina que ainda nom sabia de tal cousa começou a braadar mentre ele jazia com ela, mais nom lhe houve prol ca toda via fez elrei o que quis. E fez entom em ela u~u~ filho. E depois que houve feito seu prazer e a quis levar consigo aquevos u~u~ cavaleiro já que d’idade que saio da foresta assi desarmado como rei Artur. E sabede que era padre da minina. Quando el achou sa filha assi chorosa, logo osmou em seu coraçom que lhe jouvera o cavaleiro com ela a força e deceo e meteu mão a espada Título Fólio 361119b e disse a sa filha: – Ou tu me diirás porque choras ou eu te talharei a cabeça. E ela houve pavor de morrer e contoulhe como lhe aviera. E o cavaleiro, que houve em gram pesar, começou catar elrei com gram sanha tanto que osmou que era elrei mais nom mui bem. Mais porque dultava i, disselhe: – Se Deus vos salve, dom cavaleiro, dizedeme quem sodes. – Si Deus me ajude, nunca por medo neguei meu nome nem agora farei. Sabede que eu som Artur. – Si Deus me ajude, disse o cavaleiro, pesame em, ca se outro fosse eu vingaria minha desonra. Mais de vós seria eu traedor, ca sodes meu senhor. Mais tanto vos farei: nom vos amar ja mais. Desonra me fezestes e vilania pois me forçastes minha filha. Elrei, que bem conhecia que lhe errara, disselhe: Aque mim que volo quero correger aa vossa vontade e quero casar vossa filha com u~u~ dos maiores cavaleiros de minha casa e de maior guisa. – Isto nom quero eu ora, disse o cavaleiro, e direivos porquê. Vós jouvestes com minha filha e pola ventura é prenhe de vós. E se agora logo outro casasse com ela, ainda que o filho fosse vosso, nom lho creriades vós nem ningu~u~. E por em a quero guardar u~a peça de tempo e, se per ventura for prenhe, fareivolo saber. E se nom, farei dela o que entender que será minha prol. Título Fólio 362119b [Como Tanas matou seu filho e sua filha e levou o meni~o a u~u~ logar esquivo.] Título Fólio 362119c Assi se partio elrei do cavaleiro e foi buscar sa companha ataa que a achou. E o cavaleiro levou sa filha e fezea guardar mui bem. E quando vio que era prenhe foi ende mui ledo e foio dizer a elrei em puridade. E dês que ar vio que era sazom de haver seu flho, foi a elrei e disselhe: – Senhor, como haverá nome o filho de minha filha? E elrei lhe disse: – Se for filha, haja nome Genevra e, se for filho, haja nome Artur o Pequeno em renembrança de mim que som Artur de tam gram poder. E por esto é todo que depois mim nom veerrá nenhu~u~ Artur que contra mim nom deva ser chamado Artur o Pequeno. O cavaleiro foi-se e pôs nome Artur o Pequeno ao menino, assi como lho elrei mandou. O cavaleiro havia u~u~ filho mui boo cavaleiro que havia nome Danor e o padre havia nome Tanas. E o [filho] havia por molher u~a dona mui fremosa e de tam boo doairo que marivilha era. E aveo assi que Tanas a amava tam de coraçom que nom amava tanto si nem al. E porque viu que nom podia haver dela seu mau prazer vivendo seu filho matouo u jazia u~a noite com ela. E dês i jouve com ela. E ela nom ousou i al fazer com medo da morte. E sabede que esto foi aquel dia que Artur o Pequeno foi bautizado. Quando a madre de Artur o Pequeno soube que seu padre matara seu irmão nom se pôde calar que nom Título Fólio 362119d dissesse: – Certas mal fizestes que me matastes meu irmão. Eu vos farei por em destruir e escarnecer mui cedo. E el houve pavor desta meaça, que bem soube a amava tanto [rei Artur] que toste faria o que ela dissesse, demais que bem viia que merecia morte. Respondeolhe: – Filha, nom me farás morrer, ca eu te farei como. Entom tirou a espada e talhoulhe a cabeça ali u jazia a par de seu filho que houvera o dia dant[e] aquele. Entom começou a catar o menino que jazia envolto em pano de seda e disselhe: – Convém que tu moiras ca, se te leixasse viver, tanto que fosses cavaleiro nom poderia ser que tu nom soubesses como te matei teu tio e ta madre. E tam gram deslealdade como esta nom pode ser que nom fosse sabuda e matarm’–[i]as por em. Nom haveria i al. Entom filhou o menino e levouo a u~u~ monte esquivo u havia u~u~ lago. E leixou[o] na riba da auga polo comerem bestas feras. Mas Nosso Senhor, a que nom esqueceu sa criatura, enviou entom ii aquela dona onde vos já falei que o criou pois tanto taa que veeo per ii Tristam e fezeo cavaleiro. Tanas, sem falha, quando viu que havia feita tam gram mala ventura, pensou que se mais vivesse na terra e o soubesse rei Artur que o justiçaria. E elrei, que o depois soube, houve gram coita do menino e mandou[o] buscar, mais nom pôde em rem saber se nom por Morgaim a fada que lhe enviou dizer assi: – Artur, Título Fólio 362120a sabede que vosso filho Artur o Pequeno é vivo e são e verrá aa côrte o primeiro ano que a gram demanda do Santo Graal se começará. E esto confortou muito rei Artur. Ora vos hei dito como Artur o Pequeno foi filho de rei Artur, assi como a verdadeira estória do Santo Graal o divisa. Título Fólio 363120a [Como rei Artur soube certamente que Artur o Pequeno era seu filho.] Rei Artur, quando vio as letras que diziam “Esta é a seeda de Artur o Pequeno”, fezese a pouco afora todo espantado com a gram lidice que ende houve. Ca logo lhe disse o coraçom que era seu filho. Pero nom quis que o soubesse outrem fora ele, ca nom tiinha por bem de lho saberem. E pois pensou nesto u~a gram peça, disse aos outros: – Que vos semelha? – Nós veemos bem, disserom eles, que Claudim há gaanhada esta seeda, mais d’Artur o Pequeno nom sabemos rem. E elrei disse: – Eu bem cuido que estoutro cavaleiro é. E eles preguntarom entom o cavaleiro: – Amigo, sodes vós Artur o Pequeno? E ele lhes disse: – Senhores, eu som cavaleiro e bem vos digo que nom sei quem me sou nem de qual linhagem nem como hei nome. E eles se maravilharom em muito e disserom a elrei: – Senhor, que dizedes vós i? Ca a nós nom semelha que lhe devemos outorgar a seeda, ataa que saibamos mais da sa fazenda. – Eu vos direi, disse elrei, que o façamos. Nem lha tolhamos nem lha demos, mais fique Título Fólio 363120b com nosco e eu enviarei a u~u~ logar que eu sei onde me enviaróm dizer se é este. A esto se outorgarom todos e Artur o Pequeno ficou. El-rei enviou u~u~ mandadeiro a Morgaim sa irmãã que o enviasse fazer certãio daquel cavaleiro onde todos os da côrte eram em dulta. E ela disse ao mandadeiro: – Sem falha, este é Artur o Pequeno. E dizede a meu irmão, disse ela ao mandadeiro, que bem assi como o padre desconhece o filho, assi o filho desconhece o padre. Assi se partio o mandadeiro de Morgaim e tornouse aa côrte e contou a elrei quanto lhe Morgaim. dissera. Entom soube elrei certamente que aquel era seu filho, e entom o meteu na seeda da Távola Redonda per outorgamento de todos, e outrossi fez a Claudim. Título Fólio 364120b [Como Artur o Pequeno soube que rei Artur era seu padre.] Outro dia manhãã disse Artur o Pequeno a elrei seu padre: – Senhor, por Deus, pois que me vós de meu nome fizestes certo, rogovos que me dedes conselho em u~a cousa que vos direi. E elrei lhe disse: – De quê? – Senhor, disse el, que sábia a verdade de meu linhagem, ca nom há rem no mundo que tanto deseje saber. E disserom-me que o havia de saber aqui. – Bem no saberedes, disse el-rei, ante que vos partades de mim. Entom o tirou a u~a sa câmara em sa poridade e disse-lhe: – Tu és cavaleiro já? – Senhor, disse el, si, mercee a Deus. – Ora quero, disse el-rei, que me jures sobre os Santos Avangelhos como Título Fólio 364120c cavaleiro, que nom descubras a homem nem a molher o que te eu direi atá em ta morte. E el ficou os geolhos e tendeu as mãos contra u~a capela e jurou assi como lhe el-rei disse. E el-rei o ergueu e pois disse-lhe: – Ora te direi o que me preguntaste. Sabe que és meu filho. E fiz-te eu em u~a donzela mui fremosa. E tanto tempo há. E entom lhe contou todo, assi como a estória o há já divisado. E pois lhe contou todo o seu, como fezera Tanas, disse-lhe: – Filho Artur, pero eu nom quero que saibam que tu és meu filho nom te amo eu por em menos, ca eu o leixo a dizer por nom saber o poboo meu torto e meu pecado ca, pois que Deus me escolheu por me poer em tam gram alteza, devo encobrir a todo meu poder minha catividade qual pecador quer que eu seja. Quando Artur o Pequeno ouvio estas novas foi mais ledo que poderia seer e disse: – Senhor, vós sabedes que em dias da minha vida esto nom serádescuberto. Mais tanto vos digo que estas novas metem em meu coraçom em tam gram argulho e em tam grande esforço que ante queria ser morto ca nom passar todos meus companheiros de cavalaria. E nom há rem no mundo per que eu tam gram honra possa haver como per estas novas, ca a grande alteza onde ven[h]o mi fará acabar quanto meu coraçom ousará cometer ou morrer. E entom ficou os geolhos ante seu padre e disse-lhe chorando: – Senhor, dês oi mais Título Fólio 364120d quero ser cavaleiro, pois me recebestes por filho. – E el-rei o ergueo e beijou o disse-lhe: – Filho, Deus te faça tal home~e~ qual eu queria. Mais, por Deus e por guarda de teu corpo e por meu rogo, nom comeces batalha nem peleja com linhagem de rei Bam, ca som todos mui boos cavaleiros sobejo. E, se per ventura matasses ende algu~u~, nom te poderia guardar eu nem outrem que te por em nom matassem. E eu te amo tanto que pun[h]aria em te vingar; mais esto nom no poderia eu fazer sem gram dano meu e de minha gente, ca som muitos e mui boos a gram maravilha. E ele lhe prometeo que assi o faria. Mais mintiu pois do que prometeu, ca pois o matou Blioberis o boo cavaleiro, o coirmão de Lancelot. E foi gram dano de sa morte ca muito era Artur o Pequeno mui boo cavaleiro e muito ardido. E sabede que nom foi menor de seu padre e bem foi atam arrizado e tam boo cavaleiro d’armas c ‘ homem com’ele. Título Fólio 365120d [Como Meraugis tragia sigo a carta u sa nacença era escripta. Depois que esto falarom, tornaromse ao paaço. E Claudim preguntou a Artur o Pequeno: – Sodes certãio de que desejávades? E el disse: – Eu apris tanto agora per que valrei más todolos dias de minha Título Fólio 365121a vida. E Meraugis lhe disse: – Artur, muito vos loades desta côrte! – Certas, disse el, se tanto que eu nom queira pola milhor cidade de Logres que eu ii nom fosse viindo. – Par Deus, di[sse] Meraugis, outrossi vos digo eu de mim, ca eu sou certãio da rem do mundo que eu mais cobiçava a saber, e esto foi de meu lin[h]agem. Fezme em certãio a carta que me deu Claudim. Beenta seja esta casa, ca nunca i vem tam desconselhado que se em conselhado nom parta. E sem falha nas letras que Claudim lhi deu jazia como era filho de rei Mars e de sa sobrinha e como a matara e como pendurara el da árvor. E quanto ende o conto há ja devisado todo jazia na [c]ar[t]a. E el houve gram pesar quando achou que rei Mars fezera a sa madre e em qual ventura el fora quando [o] achou o montanheiro pendurado da árvor. Aquel dia fez fazer u~a arqui~a de prata em que meteu aquela carta pola trazer todavia em seu seo pendurada a seu colo que cada vez que a visse nembrasse o pecado em que fora nado e per qual ventura guarecera e que se emmendaria per i contra Deus e contra o mundo e seria per i mais sem soberba e mais homildoso. Em tal razom tragia Meraugis sigo a carta em que sa nacença era escrita. Título Fólio 366121a [Como rei Artur soube quantos eram mortos na demanda e maldizia Galvam e como a rai~a deu a Estor u~u~ anel que desse a Lancelot.] Título Fólio 366121b Sete dias morarom em casa de rei Artur, Artur o Pequeno e Claudim e Meraugis, pola honra da Mesa Redonda que lhes Deus dera. E Meraugis rogara tanto Estor que ficasse por amor dele mais ante lhe houve a prometer que se partiria ende ao oitavo dia. E por em ficou ii estor polo atender. Aos #VII dias fez elrei catar pela Mesa Redonda, pelas seedas, cantos cavaleiros eram em mortos pois que se a demanda começara. E os que as haviam de catar disseromlhe: – Senhor, há i ende mortos #XXI. – Quaes? disse elrei. E eles disserom: – Ivam o Bastardo e Ivam das Brancas Mãos e Ivam de Cenel e Calogrenant e Patrides e rei Bandemaguz e Donadix seu irmão e Pelias o Forte. Estes três matou Galvam e Mordret seu irmão e Agravaim. Depois estes oito acharom que era morto Alama[m] de Camaalot e Luzes de Camaalot e Tanadal de Camaalot. Estes #III eram irmãos e eram mui boos cavaleiros e mui ardidos e eram filhos de u~u~ infançom de Camaalot. Depois acharom que era morto Bridalam, dês i, e Selitom e Sadalom. Estes dous eram primos cõirmãos e Título Fólio 366121c eram os mais louçanos #II da côrte. Dês i acharom que era morto Loc o Pequeno e Carmoisim o Grande e Anselim o Pobre e Calagant o Pobre e Baram. Todos estes foram mortos na demanda do Santo Graal, mais nom vos direi como ca o nom achei em francês, nem Boirom nom diz que em mais achou na grande estória do latim de quanto eu vos conto. Quando el-rei ouviu que tantos eram mortos abaixou a cabeça com gram pesar e, a cabo de u~a peça, disse, assi que os mais que i siam o ouvirom: – Ai, Galvam! Maldito sejas tu, ca todos estes home~e~s boos hei perdudos per ta móveda, Nom há tam rica côrte no mundo u tal companha nom fosse honrada. Tu m’hás feito gram dano. Tal dom te venha em esta demanda que nunca em ven[h]as. Esto disse elrei de seu sobrinho, ca muito lhe pesava daquela morte daqueles home~e~s bõõs. Aquel dia aa noite disse Claudim a el-rei, e Artur o Pequeno e Meraugis e Estor, que se iriam de manhãã por entrar na demanda do Santo Graal. E espidiromse aa rei~na e aas donzelas. A reinha falara aquela domãã de Lancelot muito com Estor e deulhe u~u~ anel que lhe desse e que lhe dissesse que tanto que visse o anel que nom fezesse al se nom que se viesse logo. E el lhe prometeo que lhe adobaria aquel mandado tanto que o achasse. E assi se partiu dela. Título Fólio 367121c [Como Claudim e Artur o Pequeno e Meraugis e Estor se partirom de casa de rei Artur.] Título Fólio 367121d Em outro dia sem tardar partiromse os quatro companheiros de casa de rei Artur. E elrei foi com eles té na foresta. Dês i comendou[o]s a Deus e tornouse. E eles entrarom na foresta por buscarem aventuras, assi como cavaleiros andantes devem fazer. Mais ora leixa o conto a falar deles e torna a Galaaz por falar del, ca muito há que del nom falou. Título Fólio 368121d [Como Tristam se foi pós Galaaz e lhe pediu que lhe tevesse companhia.] O conto diz que pois se partiu Galaaz do torneo u chagou Galvam assi como o a estória há já devisado, Tristam, que havia gram sabor de o conhocer pola marivilha que lhi i viu fazer em armas em aquela assu~ada, foise pós ele. E el andou bem u~a légua que lhe nom o[u]sou falar porque viia que se queria encobrir. E Galaaz que se ia quanto mais asinha podia e bem cuidava que niu~u~ nom ia preto dele, cavalgou atá preto da noite e entom chegou a u~a foresta que havia nome Aacena. Título Fólio 368122a Quando el houve a entrar na foresta, Tristam, que se temia de o perder, ou pela noite que se chegava ou pela foresta que era espessa, coitouse de se chegar e, aa entrada da foresta, chegouse a ele. E Galaaz, quando [o] ouvio chegar, volveu a cabeça. E Tristam salvou[o] logo e disselhe: – Senhor, Deus vos guii. – Senhor, disse Galaaz, Deus vos dee boa ventura. E nom lhe disse chus, ante se calou e pesoulhe de que o acalçara. Ca, porque o viira no [t]orneo, soube bem que ia pós ele. – Ai, Senhor! disse Tristam, quem sodes? – Senhor, disse el, som u~u~ cavaleiro. – Senhor, disse Tristam, cavaleiro sei eu bem que sodes vós, fora que sodes o milhor do mundo. Por Deus e por cortesia, nom vos encubrades contra mim mais dizedeme algu~a rem de vossa fazenda ca, si Deus me conselhe, nunca vii cavaleiro cuja conocença nem cuja companha ante quisesse. – E vós quem sodes, disse Galaaz, que tam gram sabor havedes de me conhecer? – Senhor, disse el, som u~u~ cavaleiro de Cornualha que chamam Tristam e fui já em casa de Rei Artur. – Bem sejades vós viindo, disse Galaaz. Eu vos ouvi tanto louvar a muitos home~e~s boos que me nom encobrirei contra vós em ninhu~a guisa, de mais que veestes pós mim tam longe por me conhecer. Sabede que eu som Galaaz, filho de dom Lancelot do Título Fólio 368122b Lago, que é tal cavaleiro como sabe todo o mundo. Quando Tristam esto ouviu humildouxele muito e disse: – Ai, meu Senhor! Vós sejades o mui bem vindo, e beento seja Deus porque vos achei em esta demanda. Por Deus e por cortesia outorgademe que vos tenha companha até que a ventura nos parta. – Senhor, diz Galaaz, vós me pedides dom que devia eu a vós a pedir. Certas, vós sodes tam boo cavaleiro que eu nom desejo menos a vossa companha que vós a minha. E el lho agardeceu muito. Título Fólio 369122b [Como Galaaz e Tristam falavam do cavaleiro da Besta Ladrador.] Depois que esto disserom foromse ambos pela foresta e começarom a falar, indo, de muitas aventuras que lhes aveeram. na demanda. – Dom Galaaz, disse dom Tristam, eu bem sei que vós fezestes em esta demanda mais que nem u~u~ cavaleiro de quantos i som e más achastes i de marivilhas e de venturas. Por Deus tanto me dizede se vistes já a Bestia Ladrador, ca me disse em Gariet novas u~u~ dia que [n]os achámos. – Certas, disse Galaaz, eu a vi. – E vistes, diz Tristam, o cavaleiro que anda pós ela? Eu o oí muito loar de cavalaria. – Certas, disse Galaaz, ele é mui boo cavaleiro. Se fosse cristão muito devia homem prezar sua cavaleria. Mais desto me pesa muito e como desamoo porque é mouro! E entom contou a Tristam quanto del Título Fólio 369122c ouvira dizer. E Tristam se sinou da marivilha que ende ouviu e disse que muito era gram dano de que nom era cristão pois que tam boo cavaleiro era. Título Fólio 370122c [Como Galaaz e Tristam ouvirom chegar u~u~ cavaleiro u jaziam.] Falando em estas cousas chegoulhes a noite tam muito que sol nom viam per onde ir. Entom acharom u~a casa velha u morava [u~u~] montanheiro, já tempo havia, e era já quanta dela derribada. E Tristam disse: – Fiquemos aqui ca, se chover ou fizer mau tempo, melhor jaremos em esta casa ca fora. E el se acordou i. E decerom e leixarom seus cavalos pacer ca nom tiinham outra cevada que lhes dar. E pois tolherom seus elmos começatom a falar em aquelo que houverom maior sabor e esto era nas aventuras do regno de Logres. E eles ema esto falando ouvirom viir u~u~ cavalo ri[n]chando e vi~ia passo. – Algu~u~ estrãio, disse Tristam, vem aqui. – Per ventura, disse Galaaz, é algu~u~ cavaleiro andante. – Bem pode ser, disse Tristam. A esto chegou o cavaleiro da outra parte da casa e pensou ficar já ii aquela noite. Entom deceu e leixou seu cavalo ir pacer. Entom disse Tristam a Galaaz: – Calemosnos ora e veremos que fará este cavaleiro, ca nom cuida que nós aqui jazemos. Título Fólio 371122c [Como o cavaleiro chorava e fazia seu doo por Iseu.] Título Fólio 371122d Quando o cavaleiro foi desarmado começou a pensar muito. E pois que pensou gram peça deu u~u~ gram suspiro. Dês i começou a chorar a mui grandes saluços assi que aqueles que o escuitavam eram ende espantados. Dês i começou a fazer seu doo e a dizer: – Ai, amur! Vós [me] havedes morto e trautado. Eu bem cuidava que bem e lidice me veesse de vós, e ora vejo que me nom vem em senom coita e mal e pesar e toda mala ventura. Depois ar disse: – Ai, cavaleiro astroso e cativo e pobre, porque meteste teu coraçom em tam alto lugar unde nom podes rem haver? Porque a vi por minha morte e por minha confusom, ca eu morrerei por bem amar e ja mais nom haverei d’amur por galardom se nom morte. Depois ar disse: – Ai, rainha Iseu, a mais fremosa dona que nunca homem viu, rainha das rainhas, senhor das senhores, fonte e espelho de beldade, tam fremosa cousa e de tam boo doairo e tam cortês e tam preçada que todo o mundo val mais per vós e este nomeado de vossa beldade. Senhor depós cuja morte todo o mundo se pode loar que ante vós nom foi tam fremosa nem agora é nem depois seerá! Ora prouguesse ao rei dos reis que vós me quiséssedes tam gram bem como Título Fólio 371123a queredes ao fremoso Tristam. Se Deus me ajude, eu me teria em por melhor aventurado ca de todo o mundo seer meu. Título Fólio 372123a [Como Tristam era mui sanhudo de que o cavaleiro amava Iseu.] Pois esto disse, calouse e depois pensou gram peça, ar começou seu do[o] e, pois fez gram peça seu doo, ar disse: – Ai, rainha lseu cuja beldade me háde matar, ca nom posso viver longamente! A vós comendo minha alma; a vós rendo meu corpo; a vós dou meu espírito! Vossos sejam meus olhos, vosso seja meu andar, vosso seja meu falar, vosso seja meu pensar, vosso seja meu dormir, vosso seja meu velar, vosso seja meu trabalhar, vosso seja meu folgar, vossa seja minha morte e vossa seja minha vida. E nom queira Deus que em outra guisa seja. E pois disse esto adormeceu, ca andava mui cansado. Gram peça depós esto nom dormecerom Galaaz nem Tristam ca atendiam que ainda dissesse mais. E, pois entenderom que adormecera, disse Galaaz a Tristam: – Vistes nunca tam sandeu cavaleiro? E Tristam, que era mui sanhudo do que lhe ouvira dizer, disse: – Senhor, ainda el nom conhece sa sandice como eu creo que lha farei conhecer ante que se de nós parta. Título Fólio 372123b Em mal ponto viu o amor de Iseu, ca morrerá por em, se companheiro da Mesa Redonda nom é. E Galaaz se calou que o nom ousou culpar deste feito. E Tristam disse do cavaleiro, se por amor de Galaaz nom fosse, que o iria logo matar. Muito pensou Tristam aquela noite em aquel preito e muito desejou a saber quem era aquel cavaleiro que tam muito amava Iseu. E pois pensou tam gram peça adormeceo, mais isto nom fez Galaaz ca tam toste que sintiu dormir Tristam apartouse u~u~ pouco dele e ficou os geolhos em terra e começou a fazer sas orações e rogar a Nosso Senhor Deus que per sa piedade o guardasse e mantivesse em taes obras que nom caesse em pecado mortal e que o guiasse, se lhe aprouguesse, em tal guisa que visse algu~a cousa das poridades do Santo Vaso, se é aventura que outorgada seja a acabála cavaleiro pecador. E, pois esteve gram peça fazendo sa oraçom, [j]á preto do dia comendouse a Nosso Senhor e deitouse a dormir sobre seu escudo e dormiu ataa que foi dia claro. Título Fólio 373123b [Como o cavaleiro da Besta Ladrador amou Iseu.] Título Fólio 373123c Quando Galaaz espertou do sono achou a cabo si Tristam, que dormia tam feramente como se houvesse #IIII dias que nom dormisse. Mais o outro cavaleiro nom fez assi, ca esta[va] já armado em seu cavalo. E quando vio aquela companha pesoulhe muito, ca bem soube que ouviriam o que el dissera. E por esto se coitou de s’ ir o mais toste que pôde. E sabede que tragia u~u~ escudo negro com u~u~ liom branco. E se me alguém preguntar quem era aquele cavaleiro que tam muito amava Iseu, eu lhe diria que era o boo cavaleiro pagão, o da Bescha Ladrador. E quem saber quiser em qual guisa amou primeiramente Iseu e quanto fez e sofreo por ela, a grande estória de Tristam lho dirá. Mais esta vez sabede que passava pela Joiosa Guarda e viu Iseu e, pola gram beldade que lhe vio, renovouxelhe o amor que dela havia e começou de crecer mais e mais assi que nom amava tanto sii, nem outra, nem rem nom no fazia desesperar de haver seu amor, senom que Tristam era u~u~ dos fremosos cavaleiros do mundo, u~u~ dos melhores. Estas dous boas man[h]as que sabia em ele o faziam morrer com pesar e com inveja, ca bem sabia de si que nom era fremoso, mais tinhase por boo cavaleiro. Título Fólio 374123c [Como o cavaleiro derribou Ebes o Nomeado.] Título Fólio 374123d Pois o cavaleiro sobio em seu cavalo, partiose dali a mui grande ir. Entom andou tanto que topou com Ebes o Nomeado, u~u~ cavaleiro da Mesa Redonda, arrizado e muito ardido. Quando o cavaleiro do escudo negro o vio, disselhe: – Senhor cavaleiro, a justar vos convém. E Ebes, que fora já em muitos lugares caes despois que fora cavaleiro, leixouse ir a ele. E o boo cavaleiro o feriu tam bravamente que o pôs em terra. E abaxouse e levou o escudo dele e leixoulhe o seu. Esto fez ele polo que dissera que se alguu~u~ fosse retrau´do, que a culpa se em tornasse sobre aquele que o seu escudo levava. E Galaaz, que o viira partir de aquel lugar u jouvera, quando entendeo que era já alongado, espertou Tristam. E se alguém me preguntar porque o nom espertava enquanto ii era o cavaleiro, eu lhe direi que o leixou polo nom matar Tristam ante el por cativa razom como d’amar a rainha Iseu. Quando Tristam se espertou catou darredor de si, ca bem cuidava ii achar o cavaleiro que amava Iseu. Mais quando o nom viu houve gram pesar e preguntou a Galaaz: – Senhor, vistes vós o cavaleiro quando se foi? – Vii, disse Galaaz, e nom há muito que se foi. – Ora vos rogo, disse Tristam, pola fee que devedes a vosso padre Lancelot e a todolos cavaleiros da Mesa Redonda, que me digades que escudo trage e per u se vai. – Vós Título Fólio 374124a disse Galaaz, mim conjurastes tanto que volo direi, mais pesame ca bem sei que nom pode em vi~ir bem a vós nem a el. Eu vos digo que leva u~u~ escudo de u~u~ liom branco e foise per ali. E mostroulhe per u. – Nom vos demando mais, disse Tristam. Entom se armou e guisou seu cavalo e sobio em ele. E Galaaz ar fez outrossi e disse a Tristam: – U queredes vós ir? – Eu quero ir, disse el, depós o cavaleiro do escudo negro e queria, se vos prouguesse, que fôssedes i migo. – Nom farei, disse el, esta vez, ca hei muito alhur de fazer. E entom se partirom. Galaaz se foi atraversso da foresta como aquel que a seu grado queria escusar a companha de Tristam. E Tristam se foi com gram pesar e sanhudo polo gram caminho da foresta. E nom andou muito que nom topou com Ebes o Nomeado. E quando vio Tristam conhecêo, mais Tristam nom conheceo ele. E deulhe grandes vozes: – Guardadesvos de mim, cavaleiro, ca nom há i se nom morte. Título Fólio 375124a [Como Tristam matou Ebes o Nomeado.] Quando Ebes ouvio isto foi todo espatando, ca bem sabia que nom devia em el meter mão em niu~a guisa. E Tristam, que o nom conhecia e o desamava mortalmente polo escudo do liom branco que lhe viia, baixou a lança e leixouse correr a ele. Título Fólio 375124b E Ebes começou a dar vozes: – Estade, dom Tristam, estade. Mais el nom esteve por em e ferio tam bravamente que lhe falsou o escudo e a loriga e lhe meteu a lança per meo do peito, assi que o ferro pareceu da outra parte e metêo em terra tam mal treito que nom houve mester de meestre. E tanto que o viu em terra deceu, ca tanto o desamava que se nom teria por pagado se lhe a cabeça nom talhasse: e meteu mão aa espada e talhoulhe as correas do elmo. E Ebes abriu os olhos e, quando o viu que o queria matar, disselhe: – Ai, dom Tristam, mercee! Vosso companheiro era da Mesa Redonda! Porque me matastes? Ca, Deus o sabe, nunca volo mereci. Quando Tristam esto ouviu fezese afora muito espantado e disselhe: – Quem és tu? – Eu som, disse el, Ebes o Nomeado. Por Deus, dizedeme porque me mataste? – Eu te matei, disse el, por minha senhora Iseu que amas. – Ai, Senhor, mercee! Disse Ebes, eu morto som. Mais Deus nunca me haja mercee d’alma se nunca a amei nem nunca a vi. – Como? disse Tristam, nom sodes vós o cavaleiro que jouvestes acá diante em u~a casa derribada? – Nom, Senhor, disse el, ante jouvemos eu e Gariet em u~u~ castelo preto daqui. Eu cuido que per este caminho veerrá e aquel vos dirá em bem a verdade. – Ora nom sei, disse Tristam, que possa fazer, ca u~u~ que tragia tal escudo como vós andava eu buscando e por este cuidava que érades vós. – Ai, Senhor! disse Ebes, aquel justou hoje Título Fólio 375124c comigo e deitoume e filhoume o escudo e leixoume o seu. Em mal ponto vi eu ende o câmbio. – Verdade é, disse Tristam, mas muito me pesa, se Deus me ajude. Mas ora me dizede que escudo era o vosso? – O campo d’argent, disse ele, e u~a serpente d’azul na [t]esta. Título Fólio 376124c [Como Gaeriet fez soterrar Ebes e como Tristam se partiu depólo cavaleiro e achou Dondinax.] Enquanto eles assi falavam aquevos Gariet que chegou i. E quando viu Tristam conhecêo bem e salvou[o]. Tristam ar salvou el com gram pesar e mui triste. – Ai! disse Gariet, e quem matou dom Ebes? – Eu o matei per desconhecença, disse Tristam. E, se Deus me haja mercee, pesame muito. E, por Deus, guardadeo; e, se morrer desta chaga, fazedelhe haver sepultura honrada, assi como cavaleiro andante deve haver. E eu ficaria i vusco, mais voume pós u~u~ cavaleiro estranho e nunca serei ledo taa que o ache. E Gariet disse que toda honra que lhe podesse fazer faria. E ficou com el com gram pesar de sa morte e disse que se Tristam nom fosse da Mesa Redonda que o vingaria a seu poder. E esteve ii tanto tá que foi morto e filhou[o] e levou[o] a u~a abadia e fezeo soterrar o mais honradamente que pôde e fez escrever na campãa do muimento letras que dizia[m]: “Aqui jaz Ebes o Nomeado, que Tristam o matou”. E Tristam, que se partiu de Gariet, foise a grande ir depós o cavaleiro. E nom Título Fólio 376124d andou muito que se achou com Do[n]dinaux [que] lhe disse: – Dom Tristam, u ides a tam gram coita? – Eu vou, disse el, depós u~u~ cavaleiro que traz u~u~ escudo d’argent e u~a serpe d’azul pela testa. E disseromme que ia que per aqui, per u vós vi~indes. Achasteslo vós? – Si, achei, disse Do[n]dinaux, em mau ponto por mim, ca justei com el e deume tal caeda que ainda me doio. – E é já ora longe? disse Tristam. – Certas, disse Do[n]dinaux, se vos u~u~ pouco quiserdes coitar, acalçaloedes ca el vai mui passo e vaise per este caminho. – Ora vos comendo a Deus, disse Tristam. E entom se partirom ambos. Título Fólio 377124d [Como Tristam se combateu com o cavaleiro.] Tristam se foi depós o cavaleiro quanto o cavalo o pôde levar. E nom andou muito que o acalçou em u~u~ vale. E o cavaleiro teve olho pós si quando ouiu Tristam ir depós si, e este[v]e, ca bem entendeu que nom ia senom por peleja. E quando Tristam se foi chegando a el, disselhe: – Guardadevos de mi, ca vos desfio. Aquel, que bem viu e entendeu que se por al nom podia partir, baixou a lança e feriromse ambos tam bravamente que poserom em terra si e os cavalos sobr’os corpos; mais outro mal nom Título Fólio 377125a xe fizerom ca as lorigas d’ambos eram mui boas. Pero forom britados e mal feridos das quedas. E ergueromse mui vivamente ca havia cada u~u~ gram vergonça de ser derribado per u~u~ soo cavaleiro. E meterom mão aas espadas e leixaromse ir a si e deromse os maiores golpes que poderom de toda sa força, assi que fezerom os elmos peiores ca ante e os escudos e as lorigas. Que vos direi? Tanto mantiverom ambos aquela primeira batalha – e esto era porque se tiinha cada u~u~ por boo e por valente – atee que chegou Bliobleris que era da Mesa Redonda e primo cõirmãão de Lancelot do Lago. E aquel era a marivilha mui boo cavaleiro d’armas. Título Fólio 378125a [Como Bliobleris se maravilhou da bondade dos cavaleiros.] Depois que Blioberis catou u~u~ pouco os cavaleiros que ainda se combatia[m] e os viu tam boos e tam vivos, marivilhouse, pois taes eram quaes eram e pesoulhe daquela batalha pola bondade que em eles viu ca nom podia creer que nom eram da Mesa Redonda. E por esto partiria el de boa mente esta batalha se podesse aa honra d’ambos e atendeo tanto que foram ambos cansados e que se fez u~u~ afora do outro, mal treitos e mal lassos ca muito sofreram. E pero Tristam nom era tam mal treito como Título Fólio 378125b o outro cavaleiro, ca era de maior força e pola gram siira que em sii sintia, marivilhouse sobejamente como o cavaleiro se podia tam muito contra el teer. E bem outrossi pensava o outro ca tantos home~e~s boos trouxera mal per seu corpo e vencera que se maravilhava quem poderia seer este com que se combatia, ca bem viia que, sem falha, que este era o milhor cavaleiro com que se nunca achara. Entom esmou em seu coraçom que este era o mui boo cavaleiro que havia a dar cima aas aventuras, ou Lancelot ou Tristam. Se era Galaaz tinhase por morto ca bem sabia que era melhor cavaleiro ca el. Se era Lancelot e o el matasse temiase de morrer por el ca havia em seu lin[h]agem melhores cavaleiros do mundo que o vingariam. Se era Tristam tiinha que lhe havia feito grande erro que metera em el mão, ca ao menos deveria guardar por amor de Iseu que el tanto amava. Título Fólio 379125b [Como Palamedes deu sa espada a Tristam.] Em este cuidado estava o cavaleiro pagão quando se fez afora de sa batalha. E Bliobleris, que os partira de grado, chegouse a eles e disselhes: – Ai, Senhores! Por Deus e por cortesia, dizedeme quem sodes. Título Fólio 379125c – E a vós porquê? disse Tristam. Esto nom é cortesia de preguntardes cavaleiros estranhos que vezes i há que vam demandar aventuras que nom queriam que niu~u~ conhocesse. – Senhor, disse Bliobleris, verdade é, mais pero é custume que, se u~u~cavaleiro vee #II mui bõõs juntaremse per sanha e per maa talant[e] aa batalha, se os nom conhece e há sabor de os preguntar pola bondade que em eles vee e os preguntar por sua fazenda, nom lho teerem a vilania. E certas, tanto creeo eu de vós que, se ora vós vissedes os melhores dôs cavaleiros do mundo em u~u~ campo em batalha, ja mais nom seríades ledo taa que os nom conhecessedes. – Bem pode ser, disse Tristam. – Pois, disse Bliobleris, nom me ponhades culpa de vos preguntar, ca bem sabede que se eu nom visse mais de bondade em vós ca em outros vii nom vos preguntaria; e por em vos rogo que me digades quem sodes. – Eu volo direi, disse Tristam, mais bem sabede que vos nom tenho por cortês d’esto preguntardes, ante sodes cavaleiro mui vilão e mui neicio, pero direivolo. Sabede que som Tristam. – Ai, Senhor, mercee! disse Bliobleris, nom vos assanhedes assi contra mim, mais perdoademe este erro. E, se o nom queredes fazer por mim, fazedeo por amor de meu linhagem que vos ama muito. – E quem sodes vós? disse Tristam. – Senhor, disse el, eu som Bliobleris. Bem me deviríades a conhecer. – Si faço, disse ele, e porque vos conhoço Título Fólio 379125d vos perdoo o mal talam que vos havia. E ele lho gar[d]eceo muito. E dês i tornou ao outro cavaleiro e disselhe: – Senhor, eu vos rogo por cortesia que me digades quem sodes. – Eu volo direi de grado, disselhe. Sabede que eu hei nome Palamedes o Pagão, o cavaleiro da Besta Ladrador. E eu vos fui bõõ, peça há, quando #II irmãos de Galvam vos queriam matar. E, se eu nom fora, matara[m]vos. Ora me seede boo em u~a cousa que vos direi. – Dizede, disse Bliobleris, ca nom ha rem no mundo que eu por vós nom faça que logo me nom aconhoceria no que por mim fezestes. – Veedes aqui, disse Paramedes, dom Tristam, que me cometeo tam sem razom. Sem falha el é mui boo cavaleiro, mui melhor ca eu. Mais se fosse o peior do mundo e o eu tivesse preto de vencido, eu lhe leixaria a batalha pois o conhoço, ca eu sou aquele que em ni~u~a guisa nom me combateria com ele. Deus em sabe minha voontade. – E esto vos farei eu bem, disse Bliobleris. Entom disse a Tristam: – Senhor, eu vos rogo por Deus e por cortesia que vós leixedes oimais por mim esta batalha, ca vós sodes ambos tam boos cavaleiros que seria grande dano de se u~u~ de vós perder. E de mais o cavaleiro vos roga em e assi havedes ende a honra pois el demanda a paz nom no teendo ainda em guisa que o vençades. E de mais quitavos o erro que lhe Título Fólio 379126a fezestes dês que o cometestes tam sem razom. – Ai, Bliobleris! disse Tristam, por Deus, nunca me faledes ii. Sabede que nom há no mundo fora dous home~e~s que i podessem meter paz, que tam mortalmente o desamo que eu o matarei ora ou el mim. E por esto vos rogo que vos nom trabalhedes de meter ii paz, ca nom pode ser nem já Deus nom na i meta taa que u~u~ de nós seja morto. – Ai, Senhor! disse Bliobleris, se Deus quiser, vós nom no faredes, ca já pois que o cavaleiro quer a paz, vós nom no poderedes recear per direito. Entom se chegou Paramedes e ar disse: – Dom Tristam, eu me combati com vosco atá aqui e bem sei que sodes u~u~ dos boos cavaleiros do mundo e bem no hei provado. E eu nom som ainda tam mal treito que demandasse paz, se nom fossem duas cousas que mo defendem: a u~a é vossa boa cavalaria e a outra vos nom diria em ni~u~a guisa. Mais Bliobleris, que decera já, se metera entr’ambos. – Esto nom há mister, disse Tristam. Certas, a morrer vos convém. e disse: – Ai, dom Tristam! Esto nom cuidaria eu em ni~u~a guisa, de nom quererdes fazer rem por meu rogo. – Nom há homem, dissi Tristam, por que ii rem fezesse. E Paramedes ficou os joelhos ante Tristam e dissilhe: – Ora podedes de mim fazer o que vos prouguer, ca eu me outorgo por vençudo desta batalha. E veedes aqui minha espada que Título Fólio 379126b vos dou, ca bem sabede que nom haveria poder nem força de me mais defender contra vós. Ora havede mercee de mim, se vos prouguer, ou me ar matade, se vos prouguer. Título Fólio 380126b [Como Tristam houve a leixar a batalha.] Tristam, quando isto ouvio, houve em tam gram pesar que bem quisera ser morto porque el nunca tam mortalmente desamara cavaleiro como este e nom se podia del vingar que nom fosse perjurado e desleal contra a Mesa Redonda. Era tal custume que todo cavaleiro que ende companheiro fosse nom devia meter mão em cavaleiro pois que lhe sa espada desse já tanto de erro nom lhe haveria feito. E por este custume houve Tristam entom a leixar aquela batalha. E quando vio que o cavaleiro lhe dava sa espada, disse com mui gram sanha porque nom podia comprir sa voontade: – Nom quero ta espada nem re[m] de teu, pero leixote a batalha. Mais pero tanto te juro que ja mais nunca haverei prazer taa que seja de ti vingado, ca em no primeiro lugar u te eu achar possa se[e] seguro da batalha e da morte se mais posso ca ti. E el respondeu: – Quando me cometerdes, pesarm’á em. Entom disse Tristam a Bliobleris: – Vós me tolhestes aqui de me vingar do homem do mundo que peior queria. E por em vos Título Fólio 380126c digo que todo mal que vos viesse nom me pesaria em. E Bliobleris respondeo: – De vossa sanha me pesa, mais sabede que este cavaleiro fez tanto por mim que, se o eu leixasse morrer u o acorrer podesse, todo o mundo mo teria por mal. Entom foi Tristam a seu cavalo e sobio em el e pois disse a Paramades: – Vós nom havedes aqui de que vos guardar, mais bem sabede que em no primeiro logar que vos achar, que me nom escaparedes que vos nom mate ou vós mim. E Paramedes disse: – Nom sei como xe averrá, mais nossa batalha estorvarei quanto eu poder. Título Fólio 381126c [Como Tristam achou Lambeguez que fora derribado ante u~u~ castelo.] Entom se foi Tristam mui sanhudo e com gram pesar de que nom matara Paramades. E Paramades ar cavalgou o mais toste que pôde e foise per outra parte, mais muito graciu a Bliobleris o que lhe fezera e dissi lhe que lho galardoaria de grado se lhi guisasse. E Bliobleris ar filhou sa carreira per outra parte. E Tristam andou tanto aquel dia que lhe anoitecê aa entrada de u~u~ castelo que estava sobr’u~a veiga pequena e chamavomno o castelo de Sagramor porque o dera rei Artur a Sagramor. Título Fólio 381126d Aquela noite jouve ii Tristam e foi ii servido e honrado a seu prazer, ca os do castelo eram acustumados de servir o milhor que podessem os cavaleiros andantes porque seu senhor era cavaleiro andante. Mais este servirom ainda mais que outro serviriam pois que souberom que era Tristam onde corria mui gram nomeada per todo o regno de Logres. Em outro dia, pois ouvio missa, cavalgou e andou taa hora de meeo dia. Entom saio da foresta e achou u~u~ cavaleiro que era da Mesa Redonda, armado de todas armas. E havia nome Lambeguez. E tam toste que se viirom conheceromse logo e abraçaromse e foromse mui leedos sigo. E Tristam disse: – Dom Lambeguez, que novas? – Mui boas, dissi ele. – Mais como vos foi depois que entrastes em esta demanda? disse Tristam. – Senhor, disse Lambeguez, bem, aa mercee de Deus, ca muitas aventuras achei boas e maas. Mas hoje, sem falha, me aveeo peor ca peça a mim aveo. – De quê? disse Tristam. – Par Deus, disse Lambeguez, ca passava per ante u~u~ castelo que hoje acharedes ante vós se per esta carreira fordes, e há i gram gente assuãda em tendas e em tindilhões, nom sei porquê. E, quando eu cheguei i, quis passar per ante as tendas. Entom veeo u~u~ cavaleiro contra mim armado Título Fólio 381127a de todas armas e demandoume justa. E eu nom na quis recear porque é direito de todo cavaleiro nom recear justa d[e] u~u~ cavaleiro nem de dous. E derribei aquele. Depois ar veo outro boo cavaleiro que me derribou; e deume o cavalo per sa cortesia. E pois cavalguei, demandeilhe batalha. E el me disse que batalha nom faria com homem derribado. Entom me parti dele. – Cuidades vós, disse Tristam, que se per i for que haja de justar? – Si, sem falha, disse ele. – Pois comendovos a Deus, disse Tristam, ca por tal meaça nom leixarei meu caminho. – Senhor, dissi Lambeguez, e dos do lin[h]age~e~ de rei Bam sabedes algu~as novas? – Si, dissi Tristam, Bliobleris se partiu aa noite de mim e Galaaz pouco há. Dos outros nom sei rem eu. – Cuidades vós, disse Lambeguez, que podesse eu achar Bliobleris? – Nom sei, disse Tristam, se Deus me ajude. Entom se comendarom a Deus e partiromse. Título Fólio 382127a [Como Tristam chagou a morte u~u~cavaleiro que saiu das tendas.] Lambeguez se foi a u~a parte depós Bliobleris, assi como a ventura o quis guiar, e Tristam se foi ao castelo que lhe ensinou. E aquel castelo era fremoso e rico e estava sobre u~a augua Título Fólio 382127b grande e forte e funda. Aquel dia faziam gram festa polo filho delrei que havia em outro dia ser coroado. E havia nas tendas bem #XX cavaleiros armados que atendiam ali que a ventura dussesse ant’eles algu~u~ dos cavaleiros da Mesa Redonda, ca eles sabiam bem que andavam na demanda do Santo Graal e andavam buscando aventuras preto e longe per meiogo o regno de Logres. E eles esto atendendo aquevos Tristam que chegou ii soo e pensando muito como aquel a que nom podia esquecer Paramedes, que assi começara a amar a rainha Iseu, nem aventura nom lhe aveera peça havia onde houvesse tam gram pesar como de que o nom matara. Ele assi indo pensando e chegando aas tendas saio u~u~ cavaleiro a ele armado que lhe disse: – Senhor cavaleiro, sodes vós de casa de rei Artur? E el ergueu a cabeça e disse: – Si, som sem falha. – Pois guardadevos de mim, disse o cavaleiro, ca nom há rem do mundo que tanto desame como os daquela casa. – Vós começastes, dissi Tristam, tam sandeu desamar que nunca vos em bem verrá. E leixouse correr logo a ele e firio em guisa que meteo toda a lança em ele e meteuo em terra chagado a morte e sacou a lança Título Fólio 382127c dele sãã, ca bem usmou que ainda lhe seria mester. Título Fólio 383127c [Como Tristam firiu a morte outro cavaleiro.] Quando os das tendas virom aquel jazer em terra que nom fazia sembrante de se erguer, disserom: – Morte é, morto é! E u~u~ deles se colheo toste a u~u~ cavalo forte e ligeiro e leixouse ir a Tristam. E Tristam que se ia já tornou a el e ferio que o meteu morto em terra. El-rei, que em outro dia havia a coroar seu filho e que estava nas tendas com sa companha, quando vio aqueles dous golpes, disse aos que estavam armados; – Esta[d]e quedos e leixade o cavaleiro ir em paz, ca bem se quitou do que devia. Si Deus me ajude, el é boo. Entom disse a u~u~ seu irmão que estava desarmado: – Cavalgade toste e ide pós el e dizedelhe ca lhe rogo que me envie dizer seu nome. – O cavaleiro cavalgou e foise a Tristam e disselhe quanto lhe mandou elrei. Tristam, que u~u~ pouco estava sanhudo, respondêlhe: – Senhor, u~u~ cavaleiro estranho som; nom me demandedes mais ca nom podedes em mais saber. – Ai, Senhor cavaleiro! Dissi el; se Deus quiser, vós esta vilania nom faredes que nom enviedes dizer a meu senhor elrei o que vos enviou rogar. – Esto nom farei eu, disse Tristam, por vós nem por outrem, que vos mais diga do que vos já disse. – Nom? disse o cavaleiro Título Fólio 383127d , pois preçadesme pouco. Se Deus me ajude, ora veremos o que faredes ii. Entom o prês polo freo e dissilhe: – Dom cavaleiro, ora sodes em meu poder; já vosso orgulho nom vos valrá que me nom digades o por que eu aqui viim. E vos levarei preso. – Bem dissestes, dissi Tristam; e nom cuidades que desta prisom seja eu livre tanto que quiser? E ele o teve todavia. E Tristam lhe disse: – Sandice fazedes e, certas, se nom fosse[des] desarmado, comprirlaíades. Entom o levou o cavaleiro contra as teendas. E Tristam se assanhou e dissi: – Ou vós me leixaredes ou eu vos matarei. E assi será ende a honta mia, porque sodes desarmado, e a dano vosso, porque sodes sandeu. E el disse: – Todo esto nom é rem que me dizedes, ca toda via iredes comigo. – Ainda aqui nom veo, disse dom Tristam, quem me a força háde levar. E digovos que nom irei mais daqui. Entom tirou a rédea e ergueo a lança e disselhe: – Se Deus me ajude eu vos matarei se me nom leixades. E el nom o quis leixar. E Tristam blandiu a lança e firio em guisa que o deitou morto em terra. Depois lhe dissi: – Ora me irei eu mau vosso grado e vós ficaredes, se vos outrem nom levar. Título Fólio 384127d [Como Palamades ajudou Tristam.] Título Fólio 384128a Quando el-rei vio seu irmão cair cuidou que era chagado a morte e deu vozes aos que com el siiam: – Ora via depós o cavaleiro que meu irmão matou! Mo[r]to m’háe escarnido, que me tolheo o melhor amigo que havia. Entom veríades sair mais de C cavaleiros pós Tristam. Eram ende os #XVIII mui bem armados e os outros desarmados fora d’escudos e de lanças. E quando Tristam vio que era o preito tam descomunal que se havia de defender contra todos nom foi em mui ledo. E pero tanto era de gram coraçom e de gram força que nunca houve pavor de rem que visse, ante volveo a cabeça ao cavalo contra eles, fero e ardido e de mal talant[e] e firio o primeiro que acalçou de guisa que o meteo em terra do cavalo. E pois o segundo e pois o terceiro e pois o quarto. Entom voou sa lança em peças e el meteu mão aa espada como aquel que sa morte queria vingar e meteuse entre eles e derribou cavaleiros e matou cavalos e tanto fez per sa mão que nom há homern que o visse que o nom tevesse por marivilha. E mais se defendera, mais u~u~ cavaleiro lhe matou o cavalo. Quando Tristam se Título Fólio 384128b vio entre seus imigos mortaes nom perdeu por em coraçom, como aquel que fôra já em outro maior perigoo, antes se defendeo como porco montês entre cães. E pero nom era tam são que nom houvesse já mais de #VII chagas unde outro cavaleiro seria morto pela meor. E esto era u~a cousa que o fazia muito enfebrecer. Assi se defendia antre tantos e taes que nom havia ii tal que lhe nom quisesse haver a cabeça talhada. E todavia fôra morto sem falha ca nom podera durar contra tam gram gente. Mais a ventura trouxe per alii aaquela hora Paramedes, o bõõ cavaleiro pagão. Quando el vio Tristam, conhocêo; e quando vio que se defindia tam marivilhosamente em tam discomunal batalha disse: – Certas dom Tristam, ora vejo eu que vós sodes o melhor cavaleiro que eu nunca achei. Ora me teria todo o mundo por mau se nom fezesse todo o meu poder em vos ajudar. E nom caterei o gram desamor que me vós havedes mas a gram bondade que em vós há, ca todo o mundo valria meos de morte de tal homem. Título Fólio 385128b [Como Galaaz dava grandes golpes e fazia fugir os cavaleiros.] Título Fólio 385128c Entom se leixou correr a todos a espada em a mão e firiu o primeiro que alcaçou que o meteu morto do cavalo em terra. E filhou o cavalo e levouo a Tristam e disselhe: – S[ubi]de, senhor, e pensade de defender vosso corpo que me semelha que vos é mui mister. Tristam cavalgou defendendoo Paramedes mal grado seus enemigos. E quando Tristam viu Paramedes a que ele fizera fis que o mataria e ora viu que lhe fôra tam bõõ, teveo pela maior marivilha do mundo e pensou que se o visse em logar que lhe daria ende o galardom. E Paramedes lhe dissi: – Dom Tristam, m[ã]o a fazer bem. E el nom respondeu, ca nom havia vagar, ante começou a ferir com mui grandes golpes d’espada. Assi de defenderom ambos os cavaleiros ante o castelo que havia nome Lespar. Mais sa defensa nom lhes valera rem contra a cima que nom fossem mortos ou presos, ca se nom poderia[m] teer longamente contra tanta gente se nom fosse a ventura que trouxe per ii aquela hora o mais ca boo cavaleiro Galaaz. Quando el vio os cavaleiros ambos assi enserrados antre tam grande gente nom atendeo mais, ante leixou correr o cavalo polos ajudar e feriuos tam feramente que meteu em terra o primeiro que acalçou e fez tanto Título Fólio 385128d ante que a lança quebrasse quanto nom podia fazer outro homem fora ele. E depois que lhe quebrou a lança meteu mão a espada que filhara do padrom e começou a dar mui grandes golpes a todos aqueles que o esperavam e era tam ardido e tam vivo que todos aqueles que o viiam eram ende espantados que nom alçava homem de golpe que arma o podesse guarecer que o nom matasse ou tolhesse ou chagasse ou nom metesse em terra do cavalo. E fez tam muito em pouca de hora pelos grandes golpes que deu, que os melhores e os mais ardidos sintirom sa boa cavalaria assi que bem virom que lhe nom podiam durar em ni~u~a guisa e com seu pavor leixarom o campo e fugirom aas tendas. E, quando elrei isto vio, foi marivilhado e preguntou aos seus porque fugiam. – Porquê? disse u~u~. Per u~u~ cavaleiro que sobreveeo que fere d’espada tam desmesuradamente que nom pode contra seus golpes arma durar; e se contra el fossem C dos melhores cavaleiros do mundo, aa cima todolos mataria e desbarataria. Título Fólio 386128d [Como Galaaz e Tristam falavam de Palamedes.] Quando elrei isto ouvio, disse: – Se Deus me ajude, esto nom creerei eu, se o nom viir. Entom Título Fólio 386129a sobiu sobre u~u~ cavalo e preso u~u~ escudo e u~a lança e tiinha sa espada cinta e firio o cavalo das esporas e saiu d’antre as tendas e viiu Galaaz que andava derribando seus cavaleiros assi ligeiramente como se nom andassem em sela e fazia em eles tam gram dano que nom há homem que o visse que nom fosse espantado. E elrei, pois lo catou u~u~ pouco, disse: – Aiaa! nós somos enganados de conhecença deste homem. Per Santa Maria, este é [o] mais ca boo cavaleiro que há a dar cima aas aventuras do regno de Logres. Ora me nom teenho por desonrado de el desbaratar minha gente, ca a sa bondade d’armas outra bondade nom poderia durar. Entom disse a seus home~e~s: – Tornadevos e leixadeos ir ca de os rete~er seria afam perdudo. E eles se tornarom tanto que virom mandado de seu senhor. E os três cavaleiros forom a[a] auga e passaromna e, depois que a passarom, disse Tristam a Galaaz: – Vós sejades o bem viindo. Vossa viinda me foi bõa. E Paramedes, o boo cavaleiro, tanto que passarom a auga, espidiose d’ambos e foise per outra parte. E pois se alongou u~u~ pouco Título Fólio 386129b deles Galaaz preguntou Tristam por sa fazenda. E Tristam lhe contou todo quanto em sabia e vira e dissi que aquel era o boo cavaleiro da Bescha Ladrador. – Certas, dissi Galaaz, el é de boa parte e muito fez gram cortesia que vos ajudou contra tam gram gente sabendo que o desamávades tam muito. E certas, muito me pesa que nom é cristão. – Per boa fé, e a mim, dissi Tristam. Título Fólio 387129b [Como chegarom a u~a abadia e Tristam ficou porque era chagado.] Enesto falando cavalgarom todo aquel dia ataa que chegarom a u~u~ castelo pequeno que estava em u~a montanha. Ali forom mui bem servidos, ca u~a donzela fremosa e mui filha d’algo, irmãã de Do[n]dinax o Salvage, que era senhor do castelo, se trabalhou muito de lhes fazer com que lhes prouguesse porque eram da Mesa Redonda. E ela os preguntou muito por seu irmão e eles lhe disserom o que em sabiam. Aquela noite jouverom ali mui viçosos; e outro Título Fólio 387129c dia tanto que foi luz, comendarom a donzela a Deus e partiromse. E, quando entrarom em seu caminho como soíam, começarom a demandar aventuras e preguntar per cada u iam novas de outros. #III dias andarom de su~u~ que nom acharom aventura e sabede que aqueles três dias andou Tristam mui coitado ca andava chagado tam mal que, se nom fosse de maior força e de maior coraçom ca outro, nom poderia sofrer tanto trabalho. Mais ao quarto dia sem falha ficou em u~a abadia mui sem seu grado; e u~u~ cavaleiro velho que i havia que sabia muito de tal mister, pois lo catou, disselhe: – Dom Tristam, sabede que sodes em perigoo de morte porque nom fizestes mais cedo catar vossas chagas e pero o que vos eu poder fazer fareivolo por amor de Nosso Senhor e por vós que sodes boo cavaleiro. Mais nom vos seguro bem que vos guaresça ca, se Deus me salve, vossas chagas som tam grandes e tam perigosas e tanto as trouxestes por guardar que eu me em dulto muito. – Senhor, dissi Tristam, por Deus e por cortesia, como quer que me ende avenha, pensade de mi, ca me diz meu coraçom ca nom hei ende a morrer. – Deus o mande, diz o homem bõõ. Título Fólio 388129c [Como Galaaz chegou a Corbéric.] Título Fólio 388129d Galaaz esteve com el ii #II dias, mais, porque nom pôde estar ii taa que guarecesse, comendou[o] aos frades que pensassem dei e, se guarecesse, soubessem que muito bem lhes em verria ca era u~u~ dos bõõs home~e~s do mundo per todas bondades. E eles lhe prometerom bem que assi o fariam. Assi ficou Tristam e foise Galaaz e andou demandando as aventuras do regno de Logres, u~a hora d’acáe outra d’alá, assi como a aventura o guiava, tanto que chegou a duas léguas de Corberic. Ali, em u~u~ chão, viu choças e tindilhões e tendas mui ricas e mui fremosas e faziam festa ii os de Corberic aa entrada da bõa sazom no mês d’Abril. E eram em aquela festa todolos da terra porque em tal dia como aquele fôra coroado rei Peles e faziam cada ano tal festa como em o dia que foi coroado. Título Fólio 389129d [Como o encantador disse a elrei que nom podia fazer seus encantamentos pola vinda de Galaaz.] Aquel dia que passou Galaaz per ante os tindilhões podia seer hora de meeo dia e elrei siia aa mesa e seus ricos homees com ele e eram mui viçosos de comer mais nom pero pela graça do Santo Vaso ca o Santo Vaso nunca saia de Corberic per mão de homem. Mais todos aqueles sem falha que no paaço Título Fólio 389130a aventuroso comiam, aqueles eram avondados de quanto haviam mister a tanto que orassem em sa vi~inda. Rei Peles ti~i~a entom ante si u~u~ encantador que fazia tam grandes marivilhas que todos se marivilhavom. Os cavaleiros que mais privados eram delrei, quando virom Galaaz vi~i~r armado conheceromno bem que era dos cavaleiros aventurosos de casa de rei Artur. E forom a pee contra ele. E tanto o rogarom cortesamente e com humildade que decesse e ficasse com eles que deceu e desarmou-se e foi-se assentar aa mesa com os outros cavaleiros já quanto preto del rei Peles que tiinha ante si o encantador. Quando viu Galaaz nom no conhoceo porque andava negro e tinto das armas e dissi ao encantador: – Faze algu~u~ de teus jogos ante este cavaleiro estranho que pela ventura falará ende em casa de rei Artur quando alá for, ca bem sei ca ende é. E o encantador, que havia perdudo seu sem e seu poder na viinda do bõõ cavaleiro que era santa cousa e santo homem respondeo: – Senhor, nom poderei rem fazer mentre el aqui for. – Como? disse elrei, tolheto ele? – Si, Senhor, dissi o cavaleiro. – Como? dissi elrei. El nom é encantador. – Senhor, nom, disse ele. – Pois como cho tolheria? – Senhor, disse ele, esto vos nom sei eu dizer. El-rei lhe dissi outra vez que fezesse de seus encantamentos Título Fólio 389130b e el disse que nom podia. E elrei se assanhou e mandoulhe talhar a cabeça se o nom quisesse fazer. Quando el viu o preito assi parado dissi que o leixassem e que faria o que elrei mandava. Título Fólio 390130b [Como o encantador contou a rei Peles como se tornou servo do demo.] Entom se tornou a elrei e dissilhe: – Rei Peles, ora te direi quem som e porque nom posso fazer meus encantamentos assi como fazia ante que este cavaleiro veesse. – Pois, dissi elrei, dimo. E el começou assi: – Rei Peles, eu som u~u~ homem natural de Barbaria e som mais fidalgo ca tu cuidas, mais a ventura me deitou em esta terra mais pobre ca mester me seria. E era pagão mas bautiçoume Naciam o ermitam; e depois que recebi o bautismo comecei a pecar contra meu Criador mui mais ca outro pecador ousaria fazer e direivos como. “U~u~ dia cavalgava per u~a foresta tam desasperado com minha gram pobreza que havia que nom criia Deus nem homem. E entom me pareceo u~u~demo que há nome Dagom e é u~u~ dos mais privados do inferno. E pareceume em semalhança d’homem rico e poderoso e preguntoume quem era. E eu dissilhi minha fazenda. E Título Fólio 390130c el me dissi: – Se tu queres tornar meu homem já me nom saberás pidir cousa que te nom dê. – E eu lhe dissi que seria seu homem se me mostrasse per que poderia ser rico. E el me dissi: – Eu te ensinarei tanto que te terrás por bem pagado de mim. E eu lhe promitii que seria seu e revoguei logo meu criado[r] e minha cristindade e torneime servo do demo. E ele me ensinou logo toda a força dos encantamentos que homem mortal poderia saber e presumi tanto em sa guarda que nunca pois pidi comer nem biber nem fazer al que o ante mim nom visse. E se vos eu algu~as cousas dizia que eram feitas em poridade nom sabia em rem fora o que me el dizia que vos dissesse. Agora me aveeo, quando este cavaleiro chegou, que o demo per que eu fazia as marivilhas que se partiu de mim, ca nom pode estar em lugar u estevesse tam sancto homem e tam amado de Nosso Senhor ca este é tam sancta cousa que nom dorme nem vela nem anda que sempre nom seja acompanhado d’anjos que o guiam. Por este perdi todo o encantamento que fazia. – Par Deus, dissi elrei Peles, eu creeo bem que ele é homem boo, mas nom tal qual me tu dizes. – Nom? disse el. Par Deus, si é. Queredelo provar? Mandadeo alongar daqui e entom veredes que vos digo verdade. Título Fólio 391130c [Como os diaboos levarom o encantador.] Título Fólio 391130d Rei Peles, que havia sabor de saber esto se era verdade, disse a Galaaz. – Senhor cavaleiro, por Deus e por cortesia, saidevos ora u~u~ pouco daqui tá que provemos se é verdade o que nos este homem diz de vós. Dês i Galaaz fez como elrei lhe dissi por lho nom terem por orgulho e foise daquela tenda pera outra e logo aveo u~a marivilha que depois foi contada per toda a terra delrei Artur e per outros muitos regnos. Ca o encantador começou logo a arder assi como se fosse lenha seca e foi levado no ar tam alto que semelhava que chegava aas nuve~e~s. E u o levavam assi os diaboos começou a dar vozes |assi os diaboos começarõ a dar vozes| . – Ai! Galaaz, mui sancto cavaleiro, roga por mim ca ainda eu acharia mercee se tu quisesses rogar por mim. – Assi levarom os diaboos ao encantador ante rei Peles e antre outros muitos home~e~s boos. E quando o já nom poderom veer sinaromse da marivilha que ende houverom e ergueromse das mesas e foromse pera Galaaz e fezeromlhe a mais honra que poderom. Título Fólio 392130d [Como rei Peles conheceu que era Galaaz, seu neto.] Título Fólio 392131a El-rei, que havia mui gram sabor de o conhecer pelo que ouvira dizer ao encantador, ficou os olhos em el. E tanto o catou que lhe semelhou que era Galaaz seu neto. E dissilhe entom: – Senhor cavaleiro, rogovos por cortesia que me digades quem sodes. – Senhor, dissi el, contra vós me nom encubrirei em ni~u~a guisa. Eu som Galaaz. E elrei, que foi tam ledo que nom poderia mais, dissi: – Per Sancta Maria, eu o cuidei. Beento seja o Santo Esprito que nos deu tal homem em nosso linhagem. E começou-o logo d’abraçar e fazer com ele a maior lidice que pôde. E Galaaz lhe dissi: – Senhor, rogovos que nom digades a niu~u~ quem eu som. – Como? dissi elrei, queredes vós vos encobrir de meus home~e~s? – Si, dissi el, esta vez. Mais quando prouguer a Deus que a ventura me traga a Corberic com meus companheiros outros, entom nom darei rem por me conhecerem todos. E sabedes porque vos rogo desto? Se vossos ricos homens me conhecessem nom me leixariam hoje daqui sair e esto nom queria eu em nem u~a guisa ca me quero logo ir. – Como? dissi Título Fólio 392131b elrei, ora veestes e logo vos queredes ir? – Si, dissi el, em toda guisa. – Pesame, dissi elrei, mais pois vos praz comendovos a Deus. – Eu vos rogo, dissi Galaaz, por aquel amor que me vós havedes a haver, que nom digades a ni~u~u~ quem eu som. E ele lho outorgou. E Galaaz filhou logo sas armas e sobio em seu cavalo e partiuse assi deles. Título Fólio 393131b [Como Eliezer se foi pós Galaaz.] Depois que se partiu Galaaz delrei Peles, os cavaleiros que lhe virom com ele fazer tam gram lidice, preguntaromlhe quem era. E el dissi: – Nom no poderedes saber esta vez; e pesame muito porque vos nom posso dizer seu nome. Eliezer, o filho delrei Peles que ii estava, quando viu que seu padre colhia tam bem aquel cavaleiro e lhe prazia tanto com ele, marivilhouse quem poderia ser e foi a seu padre e rogoulhe mui de coraçom que lhe dissesse quem era. E o padre lhe dissi: – Filho, nom cho posso dizer, ca lhe promiti que o nom discobrisse a homem que aqui fosse. Eliezer, que era bõõ cavaleiro e muito ardido e mui prezado, quando viu que seu padre nom lhe quis dizer o que lhe preguntava, dissi: – Senhor, pois mo Título Fólio 393131c nom queredes dizer, eu ii farei o que entendo, ca per aventura é cavaleiro atam boo que valrei mais polo conhocer. – Nom sei, dissi elrei, que i farás; mas esta vez nom o podes saber per mim. Entom se partiu Eliezer de seu padre e armouse e sobiu em u~u~ mui boo cavalo e filhou u~u~ escudo, mais nom de sas armas polo nom conhecer seu padre ao partir das teendas. Título Fólio 394131c [Como Eliezer desfiou Galaaz porque nom queria dizer seu nome.] Pois Eliezer foi guisado de quanto houve mister, partiose de sa companha e rogavalhes que o nom dissessem a seu padre. Dês i foise pós Galaaz e nom andou muito que o acalçou e nom se conhecerom, pero bem conhecera Galaaz Eliezer se levava o escudo de sas armas, ca muitas vezes o vira. Tanto que Eliezer acalçou Galaaz, chegouse a par dele e salvou[o]. E Galaaz ar salvou ele muito aposto. – Senhor, dissi Eliezer, rogovos por cortesia que me digades quem sodes. – Senhor, dissi el, soo este cavaleiro que veedes; nom saberedes em mais esta vez. – Senhor, disse Eliezer, esta vilania nom faredes vós que me nom digades algu~a rem de vossa fazenda. – Nom volo direi, dissi Galaaz, em niu~a guisa, e esto sabede bem. Entom se Título Fólio 394131d assanhou Eliezer e disse: – Certas, este é o maior orgulho de que nunca eu ouvi falar. Se Deus me ajude, pois mo nom queredes dizer de grado, eu cuido a saber a envidos de vós ca ante me combatirei com vosco que o nom saiba. E por em vos parto u~u~ tal jogo: ou vos combatiredes comigo ou me diredes quem sodes. – Senhor, dissi Galaaz, vós sodes o mais fol cavaleiro nem mais vilão que eu nunca vi que per força queredes saber minha fazenda. Ora vos digo que a nom saberedes ante me defenderei de vós, se me quiserdes cometer. – Pois ora vos guardade de mim, dissi Eliezer, ca na batalha sodes, ca nunca tam gram mal quise a cavaleiro como a vós quero. Título Fólio 395131d [Como Galaaz derribou Eliezer.] Depois desto sem mais tardar, leixouse correr u~u~ ao outro quan[t]o os [cavalos] os poderom levar. Eliezer o firiu primeiro tam de rijo que fez voar sa lança em peças. E Galaaz, que o nom conhocia nem o ar temia, feriu[o] tam esquivamente que lhe falsou o escudo e loriga e meteolhe o ferro da lança pelo costado seestro, mas nom muito. E metêo em terra do cavalo e sacou dele Título Fólio 395132a a lança sãã. E quando o viu em terra sol nom no catou chus, ante se foi per seu caminho. E quando Eliezer se viu em terra per mão de u~u~ cavaleiro que nom conhecia, houve tam gram pesar que bem quisera ser morto, ca se tiinha por tam boo cavaleiro que nom cuidava a achar cavaleiro que aa cima lhe podesse durar. E sobio em seu cavalo assi mal chagado como estava e osmou que ficava escamido se se nom vingasse. Título Fólio 396132a [Como Galaaz feriu Eliezer e Eliezer se tornou pera as tendas.] Tanto que Eliezer cavalgou foise depós Galaaz dandolhe vozes: – Tornade dom cavaleiro, ca, per Sancta Maria, nom vos iredes assi. A defender vos convém aa espada, ca vos chamo aa batalha. Quando esto ouvio Galaaz tornou e dissi: – Cavaleiro, vós andades buscando vosso dano que de batalha mi cuitades. E esto nom é cortesia, cá vós sodes viçoso e folgado e andades nojando os cavaleiros estranhos que noite e dia andam em afam buscando as aventuras do regno de Logres. E bem cuido que, se vós andassedes em tal afam nom haveríades sabor de batalha. – Ai, dom cavaleiro! dissi Eliezer, ja ´per esse vervejar nom escaparedes. – Eu vos rogo, disse Galaaz Título Fólio 396132b que me leixedes em paz ir e faredes cortesia, ca muito é gram vilania esto que fazedes que dõado e sem razom me andades cometendo. Eliezer meteo mão a espada e dissi: – Dom cavaleiro, vós me deteríades todo o dia a paraula se vos eu creesse. Entom se leixou ir a ele e deulhe o maior golpe que pôde. E quando Galaaz viu que se havia a defender meteo mão a espada e dissi: – Cavaleiro, oimais nom volo sofrerei, ca bem vejo que meu rogo nom val rem. E meteo mão a espada e deulhi u~u~ tam gram golpe que lhe nom valeo elmo nem almofre que o nom fendesse até no testo; mas de tanto lhe aveo bem que a chaga nom foi mortal ca o elmo era tam boo que deteve o colpe jáquanto. E o golpe foi grande e per grande força dado e fêlo estorgecer que voou do cavalo em terra e jouve assi como morto. E Galaaz, que cuidou que era morto, esteve por veer se se erguiria. E a cabo d’u~a gram, peça ergueose. E quando Galaaz viu que nom era morto meteo a espada em sa bainha e foi sua via. Eliezer, quando se ergueo ar meteu sa espada em sa bainha e cavalgou; e porque viu que nom pudiria durar rem contra o cavaleiro estranho, tornouse pera as teendas com tam gram. pesar que Título Fólio 396132c nom podia maior, ca bem lhe semelhou que ja mais nom haveria honra pois assi era viltado per mão du~u~ soo homem e taa ali fora teudo por u~u~ dos boos cavaleiros do mundo. Título Fólio 397132c [Como Eliezer contou a seu padre toda sa aventura.] Quando Eliezer se foi chegando aas tendas seu padre o viu tornar, mais nom cuidou que era esse polo escudo que havia cambiado, e preguntou quem era e negaromlho porque o defendera. E elrei dissi que fossem por ele, ca o queria veer. E esto dizia ele porque viia que vinha de contra aquel caminho per u Galaaz fôra e osmava que o derribara Galaaz. E forom a ele e disseromlhe o mandado de seu padre. E ele disse com gram pesar: – Eu irei ii pois que lhe praz, mas bem vejo que todo esto me avem por minha desonra maior. E entom se foi a seu padre e quando o seu padre viu atam mal chagado preguntoulhe como lhe aveera. Eliezer lhe contou todo assi como o já ouvistes. – Filho, dissi elrei, ora podedes veer que achastes melhor cavaleiro ca vós. Dês hoje mais nom sejades tam sandeu que vaades cometer cavaleiros estranhos, ca muitos Título Fólio 397132d ii há de melhores ca vós cuidades. E se nom fossem melhores ca outros e mais sofredores de coitas e de trabalhos nem se filhariam [a] andar per terras estranhas buscando aventuras. – Senhor, dissi Eliezer, verdade é. E se fiz vilania esta vez oimais me guardarei que ja mais me nom combaterei com cavaleiro andante. E de quanto fiz me pesa muito, nom tanto porque som chagado como pola vilania que i fiz e pola cortesia que achei no cavaleiro. Assi falou elrei com seu filho, mui ledo pola bondade que ouviu de Galaaz. Mais ora leixa o conto a falar de rei Peles e de seu filho e torna a Galaaz. Título Fólio 398132d [Como Galaaz chegou a cas de u~u~ irmitam.] Diz o conto que, depois que se Galaaz partiu de Eliezer seu tio, que era irmão de sa madre, cavalgou. Todo aquel dia andou sem aventura e outro dia outrossi. E ao #IIIº dia lhe aveo que aventura |lhe aveo que aventura| o levou ao serão a cas de u~u~ irmitam que o recebeo mui bem porque viu que era cavaleiro andante. E desarmou[-o] por folgar mais e deulhe pam e auga, ca al nom Título Fólio 398133a havia, e preguntou muito de sa fazenda e rogoulhe por Deus que lhe dissesse em confissom per quanto passara na demanda. E Galaaz assi o fez, ca nom ha rem que encobrisse ao homem bõõ, ca o amava muito. Aquel serão, pois o homem bõõ escrivia quanto lhe el contou, dissilhe: – Filho Galaaz, fremosa criatura, bem aventurado cavaleiro, tu te partirás esta noite de mim e sei que te nom verrei por u~a peça. Rogote por Deus que te nom esqueça ca som mui pecador. Título Fólio 399133a [Como a donzela veio espertar Galaaz e o levou pós ela.] – Senhor, dissi Galaaz ao ermitam, eu rogarei por vós e vós ar rogade por mim assi como padre por filho, que Nosso Senhor me leixe fazer em esta demanda serviço que lhe praza e que me haja prol a alma e ao reino de Logres. – Filho Galaaz, dissi o homem bõõ, assi te venha como eu desejo, como eu rogarei por ti. Quando foi hora de se deitarem, deitouse Galaaz sobre u~u~ feixe d erva e adormeceu e o homem bõõ em terra. E eles já dormindo aquevos u~a donzela que chamou aa porta e dissi: – Galaaz! Galaaz! E tam alt’i chamou que o ermitam se ergeu e foi Título Fólio 399133b aa porta e preguntou quem estava ii que tal hora queria entrar. – Senhor, dissi ela, eu som u~a donzela estranha que viim aqui por falar com u~u~ cavaleiro que alá jaz. Espertademo toste ca o hei mui mister. E ele o foi espertar e dissilhe: – Filho Galaaz, erguedevos ca u~a donzela está fora que vos atende e diz que vos há mui mister. E Galaaz se ergueo logo e foi aa porta e dissi: – Donzela, que me queredes? – Eu quero, dissi ela, que filhedes vossas armas e subades em vosso cavalo e que vaades pós mim u vos eu quiser levar, e eu vos digo que vos mostrarei mui cedo a mais fremosa nem a maior aventura que nunca viu cavaleiro em vosso tempo. E vós lhe daredes cima, se Deus quiser. Título Fólio 400133b [Como a donzela levou Galaaz a u~u~ castelo.] Ouando Galaaz esto ouviu filhou logo sas armas e guisouse o mais toste que pôde. E o homem que todavia o ajudava lhe dissi: – Filho, este é o departimento que vos eu dizia. Eu bem sei que nos nom vereemos de gram peça. Por Deus, nembradevos de mim! – Senhor, disse ele, sabede que me nom podedes esquecer, ca vós sodes u~u~ dos home~e~s Título Fólio 400133c do mundo em que me eu mais fio. Pois Galaaz foi armado e que sobiu em seu cavalo, saiuse dali e fez ante si o sinal da sancta vera cruz e comendouse a Nosso Senhor. E pois dissi aa donzela: – Ora podedes ir, ca eu vos siguerei a qualquer lugar que vos vades. E a donzela se tornou logo quanto o palafrém a pôde levar e el pós ela. E andarom assi tanto, tá que começou a manhecer. E quando foi dia claro entrarom em u~a gram foresta que durava tee no mar e havia nome aquela foresta Caloisa. E foromse pelo gram caminho todo aquel dia assi que nom comerom nem beverom. Ao serão, depois de vésperas, chegarom a u~u~ castelo que estava em u~u~ vale mui forte de todo e cercado de u~u~ gram rio e de muro alto e forte e de cárcavas fondas. A donzela ia toda via deante e entrarom no castelo. E diziamlhe todos os do castelo: – Senhora, bem sejades viinda. E este é o cavaleiro que tanto havemos atendudo? E ela nom lhes respondeu ante se foi contra o alcáçar. E quando os do alcáçar souberom ca viia sairam contra ela e receberomna mui bem, como aquela que Título Fólio 400133d era prima coirmãã de sa senhor. E ela lhes disse: – Pensade deste cavaleiro, ca bem sabede que este é [o] milhor cavaleiro que nunca trouxe armas na Gram Bretanha. E eles lhe forom a estrebeira e fezeromno decer e levaromno a u~a camara e desarmaromno. E ele preguntou aa donzela: – Donzela, havemos aqui a ficar? – Senhor, dissi ela, nom sei ainda, mas segundo as aventuras que nos aqui averram, faremos nossa voontade. E entom preguntou ela a outra donzela: – Mia coirmãã é guarida? – Nom, dissi ela, ante lhe vai peor ca sol. – Pois levanos alá, dissi ela. – De grado, disse a donzela. Título Fólio 401133d [Como a dona sandia foi sãã pola vinda de Galaaz.] Entom dissi a donzela a Galaaz: – Senhor, sabedes porque vos adusse aqui? – Nom ainda, dissi el. – Aqui há u~a dona de gram guisa, dissi ela, e nom sei por qual mala ventura lhe aveeo , há já dous anos, que ensandeceu assi que nom poderom durar com ela taa que a meteerom em ferros. E muitos home~e~s bõõs se trabalharom de a guarecer se podessem. No outro dia aveo que veeo aqui u~a dona d’ordim que nos dissi: “Se vós poderdes Título Fólio 401134a achar o cavaleiro que deve a dar cima aas aventuras do reino de Logres, el é tam boo e há tal graça de Nosso Senhor que bem sei que esta dona guarecerá tanto que a el viir.” E por esto vos duxe aqui. Onde convém que vós vaades veer a dona e, se pode guarecer, prazermiá em. Entom se foi aa camara u a dona jazia e acharornna jazer ainda nas cadeas. E tanto que ela viu Galaaz, começou a dizer: – Ai, Galaaz! Santa cousa e bem aventurado corpo, limpa carne e comprida de sancta graça, beenta seja a hora em que tu foste nado, e be~e~nto seja Deus que te aqui dussi ca de ta viinda m’é tam gram. bem que sou livre de mau companheiro que havia, que longamente foi comigo. Este foi o diaboo que dous anos me teve e mais e há mim feito muito mal. Livrame se te praz, destas cadeas, ca, se Deus quiser, nom me haveram mister que ja mais me em elas metam graças a Deus e a vós. E Galaaz o gardeceu muito a Nosso Senhor e dissi aa dona: – A mim nom no gar[d]eçades, mas a Jesu Cristo que vos esto fez, que há doo dos pecadores quando lhe praz. Entom fez sacar as cadeas aa dona. E despois que se ela viu deitouxelhe aos pees e beijoulhos nom o querendo Título Fólio 401134b el, e chorou pela gram lidice que ende houve. Dês i foise aa igreja por dar graças a Nosso Senhor daquela gram mercee que lhe fezera. Título Fólio 402134b [Como Galaaz e a donzela se partirom do castelo e acharom Bliobleris.] As novas forom polo castelo que sa senhor era guarida e cada u~u~ foi alá quais como podia primeiro por veer se era verdade. E quando viirom que era assi be~e~zerom o Rei dos reis e a hora em que o cavaleiro fora nado e iam pequenos e grandes a marivilha. Alii foi el entom servido e honrado mui mais do que el queria e fezeramlhe aquela noite tam boo leito e tam rico como se fosse em casa de rei Artur. E el se deitou ii. Mas tanto que se forom todos deitouse em terra e depois nom tornou a aquel leito e o mais da noute jouve orando e pregando a Nosso Senhor que Deus lhe fezesse fazer taes obras que lhe prouguessem. Em outro dia manhãã foi ouvir missa de Santa Maria. Dês i pidiu sas armas. E quando os do castelo virom que se queria ir rogaromno muito que ficasse com eles. E el dissi que em niu~a guisa nom ficaria, ca havia alhur mais de fazer ca alii. Entom lhe derom eles Título Fólio 402134c sas armas e seu cavalo e haviam gram pesar porque nom ficava com eles. E depois que foi armado cavalgou e dissi aa donzela: – Cavalgade! E ela cavalgou e sairomse assi ambos do castelo. E quando chegarom a entrada du~a foresta pequena acharom Bliobleris, primo coirmão de Lancelot. E tanto que se viirom ele e Galaaz, conheceromse e salvaromse e forom mui ledos consigo e preguntaromse de sa fazenda e como lhes aveera pois que se partirom. Título Fólio 403134c [Como os #V cõirmãos da Deserta desfiarom Galaaz e Blioberis.] Enquanto eles assi falavam aquevos #V cavaleiros da Mesa Redonda mui boos e mui ardidos marivilha que chegarom viindo. E eram todos #V primos cõirmãos e pola boa cavaleria que em si sintiam desamavam mortalmente o lin[h]agem de rei Bam porque eram mais amados e mais em car tiu´dos de rei Artur ca eles. E aqueles #V haviam assi nome: Taulat o Grande, da Deserta, o outro Senela, seu irmão, e outro Baradam; e o quarto Damas; e o quinto Damatal. Todos estes #V eram cavaleiros de grandes feitos Título Fólio 403134d mas eram pobres e por esto haviam gram enveja ao lin[h]agem de rei Bam ca os viiam ricos e honrados e semelhav[a]l[h]es de sii que lhes nom faziam tanta honra nem tanto amor quanto eles mericiam. Quando eles virom Galaaz e Bliobleris conhoceromnos logo ca muito ouvirom deles falar e de que armas tragiam. E onde os conhocerom esteverom. E Senela, seu irmão de Taulat, falou primeiro e dissi: – Vedes aqui veem #II de lin[h]agem de rei Bam. Matemolos que per aquel lin[h]agem somos nós viltados, e se estes matarmos valrá menos seu lin[h]agem e o nosso mais. – Ai irmão! dissi Taulat, que é esto que dizedes? Já, se me Deus ajude, per meu conselho nom vos tomaredes com eles. Ca se nom fosse fora Galaaz soo, que é o milhor cavaleiro do mundo como vós sabedes, ele soo nos desbarataria e deitaria a mala ventura. E de mais que há sigo Bliobleris que é u~u~ dos boos cavaleiros do mundo. – Ai! dom Taulat! dissi Damas. Nunca vos vii tam espantado de rem. Sabede que os venceremos se os cometermos. E outrossi disserom os outros. Mas Taulat Título Fólio 403135a nom no teve por bem, antes lho defendeo muito. E quando viiu Senela que o defendia disse aos outros. – Senhores, que veedes em esto? – Vaamos a eles, disserom, e vós veeredes que vos nom faleceremos atee morte e que os venceremos mui toste ca eles nom som senom dous e nós #IIII. E se Taulat nos quiser ajudar fará bem, e se nom estê quedo, ca, se Deus quiser, nós faremos bem nossa fazenda sem ele. E quando Taulat vio que eram acordados em esto e que o nom queriam leixar por ele pesoulhe muito, ca bem sabia que nom se podia ende partir sem perda. E por esto, sem mais tardar, deu vozes Senela: – Galaaz e vós Bliobleris, guardadevos de nós ca nunca o vosso linhagem amou o nosso nem nós nom amamos vós. Galaaz preguntou Blioberis: – Quem som estes cavaleiros que nos tam bem conhecem e nos desafiam? – Senhor, disse ele, estes som #V coirmãos da Deserta. E sabede que Deserta é u~a cidade do regno de Logres onde som naturaes e som todos da Mesa Redonda. Mas por enveja desamam todos os de nossa linhagem porque somos mais amados e mais em car teu´dos que eles. E semelha-me Título Fólio 403135b que se querem com nosco por em matar. – Pesame muito, disse Galaaz, ca pois som da Mesa Redonda nom devíamos meter mão em eles nem eles em nós. Mas porque é dereito que aa coita deve cada u~u~ cavaleiro a defender sa vida, defenderei eu a minha quanto eu poder. E Brioberis disse outrossi de si como aquel que mais queria seu enxeco ca sa paz ca nunca o seu linhagem e o seu se bem quiserom. Título Fólio 404135b [Como Galaaz e Bliobleris matarom #IIII seus enmigos.] Depós esto, sem mais tardar, leixaromse ir u~u~s aos outros mas Taulat nom quis i meter mão. Galaaz derribou o seu, tam mal treito que se nom pôde erguer ca era ferido du~a gram. lançada. Mas ainda ende guarecera se dali podesse escapar. E este era Senela, o bõõ cavaleiro a maravilha. E Biobleris ferio Damas de tam gram lançada que o meteo morto em terra. E Galaaz se leixou ir a Damatal e ferio tam bravamente que se nom pôde teer em sela e caio em terra mui mal chagado. E Baradam se leixou ir a Galaaz e deulhe tal lançada no escudo que fez voar sa lança em peças e Galaaz o pôs em terra mal chagado no costado seestro; e foi tam mal treito que do golpe que da queda que se nom Título Fólio 404135c pôde erguer. E Bliobleris, que o desamava muito, deceu e tolheo o [e]lmo a Damas e deulhe u~a tal espadada que o fendeu atee os dentes e foi logo morto. E dês i foi aos outros e matouos. E depois disse: – Meu Senhor dom Galaaz, ora podemos bem dizer que nossos enmigos som mortos. Destes quatro nom há jáque tema o linhagem de rei Bam. Título Fólio 405135c [Como Bliobleris matou Taulat.] Quando Taulat vio seus coirmãos mortos houve tam gram pesar que bem quisera seer morto e disse a Bliobleris: – Guardadevos de mim, ca mais quero morrer ca nom fazer meu poder em nos vingar, pero bem vejo que faço torto espuis aa Mesa Redonda. Mas façoo por coitar minha morte e porque sei que nunca tornarei aa Mesa Redonda. Entom se leixou correr u~u~ ao outro e feriromse assi que os escudos nem as lorigas nom lhes prestarom que as lanças nom metessem por si. Bliobleris foi mal chagado, mas era de tam gram coraçom que o nom sentia, e Taulat houve u~a gram lançada que o ferro pareceu da outra parte per o espinhaço e tanto que caeo foi morto. E pois Bliobleris esto viu disse a Galaaz: – Senhor, hoje mais nos podemos ir ca dês aqui nom háque tema o linhagem de rei Bam quanto é destes. – Mais quisera, disse Galaaz, porque eram de Mesa Redonda, que lhes ave~esse d’outra guisa. – Si Deus me ajude, disse Bliobleris, mais de praz de sua Título Fólio 405135d morte que de sa vida, ca sempre nos houveram enveja depois que fomos em cas delrei Artur. – E que faremos? disse Galaaz. Devíamolos a soterrar porque som cavaleiros. – Quitemos de enxeco, disse Bliobleris, e vamos nossa carreira ca aventura adurá per aqui algu~u~ homem boo depois que pensará deles. Título Fólio 406135d [Como Galaaz e Bliobleris acharom três cavaleiros da Mesa Redonda que desamavam o linhagem de rei Bam.] Tanto disse Bliobleris a Galaaz que se partirom dali e entrarom na floresta. E andarom atee preto de noite e chegarom a casa de u~u~ cavaleiro que morava na montanha e albergarom i e acharom i três cavaleiros da Mesa Redonda. U~u~ havia nome Amati[m] o Boo Justador, porque a aquela sazom era u~u~ dos boos justadores do mundo; e o outro havia nome Gamenor o da Fremosa Amiga; o terceiro, Arpio da Estreita Montanha. Quando os cavaleiros se virom receberomse mui bem. E sabede que forom mui bem servidos de quanto o hóspede pôde haver ca havia u~u~ filho cavaleiro andante e por em amava todolos outros. Aqueles #III cavaleiros que vos eu digo eram irmãos de padre e de madre e eram boos cavaleiros d’ardimento e d’outra bondade se nom fosse que eram mais bravos que outros cavaleiros quando viam melhor cavaleiro que si. Aquel serão preguntarom Título Fólio 406136a muito a Bliobleris se Galaaz era tam boo cavaleiro como diziam e el lhes afirmou que aa bondade d’armas deste niu~a bondade se acostava. Quando eles esto ouvirom pesoulhes muito ca nom amavam o linhagem de rei Bam. Esto nom era senom por enveja. E começarom ende entre si a falar de maa guisa, tanto que Amati[m] o Bõõ Justador disse: – Façamolo bem. Nós somos aqui #III irmãos e tam bõõs cavaleiros que per nossa bondade d’armas somos conhecidos per todo o mundo. Galaaz se partirá manhãã de Bliobleris e irseá com esta donzela. Saiamoslhe nós diante e provemos se é tam boo cavaleiro como dizem; e se de maus corações nom formos, ligeiramente o poderemos vencer ca nós somos #III e el u~u~. E, se o nós desbaratarmos, pera sempre abaixaremos per i o linhagem de rei Bam. E os outros dous disserom que dizia bem. Título Fólio 407136a [Como a filha do hóspede engafecera e como disse que guareceria quando i viesse o bõõ cavaleiro.] Assi falarom sobre Galaaz per enveja os três irmãos donde lhes despues veo maa ventura. Ali u albergavam havia u~a donzela, filha do hóspede, que fôra mui fremosa donzela mas, nom sei por qual maa ventura, engafecera. E havia já dez anos. E aquela donzela que andava com Galaaz era irmãã de Persival. Quando ouviu que tal donzela havia na casa foia veer a u~a camera, u jazia apartada e preguntou-lhe Título Fólio 407136b quanto havia que era doente de aquel mal. E ela disse que bem havia dez anos e mais. – E cuidades, disse a outra, que possades ende guarecer? – Certas nom sei, disse ela; todo é em Deus. E pero nom há #VII anos que aqui veo u~u~ irmitam mui bõõ homem e de sancta vida que me disse: “Non hajas pavor ca tu guarecerás quando vier aqui o bõõ cavaleiro que acabar as aventuras do reino de Logres, e direite como: Quando aqui vier rogalhe, no nome de aquel cujo sergente ele é, que te dê a vistir de aquela vistidura que el trage a caram e dartaá. E sabe que serás guarida tanto que a vistires.” Assi me disse o irmitam mas nom entendo como possa seer ca nom sei como podesse achar aquel cavaleiro e, ainda que o achasse, per ventura nom faria meu rogo. Título Fólio 408136b [Como levarom Galaaz aa camara da donzela e como guareceu.] Quando a irmãã de Persival esto ouviu disse aa donzela: – Ora sede leda ca bem vos aveeo ca o boo cavaleiro de que vos o irmitam falou aqui é. Ora lhe rogade que pense de vós. Quando a donzela doente esto ouvio tendeu as mãos contra o ceu e disse: – Ai, Jesu Cristo, rei de piedade! Have mercee de mim e prazate de eu guarecer. Entom enviou por seu padre e disselhe: – Ai, padre! Aqui é o boo cavaleiro per que hei a guarecer. Por Deus ide a el e aduzedemo ca eu nom ousaria parecer alá ante esses cavaleiros. – Filha, disse ele, como sabedes vós que é aqui o milhor cavaleiro do mundo? – Eu o sei Título Fólio 408136c disse ela, ca esta donzela mo disse. – Ai, donzela, disse o hóspede, por Deus, mostrademo. – De grado, disse ela. Entom lho foi mostrar e o homem boo ficou os giolhos ante ele e disselhe: – Senhor, por Deus, ide acá dentro comigo ca vos havemos mui mester. E ele o ergeu e disse que iria i de grado; e o homem bõõ o levou aa camara u jazia sua filha e mostroulha tam mal doente que nom podia mais. E ela, tanto que o vio, leixouselhe caer aos pees e rogoulhe chorando, por aquel Deus cujo servo ele era, que lhe desse u~u~ dom. E ele lho outorgou mui de boa mente. E ela lho graciou entom e disselhe: – Vós me daredes a vestir aquela vistidura que tragedes a carom. E el houve mui gram vergonça, ca nom queria que lhe niu~u~ soubesse que el tragia estamenha, fora seu abade. Mas pero porque o havia outorgado aa donzela, nom se pôde fazer afora e disselhe: – Vós a haveredes, mas quero que niu~u~ fora vós nom no saiba que é. – De grado, disse ela. E el fez todolos outros sair da camara e espiose entom e deulhe a estamenha e rogoulhe por a fé que devia a Deus que o nom dissesse a ninguém. E ela lho outorgou. Dês i ficou soo e vestiua a carom ca se foi Galaaz pera os cavaleiros; mas de todo esto nom lhes disse nada, ca nom queria que lho soubesse niu~u~. E a donzela que vistira a estamenha Título Fólio 408136d foi logo tam sãã como se nunca houvesse mal. Título Fólio 409136d [Como Galaaz nom quis que descobrissem aquele feito tanto que ele i era.] Quando ela vio que tal milagre lhe fezera Deus, enviou por Galaaz. E quando el veo çarrou ela a porta e deitouse ante ele e beijoulhe os pees e disselhe: – Mui sancto cavaleiro, cata o bem que Deus me fez em tua viinda. Eu som guarida de quanto mal havia. – Gradecêo, disse ele, a aquele que volo fez, ca eu nom volo fiz, ca pecador som eu como outro homem. E rogovos por a fé que devedes a aquel que vos tam fermosa mercee fez que nom descobrades este feito mentre eu aqui for ca nom quero que estes cavaleiros que aqui som o saibam. Mas depois que eu me for, entom podedes dizer a mercee que vos Deus fez. E ela disse que assi o faria e el filho[u] sa estamenha e vistioa e er tornouse pera os cavaleiros e nom lhes quis dizer rem da fermosa aventura que aveera aa donzela. Quando foi hora de dormir deitouse cada u~u~ em seu leito, fora Galaaz que nom soia i a jazer, ca as mais das vezes jazia em terra. Aquel jouve o mais da noite a prezes fazendo oraçom que Nosso Senhor, por sa gram piedade, lhe outorgasse a fazerlhe tal serviço que fosse a prol de sua alma e do regno de Logres. Título Fólio 410136d Como os três irmãos desfiarom Galaaz e como os derribou. Título Fólio 410137a Enoutro dia manhãã armaromse todos cinco cavaleiros e Galaaz se foi com a donzela a u~a parte e Bliobleris aa outra. E os #III irmãos depós Galaaz, como aqueles que haviam sabor de lhe fazerem mal, se podessem. E depois andarom quanto u~a légua entrarom em u~u~ chão e derom vozes a Galaaz: – Galaaz, guardadevos de nós ca vos desafiamos. E el volveo a cabeça e vios e maravilhouse que podia seer, ca os conhecia por da Mesa Redonda, e disselhes: – Ai, Senhores! E que é esto que queredes fazer? Bem sabedes vós que som da Mesa Redonda como vós e nunca a meu ciente vos fiz por que me devêssedes a desamar. E por cortesia e por vossa bondade leixademe ir minha carreira em paz, ca eu nom vos demando rem nem mal nom vos quero. Quando eles esto ouvirom cuidarom bem que o dizia por covardice e disserom: – A defender vos convém ou vos mataremos. – O matar, disse ele, nom sofreria eu em niu~a guisa; mas a niu~a guisa me nom filharei com meus irmãos da Mesa Redonda. E pero, pois me convém a fazer, eu defenderei minha vida. Entom foi ferir Amati[m] o bõõ justador atam bravamente que lhe meteo o ferro da lança pelo braço e pelo corpo e meteo el e o cavalo em terra. E, ao tirar da lança, Título Fólio 410137b ficou el esmorido. E os outros irmãos ferirom Galaaz e britarom as lanças em ele, mas nom o poderom mover da sela. E el foi topar em ambos tam rijamente do corpo e do escudo que deu com eles em terra mui grandes queedas, donde forom tam britados que se nom poderom depois levar por u~a peça. Quando Galaaz vio que era livre deles nom nos catou mais e tornouse a sua donzela. E ela, que era mui leda desta aventura, disselhe: – Dom Galaaz, ora podedes veer a enveja da Mesa Redonda. Eles começarom. esto por enveja e aveolhe assi que ende [houverom] a vergonça e o dano. – Si Deus m’ajude, disse Galaaz, pesame de que se trabalharom ende e de que houve eu meter mão em eles. Mas pois assi é vaamonos que duvido de vi~irem após nós, ca ham tam grande pesar que se querrám vingar, se poderem. Título Fólio 411137b [Como os três irmãos virom vi~ir Acorante e Danubre e os desfiarom.] Assi se foi Galaaz quanto pôde, ca nom queria que o alcançassem os irmãos. E eles que ficarom houverom tam grande pesar e tam gram sanha porque forom desbaratados por u~u~ soo cavaleiro, que bem quiserom seer mortos. E forom a Amati[m] e preguntaromlhe se poderia guarir. E el lhes disse que nom havia niu~u~ mal fora de sanha e de pesar. – Mas cavalguemos todos, disse ele, e vaamos depós Galaaz ca, se nos assi escapa, por sempre heveremos honra perdida. Entom se ergeo que sol nom catou sa chaga, tanto estava sanhudo Título Fólio 411137c e de mal talante. E eles, que sobiam já em seus cavalos e que se queriam ir empós Galaaz, virom vi~ir contra si dous cavaleiros da Mesa Redonda: u~u~havia nome Acorant[e] o Ligeiro e o outro Danubre o Corajoso. E eram ambos irmãos de padre e de madre e eram do linhagem de rei Bam. Quando aqueles #III irmãos virom vi~ir aqueles dous cavaleiros conheceromnos logo. Entom disserom entre si: – Vedes aqui dos cavaleiros do linhagem de rei Bam que nós tanto desamamos. Ora nos podemos vingar em estes do que nos fez Galaaz. Ento[n]ces lhes derom vozes: – Guardadevos de nós ca vos desafiamos. Quando os dous irmãos esto ouvirom maravilharomse, ca bem sabiam que eram da Mesa Redonda. Título Fólio 412137c [Como morrerom Acorant e Danubre e os três irmãos outrossi.] Entom lhes disse Danubre: – Senhores, porque nos cometeredes? Perjurados e desleaes seredes ende, ca nós somos da Mesa Redonda como vós. E por em nom devedes a meter mão em nós a niu~a guisa. – Todo esso nom val rem, disserom eles, ca tanto nos errastes que vos nom podedes de nós partir sem batalha. – Pesame, disse Danubre, mais pois assi é nós nos defenderemos a nosso poder. Entom se leixarom ir u~u~s aos outros e Danubre deu u~a tam grande lançada a Amati[m] que o meteu morto em terra. E quando Arpiam vio seu irmão morto meteo mão aa espada e leixouse correr a Acorant[e] e deulhe per cima do elmo u~u~ tam grande golpe Título Fólio 412137d que o fendeu até os dentes. E quando Danubre er viu seu irmão morto, meteu mão aa espada e feriu Arpiam tam sanhudamente que lhe fez voar a cabeça do corpo mais longe de u~a lança [e disse]: – Ai, Arpiam, tu me mataste meu irmão mas nom gaanhaste i rem. Depois er disse a Gamenor: – Cavaleiro perjurado e desleal, ora podedes ver que vos avém de vossa deslealdade. Teus dous irmãos som mortos. Mas eu nom gaanhei i rem ca perdi o homem do mundo que mais amava. Mas desta morte me vingarei eu bem. – Vingar? disse Gamenor, bem te~e~s tu a ta morte tam vizinha como eu. E entom lhe deu u~u~ tam gram golpe que lhe meteo a espada até os meolos e Danubre caeu chagado a morte. E Gamenor se pôs sobre ele e começoulhe a desenlaçar o elmo por lhe talhar a cabeça; e Danubre, que bem vio que morreria e que havia vontade de vingar sa morte, quando vio que entendia Gamenor em tolherle o elmo, foilhe ergendo [a] abãa da loriga e meteo a espada per ele e el se estendeo com a coita da morte e caeu morto da outra parte. E quando Danubre o vio a par de si, disse: – Gamenor, nom ganhastes vós i muito em aquesto que nos fezestes Título Fólio 412138a ca vós sodes mortos e nós outrossi; e o linhagem de rei Bam nom será per aqui desonrado ca nós nom somos senom dous e vós três. E depois que disse esto estendeose com a coita da morte e saiolhe a alma. E sabede que estes dous irmãos que ali morrerom forom. os primeiros dous cavaleiros do linhagem de rei Bam que morrerom na demanda do Santo Graal. Mas ora leixa o conto de falar deles e torna a Galaaz. Título Fólio 413138a [Como Galaaz e a donzela chegarom ao mar.] Quando Galaaz se partio dos dous irmãos com que se combateu, assi como o conto há já devisado, cavalgou el e sa donzela, tanto que chegarom ao mar u Boorz e Persival na barca bem os fezera certãios a santa voz que nom atenderiam i muito e que o primeiro cavaleiro que aa barca chegaria que seria Galaaz. E quando o eles virom disserom de tam longe como entenderom que os ele poderia ouvir: – Senhor, vós sejades o bem viindo! Tanto vos antendemos que Deus, por sua mercee, vos nos adusse. Ora entrade ca nom há i fora d’ir a alta ventura que Deus nos háguisada. Título Fólio 414138a [Como entrarom na barca u Boorz e Persival os atendiam.] Quando Galaaz os ouvio assi falar maravilhouse quem eram, ca era já tam noite que os nom podia conhecer e salvouos e preguntou aa donzela se deceria. Título Fólio 414138b – Senhor, disse ela, si. E nós leixaremos aqui o vosso cavalo e o meu palafrém. Entom decerom e entrarom em a nave e os outros os receberom o melhor que poderom. E tanto que forom dentro deu u~u~ vento tam forte aa nave que os alongou mui toste da terra e andarom assi ataa que aluzeceu. E quando Galaaz conheceo os com que ia, disse: – Ora me comprio Deus gram peça de minha vontade. E entom começarom a chorar com plazer porque Deus os ajuntara assi de su~u~. E Galaaz tolheo logo de si seu elmo e sa espada mas nom a loriga. E quando vio a barca tam fremosa de dentro e de fora preguntouos se sabiam donde tam fremosa barca viera. E Boorz disse que nom sabia i rem e Persival lhe disse o que delo sabia. – E sabede, disse ele, que me disserom que vos haveria ambos cedo em companhia. Mas desta donzela nom me falarom rem e por esto me maravilho que ventura a adusse aqui. – Certas, disse Galaaz, a meu ciente nom viera eu aqui se ela nom fosse. Onde vos posso dizer verdadeiramente que mais viim per ela ca per niu~u~. E eles se rirom delo e começarom a contar de suas aventuras e Boorz disse a Galaaz: – Se ora vosso padre dom Lancelot aqui fosse, semelharm’ia que nos nom faleceria rem. E el respondeo: – Nom pode ora seer, pois Deus nom quer. E entom disse dom Persival: – Ai, dom Galaaz! vós vistes a meu ciente Título Fólio 414138c muitos boos cavaleiros em esta demanda. Quem cuidades que há maior bondade de cavalaria de todos aqueles que i vistes? – Certas, disse Galaaz, muitos bõõs cavaleiros vi. Mas sobre todos dou ende o prez e o louvor a dom Tristam. E depois a Paramedes que apreço pouco menos de cavalaria que dom Tristam. E os outros ambos se outorgarom i, ca já os haviam provados. Título Fólio 415138c [Como andarom pelo mar e acharom outra nave entre u~as penas.] Muito falarom aquel dia das aventuras da demanda e dos boos cavaleiros que a elas andavam e das maravilhas que i aviam. E esto falado andarom per o mar até hora de noa. E entom lhes semelhou que eram muito alongado do regno de Logres, ca sempre a nave correra a muito fero vento. E quando veo dereitamente a hora de noa, aportou entre duas penas em u~u~ lugar muito estranho e tam apartado que era maravilha. E quando eles i aportarom, virom outra nave entre outras penas u nom poderiam entrar pero quisessem se nom fossem per cima de toda a pena. – Senhores, disse a donzela, em aquela nave é a aventura por que Deus todos três nos ajuntou. Convémnos sair desta e ir em aquela. – De grado, disserom eles. Entom sairom na pena e sacarom a donzela e liarom a barca que se nom podesse ir. Título Fólio 416138c [Como acharom letras na nave.] Depois que sairom da nave em que andavam foromse pera a outra Título Fólio 416138d e acharomna mais rica e mais fremosa que a donde sairom. Mas muito se maravilharom que nom viram homem nem molher ao bordo. E chegaromse mais por veerem se andava alguém dentro. E quando quiserom entrar catarom contra cima do bordo e virom leteras que eram escritas em caldeu, que diziam u~a palavra muito espantosa e de gram medo a todos aqueles que dentro entrar quisessem. E sabede que nom soube Galaaz leer as leteras. Mas aquele Senhor que muito fremoso milagre e muitas fremosas virtudes havia feitas por ele mostroulhe entom tam grande sinal d’amor que lhe fez logo saber caldeu. E leo as leteras que diziam assi — e sabede que diziam como se a nave falasse por si: “Ai tu, homem que em mim queres entrar, bem te guarda de mim entrares se nom és comprido de fé ca bem sabe que nom há em mim senom fé. E se tu i entras e te abaixas de fé, tanto que i entrares logo te falecerei, ca te nom sofrerei e leixart’ei caer no mar.” Tanto que leo Galaaz as letras, fezese u~u~ pouco afora assi como espantado ca se maravilhou muito do que as letras diziam. E depois pensou u~u~pouco e disse aos outros o que diziam as letras e disse que de tal entrada de nave nunca ouvira falar. E eles responderom: – Senhor, esta é a mais alta aventura nem mais fremosa que Título Fólio 416139a nós nunca achámos. E pois que a entrada é tam maravilhosa nom pode seer que dentro nom é mais. – Senhores, disse a donzela, sabede que esta é a prova dos cavaleiros verdadeiros e dos leaes sergentes de Nosso Senhor que andam em esta demanda ca já cavaleiro nom entrará i que ande em pecado mortal que logo se i nom perca. – Verdade é? disserom eles. – Pois, disse ela, ora vejamos que i faredes ca per esta prova conhecerei eu se sodes tam bõõs como vos dizem. E eles disserom: – Nós nom somos tam bõõs como nos pertencia. E Galaaz disse: – Ora vejamos quem é boo ou mau. Ca se nós somos maus nós i nos perderemos se a mercee de Deus nos nom ajuda. E, se somos boos, nós i iremos a salvo. E os outros disserom: – Senhor, entrar queremos nós. E se somos maus e desleaes nós i nos perderemos. E se nom há i niu~u~ mal e somos boos Nosso Senhor haverá de nós piedade e farános ir a salvo. – Ora, disse Galaaz, meu acordo é que entremos dentro e veeremos a aventura por que Deus nos juntou de su~u~. Título Fólio 417139a [Como entrarom na nave e acharom a espada atravessada no leito.] Em esto se acordarom todos. E Galaaz foi o primeiro e fez o sinal da santa cruz e comendouse a Nosso Senhor e entrou. Dês Título Fólio 417139b i entrou Persival; dês i Boorz; dês i a donzela. E, depois que forom dentro virom a nave tam fremosa e tam rica e tam bem guarnida que maravilha era. Que vos direi? Assi a acharom guisada de todas cousas como aquel dia em que Naciam i entrou, ca esta nave era aquela mesma. E acharom i o leito onde o conto vos falou já u vos falou de Naciam. Mas desto nom vos falarei ora porque vos falei já i. E acharom a espada que jazia atravessada no leito, aquela espada que era de tam gram maravilha e de tam gram virtude como o conto vos há já dito. E acharom a coroa que rei Salomon i posera e a carta por que poderiam saber a verdade da nave e da espada. E depois que Galaaz assi leo a carta, assi que os outros souberom bem como e porquê todas as cousas da nave forom feitas e postas, disse Persival: – Padre dos ceus, bento sejas tu, que te prouve de me mostrares tam fremosas maravilhas como estas som. E assi er disserom os outros. E entom disse a donzela: Título Fólio 418139b [Como a donzela disse a Galaaz que provasse a espada.] – Dom Galaaz, vedes esta espada? – Si, disse ele. – Por ela vos adusse eu aqui, disse ela. Convém que vós provedes se a poderedes sacar da bainha; e, se a d’i sacardes, sabede que vós sodes o mui bõõ cavaleiro que havees dar cima aas aventuras do regno de Logres. – Certas, disse Título Fólio 418139c el, se eu podesse seer tal qual vós dizedes, eu o devia muito agradecer a Nosso Senhor. – Eu cuido, disse ela, que vós sodes tal; e provadeo ca per esta espada o poderedes conhecer. E se vós podedes sacála da bainha sem dano, entom podedes seer seguro que vós sodes aquel de que vos falo. – Eu o provarei, disse el, pois vos praz. Mas rogo a estes outros que o provem ante. – Senhor, disserom eles, porque o provaremos nós pois vós sodes com nosco? Esto seria afam perdido ca nós sabemos verdadeiramente que sodes melhor cavaleiro que nós. – Esto nom sei eu, disse ele. E se eu ainda fosse tal qual vós dizedes, rogovos que o provedes primeiro. E eles se lhe outorgarom quando virom que tanto se i aficava. Título Fólio 419139c [Como Galaaz sacou a espada da bainha.] Depois desto, sem mais tardar, foi Persival aa espada e cuidoua tirar, mas nom pôde. E sabede que ao filhar da espada que semelhou a todos que a nave se houvera d’afundar no mar, tam feramente se abalou da u~a parte e da outra. E quando [viu] que nom podia a espada tirar disse a Boorz: – Ora er provade vós. E el quis tirar a espada, mas tanto i acabou como Persival. E, depois que virom que nom fezerom i rem, disserom a Galaaz: – Senhor, ora vede, se vos praz, que honra vos Deus i quer dar. Entom tendeo Galaaz as mãos contra o ceu e disse: – Senhor Padre Jesu Cristo, se te praz outorgame per ta piedade que a possa sacar. Título Fólio 419139d Entom se sinou e sacou a espada tam ligeiramente da bainha como quis. E, depois que a tirou, ergeoa e catoua e achoua tam fremosa e tam limpa como se a alimpasse a aquela hora. E depois que a catou bem prezoua mais que espada que nunca visse. E Persival, que a er catou muito, disse contra dom Galaaz: – Ora podedes bem dizer que havedes a melhor espada do mundo e a mais rica que nunca, a meu ciente, foi no regno de Logres. E semelhame que pera vos é, segundo razam, ca vós sodes o melhor cavaleiro do mundo e ela a melhor espada do mundo. Mas u~a cousa i falece de que me pesa e que nom será, como eu cuido, tam ligeiramente acabada. – E que é ? disse Galaaz. – Desta cinta, disse el, que é tam pobre como veedes e tam febre que nom poderia sofrer u~u~ meio dia. E esta carta nos diz que lhe há esta cinta seer tirada per filha de rei e virgem e que ela meterá i correas fremosas e apostas e tam ricas como convém a tam rica espada. E convém que as faça da cousa que mais amar em si. E depois converrá que aquesta donzela ponha nome a aquesta espada. Todo esto nos falece que nom sabemos quem é a donzela nem como há nome nem u a podemos achar. – Nom vos pês, disse Galaaz, ca Deus, que nos atá aqui deu conselho, el nos conselhará dês aqui. Título Fólio 420139d [Como a donzela deu cima a aventura da espada da estranha cinta.] Depós esto, sem mais tardar, Título Fólio 420140a disse a donzela: – Senhores, nom vos coitedes. Sabede que eu som aquela donzela que há a aventura desta espada. – Como? disse Persival, sodes vós filha de rei e tal qual convém a esta espada? – Esto veeredes vós, disse ela, se Deus quiser. Entom sacou de seu seo u~a cousela de prata mui rica e mui bem lavrada e sacou dela u~a cinta com quantas correas i havia mester, as mais ricas e mais fremosas que nunca homem viu no regno de Logres. E eram obradas d’ouro e de pedras preciosas e de seda e dos cabelos da donzela. – Senhores, disse ela, vêdes aqui as correas desta espada! E eles as catarom e disserom que estas eram sem falha as mais fremosas nem mais ricas que nunca virom. E ela lhes er disse: – Sabede que elas som feitas da rem que eu mais em mim amava; e se a muito amava nom era grande maravilha ca, depois que rei Artur começou a regnar, nom vio homem tam fremosos cabelos como eu havia. Esto diziam quantos cavaleiros e quantas donas os viam. Mas por esta cinta e por este al que tem em lugar de correas me fiz troquiar e nom me acho delo mal pois per i dei cima a tam fermosa aventura come esta. Entom tolheu aa espada a outra cinta que tinha e meteolhe aquela. Dês i disse a Galaaz. – Decingide vossa Título Fólio 420140b espada e eu vos cingirei esta. E el fez assi como lhe ela mandou. E ela cingio logo a boa espada e disselhe: – Sabedes vós de qual espada vos guarni? – Nom, disse ele, se mo vós nom disserdes. – Ora sabede, disse ela, que eu vos guarni das Estranhas Correas, a melhor nem a de maior virtude que nunca cingiu cavaleiro. – Donzela, disse el, vossa mercee; muito me destes rico dom. Mas rogovos que me digas quem sodes, que saiba dizer algu~as novas a quem me preguntar daquela que me tal espada deu. – Eu volo direi, disse ela. Sabede que rei Pelinor foi meu padre e dom Persival que aqui é, é meu irmão de padre e de madre. E porque eu queria que me el nom conhecesse táque desse cima a esta aventura me encobri del mentre pude. Entom descobrio seu rostro de u~u~ pano de seda de que o trazia cuberto e Persival a conheceo logo e foi tam ledo que nom poderia mais e foia abraçar. E os outros er forom ledos a maravilha. Título Fólio 421140b [Como Galaaz se deitou no leito de Salomam.] Grande foi o prazer que todos houverom com a irmãã de Persival ca muito havia gram tempo que a nom viram. E sentaromse e começarom a falar de muitas cousas. E Galaaz, que havia sabor de dormir, foise deitar no leito que era tam fermoso e tam rico que nunca ele tanto vira. E quando a donzela esto vio, disse aos outros: – Título Fólio 421140c Ora me semelha que é comprida a carta, ca vejo que o boo cavaleiro se lançou no leito que Salamam lhe guisou longo tempo há. E eles disserom: – Fremosa maravilha nos mostrou aqui Deus. – Maior vos mostraráainda, disse ela, se lhe prouver. Aquel dia e aquela noite forom na nave e falarom de muitas cousas. E quando Galaaz se espertou, disse: – Somos ainda na riba u achámos esta nave? – Senhor, nom, disserom eles. Muito há gram peça que d’i partimos. E por em cuidamos que somos muito alto per o mar. – Deus nos guii, disse el, a tal lugar u nossas almas possam seer salvas e dos corpos nom me cal. Muito falarom aquela noite de muitas cousas, taa que chegou o dia onde eles forom mui ledos. Título Fólio 422140c [Como chegarom a u~a pena u acharom u~u~ homem mui velho.] Quando o dia começou a esclarecer acharomse a riba do mar a cabo de u~a pena estreita, mas era tam alta e tam aguda que semelhava que tangia as nuve~e~s. E havia em aquela pena gram avondamento d’árvores. E quando eles virom a pena tam alta e tam estreita, disserom que nunca tal virom. E estando catando a cima dela teverom olho e virom ante si, no pee dela, tam preto do mar que poderia homem i chegar com duas lanças, u~u~ homem tam velho que nom há homem Título Fólio 422140d que cuidasse que no mundo podesse mais velho haver. E havia a cabeça tam branca de cããs como neve e os cabelos tam longos que lhe [jaziam] por terra. E sabede que tam longo tempo morara em aquela pena que nom havia rem de que se cobrir fora de seus cabelos. E quando o eles virom maravilharomse que era, pero bem conhecerom que era homem ou molher. E Galaaz disse aos outros: – Vaamos veer quem é e, se há mester nossa ajuda, ajudemolo, porque é creatura de Deus como nós, e élhe mui mester, a meu ciente. E eu cuido que morou mais em esta pena do que el quisera. E os outros se acordarom i, ca bem lhes semelhou que dizia verdade. Título Fólio 423140d [Como Caifáz contou que Vespasiom o fez meter em u~a barqueta.] Entom sairom todos três da nave e leixarom a donzela dentro e foromse pola pena ataa el que sia entre duas árvores. E conhecerom que era homem, mas tanto era velho que cuidavam que nunca homem tanto podesse viver que chegasse a aquela vilhice. E el se quis erguer contra eles mas nom pôde. E Galaaz lhe disse: – Donde és tu? Eu te rogo que nos digas a verdade de ta fazenda e de ta idade e que aventura te adusse aqui e em qual guisa vives e se há muito que aqui és. E el disse entom com febre voz e mui baixa como aquel que sobejamente Título Fólio 423141a era de gram velhice: – Uu~ homem som que vivi muito e houve muito trabalho e muita coita e pouco de bem. Caifás houve nome e fui bispo de Jerusalém no tempo que Titos foi emperador de Roma. Mas por u~u~ feito que os judeus fezerom a u~u~ profeta que havia nome Jesus fomos todos perdidos e destruidos. De mim verdadeiramente, que nom merecera tanto como os outros, houve Vespasiom, filho de Titos, maior mercee de mim, ca me nom quis matar como os outros mas fezme meter em u~a barqueta soo, sem vela e sem remos, e fezme assi enviar pelo mar por receber qual morte me Deus quisesse dar. E, depois que fui no mar, andei mais de #CC anos que nom comi nem bevi nem achei gente que me quisesse receber em sua companha, ante me doestavam e mal diziam tanto que lhes contava minha fazenda. E nom achava nem u~u~ que houvesse de mim mercee nem que me er quisesse matar ca de grado queria que me matassem pois me em sa companha nom queriam. Título Fólio 424141a [Como Caifaz andou polo mar #CC anos e nom podia morrer.] Em tal guisa como eu vos conto andei per o mar mais de #CC anos cuitado que me nom podia perder no mar nem morrer da grande fame que havia. E tanto andei assi ataa que a ventura adusse a barqueta aqui a esta pena u ora som. E Título Fólio 424141b quando me aqui vi fui mui ledo ca bem cuidei que morava i gente que me fezesse algu~u~ bem. E, depois que andei darredor da pena e vi que nom morava i ninguém, torneime a minha barqueta ca esmei que mais toste haveria conselho no mar que em a pena. E quando cheguei u a leixara era já ela tam longe per o mar que a nom podia eu veer. E assi fiquei aqui e há já gram tempo que nom comi nem bevi nem veo aqui homem que me quisesse acorrer. E, pero vivi táaqui em tal guisa que raivo de fame noite e dia, nom posso morrer, ante vivo em tal lazeira como podedes veer. Ca, se fosse assi que eu podesse morrer come outro pecador, da morte me plazeria mais que da vida, ca tal vida muito é pior que morte. Título Fólio 425141b [Como leixarom Caifaz em a pena e se tornarom aa nave.] Quando eles esto ouvirom sinaromse da maravilha que ende ouvirom, ca nom cuidavam em niu~a guisa que homem mortal sem comer tanto podesse durar. E Persival disse: – Dom Galaaz, que faremos deste homem? Metêloemos em nossa nave e laváloemos ao regno de Logres por mostrarmos esta maravilha? – Esto nom pode seer, disse Galaaz, que el em esta nave, que é significança da Sancta Egreja, podesse entrar, ca aquele que i Título Fólio 425141c háde entrar deve seer comprido de fé e de creença. E por em vos digo que este nom pode i entrar, ca nom há consigo fé nem creença nem na houve nunca, ante errou tanto que em a morte do Senhor do mundo e do Rei dos reis se consentiu, que se outorgava na gram deslealdade que i foi feita. E por em digo em dereito conselho que o leixemos aqui, ca bem cuido que esta coita que sofreo tá aqui que é porque Nosso Senhor quer que seja perdido ou por vingança do gram torto que fez ao filho de Deus. Entom disserom os outros que dizia Galaaz gram dereito e, “se a Nosso Senhor praz que el seja salvo, ele o salvará; e se lhe praz de seer perdido nom havemos nós i que adubar ca nom é de nossa lei”. Entom o leixarom assi seer antre ambas as [árvores] e tornaromse a sua nave. E, depois que forom dentro, deulhes o vento que os alongou da pena mui longe per o mar. E comendaromse a Deus e fez cada u~u~ sa oraçom qual sabia. Dês i contarom aa donzela a aventura que acharom na pena e ela se sinou da maravilha que ende houve e disse que nunca ouvira aventura de tam gram maravilha. – Certas, disse Boorz, muito se maravilhará ende rei Artur e sa côrte se per a ventura Deus quer que em algu~a sazam i vaamos e a i contemos. Título Fólio 426141c [Como chegarom a u~u~ castelo que estava sobre o mar.] Título Fólio 426141d Falando em esto entrarom per o mar, assi como a ventura os levava, e a donzela com eles onde haviam gram gasalhado. Uu~ dia lhes aveo que aventura os levou perto de u~u~ castelo que estava sobre o mar. E tanto que o virom, disse Persival: – Se a Deus aprouvesse, muito me prazeria que aportássemos em outro logar ante que em este, ca o coraçom me diz que algu~u~ pesar nos i verrá. – Nom podemos aportar, disse Galaaz, senom u Deus quiser. Ca el, que nos i guia e quer que i aportemos, el nos ajudará em todo. Título Fólio 427141d [Como u~u~ cavaleiro do castelo queria filhar a donzela.] Tanto que esto disserom acharomse na riba e filharom sa donzela e saíromse da nave e entrarom no castelo, ca per alhur nom podiam ir. E benzerom ao Senhor Deus e loouvaromno porque os trouxera tam em salvo e que os trouxera a porto e que lhes fezera passar tantas aventuras em paz. Tanto que entrarom no castelo assi armados que lhes nom faleciam afora escudos e elmos, Galaaz catou ante u~a egreja velha e antiga e viu seu escudo acostado aa porta e mostrouo aos outros e disse: – Beento seja Deus e louvado, que lhe nom esqueeceu o meu escudo ante mo deu por a sua mercee. E eles disserom que era Título Fólio 427142a mui fremoso mitagre. E el foi ao escudo e filhouo e deitouo a seu colo. E foromse assi todos pela vila a pee e nom andarom muito que acharom u~u~ escudeiro grande e fero que os preguntou: – Donde sodes vós, senhores cavaleiros? – Nós somos, disserom eles, de casa de rei Artur. – Pesarvos deve ende, disse o escudeiro, ca nom desamam eneste castelo gente no mundo tanto como os de casa de rei Artur. E por esto vos faço certos que viestes a mau albergue du vos nom podedes partir sem desonra. – Nom sabemos, disserom eles, mas algu~u~ nos cuidará fazer desonra que se acharáende mal. Entom começarom a demandar pousada pelo castelo ca estar queriam tanto i taa que houvessem cavalos. E u~u~ homem veo a eles e disselhes: – Senhores, vós vos trabalhades em vão ca nom há homem tam atrevido na vila que vos ouse albergar. A ir vos convém ao alcáçar e ali vos albergaram em algu~a guisa. E quando eles esto ouvirom, foromse lá e acharom i gram côrte de cavaleiros e de donas e de donzelas e d’outra gente. E quando cuidarom a achar quem os recebesse bem, como era custume em aquel tempo de cavaleiros andantes seer recebidos em lugares estranhos, entom virom vi~ir contra si três cavaleiros armados que semelhavam bravos e feros e eram grandes de corpo. E sabede que eram todos três irmãos. E quando chegarom a eles Título Fólio 427142b nom nos salvarom e u~u~ deles foi aa donzela porque lhe semelhava fermosa e filhoua. E Persival, que era mui ardido, saio ante os outros e disse: – Dom cavaleiro, leixade a donzela ca nom é vossa, ca muito háque a nós trazemos, e nom na levaredes assi como cuidades. – Assi? disse ele, e queredesma vós tolher? Em mau ponto o pensastes. Entom foi a u~a espada que estava pendurada em u~u~ esteo e leixouse ir a Persival por lhe dar pela cabeça que tinha desarmada fora d’almofre. Mas Boorz, que muito amava a Persival, nom lho quis sofrer. E deulhe u~u~ tam grande golpe per meo da cabeça que o fendeo atee [a] cinta e caeu logo morto em meio do paaço. E, quando os outros dous irmãos virom este golpe, nom ousarom i mais estar porque estavam desarmados e tornatomse aos outros e derom vozes: – Armas! Armas! Entom se armarom eles e todolos outros e fezerom soar u~u~ corno por se assu~arem todos os da vila ao paaço. Título Fólio 428142b [Como Galaaz e seus companheiros derribavam e matavam os do castelo.] Depois que Galaaz viu que se armavam, disse a Persival e a Boorz: – Senhores, eu bem vejo que nos nom podemos daqui partir sem enxeco; filhe cada u~u~ de vós elmo e escudo e defenda seu corpo ardidamente a seu poder, ca muito me semelha que nos é mester. E eles disserom que assi o fariam. Entom forom a u~a Título Fólio 428142c câmera u estavam as armas dos do castelo. E depois tomarom elmos e escudos, os melhores que acharom e que souberom escolher, tornaromse ao paaço e acharom que os do castelo começarom já a batalha contra Galaaz e que eram já i mais de C armados. Mas el se defendia tam maravilhosamente que matara jáende #XV e era tam vivo e tam ligeiro que ia per eles como se nom houvesse i homem. Nem havia i tam forte nem tam bem armado que contra seu golpe podesse durar; nem armadura nom lhe prestava porque a boa espada que ele tinha talhava todo aa sua vontade. E por esto o conhecerom em tam pouca d[e] hora tam muito que nom havia i tal que ousasse atender golpe. E os outros dous, quando chegarom e virom Galaaz tam bem fazer, meterom mãos aas espadas e meteromse entre eles e começarom a dar golpes a destro e a seestro e a fazer tal morte em pouca d’hora que antecoante forom mortos de cavaleiros mais de #LX e d’outros homens mui gram peça. Que vos direi? Tantos forom i os mortos e os chagados que era maravilha. E os braados forom i tam grandes que todolos da vila se i assu~arom. E os cavaleiros se defendiam tam bem e tam ardidamente e tam bem ajudava u~u~ ao outro que niu~u~ dos que os cuidavam a matar ou a prender nom entrava entre eles que nom Título Fólio 428142d prendesse morte ou chagas de morte. E quando os dous irmãos virom que nom podiam durar contra estes cavaleiros estranhos e que lhes haviam já mortos acerca todos seus homens quiseromse sair do paaço por fugir. Mas nom poderom ca os três cavaleiros forom a eles e mataromnos assi a eles como a quantos aa sua ajuda vierom. E depois que virom que livrarom o paaço de seus imigos, disserom: – Vaamos fora, se podermos achar mais desta gente, ca muito som de maa parte e endiabrados. Entom forom buscando de u~a parte e da outra e chegarom a u~a camara que estava apartada e perto de u~a horta. Entom ouvirom u~u~ homem que fazia seu gram doo em guisa que semelhava homem que havia mui gram coita. E Galaaz esteve e disse aos outros: – Ouvides vós aquele doo? – Si, disserom eles. E sabedes quem o fez? – Si, disse el. Título Fólio 429142d [Como acharam o conde Arnalt chagado a morte.] – Sabede, disse Galaaz, que este é o conde Arnalt, mui bõõ homem e de mu~i boa vida e que ama muito seu Creador e que honra muito a Sancta Egreja. Mas per estes seus maus filhos que nós ora matámos recebeo ele muita desonra e muito pesar. E por esto quis Deus que recebessem eles esta maa morte. Título Fólio 429143a Entom entrarom na camera e acharom o conde jazer em grandes adovas; e jazia mal treito a morte. E sabede que nom soube Galaaz sa fazenda per homem do mundo mas per vontade de Nosso Senhor. E chegaromse a el e disseromlhe: – Senhor, como vos sentides? E o conde, que estava perto de morte, lhes disse: – Quem sodes vós que me preguntades? – Nós somos, disserom eles, cavaleiros |cavaleiros| estranhos que per ventura nom conhecedes. – Si faço, disse el: muito vos conheço milhor que vós nom cuidades. E levademe ao paaço e ideme buscar, fora deste castelo, aaquel chão, a u~u~ ermitam com que fale ca me esquecerom cousas que lhe nom disse, onde me sento em culpa contra meu Creador. E eles fezerom o que lhes el mandou. E, depois que o levarom ao paaço, Boorz e Persival forom buscar a pee, e assi armados chamarom o ermitam. E sabede que os da vila que os viam ir per as ruas nom se lhes paravam diante, ante fogiam quanto mais podiam. Entom se forom ao irmitam e disseromlhe o mandado do conde e disseromlhe todo o feito do castelo. Título Fólio 430143a [Como o ermitam disse que eram os do castelo os mais desleais cavaleiros que havia na Gram Bretanha.] – Senhores, disse o ermitam, benta seja [a] hora em que vós fostes nados ca esto que vós fezestes Título Fólio 430143b muito prouve a Nosso Senhor e por esso vos dusse aqui, por destruirdes esta gente que eram os peores homens nem os mais desleaes que havia em todo o reino de Logres. Entom se veo com eles pera o conde. E quando o vio Galaaz ficou os giolhos ante ele e disselhe: – Senhor, mercee! Dadenos conselho contra este feito que aqui fezemos, destes homens que matámos todos, mas fezemolo em defendendonos e nom pode seer que grande pecado nom hajamos. – Ai, Senhor! disse o homem bõõ, em esto nom pensedes, ca, assi Deus me ajude, vós fezestes em os matar a maior esmola que nunca cavaleiros andantes fezerom. E mui mais dos #III irmãos, ca esto foi mui fremoso milagre. Ca estes eram os mais desleaes cavaleiros nem os mais bravos que havia em a Gram Bretanha e por a sua gram deslealdade eram já todos os outros daqui tam mal acostumados que eram peores ca hereges e nunca faziam rem que nom fosse contra Deus. E entom os fez erguer dante si. – Par Deus, Senhor, disse Galaaz, a mim pesa delo muito porque a mim semelhavam cristãos. – Nom vos pese delo, disse o homem bõõ, ca, assi Deus me ajude, Nosso Senhor vos gradece muito quanto i havedes feito. E sabede que vos nom enviou acá por al senom pera matálos, ca nom Título Fólio 430143c som cristãos, senom os peores homens do mundo, e dizervosei como o sei. Título Fólio 431143c [Como o irmitam lhes disse a fazenda do conde Arnalt.] “Deste castelo era, ora há u~u~ ano, senhor o conde Arnalt que aqui jaz, e havia tres filhos boos cavaleiros d’armas; e havia u~a filha que era das fremosas donzelas do regno de Logres. Estes irmãos todos três amarom sua irmãã de fol amor, tam muito que houverom a jazer com ela. E porque o disse a seu padre mataromna. Quando o conde, que era mui bõõ homem, vio o torto que seus filhos fezerom houve tam gram pesar que os quis lançar da terra. Mas eles nom lho sofrerom e forom a ele de noite e chagaromno mui mal e mataromno sem falha se nom fossem dous seus sobrinhos que o livrarom. Quando eles virom que seu padre lhes escapara aquela hora assi de morte filharomno despois e deitaromno em prisom e tevetomno i tá agora. E, depois que forom senhores do castelo, fezerom todas aquelas treições que homem poderia pensar. Que vos direi? Eles fezerom tantas treições que maravilha foi como este castelo se nom foi em avisso.” Título Fólio 432143c [Como o irmitam contou o escarnho que lhe fizerom.] “Heire manhãã aveo que o conde que aqui jaz me enviou dizer que viesse a ele e trouxesse o Corpus Domini. E eu o fiz de grado ca o amava Título Fólio 432143d muito. E quando entrei aqui fezeromme tanto escarnho e pesar que se fosse entre pagãos ou antre hereges nom me fariam ende tanto. E eu o sofri mui de grado por honra daquele por cuja desonra mo a mim faziam. E depois que cheguei ao conde e se menfestou e recebeo o Corpus Domini entom lhe disse o que me fezerom. E el me disse: – Sofrede, ca a vossa desonra e a minha será mui cedo vingada per os três sergentes de Jesu Cristo. E esto me enviou dizer o Alto Mestre. E per esto podedes vós saber e conhecer que Nosso Senhor vos enviou acá dereitamente pera matálos.” Título Fólio 433143d [Como o conde Arnalt disse ao irmitam a fazenda de Lancelot e da rai~a.] Entom se chegou o irmitam ao conde Arnalt. E el lhe disse: – Senhor, bem sejades viindo. Eu enviei por vós por vos dizer u~a cousa que me esqueceu. Entom se fezerom os outros afora e o conde lhe disse: – Senhor, eu me sento por mui culpado contra rei Artur cujo vassalo som, que sei e vi a treiçam de Lancelot e de sa molher e nunca lho disse. Ora o digo a vós e rogovos que o digades a rei Artur. E, se lho disserdes, eu creo que fará guardar sa molher em guisa que ja mais tal erro nem tal pecado nom será. E o ermitam lhe respondeu: – Eu me conselharei. E, se achar ende meu conselho que o diga a elrei, dizerlhoei. – Eu vos rogo Título Fólio 433144a ende, disse o conde. Depois tornouse a Galaaz e disselhe: Título Fólio 434144a [Como passou o conde Arnalt.] – Galaaz, mui santa cousa, tanto vos atendi que, a mercee a Deus, vos hei. Por Deus e por cortesia, acostademe a vós e minha alma será delo mais leda quando sair do corpo sobre tal homem qual vós sodes. E Galaaz o fez mui de boa mente. E depois que lhe pôs sa cabeça sobre seu peito o conde çarrou os olhos como aquel que cuidava a morte. E disse assi como pôde: – Senhor padre Jesu Cristo, em tuas mãos encomendo a minha alma e o meu espírito. E entom lhe caeo a cabeça e jouve tam gram peça que os outros cuidarom que era morto. E a cabo de u~a peça disse: – Galaaz, sergente de Jesu Cristo, esto te manda dizer o Alto Mestre per mim que tu o vingaste hoje bem de seus imigos e toda a companha dos anjos ende é leda. Ora te convém que te vaas o mais toste que poderes a casa do Rei Pescador por receber sau´de que tam longamente há atendida, que deve a receber quando tu i fores. E partidevos todos #III tanto que a aventura volo guisar. Tanto disse o conde e nom mais, ca logo se lhe partio [a] alma do corpo. Título Fólio 435144a [Como os três cavaleiros e a donzela virom o cervo branco.] Título Fólio 435144b Quando os que ficarom vivos no castelo virom que o conde era morto fezerom mui gram doo ca muito o amavam mas nom no ousavam mostrar com pavor dos #III irmãos. E soterraromno em u~a irmida muito honradamente. Outro dia manhãã, Galaaz, Boorz e Persival filharom quaes cavalos quiserom e u~u~ mui bõõ palafrém pera sua donzela ca muitos cavalos e muitas armas podiam i achar. E cavalgarom e foromse dali. E tanto andarom que chegarom a u~a froresta. E depois que forom dentro nom andarom muito que virom passar per ante si u~u~ cervo branco que aguardavom quatro leões. E foise per ante eles atravessando a froresta. – Ora vejo, disse Galaaz, u~a aventura que já outra vez vi, por que me trabalhei u~u~ pouco. Ora queira Deus, se lhe prouver, que nós saibamos ende algu~a cousa ante que o cervo se parta de nós. – Par Deus, disserom os outros, já nós este cervo outra vez vimos. – Ora vaamos após el, disse Galaaz, ca me diz meu coraçom que algu~a rem ende saberemos esta vez. E os outros se outorgarom i. Título Fólio 436144b [Como acharom u~u~ irmitam e lhes divisou a senificança do cervo e dos quatro leões.] Entom se forom depós o cervo e entrarom em u~u~ vale e virom i entre uas moutas u~a ermida pequena u morava u~u~ homem Título Fólio 436144c boo mui velho, de santa vida e que havia muito que já i fezera serviço a Nosso Senhor. O cervo entrou na ermida e os leões outrossi. E os cavaleiros, quando esto virom, decerom ante a ermida e forom aa capela e acharom o homem boo que estava ja ´revestido peta dizer missa de Santo Espírito. E quando o eles virom, tolherom de si sas lanças e seus escudos e seus elmos e disserom que chegarom a boa hora. E quando o clérigo chegou aa secreta virom u~a cousa onde se maravilharom mais ca de rem que nunca vissem ca virom, e assi lhes semelhou, que o cervo se tornou homem e sentouse sobre o altar em u~a cadeira mui fremosa e mui rica. Depois virom outra maravilha, ca virom que os quatro leões se mudarom em quatro figuras desassemelhadas: u~u~ em figura d’anjo, o outro em forma de leom mil tanto mais fremoso que ante era, o outro em figura d’águia e o outro em figura de boi. E havia cada u~u~ deles quatro aas grandes a maravilha per que lhes semelhava que podiam bem voar, se quisessem. Dês i filharom estes quatro a cadeira u sia o homem per senhos pees e sairomse com ele per u~a vidreira que estava na oussia da capela, assi que a vidreira nom quebrou nem foi pior do que ante Título Fólio 436144d era. E depois nom virom do homem nem dos outros rem. E ouvirom u~a voz que lhe disse: – Em tal guisa entrou o filho de Deus na Virgem bendita, que a virgindade nem a benta Virgem nom foi mal treita nem empeiorada. Quando eles esta voz ouvirom caerom em terra estorgidos, ca a voz foi tam grande que lhes semelhou que toda a capela caera e que a voz fora ouvida per todo o mundo. E depois que tornarom em seu acordo virom que o homem boo dissera já missa. Entom forom falar com ele e rogaromlhe por Deus que lhes dissesse a sinificança do que virom. – E que vistes vós? disse el. – Senhor, nós vimos, disserom eles, u~u~ cervo a que depois vimos mudar sua forma. E outrossi forom mudados quatro leõs que lhe tinham companhia. E divisaromlhe como. Quando o homem boo esto ouviu, disse: – Ai, Senhores! Vós sejades os bem vindos. Ora sei eu per esto que me dissestes que vós sodes dos homens boos e dos cavaleiros que aa demanda do Santo Graal darom cima e que sofrerám as grandes cuitas e os grandes trabalhos em acabar as aventuras. Vós sodes aqueles a que nosso Senhor mostrará suas grandes puridades e suas cousas ascondidas. E jávos mostrou ende grande peça, ca u se mudou de cervo em homem ali vos mostrou que el como homem sofreo Título Fólio 436145a a gram [coita] mortal quando venceo a morte em morrendo e deu ao mundo vida. E bem deve seer significado per o cervo ca, assi como o cervo quando é velho er mancebece leixando seu coiro, assi veo Jesu Cristo de morte a vida quando leixou o coiro terreal ca leixou sua carne mortal que havia presa na benta Virgem. E porque este bento Senhor nunca houve mágoa de pecado pareceo ele em semelhança de cervo branco sem toda mágoa. E per os quatro de sa companha devedes entender os quatro evangelistas, as bentas quatro persoas que meterom em escrito u~a peça das obras de Jesu Cristo que fez e que disse mentre foi antre os homens assi como homem terreal. E sabede que nunca ende pôde cavaleiro saber a verdade assi como a vós ora sabedes. Assi se mostrou o bento Senhor per muitas vezes em esta terra aos homens bõõs e aos cavaleiros em semelhança de cervo branco. Mas sabede que dês aqui a diante nom parecerá em tal semelhança. Em outra guisa se poderá mostrar a seus amigos, mas em esta nom mais. Título Fólio 437145a [Como chegarom a u~u~ castelo u queriam do sangue da donzela.] Quando eles esto ouvirom, chorarom com piedade e derom graças a Nosso Senhor daquelo que lhes mostrara. Todo aquele dia forom com o homem boo por ouvirem Título Fólio 437145b as boas façanhas que lhes dizia e haviam i grande sabor. E em outro dia, depois que ouvirom missa e houverom de mover, filhou Persival a espada que tragia sua irmãã, a que fora do padrom de Merlim, a que leixara Galaaz por a espada da estranha cinta; e disse que a trageria d’i adiante por amor de Galaaz e leixou a sua em casa do homem bõõ. E depois se partirom dali e andarom taa meo dia e chegarom perto de u~u~castelo forte e fremoso; mas nom entrarom i ca nom era per i seu caminho. E, depois que se alongarom d’i u~u~ pouco, virom depós si vi~ir u~u~ cavaleiro armado de todas armas que os preguntou: – Senhores, esta donzela que vai com vosco é virgem? – Si, disse Boorz, verdadeiramente. Entom a prês per o freo e disse: – Assi Deus me salve, nom vos iredes ataa que nom paguedes o costume deste castelo. Quando Persival vio que lhe levava o cavaleiro assi sa irmãã, disselhe: – Senhor cavaleiro, vós nom sodes sesudo nem cortês desto dizerdes, ca a donzela, u quer que vaa, deve seer quite de toda cousa, e de mais tam filha d’algo como esta que é filha de rei. El esto dizendo, aque dez cavaleiros armados que sairom do castelo. E vinha com eles u~a donzela que tragia u~a escudela de prata e disserom aos três cavaleiros, tanto que a eles chegarom.: Senhores, convém que per força pague esta donzela. – Título Fólio 437145c E qual é o costume deste castelo? disse Galaaz. Senhor, disse u~u~ deles, cada u~a donzela que per aqui passa deve dar do sangue de seu braço esta escudela chea. E nom passa per i tal que o nom dê. – Mal haja, disse Galaaz, quem tal costume pôs, ca tal costume sobejamente é velhaco e lixoso. E como quer que as outras vos pagassem o costume, nom volo pagará esta, ca, enquanto eu houver [a] alma no corpo, esta nom vos pagará o que vós demandades, se me quiser creer. – Assi Deus m’ajude, disse Persival, ante eu i queria seer morto. E outrossi disse Boorz. – Par Deus, disserom os outros, a morte com vosco é, ca em este castelo há tantos homens boos pera darem a este preito cima que, se fôssedes os melhores #X cavaleiros do mundo, nom lhes poderíades durar. Título Fólio 438145c [Como se combaterom com os do castelo.] Entom se leixarom correr os u~u~s aos outros e aveo assi que os #III derribarom aos outros todos de justa ante que as lanças lhes quebrassem, Dês i meterom mão aas espadas e forom derribando e matando em eles como se fossem bestas. E todos os matarom, se quiseram. Quando os do castelo virom esto, sairom mais de #XL cavaleiros armados por lhes acorrerem; e ante eles vinha u~u~ homem velho que disse aos Título Fólio 438145d três: – Senhores, por Deus, doedevos de vós e nom vos façades assi matar, ca muito será gram dano porque sodes boos homens e boos cavaleiros. E por em vos rogo que, antes que i mais haja, que leixedes aa donzela dar o que lhe demandamos. – Certas, disse Galaaz, de mau sem vos trabalhades ca, mentre me ela creer, nom pode seer o que queredes. – Como? disse el, queredes vós pois morrer? – Nom ainda alá, disse Galaaz. E, assi Deus me ajude, ainda que em essa coita fôssemos, antes eu i queria morrer ca sofrer tam grande deslealdade como vós buscades. Entom se começou a peleja entre eles. E os do castelo eram já bem #LX ca todavia creciam. Mas Galaaz, que tinha a espada [da] estranha cinta, feria a destro e a seestro e matava quantos alcançava e fazia taes maravilhas entre eles que nom há homem que o visse que o tevese por homem terreal mas por algu~a maravilha estranha. Fazia de guisa que nunca leixou campo mas toda via o ganhava de seus imigos. E esto lhe valia muito, que os outros dous o defendiam a destro e a seestro, assi que niu~u~ nom se podia a el chegar se per diante nom vinha. Título Fólio 439145d [Como se derom tréguas e albergarom no castelo.] Assi durou a batalha atee a noite, ca sempre creceu ajuda Título Fólio 439146a aos do castelo. Mas os três cavaleiros, que de bondade d’armas eram taes que nom havia a adeleve melhores no mundo, se defenderom sempre tam bem que nunca houveram o peor nem perderom o campo. E tanto se teverom que a noite chegou escura, que se houverom per força de partir. E sabede que dos do castelo jazim no campo bem C, que mortos que chagados. Entom foi o velho cavaleiro aos #III e disselhes: – Senhores, nós vos rogamos por honra e por cortesia que vos vades hoje albergar com nosco e nós vos prometemos, a boa fé, que de manhã nos tornemos a este campo assi como ora estades. E sabede que vos faremos quanta honra e quanto serviço mais podermos e nom menos que vos fariam em casa de rei Artur, se i fôssedes, ca dela sodes vós, esto sabemos nós bem. E sabedes porque vos rogo que sejades nossos hóspedes? Porque eu bem sei que, tanto que vós souberdes a verdade deste costume, que vós vos outorgaredes toste em nos dar a donzela. Ide i, pois que vos rogam. E eles se outorgarom i. Entom se derom tréguas u~u~s aos outros e entrarom de su~u~ no castelo, e nunca vistes maior lidice que houverom quando os houverom por hóspedes. Título Fólio 440146a [Como fora posto o costume do castelo.] Título Fólio 440146b Depois que cearom, os #III cavaleiros preguntarom aos outros como aquel costume fora posto e porquê. E u~u~ deles lhes disse: – Esto vos direi eu bem. Sabede que aqui há u~a dona, nossa senhora e de todolos desta terra. E este castelo é seu e outros muitos. E aveo que engafeceo e enviámos a perto e a longe por quantos mestres soubemos. E nom houve i tal que lhe conselho soubesse dar. Aa cima disse[n]os] u~u~ homem velho mui sesudo que, se podéssemos haver sangue de donzelas que fossem virgens em vontade e em feito e que fosse[m] filha[s] de rei e de rainha, e que se untasse daquel sangue nossa senhora, que logo seria guarida. Quando nós esto ouvimos, posemos logo tal costume que toda donzela que per aqui passasse nos desse u~a escudela de sangue de seu braço e posemos guardas aas portas por teerem quantas per aqui passassem por haver delas o sangue tá que achássemos i aquela per que nossa senhora háde seer guarida. Entom se partiria o costume. Ora ouvistes como esto foi posto e o que nós vos demandamos. Ora fazede i o que vos prouver. Título Fólio 441146b [Como a donzela disse que pagaria o costume.] Entom disse a donzela a Galaaz e a Boorz e a seu irmão em sua poridade: – Senhores, Título Fólio 441146c vós ouvistes bem como esto foi posto. E eu vos digo que esta dona guarecerei eu, se vos prouver de que pague o costume deste castelo. E fareio mui de grado, se vós quiserdes. Ora me dizede o que vos ende praz. – Certas, disse Galaaz, se o fazedes, eu vos digo que sodes morta, ca sodes mui menina. – Par Deus, disse ela, se eu morrer por guarecer ela, esto é minha honra e de meu linhage. E, se o por al nom fezesse, deviao a fazer por vós e por eles, ca, se vos de manhãã juntades na batalha como hoje fezestes, nom pode seer que maior dano ende nom venha ca será de minha morte. E por em quero fazer o que eles querem em tal que se parta esta batalha. E rogovos por Deus e por Santa Maria que vós mo outorguedes. E eles lho outorgarom a mui gram pesar e gram força. E, dês i, entom chamou a donzela os outros cavaleiros e disselhes: – Senhores, ora sede ledos ca a batalha que haviades a haver manhãã é partida, ca eu vos prometo que de manhãã pague o costume que as outras donzelas pagarom. E quando eles esto ouvirom gradeceromlho muito e forom ende mui ledos. Título Fólio 442146c [Como a donzela deu seu sangue.] Aquela noite forom mui servidos os #III cavaleiros e a donzela. E mui mais o forom se quiserom Título Fólio 442146d receber todo o serviço que os do castelo lhes queriam fazer. De manhãã, depois que ouvirom missa, foi a donzela ao paaço e disse aos que i estavam: – Ide por a dona e aduzedea aqui e veelaam estes cavaleiros. E eles forom logo por ela. E quando os #III cavaleiros a virom, maravilharomse muito, ca havia o rostro tam desfeito e era tam cuitada que a donzela disse que muito era gram maravilha como podia viver. E a dona disse aa donzela que lhe desse o que lhe prometera e ela disse que o faria de grado. Entom fez aduzer a escudela de prata. Dês i feriromna no braço destro de u~u~ ferro qual convém a aquel mester e o sangue começou a sair e ela se sinou e comendouse a Nosso Senhor. E depois disse aa dona: – Eu som morta por guarecerdes vós. Por Deus, rogade por minha alma. E depois que a escudela foi chea de sangue esmoreceo ela e os #III cavaleiros foromlhe ao braço e estancaromlhe o sangue e çarraromlhe a ferida. E depois jouve gram peça esmorecida e acordou e disse: – Irmão Persival, eu moiro por sau´de desta dona. Rogovos que me nom soterredes, mas tanto que for morta levademe ao porto do mar que daqui achardes mais perto e metedeme em u~a barqueta e leixademe ir assi como Título Fólio 442147a aventura me queira guiar. E eu vos digo verdadeiramente que já tam toste nom iredes aa cidade de Sarraz, u havedes d’ir depós o Santo Graal, que me vós a pee da torre nom achedes. Entom fazede tanto por mim e por vossa honra: fazedeme soterrar no paaço [C]elestial. E sabedes porque volo rogo? Porque dom Galaaz há i de jazer soterrado e vós, irmão, outrossi. Título Fólio 443147a [Como passou a irmãã de Persival.] Quando Persival ouvio este rogo outorgoulho chorando e disse que o faria mui de grado. E ela lhes er disse: – Senhores, partidevos manhãã a hora de prima e filhe cada u~u~ sua carreira, tá que Deus vos er assu~e em casa do Rei Pescador. E vós, dom Galaaz, que ora sodes o melhor cavaleiro do mundo e a que Deus melhor graça deu, por Deus er coitadevos de tornardes a Camaalot ca bem sabede que rei Artur há mui mester de tornardes a ele. E sabê que, se i nom fordes, que haverá ende tam grande dano que nom será pois ligeiramente emendado. E depois que ela esto disse, calouse u~u~ pouco por folgar. E a cabo de u~a peça, disse: – Fazedeme viir meu Salvador. E enviarom por u~u~ irmitam que morava perto do castelo e ele veo toste pois vio Título Fólio 443147b que tam mester o haviam. E, depois que se ela menfestou, recebeu seu Salvador. Dês i pôs suas mãos em cruz sobre seu peito e saiolhe a alma. E houverom os #III cavaleiros tam gram pesar que se nom cuidavam ende a confortar tam toste. Título Fólio 444147b [Como a dona foi guarida e como meterom a irmãã de Persival em u~a barca.] Em aquel dia mesmo foi a dona guarida ca, tam toste que a lavarom do sangue da santa donzela, logo foi limpa de toda sua gafidade. Desto forom os #III cavaleiros mui ledos e todolos outros do castelo. Dês i tornarom ao paaço da donzela por lhe comprirem seu rogo e fezerom buscar u~a barca fermosa e forte e fezeromna cobrir de ricos panos de seda que chuiva lhe nom podesse nuzir. Dês i filharom u~u~ leito tam rico e tam fremoso como se fosse pera o corpo de rei Artur; e meteromn[o] na barca e deitarom a donzela em ele. Dês i puxarom o barco polo mar. E Boorz disse a Persival: – Muito me pesa que nom metemos com ela u~a carta per que soubessem donde era e como fora morta, quando per ventura chegasse a algu~a terra estranha. – Eu vos direi, disse Persival, que eu pus aa sua cabeça u~a carta que devisa todo seu linhagem e como foi morta e todalas aventuras que ajudou a acabar. – Certas, disse Galaaz, muito havedes Título Fólio 444147c bem feito, ca tal a poderá ora achar que lhe fará maior honra que ante depós que souber sua fazenda. Mentre os do castelo poderom veer a barca esteverom no porto e choravam muito e diziam que muito fezera gram bondade aquela donzela que tam muito fezera por u~a dona estranha guarecer. E, dês que nom poderom veer a barca, tornaromse a seu castelo. E os #III cavaleiros disserom que nom entrariam ja mais no castelo, que lhes fezessem dar suas armas e seus cavalos. E eles o fezerom de grado. Título Fólio 445147c [Como os muros do castelo forom derribados por u~a tempestade.] Depois que eles forom armados, querendo já cavalgar, virom todo o ceu escurecer e começou a fazer chuivas e torvões e lâmpados. E eles, quando esto virom, acolheromse a u~a capela que estava em meo do caminho polo mau tempo que virom viir e leixarom os cavalos em u~u~ alpênder. Dês i começou o tempo a esforçarse tam feramente que começou a chover de rijo e fazer torvões e lâmpados mui bravos e caer corisco pelo castelo tam espessamente que nom era sem maravilha. Todo aquele dia durou aquela tempestade tam grande e tam fera que bem derribou a metade dos muros do castelo, onde eles forom muito espantados, ca nom podiam cuidar que em dous anos podesse seer derribado per mal que lhe podesse viir. Título Fólio 446147c [Como Boorz se partiu por acorrer a u~u~ cavaleiro.] Título Fólio 446147d Quando foi hora de véspera, que o tempo mau quedara já, virom per ante si ir u~u~ cavaleiro armado chagado mal no corpo e na cabeça. E dizia a meu´de: – Ai, Deus! Acorreme, ca muito me é mester. E depós el vinha u~u~ cavaleiro do escudo negro e u~u~ nãão que lhe ia dando vozes: – A la fé, morto sodes nem alá nom podedes guarecer. E o cavaleiro er dizia: – Ai, Senhor Padre Jesu Cristo! Acorreme e nom me leixes perder atal sazam. Quando os #III cavaleiros virom como aquel cavaleiro rogava a Nosso Senhor, houverom dele gram piedade. E Galaaz disse que o queria acorrer. – Senhor, disse Boorz, nom faredes, mas eu, ca nom há mester que por u~u~ soo cavaleiro vós i vades. E el disse que lho ourtorgaria, pois lhe aprazia. E Boorz cavalgou. Dês i disse: – Senhores, eu me parto de vós e vós filhade de manhãã vosso caminho e trabalhadevos de irdes u nos havemos todos #III a ajuntar: em casa do Rei Pescador. – Si faremos, disserom eles. Entom se partirom. Boorz se foi depós o cavaleiro polo livrar daquel que ia após ele. Mas ora leixa o conto de falar dele e torna e Galaaz e a Persival que ficarom na capela. Título Fólio 447147d [Como Galaaz e Persival tornarom ao castelo e acharom todos mortos e como acharom u~u~ cimitério u jaziam as donzelas mortas.] Conta a estória que toda a noite jouve Galaaz e Persival na Título Fólio 447148a capela e rogarom muito a Nosso Senhor que el guardasse e guiasse Boorz per u quer que fosse. Outro dia, depois que o dia foi claro, sobirom em seus cavalos e tornarom ao castelo por veer como lhes aveera aos de dentro. E, quando chegarom aa porta, acharomna queimada e os muros derribados. Dês i forom mais adiante e nom acharom homem nem molher que todos nom fossem mortos nem casas que nom fossem queimadas e derribadas. E, quando chegarom ao paaço, acharomno todo em terra e todolos cavaleiros mortos u~u~s acá e outros alá, assi como Nosso Senhor os houvera mortos por a maldade que em eles achara. Quando eles esto virom, disserom que fora vingança do Senhor Deus. E eles em esto falando, ouvirom u~a voz que lhes disse: – Esta vingança é d[o] sangue das boas donzelas que filharom em aqueste castelo por a terreal sau´de de u~a desleal pecador, ca muito é a vingança de Nosso Senhor fermosa e maravilhosa e muito é fol quem contra el vai nem por morte nem por vida. Quando eles andarom per o castelo catando o gram dano que i aveera, acharom cabo de u~a capela u~u~ cimitério mui fremoso u havia muitas árvores e boa erva verde e havia atá #LX moimentos e era o lugar tam fremoso que semelhava que nunca i da tempestade houvera nimigalha. E sem falha assi era, Título Fólio 447148b ca ali jaziam os corpos das donzelas que por a maa dona foram mortas. Título Fólio 448148b [Como Galaaz e Persival se partirom aa entrada da foresta.] Quando eles entrarom em o cimitério, assi a cavalo como estavam, acharom sobre cada u~u~ moimento letras que diziam o nome daquela que i jazia. E forom lendo tanto que acharom que jaziam i #XII filhas de reis. Quando eles esto virom disserom que mau costume haviam manteu´do aqueles do castelo e que fezeram gram mal os da terra que tam longamente o sofrerom, ca muitos homens boos poderam de taes donas sair. Tee hora de terça esteverom ali catando aquelas maravilhas. E quando se partirom cavalgarom tá u~a foresta que era perto dali. E quando chegarom aa entrada da foresta esteverom. E disse Persival: – Dom Galaaz, ora se nos chega a hora em que nos havemos de partir e de filhar cada u~u~ sua carreira. E rogo a Nosso Senhor que el nos guise como nos possamos achar cedo ca, assi Deus me conselhe, nunca achei companha em que tanto sabor houvesse como na vossa. E por esso me é mais grave o partimento do que vós cuidades. Mas de seer é, pois a Nosso Senhor apraz. Entom se abraçarom e chorarom muito quando se houverom a partir ca muito se amavam de coraçom e bem pareceo a sua morte, ca pouco viveo o u~u~ depós o outro. Assi se partirom ambos aa Título Fólio 448148c entrada da foresta que chamavam Aula. Mas ora leixa o conto de falar de Persival por contar como aveo a Galaaz quando tornou ao regno de Logres e como livrou a rei Artur e a terra de Logres dos Sansões que vierom i per conselho de rei Mars de Cor[nu]alha. Mas, ante que fale de Galaaz, diz logo per cujo conselho i vierom e em qual guisa. Título Fólio 449148c [Como rei Mars desamava Tristam por amor de Iseu e como desamava rei Artur.] Em esta parte diz o conto e a verdadeira estória que rei Mars de Cornualha ouvira bem dizer que Tristam, seu sobrinho, se fora pera Bretanha e levara considgo a rainha Iseu e meteraa na Joiosa Guarda. Rei Mars amava Iseu de tam grande amor que nom lhe podia esqueecer em niu~a guisa, ante era tam cuitado por ela que nom podia mais. E muitas vezes quisera mandar dizer alrei Artur que lha enviasse, mas nom se atrevia, que sabia que amava tam muito a Tristam que lha nom enviaria em niu~a guisa e, ainda que o quisesse fazer, leixáloia por amor do linhagem delrei Bam que amavam todos Tristam de coraçom. E em esta coita e pesar viveu elrei Mars dous anos sem Iseu e desamava por elo tanto a rei Artur que, se lhe podesse nuzir em algu~a guisa, fariao mui de grado. Título Fólio 450148c [Como Aldret conselhou rei Mars que enviasse mandado aos Sansões por virem conquerir o regno de Logres.] Título Fólio 450148d Quando a demanda do Santo Graal foi começada e os cavaleiros [da Mesa] Redonda a jurarom e se partirom de casa de rei Artur, as novas forom, per muitas terras preto e longe e forom i muitos, assi os da terra como os estranhos, que diziam mais de mentiras que de verdades. Onde aveo que disserom em Gaula e em Gaunes e em a Pequena Bretanha e em Cornualha que todolos cavaleiros da Mesa Redonda eram mortos na demanda do Santo Graal. Os de Gaula e de Gaunes e de Benoic houverom em tam gram pesar que bem quiseram seer mortos por amor de Lancelot e do linhagem de rei Bam. As novas do doo que eles fezerom chegarom a rei Mars e, quando el viu que lho afirmavam de verdade, disse: – Ora pode bem dizer rei Artur que seu poder é tornado a nient pois os cavaleiros da Mesa Redonda som mortos. Entom se conselhou com Aldre[t] que poderia i fazer que nom havia no mundo homem que ele tam mortalmente desamasse como rei Artur. E irlheia de grado a fazer mal atal sazom se o cuidasse acabar. E Aldret que era cheo de nemiga disselhe: – Eu vos ensinaria como o podéssedes destruir em como ora el está. Título Fólio 450149a Vós sabedes bem que os Sansões som gram gente e poderosa de terra e de amigos e eles desamam rei Artur tam mortalmente que, se lhe podessem fazer dano e tolherlhe o reino, nunca tam grande plazer viram. Enviadelhes dizer como rei Artur perdeu a companha da Mesa Redonda e fazedelhes entendente, se quiserem viir a tal estado ao regno de Logres, ligeiramente o podem conquerir. E sabede que eles verram i mui de grado tanto que vosso mandado virem e fazedelhes saber que seredes i com eles em sua ajuda com quanto poder houverdes e poedelhes dia. E sabede que logo i seram com vosco. Título Fólio 451149a [Como rei Mars se foi aa Joiosa Guarda e filhou a rai~a Iseu e como meterom fogo aa vila e matarom as gentes.] Bem assi como Aldret conselhou a elrei Mars o fez ele, ca lhes enviou aquelas novas o milhor e o mais aposto que el soube ca os Sansões, que nom desamavam homem tanto no mundo como rei Artur, como ouvirom estas novas, forom delo mui ledos e assu~arom todo seu poder e meteromse em naves e em galees e passaromse aa Grãm Bretanha e aportarom em Osinedot. E rei Mars, que bastira toda esta treiçam, filhouse com toda a sua gente e Título Fólio 451149b foise pera eles a aquel logar mesmo u eles aportarom. E forom mui ledos u~u~s com os outros. Aquel dia pousarom em u~a foresta que era perto do mar e jouverom i o mais ascondidos que poderom por nom seerem descubertos. E quando chegou a noite meteromse ao chão e começarom [a] andar contra a cidade de Camaalot, ca o luar era mui bõõ. E ali cuidavam a achar rei Artur porque morava i mais que em outro lugar. E assi andarom os Sansões folgando o dia e andando de noite ataa que chegarom u~u~ dia sábado aa Joiosa Guarda. E rei Mars, que bem sabia que a rainha Iseu era i, filhou de seus cavaleiros e dos Sansões taa quinhentos bem armados e disse-lhes: – Vaamos a aquel castelo mais passo que podermos. E eles assi o fezerom como lhes el ensinou. E os do castelo, que se nom temiam de nada gram tempo havia, n[O]m se valavam, ante tinham as portas abertas noite e dia. Em esta guisa entrou elrei Mars com todos seus cavaleiros e sabede que andavam todos a pee ca, se os cavalos fezessem volta e os de dentro enviassem çarrar as portas ante que eles entrassem, nom temeriam depois todo o mundo, ca sobejo era o castelo forte. Rei Mars se foi dereitamente u sabia que a rainha jazia e filhoua de u~a cãmara per força u jazia com grande companha Título Fólio 451149c de donas e de donzelas. E depois fez meter fogo aa vila e fez tam gram morte em os homens que i eram que poucos ende ficarom vivos. E, depois que houverom as gentes mortas e a vila queimada e o haver tomado, sairomse e forom sua via mui ledos com gram ganho que haviam feito. E sabede que rei Mars nom quis rem de aquel ganho pois que havia a rainha Iseu, ante lhes disse: – Ora pensade de cavalgar ataa u é rei Artur. Se nós imos sesudamente, com poucos homens nos nom poderá durar. E eles disserom que toda sua vontade fariam aquela vez. Título Fólio 452149c [Como chegarom novas a rei Artur que rei Mars andava destruindo sua terra.] Assi cuidou rei Mars a filhar de suspeita rei Artur. E assi fora sem falha, mais novas, que toste correm, chegarom a Camaalot u rei Artur estava mui triste dê que sabia verdadeiramente que já eram muitos mortos dos da Mesa Redonda na demanda do Santo Graal e mal dizia a demanda e aquel per que fora começada. E estando assi triste, veo ante el u~u~ escudeiro da Joiosa Guarda que lhe disse: – Rei Artur, eu te trago novas maas e de grande pesar. – Par Deus, disse rei Artur, se mas boas trouxesses esto seria gram maravilha, ca muito há gram tempo que as nom pude ouvir se nom Título Fólio 452149d maas. Mas pero, quaes quer que sejam, dimas. – Eu te digo, disse o escudeiro, que rei Mars de Cornualha com todo seu poder e os de Sansonha com o seu aportarom em teu reino e destruiromte a terra em muitos logares e mataromte muitos home~e~s. E o castelo da Joiosa Guarda, que nom temia rem, é destruido e queimado. E sabe que seram aqui contigo ante de três dias. – É verdade? disse elrei. – Si, disse o escudeiro, sem falha. Eu os vi na Joiosa Guarda onde escapei per gram ventura. Entom começou elrei a pensar e, depois que pensou gram peça, disse: – Ai! casa de Camaalot! Como tu eras temida e dultada enquanto os bõos cavaleiros da Mesa Redonda i eram! E ora parece ca aquestes que me esta guerra movem adur o provariam se soubessem que eles aqui eram. Entom se ergeo u~u~ cavaleiro de Irlanda que era mui boo cavaleiro d’armas e muito ardido e era irmão de u~u~ dos da Mesa Redonda que havia nome Dinadas de Garlot e disse a rei Artur: – Senhor, vós fostes tá aqui o mais dultado rei do mundo e o mais nomeado e ainda o sodes. Se os da Mesa Redonda som partidos de vossa casa, por em nom ficou vossa casa tam soo que ainda i nom haja dos Título Fólio 452150a melhores cavaleiros do mundo fora ende aqueles. Ca, certas, tantos i há de homens bõõs que sobejo será mui grande a gente que vós de campo nom deitássedes tanto que Deus vos nom quisesse fazer mal. E por esto vos digo que vos nom espantedes de taes novas, ca vós fostes tá aqui teu´do por u~u~dos homens bõõs do mundo. E, se vosso louvor falecesse por tanto, deviamosvos a teer por u~u~ dos peores homens. Enviade por vossos cavaleiros e por vossos homens, que havedes muitos darredor de Camaalot, e ide seguramente contra vossos imigos. E, certas, se vós esforçadamente vos manteverdes, Ventura, que os ardidos mantém, vos ajudará e devevos muito a confortar que o dereito é vosso e o torto seu. Título Fólio 453150a [Como rei Artur enviou per toda sua terra que lhe viessem acorrer.] Tanto disse o cavaleiro que elrei se confortou muito e que enviou per toda sua terra o mais prestes que pôde a todos aqueles que del tinham terra que lhe viessem acorrer a tam grande coita. E eles o fezerom o mais toste que poderam ca o amavam muito. E assu~aromse em Camaalot mais de dous mil de cavalos e d’armas e d’outros mui Título Fólio 453150b gram companha. Ao quarto dia, a hora de prima, u estava elrei ouvindo sa missa, vierom a el dous cavaleiros armados que lhe disserom: – Senhor, aque vossos imigos vêm; já som saídos da foresta mais de #X mil de cavalos e d’armas. – Ide, disse elrei, e fazede dez azes dos vossos homens e estade fora no campo ca nom queria que nossos imigos nos achassem encerrados. Mas sobre todalas cousas do mundo vos guardade de derramardes. Título Fólio 454150b [Como rei Mars chagou rei Artur.] Assi como ele mandou o fezerom eles, ca fezerom de sa gente #X azes em que havia muitos homens boos e muitos cavaleiros. Mas sobejamente eram poucos contra os outros. E por em receberom aquel dia tal dano que o nom quisera rei Artur pola metade do seu regno. Que vos direi? Depois que el-rei ouviu missa saiose da capela e fezse armar o melhor que pôde e subiu em u~u~ cavalo em que se fiava e saio com ele bem #CC cavaleiros onde o mais covardo era mui boo cavaleiro d’armas. E depois que forom fora da vila acharom que os outros lidavam já. Mas tam muitos eram contra ele que os seus nom podiam durar e mataromlhe jáende muitos a maravilha, ca nom queriam leixar o campo por morte nem Título Fólio 454150c por vida. Quando elrei viu seus homens em tal coita suspirou por os da Mesa Redonda e ferio o cavalo das esporas e foios ferir com tam gram sanha e com gram desejo de vingar seus homens que via ante si matar. E topou com u~u~ parente de rei Mars e deulhe tal lançada que o meteo morto a seus pees. Os brados forom grandes, ca os de Cornualha conheciam que aquele era rei Artur e leixaromse ir a ele mais de #XX. E ele meteo mão aa espada, que era boa e bem talhador, e el era muito arrizado e muito ardido e defendiase tam bem e tam ardidamente que bem diziam quantos o viam que aquele era rei Artur. E seus imigos também o louvavam e preçavam muito tanto o viam bem defenderse. Muito fezera de armas rei Artur aquele dia, pero que lhe ia mal, ca seus homens eram tam poucos que nom pareciam entre os outros. Mas rei Mars, que bem o conhecia e que o desamava mortalmente, deulhe u~a tam grande lançada per as costas seestras que escudo nem loriga nom o pôde guardar que o ferro nom parecesse da outra parte pela espádua. E rei Mars era de tam grande força que meteo em terra el Título Fólio 454150d e o cavalo e no caer quebrou a lança em ele, assi que elrei Artur ficou ali com o traçom em si. Título Fólio 455150d [Como os vassalos de rei Artur o levarom aa cidade e os de rei Mars armarom sas tendas darredor da cidade.] Quando os vassalos de rei Artur virom seu senhor em terra houverom ende tam grande pesar que meterom todo em aventura. Entom viríades os boos cavaleiros! Entom viríades os atrevidos! Entom viríades os leaes! Entom veríades como lhe amostravam o verdadeiro amor que lhe haviam, ca ali u jazia em terra tam maltreito que se nom podia erguer se meterom eles per entre os seus imigos atá que chegarom per força a ele. E poseromno em cavalo e levaromno aa cidade a mal grado de rei Mars e de sua companha. Mas sabede que leixarom no campo tantos de seus amigos mortos que foi ende a perda mui grande. Mas de Sansões e de Cornualheses er houve i tantos mortos que a adur poderia homem ende saber conto. Mas de perda que i fezessem nom davam rem, ca bem cuidavam que era rei Artur chagado a morte e que nom poderia viver #III dias e benziam rei Mars por aquele golpe que fezera e diziam que bem valia Título Fólio 455151a a coroa de rei quem tam bem se sabia vingar de seu enmigo. E os Sansões er diziam entre si: – Ora nos nom pode escapar o regno de Logres que o nom conquiramos. Ca, depois da morte de rei Artur, nom acharemos nós homem que nos possa contrastar. Entom mandarom armar sas tendas e seus tendilhões darredor da cidade e deisserom que ja mais nom se levantariam dende ataa que a houvessem conquistada. Título Fólio 456151a [Como fezerom gram doo os da cidade por rei Artur e como nom era a chaga mortal.] Muito foi grande o doo e o chorar que fezerom os da cidade quando virom chagado rei Artur, ca bem cuidarom que era chagado a morte. E ao doo da rainha nunca homem vio par. Mas depois que catarom a chaga forom mais confortados, ca disse o mestre que nom era a chaga mortal e que o daria mui cedo dela são. Mas ora leixa o conto a falar deles e torna a Galaaz. Título Fólio 457151a [Como Galaaz achou Artur o Pequeno e Palamedes que se combatiam.] Aqui diz o conto que, depois que Galaaz se partio de Persival, que andou todo aquele dia que nom achou ventura que de contar seja. E outro dia, ao tercer dia, lhe aveo, a hora de meodia, que achou dous cavaleiros que se combatiam a pee e seus cavalos estavam liados a Título Fólio 457151b duas árvores e estava ante eles u~u~ cavaleiro a cavalo que via a batalha. E, se me algu~u~ preguntasse quem eram estes cavaleiros, eu lhe diria que os que se combatiam u~u~ era Artur o Pequeno e o outro era Paramades o boo cavaleiro pagão e o outro era esclabor o Desconhecido que era padre de Paramades. Título Fólio 458151b [Como Artur o Pequeno foi depós Galaaz.] Aaquela sazom que chegou Galaaz a eles aveo que ambos os cavaleiros leixarom. a batalha por folgarem, ca tanto eram lassos e cansados que nom podiam mais sofrer. E Paramades, tanto que viu o escudo branco da cruz vermelha, logo conheceo que aquele que o tragia era Galaaz o mui boo cavaleiro e nom se pôde teer que nom dissesse ao com que se combatia: – Certas, cavaleiro, ora posso eu bem dizer que se tanta bondade de cavalaria houvesse em mim como em tal cavaleiro qual eu vejo eu vos haveria conquisto a pouca d’hora ainda que vós houvéssedes bondade d’armas de taes #IIII cavaleiros como vós. Artur o Pequeno foi maravilhado quando lhe aquelo ouvio ca nom podia cuidar que no mundo tal cavaleiro houvesse como lhe el dizia. E por esso disse logo: – Qual é esse que vós dizedes? E el lho mostrou. – Mala aventura haja eu, disse Título Fólio 458151c Artur o Pequeno, se vencesse taes três como eu. – Certas, disse Paramades, si faria taes #V. – Si Deus m’ajude, disse Artur, esto nom creeria eu tá que o visse. – Pois ora vos direi que i façades. Vós me cometestes por veerdes se érades melhor cavaleiro que eu. E aveovos assi que ainda ende rem milhor nom havedes, ante per ventura i havedes mais de perda ca de ganho. Leixade esta batalha, se vos praz, e idevos ensaiar com ele. E se o nom achardes tal ou melhor que vos eu digo nom me tenhades por cavaleiro. – Eu o outorgo, disse Artur, mas nom quero que por em fique nossa batalha ca, se vos ora partirdes de mim, sabede que, u quer que vos ache, vos er chamarei a ela. Assi se partiu a batalha de Artur o Pequeno e de Paramades. E, tanto que vio Galaaz que se a batalha partia e que nom fariam i mais, partiose dali e começouse d’ir muito aginha ca muito lhe tardava de ir a Camalot. E Artur o Pequeno, tanto que cavalgou, começouse ir após ele e disse a Paramedes: – Nós nos partimos e vós bem sabedes o preito que havemos. – Desto nom faledes, disse Paramades, ca, se eu nunca conheci o cavaleiro do escudo branco e da cruz vermelha, el me vingará de vós e matará ligeiramente o vosso argulho. Título Fólio 459151c [Como Artur o Pequeno desfiou Galaaz e como Galaaz o derribou.] Título Fólio 459151d Artur o Pequeno nom respondeo rem a esto, ante se foi quanto pôde depós Galaaz que era já quanto alongado. E Paramades sobio em seu cavalo e disse a seu padre: – Vamos depós eles e veremos o orgulho e a fadeza deste cavaleiro quebrar. – Como? disse o padre, conhecedes vós tam bem este cavaleiro que se vai que é milhor cavaleiro que este que se com vosco combateo? – Senhor, disse Paramades, eu vos digo que ele é o milhor cavaleiro do mundo. – Esto veeria eu de grado, disse o padre. E Artur o Pequeno, que se adeantou ante eles, quando chegou a Galaaz disselhe: – Senhor cavaleiro, guardadevos de mim. A justar vos convém. Entom catou Galaaz pós si e, quando vio Artur que nom conhecia e que justa lhe demandava, volveo o cavalo a ele e ferio tam bravamente que meteo el e o cavalo em terra; e el foi ende mui britado ca a queda foi mui grande. E pero, porque era de gram coraçom e de gram força, ergueose mais toste que outro cavaleiro se ergueria e subio em seu cavalo com gram pesar do que lhe aveera. E Galaaz, que o nom catou mais em mentre el cavalgou, alongouse del bem três traitos de besta. E Paramades, que o em tanto er alcançou, Título Fólio 459152a lhe disse: – Ora sabedes como o cavaleiro justa. E, se nom queredes morrer ou mais receber d’onta, quitadevos hoje mais dele, ca, certas, contra ele nom podedes vós durar em niu~a guisa. E se el quisera já vos el matara mas leixouo mais pola sua bondade que pola vossa. Título Fólio 460152a [Como Galaaz meteu em terra Artur o Pequeno.] Artur o Pequeno, que houve gram pesar e gram sanha do que lhe Paramades disse, respondeo: – Se ele é melhor cavaleiro que eu esto vos mostrarei eu bem ao ferir de espada; e vindevos pós mim e vêloedes. – Certas, disse Paramades, nom sodes tam cortês como deveríades e dizervosei como. Vós sodes boo cavaleiro sem falha e com vossa boa cavalaria deviades seer cortês e de boo talam e sodes folom e desdenhoso. E por enveja que havedes aos boos cavaleiros andadelos cometendo e cuidades que é cortisia. Certas, se aquel que ora é o melhor cavaleiro do mundo houvesse vossa manha, menos ende valeria. A esto respondeo Artur o Pequeno e disse: – Vós nom me deveríades culpar se eu ando cometendovos e os outros bõõs cavaleiros, ca eu som mancebo e cavaleiro novel que hei mester de gaanhar prez e Título Fólio 460152b louvor; e, se o ora nom gaanhar, quando o gaanharei? Ca niu~u~ cavaleiro mancebo nom deve a folgar mas fazer, mentre for mancebo, per que seja louvado em sa velhice. – Vós dizedes verdade, disse Paramades. Mas todavia nom deve a fazer vilania depois que for cavaleiro. Depois desto nom se quis deteer mais Artur o Pequeno com Paramades, antes se foi depós Galaaz e, tanto que o acalçou, meteo mão aa espada e disse: – Guardadevos de mim, senhor cavaleiro, ca vos nom podedes assi de mim partir. Quando Galaaz vio que o tinha em tam gram coita que per força queria que se combatesse, acostou sua lança a u~a árvor e meteo mão aa espada da estranha cinta e, quando veo ao ferir, disselhe: – Assi Deus m’ajude, cavaleiro, vós nom sodes tam cortês como devíades, que ides detendo os cavaleiros estranhos que per ventura vão a maior coita de adubarem sua fazenda que vós. E, se vos ende mal viesse, nom devia niu~u~ a haver de vós doo. Entom se leixou ir a ele e deulhe u~u~ tam grande golpe per cima do elmo que se nom pôde teer em sela e houve d’ir a terra tam estorgido que nom soube se era noite se dia. E Galaaz meteo sa espada em sa bainha e filhou sa lança e começouse de ir. Título Fólio 461152b [Como Artur o Pequeno se foi a Camalot com Palamedes.] Título Fólio 461152c Palamades filhou entam o cavalo d’Artur o Pequeno e adusselho e disselhe: – Ora podedes cavalgar. E el cavalgou. – Ora me dizede, disse Paramades, podervosíades outorgar no que vos disse, que este é o milhor cavaleiro do mundo? – Certas, nom, disse Artur; de melhores i há, nem el será tam ousado de dizer de si o que vós del dizedes. – Verdade é, disse Paramades, ca, se se el louvasse, terriamlho por vilania. Mas polo el nom dizer nom leixa por em seer o melhor cavaleiro do mundo. E assi o é, sem falha. – Já Deus nom m’ajude, disse Artur, se o leixo eu atá que veja mais de sa bondade ca ainda vi. – Eu vos digo, disse Paramades, que cedo o podedes veer, se com nosco quiserdes ir. – E a que logar ides? disse Artur. – Certas, disse ele, eu ouvi dizer que rei Artur era cercado na cidade de Camalot; e cercouo i rei Mars e os Sansões. E eu o amo tanto e tanto o preço que o quero ir ajudar com meu padre. E eu sei bem que este cavaleiro vai i por destroir os Sansões e acorrer a rei Artur. E se vós aquel dia que ele i chegar esteverdes ante a cidade de Camaalot, Título Fólio 461152d nom me terredes entom por mentiroso do que vos disse de sa bondade, ca eu sei bem que ele soo querrá cometer todolos da hoste. E eu sei que i fará as maiores maravilhas e as maiores bondades d’armas que nunca corpo de niu~u~ cavaleiro fez. – Pois assi é, disse Artur, que vós ides a Camalot por ajudar rei Artur, hoje mais nom pode entre mim e vós haver peleja ca nom poderia eu desamar quem rei Artur amasse. E por em eu me quero ir em vossa companhia, se vos prouver. E eles disserom que lhes prazia. Título Fólio 462152d [Como Guinglaim derribou Galaaz que o nom ouvira.] Assi se forom os #III cavaleiros depós Galaaz, falando todavia dele. E Galaaz, que ante eles ia e que nom cuidava que iam após ele, andou tanto que chegou a hora de noa a u~a ponte que estava sobre u~u~ rio. A ponte era alta e [a] água fonda, e fazia grande quentura e fera. E aveeralhe assi aquela noite que el nom dormira se pouco nom e adorme[ce]ra entrante a ponte. A ponte era de madeira e era ancha e forte e da outra parte estava u~u~ cavaleiro sobre u~u~ gram cavalo e bem armado e guardava a ponte que niu~u~ nom passasse se justar nom quisesse. E sabede que este cavaleiro Título Fólio 462153a o havia nome Guinglaim, filho de Galvam. Quando Guinglaim vio Galaaz chegar aa ponte, disselhe: – Nom entredes na ponte, ca eu volo defendo. E Galaaz, que dormia firmemente, nom no ouvio, e o cavalo se foi pela ponte. E Guinglaim, que bem cuidou que o ouvira Galaaz, leixouse ir a ele e deulhe u~a tam gram lançada que o derribou do cavalo e da ponte em água. E se a água fora mais fonda u ele caiu houverase a perder por as armas que o fariam ir ao fundo. Título Fólio 463153a [Como Galaaz leixou a ponte por Guinglaim.] Quando Galaaz se sentio na água, ergeose o mais toste que pôde. E foi sa boa ventura que caeo perto da riba e saio fora. E, quando viu que fora derribado da ponte e que nom era ferido, graciouo muito a Nosso Senhor. Guinglaim, que o nom conhecia, lhe disse: – Certas, cavaleiro, a poucas comprastes vossa folia, ca vos dizia eu que vos tornássedcs c nom vos quiseste tornar. – Certas, disse Galaaz, eu vos nom ouvi. – Nom? disse o cavaleiro, pois dormíades? – Pode seer, disse Galaaz. Mas pois me assi aveo, rogovos que me dedes meu cavalo. – Darvoloei, disse Guinglaim, per u~u~ preito: que nom passedes per esta ponte. – Nom me cal, disse Galaaz, per u quer que passe, ca hei tam grande coita que nom posso aqui muito estar. Título Fólio 463153b E Galaaz cavalgou e passouse per a água e leixou a ponte por Guinglaim. Título Fólio 464153b [Como Artur o Pequeno foi derrubar Guinglaim.] Quando Artur o Pequeno vio esto, disse a Paramades: – Ora haja eu mala ventura se eu digo por este que é o melhor cavaleiro do mundo, ca ora sei eu bem que achou melhor cavaleiro que si, que leixou por covardice passar pela ponte. – Certas, disse Paramades, nom sei que vos i diga nem porque o fez. Mas ainda vos digo e direi que el é o milhor cavaleiro do mundo. E se lhe ora aveo aqui tal andança qual nom devera, nom é maravilha, ca nom há no mundo tam boo que aas vezes nom venha maa andança. – Esto nom é rem, disse Artur. Esta maa andança nom lhe veo se nom por sa covardice. E porque nom ousou ir pola ponte, quero eu per i ir. Entom ferio o cavalo das esporas e baixou a lança. E Guinglaim, que o viu viir, disselhe: – Tornadevos, cavaleiro; eu vos defendo a ponte. E Artur o Pequeno lhe respondeo: – Ainda eu nom vejo por que a leixe. Entom leixou correr o cavalo a ele e deulhe tam gram lançada que derribou el e o cavalo na água. E, sem falha, fora morto ca era [a] água fonda; mas filhouse a u~u~ ramo e houve depois ajuda de gente. E Artur Título Fólio 464153c o Pequeno que nom dava rem por sa morte nem por sa vida, nom no catou mais ante se passou a além. E outrossi fezerom Paramades e seu padre. E Artur o Pequeno er disse a Paramades: – Certas, se aquel que se daqui vai fosse tam boo cavaleiro como vós dizedes, nom fora derribado por pior que mim. – Nom digades, disse Paramades, ca as aventuras assi aveem que o mau cavaleiro derriba o mui bõõ. – Verdade é, disse Artur, e por em me quero calar. Título Fólio 465153c [Como acharom da abadia u jazia Simeu no fogo.] Em taes cousas falando, cavalgarom os #III cavaleiros quanto o dia lhes durou. E aveolhes assi que chegarom aa noite a casa de u~a dona viuva u Galaaz ficara. E, quando os ela viu, recebêos mui bem e fezlhes muito serviço. E quando Artur o Pequeno viu Galaaz desarmado catouo gram peça e depois disse: – Certas, esto seria gram torto se este cavaleiro nom fosse milhor que outro, ca este é sem falha o mais fremoso nem o milhor talhado de sa idade que eu nunca vi. – Ora nom vos cal ende, disse Paramades, ca, se Deus vos leva a Camaalot, entom o poderedes preçar e louvar Título Fólio 465153d mais que ora. Outro dia se partirom dali os cavaleiros e andarom tanto que chegarom a u~a abadia u jazia Simeu, o padre de Mois, no fogo na claustra da capela u jouvera já naquela coita dês tempo de Joseph Abarimatia até entom, assi como a estória o há já devisado. Quando os cavaleiros passavam per ante a abadia, saiu u~u~ frade a eles que lhe disse: – Senhores, [sodes] cavaleiros andantes? – Si, disserom eles. Mas porque o preguntades vós? – Porque, disse el, háaqui u~a aventura u muitos homens boos se provarom, mas nunca lhe poderom dar cima. E ora cuidamos que cedo haja cima, ca o boo cavaleiro melhor de todos aqueles que nunca trouxerom armas háde viir aqui por acabála. E nós nom sabemos qual é. E por em rogamos todolos cavaleiros que per aqui passam que entrem aqui, ca de grado o queriamos conhecer e que ante nós desse cima a esta aventura u muitos home~e~s bõõs falecerom. Título Fólio 466153d [Como Galaaz e Esclabor forom aa abadia e como o frade lhes disse que o fogo havia de morrer quando viesse i o bõõ cavaleiro.] – Dom Galaaz, disse Esclabor, vaamos veer esta aventura e eu cuido que Deus vos i fará maior honra que fez aos outros. – Senhor, disse el, vaamos, pois vos ende praz. Entom se forom a[a] abadia Título Fólio 466154a e decerom. E Paramades ficou no curral ca nom ousou entrar na egreja porque nom era cristão. E os outros três entrarom e fezerom sas orações e rogarom a Nosso Senhor que por sa piedade fezesse que esta aventura fosse acabada em sa viinda. E depois que fezerom esta oraçom, sairomse da egreja e entrarom na cova que era sob ela. E quando entrarom pelos degraus, virom o fogo grande e u~u~ dos frades disse a Galaaz: – Senhor, este fogo háde morrer na viinda do boo cavaleiro. – E donde foi este fogo? disse Galaaz. – Desto vos direi eu, disse o frade, o que eu sei. Em este fogo há u~a lágea e sob aquela lágea há u~u~ homem vivo e há nome Simeu; mas nom sei por qual pecado foi posto que nom morresse mas que vivesse em esta coita atáque viesse aqui o boo cavaleiro. – Assaz me dissestes, disse Galaaz. Ora rogo a Nosso Senhor que, se esta coita háde haver cima em tempo do rei aventuroso, que haja cima no dia d’hoje e que este fogo moira e que eu possa saber per qual pecado esta aventura aveo tam maravilhosa. Entom se sinou e entrou na cova e fez sa oraçom a Nosso Senhor que Deus lhe mostrasse ende a verdade. Título Fólio 467154a [Como Galaaz acabou a aventura de Simeu.] Título Fólio 467154b Enquanto el fazia sua oraçom aveo que o fogo morreo e saio ende u~u~ fumo que nom virom rem mentre ele durou. E entom lhe disse u~a voz: – Ai, Galaaz, sergente de Jesu Cristo, verdadeiro cavaleiro e verdadeiramente homem bõõ! Beento seja Deus, que te aqui adusse. Ta santidade e ta verdadeira vida me livrou da gram coita u eu vivi mais de tempo que tu poderias cuidar. E per teu rogo hei o corpo e a alma salva que era perto de seer perdida por meu pecado. – Muito me praz, disse Galaaz, porque és salvo pois prouve ao Salvador do mundo. Mas ora me di a verdade de toda ta fazenda e como te aveo que foste metido em tam gram coita e em tram grande marteiro. E a voz lhe começou entom a contar toda a verdade de Simeu e de Mois, assi como a estória há já devisado. – E como, disse Galaaz, poderia eu achar Mois, teu filho? – Vós o acharedes, disse el, no Paaço Periogoso, na foresta d’Arnantes, ca ali vive ele na gram coita do fogo bem des quando eu. Mas a mercee de Deus sou livre ca, depois da gram coita que houve, achei folgança, ca a minha alma será logo na gram lidice que nunca falecerá. E esto averrá per teu rogo, ca nom per meu merecimento. Título Fólio 467154c Entom se calou a voz e o fumo se partio assi que bem o poderiam veer pela cova. E Galaaz chamou os outros e disselhes: – Vinde e ergamos esta pedra e veremos que há sob ela. E eles decerom juso e el filhou a pedra e ergueoa alto e vio de juso u~u~ corpo tam queimado e tam marteirado de fogo que nom há [h]omem que o visse que nom devesse a haveer dele doo. E o frade disse a Galaaz: – Ora podedes veer o corpo de Simeu que tam longamente sofreo tal marteiro. – Qualquer marteiro, disse Galaaz, que sofresse, muito lhe aveo bem pois que achou mercee de seu erro. Entom tomou a pedra a seu logar e, depois que cobrio o corpo, sairomse da cova el e os outros. Título Fólio 468154c [Como Galaaz se partiu da abadia e Palamedes e Artur o Pequeno outrossi.] As novas forom pela abadia que a aventura de Simeu era acabada e que o fogo era morto. E começarom todos a ir correndo pera lá, se era verdade. E enquanto metiam mentes pera ir para alá, cavalou Galaaz e partiose dali, ca nom queria que lhe dessem honra polo bem que lhe Deus fezera. Paramades, quando ouvio que acabara Galaaz aquela aventura tam maravilhosa, disse a Artur o Pequeno: – Que dizedes vós deste cavaleiro? Nom queredes ainda creer que é o milhor cavaleiro do mundo? – E Artur respondeu: – Certas, eu Título Fólio 468154d creo bem que é o milhor cavaleiro do mundo, pero ainda o nom afirmarei muito, atá que delo saiba mais a verdade. – Ora vos calade, disse Paramades, ca vós o afirmaredes tanto que cheguedes com ele aa hoste de Camaalot. Mas cavalguemos e vamos com el ca, se perdermos sa companha, menos ende valeremos. Título Fólio 469154d [Como acharom Arciel chagado a morte e como o soterrarom.] Entom cavalgarom e foromse pós ele e acalçaromno e andarom de su~u~ atá hora de noa e chegarom a u~a fonte que nacia a pee de u~a árvore que há nome sagramor. E quando i chegarom, acharom u~u~ cavaleiro armado de todas armas fora d’escudo e d’elmo que tinha cabo si; e tinha ainda [a] espada no punho mas era chagado a morte na cabeça e jazia se volvendo com coita de morte. Quando os #IIII cavaleiros esto virorn, decerom por saberem se o poderiam conhecer, ca houverom pavor de seer da Mesa Redonda. E Galaaz chegouse a ele e disselhe: – Senhor cavaleiro, quem sodes E el nom respondeu, ca nom pôde; pero tantas vezes o preguntou Galaaz que lhe disse, assi como pôde: – Eu som u~u~ cavaleiro pecador e mal aventurado e per meu pecado, sem falha, me aveo esta morte. E hei nome Arciel. Som companheiro da Mesa Título Fólio 469155a Redonda e aveome hoje, por minha maa ventura, que eu e meu irmão Sanades achámos u~a donzela. E eu a quis haver e el outrossi. E combatemosnos por em ambos como enmigos e aa cima mateio eu e talheilhe a cabeça e el me fez esta chaga mortal, pero nom cuidei que era chagado a morte quando me del parti. E depois que o matei adusse atá aqui a donzela e, depois que vi que era chagado a morte e que nom podia mais ir, deci a esta fonte e disse aa donzela: “Pois eu matei meu irmão e eu som morto, nom quero que vós vivades nem que outros cavaleiros se matem por vós”. Entom meti mão aa espada e quiselhe talhar a cabeça, mas ela filhou a fugir o mais que pôde e eu fiquei, que nom pude ir após ela. E depois que o cavaleiro disse esto, estendeose com a coita da morte e foi logo morto. E depois que Galaaz o viu morto, filhouo e poseo ante si e levouo a u~a casa d’ordem que i havia preto e fezeo soterrar em sagrado porque era da Mesa Redonda. E fez sobre a campãã escrever como el matara seu irmão Sanades e como er el fora morto. Título Fólio 470155a [Como matarom quatro cavaleiros sansões.] Aquel dia ficarom ali os #IIII cavaleiros por soterrarem Título Fólio 470155b Arciel. Em outro dia colheromse a seu caminho e andarom. tanto que chegarom a seis léguas de Camaalot. E eles iam pelo gram caminho da foresta e iam falando de muitas cousas. Entom lhes aveo que acharom u~u~ cavaleiro de rei Mars que ia per meo da foresta e ia em companhia de #IIII cavaleiros sansões. E eram mui bem armados. Artur o Pequeno esteve, tanto que os viu, e disse aos outros: – Vedes aqui de nossos enmigos que têm rei Artur cercado. Ora a eles! Eles som #V e nós #IIII. Cada u~u~ derribe o seu e eu derribarei os dous. E eles se outorgarom i. Entom lhes derom vozes que se guardassem. E Artur o Pequeno ferio o cavalo das esporas e aguilhou ante os outros e foi dar ao primeiro tal lançada que o meteo morto. E Paramades matou o seu e Esclabor o seu; mas Galaaz nom matou o seu ca se lhe teve tam mal em sela que lhe guareceo per i de morte. E este era o cavaleiro de rei Mars. E depois que cada u~u~ fez seu golpe Artur o Pequeno meteu mão aa espada por teer sa promessa e leixouse ir ao quinto que fugir queria e ferio tam bravamente que lhe deitou a cabeça mais de u~a lança longe do corpo. E quando Paramades viu este golpe, disse a Artur o Pequeno: – Bem tevestes vossa Título Fólio 470155c promessa. E Artur er disse: – Digovos que me prazeria de seer algu~u~ vivo e saberíamos novas dos de fora e dos de dentro. Título Fólio 471155c [Como souberom novas de rei Artur e dos que cercarom Camalot e da rai~a Iseu.] Enquanto esto falavam catou e vio que o cavaleiro de rei Mars que derribara Galaaz que se erguera e queriase colher a seu cavalo por fugir. E tanto que Artur o Pequeno o vio, leixouse ir a ele e disselhe: – Nem alánem podedes guarir. E el, com temor de morte, tirou a espada e deua. E depois disselhe Artur: – Ora me di quem és e como rei Artur se mantém e como os de fora o ham feito pois que cercarem Camaalot. – Esto vos direi eu bem, disse o cavaleiro, mas que me seguredes que nem moira. – Eu te seguro, disse Artur o Pequeno. – Ora vos direi, disse o cavaleiro, o que me demandades. Sabede que eu som cavaleiro de rei Mars e som de sa casa. E rei Mars cercou Camaalot com tam gram poder de Cornualha e de Sansonha que nom pode seer que a nom filhe se a rei Artur nem vem ajuda de outra parte e seer a ajuda tam grande que possa erguer ende a hoste. Rei Artur, sem falha, que jaz dentro encerrado, é mui mal chagado de u~a chaga que lhe fez rei Mars aa primeira vez que se juntarom. – E que fazem os de dentro? Disse Galaaz. Saem algu~a vez fora Título Fólio 471155d por se combaterem com seus inmigos? – Si, disse el, mas nom ameu´de ca som tam poucos contra os de fora que os nom podem sofrer. E por em perdem per i cada que se com eles juntam. E pero sei verdadeiramente que sairam cras de manhãã por se juntarem aos nossos em batalha comprida como quer que lhes ende avenha, ca hoje lhes veo a ajuda rei Carados do Pequeno Braço com gente já que muita. E por esso nos enviarom dizer que a batalha haveriam com nosco e é posta pera de manhãã. – E cuidades vós, disse Galaaz, que os de dentro se possam teer contra os de fora? – Non, disse el, esto nom poderia seer em niu~a guisa ca os de dentro som mui poucos e os de fora som grande gente fera. E Paramades se chegou e er disse: – E de minha senhora a rainha Iseu, sabes tu algu~as novas? – Senhor si, disse ele. Já ora é em Cornualha ca rei Mars a enviou com grande companha de cavaleiros, mais há de u~u~ mês. E quando el ouvio aquelas novas houve tam gram pesar que bem quisera seer morto aquela hora. Ca bem viu entam que nom podia haver cima seu amor se nom fosse u ela era. Título Fólio 472155d [Como se conselharom que fariam pera desbaratar os que cercavam Camalot.] Título Fólio 472156a Muito houve gram pesar Paramades e gram sanha das novas que ouvio daquela que amava mais que si. E Artur er preguntou e disse ao cavaleiro: – Tu és do homem do mundo que eu peor quero e pero nom te quero matar ca to prometi. Mas cavalga e vaite pera u quiseres. E el cavalgou e foise mui ledo pera a hoste, ca muito houvera gram pavor de morte. E contou a rei Mars como os outros eram mortos e como el escapara. E sabede que foi i feito o doo mui grande por eles, ca muito eram ricos e de gram linhagem. Aquela noite albergarom os #IIII cavaleiros em u~a ermida que estava aa saída da foresta contra a cidade. E era aquela ermida tam perto da hoste que nom havia i mea légua. Aquela noite falarom de muitas cousas entre si e conselharomse que fariam pela manhãã. E Galaaz lhes disse: – Eu terria por bem que atendêssemos tanto que os da cidade saíssem fora e que, a batalha começada, ilosíamos a ferir. E, se Deus quisesse que os pudessemos desbaratar, muito seria andança fermosa e muito o deveriamos agradecer a Nosso Senhor e orálo por em. E os outros se outorgarom i. Aquela noite rogou Galaaz muito a Nosso Senhor que posesse conselho aa coita Título Fólio 472156b do regno de Logres. Ca bem entendia que, se rei Mars podesse dar cima ao que começara, que todolos homens bõõs do regno de Logres seriam escarnidos e destruídos, ca bem sabia el que em aquel tempo nom era a Santa Egreja tam honrada nem tam acabada em niu~a terra como na Grande Bretanha, nem em todo o outro mundo nom havia tam boos cavaleiros nem tantos homens boos como i havia. E por esto lhe semelhava que seria grande coisa se tam avezibõõ regno e tam preçado tomasse per algu~a mala ventura a destruimento e a confusom. Título Fólio 473156b [Como os de Camalot eram mal treitos e preto de desbaratados.] Galaaz pensou muito aquela noite em esto e, em outro dia, quando o sol foi levado, armouse e os outros outrossi e forom ouvir missa. Dês i cavalgarom e foromse pelo gram caminho do vale atá que sairom da foresta. E, tanto que forom no chão, virom Camaalot e as tendas e os tendilhões e as choças da hoste. E os de dentro saírom já fora sas azes arrenjadas e eram já juntos com seus imigos mas eram tam poucos que estavam em gram perigo e em grande aventura. E rei Carados, que ia por senhor e por guiador de todolos da cidade, faziao tam bem que nom há homem Título Fólio 473156c que o visse que o nom tevesse por bõõ cavaleiro d’armas. E er havia consigo homens bõõs que o ajudavam bem, mas el havia sem falha tam pouca gente contra seus enmigos que era maravilha como podiam teer campo. E tanto que os #IIII cavaleiros chegarom perto du era a batalha, toparom com u~u~ cavaleiro que se partira dali mui mal chagado. E Artur o Pequeno foi a ele e preguntouo: – Quem és tu? E el houve medo e quis fugir. E Artur o teve pelo freo e disselhe: – Tu és morto se me nom disseres quem és. – Eu som, disse ele, de Camaalot, e recebi tantos golpes e tantas chagas em esta batalha que nom pude já mais sofrer e saíme por ir morrer algur, ca bem sei que som chagado a morte. – E quaes, disse Galaaz, ham o peor? – Esto nom [é] de preguntar, disse o cavaleiro, ca os de dentro som tam poucos que nom podem muito durar. – Ora te podes ir, disse Galaaz, ca assaz nos disseste. E el se foi. E os #IIII cavaleiros se forom aa batalha da parte da cidade e chegarom i a tal sazom que pouco falecia de seerem já desbaratados os da parte de rei Artur. E Galaaz disse aos outros: – Senhores, que vos semelha? – Certas, disse Paramades Título Fólio 473156d , os de rei Artur som mui mal treitos e seram desbaratados se cedo nom ham acorro. – Ora o façamos bem, disse Galaaz, e, se nós nom somos mais de #III, Nosso Senhor se lhe prouver, será o quarto de nossa companha que mais nos valerá que C mil cavaleiros. – Como? disse Paramades, nom somos nós #IIII? – Nom, disse Galaaz, ca vós nom sodes de nossa companha pois nom sodes cristão. – Nom? disse ele. Pois buscade quem vos ajude ca eu som aquele que d’hoje mais nom vos farei fora d’estorva pois me deitastes de vossa companha. E desfiou logo seu padre e Galaaz e Artur o Pequeno e todolos da parte de rei Artur e disse a Galaaz: – Senhor, pouco me preçastes quando me nom quisestes contar por cavaleiro. E assi Deus m’ajude eu ante queria seer morto ca vos nom mostrar em esta batalha se som cavaleiro se nom. E entom se foi pera rei Mars. Título Fólio 474156d [Como Palamedes se partiu e os outros #III forom ferir os de rei Mars.] Assi se partio Paramades de seus companheiros ali u lhes era mais mester. E Galaaz disse aos outros: – Senhores, nós somos poucos, mas por esso nom vos desconfortedes, ca bem crede que nosso Creador nos acorrerá se houvermos nossa Título Fólio 474157a esperança em ele. E Esclabor lhe disse: – Senhor, ideos ferir, ca nós nom vos faleceremos atee morte. E el aguilhou entam e leixouse ir ali u vio a maior pressa dos cavaleiros de rei Mars e ferio o primeiro que meteu el e o cavalo em terra. Dês i aguilhou aos outros e fez tanto daquela lança que tiinha que, ante que lhe quebrasse, derribou ende bem #VII. E Artur o Pequeno o er fez tam bem que niu~u~ nom haveria em que lhe travar. E Esclabor o Desconhecido outrossi e fezerom tanto todos #III daquela primeira ida que os recearom mais de dous mil. E rei Mars, que estava ali, disse aos que com el estavam: – Ora podedes ver #III homens boos e eses som dos cavaleiros da demanda do Santo Graal que aventura adusse aqui. Se eles muito vivem gram dano nos farám. Ora a eles, sem mais tardar! Título Fólio 475157a [Como Palamedes deribou rei Mars e como Galaaz fazia maravilhas.] Quando Esclabor, que mais perto estava de rei Mars, ouvio o que el dizia, leixouse ir a ele e ferio tam bravamente que lhe falsou o escudo e a loriga e lhe meteo a lança pelas costas seestras; e a chaga foi mui alta mas nom mortal. E elrei que era de gram força deu com el mui gram queeda em terra. E quando Paramades viu Título Fólio 475157b seu padre em terra, disse: – Rei Mars, eu te queria servir e tu me deste ende mau galardam e eu te farei outro tal. Entom se volveo contra ele e ferio entre seus homens tam bravamente que o pôs do cavalo em terra; mas outro [m]al nom lhe fez polas armas que eram mui boas fora tanto que foi elrei estorgido da queda. Quando os cavaleiros de rei Mars virom seu senhor em terra nom houve i tal que nom fosse espantado. E entom aguilharom mais de #X a Paramades e mataromlhe o cavalo e chagaramno a el de muitas chagas. E mataromno entom ca se nom podia defender a pee; mas Galaaz, que o preçava muito e sa cavalaria, leixouse correr a todos por livrar a ele e meteu mão aa espada da estranha cinta e [come]çou a dar tam grandes golpes que derribava e fazia dano per u ia, tam fero que nom havia i tam ardido que se nom espantasse das maravilhas que lhe viam fazer. Ca, sem falha, nom alcançava cavaleiro, já tam bem armado nom era, que o nom metesse em terra, ou morto ou chagado a morte ou tolheito, e todos se amooravam dante el dês que o conhecerom u~u~ pouco, ca a de leve nom houve cavaleiro no campo que em pouca d’hora nom visse que fazia as maiores maravilhas d’armas que nunca forom feitas no regno de Logres. E outra Título Fólio 475157c maravilha er havia em Galaaz que dava maior espanto a seus enmigos que ja mais nom estava em u~u~ logar antes o veríades ora ali, ora aqui, ora longe e ora perto, ora a destro, ora a seestro, assi que ia cercando todas as azes tam maravilhosamente que adur lhe podia homem escapar. E, quando os cavaleiros de rei Mars virom esta maravilha e que nom alcançava homem que nom tolhesse nem arma que podesse durar contra sa espada, fezeromse fora aa melhor contença que poderom e nom pensarom se nom de guardar seus corpos ca nom houve i tam ardido que nom houvesse pavor de morte ou de receber toda onta ante que saisse aquel dia. E Artur o Pequeno, quando vio as grandes maravilhas que fazia Galaaz, disse: – Ai, Deus! Que poderei eu dizer deste homem? Nom poderia fazer o que el faz, per boa fé, homem mortal! Verdadeiramente todolos cavaleiros do mundo nom som rem contra este, ca, se todolos do mundo fossem cavaleiros e este dessem contra eles em u~u~ logar, eu cuido que ele os desbarataria todos; ca nom me semelha, pelo que ende vejo, que podesse enlassecer nem cansar de ferir em toda vida de u~u~ homem. Ora haja eu mala ventura se o nom tenho dês hoje mais polo milhor cavaleiro do mundo e de todos aqueles Título Fólio 475157d que nunca trouxerom armas, ca bem vejo que o merece. Título Fólio 476157d [Como os de Sansonha e os de Cornualha forom desbaratados.] Assi dizia Artur o Pequeno, tam espantado das maravilhas que vira que nom podia cuidar que dez os melhores cavaleiros do mundo podessem fazer o que el fazia. E Galaaz, que nom quedava nem cansava, tragia tam mal os de Sansonha e os de Cornualha aa espada talhador que eles bem enten[de]rom que ali nom lhe podiam guarecer. E por em se colherom a sas tendas o mais sesudamente que poderom mas seu siso nom lhes houve entom mester ca, pois os homens de rei Artur virom que se iam assi, leixaromse ir a eles e tendas nem tendilhões nem al nom nos poderom guarecer. Entom se começou a morte tam grande que forom ali mais de #X mil mortos sem os tolheitos e os chagados que nom podiam haver conto. Ca, sem falha, muito era grande o poboo que sobre a cidade jazia. Em tal guisa forom desbaratados e mortos ricos homens e cavaleiros e gente de Sansonha e de Cornualha. E rei Carados disse aos seus: – Catade como vos nom escape ende niu~u~ por aver nem por al que os todos nom matedes. E eles fezerom bem seu mandado ca, assi como cada u~u~ alcançava Título Fólio 476158a o seu, assi lhe talhava a cabeça que o nom leixaria por seu peso d’ouro. E todolos matarom sem falha se nom fosse a foresta que era perto em que se meterom os que ende escaparom. Título Fólio 477158a [Como rei Carados foi pós Galaaz por o tornar e ele nom tornou.] Que vos direi? O desbarato foi tam grande e a morte que nunca no regno de Logres houve ante maior. Ca, sem falha, mais i morrerom aquel dia de #XXX mil. E rei Mars fugio e Aldret com ele. E houverom gram pavor de morte e meteromse na foresta onde a virom mais espessa e assi escaparom. E Galaaz, quando viu que os de Cornualha e os de Sansonha eram mortos e desbaratados e vio que nom havia de que se temer a cidade, foise quanto se pôde ir. E nom contra a cidade mais contra a foresta da outra parte e nom per u fora o encalço. E rei Carados, que bem vira aquele dia as maravilhas d’armas que el fezera e bem entendia que per el forom seus enmigos desbaratados, quando o vio assi ir, foi após ele por o tornar a elrei se podesse ou ao menos por saber seu nome polo dizer aos altos homens de Logres. E tanto que o alcançou aa entrada da foresta, salvouo e disselhe: – Ai, Senhor cavaleiro! Por Deus, nom vos pês do que vos direi. – Senhor Título Fólio 477158b , disse el, nom me pesará. Dizede o que quiserdes. E el bem conhecia que era rei Carados. – Senhor, disse rei Carados, vós fazedes gram mal e gram pecado que assi vos partides de nós sem falardes com meu senhor rei Artur. Por Deus, quando el souber esto que vós por el fezestes e vos partides daqui e o nom queredes veer, haverá ende tam gram pesar que eu nom sei quem o possa confortar. E por em vos rogo, por Deus e pola cortesia que em vós deve haver, que vos tornedes com nosco a Camaalot por veer a rei Artur, que é o milhor homem do mundo, esto sabedes vós bem. E certas, se o nom fazedes, vós faredes gram vilania sobejo. – Ai, Senhor, mercee! disse Galaaz. Sabede que eu nom tornaria em niu~a guisa. E rogovos que vos nom pês, ca hei tam muito de fazer alhur, onde hei tam gram coita d’ir, que me nom deterria alhur em niu~a guisa. – Certas, disse rei Carados, de vos irdes me pesa e outrossi pesará a rei Artur quando o souber. E pero, pois que nom queredes ficar por meu rogo, rogovos que me digades vosso nome. – Senhor? disse ele, eu volo direi. Sabede que eu hei nome Galaaz. – Como? disse rei Carados, vós sodes o que destes cima a aventura da seeda perigosa? – Senhor si, disse ele. – Per boa fé, disse elrei Carados, vós houvestes o mais fremoso começo de cavalaria que nunca houve cavaleiro, Título Fólio 477158c e vós bem vos mantendes no que começastes. Semelhame que o linhagem de rei Bam, u háos melhores cavaleiros do mundo, nom se avilará per vós. Ora vos ide, pois vos ir queredes, e Nosso Senhor vos guie e vos dê poder de acabardes as aventuras de Logres assi como nós cuidamos que havedes de fazer. E el respondeo: – Deus faça i seu prazer. Título Fólio 478158c [Como rei Artur preguntava por Galaaz e lhe pesava porque o nom vira.] Depós esto, partiromse ambos. Galaaz se foi aa foresta u a viu mais espessa ca nom queria que niu~u~ fosse após ele que lhe companha fezesse, ca el queria dês ali fazer sas cavalarias tam encubertamente que niu~u~ nom lhe soubesse ende rem, se nom o meos que seer podesse. E rei Carados tornou a sua companha que fezeram tam gram gaanho do haver de rei Mars e dos Sansões per que forom ricos em toda sa vida e a cidade ficou ende mais rica por longo tempo. As novas forom a rei Artur ali u jazia chagado que os de fora eram desbaratados assi que poucos ende ficarom vivos. E rei Artur, que foi mui ledo destas novas, preguntou: – Ai, Deus! Esto como poderia seer, pois os nossos eram poucos contra os seus? – Par Deus, disserom os que lhe as novas diziam, u~u~ soo cavaleiro os desbaratou Título Fólio 478158d todos. E bem sabede que nunca no reino de Logres houve tam boo cavaleiro ca per sua mão soomente houve que de mortos que de chagados mais de #VII centos. E elrei se sinou da maravilha que ende ouvio e disse: – Bento seja Deus que nos tal mercee fez. Verdadeiramente este reino é chamado per dereito reino aventuroso, ca tam grandes aventuras nem tam grandes maravilhas nom avêm alhur como aqui. E esta aventura per que nos Deus acorreo e guardou d’onta e de perigo de morte lhe deveríamos nós agradecer muito em todolos dias de nossa vida. Entom preguntou quem fora o cavaleiro que aquelas maravilhas fezera. E eles disserom: – Nós o leixámos no campo e cuidamos que volo aduga rei Carados. – Ai! disse elrei, e nom vem cá? E eles em esto falando entrou elrei Carados mui ledo da boa andança que houvera. E, tanto que el-rei o vio, preguntoulhe: – U é o bõõ cavaleiro? – Senhor, disse el, assi Deus m’ajude, nom quis ficar por rogo que lhe eu fezesse, ante se partio de nós tanto que a batalha foi acabada. E fui após ele polo tornar e nunca podi, ca dizia que havia gram coita de ir alhur. – Ora me dizede, disse elrei. Sabedes como ha nome? – Senhor, si, disse ele. Ele é Galaaz, o bõõ cavaleiro que deu cima a aventura da seda perigosa. – Par Deus, disse rei Artur, ora Título Fólio 478159a o creo bem: aquele [é] o cavaleiro que há a seer o milhor dos milhores; mas muito me pesa que o nom vi, polo preguntar por Lançarot e polos outros cavaleiros da linhagem de rei Bam. Mais ora me dezede: rei Mars é morto ou preso? – Senhor, disse el, nom, ca fugiu da batalha. – Muito me pesa, disse el-rei, ante eu el quisera que todolos outros, ca fezera del tam gram justiça qual deve a seer feita de traedor. Muito houve rei Artur gram pesar do que rei Mars assi escapou. Da outra parte era mui ledo do gram bem que lhe Deus fezera. E começou entom per Camaalot a festa tam grande e a lidice, como se Jesu Cristo decesse entre eles. E el-rei ar preguntou: – Veeo Galaaz soo ou com outrem? – Senhor, disserom eles, #III cavaleiros veerom com ele que foram muito bõõs a maravilha. – E pera u forom? disse elrei. – Senhor, disse Carados, aqueles vos darei eu cedo, ca eu os dusse aqui assi como per força, e fizeos levar a mi~a pousada por se desarmarem e serám ora aqui. – Muito me praz, disse elrei, ca agora haveremos novas dos cavaleiros da demanda. – Em esto aque os #III cavaleiros entrarom mui ricamente vistidos. E quando elrei viu seu filho, conhocêo e disselhi: – Artur, vós sejades o bem vindo. E Artur ficou os geolhos ante elrei e beijoulhi o pé. E elrei recebeu os outros mui bem. Dês i assentaromse preto del. el-rei, que bem conocia Esclabor o Desconoçudo, disselhi que bem fosse vindo e prouguelhi muito com ele e disselhi que lhe pesava muito da perda de seus filhos. – Senhor, disse el, assi prougue a Nosso Senhor, mas todavia aa sa mercee, com todo aquel gram dano que eu recebi mi ficou u~u~ tal filho unde mi ten[h]o por mui pagado e que me conforta muito, ca per seu prez d[e] armas e per sa bõa cavalaria é loado e rezado per muitas terras, mercee ende haja Deus. E elrei lhe preguntou u era. – Senhor, disse el, vêdelo aqui. E elrei catou Paramades e vi[u]o tam bem feito e tam aposto que a maravilha lhi semelhou homem bõõ e preguntoulhi como havia nome. E el lho disse. – Ai, Paramades! disse elrei, muito vos oí loar por mui bõõ cavaleiro, e eu vos prezo de cavalaria sobre todos aqueles que em Deus Título Fólio 478159b nom creem. Nom [há] em vós niu~a rem em que vos homem possa travar, fora em que nom sodes cristão. E, por Deus e por salvamento de vós e por meu amor, recebede baptismo. E el respondeu: – Senhor, nom vim cá por esso, nem esso nom faria eu em nem u~a guisa aa vontade que ora tenho; mas bem sabede que, se o houvesse a fazer por rogo de homem, que o faria por vós, ca vós sodes o homem do mundo por que homem mais devia fazer. Elrei lhi disse outra vez: – Fazede o que vos digo e rogo e darvosei esta cidade de Camaalot, que é cidade do mundo que mais amo. – Ai, Senhor! Disse Paramades, por Deus, nom me roguedes em, ca nom há rem por que o ora fezesse, ca xi me nom outorga i meu coraçom. Elrei nom lhi falou i mais quando viu que lhi nom prazia. Dê i, começouos a preguntar por novas dos da Mesa Redonda e eles lhi em disserom o que em sabiam. E elrei perguntou a rei Carados e os outros que em batalha foram como o fecera i Artur o Pequeno. E eles disserom que nunca virom homem que o tam bem fezesse que tam pouco houvesse que fosse cavaleiro. E elrei foi mui ledo destas novas e disse: – Artur, pensade de seer bõõ, ca vós nom podedes falecer em coroa de u~u~ rico regno, se eu vejo que seráem vós bem empregado. E Artur lho gradeceu muito. Título Fólio 479159b [Como fezerom gram festa em Camalot.] Aquel dia fezerom gram lidiça e gram festa em Camalot e el-rei se foi pera o paço por fazer honra aos homens bõõs que ena batalha foram. Muito preguntou aquel dia elrei e a rai~a por Lançarot, mais eles nom lhis souberom em dizer rem. #VI dias foram os #III cavaleiros em Camalot e pois partiromse em. Muito foi i rogado Paramades e de muitos que fosse cristão, mais nom quis, ante se colheu a carreira e disse que, dês ora, ar queria começar a demanda da Bescha Ladrador e que ja mais nom na leixaria se por morte nom ou per companha onde se pagasse, atá que lhi desse cima. Entom se partiu de seu padre e d[e] Artur o Pequeno por entrar soo em sa demanda, assi como soía. Mais ora leixa o conto a falar deles e torna a Galaaz. Título Fólio 480159c Como Galaaz chegou a u~a casa de ordem de frades brancos. Ora diz o conto que pois Galaa[z] se partiu de rei Carados andou todo aquel dia. Ao serão chegou a u~a casa de ordem de frades branco[s] que estava em u~u~ vale. Tanto que chegou i, os frades receberomno mui bem e pensarom dele como de cavaleiro andante. Pois preguntarom~lhi donde vi~ia. E el disse que vi~ia de Camalot. – E, por Deus, disserom eles, rei Artur pôdese te~er contra seus enmiigos? – Desto vos direi eu, disse Galaa[z], quanto eu sei. Sabede que rei Mars e toda sa companha som desbaratados. E a cidade é já descercada e nom cuido que nunca homem tam gram mortindade viu de cavaleiros em u~u~ dia no reino de Logres como hoje foi em Camalot. E cedo em podedes saber a verdade per outrem e as bõa[s] novas de tam boa anda[n]ça que hoje deu Deus em esta terra. Título Fólio 481159c [Como Faram o Negro chegou a abadia.] Quando eles ouvirom estas novas tenderom sas mãos contra o céu e benzerom Deus de que fezera tam gram mercee ao reino de Logres e perguntavam porque cuidavam que eram desbaratados. – Senhor, donde sodes vós? Se sodes da companha de rei Mars, ide-vos daqui. – Certas, disse ele, da companha de rei Mars nom som eu, ante lhi fiz mais d’estorva ca ajuda. E digovos que eu som cavaleiro andante e som da Mesa Redonda. – Ora, disserom eles, podedes aqui mandar como em casa de rei Artur ca be[m] sabê que vos faremos todo aquel serviço que nós podermos e que nos mandardes. E Galaa[z] lho agradeceu muito. Assi ficou Galaaz com aqueles frades e, a cabo de u~u~ pouco, chegou u~u~cavaleiro da Mesa Redonda a[a] abadia, que havia nome Farom o Negro. E era de linhagem de rei Lac e era mui bõõ cavaleiro e mui bõõ homem e iase a Camalot por a vida rei Artur. Título Fólio 482159c [Como Faram preguntou a Galaaz seu nome e nom no pôde saber.] Quando os frades souberom que era cavaleiro andante e que era da Mesa Redonda, disseromlhi as novas que lhis Galaa[z] dissera. Ele foi muito ledo e disselhes: – Quem vos disse estas novas tam boas? – Verdade é, dissero[m] eles, e ainda aqui é o cavaleiro que foi na batalha u rei Mars foi desbaratado com toda sa companha. – Ai, disse el, por Deus, mostrademo, ca, se el é da casa de rei Artur, eu o conhecerei mui bem. Entom o levarom a u~a câmara u jazia Galaa[z] Título Fólio 482159d mui cansado de grande afam que aquel dia houvera. E quando foram dentro erguêse Galaaz a ele, ca bem conoceu que era cavaleiro, e assentouo a cabo de si. – Senhor, por Deus, disse Faram, dizedeme se fostes no desbarato de rei Mars. – Si, disse el, eu o vi hoje em este dia desbaratar el e toda sua companha e sabede que os de rei Artur ganharom i mui gram requeza. – E rei Mars, disse Faram, foi morto? – Certas, nom sei, disse Galaa[z], ca nom quise i estar pois vi que todos eram desbaratados nem no ar preguntei. – E quem sodes vós? disse Faram. – Eu som, disse el, u~u~ cavaleiro andante da casa de rei Artur, mas meu nome nom podês ora saber. E F[a]ram se leixou ende, mas todavia teenha mentes em ele, que lhi semelhava que o vira algu~a vez. Mas nom podia nembrar quando nem u, nem Galaa[z] nom lhi preguntou rem de sa fazenda por lhi nom preguntar el da sua. Título Fólio 483159d [Como chegou i rei Mars com #X cavaleiros de Cornualha.] Falando eles em esto e em outras cousas muitas, chegou i rei Mars. E tragia consigo #X cavaleiros dos de Cornualha que escaparom do desbarato chagados e mal trai[t]os e acalçarom na foresta e vi~iam com el polo gardarem o mais que podessem, se pola ventura alguém o quisesse cometer. Quando rei Mars deceo i, os frades começaram a preguntar os que com el andavam: – Senhores, donde sodes vós? E eles, que houverom pavor de seerem conhecidos, disserom: – Nós somos do reino de Logres e vi~imos de Camalot. – E que novas, disseram eles, nos tragedes? É verdade que rei Mars é desbaratado? – Si, disserom eles, verdadeiramente o sabedes. – Bem sejades vós viindos, disserom os frades. Beentas sejam esta[s] novas. E fezeromno decer e levaromno a u~a câmara polo desarmarem e pensaromlhi das chagas. Dis i levaramnos a outra câmara, nom aquela u os outros #II siiam. Ca tam toste que ouvirom dizer que i havia cavaleiros da casa de rei Artur, houverom pavor de secrem conocidos e por em se afastarom fora da sa companha o mais que poderom. Quando começou a anoitecer, aveo que rei Mars passou per ante a câmara u Galaa[z] Título Fólio 483160a jazia e teve mentes dentro [e] viu o escudo de Galaaz pendurado em u~u~ esteo; e tanto que o viu, conoceu que aquel era o escudo que fora mui dultado aquel dia e mostrouo a seus cavaleiros e disselhis: – Conocedes vós aquel escudo? – Si, disseram eles tanto que o virom; verdadeiramente o conhocemos bem. Maldito seja o cavaleiro que o traje, ca ele soo nos destruíu e confundeo hoje. – Ora me dizede, disse elrei, que podemos i fazer, ca nom há rem do mundo que de milhor mente fezesse ca matálo, ca todo o mundo nunca me fez tanto mal como el soo. E bem sei que é u~u~ daqueles ambos, mais nom sei qual. – Senhor, disserom eles, nom vos podedes em nunca tam bem vinga[r] como ora. Ca, se nós filharmos nossas armas e formos a eles mentre som desarmados, matálosemos. – Nom assi, disse elrei, eu me vingarei em outra guisa tanto que soubéssemos qual é. Ora ide u~u~ de vós preguntar qual é o que trage o escudo branco da cruz vermelha. E u~u~ entrou logo na câmara e preguntouos e Galaa[z] respondeu: – Senhor cavaleiro, eu o trouxe atá aqui; mas porque o preguntades vós? – Senhor, disse, por vos conhocer; ca, se Deus me ajude, folgo de conocer homem tal como vós. Sempre per i mais valera ca, sem falha, vós sodes o melhor cavaleiro do mundo. E Galaa[z] houve mui gram vergonha quando viu que o louvava muito e calouse e nom lhe falou rem; e o cavaleiro tornouse a seu senhor e disselhi o que apresara. – Ora vos calade, disse rei Mars; eu me vingarei ca o farei morrer maa morte; mais a vingança nom será tam grande como el mereceu ca el confundiu mim e [t]antos homens bõõs que, se C cavaleiros taes como ele fossem por em mortos, nom seriam vingança. Assi o disse rei Mars e assi o cuidou a fazer. E o conto diz em qual guisa el cuidou a fazer sa vingança e direivos como. Título Fólio 484160a [Como rei Mars disse a Galaaz que tragia u~a meezinha.] Galaaz era chagado de muitas feridas grandes e pequenas, mas nem u~a nom era mortal; e Faram ar era chagado Título Fólio 484160b de u~a batalha em que fora. E por em veo rei Mars a eles e disse a Galaa[z]: – Senhor, vós sodes mal chagado? – Nom som, disse el, mercee a Deus, ca nom hei mal por que leixe a fazer mi~a jornada. – Eu por vosso bem o digo, disse rei Mars, e porque vos averrá bem de mi~a vinda, ca eu trago u~a meezinha tal que nom há homem no mundo tam mal chagado, a tanto nom seja de morte, que, se a bever, que nom seja são em #II dias. Desta vos darei eu ante que me de vós parta e a vosso companheiro outrossi por amor de vós, ca tanto vos oí loar por bõõ cavaleiro que eu seeria o mais deslea[l] homem do mundo se vossa sau´de nom quisesse. E Galaaz, que bem cuidou que lho dizia por sa [prol], gradecêlho muito. Título Fólio 485160b [Como rei Mars deu a bever peçonha a Galaaz e a Faram o Negro.] Assi fez rei Mars creer a Galaa[z], mais al tinha no coraçom, ca aquel bever que lhi el queria dar era peçonha tam forte que nom há no mundo homem que a bevesse que nom fosse logo morto. E sabede que la adussera ao reino de Logres por matar com ela seu sobrinho Tristam, ca nom podia al veer per que o podesse matar, ca Tristam era sobejamente boo cavaleiro e dultado de todos, e nom havia homem no mundo cuja morte desejasse rei Mars tanto como a de Tristam. E jáo fezera buscar a seus homens per todo o reino de Logres por lhe dar aquelo a bever, mais nom no poderam achar, porque jazia ainda mal treito das chagas que recebera o dia que Paramades e Galaa[z] o livrarom. Que vos direi? Quando se deitarom filhou rei Mars e pezonha que tragia para seu sobrinho Tristam e deua a bever a Galaa[z] e a Faram o Negro. E, pois esto houve feito, tornouse a seus homens ledo e com mui gram prazer, ca bem se teve por vingado. Mas nom aveo assi como el coidava, ca nom prougue a Nosso Senhor. Ante ende aveo u~a tam fremosa maravilha com’eu vos direi e como a estória verdadeira o divisa. Título Fólio 486160b [Como Faram foi morto e Galaaz escapou per sua bõa vida.] Galaa[z], u~u~ pouco depois que se deitou e que houve feitas sas prezes e sas orações, dormeceu e, jazendo dormindo, veo a ele u~u~ homem tam grande e tam fremoso que maravilha e disselhi: – Galaa[z], filho da Santa Eigreja, verdadeiro cavaleiro de Jesu Cristo, porque tu serves tam lealmente aquel que te f[ez] Título Fólio 486160c milhor cavaleiro e di milhor donairo ca outro que homem sábia, ti aveo tam bem que, u todo outro homem receberia morte, escapaste tu. E el lhi preguntou: – Senhor, como pode esto seer? – Eu to direi, disse el. Sabe que rei Mars te deu aa noite mortal peçonha e aparecerá em teu companheiro mais nom em ti, ca tu o acharás morto porque jazia em pecado mortal e tu escaparás porque o gram Mestre te achou em boa vida. Esto disse o homem bõõ a Galaaz u jazia dormindo: mas nom espertou por em, ante dormiu até a luz. Entom se espertou e comendouse a Jesu Cristo e assinouse e ergueose e fez sas orações e sas prezes. Dis i fôse a Faram por veer se era verdade o que ouvira em sonhos e quiseo espertar; mas esto nom pôde seer, ca era morto já gram peça havia. E disse com gram pesar: – Ai Deus, camanha traiçom e camanha aleivosia esta foi! Ai, rei Mars, quantas maas obras hás começadas! Entom foi a sas armas e armouse soo o melhor que pôde. Dês i abriu as portas e viu que era já gram dia. E tornou a Faram e achouo amarelo e negro e tam inchado que era maravilha. E disse: – Ai, Deus, como há feito gram mal quem tal morte vos fez morrer! Entom foi aa câmara de rei Mars e achou que se levara já el e seus cavaleiros e que se queriam armar. E Galaaz, que nom conhecia rei Mars, disselhes: – Qual de vós é rei Mars? Dezedeme toste, ou todos sodes mortos. Eles, que bem conheciam que aquel era o bõõ cavaleiro, houveram pavor de morte, ca bem sabiam ca [x]i lhi nom podiriam defender e disserom, porque nom queriam morte de seu senhor: – Ai, Senhor, mercee! Nós nom sabemos rem de rei Mars. Sabede que nom é antre nós. – Esto nom há mester, disse ele; a dezer vos convém ou todos sodes mortos. Entom feriu ende u~u~ da espada travessa de tam gram ferida que o fez caer em terra atam estrogido que bem cuidou a seer morto. E Galaaz lhis ar disse outra vez: – Dezedeme toste qua[l] de vós é rei Mars [ou] todos sodes mortos. Título Fólio 487160c [Como rei Mers pedia mercee a Galaaz.] Título Fólio 487160d Pois u~u~ deles, que nom amava rei Mars, viu este golpe, houve pavor de morrer e respondeu: – Senhor, guardarm’edes vós, se vos disser qual é? – Certas, disse Galaaz, si. E el lho mostrou logo. E Galaaz se foi logo a el, a espada nua na mão. Dis i, disselhi: – Rei Mars, cavaleiro traedor e aleivoso, que ti fez aquel cavaleiro por que o mataste, e mim ar cuidaste matar pola peçonha que nos a[a] noite deste? Tu és morto, que al, fora Deus, nom te pode guarecer se te nom aconheceres ante estes teus cavaleiros e ante estes frades na traiçom que fezeste. Entom ergueo a espada e fez sembrante que lhe quer[i]a talhar a cabeça. E rei Mars, que verdadeiramente coidou seer morto, ficou os geolhos ante el e juntou as mãos contra el e disselhe: – Ai bõõ cavaleiro, mercee! Nom me mates! Eu te prometo que mim nom saberás rem dizer que eu nom faça por haver teu amor e por te correger o error que fiz contra ti. – Certas, disse Galaaz, esto nom há mester; a dizer te convém, mau teu grado, a deslealdade que fezeste. E, pois, se achar em meu conselho de te leixar, leixarteei; ou, se nam, fareite morrer morte maa e desonrada e darteei o galardom da tua grande aleive. E, quando rei Mars viu que lhe convinha a dezer, disse: – Ai, bõõ cavaleiro, mercee! Eu me meto em teu poder. Ora faze de mim o que quiseres, ca eu farei quanto tu mandares. Entom enviou Galaaz polos frades; e pois que foram i todos ajuntados, disselhis: – Senhores, vedes aqui rei Mars que vós aqui albergastes e nom no sabíades; e sabê que el fez esta noite gram traiçom de u~u~ cavaleiro da Mesa Redonda que matou, e mim quisera matar e eu quero que vos diga como. E pois, se achar em meu coraçom que o mate, matáloei; e se nom, leixáloei. E quando os frades esto ouvirom, maravilharomse, ca nom cuidavam que tal homem como rei Mars matasse nem u~u~ homem aa traiçom. Título Fólio 488160d [Como rei Mars disse a Galaaz todo e como Galaaz o quitou.] Título Fólio 488161a Entom disse Galaaz: – Rei Mars, dizede ora todo como foi e nom mentades em rem, ca bem sabede ca, se mentirdes, eu vos matarei logo. E el com pavor de morte começou dizer todo como lhi aveera. – E nunca vi, disse el, cousa unde mi tanto maravilhasse como de que nom morrestes vós com o vosso companheiro, ca nom cuidava que rem do mundo em podesse escapar. E pois houve todo dito assi como o conto já devisou, Galaaz respondeo: Eu nunca matei homem a meu grado, mas pero nunca vi nem cuido que homem visse outro que tam bem merecesse morte. E nom te matarei nem te ar leixarei por doo nem por amor que de ti haja. Mas leixarteei por amor daquele que em este perigoo e em outros muitos me gardou aa sa mercee. Mas por t[e] eu leixar ir, nom esquecerá este preito a Nosso Senhor, ante te daráo galardom em guisa que te confund[i]rá com aqueles que de fazer traiçom se trabalham. Ora te podes ir quando quiseres tu e teus homens. Ca eu nom catarei aa tua traiçom mas a que nom devo meter mão em rei fora por minha vida defender ou por meu senhor terreal, ca pero tu desleal és, nom fica por em que nom sejas rei e esto é gram vergonça de to[do]los reis de mundo. Título Fólio 489161a [Como Galaaz fez soterrar Faram e como se partiu e achou o escudeiro que o queria servir.] Quando elrei ouviu estas novas, foi tam ledo que maravilha e filhou sas armas e armouse e outrossi fezerom todolos outros. E, pois cavalgarom, partiromse dali mui ledos e com mui gram prazer de que escaparom tam bem. E pois sairom dali entrarom na foresta u a virom mais espessa, ca muito haviam gram pavor de toparem com alguém que lhis fezesse mal. E Galaaz, ficou entre os homens bõõs, sanhudo e com gram pesar da morte de Foram, mal dizendo rei Mars e tod[a] sa companha. E disse que Deus lhe desse cedo o galardom da sa deslealdade. E fez soterrar ali Foram o mais honradamente que pôde e fez sobola campãã fazer leteras que diziam como rei Mars o matara. E sabede que os frades teverom esto por tamanho milagre que [a] abadia, que havia entom nome abadia de Uter Pandragom porque Uter Pandragom a fezera, houve entom seu nome cambiado, ca dês entom houve Título Fólio 489161b nome a Maravilha de Galaaz e ainda assi é chamada e será mentre Deus i for orado. Todo aquele dia foi ali Galaaz e em outro dia foise em e entrou no gram caminho da foresta por ouvir algu~as novas de Camalot dos que per i veessem. Aquel dia cavalgou sem aventura achar que de contar seja. A hora de meodia, quando fazia já a sesta mui grande, lhi aveo que u~u~escudeiro o acalçou. E salvouo e Galaaz ar salvouo el. – Senhor, disse o escudeiro, a caentura faz grande e vós andades carregado d’armas. Eu vos rogo que prendades de mim serviço, que me dedes vosso escudo e vossa lança e vosso cimo e levarvoloei, e assi poderedes ir milhor. E el lho outorgou porque o cuitava jámuito a sesta. Título Fólio 490161b [Como virom vi~ir Guerres e Agravaim e Mordret e como Galaaz nom quis justar.] Entom lhe deu seu elmo e seu escudo e sa lança e foram falando de muitas cousas. E Galaaz lhi preguntou unde era. – Senhor, disse el, eu som de Gauna e fui filho de Froilha, u~u~ príincipe de Lamanha que ti~ia Gaula da parte dos Romãos e matou rei Artur ante a cidade de Paris, quando o i cercou. Entom naci eu e foi em aquela terra atá ora; e em outro dia por P[a]sca houve sabor de vi~ir acá porque esta terra é mais nomeada de cavalaria ca outra, e pensei que serviria aqui algu~u~ homem bõõ que me fezesse cavaleiro. E pero tam alta ordem como cavalaria nom na queria filhar se nam per mão de homem bõõ. E Galaaz se calou entom. Aquele dia cavalgarom ambos atá hora de vésperas. Entom chagarom ambos a u~u~ castelo que estava em u~u~ chão mui fremoso e mui rico. Galaaz laçara já seu elmo, porque já quanto se partira a sesta. E eles, que chegarom já i, virom da outra parte vi~ir #III cavaleiros que aquela noite queriam i albergar. E sabede que eram #III irmãos de Galvam: Guerrees e Agravaim e Mordre[t]. O escudeiro, tanto que os viu, disse a Galaaz: – Senhor, sabede que três cavaleiros veem aqui bõõs. – E tu que sabes em? disse Galaaz. – Senhor, disse el, eu o sei bem ca som irmão[s] de Galvam. E nomeoulhe quaes. – Bem cuido que som bõõs, disse Galaaz. Eles nesto falando, Agravaim, que era muito argulhoso e mui desden[h]oso, deulhe vozes: – Guardadevos de mim, senhor cavaleiro! A justar vos convém. – Senhor, disse o escudeiro a Galaaz, guardadevos deste cavaleiro e filhade vosso escudo e vossa lança e defendedevos. Título Fólio 490161c E el respondeu: – Nom praza a Deus que eu filhe armas contra el. – Como? disse o escudeiro, nom haveredes ardimento de defender vosso corpo? – Nom, disse el, contra aquele. – Ora haja eu mala ventura, disse o escudeiro, se nunca oí falar de tanto covardo homem. Mal defenderídes mim, se mester me fosse, quando vós meesmo nom queredes vos defender; e, pola gram maldade que eu vos vejo, nom vos quero eu mais fazer serviço e, de canto atá [a]qui fiz, me acho mal. Pero nom é escudeiro desonrado de servir cavaleiro atá que veja sa maldade. Entom deitou em terra o escudo e a lança que ti~ia e disse com gram sanha: – Dom cavaleiro, ora vos servide como poderdes ca, si Deus me ajude, já mais tam mau cavaleiro nom servirei. – Entom aguisou e partise dali dele e deu vozes a [A]gravaim: – Senhor cavaleiro, tornadevos e nom dedes rem por cometer este mau cavaleiro, ca se conheceo ca vos nom ousaria atender a justa. E Agravaim esteve e disse: – Pois que el leixa a justar por covardice eu nom no cometerei em nem u~a guisa. Entom se tornou e disse a seus irmãos o que lhi aveera; e eles se rerom antre si e disserom: – Atendamolo e saberemos quem é. Entom esteverom e atenderom atá que chegou Galaaz a eles. E salvouos e eles ele, e perguntaromno u queria albergar. – Eneste castelo, disse el, se achar quem me albergue; e pola manhãã filharei meu caminho. E o escudeiro lhi disse: – Certas, senhor cavaleiro, pobremente andades, pois havedes a trager vosso escudo e vossa lança. Nom fazem assi os que muito bõõs som. E el respondeu: – Nom é cavaleiro andante o que de grado nom anda sem companha. E Guerrees, que era mui cortês, disse a seus irmãos: – Vaamos de su~u~ e nom nos riamos deste cavaleiro, ca per ventura milhor homem é ca nós temos. Título Fólio 491161c [Como virom sair #IIII cavaleiros e derribarom em três e Galaaz nom justou.] Entom chegarom aa antrada do castelo e, u quiserom entrar, virom de dentro sair #IIII cavaleiros armados que lhis disserom: – Cavaleiros, a justar vos convém, se aqui queredes albergar. E Guerrees, quando esto ouviu, foi ferir ende u~u~ e metêo em terra; e Agravaim. o seu e Mordre[t] o terceiro, e forom tam mal achagados que se nom poderom erguer. E quando Galaaz viu esto, cuidou que eram mortos e houve em gram pesar e houve dulta que, se fosse ferir o quarto, que o matasse. E por em lhe disse: – Senhor cavaleiro, vós vedes bem como vai a vossos companheiros e, se fezerdes como sisudo, leixaredes a justa. E aquele que era mui bõõ cavaleiro Título Fólio 491161d respondeo: – Eu a justar quero; mas, pero o hei de coraçom, se vós quiserdes, leixarei a justa. – Quero, disse Galaaz, ca eu cuido que desta justa nom verrá bem a mim nem a vós. E o cavaleiro leixou a lança e começou a soreir, ca bem cuidou que leixava a justa por covardece. E entom começarom a escarnecer e a rei[r]se dele os #III irmãos e disserom que, sem falha, aquele era o mais covardo e o peor cavaleiro que nunca veer cuidavam. E entom entrarom no castelo e a[a] entrada forom perguntados por seus nomes. E ele[s] se houverom de nomear. E quando Mordre[t] oíu que aquele que ia com eles havia nome Galaaz, assinouse da maravilha que ende houve e disse a seus irmãos: – Que faremos? O mui bõõ cavaleiro que deve a dar cima aas aventuras do regno de Logres há nome Galaaz e trage tal escudo como este e pode seer que é este. – Nom, disse [A]gravaim, verdadeiramente crede que nom é este, ca muitos cavaleiros ham nome Galaaz e muitos tragem armas de u~u~s sinaes. E os outros se outorgarom i com el. Assi falando se forom por meo do castelo tá que chegarom a maor forteleza e decerom i. E sabede que forom i mui bem recibidos os #III irmãos, quando souberom de qual linhagem eram. Mas Galaaz foi pouco honrado e pouco servido e nom houve i tal que o muito nom desprezasse e que nom cuidasse que leixara a justa por covardice; e pero, tanto que o virom desarmado e virom como era feito e como era fremoso disserom que fezera Deus gram pecado que em tam fremoso corpo metera tam gram covardice e que mais devera seer chamado o Fremoso mais ca seer chamado Galaaz. E Agravaim disse: – Se há nome Galaaz nom vos maravilhees em, ca, u muitas cousas som de u~a guisa, nom pode seer que ende algu~a nom seja maa; e muitos cavaleiros há polo mundo que som chamados Galaaz e há i de bõõs e de maus. E bem assi como o mui bõõ Galaaz que háde dar cima aas aventuras do reino de Logres é o milhor cavaleiro de todolos que ham nome Galaaz, assi este Galaaz é o peor e o mais covardo de quantos ham nome Galaaz. Título Fólio 492161d [Como u~a donzela dizia mal de Galaaz.] Título Fólio 492162a Em esta palavra se riirom todos fora Galaaz que os teve em por aulos e por envejosos. E disserom que muito dissera bem Agravaim. Aquele serão, depois que se assentarom a comer, parouse u~a donzela ante Galaaz e começouo a catar. E, pois o catou muito, disselhe: – Ai, cavaleiro! quam muito te devera pesar que és tam fremoso e tam mau. Maldita seja a beldade que em tam mau corpo como o teu se foi meter. E ele começou a sorriir já quanto san[h]udo e disse: – Donzela, nom me semelha que vós havedes bõa razom desto dizer, ca vós nunca ainda vestes em mim cousa per que me devades tam mal trager. – Certas, disse ela, verdade é, mas quantos aqui som dizem tanto mal de vós que me nom posso eu sofrer que volo nom diga. – Donzela, disse el, se Deus vos ajude, dizedeme ora: se eu fosse tam bõõ cavaleiro como som fremoso, que diríades vós i? – Si Deus me ajude, disse ela, eu diria que vós seríades o melhor cavaleiro do mundo ca, sem falha, o mais fremoso do mundo vós sodes. E pois que vós contra estes sodes mais ca mau, vós vos fazedes desprezar e confundir. E el se calou mui vergonhoso do que lhe a donzela dizia. Título Fólio 493162a [Como os três irmãos souberom novas que era rei Mars desbaratado.] Muito falarom u~u~s e os outros de Galaaz mas nom em sa honra. E ele sofreo todo mui bem, como aquel que era mais sofrudo e mais mesurado ca nem u~u~ cavaleiro que homem soubesse. E de mais que se nom quiria filhar com eles a enxeco porque eram da Mesa Redonda; ca, se o fezesse a seu ciente, seria perjurado e britaria sua menagem. E sofrêse aquela noite tam bem que nom respondeo rem que lhi dissessem; e pois lhi houverom feito seu leito e nom tal como os outros, matou as candeas, ca nom havia custume de se deitar ante que fezesse sa oraçom, e jouve o mais d[a] noite em prezes e fazendo oraçom a Nosso Senhor que lhi fezesse fazer taes obras em aquela demanda que lhi fosse proveito a sua alma. Enoutro dia, tanto que foi manhãã, erguêse e foi a u~a capela que i estava e ouvio missa de Santa Maria e tornouse ao paço e filhou sas armas e achou que os outros se armavam Título Fólio 493162b já por sairem. Pois foram todos armados, espediramse aos do castelo e foramse e sairamse per aquela porta per u ante entrarom. E Galaaz lhis preguntou: – A qual parte queredes ir? – Nós queremos ir, disserom eles, a Camalot, por ajudar rei Artur que nos disserom que rei Mars o ti~ia cercado. – Nom vades i, disse Galaaz, por esso, que sabede que rei Mars é desbaratado, el e toda sa companha, e vaise a sa terra fugindo quanto pode. E eu foi no desbarato. Quando eles ouvirom estas novas, houveram tam gram lidice que o nom podiam creer; e perguntaromlhi quan[d]o fora aquele desbarato. E el lhis disse o dia em que fora. – Ai, por Deus! disse Agravaim, se nom é verdade, nom nolo fazades creer, ca nos confundaredes per i. – Eu vos digo, disse el, e juro sobre mi~a fé, que eu vi desbaratado rei Mars ante a cidade de Camaalot e matar tanta da sua gente que poucos ficarom vivos. Quando eles esto ouvirom, be~e~zerom a Deus e disserom: – A Camaalot nom iremos nós, pois que rei Artur é descercado, ca nos teeriam por maus; de mais que nom havemos ainda rem feto. – Certas, disse Mord[r]e[t], verdade é, e por em loo que nos tornemos a nossa demanda. E os outros assi outorgarom. Título Fólio 494162b [Como os #III irmãos se partirom de Galaaz dizendo mal.] Entom preguntarom eles a Galaaz: – Senhor cavaleiro, a qual parte queredes ir? – Nom sei, disse Galaaz, fora que eu queria ir ao reino de Terra Forãia. – E nós outross[i], disserom eles, ca bem sabemos que em essa terra é o Rei Tolheito. – Ora vamos de u~u~, disserom eles, atá que aventura nos parta. – Vamos, disse Galaaz. Entom se meterom a[a] carreira todos #IIII e foramse ao gram caminho e andarom tanto que chegarom a u~a pequena foresta; e nom andarom muito per ela que o cami~o per que iam eles partiu em #IIII carreiros. E Galaaz esteve logo e disse aos #III irmãos: – Ora convém que nos partamos, ca estes #IIII carreiros nolo ensinam. E eles, que pouco prezavam sa companha, disseromlhi: Idevos per u quiserdes, ca nós nom nos queremos partir. E Galaaz se foi pola carreira que viu mais estreita e eles pola maior, falando dele e dizendo que nunca tam mau cavaleiro acharom nem tam covardo. – Ai, Deus! disse Agravaim, Título Fólio 494162c quanto háantre este Galaaz e o nosso! – Certas, disse Mordre[t], muito fomos maus que lhi nom filhámos o escudo que tragia, ca a tam mau cavaleiro nom devêramos nós sofrer que trouxesse tal escudo como o melhor cavaleiro do mundo, ca este é vergonha de todolos boos cavaleiros e desonra e [des]prez de toda cavalaria. E os outros assi outorgarom e disserom que fora bem de lho filharem que nunca mais tal escudo trouxesse. Título Fólio 495162c [Como os três irmãos acharom Galvam e Queia e Brandeliz.] Enesto falando, cavalgarom os #III irmãos atá hora de terça. E entom lhis aveo que toparom com Galvam e com Kea, o Moordomo, e com Brandeliz. Aqueles #III cavaleiros se iam quanto podiam pera Camaalot, ca ouvirom dizer que rei Artur era cercado; e iamse por em a mui grandes jornadas por chegarem cedo a sa ajuda. E, tanto que se conecerom, forom mui ledos, ca peça havia que se nom viiam. E Guerrees lhis preguntou: – A qual logar ides a tam gram coita? – A Camaalot, disserom eles, ca nos disserom que rei Artur era cercado. – Tornar vos podês, disse Guerrees, ca rei Mars é desbaratado e rei Artur é descercado já. E esto apresemos nós per u~u~ cavaleiro que i foi. Quando eles esto ouírom, erguerom as mãos contra o céu e disserom: – Beento seja Deus, que tam gram mercee fez ao reino de Logres! E Galvam dissi a Brandeliz: – Iremos a Camaalot ou nos tornaremos? – E a Camaalot, disse Brandeliz, que iremos nós facer pois que é livre rei Artur? – Ca hei pavor, disse Galvam, de seer mentira. – Nom é, disse Brandeliz, ante é verdade, ca eire me o disse u~u~ cavaleiro que vi~ia de lá. Mas porque o nom creía nom volo ousava dizer. – Pois tornermosnos, disse Galvam, a nossa demanda, ca inda nom havemos i feito per que valamos mais. Entom se tornarom todos #VI compan[h]eiros. E Guerrees perguntou a Galvam: – Senhor, sabedes novas de Gaeriet? – Nom, disse el; bem há meo ano que o nom vi. Mas oí dele muitas vezes dezer novas. E Keia disse entom: – Nom há #II meses que o eu vi são e alegre ante a Torre das Donzelas e perguntoume por novas de Galaaz e eu nom lhi soube en rem dizer ca poucas vezes o vi enesta demanda. Título Fólio 496162c [Como Galvam disse que filharia o escudo de Galaaz.] Quando Mordre[t] ouiu falar de Galaaz, disse a Brandeliz e a Galvam: – E nom sabedes? A[a] noite nos aveo a mais fremosa aventura do mundo. E entom lhis começou a contar quanto virom de Galaaz Título Fólio 496162d , o mau. E jurava ca nunca tam mau cavaleiro trouxera armas. Galvam, quando estas novas ouiu, cree[u]as e houve gram despeto porque tam mau cavaleiro tragia armas de tam bõõ homem como Galaaz. E nom se pôde calar que o nom dissesse. – Certas, quando vós assi víades sa maldade, vós fostes maus e aulos que lhi nom filhastes o escudo. Eu nom sei quem se o cavaleiro é. Mas se me avintura ajunta com el, nom levaráo escudo. E, ainda se me nom prometer como cavaleiro que nunca o ar traga, eu lhi farei escarno no corpo. E assi disse Queia e Brandeliz. Título Fólio 497162d [Como Galaaz derribou os cavaleiros e como o conhocerom.] Aquel dia cavalgarom todos #VI atá hora de noa. E veolhis entom que viram ante si ir Galaaz. E quando os primeiros #III o virom, disserom aos outros #III: – Ora podedes veer o cavaleiro onde hoje todo dia vos falámos. E Keia leixouse a ele ir logo e disselhi: – Dom cavaleiro, leixade o escudo que tragedes ou vos guardade de mim. E Galaaz, que [o] nom conocia, disselhi: – O escudo nom leixarei eu mentre o puder defender. E por em volveu a cabeça do cavalo contra el e foio ferir assi que o meteo em terra chagado já quanto. Dês i sacou dele sa lança. Quando Galvam viu este golpe disse a seus irmãos: – P’a Santa Maria, nom é este tam mau cavaleiro como vós dizedes. E Brandeliz, que houve em gram pesar ca bem soube que por amor da lin[h]agem de rei Bam fora Queia derribado, leixouse ir a Galaaz. E Galaaz, que o nom conocia, ar ferio tam rijamente que meteo ele e o cavalo em terra. E ao caer foi tam estorgido que nom soube se era noite se dia. Galvam, que houve pavor de seer chagado a morte, disse a seus irmãos: – Escarnidos nos havedes polo que nos fezestes creer; este cavaleiro é mui melhor ca vós nom dizíades, ca, se nom fosse de mui gram bondade sobeja, nom derribaria Brandeliz. – Senhor, disserom eles, nom dedes por em rem, ca nós vingaremos este colpe. Entom se leixou Mordre[t] ir a Galaaz e Galaaz o pôs em terra per cima do alcáfar do cavalo. Depois derribou Guerrees e, dês i, Agravaim. Quando Galvam viu esto houve em tam gram pavor que nom soube que fezesse fora que disse: – Santa Maria, que é esto que vejo? Entom ar disse: – Mais quero seer dirribado ou morto ca nom fazer meu poder em vingar meus companheiros. Título Fólio 497163a Galaaz se ia já, ca nom havia sabor de justar, e Galvam lhi deu vozes: – Tornade, cavaleiro, ca a justar vos convém. Quando Galaaz ouíu que havia de justar, querendo ou nom, tornou e disse: – Santa Maria! Que cuidam estes cavaleiros a fazer, que me nom leixam ir per meu caminho em paz? Eu nunca lhis arrei e cometemme donado. Entom volveu a Galvam e fezlhi outrossi como fezera aos outros e ainda peor, ca lhi fez na coixa seestra u~a gram chaga e dirribou[o] tam bravamente que el cuidou em pera sempre seer tolheito. E quando Galaaz viu que nom havia de que se temer deles, entrou em seu caminho e começouse de ir o mais que pôde, nom por medo mas por se quitar d’e[n]xeco. E ar cuidava que era[m] de casa de rei Artur. E Brandeliz, tanto que viu si e os outros em terra, ergueose e disselhis: – Escarnidos somos e enganados. Sabede que este é Galaaz, o mais ca bõõ cavaleiro, filho de Lancelot. Cavalguemos e vaamos pós ele e peçamoslhi mercee de que o cometemos sem raçom. – Vaamos, disserom os outros. E Galvam, que era pior treito ca os outros, ergueose como pôde e disse: – Malamente errámos que o assi cometemos per nossa soberva. Ora se pode bem riir de nosso escarnho el e todos aqueles que ende ouvirem falar. Título Fólio 498163a [Como Estor desfiou Galvam pola morte de Erec.] Entom cavalgarom todos #VI assi como poderom e foramse a grande ir depós Galaaz assi que o acalçarom. E pidiromlhi mercee de que o cometerom sem raçom. Mas bem sabede que se teverom por mal presos os #III irmãos de quanto dele disserom. E pois lhis perdoo[u] e se queriam dele partir, aquevos Estor de Mares e Meraugis de Prolegues. Quando Estor viu Galaaz conocêo e Galaaz ele, e forom tam ledos que deitarom os escudos [a]as costas e foromse abraçar e salvaromse e receberomse mui bem e disserom que muito se desejavam a veer, ca muito havia que se nom virom. Grande foi a ledicie e o prazer que u~u~ amigo houve doutro. E Galaaz preguntou de Meraugis quem era. E ele lhi disse o que ende sabia. E Galaaz o recebeo mui bem, ca já ouvira falar da sa bondade Título Fólio 498163b e cavalaria em muitos logares. E Meraugis se humildou muito contra ele quando o conoceu, ca bem sabia que aquele era o milhor cavaleiro do mundo. Grande foi a ledice que os #III cavaleiros fezerom de su~u~. E Meraugis, que era mais de parávola ca Estor, preguntou a Galaaz: – Senhor, quem som estes cavaleiros? – Eles som, disse Galaaz, todos nossos irmãos da Mesa Redonda. E disselhis logo o nome de cada u~u~. – Ai, Deus! disse Meraugis, be~eito sejades vós, que vos prougue d’achar eu Galvam o desleal. Certas, se ora Erec nom é vingado, ja mais nom quero eu trager armas. E Estor disse outr[o] tal. E Estor se foi logo a Galvam e disselhi: – Guardade-vos de mim, ca vos desfio. Vós matastes [a] aleive e a traiçom Erec, filho de rei Lac o mais lea[l] cavaleiro do mundo e u~u~ dos homens do mundo que eu mais amava. Por vosso mal o matastes ca vós o matastes a traiçom e eu vos matarei a dereito. Título Fólio 499163b [Como Galvam nom se quis combater e pôs prazo de #XL dias.] Quando Galvam esto ouviu, nom soube que responder, ca bem soube que Estor dizia a verdade, e foi muito espantado ca viu que Estor era bõõ cavaleiro e viu Galaaz e Meraugis, que eram da sa parte, e viuse mal chagado e viu Estor são. Todas estas cousas o faziam espantar e nom era maravilha. E Meraugis lhi disse entom: – Como, dom Galvam, nom vos queredes defender de traiçom unde dom Estor vos reta? – Meraugis, disse Galvam, nom há no mundo tam bõõ cavaleiro que me retasse que lhi eu nom defendesse; mas vejo e sei que nom pode haver batalha entre mim e dom Estor pola companha da Mesa Redonda que há antre nós. E de mais que o sabe el tam bem como eu. E pero me maravilho de esto que quer fazer, ca nom pode mão meter em mim que se estranhamente nom pe[r]jure. E da outra parte, se eu ora quisesse esta batalha, nom na devia el a querer ca nem u~a honra nom haverá i, ca ele é são e eu chagado. Mai[s] eu lhi direi que i poderá fazer a sa ho[n]ra maior. Ele é da casa de rei Artur e eu outrossi. Leixe ora esta batalha e cometame em casa de rei Artur, u há muitos Título Fólio 499163c homens bõõs. Eu ali me defenderei e se me lhi nom posso defender, moura como treedor; e se eu o venço, sa[i]ba que lhi farei como a falso retador. – Ai, cavaleiro desleal! disse Estor. Nom vos val esso rem. Convémvos a defender aqui entre voss[os] irmãos: ou eu vos matarei ou vos farei dizer a traiçom que fezestes de morte de Erec. E el respondeo: – Esto nom pode seer. Nom me podedes aqui fazer força desta batalha ca, pois vós sodes são e eu chagado, vós nom podedes tanto cuitar este reto que eu nom haja prazo de #XL dias. E entom, sem falha, pois for o dia da batalha posto e vos eu i nom for, mi podedes cometer, quer armado quer desarmado, quer são quer doente, no primeiro lugar u me achardes. E assi nom poderíades em mim fazer cousa em que vos travassem. Tal é o costume dos cavaleiros do reino de Logres, e vós sobr’esto queredes mão meter em mim! Eu vos em reto de deslealdade e de pe[r]juro e d’hoje a #XL dias me respondede em casa de meu tio e provarvosei que vós devedes perder a companha da Mesa Redonda. E digovolo aqui ante de Galaaz. Título Fólio 500163c [Como Estor e Meraugis doestavam Galvam e como se foram com Galaaz a Terra Forai~a.] Quando Estor esto oíu nom soube que dissesse, fora que respondeo: “Galvam, Galvam, muito sabedes de mal! Muita é a vossa traiçom asconduda e encuberta, e eu bem vejo que esta batalha nom pode ora seer, ca erraria contra o sacramento da Mesa Redonda. Mais, [se] Deus me leva a casa delrei e vos eu i acho, eu vos farei veer que nunca matastes homem cuja morte tam bem seja vingada como será a de Erec.” Entom se tomou a Galaaz e disselhi: – Senhor, leixade a companha deste desleal cavaleiro, ca nulho homem nom poderia cab’el estar que nom empeiorasse. – Dom Estor, disse Galaaz, nom digades esto. Se dom Galvam errou contra algu~u~ de seus companheiros per mal talam. ou per desconocença, guardarseá outra vez milhor. Certas, nunca eu oí tanto mal dele dizer como vós dizedes. E por em nom sei que i possa creer. E entom disse Meraugis: – Galvam, Galvam, nom valeo a Erec a companha da Mesa Redonda, nem que andava mui mal chagado, nem que o conhecestes, nem que o salvastes. E matastelhi o cavalo e depois ar matastes ele. E ora idesvos assi quite, que nom queredes ende responder ao reto. Sabede que se aqui nom fosse dom Galaaz, eu vos cuidaria provar legeiramente a deslealdade unde vos reta dom Estor, ca eu sei bem que vós i andastes deslealmente e nunca vos alhur acharei que volo nom porve Título Fólio 500163d . Entom se partirom dali Galaaz e Estor e Meraugis; e os outros se ar foram da outra parte. – Dom Estor, disse Galaaz, a qual lugar queredes ir? – Senhor, disse el, imos a Camalot, ca nos disserom que era i rei Artur cercado. – Tornadevos, disse Galaaz, ca desto vos direi eu boas novas. Entom lhis contou quanto em vira. E quando eles ouirom que rei Mars e os de Sans[onh]a eram desbaratados, tenderom sas mãos contra o céu e gradeceromno muito a Nosso Senhor. Entom preguntarom a Galaaz: – Senhor, u queredes vós ir? – Eu quiria ir, disse el, ao reino de Terra Forãia , ca ali ouí dizer que avi~am as maiores aventuras do reino de Logres. – Verdade é, disse Estor; eu ende ouí falar a muitos home~e~s bõõs, e eu sei mui bem aquela carreira. – Ora, disse Galaaz, nos leve i Nosso Senhor em guisa que seja sau´de das nossas almas. Título Fólio 501163d [Como Galaaz, Estor e Meraugis chegarom a Castel Felom.] Entom se foram polo gram caminho e andarom #IIII dias que nom acharom aventuras. E sabede que em naqueles #IIII dias se alongarom muito de Camaalot ca dormiam pouco e filhavam grandes jornadas e cambiavam a miu´de de bestas. Aos #V dias lhis aveo que chegarom a u~u~ castelo que havia nome Castel Felom. E era aquele castelo senhor dos da terra ar[r]edor, assi quanto u~a gram jornada de todas as partes. E indo assi, acharom u~a donzela mui fremosa e mui bem gornicida; e tinha u~u~ gaviam em sa mão e andava com ela u~u~ donzel. A donzela andava a pee folgando per u~a ribeira. E, quando chegarom os cavaleiros a ela, disselhis: – Senhores cavaleiros, tornadevos, ca ides mui sandiamente. Ca vós nom vos podedes partir sem perda dos corpos, se mais adiante ides, ca este é Castelo Felom unde nem u~u~ cavaleiro nem nem u~a donzela que i entre nom sal, ante ficam i todos em prisom. – Porquê? disse Galaaz. – Por maus custumes, disse ela, que i há. E malditos sejam todos aqueles que os i poserom e que os manteem, ca muitos home~e~s bõõs e muitas donzelas caem ende gram mal ventura. – Donzela, disse Galaaz, nom há guisa em que nos tornemos atá que saibamos que é, ca por al nom saímos de nossas terras se nom por veermos as maravilhas Título Fólio 501164a do reino de Logres. Entom se partirom dela e foramse a[a] entrada da porta. Título Fólio 502164a [Como o castelo houve nome Castel Felom.] [S]abede que o castelo estava em u~a gram montanha e era tam forte que rem nom timia. Aquele castelo fezera Galmanasar, u~u~ parente de Príamos, rei de Troia. Aquele Galmanasa[r] era bõõ cavaleiro d’armas e houve seus filhos boos cavaleiros, que teveram a terra depós ele tam em paz que nom houverom vezinho que os ousasse guerrear. Aquela terra teve sa linhagem d’u~u~ heree em outro atá que veerom cristãos. E nunca rei Mordraim nem Nasciam quando veerom aa Gram Bretanha nom lhis poderom nuzir nem Joseph Abaramatia nem Josefes seu filho nom nos poderom tornar cristãos, nem Sant’Agosti~o que aquela saçom foi em Inglaterra; ante lhi fezerom i muito escarnho. Unde aveo que porque achou i os mais felões homens que nunca achou pôs nome ao castelo Felom que nunca pois perdeu seu nome. Título Fólio 503164a [Como o senhor do castelo mandou fazer leteras sobre u~u~ padrom e o que diziam.] Assi viverom pagãos em este Castelo Felom, u toda a outra terra do reino de Logres era tornada a fé de Cristo. Eram todos per costume os senhores daquel castelo assi como vi~iam du~u~ heree enoutro, tam bõõs cavaleiros d’armas como se o houvessem de natura. E quando rei Uter Pandragom reinou foi cercar aquelo castelo e jouve i gram peça mas nom no pôde filhar. Assi morarom em aquele castelo pagão dêlo destruimento da Troia atee o tempo de rei Artur que nunca acharom a de leve quem lhis muito nojo fézesse. Os do castelo nom eram de gram nomeada ante o tempo de rei Artur, ca viviam em sa terra. Mas quando souberom a verdade da Mesa Redonda e per camanho orgulho fora feita e aqueles que ende eram que haviam de andar polo mundo buscando as maravilhas e as aventuras, disse o que ende era senhor: “Rei Artur é poderoso, ma[i]s doutro rei cristão. E eu pensei como o poderia distruir.” Entom fez fazer no chão, ao pee deste castelo sobre u~u~ padrom de mármor mui ricamente obrado, leteras talhadas que diziam: “– Ai, tu, cavaleiro andante que vás buscando aventuras, se ousas ir alá suso e dar cima a [a]ventura do castelo, já nom demandarás cousa que nom hajas.” E outras havia i que diziam: “– Ai, tu, donzela desconselhada que vás demandando ajuda de cavaleiro aventuroso ou d’outrem, se tu ousas ir aaquele castelo, já nom partirás que nom sejas Título Fólio 503164b conselhada aa ta vontade.” Título Fólio 504164b [Como os do castelo metiam os cavaleiros em prisom e ti~iam as donzelas por barregããs.] Assi diziam as leteras daquele padrom, que assi eram feitas pera enganar os cavaleiros e as donzelas que per i passassem; e bem eram enganados, ca tanto que os cavaleiros alá sobiam, metiamnos em prison e jaziam i atá que morriam. Mas nom faziam assi as donzelas, que as ti~iam por barregããs; e, pois se enfadavam delas, faziamnas aprender em lavrar seda e assi as ti~iam por servas sempre. Em tal guisa como eu vos conto fez o senhor do castelo fazer o padrom. Unde aveo que muitos homens bõõs morrerom i e que mais de D donzelas forom i cativas. E era assi que daquele gram mal que daquele castelo vi~ia nom no sabiam no reino de Logres, ca os do castelo nom queriam dizer per que perdessem; e os cavaleiros que i entravam morriam todos e as donzelas eram tam guardadas que nom podiam em sair. Título Fólio 505164b [Como os do castelo mostrarom aos três cavaleiros grande amor.] Em tal guisa cuidou bem Arpiom, que era do Castelo Felom senhor, que podesse a rei Artur [t]olher todos seus boos cavaleiros; mas nom pôde, ca Nosso Senhor nom quis que sempre aquela traiçom durasse. E quis por em que veesse per i o mui bõõ cavaleiro e que em sa viinda quedasse aquel gram dano. Quando os #III cavaleiros, que nom virom o padrom, que nom forom per aquela carreira u ele estava, subirom aa montanha e chegarom aa porta nom acharom quem lhis vedasse a entrada; mas tanto que entrarom leixouse caer u~a porta colgadiça de ferro. E deu tam gram sõõ como se todo o castelo caesse. E eles catarom entom pós si e disserom: – Maa gente mora em este castelo. Jácuidam que nos teem presos. – Nom vos espan[t]edes, disse Galaaz, ca Nosso Senhor nos poráem fora a nossa honra. Entom se forom pola gram rua do castelo direitamente ao alcáçar; e enquanto passavam de rua em rua ouvirom falar a todos a linguagem pagãã. – Par Deus, disse Galaaz, nom som estes da nossa gente. Ora pense cada u~u~ de bem fazer, ca bem sei que nos nom podemos daqui partir sem enxeco. – Nós, disserom os outros, nom havemos medo mentre com vosco formos. Enesto falando chegarom ao alcáçar que estava em u~u~ chão pequeno. E o alcáçar era muito fremoso e mui bem postado. E quando chegarom aa porta acharomna aberta e entrarom no curral. E os do castelo receberomnos mui bem e teveromlhis as estribeiras e decerom-nos Título Fólio 505164c e mostraromlhis grande amor. Mas al ti~iam no coraçom. Título Fólio 506164c [Como os três cavaleiros ficaram presos no castelo.] Quando os levarom ao paaço, fezeromlhis tam grande infinta d’amor e de lidice que eles teverom que em bõõ ponto ali veerom. E fezeromnos desarmar logo e preguntaromlhis unde eram. E eles disserom ca eram da casa de rei Artur. – Bem sejades viindos, disserom eles; mui mais vos amamos por em. E pois foram desarmados veo a eles u~u~ velho cavaleiro e disselhis: – Queredes ir comigo e mostrarvosei u~u~ cavaleiro da Mesa Redonda que aqui jaz doente? – Vaamos, disserom eles, ca de grado o queremos veer. E ele se foi diante e levouos até a [torre]; e foi a u~a porta pequena de ferro e abriua e disselhis: – Entrade e atendedeme alá dentro e pois amostrarvosei o que vos prometi. E eles, que se nom guardavam da traiçom, entrarom. E el tirou a si a porta e çarroua. E pois disselhis: Ora fazede o milhor que poderdes, ca ja mais nom s[a]iredes daqui se nom mortos. E esta é a postumeira vossa aventura. Título Fólio 507164c [Como Galaaz viu em sonhos u~u~ homem mui fremoso que lhe disse que seria livre.] Quando eles viram que eram assi ençarrados, disserom entre si: – Ai, Deus, como aqui há gram traiçom! Nunca daqui sairemos, se nos em nom saca quem nos i meteo. – Nom vos espantedes, disse Galaaz. Sabede que se nós servido havemos em esta demanda a sa vontade Aquel por cujo amor i entrámos, nom lhi esqueceremos, ante nos sacaráende mal grado de quantos em este castelo som. Ca é o dereito pegureiro que de todo perigoo livrará sas ovelhas. E Meraugis dissi: – Assi como ele nos pode livrar nos livre, ca muito nos é mester. – Ai Deus, disse Estor, Senhor, nom vos esqueçamos! Assi falarom entre si de sa aventura; e disserom que bem deve seer chamado aquele castelo Castelo Felom, “ca verdadeiramente aqui há [a] mais desleal gente que nunca cuidámos a achar.” Enesto falando adormeceo Estor e Meraugis, ca andavam mui cansados. Mas Galaaz nom dormeceo, ca pensava em al muito mais ca eles, ca se deitou e jouve o mais da noite em prezes em geolhos e em côvodos, rogando a Nosso Senhor com muitas lágrimas que ele, per sa piedade, o acor[r]esse e o sacasse daquela prisom ca em outra guisa nom havia el per u sair. De Título Fólio 507164d pois que fez el sa oraçom a Nosso S[enh]or, dormeceu e veo a el u~u~homem mui fremoso, d’outra tal semelhança como aquela que lhi outra vez apareceo, e disselhi: – Galaaz, nom te espantes e sei seguro ca amanhãã serás livre, ca o alto Mestre recebeo ta oraçom. Mas quando tu fores livre destrue este castelo e cantos i som, fora as donzelas que em prisom jazem i. Aquelas livra, ca nom quer Deus que mais sofram aquela mala ventura que atá [a]qui sofreram. Esto foi dito a Galaaz em sonhos, unde se lembrou depois mui bem quando se espertou. Título Fólio 508164d [Como Estor e Meraugis pediam a Deus mercee e Galaaz os confortava.] Enoutro dia, quando o sol era já levado, espertouse. E Esto[r] disse: – Ai, Senhor Padre Jesu Cristo, nom te escaesçamos, mas acurrenos, se te praz. E Meraugis ar disse outrossi. E Galaaz os confortou e disselhis: – Nom hajades pavor, ca Nosso S[enh]or vos acorrerá mui cedo. – Ai, Deus! disserom eles, e esto como pode seer? Ca nós somos ençarrados entre nosso[s] enmigos mortaes e em tal castelo unde todo o mundo nos nom podiria tirar per força. E eles assi queixandose, virom que o tempo se cambiava e escoricia assi como se quisesse seer noite e começou a fazer torvões e alâmpados e cair coriscos per meo do castelo de todas partes tam espessamente que nom há homem que os visse que nom devesse haver gram pavor. – Ai, Deus, Padre Jesu Cristo, disse Estor, havi de nós mercee e nom nos faças comprar a deslealdade de falsa gente deste castelo. E outrossi ar disse Meraugis que havia mui gram pavor d’aquela hora seer morto. E Galaaz os confortava toda via, mais nem u~u~ conforto nom lhis valia, tanto haviam gram pavor. Título Fólio 509164d [Como a torre se fendeu e nom lhes fez mal.] Pois aquela tempestade e aquel mal tempo durou, dês hora de prima atá hora de terça, aveo entom u~a tam gram maravilha que bem deve seer metuda em conto. Ca, sem falha, u~u~ dos fremosos milagres foi que nunca aveo no reino de Logres no tempo das aventuras; ca a torre, que era forte a maravilha — era aquela u os #III cavaleiros jaziam — se fendeo dês cima atá fundo, assi que a u~a parte em caeu a destro e outra a seestro e matou muita daquela maa gente. Quando os #III cavaleiros que em prisom jaziam virom a torre caer, houverom tam gram pavor que caeram em terra esmorecidos Título Fólio 509165a . Sabede que a torre caeu em guisa que nom fez mal a nem u~u~ deles. E pois acordarom e virom que nom haviam nem u~u~ mal e virom que poderiam dali sair, ficarom os geolhos em terra e tenderom sas mãos contra o ceu e agradeceromno muito de coraçom a Nosso Senhor. E pois esteverom muito em oraçom, Galaaz lhis disse: – Ora suso e filhe cada u~u~ sas armas e matemos quantos acharmos em este castelo. E leixemos as donzelas que presas som ca assi quer Nosso Senhor. Título Fólio 510165a [Como Galaaz, Estor e Meraugis matarom todolos do castelo e como livrarom as donzelas.] Bem assi como Galaaz o disse o fezerom eles, ca sairam dali sãos e arrizados e foramse u leixarom as armas. E quando chegarom ao paaço acharam todolos cavaleiros e os homens jazer esmoricidos polo gram pavor que houverom. – Ai, Deus! disse Galaaz, que farei de mia espada? Se[nh]or Jesu. Cristo, prazavos que a haja. El esto dizendo, veo a ele u~a mui fremosa donzela que lhi disse: – Meu Senhor Galaaz, vós sejades bem viindo e beento seja Deus que vos aqui adusse, ca per vós seeram livres as presas donzelas. – E entom lhi deu sa espada e disselhi: – Vedes aqui vossa espada. Guardadea bem dês hoje mais. E ele filhou sa espada e gradecêlha muito. E pois disselhi: – Sabedes u sam vossa[s] irmãas? E ela os levou a u~a câmara u eram. E pois eles foram armados, tornarom aos do paço que se ergueram já e começaram a derribar e a chagar e a fazer tal morte que maravilha. E pois matarom todos aqueles, foram a[a] vila e poseramlhi fogo de todas partes, assi que em pouca dura foi toda queimada e os que escapavam do fogo matavamnos todos, assi que tá hora de vésperas nom ficou homem vivo. Em meo do castelo havia u~a gram torre que ti~ia mui gram campo. Enaquela torre jaziam as donzelas presas; e aquela torre ficou sãã e todalas donzelas que i jaziam, ca a Nosso Senhor nom prazia que ainda morressem. E quando Galaaz viu que todalas cousas do castelo eram destroídas fora a torre, disse aos outros: – Vaamos veer que há em aquela torre. Entom foram alá e acharom i em u~u~ paaço bem #CCC donzelas que jaziam i esmoricidas com pavor do forte tempo que fezera. E acordaramnas todas e disseramlhis que nom houvessem pavor ca o mau tempo era partido e elas Título Fólio 510165b eram livres. E dês i disseromlhis eles quem eram e porque veeram ali. E dês i foramse ao outro paaço e acharom i bem #CC donzelas, delas vivas e delas esmoricidas e delas mortas e acordarom as u~as e ar confortaramnas como as outras. Título Fólio 511165b [Como as donzelas faziam gram ledice a Galaaz.] Quando elas ouvirom estas novas, nunca tam gram prazer houverom e disseram: – É aqui dom Galaaz? Ca bem sabemos nós que per outrem nom havemos a seer livres. E Meraugis lho amostrou e elas ficaramse ante el em geolhos e disserom: – Senhor, vós sejades o bem viindo e beento seja Deus que vos aqui trouxe, ca ora sabemos nós bem que seremos livres da gram coita e de gram lazeira em que éramos. E ele as ergueu e disselhis: – Agradecedeo a Nosso Senhor e a outrem nom dedes grado. Dês i ar disselhis: – Catade quantas som as donzelas mortas. E elas as contarom e acharom que era[m] #L. Dês i tornaramse ao paaço u ante entrarom e acharom as outras fazendo tam gram ledice que maravilha, ca jásabiam como era ali Galaaz e como eram livres e por em eram tam ledas que semelhava a cada u~a que era rai~a. Título Fólio 512165b [Como as donzelas sabiam que seriam livres pela viinda de Galaaz.] Grande foi a festa e a lidice que as donzelas fezeram a Galaaz. E el lhis preguntou: – Como soubestes vós que havia eu aqui de vi~ir e havíades de seer livres per mim? – Senhor, disserom elas, per u~a donzela filha de rei de Lomblanda, que ogano foi aqui com nosco em prisam e adoeceo donde morreo; e quando houve a morrer, dissenos: – Donzelas, que sodes aqui em prisom, nom vos desconfortedes mas seede ledas ca eu vos trago boas novas: dom Galaaz o mui boo cavaleiro, o que háde dar cima as aventuras do Graal, vem aqui e tanto que el veer seeredes livres desta prisom em que sodes e este castelo ficará por em destruído e despoblado pera sempre. Título Fólio 513165b [Como as donzehas disserom que se queriam ir a casa de rei Artur.] Assi nos disse a donzela de vós e assi aveo, Deus ende haja bõõ grado. Todo aquele dia foram as donzelas em tam gram ledice; e, aa noite, disselhis Galaaz: – Que poderemos fazer de vós, ca nom podemos nós aqui estar muito? – Nós, disseram elas, ficaremos atá que levemos nossas companheiras que som mortas a soterrar em Título Fólio 513165c logar sagrado, ou preto ou longe. E pois esto fezermos irnosemos a casa de rei Artur por lhis contarmos as maravilhas que Nosso Senhor fez aqui por vós. Ca elas sabiam já bem como a torre caera e como os guardara Deus ao caer da torre. – Se vós, disse Galaaz, fordes a casa de rei Artur, saudademio muito e a todolos da sa casa e dezede que, se Deus prouguesse que eu tornasse aa Mesa Redonda que seria em mui ledo ca nunca foi em companha unde mi tanto pagasse. E elas disseram que o fariam, se Deus as i levasse. Título Fólio 514165c [Como as donzelas fizerom soterrar sas companheiras e se forom a pee a Camalot.] Aquela noite foi mui servido daquelas donzelas Galaaz e os outros. Pola manhãã partiromse todos #III e andarom muitas jornadas sem aventura achar que de contar seja e fezeram saber pola terra que os descreu´dos de Castel Felom eram todos mortos e o castelo destruído. Estas novas foram toste sabudas per toda a terra e vi~iam i todos por veer se era verdade. E quando virom a maravilha que aveera do castelo e da torre os que nom criiam crerom logo e fezeromse baptizar e disserom que bem fezera Deus ali sa vingança. As donzelas que i ficarom, pois fezeram soterrar sas companheiras, foramse todas a pee pera Camalot. E sabede que eram #CCCC e #L. E pois elas contaram alrei que era já guarido da sa chaga quanto aveera em Castel Felom e a maravilha da torre, tendeo sas mãos contra o céu e gradeceo muito a Deus e disse que este era dos fremosos miragres que nunca vira. Título Fólio 515165c [Como rei Artur se foi a Castel Felom.] Entom enviou elrei as donzelas cada u~a pera sa terra tam bem guisadas como cada u~a disse. As outras, sem falha, quiseram ficar com a rai~a, forom muito servidas e muito honradas por amor de Galaaz e casadas quando lhis prougue. El-rei partiuse entom de Camaalot com gram gente e foise a Castel Felom. Título Fólio 516165c [Como Lancelot chegou a u~a pena u siia u~u~ homem mui velho.] E pois [Lancelot leu a carta] houve gram prazer que Boorz e Galaaz eram de su~u~. Entom pôs a cartaa u a achara e foise ao bordo da barca e ficou os geolhos e fez sa oraçom a Nosso Senhor que ante que a Demanda se acabasse lhi amostrasse seu filho Galaaz e que o conocesse Título Fólio 516165d e que falasse com ele e que houvesse algu~u~ prazer com ele. E ele fazendo esta oraçom catou e viu que a nave aportou cabo de u~a pena e ao pee da pena havia u~a capela pequena. Aa entrada da capela siia u~u~ homem velho todo cão e tremendo com vilhice. E quando Lancelot chegou a el salvouo. E el ar salvou-o mais esforçadamente ca el cuidaria. E ergueuse du siia e chegouse aa barca e perguntou Lancelot que aventura o adussera ali. E Lancelot lhi contou logo toda sa fazenda e como a barca o adussera u nunca cuidara que fora. – Como havedes nome? disse o homem bõõ. E ele se nomeou. E quanto entendeu el que era Lancelot do Lago, tendeo as mãos contra o céu e disse: – Padre dos céus, beento sejas tu que ti prougue que eu visse ante de mi~a morte o cavaleiro do mundo que eu mais desejava a veer. Ai, filho Lancelot, muito te desejei a veer! Sabes tu quem som? – Senhor, nom, disse ele, se mi o vós nom disserdes. – Ora sabe, disse ele, que som rei Galegantim. Ta madre a rainha Elena foi mia filha e outra sa irmãã. E mui meninas as dei, u~a a rei Bam. e outra a rei Boorz por molheres. E pois as houve casadas entrei em mar e vim aqui seer ermitam por u~u~ pecado que me sentia errado contra meu Criador. Muito tempo morei aqui enesta lazeira por lazerar aquele pecado. E estando aqui tam longe de gente oí novas de ti per muitos bõõs home~e~s que me disserom que tu era[s] o melhor cavaleiro do mundo e o mais nomeado. E por esto te desejava a veer, que a primeira oraçom que eu fazia ca[da] dia a Nosso Senhor era que el nom me leixasse morrer ante que te visse. E ora te vejo! Deus ende haja bõõ grado, e som mui ledo e nom demando oi mais fora morte deste mundo e vida do outro. E pero, como quer que mi praza da vida que aqui fiz esperando a mercee de Nosso Senhor, pesame e choro pola maa vida que tu fezeste com a rai~a Genevra Título Fólio 516166a dês que fuiste cavaleiro. Ca tu és em traedor contra teu Senhor dos céus e contra teu senhor natural. E sabe que aquela deslealdade te fez tanto descaber e fazer afora de todas bõas aventuras que nom hás a acabar a aventura da espada da estranha cinta, nom por nom seeres mui bõõ cavaleiro mas por teu pecado e pola gram traiçom que fezeste a teu senhor. Este pecado, sem falha, ti tolheu d’acabar esto e outras cousas muitas e desto me pesa muito. E pero como quer que tu errasses atá [a]qui, se te quisesses correger e ti quisesses guardar de pecar mortalmente, ainda poderias achar perdom e mercee em aquele em que toda piedade jaz. Mas ora me conta como entraste enesta barca. E ele lhe contou entom todalas aventuras per que passara dês que se menfestara do pecado da rai~a Genevra. – Filho Lancelot, disse el, ora sabe bem que Nosso Senhor ti amostrou mui gram peça do seu bõõ talam quando ti chegou a companha de tam santa doncela. Ora ti cata como, assi em pensar como em obrar, sejas casto, assi que a ta castidade se outorgue aa castidade da donzela, ca assi poderá durar a ta companha e a sua. E Lançalot lho prometeu de boo coraçom e que a todo seu ciente se guardaria de fazer cousa em que errasse a seu Criador. – Pois ora te vai, disse o homem bõõ, ca nom hás que tardar, ca tu serás cedo em aquela casa u desejas chegar: na casa do Rico Pescador. – E vós, disse Lançalot, que faredes? Ficaredes? – Si, disse o homem bõõ, ja mais daqui, se Deus quiser, nom me partirei atá que receba o gram galardom que aqueles devem receber que de todo se metem em serviço de seu Criador. – Filho, pensa de ti, ca eu quero de mim pensar, ca bem sei que nom hei já aqui de muito. Nosso Senhor, se lhi praz, faça que, pois que m’eu daqui partir, me receba na sua santa glória. Título Fólio 517166a [Como a barca se partiu da riba.] Eles enesto falando, deu o vento na barca assi que a fez partir da riba. E quando virom que se partiam comendaromse a Deus e choraram, ca bem sabiam que nunca se haviam de veer. E Galegantim disse a Lancelot: – Ai, Lancelot, sergente de Jesu Cristo, nembrate de mim, assi que rogues a Galaaz, o boo cavaleiro com que cedo seerás, que rogue a Nosso Senhor por mim. Quando Lancelot oiu que seria cedo com Título Fólio 517166b seu filho Galaaz foi muito ledo e deitouse em meio da barca em geolhos e em côvodos e começou a fazer sa oraçom, que Deus o levasse u lhi podesse fazer serviço. Título Fólio 518166b [Como Lancelot andou gram tempo pelo mar e como era avondado da graça de Deus.] Assi andou Lancelot gram tempo na barca que nunca em saiu. E se alguém me perguntasse unde vivia direilhi que aquele Senhor que deu a mãna no deserto ao poboo de Israel e que pera seu bever lhis fez sair a água da pedra, aquel Senhor deu a este cavaleiro o que lhi fez mester, ca todolos dias do mundo, quando se levantava e fazia sa oraçom, dizia em cima: – Ai, meu Senhor Jesu Cristo, nom te esqueças de mim e o meu pam de cada dia dámio hoje, assi como padre deve a fazer ao filho. Cada vez que aquela oraçom fazia, achavase tam avondado de graça de Deus que lhi semelhava que comera de todolhos manjares do mundo. E pois andou gram tempo polo mar, assi como a ventura o levava, aveolhi u~a noite que aportou a barca em orela de u~a foresta. Mais ora leixa o conto a falar dele e torna a Galaaz e Estor e Meraugis. Título Fólio 519166b [Como Tristam soube novas da rai~a Iseu.] Quando Galaaz se partiu com sa companha do Castelo Felom, andou pois muitas jornadas sem aventura achar que de contar seja, assi que aventura o levou u jazia Tristam chagado das chagas que recebera u o levaram Galaaz e Paramades, assi como o conto há jádevisado. E quando eles acharom Tristam houverom mui gram prazer e fezeram mui gram ledice com ele e Tristam outrossi com eles, e perguntaromlhis novas. E Galaaz lhi contou como rei Mars com todo seu poder e com todo o poder de Sansona cercou rei Artur em Camalot porque ouiu dizer que todolos cavaleiros da Mesa Redonda eram mortos na demanda do Santo Graal. – Mais nom foi assi, dissi Galaaz, como el cuidou, ca el foi tam mal desbaratado que já mais nom cobrará a perda que i prês, ca poucos escaparom. em que nom fossem mortos ou presos. E a acima fôlhi gram bem quando pôde escapar da batalha com mui pouca da sa companha. – Como? disse Tristam, é verdade que assi aveo a meu tio, rei Mars? – Si, disse Galaaz, eu o vi, ca foi na batalha. – E sabedes vós, disse Tristam, nem u~as novas da rainha Iseu? – Certas, disse Galaaz, Título Fólio 519166c nom bem, fora tanto que sei que rei Mars foi aa Joiosa Guarda e entrou dentro de noite e fez i mui gram dano em gente e em quanto achou e trouxea consigo u~a peça e, dis i, envioua a Cornualha ante que fosse cercar Camalot. Tanto sei eu verdadeiramente e nom mais, fora que esmo eu que Iseu é em Cornualha. Título Fólio 520166c [Como Tristam se estendeu com pesar e xe lhe renovarom todalas chagas.] Quando Tristam ouiu estas novas, ende houve pesar, esto nem u~u~ nom demande. E com aquel gram pesar que houve estendeuse e, ao estender, quebraromlhi todalas chagas. E el era já quanto guarido e esmoreceu e jouve gram peça tam esmoricido como se fosse morto. E os outros forom a ele e acharom o logar todo coberto de sangue. – Ai, dom Galaaz, disserom eles, mal fezestes. Vossas novas matarom dom Tristam. – Si Deus m’ajude, disse el, muito me pesa que lhas dei. Mas por em nom morrerá el, bem no sabê. Entom filharom eles Tristam e levaromno a u~u~ leito e espiramno e acharomlhi as chagas todas renovadas. E pesoulhis em muito e estancaromlhi o sangue mais toste que poderom. Título Fólio 521166c [Como Galaaz ouviu u~a voz que lhe disse que se fosse ao mar.] Gram peça jouve Tristam esmorido. E quando acordou e pôde falar, disse: – Ai, astroso, morto som! Todo hei perdudo pois perdi mia senhor. Ai, Ventura, maldita cousa e desleal, como me foste avessa a esta saçom! Tu mi mataste e confundisti! Destas novas que Tristam ouiu entom o prês u~a tam grande enfirmidade que jouve ende enfermo u~u~ meo ano e mais, assi que nom pôde cavalgar nem sair dali. Os outros #III, sem falha, morarom i com ele #IIII dias e pois partiromse e cavalgarom de su~u~ muitas jornadas sem aventura achar que de contar seja. E, pois virom que nom achavam rem de su~u~, partiromse e filhou cada u~u~ sa carreira. Galaaz andou pois muitas jornadas que nom achou rem. Uu~ serão lhi aveo que aventura o levou a u~a capela velha e erma que estava preto de caer. E pois deceu ali por folgar i aquela noite, adormeceu depois que fez sa oraçom. E ele jazendo dormindo ouiu u~a voz que lhi disse: – Galaaz, levate toste e filha tas armas e cavalga e vaite ao mar e acharás u~a aventura com que te aprazerá muito. Quando ele esto ouiu, ergueose e assinouse e comendouse a Deus e fiz o que lhi mandou a voz e foise pola foresta assi como a ventura o levava ca, sem falha, nom sabia el pera u havia d’ir. E pois cavalgou assi todo o dia e o mais da noite, chegou ao mar e achou u~a barca na ribeira. E sabede que aquela barca era u andava a irmãã de Persival e Lançalot. E Galaaz tanto que viu Título Fólio 521166d a barca, deceo por ir veer que andava dentro. Título Fólio 522166d [Como Galaaz achou Lancelot e a gram ledice que fizerom.] Lançalot, que estava ao bordo da barca, quando o viu, disselhi: – Senhor cavaleiro, vós sejades o bem vindo. E Galaaz disse: – Senhor, e vós hajades boa aventura. Lançalot o preguntou: – Senhor cavaleiro, quem sodes vós? Dizedeme, assi Deus vos ajude. – Senhor, disse ele, u~u~ cavaleiro estranho som e per ventura, ainda que vos dissesse meu nome, nom me conoceríades. E pero direivolo. Eu hei nome Galaaz. – Galaaz? disse el. E eu hei nome Lançalot. Be~eito seja Deus que nos ajuntou, ca nunca rem no mundo tanto desejei como veer vossa companha. Entom tenderom os braços e abraçaromse e fezerom a maior ledice que nunca homem viu. E Galaaz tolheu seu elmo e seu escudo e poseo na barca e foi tam ledo de que os juntara Deus de su~u~ que nom poderia mais seer. E chorarom ambos com ledice. E esto era já tam preto do dia que o padre conoceu o filho e o filho o padre. E preguntaromse da sa fazenda e cada u~u~ contou o que lhi aveera dês que se partirom da côrte. Título Fólio 523166d [Como Galaaz contou a Lancelot a aventura da espada da estranha cinta e como andarom gram tempo de su~u~.] Quando o dia foi já claro e que se conocerom melhor, ar começarom sa lidice mui grande, E quando Galaaz viu a donzela conocêa logo e perguntou Lançalot se sabia quem era. – Si, disse el, mui bem, pola carta que lhi achei aa cabeça. Mas, por Deus, é verdade que acabastes a aventura da espada da estranha cinta? – Si, disse el, e se a nunca vistes, vêd[e]la. Tanto que Lançalot viu a espada, conoceua e olhoua e bejoua e bejoua e bejoua. E perguntou a Galaaz que lhi dissesse como a achara e [el] lhi contou toda a verdade da nave, como a fazera a molher de Salamom e todalas cousas que i havia, assi como o conto há já devisado. E pois lhi disse a verdade da nave e das leteras que i achou, disse Lançalot que nunca tam fremosa aventura aveera a cavaleiro. Gram tempo foram Lançalot e Galaaz de su~u~ na barca, cada u~u~ fazendo serviço a Nosso Senhor de coraçom. Muitas vezes aportarom em insoas estranha u nom havia se nam veados e u acharom muitas aventuras a que derom cima, que per sa bondade de cavalaria, que per graça de Santo Espírito que os ajudava em todos logares, E daquelas aventuras que entom acharom nom conta a estória do Santo Graal rem, ca seria gram detença a quem todo houvesse a contar quanto lhis entom aveeo. Título Fólio 524166d [Como Galaaz se houve a partir de Lancelot.] Título Fólio 524167a No tempo que as aves começom cantar e as árvores e os prados a enverdecer e deitar flores e ena saçom que todalas cousas som mais ledas, lhis aveeo u~u~ dia, a hora de meiodia, que aportarom aa ourela d’u~a foresta ante u~a cruz e virom sair u~u~ cavaleiro de u~as armas brancas sobre u~u~ mui bõõ cavalo. E tragia u~u~ cavalo branco a destro. E, cando viu a barca, foi pera alá e salvou os cavaleiros da parte do gram Meestre e eles ar salvaromno. – Galaaz, disse o cavaleiro, saíde fora dessa barca e sobide em este cavalo que é bõõ e fremoso e filhade vossas armas e idevos u a ventura vos levar, buscando as aventuras do reino de Logres. – Senhor, disse Galaaz, quem sodes vós que m’esto mandades fazer? – Uu~ homem som, disse ele, e nom podedes ende ora mais saber. Mas o que vos digo, fazedeo. Quando ele esto ouiu, foi correndo a seu padre e beijou[o] e disselhi: – Padre Senhor, nom sei se me veerês já mais. Mas comendovos ao verdadeiro corpo de Jesu Cristo que vos mantenha em seu serviço. Entom começarom ambos a chorar mui de coraçom. E pois Galaaz s[a]iu da barca e que presara já sas armas e que cavalgara já, disse u~a voz: – Ora pense cada u~u~ de vós de fazer bem, ca ja mais nom vos veeredes atá o dia espantoso u Nosso Senhor dará a cada u~u~ o que mereceo. Quando Lançalot esto ouiu, disse chorando: – Filho Galaaz, pois que assi é que m’eu de ti parto pera sempre, roga a Jesu Cristo por mim que me nom leixe partir de seu serviço, mas em guisa me guarde que eu seja sergente terreal e espirital. E Galaaz lhi respondeo: – Senhor, nem u~u~ rogo nom vos pode tanto valer como o v[o]sso mesmo, e por em lembradevos de vós. E logo se partirom u~u~ de outro e Galaaz entrou na foresta buscando o branco cavaleiro que se já dele partira. E o vento ar deu na barca u Lançalot era, tam forte que em pouca dura alongou a barca da riba tanto que nom pôde veer terra de nem u~a parte. Mas ora leixa o conto a falar dele e torna a Galaaz, por contar algu~a cousa de sas aventuras ca, sem falha, a maior parte da demanda foi sua. Título Fólio 525167a [Como Galaaz chegou a casa de u~u~ ermitam.] Galaaz, pois se partiu de seu padre e entrou Título Fólio 525167b na foresta, assi como aque[l] que bem cuidava a achar o cavaleiro das brancas armas, andou atá hora de vésperas e aveolhi que chegou a casa se u~u~ irmitam. u ficou aquela noite e com que falou muito de confissam e de prol de sa alma. E manhãã pois ouiu missa, partiuse e andou todo aquele dia sem aventura achar que de contar seja. Aquele dia aa noite, aqui a de [...] Título Fólio 526167b [Como Boorz e Persival acharom Galaaz.] Quando Boorz e Persival virom o escudo de Galaaz pendurado ante a choça, esteverom e disse Boorz a Persival: – Nom é [a]quele o escudo de dom Galaaz? E Persival disse: – Sem falha, esse é. Entom se foram contra o escudo e acharom Galaaz que se queria já colher ao cavalo polos ir ferir, ca bem cuidava que eram dos do castelo, ca os nom conocia polas armas que haviam cambadas. Tanto que chegarom a ele salvaromno e ele os preguntou entom quem eram e eles se nomearom e decerom logo. E Galaaz tolheu seu elmo e eles os seus e receberomse o milhor do mundo. – Senhor, disserom eles, que fazedes vós aqui? E ele lhis contou todo como o conto há já divisado. – E eu atendo aqui se sairá alguém dos do castelo, ca já mais nom em sairá cavaleiro nem outrem que eu nom mate, atá que o conde faza paz a minha vontade com sa irmãã. – No nome de Deus, disserom eles, pois que assi é, nós ficaremos com vosco e, se nom vingamos a nosso poder a Mesa Redonda que ele desamou ja mais nunca ende hajamos sa companha. Título Fólio 527167b [Como Samaliel pediu a Galaaz que o fezesse cavaleiro.] Assi cercarom os #III cavaleiros o castelo da Marcha u havia mais de #CCC homens d’armas que pensavam esto mui pouco, cá nom há rem por que cuidassem que #III cavaleiros ousassem cometer tam gram feito. E quando os #III cavaleiros faziam outra choça a que se acolhessem aquevos u~u~ escudeiro que chegou i que andava sobre u~u~ gram rocim. E tanto que viu Galaaz conoceuo e ficou os geolhos ante ele e beijoulhi os pees e disselhi: – Ai, bõõ cavaleiro, por Deus e por mercee, dámi u~u~ dom. E ele o catou e conoceu que era o filho de Froila que no outro dia, com despeito, lhi deitara seu escudo e sa lança em terra, e respondeulhe: – Eu te dou o que me demandas, se é cousa que se possa dar ou deva, e nom no deveria a fazer, porque tu fosti noutro dia muito vilam contra mim. – Ai, Senhor, disse ele, mercee! Nom vos conocia. Por Deus, perdoademim! – Título Fólio 527167c Eu ti perdoo, disse ele. Entom o fez erguer e disselhi: – Ora di o que quiseres. – Senhor, disse ele, peçovos que me façades cavaleiro. – Outorgoo, disse Galaaz, mais atenderás tanto que possamos haver pera ti cavalo e armas. Assi ficou Samaliel, o filho de rei Froila, em esperança que o fezesse Galaaz cavaleiro. Título Fólio 528167c [Como outorgarom a Boorz ajusta dos #III cavaleiros do castelo.] Uu~ pouco ante aveo que #III cavaleiros armados de todas armas saírom do castelo e iam-se por folgarem na foresta. Mas nom iam armados por pavor que houvessem de nem u~u~, mas aquele tempo ti~iamno por vilania ao cavaleiro se cava[l]gasse sem armas. Quando Boorz os viu sair do castelo disse a Galaaz e a Persival: – Aqui vee~m #III cavaleiros dos seus. Por amor de Deus, outorgademi esta justa e leixademe a eles ir soo, ca eu vos digo que mim nom durarám rem. E eles lho outorgarom por preito que o ajudassem se vissem porquê. Título Fólio 529167c [Como Boorz derribou #II cavaleiros.] Entom se leixou correr Boorz aos #III cavaleiros e disselhis: – Guardadevos de mim, ca vos desfio. Quando o eles virom soo e ouvirom que os desfiava teveromno por maravilha e, porque teeriam por covardice se todos #III fossem a ele, adiantouse u~u~. E Boorz lhi deu u~a tam gram lançada que o meteu em terra, mais outro mal nom lhi fez pola loriga que era bõa. Dês i leixouse ir ao outro que já vi~ia contra ele, e feriuo tam bravamente que o meteo em terra ele e [o] cavalo sobre ele; e o cavaleiro ficou esmorido daquela caeda. Quando o terceiro esto viu, fugiu, ca houve medo de perder o corpo se atendesse o colpe daquele cavaleiro; e por em se tornou fugindo quanto o cavalo o pôde levar pera o castelo. Boorz nom quis ir pós ele e tornouse aos outros que jaziam em terra. E Samaliel foi correndo a ele e disselhi: – Senhor Boorz, outorgademim que filhi as armas de u~u~ destes cavaleiros. E Boorz lho outorgou e Samaliel foi a u~u~ e deslançoulhi o elmo e decingeulhi a espada. E o cavaleiro, que houve gram pavor da morte, pidiu mercee. – Convém, disse Boorz, se nom queres morrer, que leixes a este escudeiro tas armas e teu cavalo. E ele lho outorgou de grado Título Fólio 529167d , quando viu que per tanto poderia escapar. E o escudeiro o desarmou e foise com seu cavalo e com todalas armas pera Galaaz e rogoulhi que o fezesse cavaleiro. – Farêo de grado, disse Galaaz, mas nom hoje, ca é tarde; mas cras manhãã, qual hora quiserdes. E ele lho gradeceu muito e Boorz, quando se quis partir dos cavaleiros, disselhis: – Nom vos farei mal esta vez, mas idevos e dizee a vosso senhor o conde que em mal ponto viu o exerdamento da sa irmãã, ca ainda será por em exerdado e tornado em pobleza e em mizquindade e ja mais nom sairá do castelo que nom prenda desonra mortal. Título Fólio 530167d [Como os #II cavaleiros disserom a seu senhor o que lhes aveera.] Entom se partiu dos cavaleiros e tornouse aos outros seus. E eles sairom a recebêlo e disserom: – Pa’Santa Maria, bem fezestes! Bõõ foi vosso começo. Deus mande que seja bõa a cima. E fazeromno logo desarmar. E os #II cavaleiros que foram dirribados cavalgarom ambos no cavalo de u~u~ e foramse a seu castelo e disserom a seu senhor o que Boorz lhis fez e disse. Quando ele ouiu falar de Boorz nom foi entom seguro como ante, ca bem ouira dizer a muitos cavaleiros que Boorz de Gaunes era u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo e nom soube que fezesse. Ca, se Boorz fosse ali morto, rei Artur veeria ali por vingar sa morte e todolos da linhagem de rei Bam e deitáloiam toste a confusam e a mala ventura. E ele perguntouos: – Unde saiu Boorz de Gaunes quando a vós ve~o? – Senhor, disserom eles, de u~a choça que está a[a] entrada daquele mato. E estavam com ele #II cavaleiros todos armados, mas nom sabemos se i havia chus. – Ora leixade, disse o conde, ca cedo nos em vingaremos mui bem. Título Fólio 531167d [Como o conde mandou u~u~ donzel por veer se era mais companha com os cavaleiros.] Assi disse o conde, mas al pensava, ca dizia ca el havia pavor que rei Artur enviasse Boorz e os outros #II cavaleiros por começo de guerra. E chamou entom em puridade u~u~ donzel que era seu parente Título Fólio 531168a muito bõõ e mui vivo, e disselhi: – Vaite a aqueles cavaleiros andantes e vee quantos som e sabe se é mais companha ca aquela que mostram. E se te preguntarem cujo és nom no digas, ca hei pavor de te fazerem mal. E o doncel se partiu dele de noite a pee e fôse aas choças e achou os cavaleiros seendo ante elas ao lu~ar que fazia mui bõõ. E falavam das sas aventura[s] e confortavamse i, porque nom ti~iam que comer nem havia tal que aquele dia comesse nem bevesse. E sabede que muitos taes dias houveram eles e muito a meu´de. Quando o donzel chegou a eles salvouos o mais aposto que pôde e que soube e eles lhi preguntarom unde era. E ele disse que era do reino de Logres e de casa de rei Artur. – Bem sejas tu viindo, disserom eles. Que andas buscando? – Esto vos nom direi eu, disse ele, em nem u~a guisa, se ante nom soubesse vos[sos] nomes, ca taes podedes seer que vos direi eu toda minha fazenda e taes que nom. Os cavaleiros, que haviam gram sabor de saber novas da casa de rei Artur, nomearomse. E ele os preguntou, assi como se nom soubesse rem: – E que atendês vós aqui? E eles lho contarom assi como o conto há jádevisado. – E nom sodes, disse ele, mais ca #III? – Nom, disserom eles, sem falha. E ele se assinou da maravilha que ende houve e disse: – Per bõa fé, nunca vi tam neicios nem tam loucos cavaleiros que nom sodes mais ca #III e cercastes tal castelo como este u há mais de #CCC home~e~s armados que tam toste como eles quiserem vos matarám. – Desto, disserom eles, nom hajas tu cura. Mas ora nos di o por que te preguntámos: u leixasti rei Artur e que andas buscando? – Nom há, disse el, mais de u~u~ mês que eu leixei rei Artur em Camaalot com gram companha de ricos home~e~es e de cavaleiros e partime per seu mandado por ir buscar Sagramor u quer que o achar, ca elrei lhi manda per mim que vaa a ele tam toste que oír as novas que lhi eu trago. E, por Deus, se em sabedes algu~a rem, dizedemio ca nom posso tornar aa corte atá que o ache. E eles disserom que nom sabiam em rem e que peça havia que o nom virom. – Muito me pesa, disse o donzel. E entom xelhis espediu. – E u irás albergar? disserom eles, pois é tam tarde! – Nem mim chal, disse el, du quer que vaa, tanto que aprendesse novas do que demando. Entom se partiu deles e tornouse ao castelo e ficarom os cavaleiros que de tal cousa nom se catarom. Título Fólio 532168a [Como o conde saiu com dois seus cavaleiros pera matar os três companheiros.] Título Fólio 532168b Quando o donzel chegou a seu senhor, contoulhi canto achara. E quando o conde ouiu falar de Galaaz, que sabia verdadeiramente que era tam bõõ cavaleiro que adur podiria seer desbaratado per nem u~a gente, foi tam desconfortado que nom soube que fezesse, fora que disse ao escudeiro: – Calate, ca nom quero que estas novas sábia nengu~u~. Entom se foi deitar em u~a câmara soo, ca nom quis que lhi nem u~u~ tevesse companha. E começou a pensar mui feramente, como aquele que nom sabia que fezesse em tal feito, ca ele ouira dizer tam grandes maravihas de Galaaz que sabia verdadeiramente que nom havia nem u~a gente no mundo per que podesse seer desbaratado que per bondade de sa cavalaria que polos Il bõõs cavaleiros que eram com ele. E pois pensou gram peça em esto, ergueuse em seu leito e chamou seu reposteiro e vistiuse e pidiulhi sas armas e nom quis que homem soubesse o que el cuidara, fora #II cavaleiros que eram seus primos cõirmãos. A aqueles fez filhar sas armas e disse-lhis que fossem com ele a u~u~ logar u ele havia mester, e eles o fezerom de grado ca o amavam de coraçom. E, pois cavalgarom, sairom-se per u~a porta pequena do alcáçar. E defendeo o conde ao reposteiro que nom dissesse a nengu~u~ nada. E, tanto que sairom do castelo, disse o conde aos cavaleiros: – Vós sodes meus amigos e meus cõirmãos: e por em nom vos encubrirei rem que quisesse fazer. Assi é que aqui ante nós há #III cavaleiros andantes da casa de rei Artur que nos fezerom desonra e que nos em farom mais, se lha sofremos. Mas esto nom seeria mester de lhis sofre[r]mos que no[s] assi confundessem; e por rei Artur mim nom querer mal por sa morte nem me exerdar, por em quero que os matemos tam encubertamente que nengu~u~ nom no saiba, fora nós todos #III. – Senhor disserom eles, nos dizede que nós faremos. – Pois, disse el, vaamos aas choças u som, ca ali os acharemos desarmados, e matemo– los e ascondamo-los enesta foresta. E eles assi outorgarom. Título Fólio 533168b [Como Galaaz os derribou todos três.] Assi vi~ia o conde contra as choças; e esto era a hora de mea noite. Boorz e Persival dormiam e galaaz nom dormia que mais estava em prezes e em orações e mais pensava em Nosso senhor ca os outros. Quando el viu os #III cavaleiros vi~ir, esmou logo aquelo por que vi~i~am e filhou seu elmo e lançou-o o mais toste que pôde. E ele Título Fólio 533168c era armado de todas outras armas, fora d’escudo e de lança, e sobiu em seu cavalo e não quis espertar os outros. E quando o conde o viu estar a cavalo, fastou-se u~u~ pouco afora e disse aos outros: – Que faremos? Eles som espertos e som mui bõõs cavaleiros e temo-me que, se nos com ele juntarmos, que hajamos o pior. E os outros dous, que eram mui bõõs cavaleiros, disserom: – Senhor, nom hajades dulta, ca nom som eles mais de nós. Feride-os seguramente, ca nós os desbarataremos. E o conde se leixou ir a Galaaz quando viu que aqueles o confortavam tam bem e feriu-o tam feramente que lhi britou a lança no peito; mas outro mal nom lhi fez. E aquele que os grandes colpes soia dar e que já presera seu escudo e sa lança, feriu-o tam bravamente que lhi meteu ende o ferro polas costas e meteu-o em terra do cavalo; e, [a]o sacar da lança esmoreceo o conde. E el nom no catou chus, ante se leixou correr aos outros ambos e de u~u~ colpe meteu ambos em terra e u~u~ foi mal chagado per meio do peito e o outro foi estorgido, que nom soube se era noite, se dia. Título Fólio 534168c [Como levarom o conde Bedoim a sa irmãã.] Pois houve feito este colpe tornouse aas choças e deceu do cavalo e prendeuo po’se lhi nom alongar e leixou i a lança e tornouse u leixara os cavaleiros por saber quem eram. E quando chegou ao conde tolheulhi o elmo e começo[u]lhi a dar pola cabeça grandes colpes da maçãã da espada; e quando o conde esto viu, houve pavor de morte e pediu mercee e disse: – Ai, senhor cavaleiro, nom me mates ca em mi~a morte nom ganharias tu rem; mas leixame viver e eu ti digo que prol e honra te em verrá. Quando Galaaz esto ouiu, entendeo pelo que lhe prometia que era alto homem. E por saber em mais a verdade, disselhi: – Di-me teu nome ou se nom tu és morto. – Ai, senhor, disse ele, direivolo, per preito que nom receba mal. – A dizer te convém, disse Galaaz, ou querendo ou nom. – Ai, Senhor, disse el, mercee! eu som o conde Bedoim. Quando Galaaz ouiu que ele era o conde foi mui ledo a maravilha, ca logo viu que a guerra da dona era acabada. E Galaaz fez sembrante de homem mui san[h]udo e disse: – Eu ti nom lheixarei em nem u~a guisa do mundo viver, ante te conta por morto. E o conde juntou as mãos contra el e disse: – Ai bõõ cavaleiro, mercee! Nom me mates, ca eu farei todo que me tu mandes. – Pois afiame, disse Galaaz, e pois, se meus companheiros se i outorgam, leixart’ei viver; se nom, tu és morto. E Bedoim o afiou com grande espanto. – Ora, disse Galaaz, trei migo. E ele o fez a mui gram Título Fólio 534168d afam; e os outros #II seus cavaleiros, quando o virom levar, nom no ousarom acorrer, ca bem sabiam ca lhis nom valeria rem, nem ao castelo nom ousarom tornar, ca bem sabiam que os do castelo os matariam quando os vissem tomar sem seu senhor. E por em se forom ao mato assi como poderom. E Galaaz, quando chegou aas choças, espertou os outros e disselhis: – Levadevos e veredes que fremosa aventura nos fez Deus haver. E eles se levarom e preguntaromno: Senhor, que é? – Vedes aqui, disse el, o conde Bedoim, que vos trago; aa mercee de Deus ora havemos nossa guerra fiinda. Cavalguemos e levemolo a sa irmãã e metamolho na mão e fará del o que quiser. – Ai, Senhor, mercee, disse o conde, mais quero que me matedes aqui ca me levardes alá. Ca ela me desama tam mortalmente que sei bem que me fará de mais estranha morte morrer ca nom lho mereci. – Certas, disse Galaaz, a ir vos convém, ou queirades ou nom, e sofrer o que ela em vós quiser fazer. Quando el viu que nom podia i al fazer, cavalgou em u~u~ dos cavalos [dos] outros que se forom e os outros ar cavalgarom e partirom-se dali e seu escudeiro com eles e, pois andaram atá que foi dia, Galaaz disse a seus companheiros: – Levade este conde a sa irmãã. E ensinou-lhis u era. – E rogo-vos, disse Galaaz, que moredes tanto com ela tá que seja entregada de toda sa terra e que lhi correga a sa vontade quanto lhi errou segundo o que ele pode e o que vós i virdes por bem. E eu irei a algu~u~ logar preto daqui u faza este escudeiro cavaleiro, assi como lhi prometi. Título Fólio 535168d [Como Galaaz fez Samaliel cavaleiro.] Assi partirom Boorz e Persival e levarom o conde. E Galaaz se foi a u~a ermida que sabia preto dali e rogou ao irmitam que lhi cantasse missa e el o fez. Pois ouiu missa, Galaaz fez Samaliel cavaleiro e sabede que Samaliel foi tam grande que em toda casa de rei Artur nom houve tam gram cavaleiro. E assi como era grande, assi lhi ar fez deus tanto bem que foi mui bõõ cavaleiro d’armas e ardido f[e]ramente assi que muitos disserom que, sem falha, era u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo. Quando Galaaz o fez cavaleiro assi como era custume daquele tempo, disse-lhi: – Faze como sejas tam bõõ cavaleiro que [a] alteza da tua linhagem nom prenda desonra em ta cavalaria. – Meu Senhor dom Galaaz, disse el, eu devo a seer mui ledo porque recibi a ordem de cavalaria de tam bõõ homem como vós sodes. E eu sei bem que vós sodes o melhor cavaleiro do mundo. E pois Deus quis que eu tam gram honra prendesse que som cavaleiro por tal home[m] Título Fólio 535169a como vós, eu prometo a Deus que ja mais nom folgarei atá que saiba se poderei semelhar meu padre de cavalaria. Se enest[e] ano nom som tal que me tenham por bõõ cavaleiro d’armas em este reino e em muitos outros, já Deus nom m’ajude se, dês i, trouxer escudo nem lança por coita qu[e] haja. E Galaaz disse: – Muito hás dito. Deus te faça tal qual eu quiria. Título Fólio 536169a [Como Galaaz achou Samaliel chagado.] Tal promessa fez Samaliel, filho de rei Froila, o dia que foi cavaleiro. E pois lo fez, disse a Galaaz: – Senhor, eu me quero ir; comendo-vos a Deus. – Deus vos guii, disse Galaaz. Entom se partiu u~u~ do outro mui bem armados a sa vontade. Galaaz se foi buscando as aventuras do reino de Logres, ca assi havia a fazer. Ao terceiro dia lhi aveo que achou em u~u~ vale Samaliel chagado mui mal de muitas chagas e seu cavalo tam cansado que a poucas caia. E eles, tanto que se virom, conoceromse e disse u~u~ ao outro: – Senhor, bem venhades. – Senhor, bem venhades. E quem vos chagou assi? disse Galaaz. – Senhor, disse el, u~u~ cavaleiro da Mesa Redonda que chamam Ivam, filho de rei Uriam. E el me cometeu ora ali suso em aquel outeiro e nom sei porquê, se Deus m’ajude. Mas nom ganhou i rem, ca o leixei jazendo em terra, nom sei se chagado a morte ou se podiria em goracer. – E u ides vós, disse Galaaz, a atam gram coita? – Eu vou, disse el, despós u~a donzela que me leva u~a espada que foi de meu padre, que me dera a noite. E eu a pendurara em u~a árvor quando Ivam me cometeu; [e ela] a filhou enquanto nos combatemos e nom na quiria perder em nem u~a guisa. E por em convém que me parta de vós e comendovos a Deus. – A Deus sejades encomendado, disse Galaaz, mas guardadevos de nom irdes longe, ca vos seerá gram pirigoo. – Si farei, disse el. Entom se partirom u~u~ d’outro. Título Fólio 537169a [Como Galaaz achou Ivam chagado.] Galaaz se foi contra u cuidou que achasse Ivam e, quando chegou u el jazia, achouo tam mal treito que nom havia poder de se ergue[r]. E deceu por veer como lhi ia e tolheu o elmo por folgar mais. E Ivam, que jazia mui coitado e que havia Título Fólio 537169b muitas chagas perigosas, abriu os olhos e perguntou: – Cavaleiro, quem sodes? – Eu som, disse el, Galaaz, u~u~ cavaleiro a que pesa da vossa maa andança. Por Deus, dizedemi se cuidades escapar. – Si, senhor, disse el, sem falha, ca nom hei nem u~a chaga mortal. Ai, senhor Galaaz, muito há que vos desegei a veer, ca muito ouí de vós falar, e vós sejades o bem vi~i~do. A vós posso eu dizer mia fazenda mais seguramente ca outrem. Eu hei tantas chagas pequenas e grandes que nom cuido ende escapar. E rogovos por Deus que me ajudedes aa sobir em meu cavalo e irm’ei a u~a abadia que aqui há preto ou morrer ou viver. E Galaaz lhi foi buscar o cavalo e adusselho e ajudouo a cavalgar e foi com el atá [a] abadia e fezeo i decer e fezlhi guardar sas chagas a u~u~ velho cavaleiro que i era frade que o segurou que nom moriria daquelas chagas mas que seria em cedo são com ajuda de Deus. Assi achou Ivam conselho das sas chagas que Samaliel lhi fezera, e morou i #IIII dias Galaaz por amor dele; e ao quarto dia lhi preguntou porque fora aquela batalha entre el e o cavaleiro. – Certas, disse Ivam, esta foi por Lucam o Copeiro que el derribou e lhi fez u~a mui gram chaga; e eu foi pós el polo vingar e aveome ende assi como vedes. Mas tanto vos digo bem do cavaleiro que el é, a meu ciente, u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo e que bem fere da espada. Manhãã partiuse Galaaz dele e ar meteuse aa carreira por ir buscando as aventuras do reino de Logres como soía. Mas ora leixa o conto a falar deles e torna a Samaliel. Título Fólio 538169b [Como Samaliel prometeu que sempre trouxesse duas espadas.] Samaliel, pois se partiu de dom Galaaz, andou tanto assi chagado como era, que acalçou a donzela e filhoulhi a espada e deitoua ao arçom. E ela lhi disse: – Senhor cavaleiro, vós mi filhades a espada a força; e sabede que se vos acho u a força seja mi~a, eu vola farei caramente comprar. E el nom respondeu a rem que ela disse. Ao serão lhi aveo que chegou a u~a casa u Keia o Mordomo albergava. E quando K[e]ia lhi viu duas espadas maravilhouse, ca nom era de custume entom de nem u~u~ cavaleiro trager #II espadas em no reino de Logres se nom fosse por prometêlo ou por jurálo. E se algu~u~ fosse tam ousado que trouxesse Título Fólio 538169c #II espadas de custume nom poderia recear #II cavaleiros que a batalha o chamassem. E por esto se maravilhava Keia daquele que tragia #II espadas e calouse atá que visse hora em que o preguntasse. Aquele serão, mentre severom aa mesa, catou Keia muito Samaliel, ca muito lhi semelhou bõõ cavaleiro; e quando viu que era sazom de o preguntar, disselhi: – Senhor cavaleiro, eu vos queria rogar que vós per vossa cortisia mi disséssedes quem sodes. E el respondeo entom: – Senhor, eu som u~u~ cavaleiro estrainho que tam pouco vivi no reino de Logres que ainda nom som de nem u~a nomeada nem nem u~u~ nom me deve em culpar, ca muito há pouco que foi cavaleiro. – Pois como, disse Keia, sodes tam ousado de trager #II espadas? Nom sabedes o costume das #II espadas trager? – Nom, disse el, mais devisadimio, si Deus vos ajude. E Keia lho divisou entom, assi como o conto há jádivisado. – Certas, disse Samaliel, nunca ende ouí falar; mais eu tragia u~a por amor de meu padre cuja foi, e a outra por amor daquele que me fez cavaleiro, que mia cingeu, e amoas tanto ambas que nom posso leixar nem u~a. Pois que me assi aveo que as trago e nom sabia que me fazia, prometo a Deus que sempre as traga mentre mantever cavalaria. – Certas, disse Keia, sobejo havedes dito. Tanto é forte cousa em este começo que eu cuido que ainda vos acharedes mal. – Ora nom sei, disse el, que me ende averrá, mas, pois assi é, Deus mande que me ende bem venha. Título Fólio 539169c [Como Samaliel desamava Queia por morte de seu padre.] Entom preguntou a Keia: – Se Deus vos valha, dizedeme quem sodes. – Certas, disse el, eu som Queia, o Moordomo de rei Artur. E som da Mesa Redonda. E quando Samaliel ouviu falar de rei Artur bei[x]ou a cabeça e começou a pensar, assi que bem esmou Keia, per aquele pensar, que lhi pesava das novas que lhi dera. E Samaliel disse a cabo du~a peça: – Vós sodes o homem do mundo que eu peor quero, ca me matou meu padre e mim fez tam gram dano. Aquele dia que ali eu havia gram peça da bõa ventura do mundo me tornou a pobreza e a lazeira unde ainda lhe a hajo. – E quem foi vosso Título Fólio 539169d padre? disse Queia. – Meu padre, disse el, foi Froila, o príncipe d’Alemanha que foi rei de França que matou rei Artur em u~a ínsoa de Paris. E por esto o nom poderia eu ja mais amar, ante o desamarei mentre viva. Título Fólio 540169d [Como Queia desfiou Samaliel e el o derribou.] Quando Keia esto ouiu, nom se pôde encobrir que nom dissesse: – Senhor cavaleiro, eu som homem de rei Artur e tam seu natural que eu desleal seeria se o nom vingasse de todos seus inmigos a todo meu poder. E por amor dele vos digo que nom havedes no mundo maior enmigoo de mim. E bem volo amostrarei tanto que daqui sairdes. Mas aqui nom devedes que temer pois comemos de su~u~. E Samaliel respondeu: – Quando me cometerdes, se poder defenderm’ei. Tanto disserom aquela noite e nom falaram mais em esto. E sabede que pois foi cavaleiro, que poucas vezes comeu senam pam e água se nom foi per companha, nem ja mais homem nom havia sabor de matar se pro defendimento de seu corpo nom fosse. Outro dia, quando prês sas armas, meteuse aa carreira por demandar aventuras como os outros cavaleiros faziam. E nom andou muito que nom achou Keia que estava u~u~ pouco afora do caminho e o atendia. E quando Keia o viu chegar, deulhi vozes: – Senhor cavaleiro, guardadevos de mim, ca nom vos quero ferir sem desfiar. E bei[x]ou a lança polo ferir. Samaliel, que era mui vivo e mui ardido, deulhi u~a lançada que o meteu em terra ele e o cavalo, mas outro mal nom lhi fez, ca a loriga era bõa; pero foi mui britado da queeda, polo cavalo que caeu sobre ele. E aquel que o derribou nom no catou chus, ante passou per ele e foise. E sabede [que] cavalgava a mui gram afam por sas chagas que ainda nom houvera guardadas se pouco nom. E esto era u~a cousa que lhi nuzia tanto que, se nom fosse de grande coraçom, que o nom sofreria em nem u~a guisa. Título Fólio 541169d [Como Samaliel achou Giflet e Gaeriet.] Samaliel cavalgou todo aquel dia a mui gram afam. Ao serão lhi aveo que chegou aa entrada de u~a foresta e albergou i em casa du~u~ montaneiro e jouve i u~u~ mês. E pois foi guarido das chagas em Título Fólio 541170a guisa que poderia cavalgar, partiuse e meteuse aa carreira por buscar aventuras como ante. [U~u~] dia, indo assi, aveolhe que achou Gaeriet e Giflet e esteverom tanto que lhi virom trager duas espadas, e disse Gaeriet a Giflet: – Ora vejo eu o que nunca vi, peça há. – Senhor, disse el, quê? – Este cavaleiro que trage duas espadas. E nom é dos mais covardos do mundo. Eu cuido que se el nom fosse melhor ca outro el nom começaria tam alto começo. Vaamos a ele! nós somos #II, assi como el foro manda. – Nom praça [a] Deus, disse Gaeriet, que eu c[o]m ajuda d’outrem o cometa, pois é soo. E se el fez seu alto começo, eu nom no devo em a culpar, ca sei bem que seu gram coraçom lho conselhou. Mas, se vós havedes talam de justar, ide a el soo e, se vos el dirribar, eu vos vingarei a meu poder. Título Fólio 542170a [Como Giflet desfiou Samaliel e como Samaliel o derribou e a Gaeriet.] Entom deu vozes Giflet a Samaliel: – Senhor cavaleiro, a justar vos convém. Guardadevos de mim. E quando Samaliel viu que se nom podia partir per al, leixouse ir quanto o cavalo o pôde levar e feriuo atam vivamente que o escudo ne[m] loriga nom lhi prestou que lhi nom fezesse u~a gram chaga, mas pero nom mortal; e meteuo em terra e, ao tirar da lança, deu Giflet u~a voz muito doorida ca muito se sentiu mal treito. Quando Gaeriet viu esto, disse com pesar: – Giflet, em f[ol] preito vos m[e]t[e]stes; eu cuido que nom saiamos ende a honra, mas como quer que me ende avenha, provarei se vos poderei vingar. Entom se leixou ir a Samaliel e disselhi: – Guardadevos de mim, cavaleiro. E Samaliel, que viu que a fazer lhi convi~ia, volveu a ele. E Gaeriet o firiu assi que lhi fez u~a gram chaga em meo do peito; mas da sela [nom] no moveu e a lança voou em peças. E Samaliel, que era de maior força, acalçouo melhor ca o firiu tam bravamente que meteu ele e o cavalo em terra; mas nom no chagou ca a loriga era bõa e, dês i, passou per ele. E pero, quando se sentiu chagado Título Fólio 542170b , quis tornar a Gaeriet polo matar; mas depois ar pensou que seria a maior vilania do mundo se em cavaleiro metesse mão depois que o dirribasse se o cavaleiro o nom chamasse aa batalha. E por em se foi. E Giflet, quando o viu ir, ergueose e foi a Gaeriet que outrossi se erguera jáe disselhi: – Dom Gaeriet, vaamos pós ele, ca maus seremos se nos assi escapar. – Dom Giflet, disse Gaeriet, vós faredes i vossa vontade; mas eu som aquele que esta vez nom irei pós ele, ca tam bem se quitou do que nos divia que seria gram vilania de lhi mais buscarmos. Mais nom vos digo, se outra vez o acho, que nom faza i meu poder aa espada; mas esta vez nom farei i chus. Título Fólio 543170b [Como Samaliel achou rei Artur dormindo e como filhou sa espada.] Assi disserom os #II cavaleiros. E Samaliel se foi cavalgando da u~a parte e da outra e demandando as aventuras. E tanto fez em pouca saçom que foi sa nomeada mui grande, assi em casa de rei Artur como em outras muitas terras. E diziam todos aqueles que o viam que o filho de Froila, se vivesse, seeria u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo. E rei Artur, que o ouiu, disse: – Se el for bõõ cavaleiro nom é maravilha, ca muito foi seu padre bõõ cavaleiro. Uu~ dia aveo que Samaliel ia pola foresta de Camaalot soo – esto era a entrada do inverno – e rei Artur aquele dia fora a[a] foresta por caçar e perderomse dele todos seus homens fora u~u~ escudeiro. El-rei era lasso e cansado da sa caça e deceu ante u~a fonte e deitouse a dormir. E o escudeiro lhi gardou o cavalo e tragiao da u~a parte e da outra polhi nom aguar. E elrei jazendo dormindo aveo que Samaliel chegou i assi armado. Como elrei jazia, e porque o nom conocia, preguntou ao escudeiro: – Quem é aquel cavaleiro que ali dorme? E el, que de tal cousa nom se guardava, respondeu: – Este é rei Artur. – Assi? disse Samaliel; be~eitas sejam estas novas! Ora haja mala ventura se nom vingar meu padre que me matou. Quando o escudeiro esto ouiu, houve gram pavor de seu senhor polo cavaleiro que andava armado e deulhi vozes: – Ai, Senhor, levadevos, Título Fólio 543170c levadevos, ca este cavaleiro vos quer matar. Elrei dormia tam feramente que se nom espertou. E Samaliel, quando viu que o escudeiro braadava, meteo mão a espada e fez sembrante que lhi queria talhar a cabeça; e aquele, que houve pavor de morrer, juntou as mãos contra a espada e disse: – Ai, Senhor, mercee! Eu me calarei; outrossi fará todo o mundo, pois vós tal homem como este matardes, ca depois sa morte nom haveram em que falar. Quando Samaliel esto ouiu foi espantado e camiouxelhi o coraçom, ca ti~ia rei Artur por u~u~ dos milhores home~e~s do mundo e que acolhia a si todolos home~e~s bõõs que a ele viinham; pero deceu e levou seu cavalo a u~a árvor. E el ti~ia na mão sa espada nua, aquela que fora de seu padre; e foise assi a rei Artur e este[v]eo catando. E poilo viu tam grande e tam bem talhado, disse: – Certas, se este nom fosse bõõ gram torto seeria, ca de quantos reis eu vi semelha mais guisado de seer bõõ. E entom começou a pensa[r] se o mataria ou se o leixaria. E disse em seu coraçom: – El me matou o padre e, se eu sa morte nom vingo, poilo hei guisado, todo o mundo me em te~eria por mau; e d’outra parte, se eu rei Artur matar que é o melhor rei do mundo e que sempre melhor e mais honradamente manteve cavalaria ca outro rei, esto seerá a maior mala ventura e o maior pecado que nunca aveo em terra. Assi pensava Samaliel em estas cousas u ti~ia a espada nua ena mão e queria vingar morte de seu padre. Mas nom pôde ca esto o partiu em que sabia que tam grande dano nom poderia vi~ir ao mundo por morte de u~u~ homem. Entom chamou o escudeiro e disselhi: – Sabes tu quem som? – Senhor, nom, disse el. – Ora sabi, disse el, que eu som [S]amaliel, filho de Froila que foi rei de Gauna que rei Artur matou ante Paris. E eu quisera vingar a morte de meu padre e havia gram sabor quando aqui viim. Mais o grande bem que os homens bõõs dizem de rei Artur mi tolheu ende a vontade e por ende o quero ainda leixar viver. Mas por saber a bondade que eu i fiz lhi leixarei a espada de meu padre e levarei a sua, polhi nembrar de mia cortisia e de mi~a mesura mentre a trouxer. Entom filhou a espada que elrei tragia e leixou a sua e, dês i, subiu em seu cavalo e foi sa via. Ora leixa o Título Fólio 543170d conto a falar de Samaliel e torna a rei Artur. Título Fólio 544170d [Como rei Artur se maravilhou da aventura de Samaliel e a fez meter por escripto.] Pois que rei Artur dormiu gram peça espertouse e pidiu seu cavalo ao escudeiro e el lho adusse. E elrei cavalgou e, quando veeo ao cinger da espada e viu que aquela nom era a sua, preguntou o escudeiro: – Quem me cambou mia espada? E el respondeu: – Ai, senhor, vós nom sabedes como vos ora aveo mentre dormistes! Nunca, a meu ciente, [tam] fremosa aventura a home[m] viu, ca vos f[o]stes em perigoo de morte. Entom lhi contou todo quanto vira e ouira a Samaliel. – Certas, disse elrei, se me matasse nom seeria gram maravilha ca, sem falha, eu lhi matei o padre. Mas por tam gram cortisia e por tam gram bondade como el fez em mim lhi daria ende eu o galardom de grado se me aveesse. E por renembrança da sa mesura tragerei toda via esta espada se coita mi a nom fazer cambar por melhor. Muito foi elrei ledo daquele aventura que lhi aveera e maravilhavase de Samaliel como, seendo tam mancebo, soubera fazer tam gram cortisia. Muito pensou rei Artur aquele dia enesto. Quando chegou a Camaalot contou todo na sa corte e quantos ouirom disserom que ja mais nom faleceria em seer homem bõõ. El-rei fez meter esto em escripto no gram livro das aventuras. Mas ora leixa o conto a falar de rei Artur e de Samaliel e toma a Lançalot. Título Fólio 545170d [Como Lancelot chegou ao castelo de Corbenic.] Pois Galaaz se partiu de seu padre, assi como o conto há jádevisado, ficou seu padre na barca e andou pois polo mar muitos dias assi como a ventura o tragia. U~a noite lhi aveo que a ventura põs a barca ante Corberic na riba aa entrada da ponte. E, pois Lançalot catou bem o castelo, conoceuo que era Corberic e gradeceu muito a Nosso Senhor esta aventura, ca bem lhi semelhou que sa demanda seeria acabada ou a sa honra ou a sa desonra. Quando filhou sas armas encomendouse a Nosso Senhor e deceu da barca e foi-se aa porta. E, tanto que deceu, viu a barca ir tam de rijo como se todolos ventos do mundo a levassem. E pois esteve tanto que a nom pôde veer, foise pola ponte a pee e armado e entrou no castelo per u~a porta pequena e foise ao grande paaço e nom achou ningu~u~ que lhi rem dissesse ca já era mea noite passada e todos dormiam. E quando el chegou Título Fólio 545171a ao paço, aquele que chamavam Paaço Aventuroso, achou a porta aberta e assinouse e comendouse a Deus e entrou dentro e gradeceu muito a Nosso Senhor de que o levar[a] [i]. Título Fólio 546171a [Como Canabos o encantador fundou o castelo de Corberic.] E se alguém mi preguntar porque nom podiam ir os cavaleiros andantes a Corberic pois sabiam que i o Santo Graal era, eu lho direi assi como a verdadeira estória o conta. O Castelo de Corberic nunca se movia; mas Canabos, o encantador, que foi ante rei Uter Pandragom e que era o mais sisudo de negromancia que havia no reino de Logres, fora Merlim, fundou aquele castelo em tal guisa que nem u~u~ cavaleiro estrainho que o demandasse nom no podesse achar se a ventura o i nom levasse. E se C vezes i foisse já nom saberia ir i mais toste. E se alguém que a carreira soubesse i quisesse levar cavaleiro estranho já mais nom no saberia i levar. E todo esto fezera Canabos por u~a sa molher que era mui fremosa que u~u~ cavaleiro amava. Unde aveo que, pois ele fez o encantamento, que o cavaleiro nom pôde ir aa dona nem a dona a ele. E por em mor[re]ram ambos quando virom que se nom podiam veer. Aquel encantamento durou dês ante que reinasse Uter Pandragom atá a vi~inda de rei Charles o Grande que o fez derribar e destruir. E nunca pois ar foi feito. Ora vós sabedes esto, tornarvosei a m~ia razom. Título Fólio 547171a [Como Lancelot queria veer o Santo Vasso e caeu em terra esmorido.] Quando Lançalot entrou no Paaço Aventuroso andou per ele tá que chegou a u~a câmara u viu gram lume. E entrou dentro por veer que havia i, e nom achou fora duas candeas grossas que ardiam i. E foise de câmara em câmara atá que chegou aa câmara u o Santo Graal era; e ali viu el tam gram lume como se fosse hora de meio dia. E catou a câmara e via tam fremosa e tam rica que nunca viu cousa que lhi tam bem parecesse. E em meo da câmara estava a távoa de prata em logar d’altar e o Santo Vaso de suso, cuberto tam ricamente como era aquele dia que Josep fez o primeiro bispo i cantou missa. Quando el viu o logar u o Santo Vaso estava coberto logo soube bem que aquele era o Santo Graal e disse: – Ai, Deus! Como seeria bem aventurado quem podesse ora veer aquele Título Fólio 547171b vaso que ali está coberto, por que tantas grandes maravilhas aveerom no reino de Logres! Entom catou de todas partes se poderia veer alguém que o destrovasse d’entrar alá, ca ele queria ir até a santa mesa e descobri[r] o Santo Vasso por veer que i havia. Entom ouiu u~a voz que lhi disse: – Lançalot, nom entres dentro ca ti nom é outorgado. Mais el era tam desejoso de veer o por que tantos homens bõõs se trabalharam, que se lançou dentro o mais que pôde; mas nom entrou muito que sentiu muitas mãos que o filharom polo corpo e polos braços e polos cabelos e sacaromno fora e deram com el tam grande caeda em terra que cuidou seer morto e jo[u]ve em esmorido até que foi dia claro. Título Fólio 548171b [Como acharom Lancelot esmorido e como o conheceu a filha de rei Peles.] Pola manhãã, quando os cavaleiros entrarom dentro e acharom o cavaleiro armado jazendo ante a porta da câmara do Santo Graal, ass[u~]aromse todos por veerem se o podiriam conocer; e acharomno tam mal treito que nom podia me[c]er pee nem mão. E desarmaromno de todo e levaromno ao paaço delrei; mas nom houve i tal que o podesse conocer, nem elrei Peleam, pero muitas vezes o vira. E nom no pôde conocer, mas tanto conoceu que nom era morto. Mas bem cuidou que morreria cedo porque nom me[c]ia niu~u~ dos seus nembros. E fezeo por em guardar todo aquele dia. Contra a noite aveo que a fremosa filha delrei Peles o veo veer; e pois o catou gram peça conoceu que era Lançalot, o homem do mundo que ela mais amara. Quando o viu tal, houve tam gram pesar que maravilha, e disse: – Certas, Senhor, se vós morrerdes, esto será gram dano e gram perda do mundo. Pois esto disse, foise, e os que ficarom entenderam que o conocia. E ela, pois foi em sa câmara, começou a fazer o moor doo do mundo e as novas foram a elrei que sa filha conocera o cavaleiro. E elrei enviou por ela e disselhi que lhi dissesse quem era o cavaleiro. E ela lho disse. – Assi? disse ele, muito me pesa Título Fólio 548171c do seu mal. Entom o fez levar a u~a câmara e espilo. E sabê que eles, quando lhi acharom a estamen[h]a vistida, que se maravilharom muito porque sabiam a mui viçosa vida de Lançalot e nom podiam cuidar que trouxesse tam áspera vistidura. E, depois que o espiram, deitaromno em u~a câmara, longe de gente, e fezeo elrei guardar mui bem. E el i ficou porque esmou que logo morresse. Título Fólio 549171c [Como Lancelot jouvve #XXIIII dias em Corberic e ao #XXV foi guarido.] Que vos direi? Em tal guisa jouve Lançalot ali #XXIIII dias que nom comeu nem beveu, nem ningu~u~ nom lhi viu fazer sinal per que [nom] cuidasse que logo morreria. Aos #XXV dias vêo i um irmitam de mui santa vida a que Nosso Senhor mostrava muitas das sas poridades. Quando el-rei o viu entrar, foi contra ele polhi fazer honra. E pois falarom gram peça, disselhi elrei: – Vaamos veer u~a maravilha que vos quero mostrar. E o irmitam lhi disse: – Este é Lançalot que mi vós queredes mostrar. E ele respondeu: – Senhor, vós dizedes verdade. E, por Deus, se vós sabedes como vive tanto em tam gram cuita, dizedemio. – Senhor, disse o irmitam, ele mereceu bem o que sofre. Hoje há #XXV dias que esta coita sofre e logo a perderá. E estes #XXV dias senificam #XXV anos que foi cavaleiro da Santa Igreja. E se nom fosse u~u~ pecado em que tam longamente durou nom falecera que nom houvesse honra e loor em esta demanda. Esto disse o homem bõõ de Lançalot. E dizia verdade. Em outro dia, hora de prima, falou Lançalot e preguntou u era, ca lhi nom nembrava que era em casa de rei Pescador. Elrei, que estava ante el, disse: – Vós sodes em Corberic. Entom lhi lembrou da câmara u fora e u vira o Santo Graal e do que lhi dissera a voz. E elrei lhi disse: – Como vos sentides? – Eu me sentiria bem e bem me averia se sempre morasse no prazer que vi. Mas pesami que me tolherom em. – E cuidades guarecer? disse elrei. – Guarido som, disse el, ca nom sento nem u~u~ mal. Entom Título Fólio 549171d se fez vistir, mas pesoulhi muito da estamen[h]a que lhi filharom e, com vergonça nom na ousou pidir. As novas foram polo castelo que o cavaleiro que tam longamente jouvera esmorido era já são, e todos o forom veer a maravilha. Mas nom houve i tal que soubesse quem era, fora elrei e sa filha, mas ante de crecer o dia o souberom os mais e fezeromlhi maior honra ca ante. Título Fólio 550171d [Como as frestas e as portas se começarom a abalar e a çarrar.] Ao terceiro dia aveo que rei Peles siia a seu manjar no Paaço Aventuroso e eram já todos servidos da graça do Santo Vasso. E eles assi see[n]do começaromse as frestas e as portas todas do paaço a abalar e a çarrar e nengu~u~ nom nas tangendo, e abalavamse assi como se fezesse tempestade. E Lançalot que siia já perto delrei, preguntouo: – Senhor, que [é] esto que se faz aqui assi como se fosse tempestade? – Esto vos direi eu bem, disse elrei. Esto é u~a demostraçom que Nosso Senhor mostra a meu´de aos cavaleiros da Mesa Redonda que se metem na demanda do Santo Graal e nom andam meenfestados e fazemse chamar sergentes da Santa Igreja e pero nom no som; amostralho aqui Nosso Senhor assi, ca, pois aqui veem e querem entrar em este paaço que há nome Paaço Aventuroso, todalas freestas e todalas portas se abalam e çar[ram]se assi contra eles. E por este sinal que vós veedes sei eu verdadeiramente que está algu~u~ cavaleiro aventuroso aa porta que entrar quer e nom pode. Título Fólio 551171d [Como nom leixarom entrar Estor e como se tornou chorando muito.] El-rei enesto falando, ouirom u~u~ cavaleiro aa porta que dava vozes: Elrei disse a Lançalot: – Ora podedes ouir o que vos eu dizia. Este é dos cavaleiros da Mesa Redonda. – Ai, Senhor! disse Lançalot, fazedeo entrar. – Esto nom poderia eu fazer, disse elrei, em nem u~a guisa que quisesse. Entom chamou u~u~ dos seus cavaleiros e disselhi: – Ide dizer a Título Fólio 551172a [a]quele cavaleiro que fora está que se vaa sa via ca nom pode cá entrar. E o cavaleiro foi aa freesta e abriua e viu no curral estar Estor de Maris sobre u~u~ gram cavalo a maravilha e disselhi: – Senhor cavaleiro, idevos vossa via, ca nom entraredes aqui, ca muito alto subistes. E esto lhi dizia o cavaleiro por escarnho. E tanto que Estor esto ouiu logo lhi lembrou do sonho que sonhara e de como o hornem bõõ lho soltou. E houve entom gram pesar, que bem quisera seer morto, ca bem via que, por cousa que ele houvesse feita na demanda do Santo Graal que nom haveria prez nem loor quando se tornou a[a] côrte, mas vergonha e desonra. E o cavaleiro lhi preguntou como havia nome. – Eu hei nome, disse el, Estor de Mares que em mal ponto filhei escudo por mim ca eu som tam escarnido esta vez que ja mais nom haverei honra. Entom tornou chorando muito e foise pelas ruas do castelo com tam gram pesar que bem quisera seer morto. E o cavaleiro se tornou a rei Peles e disselhi que o cavaleiro se ia. E pois disselhi que era Estor de Mares. Título Fólio 552172a [Como elrei enviou seus cavaleiros pós ele e nom quis tornar e como achou Galvam e Gaeriet.] Quando elrei ouiu que aquele era Estor, irmão de Lançalot, disse a seus cavaleiros: – I após ele, ca, por nom entrar ele em [es]te paaço, nom lhi leixarei eu por em fazer muita honra e muito amor. Entom cavalgarom os mais e acalçarom Estor fora do castelo e disseromlhi o que elrei enviava dizer. E ele disse que nom tornaria em nem u~a guisa. – Senhor, disserom eles, si faredes, ao meos por amor de Lançalot, vosso irmão, que é i e que volo envia dizer por nós. – Como? disse el, i é meu senhor e meu irmão? – Si, [sem] falha, disserom eles. E el houve tam gram pesar destas novas que disse: – Ora nom quero eu ja mais trager armas nem ja a Deus nom praza que eu ende haja o poder ca ja mais nom haverei honra por cousa que fazer possa quando meu irmão sabe a [des]onra que me aqui aveo. Entom se partiu deles e foise quanto o cavalo o pôde levar, e mal dizendo a hora em que fora nado e em que for a cavaleiro e em que troux[e]ra armas. Ca sua linhagem, em que havia os melhores cavaleiros Título Fólio 552172b do mundo, ja mais nom haverám honra per ele, mais desonra e viltança. – Assi se foi Estor fazendo seu doo. E nom andou muito que achou Galvam e Gaeriet. E salvaromno, ca o conocerom de mui longe. E ele esteve e salvouos mui tristemente, assi como homem que há pesar. E quando Galvam viu que tam tristemente o salvava, cuidou que era pola morte de Erec, unde o arriçara e passouse per ele. E Gaeriet, que amava muito Estor, esteve e rogoulhi pola fé e pola companha que entre eles havia que lhi dissesse a verdade do que achara. – Ca bem sei, disse ele, que algu~a rem achastes donde viindes de que hou[v]estes pesar. E Estor lhi contou quanto lhi aveera em Corberic. – E nom dava, disse el, rem por em, se nom fosse meu irmão que era i e que viu mi~a mala ventura. E Gaeriet, que o amava muito, confortou[o] quanto pôde e disselhi: – Ai, dom Estor, nom vos dedes tam gram pesar. Sabede que muitas peores aventuras ca esta aveerom em esta demanda a muitos homens bõõs da Mesa Redonda. E pois vós tantos companheiros havedes nas perdas e em nas maas andanças devedevos a confortar. E ele disse que assi o faria, mas havia em gram pesar. – Ora vos rogo, disse Gaeriet, que vaades pousar a u~u~ castelo du~a mi~a parenta que é preto daqui e i me atendede atá que torne de Corberic. E sabede que me tornarei pera vós e contarvosei o que aveer a mim e a meu irmão. E Estor disse que o nom atenderia mais de #II dias. Título Fólio 553172b [Como Galvam e Gaeriet se foram ao Paaço Aventuroso.] Entom se partirom. Estor se foi pera u lhi ensinou Gaeriet e Gaeriet se foi depós seu irmão. E, pois lo acalçou, cometerom d’andar contra Corberic. E nom andarom muito que virom o castelo. E Galvam dissi: – Ai, Deus! Senhor, se vos prouguer, leixademe entrar em este castelo e sair ende a maior honra ca já outra vez saí. – Como? disse Gaeriet, desonra[do] fostes aqui? – Si, disse ele, que nunca o foi peor em logar u fosse. – Ora nom vos venha em tal, disse Gaeriet, ca, se aquela vez nom hou[v]estes bõ[a] andança, ora haveredes bõa. Entom entrarom no castelo Título Fólio 553172c e foramse ao alcáçar. E quando chegarom ao Paaço Aventuroso, nom poderom entrar, ca acharom as portas e todalas freestas çarradas. Quando Gaeriet viu esto logo soube polo que lhi dissera Estor que nom poderia entrar e houve tam gram pesar que bem quisera seer morto. E Galvam começou a dar vozes: – Abride! Abride! E a cabo du~u~ pouco chegou u~a donzela que lhi disse: – Quem sodes vós, cavaleiro, que entrar queredes? E ele se nomeou. E ela disse: – Dom Galvam, ir-vos podedes, ca vós aqui nom podedes entrar nem vosso companheiro. Mas, se vos prouguer d’albergardes eneste castelo, muitos acharedes i que vos faram honra e amor. – Como? disse Gaeriet, nom poderemos nós aqui entrar? – Nom, disse ela, ca nom praz a Nosso Senhor. E per esto podedes veer que nom servistes Nosso Senhor em esta demanda como deveríades. E el respondeu com gram pesar: – Donzela, pesame. Entom disse Galvam a Gaeriet: – Irmão, tornemosnos, ca nom estaria eu aqui mais, pois dentro nom posso entrar. E assi ar disse Gaeriet. Entom se tornarom. E a donzela preguntou a Gaeriet como havia nome. E el disse: – Eu bem sei que me preguntades por meu escarnho, pero direivolo. Eu hei nome Gaeriet. Entom se foi despós seu irmão. E u iam pela rua, achavam muitos e muitas que se riam e faziam escarn[h]o deles porque se tornavam tam toste do Paaço Aventuroso. E pois Galvam saíu do castelo, começou a mal dizer o castelo e quantos dentro moravam e disse que o ferisse tal corisco que o derribasse em fundo dos avissos. – Ai, Senhor! disse Gaeriet, mal dizedes. Vós sabedes bem que o Santo Vasso é i por que Deus tanto fremoso milagre há feito polo mundo. E el respondeu: – Ao vaso nom oro eu s’em honra e bem nom. Mas quiria que o castelo fosse derribado de corisco, ca nunca i viim que me nom partisse com desonra e com pesar. – Ai, Senhor! disse Gaeriet, nom devemos nós ao castelo pôr em culpa mas a nós meesmos que fazemos as maas obras per que i nom podemos haver honra. Título Fólio 554172c [Como u~a donzela dizia mal a Galvam.] – Ora me dizede, disse Galvam, que faremos? Ca mi semelha que endõado seguiremos Título Fólio 554172d ja mais a demanda do Santo Graal, ca eu vejo bem que somos em cima de quanta honra em haveremos. E por em terria por bem que nos tornássemos a Camalot. – Senhor, disse el, esto seria nossa vergonha, ca eu vejo que nengu~u~ dos demandadores desta demanda nom som ainda aqui e se nós fôssemos os primeiros que nos tornássemos, sempre em seeríamos viltados. – E pois que faremos? disse el. – Senhor, disse Gaeriet, vaamos buscar aventuras como ante fazíamos e andemos u~u~ ano ou dous. E quando soubermos que peça de nossos companheiros som na corte, entom podemos ir sem culpa. Enquanto estavam enesto falando e filhando tal conselho, aquevos vem u~a donzela que chegou a eles e disse a Galvam: – Galvam, Galvam! Ora p[a]recem vossas maas obras! Muito mal havedes feito em esta demanda e muito bõõ cavaleiro matastes a aleive e a traiçom. Certas, se aqueles do castelo soubessem as bravuras que vós fezestes depois que vos partistes da corte, nom vos leixariam sair, ante vos fariam morrer de maa morte. E sabede que Persival, o leal cavaleiro a que vós matastes o padre, entrará no Paaço Aventuroso a maior honra ca vós e por em serlhiá mais sa bondade ca vós a vossa maldade; ca vós encobrides vossa maldade o mais que podedes e a bondade e a bõa vida daquele nom se poderá encobrir que Nosso Senhor a nom faza concocer. E sabede que aquela donzela que esto disse era irmãã de Ivam. Título Fólio 555172d [Como Lançalot achou Gariet e Estor e como confortava Estor.] Galvam nom respondeu a rem que a donzela dissesse, como aquele que se sentia culpado de quanto ela dizia, e disse a Gaeriet: – Irmão, vamonos! E Gaeriet se i outorgou e nom podia creer em nem u~a guisa que Galvam fezera tanto mal em aquela demanda como fez. E a donzela se tornou pera o castelo e eles cavalgarom todo dia e achegarom u Estor atendia Gaeriet. – Senhor, disse Gaeriet a Galvam, convém que vejamos Estor que nos atende aqui. – Eu nom no veerei, disse Galvam, ca me desama pola morte de Erec, u nom hei eu, se Deus m’ajude, tam Título Fólio 555173a gram culpa como me ele apõ[e]. Mas vós ide, se quiserdes. Entom se foi Galvam a sa parte e Gaeriet entrou no castelo e foise pera u Estor o antendia. E quando o Estor viu, recebeu[o] muito bem e perguntoulhi como lhi fora em Corberic. E ele lho contou todo. E Estor se confortou já quanto e disse: – Ora nom posso eu seer soo, pois em esta má andança vos hei por companheiro. Eles falando assi, aquevos Lançalot i entrou. E era já gram noite e os do castelo, que eram acustumados d’honrar e de servir os cavaleiros andantes, levaromno pera u~a camara e desarmaronno. E desi levaromno pera u siia Gaeriet e Estor. E quando eles o virom prouguelhis muito com el e preguntaromno que era dele. E Gaeriet disse: – Ai, dom Lançalot, nunca vi tam cuitado homem de pesar como hoje vi vosso irmão pola aventura do paaço u nom pôde entrar seendo vós dentro. Mas nom deve ende haver gram pesar porque bem assi aveo a mim e a dom Galvam. E Lançalot disse: – Eu nom me partira de Corberic se nom fosse polo alcalçar, que o confortasse, ca eu sabia bem o que ende averia e quero que se conforte e que nom dê por em u~a palha, ca muitos homens bõõs falecerom de entrarem i depois que esta demanda se começou e que eu ti~ia por tam bõõs cavaleiros como ele. E Estor respondeu: – Senhor, sabede que eu nom havia tam gram pesar por que falecera d’entrar, como por vergonha de vós, que ti~ia que me teeríades em por mau. E Lançalot disse: – Eu vos nom ponho em culpa, ca poucos i haverá dos da demanda que i possam entrar. Entom se confortou muito Estor, pois viu que seu irmão o tam bem confortava. Título Fólio 556173a [Como Palamedes derribou Estor e Gaeriet.] Em no outro dia mui manhãã partiromse e Gaeriet quisera falar de paz entre Estor e Galvam mas nom ousou entom. Aquele dia, a hora de meio dia, lhis aveo que chegarom a u~a foresta e virom sair d’u~u~ vale a Bescha Ladrador. E vi~iam depós ela bem #LX cães, que sabujos, que alãos, que muito bõõs galgos; e vi~iam tam feramente ladrando pós ela que todo o vale em retinia. – Ora, Título Fólio 556173b pós ela! disse Lançalot. Mal haja quem a leixar a seu poder! Entom firiram os cavalos das esporas e nom forom muito que ouvirom depós si viindo Palamades dando vozes: – Tornade, Senhores, tornade! Nom me filhedes mi~a demanda, ca nem u~u~ bem vos em nom pode vi~ir. Gaeriet catou pós si e mostrouo a Lançalot e a Estor e disse: – Ai, Deus! Como aqui vem bõõ cavaleiro! – E quem é? disse Lançalot. – Este é, disse el, Palamades, o pagão, u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo que manteve já a caça desta besta bem há #XIIII anos e chus. E Estor lhi deu vozes: – Senhor cavaleiro, queredes justar? – Si, disse el, pois vós queredes. Entom se leixarom a si ir quanto os cavalos os poderom levar e feriromse tam bravamente que nom houve i tal que nom fosse mui mal chagado. Mas daquel colpe caeu Estor e o cavalo sobre el, e Gaeriet se leixou ir a Palamades e ar fezlhi outrossi como a Estor ou ainda peor. E quando Lançalot viu estes #II colbes, disse em seu coraçom: – Verdade dizia Gaeriet. Se este nom é u~u~ dos milhores cavaleiros do mundo, nunca eu creeria o que vir. E nom sei o que ende averá, mais justarei com ele, pero faço gram vilania, ca per ataes #II colpes bem se devia a ir quite. Mas todavia farei eu meu poder em vingar meu irmão e me[u] companheiro, ca se o nom vingasse teeriammio por maldade. Título Fólio 557173b [Como Palamades se partiu da batalha de Lancelot e como Gaeriet e Estor diziam del bem.] Entom deu vozes ao cavaleiro: – Guardadevos de mim, ca a justar vos convém. E ele respondeu: – Nom hei ora mester de justar ca assaz hei feito esta vez. E, se me sobr’esto quiserdes forçar, nom volo teerom por cortisia. – Esto nom há mester, disse Lançalot. Qual vilania quer que eu i faza contra vós, a justar vos convém, ou queirades ou nom. – Pesame, disse ele, mas pois me convém a fazer, fareio. Entom se leixou correr u~u~ ao outro e feriramse tam bravamente que escudo nem loriga nom lhis prestou que nom sentissem os ferros nos corpos e, se as lanças nom quebrassem, poderiam ambos seer mortos. E poseromse ambos os cavalos sobre os corpos; mas ambos eram de gram bondade e de gram coraçom e ergueramse Título Fólio 557173c mui vivamente. E Palamades foi a seu cavalo e cavalgou e disse a Lançalot: – Senhor, eu me quito bem de vós. Ora vos rogo por cortisia que me leixedes ir. – E como vos sentides? disse Lançalot. – Vós, disse, e aquel outro vosso companheiro mi chagastes mal. – Pois ora vos podedes ir, disse Lançalot. Pois assi é que vós sodes chagado, se eu aa batalha das espadas vos chamasse a vosso pesar, faria gram vilania. E Palamades se foi logo e Estor cavalgou e os outros #II. E Gaeriet disse a Estor: – Senhor, que vos semelha do cavaleiro? – Nom me pode, disse ele, semelhar se bem nom. Ca, sem falha, este é o melhor cavaleiro que eu nunca achei fora Galaaz e Tristam. – Certas, se nom fosse chagado tam mal como é e mio nom tevesse a vilania, nom no leixaria ir em nem u~a guisa que o nom chamasse a batalha; mas por esto nom quero e porque o fez mui bem entre nós. Ora se vaa a b[õa] ventura, ca sempre direi dele bem. Título Fólio 558173c [Como Galvam desfiou Palamedes.] Assi disse Lançalot de Palamades e Palamades saiu do caminho e foi per u cuidou que achasse mais toste sa bescha. E nom andou muito que achou Galvam que ia a mui grande ir pós ela. E, tanto que o alcalçou, disselhi: – Senhor cavaleiro, que coita vos faz ir tam toste? – Senhor, disse ele, eu vou depós u~a bescha que vi passar agora per ante mim e é a bescha tam estranha e tam dessemelhada que me entrou no coraçom de me nunca partir dela atá que a prenda. – Ora ouço maravilhas, disse Palamades. Nunca mais ouí dizer de casa u houvessem tantos sandeus cavaleiros nem tantos sisudos como em casa de rei Artur. E os sisudos passam de bondade e de pr[e]z todolos outros sisudos do mundo e os sandeus passam de sandice todolos outros sandeus do mundo. – E porque o dizedes vós? disse Galvam. – Por Deus, disse el, eu [o] digo por vós e polos sandeus que havedes começada a demanda do Santo Graal e nem u~u~ de vós nom pode ende vi~ir aa cima nem havedes ainda ende senam vergonha Título Fólio 558173d . E com aquela demanda, em que nom fezestes rem unde vos venha honra, começades outra demanda. Nom é esto sandice grande sobeja que leixades o que havedes começado e vos metees em demandas que os cavaleiros estranhos ham mantiu´das longo tempo? E nom seeria milhor de dardes ante cima aa demanda que começastes ca vos trabalhardes d’outra? Vós sodes daqueles que todas as cousas acabar se tremetem e de cada u~a cousa se partem a onta. Quando esto ouiu Galvam, disse: – Sodes vós o cavaleiro estranho que há manteu´da tam longamente a caça desta bescha? – Si, disse ele, eu som verdadeiramente. – Vós nom dizedes vossa honra, disse Galvam, mas vossa desonra, quando dizedes que tam longo tempo andades pós esta bescha, ca, certas, se vós fôssedes bõõ cavaleiro, peça há que lhi d[e]rades cabo. E el respondeu: – Bõõ cavaleiro nom pode homem achar tam aginha como vós cuidades. – Certas, disse Galvam, nom há tam mau cavaleiro em casa de rei Artur que se tam muito andasse em esta demanda como vós, que lhi nom desse cima. – Si, há, disse Palamades, dalgu~u~. E, se vós meesmo andássedes pós esta bescha tam longamente como eu, ainda a ora nom houvérades presa; ca eu, a meu cuidar, som tam bõõ cavaleiro como vós e trabalheime longo tempo e ainda i nom fiz rem. – Como? disse Galvam, cuidades vós que sodes tal cavaleiro como eu? – Si, disse el. – No nome de Deus, disse Galvam, pois guardadevos de mim, ca esto quero eu veer logo. E se vós sodes melhor cavaleiro ca eu, leixarvosei vos[sa] demanda. – Certas, disse Palamades, eu nom reciar[ia] ora justar se nom fosse que ando mal chagado. E por em vos rogo que me leixedes ir, ca pero vós houverdes o melhor da justa, nom vos seerá nem u~a honra pois que eu som chagado e vós são. Título Fólio 559173d [Como Palamedes chagou Galvam.] – Ai, disse Galvam, esto nom pode seer, pois vos condõastes migo de cavalaria. Ou vós justaredes comigo ou eu vos matarei. – Certas, disse Palamades, de justar nom me era mester esta saçom, mas fareio, pois mais nom posso. Título Fólio 559174a Entom se leixarom. correr a si e feriramse de toda sa força. E Galvam, que nom era da bondade de Palamades, voou em terra mui mal chagado e Palamades passou per ele que sol nom catou mais. E, pero era chagado, foi-se depós sa bescha assi como se fosse são. Título Fólio 560174a [Como Galaaz achou Galvam mal chagado.] Galvam, que ficou em terra, houve tam gram pesar que xi nom soube conselhar. E chamouse astroso e cativo e mal aventurado. E el estando a pee e fazendo seu doo sô u~u~ carvalho, aquevos vem Galaaz que a ventura adussi i aquela hora. E quando [o] viu Galaaz, conoceuo per sas armas caes fezera fazer novamente de seus sinaes, e foi maravilhado de que lhi viu fazer tal doo ca bem sabia que nom era sem gram raçom. E Galvam, quando viu Galaaz, conoceu[o] polo escudo, ca nem u~u~ cavaleiro nom tragia tal escudo, e prouguelhi muito com ele, ca bem osmou que seeria vingado do cavaleiro que lhi metera tal doo no coraçom. E Galaaz lhi disse, tanto que a ele chegou: – Dom Galvam, Deus seja com vosco. Como vos vai? – Senhor, disse ele, mal, ca u~u~ cavaleiro bravo e soberveo que se daqui vai mi fez desonra e mal. E nom me pesa ora tanto de mim como me pesa d’u~u~ cavaleiro da Mesa Redonda que ora matou, e era u~u~ dos milhores amigos que havíamos. – E como havia nome? disse Galaaz. – Lionel, disse ele, o irmão de dom Boorz. E esto assacara Galvam por meter mortal desamor entre Galaaz e o cavaleiro da Bescha Ladrador. Galaaz que bem cuidou que dizia verdade e que houve gram pesar destas novas preguntou: – Quem é o cavaleiro que esto fez? – E Galvam lhi em disse tanto per que el conoceu bem que era Palamades. Título Fólio 561174a [Como Galaaz foi depós Palamedes e o desfiou.] Entom o preguntou per u se ia o cavaleiro e Galvam lhi mostrou per u se fôra. E Galaaz disse: – Ele me fez perder u~u~ Título Fólio 561174b cavaleiro que amava muito e eu cuido que se achará ende mal. Entom se foi quanto pôde e achou Palamades ante u~a fonte u decera por liar sas chagas. E quando viu que se vi~ia Galaaz tam toste, logo esmou que nom vi~ia por seu bem; e cambio[u]xelhi o sem e o coraçom, ca bem soube que lhi nom podia durar rem, ca o ti~ia polo melho[r] cavaleiro do mundo. E Galaaz lhi deu vozes: – Palamades, guardadevos de mim, ca vos desfio, porque me matastes u~u~ dos cavaleiros do mundo que eu mais amava. E seede seguro que vos farei outro tal, se vos de mim nom poderdes defender. Cavalgade toste, ou senom fareivos assi. Título Fólio 562174b [Como Palamades disse a Galaaz que lhe desse prazo atá que fosse são.] Quando Palamades estou ouiu nom soube que disse[sse], ca bem soube que livrado era o preito se aa batalha veessem. E por em respondeu o melhor que soube: – Ai, dom Galaaz! Senhor, mercee! Sabede que nunca, a meu ciente, matei homem de vossa linhagem. E que o ainda que matasse e vós por em migo quiséssedes lidar, deveríades catar tempo e saçom em que fosse vossa honra, assi que, pois me vencêssedes, em nom seer posfaçado nem culpado. Mas, certas, se vós ora me fezerdes combater com vosco, nom haveredes i honra niu~a, ca vós sodes bem são e eu mui mal chagado a maravilha. E tanto hei perdudo de sangue que toda a força mi faleceu unde averia que nom há no mundo homem bõõ que o ouísse que vos nom tevesse por muito errado e por mui falido. E assi poderíades perder vossa honra dõadamente. – Esto nom há mester, disse Galaaz. A combater vos convém. – Esso nom posso eu fazer, disse Palamades. E ainda que houvesse ende a vontade nom hei ende o poder. E por esto vos digo que esta hora Título Fólio 562174c bem me poderedes matar, ca vos nom tornarei mão. – Pois que faredes? disse Galaaz. Darvosedes por vinçudo sem colpe e see[n]d[o] tam bõõ cavaleiro como sodes? – Por vençudo nom me darei, disse Palamades, mentre a alma tever no corpo. Mas, pois que vós tal vontade teendes de vos combater migo, dademi prazo atá que seja são e ponhamos dia e logar u nos juntemos. E se ali me vencedes ganharedes honra e prez. Título Fólio 563174c [Como Palamedes se foi pera casa de seu padre e caeu em gram pensar.] Certas, disse Galaaz, pois vós sodes tam mal chagado como dizedes eu vos daria o prazo se cuidasse que veríades a ele. – Eu volo prometo como cavaleiro, disse Palamades. – Ora vos digo, disse Galaaz, que de hoje a #XX dias sejades ante esta fonte a hora de prima e, se eu nom chegar a aquela hora, atendedeme todo aquele dia e viinde guisado de vos defender contra mi. E Palamedes lhi prometeu que todo assi faria. E pois se ambos prometerom esto, Galaaz se foi buscar sas aventuras e Palamades cavalgou e foi-se pera a casa de seu padre e deceu e fezse desarmar. E quando o padre o viu tam mal chagado houve dele tam gram doo que se filhou a chorar e disse: – Filho, por vosso mal vistes vossa boa cavalaria, ca morreredes por em ante vossos dias. E Palamades nom respondeu a rem que lhi seu padre dissesse e fôse deitar em u~a câmara e fezlhi guardar sas chagas seu padre que muito sabia em. E pois lhas catou, disselhi: – Filho, destas chagas nom te espantes, ca bem guarrás em. E ele nom respondeu a rem que lhi o padre dissesse, ca muito pensava em sa batalha e de Galaaz, ca bem sabia que nom ti~ia i se morte nom, e era ainda na maior coita que nunca fora. #II dias jouve sem comer e sem bever que lhi nom poderom sacar palavra e que sempre pensou. E seu padre, que bem conoceu logo que aquele pensar Título Fólio 563174d nom lhi vi~ia de door nem de se temer de morrer das chagas, disselhi: – Filho, que pensas? Nunca te vi que te nom visse mais ledo ca outro cavaleiro e ora vejote tam triste e tam muito pensar que me maravilho. E rogote que mi digas onde te esto vem. Título Fólio 564174d [Como Palamedes disse a seu padre que havia de haver batalha contra Galaaz.] Palamades, que muito amava seu padre, quando o viu tam coitado por seu pensar e por saber onde lhi vi~ia, disse: – Senhor, se eu penso nom é maravilha ca, pois foi cavaleiro, nunca comecei cousa que nom acimasse a mi~a honra, fora a Bescha Ladrador a que nom pude dar cima. E bem vejo que tam alta aventura nom há seer acabada per mim. E agora mim ar veo outra aventura mui receadoira em que tenho morte se per grande aventura nom for. – E que é? disse o padre. – Eu hei de haver batalha, disse el, contra dom Galaaz que é o melhor cavaleiro do mundo. Quando o padre esto ouiu leixouse caer em terra esmorido tanto houve gram pesar. E, pois acordou e pôde falar, disse: – Ai, filho, mal te veo. – Bem sei eu, disse Palamades, que nem u~u~ bem nom me poderá vi~ir desta batalha, pero nom no posso em tirar afora ca o promiti. – Filho, disse o padre, sabes como Jesu Cristo, o padre de bõõ talam e piadoso, ti foi atá [a]qui padre e amigo. E tu lhi fusti sempre e~emigo. E ele te deu tam fremosa graça de cavalaria e milhor andança, segundo o pecado em que estavas, ca outro cavaleiro que eu soubesse. Que ti direi? Ele ti mostrou tam fremoso amor e seu milhor talam ca a outro cavaleiro pecador, ca sempre ti livrou de todos perigos [a] ta honra. El fez tanto por ti e tu por ele ni~migalha; e amostrarteo quer a esta sazom ca, ali u tu houveres mais mester de sa mercee ele te falecerá, assi que morrerás em esta batalha mal e desonradamente. E quanta bondade d’armas sempre houvesti será morta e tornada a nem u~a cousa. Título Fólio 565174d [Como Palamedes prometeu que recebesse bautismo se lhe aveesse bem na batalha.] Quando Palamades esto ouiu, disse: – Senhor, vós dizedes verdade, mas dizedemi o conselho que mi sobre esto dades, ca Título Fólio 565175a a batalha nom se pode partir se eu nom moiro ante o prazo. E o padre lhi disse: – Filho, se tu quisesses receber babtismo e tornar aa lei dos cristãos, eu sei bem que Nosso Senhor Jesu Cristo poerá tam gram conselho em ta fazenda que ti partirás desta batalha com ta honra e mui grande amor de Galaaz. E sabe que si nom fezeres que tu morrerás a desonra e eu, que som teu padre e que te amo mais ca mi, morrei em com pesar. Ca, pois de mim fosses partido, nom poderia eu haver niu~a ledice. – Como? disse Palamades, dizedesme vós como padre que, se eu babtismo quiser receber, que me partirei desta batalha com honra? – Si, filho, disse o padre, eu to digo como padre e como amigo. – E eu, disse Palamades, prometo ora a Nosso Senhor Jesu Cristo que, se el desta batalha me leixa sair com sau´de, que eu logo receba bautismo e que, dis i adiante, seja leal cavaleiro da Santa Egreja. – Filho, disse o padre, assi é das cousas mortaes que, se hoje tu és vivo, nom sabes se o seerás de manhãã. E por em ti looria, per o prol da tua alma e por honra de teu corpo, que te fezesses bautizar o mais toste que podesses; ca mortal carne, esto sabes tu bem, nom há prazo da sua vida. E el respondeu: – Assi como o promiti a Deus, assi o farei sem falha. Título Fólio 566175a [Como Palamedes mandou fazer suas armas frescas e se fez armar ante seu padre.] O padre, que amava seu filho de natural amor, nom lhi ousou mais dizer contra sa vontade, mais confortavao o mais que podia e disselhi: – Filho, nom hajas pavor, ca a promessa que tu fezeste a Nosso Senhor te fará partir desta batalha ledo e honrado. – Deus o faça, disse ele, se lhi prouguer. – Assi ficou Palamades com seu padre em aquele prazo, todavia pensando e triste mais e mais. E aveolhe tam bem que ante dos #XX dias foi mui são e mui ledo e mui poderoso de trager armas. Em aquel prazo fez el fazer sas armas todas frescas, as melhores que os daquela terra souberom fazer, e as cobreturas eram todas negras. O dia dante aquel que a batalha havia de seer Título Fólio 566175b , fezse armar ante seu padre, que visse se lhi falecia algu~a rem. E sabede que sas armas eram taes que adur poderia homem melhores achar. Quando seu padre e os da casa viram ca lhi nom falecia rem, disse: – Seguramente as vistide, ca per armas nom perderedes rem. E el respondeu assaz triste: – Aquele a que eu fiz promessa de lhi te~er dereita creença, aqu[e]l mim valha a esta sazom. Ca eu bem creeo que mais me poderá ele valer aa gram coita ca todalas armas que eu trago. Esto disse Palamades, como aquel que já havia tomada sa creença aa dereita fé de Jesu Cristo. Título Fólio 567175b [Como Palamedes se partiu de Esclabor.] Aquela noite foi Esclabor mui triste e mui coitado por seu filho, ca bem sabia que nom era tal cavaleiro como Galaaz. Em outro dia manhãã, Palamades se levou e fezse armar e, pois foi armado e cavalgou sobolo melhor cavalo que pôde haver, partiuse de seu padre e ao partir viuo chorar e disselhi: – Senhor, porque chorades? Ora me semelha que nom havedes nem u~a boa creença em Jesu Cristo, ca, se vós creessedes mui bem, nom haveríades dulta de mim pois lhi eu tal promessa fiz. – Filho, disse o padre, bem dissesti. Ora te vai e aquele ti seja em ajuda que te pode de todo perigoo livrar. E dis i fez o sinal da cruz sobre ele e comendouo a Deus. E ar disselhi outra vez: – Filho, eu te mando como padre deve a mandar o filho que, se poderes, que me venhas hoije veer ao meos atee a noite ca já mais nom haverei ledice nem bem atáque te veja. E ele lhi prometeu que assi o faria. Título Fólio 568175b [Como Galvam demandou justa a Palamedes.] Depós esto se partiu o filho do padre e foise contra u havia de seer a batalha. E nom andou muito que achou Galvam. E, quando ele viu Palamades, nom no conoceu polas armas que tragia cambiadas. Mas Palamades conoceuo mui bem e Galvam lhi disse: – A justa vos demando. E ele nom lhi respondeu a rem e Galvam o teve por desdém grande. E disselhi outra vez: – Que é esto, cavaleiro? Nom ouvides o que vos digo? Palamades bem no ouvia mas nom lhi respondeu a rem, ante se ia Título Fólio 568175c per sa carreira. Entom foi Galvam mui san[h]udo, ca lhi semelhou que o fazia por algum mal, e [saiu]lhi diante e pressou[o] ao freo e disselhi: – Eu vos prendo, cavaleiro: ou vós justarees comigo ou vos outorgaredes por vinçudo da justa. E Palamades respondeu: – Leixademe ir, senhor cavaleiro, e nom me fazades em força, pois me nom praz. Sabede que eu nom justarei hoje com vosco. – Porquê? disse Galvam. – Porque me nom praz, disse el, nem a força nom me faredes vós justar. – Verdade é, disse Galvam. Mas, pois que vós sodes cavaleiro andante como eu e me de justa falecedes, tenho que o fazedes por covardice e por maldade. – Vós dizedes vontade, disse Palamades, e nom é cortisia de dizerdes pesar a cavaleiro estranho que nom conocedes. Mas como quer que eu seja mau e covardo, se vós houvéssedes tanto a fazer em este dia de hoje como eu e vós soubéssedes atam gram vosso perigoo como eu sei o meu, já certas nom sodes tam ardido que i o[u]sássedes ir, ca nom havedes coraçom nem força nem bondade per que podéssedes ende escapar sem perda do corpo. E esto vos digo pola vilania que eu em vós achei. Título Fólio 569175c [Como Palamedes feriu Galvam e lhe filhou a lança.] Galvam, que foi muito san[h]udo deste preito, respondeu: – Cavaleiro, muito me desprezades e pesame, ca bem cuido que me nunca vistes por quê. Pero como quer que eu seja mau, rogovos pola fé que vós devedes a toda cavalaria que justedes comigo u~a vez. E, por boa fé, nom vos demandarei mais. – Tanto me conjurastes, disse Palamades, que o farei, pero que nom me era mester ca muito hei alhur de fazer. Entom foram ambos muito san[h]udos e com gram pesar leixaramse correr a si e Palamades feriu Galvam em guisa que meteu el e o cavalo em terra; e foi a ele e filhoulhi a lança pola sua que lhi quebrara em el, ca sem lança nom queria ir u ia. Dês i fôse, que nom [o] catou chus. E Galvam erguêse e sobiu em seu cavalo e fôse pós ele e disse que ante queria seer morto ca lhi nom fazer algu~u~ escarnho. E quando chegou a ele disselhi: – Tornade, cavaleiro, ca vos [nom] Título Fólio 569175d iredes assi, ca nom é mui gram bondade d’armas de u~u~ cavaleiro dirribar outro; mas ao ferir das espadas se conocem os bõõs. E Palamades respondeu com sanha: – Dom Galvam, por[que] sodes tam vilão e tam envejoso? Nom havedes prez e sodes u~u~ dos corteses do mundo? E, se m[e] ajude Deus, muito me maravilho. E sabedes o preito que ora posestes com migo e pois chamadesme a batalha? Leixademe ir ora em paz e faredes cortisia; e depois, o primeiro lugar u me achardes, chamademe aa batalha, se virdes i vossa prol, e eu vos prometo que vos nom desfalecerei dela. – Se eu cuidasse, disse Galvam, que me nom faleceríades aa primeira vez que vos a ela chamasse, leixarvosia. – Eu volo prometo, disse Palamades. – Pois ora me dizede vosso nome, disse Galvam. E el se nomeou. – P’a Santa Maria, disse Galvam, vós sodes u~u~ dos homens do mundo que eu mais desamo. Ca vós errastes tanto a mim e a meus parentes e a meus amigos per que seede seguro que eu me prenderei vingança tanto que veja sazom. Título Fólio 570175d [Como Palamedes se defendia contra Galaaz pero havia muitas chagas e perdera já muito sangue.] Palamades nom respondeu a rem que lhi Galvam dissesse. E entom se partirom e Galvam [nom] andou muito que achou Gaeriet, seu irmão, e a lidiça foi mui grande entre eles e Galvam contou a Gaeriet quanto lhi ave~era com Palamades. – Ai, Senhor! disse Gaeriet, que é esto que andades fazendo? Guardadevos, assi como amades o corpo, que vos nom filhedes com Palamades, ca sabede que é melhor cavaleiro ca vós. – Nom me em chal, disse Galvam, ca tanto me errou que nom o leixaria polo reino de Logres que o nom fezesse morrer de maa morte. – Deus vos em guarde, disse Gaeriet, de matardes tam bõõ cavaleiro, ca esto seeria gram dano sobejo e, se Deus m’ajude, nom há no mundo tam vilão cavaleiro, sabendo sa bondade e sa cavalaria como eu a sei, que houvesse vontade de o matar se nom fosse mais desleal ca outro cavaleiro. – El mi fez, disse Galvam, tanta [onta] que eu lhi darei o galardom. Título Fólio 570176a Si falarom os #II irmãos. E Palamades, quando se partiu de Galvam, andou tanto que chegou ante hora de terça aa fonte u a batalha fora posta, mas nom achou i ningu~u~ e deceu e tolheu seu escudo e sa lança e seu elmo por folgar ao vento. E, pois folgou u~a peça e ar laçou seu elmo, catou contra o gram caminho e viu vi~ir Galaaz. Quando Palamades o viu nom foi mui seguro ca sabia que era o melhor cavaleiro do mundo. Entom sobiu em seu cavalo e atendeu atá que chegou Galaaz, que lhi disse: – Palamades, a mim fezerom entendente que u~u~ parente me matastes que eu amava muito. E eu nom prês em vingança quando volo disse, ante vos partistis de mim per tal preito como sabedes. E ora vos chamo por em aa batalha e ora veeremos como i faredes. E el respondeu que da batalha era el guisado, pois per al se nom podia partir. Entom se leixou u~u~ correr ao outro e feriramse de toda sa força. Mas Palamades voou em terra mui mal chagado e, tanto que o Galaaz viu em terra, deceu e levou seu cavalo a u~a árvor e meteu mão a espada e fôse a gram ir contra Palamades que se erguera já e tirara sa espada. E quando Palamades viu vi~ir contra se Galaaz ariçado a espada em mão, disse com gram pavor que houve: – Ai, Senhor Jesu Cristo, nom me leixes aqui morrer, mas fazeme daqui partir a honra. E Galaaz lhi deu per meo do elmo tam gram colpe que se nom pôde teer em pés e houve de ficar os geolhos ambos em terra e, se o elmo nom fora de gram bondade sobejo, fenderao atés as espáduas. Mas Palamades se ergueu toste e mui ligeiramente e pôs o escudo sobre a cabeça e defendeuse mentre pôde; mas esto nom podia seer mui longadamente, ca a bondade d’armas de Galaaz nom se acostava bondade nem u~a. E pero Palamades sofreu e endurou o mais que pôde, perdera já tanto do sangue e tantas chagas havia grandes e pequenas que era maravilha como se já podia sofrer seu escudo. E o campo em derredor dele era já todo tinto de sangui, assi que el nom atendia já se morte nom, e pero todavia sofria e endurava assi como aquel que de gram coraçom era. Título Fólio 571176a [Como Galaaz disse que lhe perdoaria se quisesse receber bautismo e como se outorgou i.] Título Fólio 571176b Quando Galaaz viu e conoceu que já nom havia poder de xe lhi defender, houve dele piedade pola bõa cavalaria que em ele sabia e pola mui gram bondade d’armas. Entom pensou que, se o podesse fazer cristão, gram ledice lhi seria e gram bõa ventura. Entom foi a ele e filhou[o] polo elmo e tirou[o] tam de rijo que lho levou da cabeça e deulhi tal caeda que foi todo estorgido. E Galaaz se pôs sobr’ele e disselhi: – Tu és morto se te nom outorgas por vençudo. E aquele que nunca em cavalaria errara e que nunca fezera i cousa que a vilania xi lhi podesse tornar e que era de mui gram coraçom polas bõas andanças que sempre atá [a]quela hora houve, respondeu: – Ai, dom Galaaz, esto nom é nada que vós mi dizedes. Já, certas, com pavor que haja de morte nom direi cousa de que me possam teer por covardo. Mas esto nom posso eu dizer que vós nom sodes melhor cavaleiro ca eu nem ca todos aqueles que nunca trouxerom armas no reino de Logres. E por em ni mim chal muito de eu morer per vossas mãos, ca assi mi nom poderóm dizer que pior cavaleiro ca mim me matou. – Esso nom é nada, disse Galaaz, que vós dizedes; convém que vos outorguedes por vençudo. – Mas esto é folia, dissi Palamades, que vós cuidades que eu faça cousa que a vergonça se me torne por pavor de morte que em pouca dura passará. Vós teendes bõa espada: matademi, se quiserdes. Quando Galaaz esto ouiu nom soube que fezesse, ca o desamava mortalmente. E da outra parte, prezava tanto el e sa cavalaria que bem via que, se o matasse, que seeria gram dano. Entom disse: – Palamades, vós veedes que sodes morto, se eu quero. E ele respondeu: – Esto nom me é gram vergonha, ca todos aqueles que vos conocem sabem verdadeiramente que vós sodes o melhor cavaleiro do mundo. – Se eu som bõõ cavaleiro, disse Galaaz, tanto é vosso maior mal, ca vos matarei se quiser. Mas ora fazede u~a cousa que vos quero rogar por vossa prol e por vossa honra e por seer eu vosso companheiro e vosso amigo mentre vós vivades. – E eu, certas, disse Palamades, por esto que me vós dizedes, nom há rem no mundo que eu nom fezesse que a honra se me tornasse, primeiramente por mia vida salvar, e pois por vós, unde me Título Fólio 571176c eu teeria por bem andante em quanto por vós fezesse e dizedeme que é. – Eu vos digo, disse Galaaz, que, se vós quiserdes leixar vossa lei e receberdes bautismo, que eu vos perdoarei quanto queixume de vós hei e tornarmeei vosso vassalo quite, assi que em todos logares u me, dês aqui, achardes, me poderedes meter em todo perigoo por vosso corpo defender. Quando Palamades esto ouiu, disse: – Pois leixademe e eu fazer quero o que me rogades pola conveença que me havedes feita; e sabede que nunca houve maior vontade de rem no mundo como ora receber bautismo e creer na santa lei de Jesu Cristo, primeiramente porque lho prometi e, dês i, por vosso rogo. Título Fólio 572176c [Como Palamedes contou a seu padre como lhe aveera e como Esclabor chorou com prazer.] Assi se partiu o desamor d’antre ambos e ambos outorgarom de teerem o que prometeram. E Galaaz se ergueu entom e preguntou a Palamades se poderia cavalgar. – Si, Senhor, disse el, ca ainda me sento já quanto bem. E Galaaz foi polo cavalo a Palamades e adusselho. E Palamades cavalgou e disse a Galaaz: – Senhor, que vos praz que façamos? – Eu queria, disse Galaaz, que fôssemos [a] algum logar u vos bautizássedes. – Senhor, disse el, pois vaamos a cas meu padre. E Galaaz cavalgou e andarom tanto que chegarom a casa d’Esclabor o Desconoçudo. E pois dicerom e o padre viu seu filho tam mal chagado, começou a chorar e disse: – Filho, como te sentes tu? Cuidas goracer? E ele disse que nom houvesse pavor, ca nom se sentia mui mal ao feito. E depois preguntou Esclabor a Galaaz: – Por que preito se partiu a vossa batalha? E ele lho disse, assi como o conto há já devisado. E o padre tendeu sas mãos contra o céu e chorou com mui gram prazer que ende houve e disse que ora eram todos seus desejos compridos pois seu filho era acordado a receber a lei dos cristãos. Título Fólio 573176c [Como Palamedes recebeu bautismo e como foi são das suas chagas.] Per tal aventura como vos conto, foi Palamades cristão e foi chamado em bautismo per aquel nome que ante havia. E u estava na santa água lhi aveo u~a gram maravilha que teverom por gram milagre e ainda agora falam ende na terra. E a maraviha foi tal que, de todalas chagas que havia, foi curado tanto que entrou na santa água do bautismo assi que dom Galaaz, que i estava, e u~u~ bispo e muitas outras gentes que o virom i entrar chagado e o virom em sair são derom graças a Nosso Senhor. E foi este milagre apregoado por todo o reino de Título Fólio 573176d Logres. E, tanto que o rei Artur soube, fezeo escrever no livro das aventuras. #III dias morou Palamades em casa de seu padre depois que foi cristão, ledo e são e a gram prazer, ca todolos da terra veerom i por lhi fazer honra e festa com prazer de que era cristão. Ao terceiro dia disselhi dom Galaaz: – Dom Palamades, eu morei aqui mais que devera ca muito havia alhur de fazer. Mas esta tardada fiz eu por vosso amor e pola honra que Deus vos fez e ora me queria já ir. – Senhor, d[isse] Palamades, vaamosnos quando quiserdes. – Como? disse Galaaz, queredes vós comigo ir? – Ai, Senhor! disse Palamades, porque nom? Nom me prometestes vós vossa companhia? – Si, disse Galaaz, ca, assi me Deus ajude, eu amo e prezo muito vossa companha, ca bem conosco vossa cavalaria e vossa bondade e guisadevos como nos vaamos manhãã. E ele disse que era guisado. Título Fólio 574176d [Como Palamedes ganhou a seeda da Mesa Redonda.] Aquele serão se espidiu Palamades de seu padre e dos outros da sa casa e disse ca se queria ir manhãã em companha de Galaaz. E o padre disse que daquela companha era el mui ledo. Outro dia manhãã fezse armar Palamades de bõas armas e ricas e Galaaz outrossi. Dês i filharom seu caminho e Palamades disse a Galaaz: – Senhor, de novo homem novas obras. Eu som novel sergente de Jesu Cristo e quero me meter em seu serviço ca eu quero entrar na demanda do Santo Graal se me vós louvades. E Galaaz lhi respondeu: – Vós nom podedes dereitamente seer companheiro da demanda do Santo Graal se ante nom fordes companheiro da Távola Redonda. E por em vos louvaria eu que vós fôssedes a Camaalot e veeríades que preço manteem em esta demanda dos cavaleiros da Távola Rendonda onde as seedas som vazias. E bem cuido que, se vós i fôssedes, Nosso Senhor vos faria tam grande honra que haveríades u~a das seedas. Entom poderíades entrar seguramente na demanda. – Pois louvadesme vós que eu assi faza? disse Palamades. – Si, disse Galaaz. – E eu fazêlo quero, disse Palamades. Entom s’abraçarom e partiromse. E Palamades se foi tam ledo a Camaalot de que era cristão e com prazer tam grande que maravilha, e nom achava ermitam a que se nom maenfestasse nem homem d’ordim a que nom pidisse conselho da sa Título Fólio 574177a vida. E achava muitos que lhi diziam que nom trouxesse armas dês ali, ca amiu´de poderia por elas caer em pecado mortal. – De armas trager nom me poderei quitar que as nom traga, disse el, em nem u~a guisa, ca de todo o al me poderei bem sofrer. Que direi? Palamades chegou a Camaalot e sabiam já que era cristão e a maravilha que lhi avera; e, tanto que i chegou, assaz achou quem lhi fezesse honra e amor ca muito prezavam todos e todas sa cavalaria e sa cortisia. Entom lh’er aveo outra maravilha ca, u siia aa mesa antre os cavaleiros que nom eram da Távora Redonda, veo u~u~ cavaleiro a elei que lhi disse: – Senhor, sejamos ledos. A Távola Redonda há mais ca havia: u~u~ cavaleiro, onde todos devedes seer ledos. – Muito beento seja Deus, disse elrei; qual é? – Senhor, disse ele, dom Palamades. Eu achei ora seu nome em u~a das seedas da Mesa Redonda escripto. E elrei foi muito ledo destas novas e mandou a Palamades que se erguesse du siia a se fosse pera a seeda da Távola Redonda. E Palamades o fez e foi mui ledo daquela honra que Deus tam toste lhi fezera e gradicilho muito. Título Fólio 575177a [Como Palamedes achou Galaaz e como chegarom aa foresta das serpentes.] Em tal guisa como vos conto houve dom Palamades a seeda da Mesa Redonda e pois morou i V dias. El-rei havia gram prazer de preguntar por novas de Galaaz e dos outros bõõs cavaleiros da demanda. E Palamades começou a demanda depólos outros e andou bem u~u~ ano que nom achou Galaaz. Tanto andou Palamades em tal guisa que achou u~u~ dia Galaaz ante u~a fonte e esto foi a[a] entrada de Maio. E Galaaz decera por folgar e a fonte era preto de u~a torre. E, quando Palamades viu Galaaz, deceu do cavalo e pôs em terra o escudo e a lança e foi correndo [o] abraçar e Galaaz outrossi ele. E Palamades dissi: – Meu Senhor dom Galaaz, como vos foi pois que nos partimos? – Bem, disse el, aa mercee de Deus. Muitas aventuras achei depois e muitas maravilhas que Deus per sa graça fez a mim acabar; mas de vós som muito maravilhado e mui ledo e hei gram prazer porque sodes da Távola Redonda, assi como eu depois oui contar. Depois que os companheiros ambos falarom gram peça, Galaaz Título Fólio 575177b preguntou: – Palamades, ouvistes vós no[va]s de meu senhor Lançalot? – Si, Senhor, sem falha, muitas vezes, disse Palamades. E sabede que foi em casa de rei Pescador mas nom acabou i rem. – Assi vai das aventuras, disse Galaaz. Nom ficou da sa fazenda i bem fazer e por nom seer bõõ cavaleiro. Mas Nosso Senhor quer assi. E depois que falarom assi de su~u~ muito, caval[garom] e andarom tanto que acharom a foresta das Serpentes. E jouverom aquela noite em u~a casa d’ordim que estava em u~u~ vale, que rei Bem de Benoic i fezera quando era mancebo. Aquele serão preguntou Galaaz pola carreira, aqui n[...]. Título Fólio 576177b [Como chegarom aa Torre do Jaiam.] Depós esto os cavaleiros ambos foramse deitar. Mas Palamades nom escaeceu a bõa cavalaria do cavaleiro da fonte e pensou que, se Deus o a el levasse, que rogaria Galaaz que lh[e] outorgasse aquela batalha. E no outro dia foram ouvir missa; dês i, armaromse e cavalgarom e foramse e tanto andarom pola carreira que lhi ensinarom atá que chegarom aa torre que chamavam Torre do Jaiam. E Galaaz conoceu a torre tanto que a viu, pero per pregunta ca nunca que a el visse. – Dom Palamades, disse Galaaz, vedes aqui a torre |a torre| que eu buscava. Ora podedes seer seguro que veeredes a maior maravilha que nunca vistes d’u~u~ cavaleiro. – E que maravilha é? disse Palamades. – Eu volo direi, disse Galaaz. Se vos com ele combaterdes eu vos sei por tal cavaleiro que sei que o vencerees. E se se partir de vós tam mal treito e tam mal chagado que vós nom poderedes creer em nem u~a guisa que da[qui] a mui gram sazom podesse filhar armas, entom o veeredes tornar a vós mais são e mais folgado ca o achastes no começo; em tal guisa cobra el sa força per muitas vezes que aa cima vencer[v]osá. – Par Deus, disse Palamades, esta é a maior maravilha de que nunca ouvi falar. E pois tam preto somos dele rogovos que me outorguedes esta batalha. E pois chegarom aa torre, disse Galaaz: – Nom sei u possamos achar o cavaleiro daqui, pois aqui nom está. – Nom nos cuitemos, disse Palamades, ca see aqui e sairá. Título Fólio 577177b [Como Palamedes se combateu com o cavaleiro da fonte.] Título Fólio 577177c [E]les esto dizendo, virom sair de dentro u~u~ escudeiro que veo a eles e lhis disse: – Senhores, sodes cavaleiros andantes? – Si, disserom eles, mas porque o preguntades vós? – Ca, se quiserdes justar, acharedes aqui com quem, disse o escudeiro. – De quem? disse Palamades. – Do senhor desta torre, disselhi, que é o milhor cavaleiro do mundo. – Eu a quero, disse Palamades. E o escudeiro sõou logo u~u~ corno e, a cabo d’u~u~ pouco, virom u~u~ cavaleiro sair da torre armado e tragia u~u~ escudo verde d’u~as bandas vermelhas em ele. E Palamades disse a Galaaz: – Este é o cavaleiro que venceu dom Gaeriet, que é u~u~ dos bõos cavaleiros da Távola Redonda. Certas, eu o vingarei, se poder. Entom volveu a cabeça do cavalo a ele. Quando o cavaleiro viu esto, disse: – Leixade, cavaleiro, ca nom justaremos aqui; mas vaamos aqui a u~u~ logar que é mais guisado pera justa de cavaleiros ca este. Entom se foram pera u~u~ prado pequeno que era em cabo d’u~a foresta muito espessa. E corria per meo u~u~ rego d’u~a fonte que era mui preto d’i, mas nacia antre u~as árvores tam espessas que os do prado nom na poderiam veer. E sabede que a[que]la fonte era de gram virtude, que já nem u~u~ homem nom seeria tam mal chagado que, pois que daquela água bevesse, que logo nom fosse são. Mas esto nom sabiam os cavaleiros estrangeiros que per ali passavam, onde avi~a que, quando o cavaleiro da torre era chagado e preto já de seer vençudo, pidia prazo que podesse cobrar siira e folgo e iase a[a] fonte e, tanto que d’água bevia, torna[va] em tam gram força e tam [são] como dante. E esto fazia ele quantas vezes queria e por esto vincia com cantos se combatia. Esto divisa o conto ali u fala de #III maravilhas – [a] da Bescha Ladrador e a da vel[h]a dona da capela, aquela que viu Elaim o Branco viver do pam dos ângeos, e a Fonte que era chamada Fonte de Guariçom. A verdade destas #III cousas divisoua o rei Tolheito a Galaaz quando foi a Corberic com dom Boorz e com Persival que viram Título Fólio 577177d o Santo Graal, o que mortal homem nom poderia veer. Ali divisa como estas #III maravilhas aveeram e em qual guisa. Mas ora vos torno aa batalha dos cavaleiros. Título Fólio 578177d [Como o cavaleiro da fonte beveu da fonte e foi são.] Quando ambos os cavaleiros forom no campo que era preto da fonte leixouse correr u~u~ ao outro e feriramse tam rijamente que ambas as lanças voarom em peças. E o cavaleiro da torre, que nom era de tam gram bondade como Palamades, voou do cavalo em terra. Mas ergueuse toste como aquele que era muito arrizado e foi mui san[h]udo daquela caeda e meteu mão a espada e leixouse ir a Palamades que estava a cavalo. E Palamades fastouse afora e disselhi: – Ide vossa via, cavaleiro, ca nom pode seer que eu vos meta mão seendo eu a cavalo e vós a pee. Entom deceu e liou seu cavalo a u~a árvor e meteu mão aa espada e fôlhi dar u~u~ colpe per cima do elmo, o maior que pôde, e dis i outro. Mas o cavaleiro era de tam gram força que se defendia bem a maravilha. Mas, ante que falecesse o primeiro começo da batalha, foi mal treito que das chagas que do sangui adur podia já estar. Ca, sem falha, Palamades era de mui gram coraçom e de bondade d’armas e de mui maior força ca ele. Quando o cavaleiro da fonte viu que nom podia mais, fastouse u~u~ pouco afora e pidiu prazo pera folgar. E Palamades lho deu. E ele foise logo aa fonte e beveu e sentiuse tam são e tam gorido como ante, e tornouse a Palamades e chamou[o] aa batalha e começoulhi a dar maiores colpes da ante no começo. Título Fólio 579177d [Como o cavaleiro se outorgou por vençudo e disse a Palamedes a maravilha da fonte.] Quando Palamades esto viu foi maravilhado e disse em seu coraçom: – Esto que pode seer? Este cavaleiro era ante tanto como vinçudo e agora há maior força que lhi hoje vi. Esta é a maior maravilha do mundo. Ora vejo eu bem o que me disse Galaaz. E o cavaleiro o começou a coitar e dar mui grandes colpes e a miu´de per cima do elmo. Mas aquele que era de mui gram bondade e tam ligeiramente Título Fólio 579178a nom podia seer vincido, defendeuse mui bem e pero a mui gram afam. E viu que #V vezes tornou aa batalha são e ligeiro e a quinta vez sofreu Palamades tam gram afam d’armas que disse Galaaz em seu coraçom que nom podia creer que Palamades tal cavaleiro era que podesse sofrer quanto sofreu; que o cavaleiro da torre, que fora já #V vezes vençudo e que o viu tornar aa batalha são e folgado assi como da primeira. Em era já Palamades tam cansado e tam mal treito e tanto perdera já do sangui que maravilha era como nom era já morto peça havia. E quando el viu vi~ir contra si o cavaleiro que o aa batalha chamava, disselhi: – Dom cavaleiro, vós me enganastes #V vezes. Pa’Santa Maria, nom me enganaredes ja mais. Nom vos partiredes de mim assi atá que vós me venzades ou eu vós. Ca voss[a] ida me fazia gram nojo. E ele nom lhi respondeu rem, mas começoulhi a dar os maiores colpes que pôde. E Palamades se defendia como aquel que era de gram siira e de gram coraçom. E tanto fez, pero a grande afam, que o chegou preto de seer vençudo. E el quis ir aa fonte quando se viu tam mal treito. Mas Palamades o filhou pelo elmo e tirou a si e meteu em terra e parouse sobr’ele e disse: – Pa’Santa Maria, nom escaparedes assi, que me vos nom outorguedes por vençudo e me nom digades unde esta maravilha vos vem. Entom lhi tolheu o elmo da cabeça e deitoulho alonge e fez sembrante de lhi talhar a cabeça. E o cavaleiro, com pavor de morte, pidiulhi mercee que o nom matasse e que se lhi outorgaria por vençudo. – Nom farei, disse Palamades, atá que mi digas o por que te preguntei. – Direicho, disse el, que vejo que nom posso i al fazer. Ora me leixa. E Palamades o leixou. E ele lhi preguntou como havia nome. E Palamades lhi disse seu nome. – Ai, Palamades! disse o cavaleiro, muito ouvi falar de ti e muito és nomeado per toda esta terra. E, pois que eu som vençudo, muito me praz que som vençudo per tal cavaleiro como tu és. Ora te direi Título Fólio 579178b o que me demandas. Eu hei nome Atamas o da Fonte por que eu guardei u~a fonte que há aqui gram tempo que é de gram virtude que todo homem que dela bever já tam cansado nem tam mal chagado nom seerá que logo nom seja cobrado e são assi como ante. – Assi? disse Palamades, mostrame essa fonte. Entom se ergueu Atamas e filhou Palamades pola mão e levouo a[a] fonte que nacia ao pee d’u~a árvor que havia nome saquimor e o cavaleiro beveu daquela água e Palamades outrossi e foram ambos sãos e tam folgados como dante. Entom viu Palamades que lhi dizia Atamas verdade. Título Fólio 580178b [Como Atamas disse que ningu~u~ nom podia saber verdade da fonte senom polo rei Tolheito.] – Ai, dom Galaaz, disse Palamades, ora podemos bem veer que já tanto andámos polo reino de Logres que nom achámos: fonte aventurosa. Vêdela aqui. E Galaaz respondeu: – Muitas vezes ouvi dela falar. Be~eito seja Deus que ma amostrou. Entom preguntou Atamas: – Dizedeme unde esta aventura aveo a esta fonte. – Si Deus m’ajude, nom sei, disse el. Nom pudi eu achar quem mo disse[sse], mas tanto vos digo que u~a molher mi fez entendente que me a esta fonte adusse, que nengu~u~ nom podia saber a verdade desto senom pelo Rei Tolheito. Aquel divisaria esta aventura, como aveo, ao bõõ cavaleiro que há a dar cima aas aventuras do reino de Logres. Título Fólio 581178b [Como Galaaz e Palamades forom aa Torre e como livrarom de prisom #IIII cavaleiros da Távola Redonda.] Palamades disse a Galaaz: – Senhor, assaz ende ouvistes falar. Ora nos vaamos quando vos aprouguer, ca desta aventura nom havemos nós a saber a verdade senom per vós. E ele se calou ca nom quiria que Atamas o conocesse. Entom disse Palamades a Atamas: – Nós nos queremos ir. E vós, que faredes? Ficaredes? Disse ele: – Ficar[ei] e guardarei aqui esta fonte mentre poder ferir d’espada. E Galaaz disse a Palamades: – Nom nos iremos assi que ante nom vaamos a torre veer se há i algu~u~ cavaleiro da Távola Redonda preso, ca mi disserom muitos home~e~s bõõs que este cavaleiro, pois lhos vincia, que os metia em prisom. – Bem dizedes, Título Fólio 581178c disse Palamades. E Atamas respondeo: – Senhores, se eu presos tenho em mia casa, nom havedes vós i que adubar. Eu vos rogo que me nom fazades força. – Par Deus, disse Palamades, convém que os soltees ou per força ou per amor. Atamas respondeu: – Vós m’adussestes ao que me homem nom pode aduzer. E por em farei por vós o que nom faria por outrem. Entom se forom aa torre e assaz acharom quem lhis fazer honra e amor, ca assi o havia mandado Atamas. – Ora, disserom eles, se há i algu~u~s presos, fazedeos vi~ir. – Aqui há, disse el, #IIII da Távora Redonda que eu quisera matar em prisom. E tam maa prisom lhis dei por erro que me fezerom que bem cuido que nunca possam cobrar sa força. – Se i há, disse Palamades, fazedeos vi~ir e nós poeremos conselho enesso. Entom enviou Atamas por eles e adusseramnos tam mal treitos que adur os podiam conocer. E sabede que haviam mui gram nomeada: u~u~ era Galvam e outro era Gaeriet e outro era Bliobleris e outro Sagramor. Todos estes #IIII foram vençudos por Atamas, mas nom é maravilha ca el podia cobrar sa força e saar das sas chagas, assi como vos já disse. Quando Galaaz e Palamades receberom os #IIII cavaleiros, chorarom muito ca muito haviam deles gram doo. E quando Galvam viu Galaaz, disse: – Ai, dom Galaaz, vós sejades bem veudo! Sempre eu disse ca nunca seerímos livres da prisom se nom per vós. Beento seja Deus que vos aqui adusse. E Galaaz [disse]: – Nom no agradezades a mim, mas a dom Palamades que aqui é, que venceu o cavaleiro da fonte per que sodes livres. E como vos sentides? disselhis. Poderedes guarecer? – Si, disserom eles, c[a] o prazer que havemos de que somos livres nos fez guarecer. Tanto m[o]rarom Galaaz e Palamades na torre atá que os #IIII cavaleiros poderom guarecer e entom se partirom todos #VI da torre mui bem aguisados, e Atamas lhis deu quanto houverom mester. E andarom dous dias de su~u~ e partiromse todos a sa parte e cada u~u~ filhou sa carreira. Mas ora leixa o conto a falar deles e torna a Galaaz. Título Fólio 582178c [Como Galaaz chegou aa Foresta Perigosa e achou a fonte que ferve.] Galaaz, pois se partiu dos outros, andou soo buscando as aventuras do reino de Logres per todos os logares u ouvia delas falar, assi que a ventura o levou aa furesta d’Arnantes, u era o Paaço Perigoso. Título Fólio 582178d Ali achou el o moimento de Mois, o filho de Simeu, que sempre ardia como o conto há já divisado. E bem assi como Simeu foi livre do fogo pola vi~i~da Galaaz, assi foi M[o]is livre por aquela mesma aventura. Este milagre foi metudo na see de Camaalot em escrito. E pois ele acabou esta aventura andou tanto per sas jornadas que a ventura o levou aa Foresta Perigosa. Ali achou ele a fonte que fervi u Lançalot matou os #II leões que o moimento guardavam delrei Lançalot, padre de rei Bam, assi como a grande estória de Lançalot o devisa. A aventura daquela fonte que tam muito já fervera deu el cima, e direivos em qual guisa. Título Fólio 583178d [Como a donzela caeu dentro da fonte e foi logo morta.] Uu~ dia aveo que ia Galaaz pola Furesta Perigoosa e acalçou u~u~ cavaleiro com que ia u~u~ escudeiro e u~a donzela. E salvo[u]os e eles esteverom. Er salvaromno e preguntaramlhi donde era. E el disse que era da casa de rei Artur. A caentura era grande, e o cavaleiro lhi disse: – Senhor, bem seeria de folgarmos por esta caentura. E ele lhi disse que lhi prazia. Entom decerom ambos os cavaleiros por folgarem e tolherom já quanto sas armas por s’alivarem delas. Entom disse a donzela ao escudeiro: – Gram sabor hei de bever; cata se acharás aqui água. E o escudeiro andou catando d’u~a parte e da outra e achou u~a fonte mui fremosa e nom na catou, se era caente se fria, e tornouse a[a] donzela e disselhi que achara a mais fremosa fonte do mundo. E ela, que havia gram sede, foise aa fonte e mergeuse por bever e caeu dentro. A água, que era tam caente que fervia, matoua logo, a donzela. Mas, quando houve de morrer, deu u~u~ brado que os cavaleiros ouvirom e foram correndo per alá e acharom no escudeiro que nom ousava meter mão na água que o escaldara já. Título Fólio 584178d [Como Galaaz rogou a Nosso Senhor que a caentura da fonte houvesse cima.] Os cavaleiros preguntarom o escudeiro: – U é ta senhora? – Em esta fonte jaz, disse ele. A água é tam fervente que a nom posso sacar. E o cavaleiro, com pesar da sa donzela, meteu as mãos pola tirar, mas nom pôde ca se queimou e disse: – Ai, Deus! como som morto! – Que havedes? disse Galaaz. – Que hei, Senhor? disse o cavaleiro. Eu achei a maior maravilha que nunca homem viu: esta Título Fólio 584179a fonte, que é tam fervente como se todo o fogo do mundo a caentasse. – Assi? disse Galaaz. Esta é a fonte que |que| ferve? Eu ouvi dela falar a muitos homens bõõs. Entom se assinou e encomendouse a Nosso Senhor e disse: – Senhor, Padre Jesu Cristo, fazede, se vos prouguer, que a caentura desta fonte haja cima em meu tempo, que arrefeça. Título Fólio 585179a [Como Galaaz acabou a aventura da fonte.] Por aquel rogo que fez Galaaz tornou logo a fonte tam fria como outra fonte. O cavaleiro que aquela maravilha viu foi espantado e nom cuidou que fora per bondade de Galaaz. E Galaaz deu graças a Nosso Senhor e espidiuse e foise. E o cavaleiro, pois sacou [a] donzela e pois a fez soterrar, foise aa corte de rei Artur e contou i aquela aventura, em como fora acabada per u~u~ cavaleiro de u~u~ escudo branco e u~a cruz vermelha em ele. E logo todos entenderom que aquele fora Galaaz e disserom que aquelo nom fora per cavalaria mas per grande amor que lhi havia Deus. E fezerom. aquela aventura escrever ant[r]e as outras. O que aqui mingua das aventuras de Galaaz jaz no conto do Braado. Título Fólio 586179a [Como Galaaz se partiu do cavaleiro e andou muitas jornadas per muitos logares.] Galaaz, pois se partiu do cavaleiro, andou muitas jornadas e per muitos logares que vos eu nom conto, ca sobejo haveria eu que fazer se vos contasse todalas maravilhas de Galaaz. E demais a postomeira parte do meu livro seeria maior ca as duas primeiras. Mas, sem falha, o que eu leixo em esta postumeira parte jaz no conto do Braado. Título Fólio 587179a [Como Galaaz achou a Besta Ladrador e se foi pós ela com Palamedes e Persival.] Pois foi assi que andou Galaaz no reino de Logres, tanto que acabou mais das aventuras e que fez muito de se falar per toda a terra. Aveolhi u~u~ dia u ia pola Foresta Gasta que achou a Besta Ladrador. E iam depós ela bem #XX companhas de cães e a besta iase mui tosto, mais pero ia mui cansada per semelhar. E quando Galaaz a viu per ante si ir, disse em [seu] coraçom: – Ora me seerá mau, se esta aventura leixasse meos de acabar, pois tantos homens bõos se trabalharom e nom poderom i rem fazer. Entom se foi depós ela, mas nom andou muito que viu vi~ir dous cavaleiros: u~u~ era Palamades e o outro Persival. Título Fólio 587179b Quando eles virom Galaaz, conoceromno polo escudo, mas ele nom nos conoceu ca havia gram tempo que os nom vira e, de mais, haviam nas armas cambadas. E, tanto que eles a ele chegarom fezeromse conocer e ele foi mui ledo e abraçouos e eles ele. – Dom Galaaz, disserom eles, como vos foi depois que vos partistes de nós? – Bem, disse el, mercee a Deus. Muitas maravilhas ach[e]i no reino de Logres e, graças a Nosso Senhor, ainda nom achei aventura tam esquiva a que nom desse cabo, fora a est[a] Besta Ladrador. Esta achei primeiramente e nunca i pudi rem fazer. E por em me vou pós ela, ca mi semelha que vai cansada. – Par Deus, Senhor, disserom eles, mais há d’u~u~ mês que andamos pós ela. Mas pero, pois vós ende a demanda filhastes, leixarvoslaemos, se vos prouguer. – Nom faredes, disse el, ante quero que me fazades companha e eu a vós. Entom se prometerom que nunca se partissem daquela demanda mentre a podessem manteer. Título Fólio 588179b [Como acharom mais de #XX cães que a besta matara.] Aquele dia se meterom os #III cavaleiros na demanda da Besta Ladrador e foramse pós ela per u entendiam que ela ia, mas nom na poderom achar aquele dia nem veer, ca muito se lhis alongou. E jouverom aquela noite na furesta em u~a choça que i acharom e nom comerom nem beverom ca o nom teverom. E, assi como poderom, pensarom de seus cavalos. E em outro dia começarom d’andar. E Galaaz disse aos outros: – Eu cuido que demos cima a nossa demanda, – Senhor, disserom eles, como o sabedes? – Eu o creeo assi, disse ele. – Deus o faza assi, disserom eles. E andarom assi atá hora de meodia e acharom bem #XX cães mortos. – Per aqui se vai a besta, disserom eles, e ela matou aqui estes cães. E eles esto falando, acharom u~u~ escudeiro que ia a pee e preguntaromno se a vira, a besta. – Si, disse el, em mal ponto por mim, ca me matou o cavalo e hei ir a pee. E per u se vai? disse Galaaz. E ele lh[e] mostrou a carreira per u si ia. Título Fólio 589179b [Como Palamades feriu a besta no lago e como o lago fervia das chamas da besta.] Pois partiromse do escudeiro, foromse per u lhis el ensinou. E nom andarom muito que entrarom a u~u~ vale mui fundo e e[m] meo daquel vale havia u~u~ lago pequeno e mui fundo. Em aquele lago estava a besta que chegara entom mui Título Fólio 589179c lassa e mui cansada e entrara na água por bever, ca havia gram sede. Ena riba estavam os galgos e cercarom o lago de todalas partes e ladravam de guisa que os cavaleiros que andavam depóla besta ouvirom os ladridos. E Galaaz disse a Persival: – Entendês vós aquelas vozes daqueles cães? – Si, disse ele; é a besta. E vamos i! Entom se foram quanto poderom. E, quando chegarom ao lago, virom a besta dentro, mas nom estava tam longe da riba que a nom podessem firir a seu prazer da lança, lançandolha. E eles, tanto que a virom ali, chegaromse a ela o mais que poderom. E Palamades, que era muito ardido e que o havia muito de coraçom e que muito afam presara já por ela pola matar, meteuse no lago de cavalo assi como estava e feriu a besta de tal guisa que lhi passou os costados ambos, assi que o ferro da lança com gram peça da hasta pass[o]u da outra parte. E ela deu u~u~ brado e tam espantoso que espantou o cavalo a Palamades e aos outros, de guisa que adur os podiam teer. Mas a besta, quando se sentiu ferida, meteuse sô a água e começou logo a fazer u~a tam gram tempestade polo lago que semelhava que todolos diaboos do inferno i eram no lago. E começou a arder e a deitar chamas tam grande de todas partes que nom há homem que o visse que o nom tevesse por u~a das maiores maravilhas do mundo. Mas aquela chama nom durou muito, pero aveo ende u~a maravilha que ainda ora dura i: aquele lago começou [a] acaecer e a ferver de guisa que nunca quedou de ferver, ante ferve e ferverá já, em mentre o mundo for, assi como os homens cuidam. Aquele lago que de tal maravilha como vos conto prês aquela caentura e agora há nome “o Lago da Besta”. Título Fólio 590179c [Como Galaaz e Palamedes e Persival chegarom a Corberic.] Pois os cavaleiros esteverom gram peça sobolo lago veendo aquelas maravilhas e a besta nom pareceu, disserom eles: – Esta é a maior maravilha que no mundo há. Título Fólio 590179d E Galaaz disse: – Este lago é mui em cambado, ca ante era frio e ora é caente. Esta maravilha nom falecerá no nosso tempo. Ora nos podemos ir, ca esta aventura sem falha é acabada. Ora aveo o que vos eu disse hoje manhãã. E já mais homem desta besta nom veerá mais que se a nunca visse. E Palamades deve ende haver honra e prez e nós seeremos ende enquisas que o vimos. E ora beengamos Nosso Senhor que nos tal maravilha mostrou. E eles assi o fezerom e partiromse do lago e foramse a u~a ermida u se desarmarom e jouverom i aquela noite por folgarem. Depois andarom de su~u~ todos #III e acharom muitas aventuras que nom contam aqui mas no romanço do Braado as acharedes. E tanto andarom em tal guisa de u~as terras em outras que chegarom a Corberic. E onde Galaaz viu o castelo, conoceuo e disse: – Ai, Corberic, quanto vos andei buscando e quanto me trabalhei por vos achar e quanto andei noites e dias por veer as maravilhas que em vós há! Be~eito seja Deus que vos prougue de vos veermos polas grandes maravilhas e polas grandes aventuras onde, aa sa mercee, me livrou são e ledo e a honra de cavalaria! Título Fólio 591179d [Como os três cavaleiros forom ao Paaço Aventuroso.] Quando os outros entenderom que aquel era Corberic u sabiam verdadeiramente que era o Santo Graal por que todo afam prenderam, erguerom as mãos contra Nosso Senhor e beenzeromno, ca lhis semelhou que haviam a demanda acabada. E Galaaz lhis disse: – Queredes que entremos logo ou atendamos e entremos de noite? – Senhor, disse Persival, já per meu conselho nom atenderemos; mas Deus, que nos i chegou tam preto, vaamos i e veremos o que Deus nos quer fazer ca nós somos ainda vivos. E se a Nosso Senhor prouguesse que recebêssemos o santo manjar que recebemos em Camalot, eu nom queria mais veer. E Galaaz respondeu entom: – Nosso Senhor Título Fólio 591180a nom cate aos nossos pecados, mas aas nossas vontades. Entom cavalgarom atá que entrarom no castelo; e, u iam polas ruas, diziam os da vila: – Veedes aqui os cavaleiros aventurosos que se trabalharom tanto na demanda do Santo Graal. – E tendiam as mãos contra Nosso [Senhor] porque os ali trouxera. Dês i foram ao alcáçar os cavaleiros. Dês i ao Paaço Aventuroso que era mui nco e muito fremoso. – Senhores, disse Galaaz, ora podedes veer as provas de nossas obras. Em este paaço nom pode nem u~u~ cavaleiro entrar se se nom mantém como cavaleiro da Santa Igreja contra Nosso Senhor. Se nós somos cavaleiros do Santo Graal, as portas xi nos abrirám; e se o nom somos nom entraremos i. – Ai, Deus! disse Palamades, seede nosso ajudador em nossa fazenda, ca sem vossa mercee muita cavalaria toda é danada! Título Fólio 592180a [Como acharom i #IX cavaleiros da Távola Redonda.] Quando decerom foram aa porta do paço e a porta se lhis abriu, nom que a homem abrisse, mas assi prazia a Nosso Senhor, que bem conocia as obras e os pensares de cada u~u~. E tanto que forom dentro çar[r]aromse as portas depós eles. E Galaaz disse: – Desarmemosnos, ca per armas nom faremos aqui rem mas pola mercee de Nosso Senhor que nos poderá ajudar i mais que todalas armas do mundo. E eles fezeram assi como lhis el ensinou. E, pois forom desarmados em u~a das câmaras que i havia, virom #IX cavaleiros da Távola Redonda que a ventura adussera i aquel dia meesmo. Uu~ era Boorz de Gaunes e outro era Meliam de Dinamarca que fezera Galaaz cavaleiro em começo da sa cavalaria. E se vos nom falei em esta demanda de Meliam nom me ponhades culpa, ca o nom leixei por nom fazer ele muitas bõas cavalarias em esta demanda, ante o leixo por meu livro nom seer grande sobejo. Mas que[m] as bondades quiser saber, no romanço do Brado as achará. O outro havia nome Elaim o Branco; o quarto Artur o Pequeno; e o quinto Meraugis de Porleguez; e o sesto Claudim, filho de rei Claudas, bõõ cavaleiro e de bõa vida; e o seitemo Lambeguez – aquele cavaleiro era velho, mas muito era de santa vida; e o oitavo era Pinabel da Insua; e o nono Persidos de Calaz. Título Fólio 593180a [Como Galaaz entrou em a câmara do Santo Graal e viu a lança que sangrava.] Título Fólio 593180b Aqueles eram os #IX cavaleiros que a ventura adussera ali por se haver a acabar a aventura do Santo Graal. E quando se virom forom muito ledos e Galaaz disse: – Deus, be~eito seja o vosso no[me], que vos prougue que eu visse vossos #IX cavaleiros. Ora vejo eu bem que haverá cima e[m] esta vi~ida a obra onde tanto falarom pelo reino de Logres. Entom se começarom a preguntar u~u~s aos outros por novas da demanda. E eles si disserom o que em sabiam e quem entom i fosse bem podiria ouvir contar muitas novas e muitas fremosas maravilhas e muitas fremosas aventuras. Os cavaleiros falando esto, veo a eles u~u~ homem velho que lhis disse: – Qual é Galaaz? E eles lho mostrarom. – Senhor Galaaz, disse o homem bõõ, muito vos havemos atendudo longamente e muito desejávamos vossa vi~inda e graças a Deus que vos havemos. Vi~inde comigo e veeremos se sodes tal como os homens bõos vos dizem. E Galaaz se foi com ele. E andarom tanto de câmara em câmara que chegarom u jazia o rei Tolheito. Esta era aquela câmara meesma u era o Santo Graal. E o homem bõõ disse: – Senhor Galaaz, nom vos posso eu fazer companha mais daqui, ca nom som tal que deva a entrar dentro. Mas vós entrade por guarimento do rei Tolheito que longo tempo há que foi tolheito, nom por seu mericimento mas por pecado d’outro. E Galaaz fez o sinal da cruz ante si e comendouse muito a Nosso Senhor e entrou dentro. E viu em meo da câmara, que era mui grande e rica, u~a távoa de prata u o Santo Vaso estava tam honradamente como nossa estória há jádivisado. E nom se ousou a el chegar, que lhi semelhou que nom era tal que se a ele dev[e]sse chegar, mas onde o viu ficouse em geolhos e orouo chorando muito de coraçom. E viu sobola távoa a lança onde a mui santa carne foi chagada de Jesu Cristo; e estava a lança no ar e o ferro a juso e a hasta contra suso. E sabede que deitava gotas de sangui pola ponta que muito espessamente [ca]íam en u~u~ baciu de prata. Mais tanto que em ele caiam nom sabiam que se delas fazia. Título Fólio 594180b [Como u~a voz disse a Galaaz que rei Peleam havia de guarecer per sa vinda.] Título Fólio 594180c Quando Galaaz viu esta maravilha, esmou que aquela era a lança com que Jesu Cristo foi chagado e fez sa oraçom mui gram, peça e foi ledo tanto porque lhi Deus mostrou aquelo que chorou com mui gram prazer e gradeceu muito a Nosso Senhor. E el estando assi em geolhos ouviu u~a voz que lhi disse: – Galaaz, leva suso e filha aquel bacio de sô aquela lança e vaite a rei Peleam e entornalho sobolas chagas ca assi háde guarecer per ta vi~inda. Mas quando o el tomou, o bacio, viu que a lança se foi contra o céu e assi se sumiu que el nem outrem nunca a pois viu na Gram Bretanha. E pois o filhou, nom viu dentro rem pero bem cuidava que havia i muito sangui como vira as gotas muito ameu´de caer. E disse entom: – Ai, Senhor Deus, como som as vossas virtudes maravilhosas! Título Fólio 595180c [Como rei Peleam foi guarido e como a lança e o bacio se forom contra o ceu.] A câmara u estava era mui grande a maravilha e feita a esquadra e tam fremosa que adur poderiam achar tanto. E rei Peleam por que Deus havia feito muito milagre e que nom saira daquela câmara bem havia quatro anos e que nunca al houvera de comer senam a graça do Santo Vaso, era tam mal treito que nom havia poder de se erguer, ante jazia sempre. E quando viu Galaaz que aduzia o bacio da lança, deu-lhi vozes: – Filho Galaaz, vem acá e pensa de me guareceres pois Deus quis que eu guarecesse em ta viinda. Quando Galaaz ouiu o que elrei dizia, logo soube que aquel era rei Peleam de cujo mal todo o mundo havia doo. Entom se foi dereitament’a el, seu bacio nas mãos, e elrei juntou as mãos contra o bacio e descobriu sa[s] coixas e disse: – Vedes aqui o dooroso colpe que o cavaleiro das duas espadas fez. Per este colpe aveo muito mal e pesam’ende. E sabede que as chaga[s] eram tam frescas como aquel dia que fora ferido. E Galaaz tomou o bacio sobre sas coixas u cuidou que nom havia rem e, ao entornar, viu caer sobolas coixas três gotas de sangui; e tam toste lhi saíu o bacio d’antre as mãos e foise contra o céo, que nom houve poder de o teer. Assim como vos digo aveo da lança vingador e do bacio que estava sô ela, que se partirom do reino de Logres veendoo Galaaz, e foise ao céu assi como a verdadeira estória testimunha. Daquela santa lança nem daquel bacio nom sabemos mui bem nós se se foram pera os céus. Mas a vontade de Deus fo[i] tal que nom foi pois homem em Inglaterra que dissesse que os vira. Título Fólio 596180c [Como rei Peleam foi são das sas chagas.] Título Fólio 596180d Rei Peleam foi logo são das sas chagas que tam longamente lhi durarom e foi a Galaaz e abraçou[o ]e disselhi: – Filho, santo cavaleiro e santa cousa, comprido de gram direito, rosa direita e lírio me semelhas direitamente porque és limpo de toda luxu´ria.. Rosa me semelhas tu direitamente porque és mais fremoso d’outro cavaleiro e melhor e de milhor don[airo], e [com]prido de todas virtudes e de to[da]las bõas manhas do mundo! Tu és árvor nova de Jesu Cristo, que el compriu de todolos bõõs fruitos que homem poderia haver. Título Fólio 597180d [Como rei Peleam se foi a u~a ermida e se fez ermitam e como Nosso Senhor fez por ele fremosos milagres.] Pois Peleam foi curado fez sa oraçom mui gram peça. Dês i, sairomse da câmara el e Galaaz e disselhi: – Filho Galaaz, pois me Deus fez tanta mercee, já mais nom me partirei de seu serviço e irmiei daqui, que já mais nom falarei a homem nem a molher e irm’ei daqui preto a u~a ermida u seerei ermitam que ja mais, em mentre viva, nom me partirei ende. Dis i foi aos cavaleiros que estavam dentro no paaço e beijouos em lugar de paz e contoulhis a gram mercee que Nosso Senhor lhi fezera em vi~inda de Galaaz. E eles gradeceromno muito a Nosso Senhor. E el-rei se foi logo, que nom houvi homem no castelo que o soubesse e foise aa ermida e morou i mais du~u~ meo ano em serviço de Nosso Senhor, assi que Nosso Senhor fez por el mui fremosos milagres. Título Fólio 598180d [Como os #XII cavaleiros virom o Santo Graal.] Os #XII cavaleiros que el leixou no Paaço Aventuroso, pois esteverom ali atá hora de véspera e Galaaz lhis contou o que vira da lança vingador e do bacio em que caía o sangue. Dis i ouvirom u~a voz que lhis disse: – Cavaleiros compridos de fé e de creença, escolheitos sobre todolos outros cavaleiros pecadores, entrade na câmara do Santo Vaso e haveredes avondamento do manjar que demandastes e que tanto desejastes. Quando eles ouvirom esta vo[z] ficarom os geolhos e chorarom com ledice e derom graças a Nosso Senhor. Pois disserom a Galaaz: – Senhor, ide diante e guiadenos. E el o fez pois viu que o rogavam. E foi pós el Persival e pois Boorz, dis i todolos outros. E, pois entrarom na câmara e virom a mui rica távoa de prata sobre que o mui Santo Vaso estava, nom houve i tal que o nom conocesse que aquel era o Santo Graal. E ficarom logo os geolhos em terra tam ledos e com tam gram prazer do que viiam que bem lhis semelhou que nunca haviam de morrer. Título Fólio 599180d [Como receberom o bõõ manjar e como houverom gram ledice e gram prazer.] Título Fólio 599181a Estando eles assi em sa oraçom, virom sobola távo[a] de prata u~u~homem vestido de panos brancos mas, se[m] falha, o rostro nom lhi podiam veer, ca era de tam gram claridade que os olhos, que mortaes eram, nom no podiam veer, ante se envergonhavam de tal guisa que lume de cada u~u~nom podia catar maravilha celestial. O homem que estava sobola távoa, assi como vos digo, disse: – Vi~indi adiante, cavaleiros compridos de fé e de creença, e haveredes o manjar que tanto desejades. E tu, filho Galaaz, que eu achei mais leal e melhor ca outro cavaleiro, vem adiante. E ele se ergueu e chegouse aa távoa, mas a claridade era tam grande que adur podia veer per u fosse. E o homem lhi disse: – Abre a boca. E el a abriu. E ele lhi deu a hóstia. E assi fez cada u~u~. Mas bem sabede que nom havia i tal deles a que nom semelhasse ca lhi metiam na boca u~u~ homem vivo e nom houve i tal que cuidasse que era em terra mas em céus. Ende aveo que houverom tam gram lediça e tam gram prazer que mortal coraçom nom podia pensar. E, pois forom assim como vos eu digo avondados do santo manjar e de gl[o]riosa graça do Santo Graal, er ficarom os geolhos ante a távoa e começou a preguntar u~u~ ao outro como se sentiam. E Claudim respondeu ao que preguntou: – Eu me sento tam avondado de bõõ manjar: nom é de pecadores mas de justos; nom é terreal mas celestial. Por que digo que nunca a meu ciente, cavaleiros pecadores houverom em sa vida tam gram galardom como nós em seu serviço, se lhi prouguer, ca este manjar é ledice e prazer e graça espirita[l]. E outrossi dissi cada u~u~. Entom er ficarom os geolhos ante a távoa e esteverom em prezes e em orações atá mea noite tam ledos que de sa ledice nom vos poderia homem mortal dizer. A[a] hora da mea noite, pois os cavaleiros rogarom a Nosso Senhor que os guiasse a sau´de das sas almas, disselhis u~a voz: – Meus filhos, ca nom meus enteados, meus amigos, ca nom meus inmigoos, saíde daqui e ide u aventura vos quiser mais bem fazer. Nom vos fastedes ende afora, ca vós receberedes ende aa cima bõõ galardom. Título Fólio 600181a [Como Galaaz e Boorz e Palamedes e Persival se partirom de Corberic.] Quando eles esto ouvirom responderom a u~a voz: – Padre dos céos, be~eito sejas tu que nos por filhos te~es. Ora sabemos nós que nom perdemos nosso afam. Entom se saírom da câmara e foramse ao Paaço Aventuroso e abraçaromse e espidiromse chorando porque nom sabiam quando se viriia[m]. E disserom a Galaaz: – Sabede que nunca tam gram prazer houvemos como dês que fomos em vossa companha enesta Título Fólio 600181b tam gram festa e este tam glorioso manjar. E esta é a festa postumeira do reino de Logres. E contra este gram prazer que nós havemos, havemos logo gram pesar porque nos partimos. Mas praz assi a Nosso Senhor. – Senhores, disse Galaaz, se vós amades mia companha bem amo eu a vossa outro tanto. Mas, pois eu vejo que nos havemos a partir, comendovos a Nosso Senhor e rogovos que, [se] fordes aa corte de rei Artur, que me lhi saudees e a meu padre Lançalot e a todolos cavaleiros da Táv[o]la Redonda. E eles disserom que assi o fariam. E entom se armarom e aveo assi que achou cada u~u~ seu cavalo no curral. E pois Galaaz cavalgou e que tiinha sa lança e seu escudo, foi Palamades a ele, que havia gram pesar daquele partimento, e abraçoulhi a perna armada e começoulhi a beijar o pee e a chorar mui fortemente e disselhi: – Ai, dom Galaaz, santo cavaleiro e santa cousa, santa carne! Este departimento que eu faço de ti me mata, ca hei pavor de nom prazer a Deus que te er veja; e se assi for, rogote que te lembres de mim. Tu me tolheste de toda coita e me meteste em toda bõa ventura; e por em te rogo que rogues a Nosso Senhor por mim, que lhi nom esqueça e que me mantenha em guisa que haja a alma de mim depós a minha morte. E Galaaz respondeu: – Vós me nom esqueceredes nem eu nom vos esqueça. Entom se partirom todos e sairomse de Corberic e nom acharom homem que rem lhis dissesse. Galaaz se foi per u~a carreira e Boorz per outra e Palamades e Persival per outra. E nom andarom muito que ventura os ar assu~ou. E quando eles esto virom foram muito ledos e beenzerom Deus. Destes #III que Nosso Senhor ajuntou vos contarei como lhis aveo e como Galaaz e Persival morrerom e como Boorz er tomou aa cidade de Camalot. Dos outros que em aquela aventura foram vos nom direi eu rem. De Palamades, daquel sem falha vos direi como aveo e como Galvam o matou e per qual deslealdade. Dos outros oito, quem ouir quiser como lhis aveo, vaa a[o] conto do Braado. Mas ora leixa o conto a falar deles e torna a Palamades. Título Fólio 601181b [Como Lancelot conhoceu Palamades.] Palamades, quando se partiu de Corberic andou pois longo tempo sem aventura achar que de contar seja. Em u~u~ dia lhi aveo que deceu ante Título Fólio 601181c u~a fonte por bever e, pois beveu, asseentouse por folgar. E ele assi seendo aquevos Lançalot e Estor. E Lançalot, como conoceu o escudo de Palamades, dissi a Estor: – Irmão, vedes aquel cavaleiro? – Si, disse el. – Sabede, disse Lançalot, que vedes u~u~ dos bo[n]s cavaleiros do mundo e nom há muito que o eu provei aa lança e nom houvi sobr’el rem de melhoria. E por em quero provar d’espada se val tanto come de lança. Mas esto nom quero eu se ele nom quiser. E disse: – Ora ide a el e dizedelhi que o chamo aa batalha das espadas. Mas em guisa lho dizede que se nom queixe. – E como há nome? disse Estor. – Bem volo direi outra vez, disse Lançalot. Título Fólio 602181c [Como Lancelot demandou Palamedes aa batalha das espadas.] Entom se foi Estor a Palamades e disselhi: – Senhor cavaleiro, veedes aqui u~u~ cavaleiro estranho que vos demanda aa batalha das espadas. Guardadevos del e creedeme. – E quem é? disse Palamades. – Esto nom podedes vós ora saber, disse Estor. – E como me chama aa batalha, disse Palamades, ca nunca lhi [e]rrei? – Semelhame que assi é, disse Estor. Entom se colheu a seu cavalo Pa[la]mades e filhou sas armas. E tam toste que Lançalot viu a cavalo Palamades meteu mão a espada e foi contra el. E Palamades er fez outrossi. Entam se começou a batalha tam grande antre eles e tam fera que semelhava a Estor que nom podiria homem achar em todo o mundo milhores dous cavaleiros. E sas espadas eram tam bõas que sas armas nom nos podiam defender que se nom fezessem no corpo muitas chagas grandes e pequenas. Tanto durou a batalha d’ambos que per força houverom de folgar ca o mais são e o mais arrizado havia perduda muita da sa força. Mas Lançalot havia já quanto o milhor da batalha, mas nom de muito. E pois se combaterom tanto que houverom de folgar, fastouse afora u~u~ de outro. E Palamades começou a catar Lançalot e, quando o viu tam grande e que achou em ele tanta bondade Título Fólio 602181d d’armas, logo lhi deu o coraçom que era u~u~ dos cavaleiros da Távola Redonda. E, se se com ele combatesse, que seeria perjurado e desleal, e disse: – Senhor cavaleiro, tanto me combati com vosco que nom posso mais e tam gram bondade achei em vós que vos desejo muito a conocer. E por em vos rogo que me digades vosso nome, ante que mais fazamos, e, se per ventura vos errei em algu~a cousa, corregervoloei a vossa vontade. – Certas, disse Lançalot, nunca me errastes, dom Palamades, nem eu nom vos desamo, nem esta batalha nom na comecei por desamor que vos houvesse, ante a comecei por saber que sodes tam bõõ cavaleiro d’espada como de lança. E tanto vi esta vez em vós que sei que sodes u~u~ dos bõõs cavaleiros do mundo. E porque vos chamei aa batalha, sei que vos errei e querovolo correger aa vossa vontade. E, se vos praz que a batalha se parta per tanto, a mi praz, e eu conosco milhor a vossa bondade ca ante e vós a minha. – Como? disse Palamades, por esto começastes a batalha e nom por al? – Certas, disse el, nom. – Par Deus! disse Palamades, esto é gram cousa. Mas ora me dizede como havedes nome. E ele nomeouse. E quando ele ouiu que era Lançalot, o homem do mundo mais nomeado e de maiores feitos fora Galaaz, deitou o escudo e a espada em terra e disse: – Ai, Senhor! ca mim vos outorgo em por vençudo. Por Deus, se vos errei em algu~a rem, perdoademe. E ele disse que nunca lhi errara. – Mas porque me combati com vosco e vos conocia perdoademe, ca, sem falha, muito vos errei. E Palamades lhi perdoou. Entom decerom ambos e Estor outrossi a que prougue quando a batalha foi partida. E, pois s’assentarom por falar das sas aventuras, Lançalot preguntou a Palamades: – Como vos sentides da batalha? – Desta batalha mui mal, disse el, pero guarecerei. Mas pero bem vos digo que me errastes mui Título Fólio 602182a mal, que som vosso irmão da Távola Redonda, por que nom devêr[a]des em mim mão meter em nem u~a guisa. Entom lhi contou como houvera a seeda da Távola Redonda. – Bem vejo, disse Lançalot, que vos errei, mas rogovos que me perdoedes. E ele lhe perdoou mui de grado. Título Fólio 603182a [Como Lancelot e Estor souberom novas da fremosa aventura em casa de Rei Pescador.] – Ora me dizede, disse Lançalot. E de Galaaz, sabedes novas? Entom lhi começou a contar como forom os #XII companheiros em casa de rei Pescador e a fremosa aventura que lhis aveo i, de como se pois partirom. E sabede que, em mentre aquele conto durou, sempre Lançalot e Estor chorarom com prazer e com ledice das novas de Galaaz e de Boorz onde nunca novas cuidarom a ouvir. E pois lhis contou sas novas desarmouse e fez liar sas chagas o melhor que pôde e outrossi fez Lançalot que era mui mal chagado. Dês i cavalgarom e for a[m]se todos #III e nom andarom muito que se partirom em u~a carreira que se partia em três partes. Título Fólio 604182a [Como Galvam e Agravaim matarom Palamades aa traiçom.] Palamades se foi a seestro per u~a furesta a par de u~a montanha, mui mal chagado, e perdera do sangui que maravilha era como se podia teer no cavalo. E indo assi aveo que a ventura e a má andança que i obrarom que topou com Galvam e com Agravaim que o desamavam. E eles andavam sãos e folgados que peça havia que se nom combaterom nem acharom aventura que rem fosse. Tanto que viu Galvam Palamades logo o conoceu; e dês que o viu cavalgar febremente, semelho[u]lhi que nom era bem são e mostrouo a Agravaim e disselhi: – Vedes aqui o cavaleiro do mundo a que eu peior quero e que me mais errou. – Assi digo eu, disse el; mas nom sei que façamos i, ca eu sei bem que é u~u~ dos milhores cavaleiros do mundo e que milhor se combate e que milhor se defenda se o cometermos. Ora guardade o que lhi queredes fazer ca nom é pequena cousa de homem cometer o que é bõõ cavaleiro sobejamente. – Seguramente, disse Galvam, o podemos Título Fólio 604182b cometer, ca bem entendo que é mal chagado. – Ora nom sei, disse Agravaim, o que seerá; mas pois vós queredes cometêlo, quero eu. Entom dê voz a Palamades: – Guardadevos de mim, ca vos desfio. E outrossi ar disse Galvam. Quando ele viu viir ambolos irmãos, conocêos e nom soube que fezesse ca bem sabia que eram da Távola Redonda e, se eneles metesse mão, seeria perjurado e desleal. Entom disse [a] Agravaim: – Estade atá que vos diga u~u~ pouco. E el esteve. – Ora me dizede, disse Palamades, nom sodes vós da Távola Redonda? – Si, disse Agravaim. – E companheiros da Távola Redonda podemse nunca ju[s]tar per mal talam que se nom pe[r]jurem? – Nom, disse Agravaim. – Pois, disse Palamades, este preito é partido, ca eu som da Távola Redonda come vós. E contoulhis como e onde o fora. E Galvam saíu per Agravaim e disse: – Ai, Palamades! Esto nom há mester. Certas, vós sodes morto, que nengu~u~, fora Deus, nom vos dará vida. – Ai, dom Galvam! disse Palamades, tal torto e tal vilania nom faredes vós, pois vos nom merici morte e pois som vosso irmão da Távola Redonda. E Galvam respondeu: – Guardadevos de mim, se quiserdes; e, se vos nom ousardes a defender, leixadevos matar, ca, sem falha, em esto sodes. E Palamades disse: – Já hoje foi tal hora que, se me cometêreis, que dera por vós mui pouco, ca me cuidara de vós ambos defender. Mas dom Lançalot, onde me parti agora, me achagou tam mal que, se me ora matardes, nom seerágram maravilha ca pequena defensam acharedes e[m] mim. E pero defenderm’ei quanto poder. Mas se morrer, morrei a torto. E como quer que seja de meu coraçom, Deus me haja parti na alma, se lhi prouguer. Entom meteu mão a sa e[s]pada e disse: – Ora venha qual de vós primeiro quiser seer perjurado. E Galvam disse: – Esto nom hámester. Título Fólio 604182c E fôlhi dar u~u~ colpe per cima do elmo o maior que pôde e [A]gravaim outrossi. E começaromno a acoitar aas espadas em cantas guisas eles poderom. E ele se defendia tam bem segundo o poder que havia que era u~a gram maravilha e tam grand’afam prês em se defender que todalas chagas lhi quebrarom, assi que em pouca d’hora foi o campo vermelho arredor do seu sangue. E por esto perdeu logo toda sa força, ca o coraçom e todolos nembros lhi falecerom e caeulhi a espada da mão e ele caeu em terra assi como morto. Tanto que esto viu Galvam, deceu e tolheulhi o elmo por lhi talhar a cabeça. – Ai, irmão! disse Agravaim, nom lhi façades mais de mal, ca morto é sem falha. Nom quiséssedes per rem a atam bõõ cavaleiro talhar a cabeça, mas vaamonos, ca muito lh’havemos feito. E el respondeu: – Se vos nom praz, nom lha talharei, mas nom escapará assi. Entom lh’ergueu a abaa da loriga e meteu a espada per ele. E Palamades, que se sentiu chagado, deu u~a voz mui doorida e disse: – Ai, Senhor Padre Jesu Cristo! Havemi mercee a alma. Entom se estendeu com mui gram coita de morte que em si sentiu. E quando esto viu Galvam, subiu em seu cavalo e disse a Agravaim: – Ora nos vaamos, ca deste somos seguros que nos nom farádesonra. – Vaamos, dissi Agravaim. Mas, si Deus m’ajude, muito me pesa porque era tam bõõ cavaleiro e tal dano mau seerá de cobrar. Título Fólio 605182c [Como Lancelot e Estor acharom Palamades chagado a morte e do gram doo que per ele fezerom.] Entom se forom e leixarom Palamades como vos eu digo e Galvam foi em mui ledo. Mas Agravaim, porque [o] ti~ia por bõõ, pesoulhi. E nom se alongarom em muito que chegou Lançalot e Estor e acharom Palamades jazer de rosto sobre seu escudo. E, tanto que viram o escudo, conoceromno e tolheromlh’o escudo e o elmo e o almofre. E quando virom que era Palamades, leixaramse caer sobre ele e começarom a fazer mui gram doo e tam doorido como se toda sa linhagem tevessem ante si mortos e disserom: – Ai, Deus! como há aqui gram dano e dooroso! Como fez meos valer a Távola Redonda [e] a boa cavalaria do reino de Logres quem tal cavaleiro come este matou! E eles dizendo esto e que chorarom Título Fólio 605182d muito virom que Palamades ainda era vivo. E, pois os ascutou gram peça e ouíu como o choravam, pensou logo que nom era Galvam nem seu irmão e esforçouse de todo seu poder que os pôde veer bem. E, pois [os] viu, conocêos e veeromlhe as lágrimas aos olhos, ca muito lhe era caro de leixar tal companha como aquela. E a cabo de u~a peça, disse: – Ai, meu Senhor dom Lançalot, eu moiro! Por Deus, le[m]bradevos de mim, ca vós sodes o homem do mundo que eu mais amo, fora dom Galaaz. E nom vos esqueçades em depois da mia morte. E vós, dom Estor, se me algu~u~ tempo quisestes bem em mia vida, nembrevos de mim depois da mia morte. – Ai, dom Palamades! disse dom Lançalot, por Deus, dizedeme o que vos fez esto. – Galvam, disse el, que me matou sem razom. Deus lhi perdooe e eu faço. E Agravaim foi em s’ajuda, mas mais lhi pesou que lhi prougue. – E cuidades vós, disse Lançalot, que possades guarecer? – Nom, disse el, eu som morto sem falha. E quando fordes aa corte de rei Artur, saudademelhi muito ele e todos meus companheiros da Távola Redonda e meus irmãos. Depós esto firiu com sa mão o seu peito chamando sa culpa e começou a chorar mui feramente por seus pecados. E a cabo d’u~a peça disse: – Ai, Jesu Cristo, fonte de piedade e de misericórdia, havi mercee a mia alma e assi como t’eu servia lealmente e de bõa vontade depois que recibi bautismo, assi havi tu mercee da mia alma a esta sazom u mi nom há mester se nam a ta mercee. Entom se calou u~a grande peça e depois disse: – Ai, morte! Se tu atendesse[s] u~u~ pouco, poderia eu seer homem bõõ a Deus e ao mundo. Depois juntou sas mãos contra o céu e ar disse: – Ai, Jesu Cristo, padre e senhor de piedade, nas tuas mãos comendo eu a mia alma e o meu espírito. Entom pôs as mãos em cruz sobre seu peito e logo foi morto. E Lançalot e Estor fezerom seu doo grande todo [o] dia e toda a noite que nom comerom nem beverom nem fezerom al senom doo. – Ai, Deus! disse Lançalot, como aqui há gram doo e gram dano! Quem poderia ja mais cobrar tal dano e tal perda? – Certas, ningu~u~, disse Estor, ca no mundo nom ficou milhor escudo fora dom Galaaz. Que vos direi? Gram doo [fezerom] Título Fólio 605183a os irmãos todo aquele dia e toda aquela noite ca a maravilha amavam e prezavam Palamades. Título Fólio 606183a [Como Esclabor fazia tam gram doo per morte de Palamedes seu filho.] Enoutro dia, quando era já o sol saído, chegou i Esclabor, padre de Palamades, e preguntou os cavaleiros quem era aquel por que faziam tal doo. E eles lho disseram. E, quando el ouíu que era seu filho, a rem do mundo que el mais amava, nom houve poder de falar, assi se lhi çarrou o coraçom, e caeu em terra de tam alto como estava. E eles, que o nom conociam, foram a el e tolheromlhe o elmo e acharomno esmorido. E quando acordou deu as maiores vozes que pôde: – Ai, filho amigo! Como aqui há maas novas! Entom se leixou caer sobr’el e começoulhi a beijar a boca, que ti~ia chea de sangue e de poo. E quando os irmãos virom esto conocerom que era Esclabor e começarom com ele a fazer seu doo tamanho como d’ante. Todo aquel dia atee hora de noa durou aquel doo e Esclabor disse: – Ai, senhores! Eu som morto. Ja mais nom haverei ledice nem bem quando vejo me[u] filho, a rem do mundo que mais amava e o melhor cavaleiro do mundo, assi morto ante mim, Eu vivi tanto que nom há mester de mais viver. E pero, a[n]te que me leixe morrer, vos quero rogar que levedes o corpo de meu filho a u~a abadia que é preto daqui, ca eu som tam velho e tam febre e com tanta door que o nom poderia alá levar. E eu quero que jaça na abadia porque a fiz eu. E eles disserom que o fariam mui de grado e assi o fezerom e sobirom em seus cavalos e Lançalot pôs ante si Palamades e levouo a[a] abadia. Mais nunca homem viu tam gram doo como o padre foi fazendo toda a carreira. Título Fólio 607183a [Como soterrarom Palamedes mui ricamente e como quiserom fazer leteras que devisariam sa bondade e sa morte.] Quando Palamades foi soterrado os #II cavaleiros disserom a Esclabor quem no matara. Dis i partiromse dali. E o padre fez cobrir o moimento de prata e lavrado de mui fremosa obra e de tam rica que nom poderia homem achar melhor no reino de Logres. E cada dia ia sobr’el fazer seu doo tam grande que nom há no mundo homem de tam duro coraçom que lhe nom filhasse ende doo. E os frades, que bem sabiam que Palamades fora u~u~ dos bons cavaleiros do mundo e que ouirom dizer como morr[er]a, disserom que fariam leteras sobelo moimento que devisariam sa bondade e sa morte. – E de quê? disse o padre. – D’ouro, disserom eles, ca taes comve~em Título Fólio 607183b a sa bondade. – Ai, senhores! disse el, rogovos, pois esto queredes, que mi dedes u~u~dom. E eles lho outorgarom. – Ora sabede, disse el, que vós mi outorgaredes que faredes estas leteras de manhã do que vos eu enviar. Entom se partiu da abadia e levou consigo u~u~ escudeiro e albergou aquele dia ant[r]e u~as penas em montanha a u~a légua dali. Título Fólio 608183b [Como Esclabor se matou com pesar da morte de Palamedes.] Enoutro dia, quando o sol foi levado, Esclabor suspirou e filhou sa espada e filhou seu elmo e disse ao escudeiro: – Filharás este elmo cheo de meu sangui e levao aa abadia e di aos frades de mia parte que fazam ende as leteras sobolo moimento de meu filho assi que per aquelas leteras possam veer a renembrança da morte do filho e do padre. Ca depós morte de tam bõõ filho nom quero eu viver, velho e febre e tam mal treito como som. E rogote que tu faças meu corpo deitar cabo de meu filho, nom pero com el, ca nom som tal que deva jazer com tam bõõ cavaleiro como el foi. E pois esto disse meteu mão aa espada e meteua per si e encheu o elmo de sangui de si e deuo ao escudeiro e disse: – Faz o que te roguei. E o escudeiro foi espantado quando esto viu e dissi com pesar que aquela message[m] faria el. Entom filhou o sangui e foise a[a] abadia e fez todo assi como el mandou. E assi foram feitas as leteras sobelo muimento de Palamades, como fora morto e per qual deslealdade e como se matou seu padre com seu doo e pesar grande da morte de Palamades p[or]que o prezavam muito de cavalaria. E rei Artur, quando o soube, pesoulhi muito e disse que per morte d’u~u~ homem nom veria de gram peça tam gram dano ao reino de Logres e disse que já Deus nom adusse Galvam a sa casa ca mais confondera sa corte per muitos homens bõõs que matara, que homem poderia cuidar. Que vos direi? Muito foi o doo e o gram pesar que todos da sa morte houverom. Mas ora leixa o conto a falar ende e torna a Galaaz e a Persival. Título Fólio 609183b [Como Galaaz e Boorz e Persival forom aa ermida u era rei Peleam irmitam.] Ora diz o conto que, pois Galaaz e Persival e Boorz ar forom ajuntados, assi como o conto há jádevisado, andarom muitas jornadas Título Fólio 609183c vezes du~a parte, vezes d’outra, como a ventura os levava. Galaaz e Persival, andando como vos eu digo – cuidavam que iam pera o mar – acharomse preto de Co[r]beric a aquela ermida u rei Peleam se metera ermitam. E quando el viu Galaaz foi mui ledo, e recebeu el mui bem e os outros. E, porque era tarde, ficarom [com] ele e pois comerom daquele manjar que o homem bõõ ti~ia. E Galaaz lhi disse entom: – Senhor, por Deus, dizedeme u~a cousa que hei gram sabor de saber e bem cuido que a nom posso saber se per vós nom. – Mui de grado, disse el, se a eu souber. – Senhor, disse Galaaz, eu vi em esta foresta três maravilhas: u~a foi da besta ladrador e outra da fonte da guariçom e outra d’u~a dona da capela. – E devisoulhe como a[s] vira. – Ai! disse rei Peleam, estas som sem falha das aventuras do reino de Logres e gram tempo há que estas maravilhas aveerom. E eu vos direi a verdade assi como a sei. E falarvosei primeiro da Besta Ladrador porque a ementastes primeiro. Título Fólio 610183c [Como a filha de rei Hipomenes amou seu irmão.] U~a sazom foi que houve em esta terra u~u~ rei que houve nome [H]ipomenes. Aquel rei havia u~a filha tam fremosa que em todo o reino de Logres nom havia tam fremosa cousa. A donzela havia u~u~ irmão de tam bõa vida e de tam gloriosa contra Nosso Senhor que maravilha, e com todo esto era tam fremoso e tam sisudo e de tam bõa graça que nom há homem que o conocesse que se nom maravilhasse por sa vida e por sa fazenda. E era muito letrado, mais a donzela chus, ca ela havia consigo os milhores mestres do mundo que lhi ensinavam as #VII artes quanto eles mais podiam. Quando ela chegou a[a] idade [de] #XX anos foi tam entendida e tam sabedor que todos se maravilhavam por sa sabedoria e nom lhi saberiam preguntar rem de clerezia a que ela nom respondesse compridamente. Mas nom estudava em nem u~a arte tam de grado como em nigromancia. A donzela era louçãã e leda e havia maior sabor do mundo ca devia haver; e, quando conoceu a amar amou seu irmão Título Fólio 610183d pola beldade e pola bondade que em ele havia. Que vos direi? Tanto o amou que se nom pôde sofrer que lho nom dissesse. E aquele que era virgem e que o queria seer em todolos dias da sa vida e que se deitava a servir Nosso Senhor de todo seu poder, houve gram pesar e disse a sa irmãã por espantála. – Vai, cousa mal aventurada, ja mais nom mo digas ca te farei queimar. E ela houve gram pavor e vergonha da sa ameaça e calouse toda tolheita e sandia. Mas pero seu irmão a meaçou, nom no amav[a] ela meos que ante, mas muito mais. Que vos direi? Ela provou todalas maravilhas que pôde assi per clerizia como per al, se o podiria haver, mas nom pôde. E disse entom: . – Mais val que me mate ca viver enesta coita. Título Fólio 611183d [Como o demo lhe pareceu em semelhança de homem.] Entom filhou u~u~ cuitelo que ti~ia em sa arca e partiuse de sas donas e das sas donzelas e foise a u~a horta de seu padre, a u~a fonte que i havia, e ali se queria matar por sair da sa coita. E parecêlhe o demo em semelhaça de homem tam fremoso e tam bem feito que maravilha. E quando viu que se queria matar, disselhi: – Ai! donzela, nom vos matedes mas atendê atáque fale com vosco. E ela foi espantada, mais nom muito, e deteve seu colpe e disselhi: – Quem sodes? – Eu som u~u~ homem, disse ele, que vos amo muito e vos prezo sobre todalas donzelas que eu sei, e pesame muito porque nom podedes haver o que desejades. E ela foi toda espantada quando esto ouviu e disselhi: – E vós quem sodes que sabedes o que eu desejo e nom posso haver? – Eu sei bem, diss’el, e diriavolo, se soubesse que vos nom pesaria. – Dizedemo, disse ela, eu volo rogo. – De grado, diss’el, pois vos apraz. Vós amades vosso irmão tanto que a pouco que vos nom perdedes por el. E por em vi~i aqui a vós: se quiserdes fazer o que vos eu rogar, eu volo farei haver aa vossa vontade e toste. Quando a donzela esto ouiu, disse: – Eu sei bem que vós sodes mais sisudo ca homem podiria coidar, que vós sabedes o que homem nem molher nom podiria saber fora eu e meu irmão. E por em vos outorgo a fazer todo que vós quiserdes o que me dizedes. E ele lho prometeu. Dês i, disselhi: – Ora vos peço que me dedes vosso Título Fólio 611184a amor em galardom d’haverdes o que tanto desejades. – Ai, disse a donzela, como faria eu esto? Já vós bem sabedes que amo meu irmão tanto que moiro por el. – Nom pode al seer, disse o demom; ou vós faredes o que vos eu digo ou ja mais nom no haveredes. E aquela que era chea de pecado e de mala ventura acordouse i, pero mui da envidos; e ajudava i muito porque lhi parecia o demo mui bem. Título Fólio 612184a [Como a donzela outorgou seu amor ao demo.] Assi outorgou seu amor ao demo e ele jouve com ela assi como o padre de Merlim jouve com sa madre. E quando jo[u]ve com ela houve ela tam gram sabor que lhi escaeceu o amor de seu irmão tam mortalmente que nom poderia mais. U~u~ dia estava ante u~a fonte com seu amigo o demo e começou a pensar muito. E ele lhi disse: – Que pensades? Vós pensades como poderíades matar vosso irmão? – Par Deus, disse ela, esso. E ora vejo bem que vós sodes o homem mais sisudo do mundo e rogovos por aquel amor que me vós havedes que me ensinedes como o possa matar ca nom hácousa no mundo com que me tanto prouguesse. – Eu volo ensinarei, disse el. Enviade por vosso irmão que venha com vosco falar a u~a câmara. E, pois fordes i, çarrade a porta e entom lhi deman[da]de o que quiserdes. E el nom no querrá fazer. E vós travade em ele e teedeo bem e ele se assanhará logo assi que vos fará nojo mas nom grande. E vós dade vozes e todolos outros cavaleiros chegarseam i. Entom poderedes dizer que vos aforçou e elrei o fará prender e fazer dele justiça e assi seeredes vós vingada. Título Fólio 613184a [Como rei Hipomenes fez meter seu filho em prisom.] Bem assi como o demo disse assi o fez ela ca enviou por el. E u lhi ela quis falar naquelo deulhi el u~a palmada tal que todo o rosto foi coberto de sangui e o peito. Entom ela começou dar vozes: – Valedeme! Valedeme! E todolos do paaço correrom ali e el-rei [H]ipomenes outrossi e britarom a porta da câmara. E quando elrei viu tal sa filha houve gram pesar e preguntoulhi quem lhe fezera aquelo. – Senhor, disse ela, meu irmão que me escarneceu. – Como? disse el, jouve contigo? – Si, disse ela, mau meu grado. E elrei fez logo prender seu filho e metêlo em u~a torre, Dis i, preguntou sa filha: – Jouve Título Fólio 613184b hoje contigo? – Nom, disse ela, mas gram tempo há. Mas nom volo ousava a dizer com medo de me matar. E esto lhi dizia ela porque se sentia prenhe assi que o poderia entender quem si quer. Assi meteu rei [H]ipomenes seu filho em prisom pola deslealda[de] de sa filha. E o donzel se salvava o melhor que podia mas nom lhi valia rem, ca seu padre e todolos outros |outros| cuidavam que assi era como ela dizia. Título Fólio 614184b [Como a donzela disse que deitassem seu irmão aos cães.] Rei [H]ipomenes houve tam gram pesar deste feito que chamou seus ricos homens e fezeos jurar que julgassem per direito juízo seu filho. E eles jurarom que per direito havia de morrer. El-rei preguntou sa filha de qual morte queria que seu irmão morresse. – Eu quero, disse ela, que o deitem aos cães. E os cães, disse ela, sejam jeju~u~s de #VII dias quando lho houverem a deitar. Bem assi como ela mandou assi o fez fazer elrei. E o donzel, que era tam fremoso e tam bõõ, foi levado aos cães, que morriam de fame. Mas, quando viu que lhi julgavam morte e que nom podia escapar, disse aa irmãã ante seu padre e ante quantos ricos homens que i eram: – Irmãã, tu sabes que me fazes morrer a torto e que eu nom mereço esta morte de que me fazes morrer. E nom me pesa tanto pola coita como pola vergonhosa morte que me fazes haver. Tu me fazes sofrer vergonha sem mericimento mas Aquele me vingará que prende as grandes v[ingan]ças das grandes deslealdades do mundo. E a[a] nacença do que tu trages parecerá que nom foi de mim, ca nunca de homem nem de molher saíu tam maravilhosa cousa como de ti s[a]írá; que diaboo o fez e diaboo trages e diaboo sairá em semelhança da besta mais desassemelhada que nunca homem viu. E porque a cães me fazes dar haverá em aquela besta dentro em si cã[e]s que sempre ladrarom em renembrança e referimento dos cães a que me tu fazes dar. E aquela besta fará muito dano em homens bõõs e ja mais nom qued[a]rá de fazer mal atá que o bõõ cavaleiro que haverá nome Galaaz como eu, seerá Título Fólio 614184c em essa caça. Per aquel e per sa viinda morrerá o door[o]so fruito que de ti sairá. Esto disse o donzel a sa irmãã. E dis i deitaromno aos cães que o comerom logo. Título Fólio 615184c [Como naceu a Besta Ladrador.] Elrei fez guardar sa filha atá que foi sazom d’haver seu filho. E as donas que estava[m] com ela a seu parto, u cuidarom a achar filho, acharom a mais dessemelhada besta e a mais mal aventurada, como já ouvistes, e houverom pavor tam grande que todas foram mortas fora ela e outra dona. E a besta se foi assi que nom houve homem no paaço nem no castelo que a podesse tornar e ia poendo os mai[o]res ladridos do mundo. Quando elrei esto soube logo entendeu que era verdade o que seu filho dissera aa sa morte e coitou sa filha de guisa que lhi houve a dizer a verdade toda e sa fazenda, em qual guisa fezera matar seu irmão a torto, e como o demo jouve com ela nom no conocendo e depois que o ar conoceu. Entom a mandou elrei filhar e fezea morrer de peor morte ca seu irmão. – Em tal guisa, dom Galaaz, disse rei Peleam, como vos eu digo, foi feita a Besta Ladrador. E, porque é filha do demo, aveeram tantas maas aventuras por ela em esta terra e foram mortos tantos homens bõõs e tantos bõõs cavaleiros como já ouvistes. Ora vos direi eu da Fonte da Guariçom, como aveo que houve tam maravilhosa virtude. Verdade foi e os homens bõõs o testemunham ainda, que no tempo de Joseph Abarimatia ve~o em esta terra rei Mord[r]aim e seu cunhado Naciam. Naciam dultava e amava seu senhor Jesu Cristo sobre todalas cousas do mundo; e, quando chegou a Camaalot, saiu este rei Camaalis fora a eles aa batalha e desbaratou em campo os cristãos e durou o encalço mais d’u~a jornada, tanto que encalçou rei Mord[r]aim e Naciam ante a torre do Jaiam e enserrouos i em tal guisa que nom poderom ir acá nem alá. Rei Camaalis era bõõ cavaleiro d’armas a maravilha e bem sabia que Naciam era o mais nomeado cavaleiro do mundo. E envio[u]lhi dizer por u~u~ seu homem que se combateria com el u~u~ por outro, per tal preito que, se o vencesse, a Naciam, que se tornasse seu homem com toda sa companha; e, se Naciam vencesse Camaalis, qu’er fezesse Camaalis outrossi. E Camaalis demandou esta batalha ca lhi semelhava Título Fólio 615184d que valia mais d’u~u~ deles morrer ca se perder tam gram poboo como ali era ajuntado. Naciam, aaquela hora que a batalha foi pidida, era tam mal chagado que adur podia cavalgar; e, por esto, nom soube que fezesse, nom já por pavor de seu corpo, mais por pavor da sua gente, ca bem sabia que era Camaalis mui bõõ cavaleiro a maravilha. E os que i estavam disseromlhi: – Naciam, que faredes vós em esto? – Certas, diss’el, a batalha filhar nom m’outorgo eu, mais ma el demanda; metereim’ende no poder e na mercee de Jesu Cristo por este poboo salvar. Entom disse ao homem: – Ora podedes dizer a vosso senhor que manhãã, hora de prima, m’achará guisado da batalha ante esta torre per tal preito qual me vós dissestes. Entom se tornou o homem a seu senhor. Título Fólio 616184d [Como nasceu a Fonte de Guariçom.] Assi foi a batalha posta antre Camaalis e Naciam ante a torre do Jai[a]m. Aquela noite pensou muito Naciam em como era mal chagado e em como se havia [a] combater com tam bõõ cavaleiro. E pensava que, se fosse vençudo, seeria o poboo de Jesu Cristo todo confondudo e deitado em servidõe. Aquel pensar o meteu em tam grande espanto que nunca foi em maior. E u jazia em esto pensando disselhi u~a voz: – Nom te espantes, Naciam, ca Nosso Senhor te acorrerá e eu te ensinarei como seerás guarido de tas chagas. Fica aa manhã ta lança em terra ali u quiseres que seja a batalha; e, ao sacar da lança, nacerá u~a fonte e aquela fonte seerá de tam gram virtude que todo homem que for chagado e dela bever logo seerá são; e por aquela virtude haverá nom Fonte da Guariçom, Quando el esto |esto| ouviu foi muito ledo e deu graças a Nosso Senhor. E fez assi como lhi foi mandado e guariceo das chagas e venceu o rei que nom criia e fez creer ele e toda sa companha. Assi como vos eu digo foi feita a Fonte da Guariçom que ainda dura assi como vós já sabedes. Mas dês aqui nom durará que nom quer Nosso Senhor. Ora vos direi da Dona da Capela. Título Fólio 617184d [Como u~a donzela amava u~u~ cavaleiro tam muito e seu padre a meaçou.] Aquela dona foi chamada rainha Genevra, rainha de gram terra e de bõa, e vivia tam bõa vida e tam gloriosa que, vivendo antre sas gentes, amavaa muito Nosso Senhor e bem lho mostrou em muitas cousas. E sabede que foi da linhagem de dom Persival que aqui see. A dona havia #IIII filhos e u~a filha mui fremosa. A donzela amava u~u~ cavaleiro de seu padre tam muito que nom amava tanto si Título Fólio 617185a nem al; e tanto o amou que o nom pôde encobrir e disseo a seu padre e rogoulhi que lho desse por marido. E o padre nom lho quis outorgar ca el nom era tam fidalgo que devesse a casar com filha de rei. E disselhi: – Tu és sandia e ja mais nom pensis i ca te farei morrer de maa morte, ca eu nom quero abaixar por ti minha linhagem. Ela, que timia seu padre, calouse, e nom amou por ende me~os o cavaleiro mas muito mais. U~u~ dia estava[m] soos o cavaleiro e a donzela e o cavaleiro lhi disse: – Donzela, que faremos? – Certas, diss’ela, nom sei, ca já por milhor nom esperedes mentre meu padre for vivo; mas, se el fosse morto, bem sei que praziria a mia madre e a meus irmãos. – Como? diss’el, nom vos poderei eu haver senom per morte de vosso padre? – Certas, nom, diss[e] ela. – Pois eu me trabalharei como moira, diss’el. Título Fólio 618185a [Como o cavaleiro matou elrei pai da donzela e como seus filhos cuidarom que fora sa madre.] Depós esto, a cabo de u~u~ pouco que elrei jazia dormindo com sa molher em sa câmara, o cavaleiro entrou a el assi como aquele que era o mais privado que el havia, e foi a ele e meteulhi o coitelo polo coraçom assi que foi logo morto que rem nom falou nem se meceu nem a rai~a nom se espertou. El foi tam espantado de seu feito que lhi caeu o co[i]telo sobela rai~a e saiuse da câmara que nengu~u~ nom lho entendeu fora a donzela. Aquela logo entendeu que era seu padre morto, deu u~a tam gram carpinha que a ouirom quantos jaziam derredor. E os filhos delrei, que i jaziam no paaço, chegarom i primeiro e acharom sa madre cabo delrei dormindo e o coitelo sobre ela. Quando isto virom nom houvi i tal que verdadeiramente nom creesse que ela matara elrei. E por ende a filharom e soterraromna viva e poserom sobre ela u~a campãã tal qual o conto há já divisado. Título Fólio 619185a [Como aveerom fremosos milagres pola dona da capela.] Assi cuidarom os filhos matar sa madre. Mas Nosso Senhor que ela serviu de todo seu coraçom, nom lhi escaeceu ali u jouve em prisom, ante começou por ela fazer tam fremosos miragres e tam fremosas virtudes que de todas partes do reino de Logres i vinham. E nom vinha i tam febre nem tam enfermo nem tam mal treito já nom seeria que nom recebesse sau´de. Título Fólio 619185b E com todo esto mantevea Nosso Senhor, ali u jazia, de pam celestial, atá que vós chegastes a Corberiqui. Mas se ela é já ora morta ou viva esto nom sei eu. – Como nom? Disserom eles. – Esto vos direi eu bem, disse el. Mentre eu fui na câmara do Santo Graal soube as mai[o]res maravilhas do reino de Logres, ca a santa voz mo discobria. Mas, dês que me parti, tanto eu sei como outro homem. Agora vos divisei a verdade de três cousas que me preguntastes. – Certas, Senhor, disseram eles, si, mui bem e muito a nosso prazer. Título Fólio 620185b [Como Galaaz e Boorz e Persival chegarom ao mar e entrarom na nave.] Manhãã partiromse em tal hora que nunca pois virom rei Peleam nem rei Peleam eles. E cavalgarom muitas jornadas atá que chegarom aa riba do mar e acharom i a mui fremosa nave na riba que Salamom e sa molher fezerom e entrarom dentro e acharom sobelo leito que em meo da nave estava o Santo Graal, de suso cuberto du~u~ rico pano de seda tam fremoso e tam rico que era u~a gram maravilha. Mostrou a u~u~ e a outro e disserom: – Que bõa andança nos aveo pois havemos em nossa companha o que desejamos com que vaamos u praza ao Nosso Senhor que hajamos de ficar. E, pois foram dentro na nave, o vento a firiu tam de rijo que a partiu da riba e a meteu no alto mar. Assi andarom gram tempo que nom sabiam u Deus os queria levar. E todalas horas que se deitava Galaaz e se levava fazia sa oraçom a Nosso Senhor que, aquela hora que lhi pidisse sa morte, que lha desse. E tanto fez esta oraçom que a santa voz lhi disse: – Galaaz, Nosso Senhor fará ta vontade desto que lhi pedes ca aquela hora que tu pidires ta morte havêlaás e acharás vida d’alma e ledice perdurável. Esta oraçom. que ele fazia ouviu muias vezes Persival e rogouo que lhi dissesse porque tal cousa rogava. – Esto vos direi eu bem, disse ele. Título Fólio 621185b [Como Galaaz devisou sa morte a Persival como havia de seer.] – Aquela hora que nós vimos u~a parte das maravilhas do Santo Graal que nos Deus mostrou per sa piedade, vi eu u~as cousas maravilhosas, ascondudas, que nom som mostradas a todo homem. E vi taes cousas que língoa nom podiria contar nem coraçom esmar. E meu Título Fólio 621185c coraçom foi em tam gram ledice e em tam gram sabor que, se entom morresse, nunca homem morrera em tam gram sabor de mim, ca eu vi tam gram companha d’angeos e tantas cousas espiritaes que, se entom morresse, fora logo aa perdurável vida dos gloriosos m[árti]res e dos verdadeiros amigos de Nosso Senhor. E por esto fazia eu o rogo que vós ouvistes. E pero ainda i ando em tal sazom que [moira] veendo as maravilhas do Santo Graal. Assi divisou Galaaz sa morte a Persival como havia de seer, assi como lhi a santa voz ensinou. Título Fólio 622185c [Como Galaaz soube que nom tornaria ao regno de Logres.] Aquela noite aveo que jazia dormindo Galaaz e veo a ele u~u~ homem mui fremoso vestido du~u[s] panos brancos, e disselhi: – Galaaz, eu bem sei o que tu pensavas quando adormeceste. – E como o sabedes vós? dissi Galaaz. – Eu o sei bem, diss’el. – Pois dizedemo, disse Galaaz. E el respondeu: – Tu pensas se tornarás ainda ao reino de Logres ou se o Santo Vaso i tornará. E te digo que tu ja mais nom tornarás ao reino de Logres, nem Persival, mas Boorz i tornará. Nem ja mais o Santo Graal, que tanto bem fez no reino de Logres, nom tornará i, ca o nom orarom i nem servirom como deverom nem por quanto bem por el houverom muitas vezes nom leixarom a pecar. Por em seram desentregados assi que ja mais nom nom no haverám. – Assi soube Galaaz que o Santo Vaso nom tornaria aa Gram Bretanha. Título Fólio 623185c [Da gram fame que houve no regno de Logres.] Em tal guisa como vos eu digo perderom os d’Inglaterra o Santo Graal que houveram muias vezes muito bem per ele e foram muitas vezes avondados per ele e que, mentre el foi no reino de Logres, nunca houve fame na terra. Mais, tanto que se em partiu, começou tal fame que d[u]rou três anos e foi tam grande que morreu muito poboo e foi de tam gram coita que a poucas que se nom comiam os homens u~u~s ao[s] outros. E entom se acordarom eles do Santo Graal e disserom que haviam feita muita gram perda e que lhis aveera per seu pecado e per sa maa aventura. E quando rei Artur Título Fólio 623185d viu esta fame na terra, disse: – Certas, esta fame e coita merecemos nós per nosso pecado e bem parece polo Santo Graal. E assi como Nosso Senhor o deu a Joseph e aos outros homens bõõs que da sua linhagem veerom per sa bondade e per sa proeza, assi o tolheu a nós per nossa maldade e per nossa maa vida. E por esso pode homem veer que os maus hereges perderom per sa maldade o que os bõõs manteverom per sa bondade. Mas ora leixa o conto a falar de rei Artur e de toda sa companha e torna aos três cavaleiros. Título Fólio 624185d [Como os três cavaleiros chegarom aa cidade de Sarraz.] Gram tempo andarom os três cavaleiros polo mar e u~u~ dia aveo que foi Galaaz ao bordo da nave por saber se veeria terra. E catou e viu a cidade de Sarraz e mostroua aos outros e houverom gram prazer sobejo, ca muito havia gram tempo que nom viram terra de nem u~a parte. Entom ouvirom u~a voz que lhis disse: – Saíde fora desta nave, cavaleiros de Jesu Cristo, e filhade esta távoa de plata assi como está e levadea aa cidade. Mas em nem u~a guisa nom a ponhades em terra atá que cheguedes ao Paaço Espirital u Nosso Senhor fez o primeiro bispo, Josefes. E eles queriam já tomar a távoa e catarom polo mar e virom vi~ir u~a barca, aquela em que meterom a irmãã de Persival. E quando a virom, disserom: – Bem nos teve esta donzela o que nos prometeu. E quando chegarom aa riba, filharom a távoa e sacaromna da nave e filhoua per diante Boorz e Persival e Galaaz d’outro cabo e assi foram contra a cidade. E, quando chegarom aa porta foi Galaaz já [quanto] cansado. Ante a porta jazia u~u~ homem tolheito que siia pidindo esmola aos que passavam e, quando havia d’andar, sofriase em dous paos. E dissilhi: – Homem, vem acá e ajudame a esta távoa e poêlaemos em aquele paaço. – Ai, Senhor, disse el, esto nom posso eu fazer, ca bem há #X anos passados que nom pudi u~u~ passo mover sem ajuda d’outrem. – Nem mim chal, disse Galaaz; leva suso e nom hajas pavor, ca tu és são. E Galaaz esto dizendo, provou Título Fólio 624186a o homem se se podiria erguer. E achouse são como se nunca houvesse mal. Entom correu aa távoa e filhoua da parte unde a ti~ia Galaaz e quando entrou na cidade disse a cantos achou o fremoso milagre que Nosso Senhor lhi fezera. E quando entrarom no paaço poserom a távoa ante a rica cadeira que Nosso Senhor fezera pera Josefes e logo correrom todolos da cidade a ver o homem que fora tolheito e era já são. Título Fólio 625186a [Como soterrarom a donzela no paaço e como forom em prisom.] Pois os três cavaleiros fezerom o que lhis foi mandado, tornaromse ao mar e sacarom a donzela da barca e levaromna ao paaço e soterra[rom]na i tam ricamente como filha de rei deve de seer soterrada. Quando Escorant, que era rei da cidade de Sarraz, viu os três cavaleiros, preguntouos donde eram e que tragiam sobre a távoa de prata. E eles lhi disserom a verdade de quanto lhis el preguntou e o poder e a virtude que Deus em ela posera. Aquele rei era bravo e desleal mais que homem no mundo, como aquel que era da maldita linhagem dos pagãos, e nom quis creer rem de quanto lhi eles disserom, ante disse que eram mentiras e baratadores. E atendeu tanto que os viu desarmados e mandou[o]s entam filhar e deitálos em prisom e teveos i u~u~ ano. Mas nom escaecerom a Nosso Senhor ca logo meteu dentro o Graal com eles per que foram avondados de quanto mester houverom enquanto foram na prisom. Título Fólio 626186a [Como morreu Escorant e os da cidade fezerom rei Galaaz.] A cima do ano aveo que fez Galaaz tal oraçom a Nosso Senhor: – Senhor, a mim semelha que eu vivi já muito eneste mundo. Se vos prouguer, tolhedeme cedo. Aquele dia meesmo que el esta oraçom fez rei Escorant jazia doente pera a morte e fez vi~ir Galaaz ante si e pid[i]ulhi mercee do que lhi fezera, que lhi erra[ra] tam mal e tam sem razom. E ele e os outros lhi perdoaram mui de grado. E, quando el foi morto e soterrado, os da cidade forom em gram coita porque nom sabiam quem fezessem rei, pois el filho nom havia, e falarom esto gram peça. Título Fólio 626186b E eles see[n]do em seu conselho, disselhis u~a voz: – Filhade o maior dos três cavaleiros estrangeiros, o qual vos guardará e manteerá bem em mentre for com vosco. E eles fezerom o mandado da voz e filharom Galaaz, querendo ou nom, e fezeromno rei e poseromlhi coroa na cabeça, querendo ou nom e pesandolhi muito. Mas, porque viu que o queriam matar se o nom fezesse, se er outorgo[u]. E, pois foi rei, fez fazer sobela távoa u o Santo Graal estava u~a volta d’abóveda d’ouro e de pedras preciosas tam ricas que nunca homem viu tanto. E Galaaz e os outros, cada que se le[va]vam, iam ao Santo Vaso e ficavam os geolhos ante el e faziam sas orações e sas prezes. Título Fólio 627186b [Como passou Galaaz.] Quando veo, em cima do ano, tal dia como ele tomara a coroa, ergueuse de gram manhãã e os outros outrossi. E quando entrarom no Paaço Espirital, catarom ante o Santo Vaso e virom u~u~ homem revestido como clérigo de missa. Estava em geolhos ante a távoa e dava da mão em seu peito dizendo sa culpa. E estava redor del mui gram companha de’angeos. E, pois esteve gram peça em geolhos, ergueuse e começou sa missa da gloriosa Senhora. E quando foi depóla sagrada, que o homem bõõ tolheu a patena de sobelo Santo Vaso, chamou Galaaz e dissilhi: – Vem adiante, sergente de Jesu Cristo, e veerás o que tanto desejaste sempre a veer. E ele se chegou logo e catou o Santo Vaso e, pois houve catado u~u~ pouco, começou a tremer mui feramente tam toste que a mortal carne começou a veer as cousas espiritaes e tendeu sas mãos logo contra o céu e disse: – Senhor, a ti dou eu graças e a ti oro e a ti be~ego porque me fezesti tam gram mercee, que eu vejo abertamente o que a língua mortal nom podiria dizer nem coraçom pensar. Aqui vejo eu o começo dos grandes ardimentos. Aqui vejo eu a raçom das grandes maravilhas. E pois assi é, Senhor, que vós a mi compristes mi~a vontade de me leixardes veer o que eu sempre tanto desejei, ora vos rogo que enesta hora e enesta gram ledice em que som vos plaza que eu passe desta terreal vida e vaa aa celestial. E tam toste como el rogou a Nosso Senhor o homem bõõ que cantava a missa prês o Corpus Domini e comungouo. E Galaaz o recebeu Título Fólio 627186c com grande humildade e o homem bõõ o preguntou: – Sabedes quem som? – Nom, disse el, se mo vós nom disserdes. – Pois sabe, disse el, que eu som Josefes, o filho de Joseph Abarimatia que Nosso Senhor te enviou por te fazer companha. E sabes porque me enviou ante que outrem? Porque semelhas tu mim em duas cousas: porque viste as maravilhas do Santo Graal assi como eu, e é direito que u~u~ virgem faça companha a outro virgem. Pois esto Josefes disse a Galaaz, tornou a Persival e beijo[u]o. E pois [Galaaz] er disse a Boorz: – Saudademim muito a dom Lançalot, meu padre e meu senhor, tam toste que o virdes. Entom se tornou ante a távoa e ficou seus geolhos. E nom esteve i se pouco nom quando caeu em terra e a alma se lhi s[a]iu do corpo e levaromna os angeos fazendo gram ledice e beenzendo Nosso Senhor. Título Fólio 628186c [Como o Santo Vaso se foi contra o ceu.] Tam toste que el foi morto ave~o u~a gram maravilha que Boorz e Persival viro[m] que u~a mão veo do céo mas nom virom o corpo cuja a mão era e filhou o Santo Vaso e levouo contra o céo com tam gram canto e com tam gram ledice que nunca homem viu mais saborosa cousa d’ouvir, assi que nunca houve homem na terra que pois podesse dizer com verdade que nunca o i er virom. Quando Persival e Boorz virom que era morto Galaaz houverom ende tam gram pesar que nom poderiam maior e, se nom fossem tam bõõs homens e de tam bõa vida como eram, caeram em desperaçom tanto houverom gram pesar. O poboo da terra er foi em mui gram pesar porque era de mui bõa vida e porque lhis fora mui bõõ rei e porque os mantevera em sa honra e honra da terra. Título Fólio 629186c [Como foi soterrado Galaaz e como Persival se meteu irmitam.] Pois Galaaz foi soterrado no Paaço Espirital o mais honradamente que poderom os da cidade de Sarraz, Persival se meteu ermitam em u~a ermida fora de vila e pesou muit[o] aos da vila que já haviam posto entre si que o fezessem rei. Mais el nom quis e disse que Deus nunca o fezesse rei tam longe de seus amigos e do reino de Logres. E Boorz se foi pera Persival mais nom cambou os panos de segre, ca ti~ia em coraçom de ir ainda a casa de rei Artur. U~u~ ano e dous meses viveu Persival na ermida. Entom passou deste segre e fezeo Boorz soterrar no Paaço Espirital com sa irmãã e a par de Galaaz. Quando viu Boorz que havia perdudo Galaaz e Persival e que era em tam longa terra e tam estranha como seer em terra de Babilónia, houve tam gram pesar que se nom soube conselhar. E partiu-se Título Fólio 629186d de Sarraz tam escondudamente que nengu~u~ nom no pôde saber; ca, se o soubessem, nom no leixariam ir pola bõa cavalaria que em el sabiam. Quando Boorz se partiu de Sarraz, veo ataa o mar armado e entrou em u~a nave e houve tam bõõ vento que em pouco tempo foi no reino de Logres. E pois andou tanto que achou que[m] lhi desse cavalo; e cava[l]gou e foise pola mais direita carreira que soube contra Camaalot. E quando foi ende a #IIII jornadas albergou em casa du~u~ montanheiro e achou i u~u~ cavaleiro que chegara i ante u~u~ pouco ca el. Título Fólio 630186d [Como Boorz soube novas de Camalot.] Pois que comerom, Boorz preguntou o cavaleiro estranho onde vi~ia. – Senhor, disse el, venho de Camaalot e nom há #VII dias que me parti. – E [i] era rei Artur? disse Boorz. – Si, disse el; eu o leixei na corte bem com #XII cavaleiros daquela linhagem, mais muito eram tristes e haviam gram pesar de Boorz de Gaunes que diziam que fora morto na demanda do Santo Graal, e de Galaaz, o bõõ cavaleiro, e de Persival. Da perda destes três cavaleiros havia rei Artur gram pesar. – E como vai, disse el, na corte aa linhagem de rei Bam? – Mui bem, disse el, fora duas cousas: a u~a, porque rei Artur há queixume já quanto d’Estor de Mares, que retou Galvam pola morte de Erec depois que se tornarom da demanda do Santo Graal. E outrossi pola morte de Palamades; e quer provar que nom deve seer cavaleiro nem haver a companha da Távola Redonda. E houvera ende a seer a batalha, ca nom ficara por Estor, mas a rai~a e dom Lançalot meterom i paz. Mas nunca se pois amarom, onde a linhagem de rei Artur vai posfaçando acá em poridade, mas nom sei se dizem verdade, ca dom Lançalot jaz com a rai~a e queremno dizer a elrei por meterem mortal desamor entre elrei e a linhagem de rei Bem. – E que cuidades vós i? disse Boorz. Se Deus vos salve, cuidades que é verdade? – Cuido, disse el, tanto o ouço eu dizer a muitos homens que som de creer. Título Fólio 631186d [Como Boorz chegou a Camalot.] Aquela noite preguntou muito Boorz por novas da sa linhagem. Em outro dia espediuse de seu hóspede e do cavaleiro e andou tanto por sas jornadas que chegou a Camalot. Mas nunca por homem virom tam gram ledice em u~u~ logar, ca muito era amado no reino de Logres de todos e de todas. Mas o prazer que ende havia a linhagem de rei Bam nom havia par, ca ti~iam que haviam Título Fólio 631187a em seu bando u~u~ dos milhores cavaleiros do mundo. E quanto prazer a eles tanto pesar a Galvam porque a linhagem de rei Bam se esforçava. Rei Artur, quando viu que Boorz era já folgado dos grandes trabalhos que sofrera fezeo u~u~ dia vi~ir ante si e disselhi: – Eu vos digo, pelo juramento que vós fezestes quando vos partistes daqui, que nos digades todalas aventuras novas que passastes em esta demanda u tanto morastes. E Boorz, que era bõõ e de bõa vida e que se nom perjuraria em nem u~a guisa, disse todalas aventuras per que passou que lhi lembrarom e como Galaaz e Persival morrerom. E sabede que se vós fossedes em aquel tanto ouvir que veeríades chorar muitos homens bõos e muitos bõos cavaleiros e quando ouvirom em qual guisa passaram Galaaz e Persival. Rei Artur fez escrever todalas aventuras que lhi Boorz cont[o]u. E sabede que estes tres cavaleiros foram os mais louvados da demanda: Galaaz, Boorz e Persival. E Boorz se tremeteu de meter paz entre Estor e Galvam, mas nom podia seer, que Estor era de mui gram coraçom e nom se podia outorgar em cousa que prol fosse de Galvam, ca o ti~ia por desleal, e amava tam muito Erec que lhi nom podia escaecer sa morte e dizia que ainda seeria vingado. Que vos direi? Boorz morou tanto na corte atá que entendeu que Lançalot amava a rai~a e pesoulhi em muito. Mas sabede que o cavaleiro da sua linhagem a que mais pesava deste feito Lionel era, ca el era mais sisudo ca muitos ti~iam e, quando se apartava com sa linhagem u ontrem nom seía, dizia: – Pesar e dano nos ve~erá deste amor e mau ponto foi começado. Tanto manteve já Lançalot este amor que [nom] há cavaleiro em casa de rei Artur que ende algu~a cousa já nom entendesse. E nom no encobrem alrei senom com pavor que ham da linhagem de rei Bam, ca sabem que o nom dirá tal que morte nom prenda. E os home~e~s da casa de rei Artur que o melhor sábiam Galvam e seus irmãos som, mas nom no querem dizer porque entendem que nacerá em muito mal. Mas ora leixa o conto a falar das novas que trouxe Boorz aa corte, de Galaaz e de Persival e do Santo Graal e do posfaço da rãia e de Lançalot e torna a [A]gravaim por contar em qual guisa el descobriu Lançalot e a rai~a contra elrei. Título Fólio 632187a [Como Galvam e seus irmãos falavam em preito da rai~a e de Lancelot.] U~u~ dia, diz o conto que os irmãos se apartarom em u~a câmara e falavam malamente em preito da rãia e de Lançalot. E Galvam, que era o Título Fólio 632187b mais sisudo ca os outros, disse: – Caladevos, ca nom há mester. Ca, se o alrei dissermos, tal guerra poderá i nacer per que mais de #LX mil homens poderiam i morrer e com todo esto nom poderia seer nossa desonra vingada, ca sobejamente é gram o poder e a linhagem de rei Bam e Deus os há em tal honra e em tal poder que nom cuido que podessem seer dirribados per homem. E por esto leixemosnos em, ca mui gram mala ventura sobejo poderia em nacer. E nom digo esto que eu nom queira peor aa linhagem de rei Bam ca vós nom poderíades cuidar. E se eu visse meu poder, vós veeríades o que eu mostraria. Título Fólio 633187b [Como Galvam e Gaeriet se outorgarom a que o nom dissessem a elrei.] Pois esto Galvam disse, respondeu Gaeriet: – Como quer que vós digades antre vós esto, nom me outorgo eu que lhis por nós mal venha, ca som todos mui bõõs homens e mui d’alma e se quer nosso senhor elrei os pom em tam grande honra e em tam grande poder onde já per homens nom podem seer dirribados. Onde vos eu digo que vos guardedes de começar guerra contra eles ca som tam bõõs cavaleiros e ham tantos amigos que toste nos poderiam em vi~ir gram mal e mui gram desonra e per ventura o reino de Logres por em seeria destruído. Enesto se outorgou Galvam e Gaeriet, mas os outros #III nom, ante disserom que o fariam saber a el-rei e que ante queriam seer mortos ca sofrerem mais tam gram coita de seu senhor e sua. – Ai! disse Gaeriet, nom no façades ca, se o fezerdes, vós compraredes vossa morte e nossa. Ora catade que nom podedes veer em toda linhagem de rei Bam cavaleiro que nom venha a dous d’outros e som tam amados que, se se hoje daqui quisessem partir, vós veeríades que mais da meitade dos cavaleiros da Távola Redonda se sairiam com eles. E nom é jogo da graça que Deus lhis deu, ante é gram maravilha como já metem todo o mundo em seu poder. E faramno, sem falha, se longamente viverem. E por em vos conselho por Deus e por vossa honra que vos guardedes e esto teende em puridade, assi como amades os corpos. Mas eles nom se outorgarom a re[m] que lhis eles dissessem. Título Fólio 634187b [Como elrei entrou na camera e ouviu o que dizia Galvam.] Eles enesto falando, entrou elrei e entendeu o que dizia Galvam a Agravaim: – Calar, disse, ende nom mais. – Meu senhor e meu irmão dom Galvam, se Deus m’ajude, nom calarei, ante o direi alrei, se Deus m’ajude, todavia. E el-rei, que esto ouiu, chegouse e disse: – Agravaim, que é o que me diredes? – Senhor, disse Galvam, nom é senom bem. Leixadevos, em esto nom jaz a vos. – Todavia, disse el-rei, queroo saber. – Senhor, Título Fólio 634187c disse dom Gaeriet, nom vos em chal! já per meu conselho nom saberedes em mais, ca de saber homem todo nom há nem u~u~ bem vi~ir. E sabede que Agravaim nom diz senom a maior chufa e a maior mentira do mundo. – Pa’Santa Maria, disse elrei, sabêlo quero eu. Eu vos digo pola menagem e polo juramento que me havedes feito que mo digades. – Senhor, disse Galvam, maravilha é de vós; sempre assi ravhades por saber novas. Sabede que o nom saberedes per mim nem per Gaeriet. E se volo alguém disser verrálhi mal e a vós peor. – Assi? dize el-rei; ora o quero saber per esta cabeça em toda guisa. – A bõa ventura, disse Galvam, ca, se Deus quiser, per mim nom no saberedes, ca nom poderia em vi~ir prol nem honra a mim nem a outrem e, sem falha, haveria ende aa cima vosso desamor, assi que me queríades em peor ca outro homem, ca assi avém de tal cousa. Entom se saiu da câmara e Gaeriet com ele, ambos com muito gram pesar, e disserom que em mal ponto fora esta parávola começada ca se o el-rei sabe e se filha com Lançalot, o reino de Logres seerá per i destruido, que al nom pode seer. Elrei ficou com #III seus sobrinhos, sarrou a câmara e tomou a eles e disselhis: – Dizedemi o que ora antes falávades. – Se Deus m’ajude, disse Agravaim, nom vos em direi mas rem. – Per Santa Maria, si faredes, disse elrei. E foi mui toste correndo a u~a espada e sacoua da bainha e disselhi: – Ou vós mo diredes ou sodes morto. E ergueu a espada por lhi dar e el, com pavor, disse: – Ai, Senhor! estade; direivolo. Entom lhe contou no que falavam e disselhi que era verdade. El-rei ouira já algu~a vez dizer que Lançalot amava a rai~a, mais nom no podia creer, tanto [a] amava sobejamente. Unde vezes i houve que respondia assi aos que lho diziam: – Certas, se assi é que Lançalot ama Genevra, eu bem sei que nom é de seu grado mas força d’amor lho faz, que sol fazer do mais cordo homem do mundo sandeu e do mais leal cavaleiro desleal. E por ende nom sei que vos diga, ca nom cuidava em nem u~a guisa que atam bõõ cavaleiro como aquel soubesse assacar traiçom. Título Fólio 635187c [Como rei Artur disse que faria justiça de Lancelot.] Esto disse elrei de Lançalot, que nom podia creer que era verdade. Mas aquela hora que os sobrinhos lhi foram enquisas, houve ende pesar que é sobre todolos pesares, ca ele amava a rai~a tam desmisuradamente que nom podia mais. Entom começou a pensar e esteve assi gram peça que nom falou rem. E Morderet lhi disse: – Senhor, nós volo encobrimos em mentre podemos e ora dizemosvo-lo sem nosso grado. Título Fólio 635187d Ora fazede i o que vos semelhar e que nom venha em mal a nossa terra nem a nossos amigos. – Como quer, disse el, que me ende venha, eu me vingarei de guisa que sempre em falarám. E, se me bem queredes, rogovos que mo filhedes i. E eles lho prometeram que o fariam assi, e elrei lhis prometeu que faria i tal justiça que sempre el e sua linhagem fossem honrados. Entom se sairom da câmara e foramse ao paaço. Mas bem parecia elrei que andava sanhudo. Título Fólio 636187d [Como se outorgarom a que espreitassem Lancelot e como Galvam e Gaeriet nom no quiserom fazer.] Todo aquel dia foi elrei muito triste. E aveo a hora de noa que entrarom no paaço Galvam e Gaeriet e, quando virom elrei assi triste, logo conocerom que sabia já a fazenda de Lançalot e da rãia. E por em nom foram per u elrei seia, mas per alhur. E Gaeriet disse a Galvam: – Mau dia hoje chegou a Camaalot, se nunca conoci o orgulho da linhagem de rei Bam. O reino de Logres comprará isto que alrei foi dito. Todolos do paaço siiam calados, que nom ousavam falar por elrei que viiam triste, fora aqueles #V irmãos. Depós esto entrou u~u~ cavaleiro que disse a elrei: – Senhor, novas vos trago do torneo de Caraes u os del reino de Serolois e da Terra Gasta foram vinçudos. – Ora me dizede, disse elrei, e dos cavaleiros daqui foi ende i algu~u~? – Si, disse el. Lançalot i foi que os venceu todos e levou ende o preço e a nomeada da u~a parte e da outra. Quando elrei esto ouviu, mergeu a cabeça e começou a pensar mui feramente e, a cabo du~a gram peça, ergueuse tam triste e tam coitado que nom podia chus e disse tam alto que o podiam todos ouir mui bem: – Ai, Deus! Que coita e que dano quando em tal homem albergou traiçom! E foise pera sa câmara e deitouse em seu leito tam triste e tam coitado que nom soube que fezesse, ca bem sabia que se Lançalot fosse preso ou morto em este preito que nunca tam gram mal aveera per morte d’u~u~ cavaleiro no mundo. Pero ante queria que morresse i ca sa desonra nom seer vingada. Entom enviou por seus sobrinhos e disselhis: – Quero que dedes cima provada este feito. E eles disserom: – Senhor, em nós é e bem vos dixemos como pode seer. Dizede aa noite a vossos cavaleiros ca queredes ir de manhãã a caça, mas nom vaa i Lançalot com vosco; e bem sabemos nós que, se ficar i, que irá a[a] rai~a e nós espreitá-loemos. E elrei si outorgou a aquele conselho. Sobreveeo Galvam e Gaeriet e, quando virom que falavam enesto, disse Galvam a elrei Título Fólio 636188a : – Senhor, Deus faça que este conselho venha bem a vós e a outrem. Ca, certas, eu me temo de vi~ir em muito mal. Agravaim, meu irmão, eu vos rogo que nom cometades cousa a que nom dedes cima nem digades cousa de Lançalot que nom sabedes verdadeiramente ca, certas, ele é mui melhor cavaleiro ca vós. – Galvam, Galvam, disse elrei, via vós daqui, ca ja mais nom me fiarei em vós ca muito me andastes mal eneste feito, que sabíades m~ia desonra e nom mo queríades dizer. E, certas, quem direito catasse deviavos a fazer como a desleal e a treedor. – Senhor, disse el, vós nos diredes o que vos aprouguer, mas traiçom nunca ma vós vistes. E, se eu traiçom fiz, nunca a fiz a vós nem a vosso dano. Entom se saiu d’ant’el e disse: – Agravaim, nom daria rem por esto, mais sei verdadeiramente que ainda por esto háde vi~ir gram mal e que muitos homens bõõs que nunca dano merecerom morrerám por ende. – Ora, como venha bem, disse Gaeriet, alrei e a vós, meu irmão, ja mais nom me trabalharei deste preito, ca sei verdadeiramente que nunca se homem tomará com a linhagem de rei Bam que a bõa cima em possa vi~ir. – Par Deus! disse Galvam, nom há homens no mundo que eu tanto desame. Mas som tantos e tam bõõs que lhis nuz mui pouco meu desamor. E por em os leixo até que veja meu poder. Título Fólio 637188a [Como el-rei disse que queria ir aa caça e a Lancelot que ficasse.] Entom se sairom da câmara e foramse aa pousada de Gaeriet. E indo pola vila acharom Lançalot e Boorz e Lionel e Estor e Blio[b]leris com gram companhã de cavaleiros. E receberomse mui bem e com gram ledice e Gaeriet disse entom a Lançalot: – Eu vos rogo que esta noite jaçades em mia pousada e sabede que volo digo por vossa prol. E ele o outorgou. Entom se tornou Lançalot com ele e foramse aa pousada e desarmaromse. Dis i, foramse ao serão pera elrei. E eles seendo aas mesas disse elrei a todolos cavaleiros que manhãã queria ir aa caça. E Lançalot disse: – Senhor, eu vos farei companha, se vos prouguer. – Nom, disse elrei, ca vós havedes mais mester de folgar ca de caçar ca chegastes hoje cansado do torneo. E por em quero que fiquedes. E el nom ousou a passar mandado delrei e disse que ficaria, mais bem entendeu que elrei Título Fólio 637188b nom lhi fazia sembrante d’amor nem de bõõ cavaleiro como soía e matavilhouse que seria ca nom cuidou que era descoberto. Aa noite, quando tornarom aa pousada de Gaeriet, disse a Boorz: – Vistes qual contenente me fez hoje elrei? Ja mais nom creerei cousa se nom é sanhudo d’algu~a rem. – Sabede verdadeiramente, disse Boorz, que aprendeu novas de vós e da rai~a. Ora catade ca nós somos na guerra que por gram peça nom desfalecerá. Deus nola faça bem acabar, ca muito é rei Artur dultadeiro. – Ai, Deus! disse Lançalot, quem foi tam ousado que disse estas novas alrei? – Se foi cavaleiro, disse Boorz, foi Agravaim. E se foi molher, foi Morgaim que vos desama tam mortalmente como vós sabedes. Ne[m] u~u~ outro nom no ousaria dizer, se u~u~ destes nom. Em outro dia disse Galvam a Lançalot: – Eu e Gaeriet com estes outros cavaleiros queremos ir aa caça; queredes vós ir? – Nom, diss’el, ca nom hei hoje sabor de ir i esta vez. Entom se forom depós elrei e ele ficou. Título Fólio 638188b [Como filharom Lancelot com a rai~a.] [Tanto] que rei Artur foi a[a] caça enviou dizer a rai~a a Lançalot que veesse a ela unde al nom fezessem. E el foi mui ledo e disselhi que iria i o mais esc[o]ndudamente que podesse e conselhouse com Boorz como o poderia fazer. – Ai, Senhor! dissi Boorz, por Deus, nom vades i, ca, se i ides, pesar vos em verrá ca meu coraçom, que nunca houve pavor de vós, mo diz. E el disse que em nem u~a guisa nom leixaria de ir i. – Senhor, disse el, pois nom queredes ficar, eu vos ensinarei como vades i ascondudamente. Vedes aqui u~a horta per que podedes ir que vos nom veerá nengu~u~. Mas todavia levade vossa espada, ca nom sabe homem o que avém. E el o fez assi e foise aa câmara da rai~a. Mas bem sabede que Morderet e seus irmãos com muitos outros cavaleiros lhi ti~iam a carreira. Tanto que el entrou na câmara deitouse com a rai~a. Mas nom jouve i muito que veerom aa porta os que espreitavam e acharomna çarrada e disserom: – Agravaim, que faremos? Britaremos a porta? – Si, disse el. E ao firir da porta ouiuos a rai~a e erguêse toda a tolheita e disse a Lançalot: – Ai, amigo! Mortos somos. – Como? disse el, que é esto? E ascutou e ouviu aa porta grande volta e grandes braados de gente u queriam britar a porta. – Ai, amigo! disse ela, ora saberáelrei Título Fólio 638188c mia [fazenda] e a vossa. Todo esto nos ordenou Agravaim. – Assi Deus m’ajude, disse el, eu lhi ordirei por em sa morte. Entom se ergueu do leito. – Ai, Senhora, disse el, há aqui loriga algu~a? – Certas, diss’ela, nom, ca praz a Deus que moiramos ambos. Pero, se prouguesse a Deus que escapássedes daqui são, nom há i tal que me ousasse matar sabendo que vós érades vivo. Mas eu cuido que nosso pecado nos confunde. Entom veeo Lançalot aa porta e deu vozes aos que fora estavam: – Maus cavaleiros e covardos, atendede u~u~ pouco, ca cedo haveredes a porta aberta e veerei cal seráo ardido que entrará primeiro. Entom abriu a porta e disse: – Ora entrade. E u~u~ cavaleiro que havia nome Einaguis, entrou primeiro, que desamava Lançalot. E Lançalot, que ti~ia jáa espada alçada, firiuo de toda sa força que lhi nom prestou arma que trouxesse que o nom fendeu todo atei nas espádoas e meteu morto em terra. E quando os outros virom este colpe, nom houve i tam ardido que quisesse entrar, ante se afastarom afora em tal guisa que a entrada ficou livre. Quando el esto viu, disse aa rai~a: – Senhora, esta guerra é já fiinda. Quando vos prouguer, irm’ei. E ela disse: – Se vós fordes em salvo, eu nom haveria pavor de mim. Entom tirou Lançalot o cavaleiro que matara a si e çarrou a porta por nom entrarem os outros e desarmaromno e pois armouse daquelas armas o melhor que pôde e disse aa rai~a: – Senhora, ora me posso eu ir, se Deus quiser, a salvo, ca de quantos me aqui agardam me livrarei eu mui bem, como eu cuido. – Pois idevos, diss’ela, e pensade de mim, ca eu bem sei ca cedo haverei mester vossa ajuda. – Obem, disse el, mas se vos prouguer levarvosei, ca nom há aqui homem por que vos eu leixe. – Esto nom quero eu, diss’ela, ca logo assi seeria nossa fazenda mais conoçuda. Mais melhor o guisará Deus. Entom abriu as portas Lançalot e disse que nom queria mais jazer em prisom. E firiu o primeiro d’u~u~ tam gram colpe que caeu em terra esmorido. E os outros que esto virom fastaromse afora e nom houve i tal que lh’a carreira nom leixasse. E Lançalot foise aa horta e da horta aa pousada e achou Boorz em u~a câmara que havia pavor d’el nom vi~ir aa sa vontade, ca bem lhi dizia o coraçom que os da linhagem delrei Artur o filhariam cona rai~na se podessem. Título Fólio 639188c [Como Estor disse que fossem aa furesta e se ascondessem pera livrar a rai~a. ] Título Fólio 639188d Quando Boorz viu seu senhor armado, que fora desarmado, logo entendeu que houvera algu~u~ eixeco e preguntouo em. E ele lhi disse todo como Agravaim e Morderet e Guerrees o quiseram filhar com a rai~a com gram companha de cavaleiros. Mas que se defendera em guisa que o nom poderam filhar. – Ai, Senhor! disse Boorz, ora vai mal, ora é o preito descoberto. Ora se começará a guerra que nunca desfalecerá. E de quanto vos elrei até aqui amou mais de coraçom ca outro homem que de seu linhagem nom fosse, tanto vos desamará daqui a diante pois souber verdadeiramente o torto que lhi fezestes com sa molher. Ora veede o que possamos fazer i, ca bem sei que des hoije a mais nos seeráelrei mortal inmigo. Mas da rainha, que será por vós julgada a morte mi pesa muito. E de grado quiria que houvessemos i conselho como escapasse. A este conselho sobrevêo Estor e pes[o]ulhi muito quando soube como era a barata e disse: – Senhor, pois assi é, vaamosnos aaquela furesta e ascondamosnos i. E, quando a rai~a for julgada a morte, sacálaam fora da vila pera queimaremna. Entom sairemos nós e livrálaemos e levá[la]emos a Benoic ou a Gaunes. E dis i nom temeremos assi elrei. Título Fólio 640188d [Como filharom a rai~a e lhi disserom que morreria.] Eneste conselho se outorgarom Lançalot e Boorz e cavalgarom logo eles e #XXVII cavaleiros que i ti~iam mui bõõs, e pois partiromse de sa pousada e foramse aa furesta e meteromse na ourela dela u a virom mais espessa e jouverom i atee a noite. Entom filhou Lançalot u~u~ seu donzel e enviouo a Camalot por saber novas da rai~a. O donzel se partiu deles e cavalgou em seu rocim e foise ao paaço. Ora leixa o conto a falar dele e torna aos #III irmãos onde se Lançalot partiu. Diz o conto que aaquela hora que Lançalot escapou daqueles que o queriam filhar cona rai~a, eles entrarom na câmara e filharom a rai~a e fezeromlhi muita desonra e muito pesar. E disseromlhi que ora era o seu aleive provado e que ora morreria. E ela chorava tam feramente que bem deveriam dela haver doo os que a levavam. Título Fólio 641188d [Como elrei rogou a todolos ricos homens de qual morte devia morrer a rai~a.] Hora de noa veo elrei da caça e, tanto que deceu, logo lhi disserom novas da rai~a que acharom com Lançalot e que era presa. Quando el esto ouviu, se houve gram pesar, esto nom demande nem u~u~, e preguntou se era preso Lançalot. – Senhor, disserom eles, nom, que se defendeu tam esquivamente que nunca se homem assi defendeu. – Pois, disse elrei, nom Título Fólio 641189a é aqui, acháloedes em sa pousada. Fazede armar cavaleiros e ide e prendedemo e aduzedemo e farei dele e da rai~a justiça de su~u~. Entom se forom armar bem #XXX cavaleiros e nom de seu grado mas porque os mandou elrei e foramse aa pousada de Lançalot mas nom no acharom e nom houve i tal que nom fosse em mui ledo. Ca, bem sabiam, achariam em el mortal defensam. Entom se tornarom a elrei e disseromlho e elrei disse ca lhi pesava ende mas, pois se nom podia vingar em Lançalot, vingarsiia da rai~a. El-rei Hiom lhi disse: – Senhor, que queredes fazer i? – Quero, diss’el, por esta deslealdade fazer dela tal justiça que todalas outras donas em sejam castigadas. E eu mando a vós, rei Hiom, primeiramente, porque sodes rei, e a todolos ricoshomens outrossi que aqui som, e rogovos pola fé que me devedes que vos catedes de qual morte deve morrer, ca sem morte nom deve ela escapar, ainda que o vós julgássedes. – Senhor, disse rei Hiom, nom é foro nem costume desta terra de dar juízo depois de noa. De mais de morte de homem ou de molher e de mais de tam alta dona como a rai~a é. Mas cras manhãã, se vós mandardes, o faremos. Entom leixarom i de falar. E elrei houve tam gram pesar que todo aquel dia nom comeu nem beveu nem quis que a rãia fosse ante el. Título Fólio 642189a [Como os ricos homens disserom que fosse queimada e como Galvam se partiu delrei fazendo gram doo.] Manhãã, hora de prima, tanto que os ricoshomens foram assu~ados, mandou elrei a Mordret e [a] Agravaim e a todolos ricoshomens que dissessem que haviam de fazer da rai~a per direito juízo. E eles sairom aa fala e disserom [a] Agravaim e a Mordret: – Este é o juizo direito, nom há i al, pois em logar de tam alto homem como rei Artur meteu outro cavaleiro, que deve seer queimada. A esto s[e] outorgarom todos, que per grado que per força. Quando Galvam viu que eles davam tal juizo, disse: – Se Deus quiser, nunca em tal juizo seerei nem estarei u veja a morte da dona do mundo que sempre me mais honra fez. Entom se foi a elrei e disselhi: – Senhor, eu vos leixo quanto de vós tenho e ja mais, mentre viva, nom vos servirei. Elrei nom tornou a rem que lhi dissesse, ca muito ti~ia em al o coraçom. E Galvam se partiu entom dele e foise a sa pouada fazendo o maior doo do mundo. E elrei mandou fazer mui gram fogo fora da vila no campo. E os doos e os choros foram tantos e tam grandes pola vila como se a rai~a fosse madre de todos. El-rei enviou pola rai~a que veesse ant[e] Título Fólio 642189b el, e ela veo chorosa, vistida d’u~u~ pano de cendal vermelho. E ela era tam fremosa dona e tam pagadoira que no mundo nom acharia homem outra tal da sa idade. E, quando a elrei viu, houve dela tam gram doo que lhi nom podia teer olho. E mandou que a tolhessem d’ant’el e lhi fossem fazer aquelo que lhi julgarom. Título Fólio 643189b [Como todolos da vila faziam pola rai~a gram doo.] Tanto que a rai~a saiu do paaço e a levarom pelas ruas da vila, veeríades correr de todas partes e sair mancebos e mancebas e velhos e velhas e ricos e pobres dando vozes e braados e fazendo o maior doo do mundo. E diziam todos a u~a voz: – Ai, senhora bõa e de bõõ donaire e mais cortesa e mais ensinada d’outra dona, u acharóm, dês i, os mais pobres conselho nem piedade? Ai, rei Artur, que a fazes per deslealdade e per bravura matar, ainda ende pesar venha e que ainda por em sejas destruido do re[i]no. E os traedores que cho fezerom fazer moiram ainda de maa morte! Assi diziam todos os da vila quando passava per ant’eles. E dis i, iam todos pós ela dando vozes como se fossem fora de sem. Título Fólio 644189b [Como Lancelot livrou a rai~a e se foram aa foresta.] Elrei mandou [a] Agravaim e a seus irmãos que filhassem #LXXX cavaleiros pera guardar o campo u o fogo era que, se Lançalot veesse, que a nom podesse livrar. – Senhor, diss’el, se vós quiserdes que eu vaa, mandade a meu irmão Gaeriet que vaa com nosco. E elrei o mandou e Gaerie[t] disse que o nom faria; pero tanto o ameaçou elrei que disse que iria. Entom se armou el e todolos outros que escolheu Agravaim e Agravaim se armou outrossi. E pois foram armados e que sairom da vila, disse Gaeriet a Agravaim: – Cuidades vós que venho eu aqui por me filhar com Lançalot, se el acorre aa rai~a? Sabede que eu nom me trabalharei em ca, se Deus m’ajude, ante eu quiria que a el tevesse mentre vivesse ca morrer aqui. Assi falando chegarom ao fogo. E Lançalot, que jazia ascondudo na foresta, tanto que viu seu donzel vi~ir, preguntouo: – Que novas trages da rai~a? – Senhor, disse el, maas, ca a duzem a queimar. – Assi? diss’el. Ora cavalguemos ca tal a cuida a matar que morrerá por em. E praza a Deus, se nunca ouviu oraçom de pecador, que eu ache i Agravaim que esto bastiu. Título Fólio 644189c Entom cavalgarom e contaromse e acharomse #XXXIII e forom mui bem armados o mais que poderom contra u virom o fogo. E quando as gentes que estavam no campo os virom vi~ir, derom vozes aos que guardavam a rai~a: – Fugide! Fugide! Vêdes aqui Lançalot que vem livrar a rai~a. E Lançalot, que vi~ia ante os outros, leixouse correr [a] Agravaim ca bem no conoceu per sas armas e firiuo tam isquivamente que lhi nom valeu escudo nem loriga que nom metesse a lança per el, assi que o ferro pareceu da outra parte, e metêo em terra e, ao caer, quebroulhi a lança. E Boorz se leixou ir a Guerrees e firiuo de u~a lançada que o meteu em terra tal que nom houve i mester mestre. E os outros que com Lançalot vi~iam, forom ferir nos outros e dirribarom ende u~a gram peça; dês i meterom mão [a]as espadas e começarom sa lida mui brava |mui brava| e mui fera. Mas quando Gaeriet viu que eram seus irmãos em terra, foi mui~ sanhudo ca bem cuidou que eram mortos. Entom se leixou ir a Meliaduz o Negro que se trabalhava muito de ajudar Lançalot e de vingar a honra da rai~a, e deulhi u~a tal lançada que deu com el e com o cavalo no fogo; e dês i meteu mão a a espada e firiu outro d’u~u~ tal colpe que o meteu morto aos pees de dom Lançalot. E quando este, que muito teenha mentes em Gaeriet, viu que lhis faziam tal dano, disse em seu coraçom, se muito durasse que muito lhis empeceria. E por em valiria mais de o matarem se podessem pero que era o cavaleiro da corte que os da linhagem de rei Bam mais amavam. Entom lhi foi dar u~a tam grande espadada que lhi deitou o elmo da cabeça em terra. E quando el sentiu a cabeça descuberta, foi todo espantado. E Lançalot, que andava du~u~s aos outros e que andava correndo as azes da u~a parte e da outra e que o nom conocia, feriuo tam f[e]ramente per cima da cabeça que o fendeu atees os dentes e o meteu morto em terra. E esto foi mui grande dano, ca u~u~ dos bõõs cavaleiros da corte era e amara sempre Lançalot mais ca outro cavaleiro da corte que el nunca visse. A este colpe foram os delrei partidos Título Fólio 644189d e desbaratados assi que, #LXXX que eram, nom escaparom fora #III que fugiram pera a cidade. Uu~ foi Morderet e os dous da Távola Redonda. E quando Lançalot esto viu foi aa rai~a e disselhi: – Senhora, que queredes que vos fazamos? E ela respondeu mui leda: – Eu queria que me levássedes a logar u m’elrei nom podesse mal fazer. – Senhora, disse el, cava[l]gade e vaamos aaquela foresta e prenderemos i conselho que seerá bõõ. E ela [o] outorgou. Entom a poserom em u~u~ cavalo onde havia i assaz sem senhores. Dês i foramse aa foresta u a virom mais espessa. E contarom sa companha e acharom meos #IIII e preguntaromse que fora deles. E disselhis Estor: – Eu vi em #III que matou Gaeriet. – Como? disse Lançalot, i foi Gaeriet, em esta lide? – E que é esso que me preguntades, disse Estor: vós lo matastes. – Ora, disse Lançalot, podemos bem dizer que ja mais nom haveremos paz com el-rei nem com Galvam por morte de Gaeriet, onde me pesa muito, se Deus m’ajude. E ora se começará a guerra que nom falecerá em todos los dias da nossa vida. Título Fólio 645189d [Como se acordarom que se quiriam ir aa Joiosa Guarda.] Muito houve Lançalot gram pesar da morte de Gaeriet, ca era dos cavaleiros do mundo que el sempre mais amara. E Boorz disse a Lançalot: – Senhor, mester haveráa rai~a seer em salvo em logar u nom houvesse pavor del-rei. – Se a podéssemos haver disse Lançalot, em u~u~ castelo que eu conquis, ali seeria em salvo. Ca o castelo é forte aa maravilha, em tal logar que nom podesse seer cercado; e dês que i fossemos e o houvessemos bastido, enviaria pidir ajuda a muitos cavaleiros que eu ajudei per muitas vezes e a muitos que conquis. E som tantos que, se os houver em mia ajuda e formos em aquel castelo, que ligeiramente podemos guerrear com u~u~ homem de gram poder. – E u é esse castelo? disse Boorz. – Perto é da cidade de Lo[n]guefom e há nome o castelo da Joiosa Guarda. Mas, quando o eu conquis, longo tempo há, em aquela sazom que foi novel cavaleiro, havia nome a Doorosa Guarda. – Ai! disse a rai~a, já eu aquele castelo vi e direitamente é o castelo tam forte que nom teme rem fora traiçom. A esto se acordarom, tanto Título Fólio 645190a que chegarom a u~u~ castelo que estava em meo da foresta e havia nome Caleque e era senhor ende um conde mui bõõ cavaleiro e de gram poder que amava Lançalot muito. E, quando soube que vi~ia, foi em mui ledo e recebeuo mui bem e fezlhi todo aquele serviço que pôde e toda honra. E pormetêlhi que o ajudaria contra rei Artur e disselhi: – Senhor, Senhor, eu vos dou este castelo a vós e aa rai~a e devedelo aa filhar, ca é tam forte que nom haveredes i pavor de rei Artur. E Lançalot lho agradeceu muito, mas disse que alhur se quiriam ir. Título Fólio 646190a [Como os do castelo fizerom gram ledice.] Em outro dia partiuse do conde Dangis que lhi deu #XL cavaleiros e fezlhi jurar que o ajudasse como ajudariam el. Entom se partirom del e andarom tanto que chegarom ao castelo da Joiosa Guarda. E quando os do castelo souberom que Lançalot vi~ia, sairom fora e recebêlo, fazendo tam gram ledice e tam gram festa como se fosse Deus. E quando eles souberom que havia a morar com eles e porquê juraromlhi que o ajudariam contra todolos homens do mundo. E ele s’esforçou em muito. Enviou logo por todolos da terra e eles i veerom e forom muitos. Dês i fez seu castelo bastir mui bem. Mas ora leixa o conto a falar dele e torna a rei Artur. Título Fólio 647190a [Como rei Artur mandou que se partissem per muitas partes por achar Lancelot e a rai~a.] Naquela hora diz o conto que rei Artur viu tornar seu sobrinho Mordre[t] com mui pouca companha, maravilhouse e preguntou como era aquelo. E u~u~donzel que foi u a batalha fora disselhi: – Senhor, direivos mui más novas onde pesaráa vós e a quantos aqui som. Sabede que todos los cavaleiros que levarom a rai~a ao fogo nom escaparom em fora #III. E destes #III que escaparom u~u~ é Mordret e outros dous nom sei caes som. – Ai! disse elrei, pois i foi Lançalot? – Par Deus, senhor, si, disse el. E ainda fez mais, que leva a rainha consigo e entrou na furesta com ela. E quando elrei estas novas ouviu, houve tam gram pesar que nom soube que fezesse. A esto chegou Mordret que disse a elrei: – Senhor, mal vai! Lançalot nos desbaratou todos e levou a rai~a consigo. – Ora após el, disse el-rei, ca se nom irá, se eu posso. Entom fez armar cavaleiros, sergentes e todos Título Fólio 647190b aqueles que com ele estavam. E cavalgarom o mais toste que poderom e foramse aa furesta e catarom de u~a parte e da outra. Mas aveolhis assi que o nom acharom. Entom mandou elrei que se partissem per muitas partes, se os podiriam achar. E rei Carados disse: – Senhor, esto nom tenho eu por bem, ca se se partirem e Lançalot os achar de su~u~, todolos matará, ca el trage bõa companha de bõõs cavaleiros. – Pois que faremos? disse rei Artur. – Senhor, diss’el, eu volo direi. Enviade vossos homens com vossas cartas a todolos desta terra que nengu~u~ nom seja ousado que passe Lançalot nem homem de sa companha e assi haverá de ficar na terra; e, pois ficar, e nós soubermos u é, iremos sobr[e] el e podêloemos fil[h]ar ligeiramente e vingarvosedes del. Título Fólio 648190b [Como el-rei fazia gram doo per morte de seus sobri~os.] Desto fez elrei sas cartas e enviou a todolos portos de Logres que nengu~u~ nom fosse ousado que passasse Lançalot nem homem da sa companha. E pois enviou os mandadeiros tornouse u o desbarato fora e viu Agravaim, seu sobrinho, que Lançalot matara, e ti~ia o traçom da lança em meo do peito que o ferro parecia da outra parte. E houve tam gram pesar que se nom pôde teer na sela e caeu sobre el esmorido e jouve i gram peça. E quando acordou que pôde falar, disse: – Ai, bõõ sobrinho! mortalmente vos desamava o que vos este colpe deu! E gram coita meteu no meu coraçom o que tal cavaleiro tolheu de meu linhagem! E pois esto disse, tolhêlhi o elmo da cabeça e beijoulhi os olhos e a boca; dis i, fezeo levar aa cidade. E pois [catou] todolos outros e achou Guerrees, que Boorz matara, e ti~ia u~a lançada per meo do peito. Ali veríades elrei doo fazer e bater as palmas e dizer que muito vivera quando el via a morte dos homens do mundo que ele mais amava e que tal pesar em via. E pois fez levar Guerrees em seu escudo. E andou catando os outros e catou a seestro e viu Gaeriet, que Lançalot matara, e este era o sobrinho que el mais amava, fora Galvam. E quando el viu aquel que tanto amava, nom se acostou doo que dos outros houvesse a doo deste. Entom foi a el e abraçouo e caeu esmorído sobr’el, que os que estavam no logar cuidavam que era morto. E pois jouve assi, que andarom Título Fólio 648190c u~a m[e]a légoa, acordou e disse: – Ai, morte! que me tardas, ca já me semelha que vivi muito. Ai, Gaeriet meu sobrinho, se eu hei a morrer com doo, morrerei com doo de ti, ca nunca vi morte com que me tanto muito pesasse. Ai, bõõ sobrinho e bõõ amigo, em mal ponto foi feita aquela espada que te assi achagou e maldito seja o braço que te tal colpe deu, ca mal confundeu mim e toda mi~a linhagem. Disi, beijoulhi os olhos e a boca e o rosto assi sanguentado como era e fez tal doo ca todos o amavam e o prezavam tanto era bõõ cavaleiro e bõõ paação. Título Fólio 649190c [Como Galvam caeu esmorido com gram doo de Gaeriet.] Grandes forom os dós e as vozes que faziam ende os mais, que por seus parentes que por seus amigos. E filharom Gaeriet em seu escudo e levaromno aa vila; e, quando os da vila souberom que esta morte fora feita, ali veeríades o doo fero. E cada u~u~ filhava seu amigo e levavao ao paaço. A estas vozes saiu Galvam de sa pousada que bem cuida[va] que a rai~a já era morta e que este tam gram doo era por ela. E estando na rua preguntando, disseromlhi: – Ai, dom Galvam, se vós querdes vosso gram pesar e o gram destruimento da vossa linhagem, ide ao paaço. E ali veeredes o maior pesar que nunca vistes. E el houve gram pesar destas novas e nom respondeu a rem que lhi dissessem e mergeu a cabeça mui triste e começou a ir contra o paaço mas nom cuidou que o doo era se nom pola rai~a. E catou a deestro, e a seestro e viu as gentes todas chorar e carpir. E cada u~u~ lhi dizia: – Ide, dom Galvam, ide; e veeredes vosso mui gram pesar e gram doo. Quando el ouviu que todos daquelo diziam, creceulhi mui maior pesar mas nom no ousou mostrar e foise triste e pensando. E, quando entrou no paaço, achou todos tam gram doo fazendo como se todos os parentes do mundo vissem ante si todos mortos. E quanto elrei viu Galvam, disselhi alta voz: – Galvam, Galvam, vedes aqui vosso gram doo e meu: vedes, aqui jaz vosso irmão Gaeriet morto, o mais prezado cavaleiro da vossa linhagem. E amostr[o]ulho todo sangoentado, assi como o ti~ia acostado a seu peito. Quando esto viu Galvam nom ho[u]ve tanto de poder que podesse falar rem nem que podesse estar; ca lhi faleceu o coraçom e o corpo e caeu em meo do paaço como morto e jouve mui gram peça esmorido. E os ricos homens que i eram, que estavam com gram pesar que ja Título Fólio 649190d mais nom cuidavam haver prazer, quando virom que era Galvam, foromno filhar e teveromno antre seus braços chorando mui de coraçom e dizendo: – Ai, Deus! Como aqui há gram dano de todas partes! E pois Galvam jouve assi gram peça e acordou ergueuse e tomou a Gaeriet, que jazia morto, e filhou[o] a elrei e abraçouo e começouo a beijar e filhoulhi tam gram doo ao coraçom que nom pôde estar e caeu em terra com Gaeriet e jouve maior peça ca ante; e, pois acordou, assentouse e começou a catar Gaeriet. E quando lhi viu tam gram colpe, disse: – Ai, bõõ irmão! Maldito seja o braço que vos tal colpe deu, ca mal matou mi e toda mi~a linhagem e el nom val per i mais. Ca pois eu vejo que já mais nom quero viver fora tanto, ai, bõõ irmão, atá que vos vingue do traedor que vos esto fez e que me deu tam gram coita no meu coraçom. Título Fólio 650190d [Como Galvam esmoreceu sobre seus irmãos.] Tal doo fez Galvam e maior fezera, se podera, mas çarrouselhi o coraçom com pesar em guisa que o nom pôde fazer fora tarde. E pois seve assi gram peça, catou a seu deestro e viu jazer Guerrees e Agravaim ant’elrei, u jaziam em seus escudos em que os adusserom. E, quando os conoceu, disse muito alta voz: – Ai, mezquinho, em mau ponto vivi tanto que vejo mortos assi de maa morte meus irmãos! Entom foi pera eles e leixouse caer sobre eles e abraçouos e beijouos sangoentados, assi como eram. E esmoreceu sobr’eles muito ameu´di. Assi que os altos homens que i eram cuidarom que lhis morresse antre os irmãos. Título Fólio 651190d [Como os cavaleiros mortos forom soterrados e o gram chanto que per eles faziam.] Elrei, que era tam coitado que nom sabia [que] podesse fazer nem dizer, preguntou os ricoshomens: – Que faremos? Ca se leixarmos aqui muito Galvam eu cuido que morrerá com pesa[r]. – Senhor, disserom eles, nós teeriamos por bem de o alongarmos daqui e de o guardarmos em u~a câmara atá que estes sejam soterrados. Ca, sem falha, se aqui muito está, morrerá. E elrei i se acordou em este conselho. E levaromno os ricoshomens a u~a câmara assi esmorido como jazia. E todo aquele [dia] e aquela noite jouve que nunca falou. Toda aquela sazom foi gram o doo no paaço e pola vila. E os cavaleiros mortos forom desarmados e soterrados cada u~u~ como valia. A Guerrees e Agravaim tam ricos moimentos e tam fremosos quaes diviam seer pera filhos de rei Título Fólio 651191a e poserom-nos ambos a par e meteramnos dentro no mosteiro de Santo Estiano de Camaalot que entom era see. Assi estes dous deitarom e aas cabeceiras destes poserom outro moimento muito mais melhor e mais rico ca nem u~u~ daqueles e fez[erom] i meter Gaeriet. Mas ao meter poderiades veer o gram doo e gram chanto ca todolos arcibispos e os bispos da terra i veerom e todolos homens bons altos que poderom chegarom a sa sepultura e fezerom tanta honra aos mortos canta mais poderom mas muito mais a Gaeriet. E porque era tam bõõ homem fezerom erguer seu moimento mais ca todolos outros e fezerom escrever leteras que diziam: “Aqui jaz Gaeriet, sobrinho de rei Artur, que Lançalot do Lago matou.” E outrossi fezerom, sobolas campaas dos outros, o nome daquel que cuidavam que os matara. Título Fólio 652191a [Como elrei rogou a seus vassalos que o ajudassem em guisa que sa honra fosse vingada.] Pois os arcibispos e os bispos e clerizia fezerom todo o que deviam a fazer tornouse elrei a seu paaço e assentouse ante seus ricos homens com gram pesar que o nom seeria tanto se perdesse a meiadade de seu reino. E outrossi eram todos tristes que nom sabiam que dissessem nem que fezessem. No paaço siiam todos os ricos homens e muitos outros cavaleiros e muita gente; e pero tam calados siiam que semelhava que nom siia i nengu~u~. El-rei siia na cima do paaço mui triste e, pois seve gram peça, dissi tam alto que todos lo ouvirom: – Ai, Deus! Que longamente me sofrestes e mantevestes em grande honra e em grande alteza e ora som em pouca sazom abaixado e viltado per maa andança. Nunca homem perdeu tanto como eu perdi, ca esta é perda sobre todalas perdas. Ca, se homem perde terra, podea cobra[r] vezes i há. Mas se homem perde amigo ou parente, esto nom pode cobrar em nem u~a guisa. Senhores, esta perda recibi assi como vós veedes e nom per vontade de Nosso Senhor mas per sobreva de Lançalot do Lago. E se me esta perda veesse per vingança de Deus, sofrêlaia mais a nossa honra. Mas aveonos per aquel que nós posemos no mais alto logar de honra que nós achámos e que recebemos em nossa terra tam honradamente como se fosse meu filho. Aquel nos fez este dano e esta desonra. E vós tendes todos de mim terra e sodes meus vassalos que me havedes feito menagem e juramento e por esto vos rogo, polo direito que devedes a fazer, que vós me ajudedes e conselhedes assi como homens bõõs que devem a conselhar seu senhor, em guisa que m~ia desonra Título Fólio 652191b seja vingada e que vós hajades honra em britar e confunder aqueles que me esta desonra fezerom. Título Fólio 653191b [ Como elrei Hiom rogou a rei Artur que nom começasse guerra se nom visse que a podia mui bem acabar.] Pois elrei esto disse, calouse e atendeu atá que seus ricoshomens respondessem. E eles começaromse a catar e dizer u~u~ ao outro que falassem. E pois severom gram peça calados, ergueuse rei Hiom e disse a elrei: – Senhor, eu som vosso vassalo e devovos conselhar a meu grado que seja vossa honra e vossa prol e do reino. Nossa honra, sem falha, é de vingarmos esto a nosso poder, mas quem a prol do reino quisesse catar nom cuido que começasse guerra com a linhagem de rei Bam de Benoic ca veemos que Nosso Senhor os alçou tanto sobre todalas outras linhagens que homem sabe em poder de gente e de bõa cavalaria e de bõa linhagem, assi que nom há ora, a meu ciente, tam alto homem no mundo que lhis podesse muito nuzir seendo eles em sa terra, se vós s[o]lamente nom. E, Senhor, por em vos rogo, por Deus, que nom comecedes a guerra contra eles se nom virdes que a podedes acaber mui bem, ca, certas, a meu ciente, maus seera[m] de desbaratar. Título Fólio 654191b [Como Mador disse que Lancelot era em a Joiosa Guarda e a rai~a com el.] Aqui foi grande a volta no paaço e disserom que rei Hiom nom dissera nada e que o dizia com covardice. – Certas, disse el, nom no digo com pavor que haja maior que nem u~u~de vós, mas eu sei verdadeiramente que pois a guerra for e se eles a sa terra [a]colherem, dultarnosam mui meos ca vós cuidades. – Certas, dom Hiom, disse Mordret, nunca de tam bõõ homem saíu tam mau conselho. Mas se me creer elrei nom leixará a nem u~a guisa de ir e de vos levar consigo, ainda que vos pés. – Morderet, Morderet, disse rei Hiom, certas eu irei i mais de grado que vós. E vaa el-rei quando quiser ca eu irei com el de grado. – E de que vos eixecades? disse Mador da Porta. Se vós a guerra queredes muito [a] acharedes preto, ca Lançalot é em um u~u~ castelo que conquis logo que foi cavaleiro e que andou primeiramente aas aventuras polo reino de Logres. E aquel castelo há nome a Joiosa Guarda. E aquele castelo sei eu bem e sei u jaz e deveo a saber per direito ca jouve i gram peça preso e havia gram pavor de morte quando me livrou Lançalot, mim e outros cavaleiros daqui que jaziam i presos. – Par Deus, disse elrei, esse castelo sei eu mui bem. Mas cuidades que é i a rai~a com el? – Senhor, eu vos digo verdadeiramente que a rai~a é i e Lançalot com todolos seus parentes, assi como aqui era; e nom vos conselho que vades i desta vez por lhis fazer mal, ca o castelo é tam forte que nunca o homem cercou. E eles som tam bõõs cavaleiros que nom dultaróm de vos fazer guerra e desonra. Título Fólio 655191b [Como rei Artur pôs dia em que fossem com el em na Joiosa Guarda.] Título Fólio 655191c Quando elrei esto ouviu, respondeu: – Per bõa fé, Mador, verdade me dizedes do castelo que é forte e de soberva deles. Mas vós bem sabedes e quantos aqui som que, dês que foi rei, nom comecei guerra a que nom desse cima a mia honra e de meu reino. Por em vos digo que nom leixarei em nem u~a guisa que nom comece a guerra contra aqueles que me ham feita traiçom e tam grande perda e rogovos primeiramente quantos aqui sodes que m’ajudedes i, assi como eu em vós fiio. Er enviarei aos que mais longe som que de mim teem terra; e pois for nosso poder todo juntado, e pode seer daqui a #XV dias, moveremos entom. E porque eu quero que vos nom afastedes afora, quero que mi façades todos menagem e me juredes que manteeredes comigo esta guerra com todo vosso poder atá que nossa desonra seja vingada. E fez logo aduzer os Santos Evangelhos e recebeu logo menagem e juramento. Dis i, enviou per toda sa terra preto e longe aos que del terra ti~iam que vessem a ele e pôslhi dia em que fossem i com ele com todo seu poder na Joiosa Guarda. A esto s’acordarom todos e guisaromse de ir i e cuidarom acabar ligeiramente o que diziam. Título Fólio 656191c [Como Lancelot assu~ou gram cavalaria na Joiosa Guarda.] Quando Lançalot ouviu estas novas, enviou ao reino de Benoic e ao reino de Gaunes e aos ricos homens que del terra ti~iam que bastissem bem os castelos que, se per ventura aveesse que s’houvessem de partir da Gram Bertanha e se houvessem d’ir a Gaula, que tevessem seus castelos bem bastidos contra rei Artur. Dês i, enviou a rai~a ao reino de Sorelois e enviou a[a] Terra Forai~a e a todolos cavaleiros que el ajudara e que fezera amor muitas vezes que o veessem ajudar contra rei Artur. E porque el era [o] cavaleiro do mundo mais amado e que mais amor e honra fazia aos cavaleiros e por aquel rogo de que os enviou rogar veerom tantos cavaleiros em sa ajuda que, se Lançalot fosse rei coroado, seeria gram cousa de assu~ar tam gram cavalaria como el assu~ou na Joiosa Guarda. Mais ora leixa o conto a falar deles e torna a rei Artur e a sa companha. Título Fólio 657191c [Como os ricos homens disserom a elrei que metessem fidalgos na Tavola Redonda em lugar dos que matarom.] Conta a estória que, aquel dia que elrei pôs a seus ricoshomens que fosem assu~ados em Camalot, que o foram e foi i tam gram assuãda que havia gram peça que nom assu~ara tam gram cavalaria. Entramente foi guarido Galvam que houvera mui gram enfermidade com pesar da morte de seus irmãos. Aquele Título Fólio 657191d dia que assu~ados foram disserom a elrei: – Senhor, ante que vos partades daqui nós vos teríamos por bem e seeria assi como a nós semelha, que destes fidalgos que aqui som que escolhades tantos quantos aqui matarom pola raia e metessedelos na Távola Redonda em logar dos que matarom, assi que o conto dos #CL fossem compridos; e bem vos dizemos que, se o fézéssedes, que nossa companha seria mais dultada. Título Fólio 658191d [Como meterom cavaleiros nas seedas fora na Seeda Perigosa.] Elrei assi outorgou em esto e dissi que era bem e chamou seus ricos homens e mandoulhis, polo juramento e pola menagem que lhis feita haviam, que escolhessem os melhores cavaleiros de bondade e de bõas manhas que achassem e que os nom leixassem por pobreza nem por nom seerem de gram linhagem e que os metesse na Távola Redonda. Entom se sairom a[a] parte acima do paaço e souberom primeiramente quantos eram os que falecerom. E acharom per conto que faleciam em #LXXII e escolherom outros tantos que meterom. Mas, sem falha na maior seeda da Tavola Redonda, que soiam chamar a Seeda Perigosa, nom houve tam ousado que ousasse i seer. Mas na seeda de Lançalot seve u~u~ cavaleiro que havia nome Ernas e era o melhor cavaleiro e o mais nomeado de toda [a] Irlanda [e] era filho de rei. Na seeda de Boorz seve outro cavaleiro que havia nome Balinor e era filho do rei das Estranhas Insoas; aquel, sem falha, era mui~ bõõ cavaleiro e per rogo de seus amigos gaanhou a seeda de Boorz. E a seeda de Estor houve outro d’Escócia que era bõõ cavaleiro e poderoso d’armas e amigos e era grande de corpo e muito arrizado a maravilha. E houve nome Vadaas o Negro e era de mui gram guisa mas era tam bravo e tam envejoso que nom sabia homem cavaleiro tanto. O logar de Gaeriet houve u~u~ cavaleiro que havia nome Gaeris de Norgalis e era mancebo e mui bõõ cavaleiro. Dis i, dos outros, os milhores cavaleiros que acharom meterom nas outras seedas. Título Fólio 659191d [Como os delrei foram aa joiosa Guarda e como os do castelo enviarom gram peça de sa cavalaria que se ascondessem em u~a furesta.] Quando esto houverom feito, as mesas postas, e assentaromse a comer e servirom aquele dia aa mesa de rei Artur #VII reis seus vassalos. E aquele dia guisarom sa fazenda como movessem outro dia manhã. Em outro dia ouvirom missa e sairomse e chegarom enesse dia a u~u~ castelo que havia nome Lambor. Outro dia moverom em e andarom tanto per sas jornadas que chegarom a mea Título Fólio 659192a légoa da Joiosa G[u]arda e, porque virom o castelo tam forte que nom temia força de gente e que nom podia seer cercado se de longe nom, pousarom ali em riba d’Ombre e poserom ante si, mentre se guisavam, cavaleiros armados que, se veessem os do castelo, que fossem tam bem recib[id]os como homem deve receber seus enmigoos. Em tal guisa se guisarom os da hoste de receberem seus e~emigos. Mas os do castelo, que eram bõõs cavaleiros, enviarom gram peça da sa cavalaria que se ascondessem em u~a foresta que era preto dali por terem arravata na hoste, quando vissem que era guisado, assi que fossem cometudos dos da foresta e do castelo, e nom derom rem por seu cerco, ante os leixarom pousar muito em paz e disserom que outro dia os cometeriam. Título Fólio 660192a [Como Lançalot enviou u~a donzela com mandado a elrei.] Os cavaleiros da furesta era[m] per conto #CC mui bõõs cavaleiros e mui ardidos e Boorz e Estor eram capitães deles; e os do castelo poserom com eles tal sinal: tanto que, manhã, vissem u~a sina vermelha na maior torre, que logo saissem e fossem firir na hoste, ca eles logo sairiam, assi que a hoste fosse cometuda de ambolas partes. Como o disserom, assi o fezerom. Quando os da hoste viram que os leixavam assi pousar em paz, foram mais seguros. E disserom muitos deles que, se Lançalot tevesse gram companha, que nom leixaria em nengu~a guisa que nom come[te]sse a hoste, ca nom era cavaleiro que sofresse mal que lhi fezesse seu enmigo. Quando Lançalot viu que rei Artur o ti~ia cercado e que era o homem do mundo que el mais amara e que lhi mais d’honra fezera, houve tam gram pesar que nom soube que fezesse, nom por pavor que houvesse mais porque o amara elrei mais d’outro homem que nom fosse seu parente. E por em filhou u~a donzela e apartouse com ela em u~a câmara e disselhi: – Donzela, vós iredes a rei Artur e diredeslhi da mia parte ca me maravilho muito porque começou esta guerra contra mim. Ca bem cuido que lhi nunca tanto errei per que o devesse fazer. Se vos diz que o faz pola rai~a e que lhi fiz torto, assi como algu~u~s dizem, dizedelhi ca eu me defenderei contra os melhores #II cavaleiros de sa corte que me nom a dereito esta culpa [põem]. E por honra dele e por seu amor que perdi por falsa apostilha dizedelhi que me meterei em juizo da sa corte, se lhi prouguer. E se diz que começou Título Fólio 660192b esta guerra por morte de seus sobrinhos dizedelhi que daquela morte nom som culpado per que me el devesse desamar tam mortalmente, ca eles meesmo[s] se forom culpados da sa morte. Donzela, dizedeme a meu senhor elrei ca me nom sento por tam culpado contra ele que me no[m] meta ende em juizo da sa corte. E se el nom quiser outorgar em nem u~a destas cousas que lhi eu envio dizer, eu sofrerei sa força a maior pesar ca el nem outrém cuidaria pensar. E saiba que, pois s’a guerra começar, que todo o mal que eu poder fazer aos seus que lho farei. E el verdadeiramente, porque o tenho por senhor e por amigo, pero que m’el nom vem veer com[o] [a]migo mas como a imigo mortal, seguroo que se nom guarde de mim, ante o guardarei eu sempre e todos aqueles que vir que lhi querem mal fazer. Donzela, esto lhi dezede. E ela disse que aquel mandado adubaria tam bem que nom seeria em pois culpada. A donzela se partiu del e saiuse do castelo em guisa que nengu~u~ no lho entendeu. Esto foi a hora de véspera. Em aquela hora siia elrei ceando e, porque entenderom que era mandadeira, tanto que i chegou, levaromna a elrei e chegouse a elrei e disselhi quanto Lançalot lhi mandou. Título Fólio 661192b [Como elrei prometeu a Galvam que nunca haveria paz com Lancelot.] Galvam, que estava preto delrei, ouviu quanto a donzela disse. E falou ante que outros falassem e disse assi que todolos ricos homens e ouvirom: – Senhor, senhor, vós estades em hora de vingardes vossa vergonha e o gram dano que presestes de vosso[s] sobrinhos per Lançalot. E havedes poder e força de fazerdes o que ti~iades no coraçom dentro em Camalot, de confunderdes e tornardes a nient[e] a linhagem de rei Bam que per sa soberva e per sa gram desmesura vos fezerom tam gram mal e tam gram dano que ja mais nom poderá seer vingado se per Deus nom. E esto vos digo porque se ora fezéssedes paz estando em hora de vos vingardes vós e vossa linhagem, que volo ti~iriam a mal os vossos e os estranhos. – Galvam, disse el-rei, o preito jáé assi que, mentre eu viva, por cousa que Lançalot possa fazer nem dizer, já mais nom haverá paz comigo. E pero que é o homem do mundo a que eu mais devia a perdoar u~u~ erro grande. Ca, sem falha, el fez mais por mim ca outro cavaleiro. Mas a cima fezme u~u~ tam gram mal que eu vos prometo como rei que nunca comigo haverápaz, Título Fólio 662192b [Como a donzela disse a elrei e a Galvam sa morte.] Título Fólio 662192c Entom se tornou aa donzela e disselhi: – Donzela, dizede a vosso senhor que, de quanto me mandou dizer, nom farei nada. Nem ja mais, mentre viva, nom haverá paz com migo. – Certas, disse a donzela, Senhor, este é gram dano, mais pera vós ca pera outrem, ca vós, que sodes ora o mais poderoso homem do mundo e o mais nomeado, seeredes per i destroído e morto e os sesudos homens que muito falarom da vossa fim, [nom] foram enganados; ca esto nom é dulta que os sesudos devinhadores que foram em nosso tempo, que sabiam gram peça das cousas que haviam de vi~ir, disserom que, aa cima, havia a linhagem de rei Bam trager mal e vencer e assenhora[r]se de todolos seus enmigos. E vós, dom Galvam, que devíades seer sisudo, sodes mais neicio ca eu cuidava ca vós buscades vossa morte e ainda o podedes veer. A donzela se partiu entom delrei e foise a seu senhor e contoulhi quanto lhi disse elrei. E el houve gram pesar. Título Fólio 663192c [Como o arcibispo de Conturbel fez elrei tornar a sa molher.] Em outro dia pola manhãã fez Lançalot erguer a sina vermelha na torre e os da foresta viramna logo e sairom e Lançalot saiu aquela hora do castelo e começarom a hoste mui de rijo d’ambalas partes. Enaquela batalha perdeu rei Artur muito e muito [mais] que os outros. Ca os da linhagem de rei Bam eram de tam grande bondade d’armas que elrei nem seus homens nom lhis podiam durar que nom perdessem i muito cada vez que se juntavam e esto era muito ameu´de. E a cima perdera i el-rei todo, se o arcibispo de Conturbe nom fosse, que era parente de rai~a, e escomungou todo o reino de Logres porque elrei nom queria tornar a sa molher. Mas quando el-rei viu que a Santa Igreja o constrangia assi, filhoua. E foi mui mais ledo ca fazia o sembrante, ca el amava a rai~a sobre todalas cousas do mundo. E sabede verdadeiramente que Lançalot nom lha dera se nom fosse que entendiriam as gentes que era verdade o que diziam. E desto s’escusava el muitas vezes a muitos homens bõõs. Título Fólio 664192c [Como elrei Artur cercou a cidade de Gaunes u era Lancelot.] Pois Lançalot deu a rai~a, saiuse de todo o reino de Logres com toda sua linhagem e passou o mar e fôse a Gaunes e fez rex coroados de seus cõirmãos. A u~u~ deu o reino de Gaunes e a outro o de Benoic e toda [a] Gaula assi como lha rei Artur dera. E a aquel tempo podiam bem dizer os do reino que eram ricos de bõõ senhor e de bõa cavalaria. Ca haviam bõõ senhor que bem Título Fólio 664192d ti~ia a terra e o reino em paz. Mas aquela paz nom durou longamente ca rei Artur veo i pois com toda sa hoste por vingar morte de seus sobri~os, e esto foi per conselho de Galvam. E cercou a cidade de Gaunes u era Lançalot com toda sa linhagem. E pois la houve cercada, perdeu i mais que gaanhou, ca sobejo haviam gram poder dentro. E se Lançalot quisesse muitas vezes o vencera e o prendera. Mas nom quis, ca amava rei Artur de mui grande amor. Título Fólio 665192d [Como Lancelot firiu Galvam que pois nom pôde guarir.] Quando elrei viu que nom podia fazer em aquel cerco nula rem a sa honra, disse u~u~ dia a Galvam: – Matastesmi, que me fezestes aqui vi~ir, ca os de dentro nom dam por nós nada. Quando esto ouviu Galvam houve gram pesar, e tanto foi o pesar grande que envio[u] dizer a Lançalot: – Lançalot, se tu és tal que digas que nom mataste meus irmãos [a] aleive eu cho provarei. E Lançalot, quando esto ouviu, houve gram pesar e disse ca se lhis defendiria. E foi a batalha ante a cidade de Gaunes. E, quando foram metidos no campo fez Galvam prometer a seu tio que, se Lançalot o vencesse, que descercassem Gaunes e que dessem Lançalot por quite de todo queixume que dele haviam. E Lançalot er fez prometer a sua linhagem que, se o Galvam vencesse, que todos fossem vassalos quites de rei Artur, fora rei Boorz e rei Lionel: aqueles dous fossem quites desta convença porque eram reis. Entom se forom firir ambolos cavaleiros e durou a batalha mui gram peça. Mas aa cima foi Galvam tam mal firido que nom pôde mais fazer; e matar[a]o entam Lançalot se nom fosse por amor delrei e todos ricos homens do reino de Logres. E sabede que, em aquela batalha prês Galvam u~u~ tal colpe de que pois nom pôde guarir ante o chagou aquela chaga a morte. Quando a batalha foi partida rei Artur deu por quite Lançalot e toda sa linhagem de quanto queixume dele havia. Mais ora leixa o conto a falar deles e torna a rei Artur por falar como houve sa batalha com [o] emparador de Roma. Título Fólio 666192d [Como o emperador de Roma foi em Bretanha e foi morto por rei Artur e sa hoste.] Em esta parte diz o conto que, tanto que a aveença de rei Artur e de Lançalot foi posta que lhi chegarom u~as novas onde houve gram pesar e mui gram sanha. Ca lhi disserom que o emperador de Roma era em Bretanha com mui gram gente e queria filhar Gaula e pois passar ao reino de Logres e conquerêlo. E elrei havia muitos cavaleiros chagados e esteve tanto atá que sãarom. Cande el viu que era Galvam já são e os outros cavaleiros saiuse com toda sa hoste contra o emperador de Roma e lidou Título Fólio 666193a com ele e venceuo e matouo e prês muitos dos milhores de Roma. E fezlhis jurar sobre los Santos Evangel[h]os que o levassem a Roma. E, ao partir, disselhis: – Vós levaredes aos Romãos da mia parte o emperador e diredeslhis que esta é a renda que lhis eu devo. Título Fólio 667193a [Como fezerom Mordret rei e queria filhar a rai~a por molher.] Aquel dia que os Romãos forom vençudos veerom a rei Artur u~as mui maas novas, ca u~u~ escudeiro lhi disse: – Senhor, vós havedes perdudo o reino de Logres. Mordret, vosso sobrinho, se virou com todolos homens bõõs da terra contra vós. E é rei coroado de toda vossa terra e cercou a rai~a Genevra no alcáçar de Londres. E ameaçoua que a mataria porque o nom quiria filhar por marido. E bem assi era todo como lhi dizia o escudeiro. E querovos contar como. Digovos que, pois se partiu rei Artur do reino de Logres sobre Lançalot comendou sem falha sa terra e sa molher e sas gentes que ficavam a seu sobrinho Mordaret e fez-lhi jurar sobre os Santos Evangelhos que fezessem por Morderet tanto como por seu corpo. Quando Mordaret viu que a terra era em seu poder logo pensou que faria de guisa que seu tio nom houvesse a que tornar a ela. E ele amava a rai~a que nunca a Lançalot amou mais. E fez entom fazer u~as leteras falsas que fez aduzer como de carreira u sia ante os homens bõõs de Logres que fezessem Morderet rei e lhi dessem a rai~a por molher. Os de Logres, que verdadeiramente cuidavam que era assi como as leteras diziam, fezerom Morderet rei. E quando lhi quiserom dar a rai~a por molher nom quis ela, ca o desamava muito, e meteuse no alcáçar de Logres com gente de sua linhagem. E Morderet fez combater a torre mas nom na pôde filhar. Ca os que dentro jaziam eram mui bõõs e defenderamna bem. Título Fólio 668193a [Como Queia foi chagado a morte.] Esta foi a traiçom que Morderet fez a seu tio onde aveo que houve elrei gram pesar quando ende as novas ouviu e disse: – Ora cavalguemos ca, se Deus quiser, nom folgarei atá que seja em Logres. Queiam, o moordomo, o fezera mui bem na batalha mas saiu achagado a morte e outrossi Galvam e outros muitos bõõs cavaleiros. Queia, que bem viu que nom poderia ir na hoste, fezese levar a Normanda, a casa d’u~a donzela que fora sa entendedor. Ali mor[reu] Queiam. E fezerom os da linhagem delrei por amor de Queiam u~a vila que há nome Caiam. Título Fólio 669193a [Como elrei se foi a Logres e a rai~a se meteu em u~u~ mosteiro de donas.] Título Fólio 669193b El-rei chegou ao mar e passouo com tanta gente como tragia. Galvam, tanto que chegou aa terra, morreu logo e levaromno ao castelo de Cros. Morderet, tanto que se alçou, fezse amar tam muito a todos, por muito bem que em ele havia de muitas cousas que todos o amavam feramente. Unde aveo que lhi disserom quando souberom que vi~ia rei Artur: – Senhor, nom hajas pavor mas cavalga e defendi o que te nós demos ca nós havemos sabor de receber morte por defender ta honra. Morderet fez entom armar toda sa gente e partiuse de Logres u ti~ia a rai~a cercada. E tanto que s’el partiu meteuse a rai~a em u~u~ mosteiro de donas. E pensou que, se Morderet vencesse, que nom seeria tam mau que a dali tirasse e, se Morderet fosse vençudo, iriase pera seu senhor. Título Fólio 670193b [Como Morderet cavalgou com toda sa companha contra rei Artur.] Morderet cavalgou com toda sa companha tanto que achou rei Artur com gram gente. Quando as duas hostes se acharom muito foi dito du~a parte e d’outra se poderiam i meter paz. Mas esto nom pôde seer ca elrei nom se outorgou i. Todas estas cousas, que aqui convem que vos nom divise compridamente, acháloedes no conto do Braado. Ca me nom tremeti de divisar compridamente as grandes batalhas que forom antre a linhagem de rei Bam e de rei Artur e o emperador de Roma e rei Artur por[que] seeria mais que as #III partes do livro. Título Fólio 671193b [Como morrerom muitos ena batalha de Salaber.] Quando as hostes forom assuãdas no campo de Salaber, ali podiria homem veer de bõõs cavaleiros du~a parte e d’outra. Unde aveo que, tanto que se ferirom aas lanças, veeríades tantos jazer em terra de mortos e de chagados que maravilha era. E daquela batalha foram mortos #VII rex da parte de rei Artur e o conto do Braado diz quaes forom. Ali morreu Ivam, filho de rei Uriam. Ali morreu Keia Destrais e Dondinax o Salvagem e Brandeliz e bem #XX da Távola Redonda unde o que meos valia era te~udo por mui bõõ cavaleiro e por bõõ homem. Em aquela batalha fez Morderet tam bem em armas e tanto se defendeu maravilhosamente que nom foi tal que o aquel dia visse que o nom tevesse por mui bõõ cavaleiro estranhamente. E sabede que a estória diz que, em toda sa vida, nom fez tanto em armas como aquel dia soo. Ca el per sas mãos matou #VI companheiros da Távola Redonda de que o conto do Braado conta os nomes e os feitos. E rei Artur o er fez tam bem aquel dia que todolos Título Fólio 671193c seus filharom em fazanha e nunca mais cansava de ferir d’espada. Unde Lucam que estava preto del e que via as maravilhas que fazia disse a Giflet: – Dom Giflet, sejamos seguros que venceremos esta batalha. Vedes aqui rei Artur que bõõ sembrante nos mostra. Bem aprês a confonder e a matar seus enmigos. Bem deve seer chamado rei quem assi sabe ajudar sa gente. Assi disse Lucam de rei Artur quando viu que tam bem o fazia. E rei Artur andou tanto pola batalha que achou Morderet e deulhi per cima do elmo u~u~ tam gram colpe que o meteu em terra estorgido e coidou que era morto e disselhi: – Mordaret, muito mal me hás feito, mas nom se vos tornou a prol. Título Fólio 672193c [Como elrei firiu Mordret a morte e Mordret elrei.] Rei Artur derribou Morderet assi como vos digo. Mas nom jouve em terra rem ca seus vassalos o erguerom. Mas quando foi no cavalo houve gram vergonha de que assi caera veendoo seus homens. E leixouse correr a Sagramor e deulhi u~u~ tam gram colpe que lhi deitou a cabeça a longe e o corpo caeu em terra. E quando elrei viu este colpe, disse: – Ai, Deus, camanha má andança do traedor matar os bõõs cavaleiros e os leaes! – El-rei cobrara jása lança bõa e forte e leixouse correr a Morderet que nom receava nada tanto era de bõõ coraçom e feriuo tam rijamente que lhi meteu a lança polo peito que o firiu e o fuste pareceu da outra parte. E diz a estória que pois tirou a lança dele que passou per meo da chaga u~u~ raio de sol tam claramente que bem no viu Giflet. Onde os da terra pois ende ouvirom falar e disserom que era miragre de Nosso Senhor e sinal de pesar. Morderet sentiu bem que era firido aa morte e firiu elrei seu padre tam feramente que elmo nem almofre nom prestou que a espada nom fezesse entrar atee o osso e do osso lhi talhou gram peça. Daquel colpe foi elrei a terra e outrossi a terra Mordaret. Título Fólio 673193c [Como Bliobleris arrestava Morderet.] Em tal guisa como vos eu conto matou rei Artur Mordaret e Mordaret chagou ele aa morte. E esto foi gram mal e gram dano ca nom houve pois rei Artur cristão tam bem andante nem que tam bem fezesse sa fazenda Título Fólio 673193d nem que tanto amasse nem honrasse cavalaria. Quando Briobleris, que ante el estava, viu este colpe, disse com mui gram pesar: – Ai, Deus! Ora vejo a profecia comprida que os homens sisudos desta terra disserom per muitas vezes: que rei Artur morreria per mão de seu filho. Ai, Deus! Que dano e que perda! Entom deceu e foise a elrei e poseo em seu cavalo. E elrei era ainda tam estorgido do colpe que adur se podia teer. E pero tanto foi acordado e viu Morderet jazer em terra, disse: – Mordaret, mau ponto te eu fiz. Tu confundisti mim e o reino de Logres e tu és por em morto. Maldita seja a hora em que tu naceste! E aquela hora que elrei esto disse era já a batalha acabada. Ca de #LX mil que aquel dia forom i assu~ados nom ficarom i fora #LX que nom forom mortos. E Bliobleris que fezera tam bem d’armas que nem u~u~ o nom fezera milhor, pois pôs elrei em seu cavalo, deceu a Morderet veendoo quantos i estavam e liou-oo a[a] coa de seu cavalo e começouo arrestar per meo da batalha. Entom o trouxe assi que foi todo espedaçado. Da hoste de Mordaret nom ficou homem vivo nem da hoste rei Artur nom ficou fora #IIII – o arcibispo de Conturbe e Briobleris e Giflet e Lucam que ainda estavam a cavalo. E el-rei Artur ainda a cavalo estava mas bem sentia que era chagado aa morte. Quando eles virom que nom ficou i homem com que se combater podessem e virom o campo de Salaber coberto de todas partes de cavaleiros mortos, disserom antre si chorando: – Ai, Deus! Como aqui há gram dano e gram perda! Ai, Deus! que nos poderiades chus mal fazer? ca nós veemos aqui todo o mundo jazer morto a marteiro e a door! Título Fólio 674193d [Como o arcibispo confortava elrei e el fazia gram doo.] Pois fezerom seu doo partiromse do campo dooroso. E elrei fazia tam gram doo que morria e o arcibispo o confortava quanto podia e disse: – Ai, Senhor! se vós perdestes vossos amigos, da outra parte, graças a Deus, houvestes bõa andança. E escapastes vivo e vencestes esta mortal batalha e matastes vossos eemigos. – Ai! disse elrei, se eu escapei vivo, que prol me vem? Ca mi~a vida nom é nada, ca eu bem vejo que som chagado aa morte. Ai, Deus! que coita tal vi~ir tam maa andança a u~a gram terra per traiçom de u~u~ mau homem. Título Fólio 675193d [Como el-rei mandou fazer u~a torre e pendurar suso a cabeça de Morderet.] Título Fólio 675194a Assi partiu rei Artur do campo de Salaber e Bliob[l]eris tragia ainda a cabeça depós si de Morderet. Ca, sem falha, o corpo todo era espedaçado. Elrei preguntou Bliobleris: – Ficouvos tanto do treedor que nos confundiu tam mal? – Senhor, disse Bliobleris, si, esta é a cabeça de Mordaret. – Muito me praz, disse elrei; nós a faremos poer em lugar u a possa veer quem quiser. E vós e o arcibispo ficaredes em este campo e farês u~a gram torre em que deitem as cabeças dos que aqui morreram. E pendurade suso em u~a gram cadea a cabeça de Mordaret e fazede i escrever leteras como o gram doo em este campo por ele aveo. Assi que os que depois nós veerem, quando souberem polo escrito o mal que por el veo, que maldigam toda sa alma. Título Fólio 676194a [Como Galarom veio aa Torre dos Mortos e despendurou a cabeça.] Bem assi como elrei mandou assi o fez o arcibispo e Bliobleris, ca fezerom no campo u~a torre grande e poseromlhi nome a Torre dos Mortos. E poserom I a cabeça de Mordaret e esteve i pendurada atá que Charies Mainete passou a Inglaterra e foi veer a torre. E quando Galarom o traedor que pois fez tanto mal como divisa, porque a cabeça de Morderet estava ali pendurada semelhoulhi que fora ali posta por dõesto e por referimento dos traedores todos do mundo. E pesoulhi ende muito ca se ti~ia por tal. E foi alá di noite e despenduroua e meteua em logar u nom souberom pois parte dela. A torre ficou, sem falha, ainda ora hoje há dos muros dela. Mas ora leixa o conto a falar da torre e torna a rei Artur. Título Fólio 677194a [Como rei Artur caeu sô Lucam e o britou em guisa que foi morto.] Ora diz o conto que, pois rei Artur se foi do campo u a batalha foi tam mortal e tam doorosa e que se foi com el Lucam e Giflet, cavalgou tanto que chegou a u~a capela. E aquela capela havia nome a Capela Veira. Mas [o]nde houve este nome o romanço de Braado o devisa, ca mais fez a seu conto ca a este. Quando eles chegarom aa capela, elrei que se sentia mal treito, deceu, e os outros com el. E entrarom na capela e elrei ficou os geolhos em terra, ante o altar. E Lucam, que estava a sas espadoas Título Fólio 677194b outrossi em geolhos, nom esteve i muito que viu o estrado em derredor delrei cheo de sangui. Entom entendeu primeiramente que elrei era chagado a morte e que nom podia ende escapar e nom se pôde te~er que nom disse chorando: – Ai, rei Artur, como é gram dano da vossa morte! Ja mais tal homem nom morrerá! E elrei foi ende espantado desta palavra, como homem que se espanta quando ouve falar da sa morte. E respondeu: – O dano nom seerásoo meu, mas muitos homens bõõs i perderám. Entom se leixou caer sobi~nho. E el era grande e pesado e estava armado. E aveo assi, quando caeu, que tolheu antre si e a terra Lucam, que era já desarmado. E estendêse sobr’el tam di rijo que o apertou tam muito sô si, nom per sanha que lh’houvesse mas pola gram coita que sentia, que o britou em guisa que logo foi morto. Título Fólio 678194b [Como rei Artur se foi com Giflet direitamente no mar.] El-rei, pois jouve assi gram peça, ergueu-se. Mas nom cuidou que matara Lucam. E Giflet viu que era morto. Disseo a elrei. A el-rei pesou muito e disse, como homem que havia gram coita: – Giflet, eu nom sou rei Artur, o que soiam chamar aventuroso polas bõas andanças que havia. Mas quem me agora chamar per meu direito nome, chamarm’á mal aventurado e mizquinho. Esto me fez Ventura que xi me tornou madrasta e enmiga. E Nosso Senhor, que praz que vi[v]a em doo e em tristeza esse pouco que heide viver. E bem mo mostra, que, assi como el quis e foi poderoso de me erguer per mui fremosas aventuras e sem meu merecimento, bem assi é poderoso de me dirribar per aventuras feas e más, per meu mericimento e per meu pecado. – Assi disse rei Artur quando viu que assi matara Lucam. E jouve ali aquela noite com gram pesar e tanto coitado que bem entendeu que pouco duraria. Quando chegou o dia, dissi a Giflet: – Cavalguemos e vaamosnos direitamente ao mar, ca tanta maa andança me veo desta vez em Logres que nom quiria i morrer. E em assi como minha vida andou sempre em aventura, assi seerá da mi~a morte. Ca mi~a morte seerá tam em dulta a todas gentes que nengu~u~ nom se poderá louvar que sabe certamente a verdade da mi~a fim. Entom cavalgarom. e partiromse da capela e foram direitamente ao Título Fólio 678194c mar. Mas ora leixa o conto a falar de rei Artur e de Giflet e torna a Bliobleris e ao arcibispo. Título Fólio 679194c [Como o arcibispo se partiu de Bliobleris e se meteu ermitam.] Diz o conto que, pois Bliobleris e o arcibispo fezerom a torre, assi como rei Artur lhis mandou, que se partirom em. E Bliobleris disse ao arcibispo: – Senhor, que faredes vós? – Certas, disse o arcibispo, depois que nós começámos esta torre a que demos cima ouvi dizer muitas vezes a muitos que eram de creer que rei Artur era perdudo em tal guisa que nom sabiam del parte. E, pois que o eu sei certamente que ja mais companha de tam bõõ homem nom haverei, nom quero mais viver ao segre. E ao segre nom valerá daqui adiante se pouco nom, pois tal homem como este é perdudo. Ca este era esteo do mundo e honra do segre. E, pois que el é perdudo, eu me meterei ermitam em u~a ermida e rogarei a Nosso Senhor por rei Artur que lhi haja mercee a alma. E polos outros bõõs cavaleiros que morrerom na batalha doorosa de Salaber. – De m’eu meter por ermitam, disse Bliobleris, nom som conselhado. Ca ouvi dizer que meu senhor Lançalot cedo háde passar acá com gram gente por filhar esta terra onde ambolos filhos de Mordaret se vão jáentregando. – Pois comendovos a Deus, disse o arcibispo. Ca eu quero ir aaquela irmida. E disselhi u a ermida era. – Eu sei bem essa ermida, disse Bliobleris, ca já i foi. E sabede que, se ventura me per i [t]rouxer, que vos quiria veer. Título Fólio 680194c [Como Artur o Pequeno disse a Bliobleris que se guardasse del.] Em tal guisa se partirom ambos. O arcibispo se foi a[a] ermida e Bliobleris se foi a aventura soo pelo reino de Logres, assi guisado de todas armas como cavaleiros andantes. U~u~ dia aveo que topou com Artur o Pequeno outrossi armado de todas armas. E quando se virom nom se conocerom que muito havia que haviam sas armas cambadas. E pero bem esmarom ambos di si que eram cavaleiros andantes, e, tanto que chegarom, esteverom. E cada u~u~ andava com tal pesar que d’u~a peça nom se falarom nembrandolhis daquela coita e daquel marteiro u os cavaleiros andantes e os homens bõõs morrerom do reino de Logres e a que o reino de Logres era tornado. Pois disse Bliobleris: – Por Deus, me digades quem sodes ca muito o queria saber, ca esmo que fostes dos cavaleiros de rei Artur. E el respondeu a mui gram afam, ca sobejo houve gram pesar quando ouviu falar de seu padre e disse chorando: – Eu hei nome Artur o Pequeno. Muito tempo fui na alta corte de rei Artur. E tanto i fui que prougue a Deus que fui companheiro da Távola Redonda. Ora me dizede Título Fólio 680194d vós quem sodes. – Eu som, disse el, Bliobleris, que bem devedes a conocer, que som da Távola Redonda como vós. Quando Artur o Pequeno o ouviu, disse: – Vós sodes dos enmiigos de rei Artur, ca vós sodes da linhagem de rei Bam. Per aquela linhagem som mortos e destroidos todolos do reino de Logres. Ca eles começarom a guerra. E por esto som vosso e~emigo mortal. E digovos que vos guardedes de mim, ca nom há i fora morte. Título Fólio 681194d [Como Bliobleris e Artur o Pequeno se combaterom e forom mal chagados.] Quando Bliobleris esto ouviu, respondeu: – Ai, dom Artur! Esto nom faredes vós, se Deus quiser. Ca sabedes vós que seeriades perjurado e desleal. – Esto nom há mester, disse Artur. Defendedevos, se quiserdes; senom acharvosedes em mal. Quando Bliobleris viu que nom podia i al fazer leixouse corre[r] a ele. E feriramse ambos tam rijamente que se meterom em terra e os cavalos sobre si. E forom ambos mal chagados; mas ambos eram de tam bõõ coraçom e de tam gram força que se erguerom o mais toste que poderom e meterom mão a[a]s espadas e leixaromse ir a si e deromse tantos colpes que se fezerom taes os escudos e as lorigas que valiam mui pouco de quaes ante eram. Ca bem entendiria quem i estevesse que bem sabiam ambos d’espadas. Que vos direi? Ante que eles daquela vez cansassem forom taes que o que era mais são e havia me~os colbes ti~ia taes colbes que outro cavaleiro se teria em por mal treito. Mas eles haviam os corações tam grandes e a sanha tam desmisurada que o nom sentiam. Pois forom cansados folgarom por cobrarem força. E pois folgarom já quanto, disse Bliobleris: – Dom Artur, vós me matastes dõado e combateste-vos comigo gram peça e nom ganhaste[s] i rem. Rogo-vos por Deus e por cortisia que leixedes esta bata[l]ha e eu vos darei por quite de canto i [e]rrastes. E Artur disse que o nom faria atá que u~u~ deles fosse morto. – E se me matardes, disse Bliobleris, que bem vos verrá? Ca quem quer que o saiba vos te~erá por perjurado e por desleal, e de mais bem sabedes que nunca vos morte merici. – Si, merecestes, disse Artur, e direi-vos como. Vós bem sabedes que tal é o custume dos cavaleiros andantes que se algu~u~ cavaleiro é traedor a seu senhor natural e o homem ajudasse aquel cavaleiro contra el, seeria em tredor. – Verdade é, disse Bliobleris. – Pois ora me dizede, disse Artur, vós bem sabedes que ajudastes Lançalot do Lago que era traedor a seu senhor ca foi achado com rai~a Genevra. E ajudaste-lo toda aquela guerra que se por el começou. E pois nom sodes traedor d’ajudardes contra vosso senhor o tr[ae]dor? Por esto vos cometi ora eu, e porque Título Fólio 681195a mi matastes ante a Joiosa Guarda o cavaleiro do mundo que e[u] mais amava. E ora vos acho aqui e quero-vos dar o galardom. – Certas, dom Artur, disse Bliobleris, vós vos te~edes a mau conselho. E pois eu vejo que nom posso com vosco fazer paz, digo-vos u~a cousa, mas nom por me louvar, ca eu nom me temo de vós soo. Ca verdadeiramente sei que som tam bõõ cavaleiro como vós ou melhor. E bem vos mostrarei que é verdade, ca vos matarei ou vos vencerei ante que me de vós parta. Assi me ajude Deus que me pesa muito mas, pois que i al nom posso fazer, farei-o. Ca ante quero que vós moirades a[a]s mias mãos que eu a[a]s vossas. Título Fólio 682195a [Como Artur o Pequeno foi chagado a morte e disse a Bliobleris cujo era filho e como Bliobleris o fez soterrar.] Depois desto, sem mais teer, leixarom-se correr a si e meterom mão as espadas e derom-se os maiores colpes que poderom. E durou aquela batalha em tal guisa que nom houve i tal que nom houvesse pavor de morte, ca ambos se sentiam chagados. Mas gram peça era peor chagado Artur o Pequeno ca Bliobleris, assi que já viia que nom podia escapar. Ca bem #XII chagas ti~ia que a me~os perigosa era mortal. E quando viu que nom podia sofrer a batalha afastouse u~u~ pouco afora e disse: – Bliobleris, como vos sentides vós? – Bem, disse el, aa mercee de Deus, segundo como o preito é, ca som mui mal chagado mas nom aa morte. – Nom? disse Artur. Par Deus, nom digo eu assi de mi, ca eu me sento chagado aa morte per mi folia. E nom mi pesa tanto da mia morte como de que mi nom vinguei. E pois disse esto caeu em terra sobi~o. E Bliobleris, que houve gram pesar, meteu a espada na bai~a, ca lhi nom quis mais mal fazer. E foi a ele e tolheulhi o elmo e o almofre por lhi dar algu~u~ vento que o assiirasse mais. E Artur, quando esto sentiu, cuidou que o fazia por lhi talhar a cabeça e disselhi: – Ai, Bliobleris! Nom me faças mais de mal, ca tu me mataste por mia soberba e se t’eu er[r]ei, tu bem te vingaste. Sofrete, se ti prouguer, e leixame soterrar enteiro. – Si Deus m’ajude, disse Bliobleris, nom hei vontade de vos mais mal fazer, ante me pesa de canto i fiz. – Por Deus, disse Artur, nom devedes em seer culpado ca todo foi per mia soberva. Mas u~a cousa que nunca disse a nenguu~u~ vos quero dizer porque vejo que som morto e quero que o mundo o saiba. Sabede que rei Artur era meu padre e por em eu hei nome Artur o Pequeno. E esto, se vos prouguer, fazede escrever sobre meu moimento. E tanto que esto disse, foi morto. E Bliobleris o pôs ante si sobre seu cavalo e levouo a u~a abadia e fezeo soterrar mui honradamente e fezlhi escrever o moimento o que lhi rogara e partiuse. Ora leixa o conto a falar dele e torna a rei Artur. Título Fólio 683195a [Como rei Artur mandou a Giflet que deitasse sa espada em u~u~ lago.] Quando rei Artur se partiu da Capela Veira, assi como vos já disse, foise com Giflet contra o mar Título Fólio 683195b com mui gram pesar das aventuras que viia e das más andanças que lhi vi~iam de novo, u~as depós outras. Quando chegou ao mar – esto foi hora de meio dia – deceu e assentouse na riba do mar e deceu sa espada e tiroua da bai~a e viu a cinta vermelha de sangui daqueles que matara. E pois la catou gram peça, disse suspirando: – Ai, Esclabor, espada bõa e honrada, a melhor ca nunca entrou no reino de Logres fora a da estranha cinta, ora perderás tu senhor. Mas u acharás homem ja mais u tam bem empregada sejas como eras em mim se aas mãos nom ve~es de Lançalot? Ai, Lançalot, o melhor homem e o milhor cavaleiro que eu nunca vi, fora Galaaz, que foi o milhor dos milhores! Ora prouguesse a Nosso Senhor que tu esta espada houvesses e soubesseo eu! Certas, a minha alma seeria mais viçosa ende pera sempre! Entom chamou Giflet e disselhi: – Filhade esta espada e ide ali suso a aque[l]e outeiro e acharedes i u~u~lago. E deitadea i, ca nom quero que os maus que depois nós reinarám hajam tal espada. – Senhor, disse el, eu o farei, vosso mandado; mas ante eu quiria, se vos prouguesse, que ma déssedes. – Nom no farei, diss’el, ca nom seerá em vós empregada a mia vontade ca nom havedes muito a viver. Entom tomou Giflet a espada e foise ao outeiro e achou o lago. E tirou a espada da bai~a e catoua e viua tam bõa e tam rica que lhi semelhou que seeria dano sobejo de a deitar no lago. E que melhor era de deitar a sua e filhar aquela pera si e que disse[sse] alrei que a deitara no lago. Entom tomou a sua e deitoua no lago e escondeu a delrei nas ervas e tornouse a elrei e disse que a deitara no lago. – Pois que viste entom? disse elrei. – Senhor, nom vi rem. – Ai, disse elrei, muita coita me dás. Torna alá e deitaa i. Ca ainda [a] i nom deitaste. E el tornou alá e filhou a espada e catoua e fez seu doo e disse que seria gram dano se assi fosse perduda. E pensou que deitaria i a bainha e teeria a espada, ca ainda poderia te~er prol a el ou a outrem. E filhou a bai~a e deitoua no lago e tornou a elrei e disse que deitara i a espada, E el-rei lhe er preguntou que vira: – Senhor, disse el, nom vi rem. E que havia a veer? – Que havias a veer? disse elrei. Nom a deitaste ainda i. Porque me fazes tanto mal? Vai e deitaa i. Entom veerás o que ende averrá ca, sem gram maravilha ela nom pode seer perduda. Quando el viu Título Fólio 683195c que de fazer lh’era, tornou ao lago e filhou a espada e disse: – Ai, espada bõa e rica, como é gram dano que algu~u~ homem bõõ nom te [t]olhe na mão! Entom a lançou o mais que pôde e, quando chegou preto da água, viu u~a mão sair do lago que parecia atés o côvodo mas do corpo nom viu nada. A mão recibeu a espada polo mango e brandiua três vezes ou quatro; e, pois a brandiu, meteuse com ela na água. Ele atendeu gram peça por veer se xi lhi amostraria mais. Título Fólio 684195c [Como el-rei disse a Giflet que se partisse ca sa fim se achegava.] Depois partiuse do lago e tornou a el-rei e disselhi como deitara a espada e o que em vira. – Par Deus, disse elrei, todo esto eu sabia que ave~ria em. Ora sei eu bem que minha morte se chega muito. Entom veeromlhi as lágrimas aos olhos e pensou gram peça e disse: – Ai, Giflet! Longo tempo me servistes e me tevestes companha. Mas ora chegou já termo em que vos convém já de mi[m] partir. E em vos podedes louvar que vós sodes o companheiro da Távola Redonda que mais longamente me teve companha. Ora vos digo que vos vaades, ca des hoje a mais nom quero que fiquedes comigo ca mia fim se achega. E nom é cousa posta que nem u~u~ saiba verdade de mi~a fim. Ca bem como eu aqui per ventura fui rei assi passarei deste reino per ventura, ca nengu~u~ nom se poderá louvar des aqui adiante que certamente saiba que seerá de mim. E por esto quero que vos vaades; e, pois fordes de mim partido, se vos preguntarem novas de mim, respondêlhis que rei Artur veo per ventura e per ventura se partiu. E ele soo foi rei aventuroso. – Ai, Senhor! Mercee, disse Giflet. Por Deus, sofredeme que vos faça companha atá que vej[a] a vossa fim. – Eu nunca vos amarei, disse elrei, se vos nom ides; mas façovos certo que vos verrá mal se vos nom ides. – Ai, Senhor, disse Giflet, fareio, pois vos praz, mas sabede que nunca fiz cousa por que tanto me pesasse como de me partir de vós ca eu vos amei sempre sobre todalas cousas. Mas por Deus e por vossa bondade tanto me dizede, se vos prouguer, se cuidades que vos er veja eu depois que m’ora partir. – Certas, nom, disse elrei, já mais ora nom me veeredes. E el respondeu entom: – Senhor, tanto é mais meu pesar. Entom foi a seu cavalo e cavalgou e disse chorando a atam grande afam Título Fólio 684195d como aquel que bem semelhava que o coraçom se lhi queria partir: – Senhor, comendovos a Deus. – Deus seja com vosco, disse elrei. E partiuse Giflet dele. Entom começou aa chover muito e a fazer mau tempo. E foise Giflet contra u~u~ outeiro quanto mais pôde ca pensou que no outeiro soubesse que veeria pera u rei Artur iria. E o outeiro era do mar mea légua pequena. Título Fólio 685195d [Como Giflet viu rei Artur entrar em u~a barca u era Morgaim com muitas donas e como a barca si ia polo mar.] Quando Giflet chegou ao outeiro esteve sô u~a árvor atá que se fosse a chuva e começou a chorar e a catar aquela parte u elrei leixara. E nom esteve i muito que viu vi~ir per meo do mar u~a barqueta em que vi~iam muitas donas. A barca aportou ante rei Artur e as donas sairom fora e foram a el-rei. E andava antr’elas Morgaim a encantador, irmã[ã] de rei Artur, que foi a elrei com todas aquelas donas que tragia e rogouo entom muito que per seu rogo houve el-rei d’entrar na barca. E, pois foi dentro, fez meter i seu cavalo e todas sas armas; dês i, começouse a barca de ir polo mar com el e com as donas em tal hora que nom houve i pois cavaleiro nem outrem no reino de Logres que dissesse pois certamente que o pois vissem. Quando Giflet que estava no outeiro, viu que el-rei entrara na barca com as donas, deceuse ende e fôse contra alá quanto o cavalo o pôde levar, ca esmou, se chegasse com tempo, que se meteria i com seu senhor na barca e que se nom partiria del per rem que aveesse, se per morte [nom]. E quando chegou ao mar a barca era já alongada da riba e viu elrei antre as donas. E conoceu bem Morgaim a fada ca muitas vezes a vira. E a barca esta[va] da riba tanto como deitadura de besta. E quando Giflet viu que assi perdera elrei começou a fazer o moor doo do mundo. E ficou ali todo aquele dia e toda aquela noite que nom comeu nem beveu nem já o dia dante nom comera. Título Fólio 686195d [Como Giflet se foi aa Capela Veira e achou #II moimentos de Lucam e de rei Artur.] Em outro dia, quando o sol era já levado, cavalgou Giflet mui coitado e com gram pesar e partiuse dali e cavalgou tanto que chegou a u~u~ mato pequeno. E morava i u~u~ ermitam que era mui seu conoçudo e foi a el e morou i com el dous dias porque se sentia mal treito. E contoulhi entom o que vira de rei Artur quando o vira entrar no mar com as donas. Ao terceiro dia partiuse e foise aa Capela Veira por saber se era já Lucam soterrado Título Fólio 686196a e chegou i a hora de meo dia e deceu e liou seu cavalo a u~a árvor e entrou dentro e achou #II moimentos ante o altar, mui fremosos e mui ricos. Mas u~u~ era mui mais rico ca o outro. Sobelo que era me~os rico havia leteras que diziam: “Aqui jaz Lucam, o Copeiro, que rei Artur matou sô si”. Sobelo outro, mais rico que era maravilha, havia leteras que diziam: “Aqui jaz rei Artur, que per sa proeza e per sa bondade conquis #XII reinos.” Título Fólio 687196a [Como Giflet preguntou se verdadeiramente era aquel rei Artur que no moimento jazia.] Quando el leu as leteras, esmoreceu sobelo moimento; e, quando acordou beijouo chorando muito de coraçom. E esteve i atee o sarão que u~u~ homem chegou que servia o altar da capela. E tanto que [o] viu, Giflet perguntouo: – Senhor, por Deus, é verdade que aqui jaz rei Artur? – Certas, disse o homem bõõ, eu o creo assi, cámuito há pouco que tragiam aqui donas em u~u~ leito o corpo du~u~ cavaleiro. E faziam doo mui grande a maravilha, e quando as preguntei quem era aquel por que tal doo faziam, elas mi disseram que era rei Artur; e metemolo entom em este moimento. Dis i foromse ela[s] contra o mar e nom er tornarom. E Giflet esmou entom que aquelas eram as donas a que vira meter rei Artur na barca. E pero disse em seu coraçom que toda via queria saber verdadeiramente se era aquel rei Artur que no moimento jazia. Título Fólio 688196a [Como Giflet ergueu a campãa e nom viu rem fora o elmo de rei Artur e como se quise ficar em aquela ermida.] Entom foi Giflet ao moimento estando o homem bõõ deante. Entom fez que ergueu a campãã e quando catou dentro nom viu rem fora o elmo de rei Artur, aquel meesmo que trouxera na doorosa batalha. Quando el viu que o corpo delrei nom era ali mostrou ao homem bõõ o moimento vazio e disselhi: – Aqui nom jaz meu senhor, eu quero que me sejades vós testimunha. E tornou a campãã sobelo moimento como ante siia. Er preguntou outra vez: – Vistes vós aqui meter bem o corpo de meu senhor? – Par Deus, disse o homem bõõ, nós metemos i u~u~ corpo. E as donas me fezerom entendente que era rei Artur. Outra verdade vos nom saberia eu dizer em. – Assi? dissi Giflet, em vão me trabalharei de preguntar como rei Artur morreu. Verdadeiramente este sê o rei aventuroso cuja morte nem u~u~ homem nom saberá. E bem disse el a verdade que, assi como el Título Fólio 688196b veo ao reino de Logres per ventura, assi se foi em per ventura. Mas, pois eu vejo que me nom é prol de o buscar pois achado nom pode seer, eu som aquel que ja mais nom vivirei ao segre. Ante quero ficar aqui em esta ermida, e viver i mentre já viva. Entom rogou ao homem bõõ, que o recebeu em sa companha. Assi como vos digo ficou Giflet com aquel homem bõõ e servi Deus na Capela Veira. E fez i mui bõa vida e santa. Mas [nom] foi longamente cá nom viveu depois que se partiu de rei Artur mais de três meses. Mas ora leixa o conto a falar de rei Artur e da morte de Giflet por contar de Lançalot e dos filhos de Mordaret. Título Fólio 689196b [Como os filhos de Morderet se iam pola terra assenhorandose dela.] Conta a estória que, mentre Giflet foi na ermida, que ambolos filhos de Mordaret foram em Ginzestre por guardarem a vila. Quando souberom morte de seu padre e de rei Artur e de outros homens bõõs que forom mortos na batalha doorosa foram muito confortados. Eles eram ambos bõõs cavaleiros e sabiam muito de mal como seu padre. E prometerom tanto e derom aos de Ginzestre que os receberom por senhores assi como fezerom a seu padre. E assu~arom logo canta gente poderom haver e foramse pola terra e senhorandose dela. E esto podiam eles ligeiramente fazer, ca todolos homens bõos eram mortos na batalha. Título Fólio 690196b [Como a rai~a filhou panos de ordem e se feze monja.] Quando a rai~a soube a verdade da batalha que fora no campo de Salaber e lhi disserom que era elrei morto e todolos homens bõõs de Logres houve gram pesar que bem quisera seer morta. E quando lhi disserom que os filhos de Mordaret se iam assenhorando da terra e que haviam tam gram gente que cedo haveriam todo o reino, houve tam gram pesar que nom podiria maior, ca houve pavor de a matarem. E por em filhou panos de ordem e fezese monja. Título Fólio 691196b [Como Lancelot houve gram pesar dos filhos de Morderet e como prês conselho com Boorz e Lionel.] Enquanto esto foi chegarom as novas a Lançalot que era Gaunes com gram companha de homens bõos de seu reino. Depois er contaromlhi como os filhos de Mordaret, que nom forom na batalha, que se andavam assenhorando da terra. E destas novas houve gram pesar Lançalot. E fez mui gram doo per rei Artur, ca nom havia homem no mundo que mais amasse. Título Fólio 691196c E preguntou por n[o]vas da rai~a. Mas nom lhi soube rem dizer o que lhe as novas dava. Ca poucos havia na terra que soubessem que fora dela, ca, sem falha, ela pensava de se asconder o mais que podesse com medo de sa morte. Muito houve Lançalot gram pesar daquelas novas. E prês conselho com rei Boorz e com rei Lionel que poderia i fazer, ca nom desamava rem do mundo tanto como Mordaret e seus filhos. Título Fólio 692196c [Como Lancelot e Boorz e Lionel e Estor passarom o mar com toda sa companha.] Respondeu rei Boorz: – Senhor, eu teeria por bem de nos asu~armos e de passarmos aa Gram Bretanha. E, se nos atenderem, que os matemos de algu~a morte estranha, ca nom vejo eu como nos deles possamos vingar em outra guisa. – Lançalot se outorgou em seu conselho. Entanto enviarom ao reino de Benoic e ao reino de Gaunes e [a]o de Gaula e assu~arom na cidade [de] Gaunes mais de #XX mil homens, que a pee que a cavalo. E, pois foram assu~ados, Lançalot e rei Boorz e rei Lionel e Estor com toda sa companha, partiomse de Gaunes e andarom tanto per sas jornadas que chegarom ao mar e acharom sas naves guisadas e entrarom dentro e houverom tam bõõ vento que, em esse dia mesmo, portarom na Gram Bertanha e decerom e pousarom pela riba do mar. Título Fólio 693196c [Como os filhos de Mordret e sa gente se assu~arom em Ginzestre.] Em outro dia forom as novas aos filhos de Mordaret que Lançalot era na terra com gram gente. Quando eles esto ouvirom forom muito espantados e houverom conselho de se assu~arem e de lidar com el. A esto se acordarom porque haviam mais gente ca Lançalot. Assi como o disserom assi o fecerom. Ca se assu~arom em Ginzestre e tanto fezerom em pouco tempo per sa grandeza grande e per sa proeza que todolos homens do reino de Logres lhis fezerom menagem e que haviam em ajuda muitos cavaleiros estrãios. Título Fólio 694196c [Como chegarom novas a Lancelot que era morta a rai~a.] Pois foram assu~ados sairomse de Ginzestre. E eles indo, o outro dia pola manhãã, logo lhis chegou u~u~ mandadeiro que lhis disse: – Mortos sodes e confundudos, que Lançalot vem aqui com gram companha de gente e nom é daqui mais de #VI léguas e segurovos que será muito cedo com vosco. Quando eles esto ouvirom disserom que o agardasse[m] ali e que ali se combateriam com el. E decerom por folgarem, eles e os cavalos. Assi ficarom os de Logres ante Ginzestre. E Lançalot com toda sa companha cavalgou, pero com mui gram pesar sobejo, ca aquel Título Fólio 694196d dia lhi chegarom novas que a rai~a era morta bem havia três dias. Mas porque o nosso conto nom divisa como ela foi morta, divisáloemos acá em outra guisa. Título Fólio 695196d [Como a rai~a jazia doente e fazia doo per Lancelot.] Enesta parte diz o conto que, pois a rai~a Genevra entrou em ordem com pavor dos filhos de Mordaret, ela foi sempre mui viçosa de todolos viços do mundo. Onde ave~o que, pois houve de sofrer as lazeiras da ordem que nom havia em custume, caeu logo em cama e enfirmidade que todos aqueles que a viam haviam maior asperança em sa morte ca em sa vida. E ela havia com sigo u~a donzela de gram guisa e que presara ordem por amor dela. Aquela donzela fora en[t]endedor de Giflet, filho de Dondinax. E, porque a rai~a ouvira dizer que Giflet tevera mais longmente companha a rei Artur ca outro cavaleiro, amava tanto a companha desta donzela que nom podia mais. E confortavamse antre si e choravam muito ameu´de quando lhis lembrava[m] os grandes viços e de grande alteza e do grande poder em que fora[m]; e ora era[m] em ordem com pavor da morte. A rai~a, como quer que fosse em ordem, nom quedava de fazer doo por Lançalot e que nom dissesse algu~a vez: – Ai, meu senhor Lançalot, dom Lançalot! E como vos esqueci, que ja mais nunca cuidei que vós me leixássedes. Se vós cuidássedes a vossa bondade e o vosso prazer e o gram poder que Deus vos deu, lembravosiades algu~a vez de mim. E vingaríades a morte de rei Artur. E conquistaríades o reino de Logres. E alegraríadesmi desta cuita em que som e deste poder alheo em que som, em qui me meti com pavor de morte. Esto dizia a rai~a de Lançalot u jazia doente. E a donzela a confortava muito quanto ela podia. E dizia que nom houvesse pavor, ca bem soubesse verdadeiramente que Lançalot nom tardaria muito que nom veesse, que já ela ende ouvira novas. E a rai~a respondeu: – Sobejo me tarda. E sei que em sa tardança tenho morte. Título Fólio 696196d [Como a rai~a ouviu novas que Lancelot se perdera no mar com toda sa gente e como jouve sem comer nem bever #III dias.] Em aquela abadia havia u~a monja que entrara em ordem porque entendera Lançalot e nom na quisera e desamava a rai~a mui de coraçom porque a leixara Lançalot por amor da rai~a. E pensou que pois ela nom podia vingar sa sanha em Lançalot que a vingaria ena rai~a. U~u~ dia ave~o que disse esta donzela aa amiga de Giflet, aquela Título Fólio 696197a que a rai~a guardava, e fez sembrante que nom queria que a rai~a o ouvisse: – Ai, donzela, maas novas vos trago! Dom Lançalot, que vi~ia com gram poder por conquerer o reino de Logres, perdeuse no mar com toda sa gente. – Par Deus, disse a amiga de Giflet, gram perda é essa. Mas como o sabedes vós, se é verdade? – Eu o sei bem, disse ela, por aquel que o viu. A rai~a, que jazia doente, quando ouviu estas novas houve tam gram pesar que a poucas que nom foi sandia. Pero encobriuse bem, com pavor daquela que as novas dizia. E pois se partiu, disse a rai~a com gram pesar: – Ai, mar amargoso e maldito, comprido de amargura e de door, neicio, mau e desconoçudo, mal m’hás morta, que vós o mais leal amador do mundo tolhestesme seu amor! Pois disse esto, calouse com tam gram pesar que nom pôde mais comer nem bever e jouve assi #III dias. Ao quarto dia veerom novas que Lançalot, sem falha, aportara na Gram Bretanha com tam gram cavalaria e tam bõa que nom há homem no mundo que o ousasse atender em campo. Título Fólio 697197a [Como chegarom novas que Lancelot era na Gram Bretanha e como a rai~a lhi fez enviar seu coraçom.] A donzela que a rai~a guardava foi mui leda quando estas novas ouviu e foise correndo aa rai~a e disselhi: – Senhora, muito vos trago bõas novas. Sabede verdadeiramente que dom Lançalot é na [Gram] Bretanha com tanta gente que, em pouca sazom a correrá toda. A rai~a, que preto estava de morta, quando estas novas entendeu, respondeu a grande afam: – Donzela, tarde mo dissestes e já me nom val rem sa viinda, ca eu som preto de morta. Mas pero, porque dom Lançalot é o homem do mundo que eu mais amo, rogovos que façades, polo meu amor e o seu, o que vos quero rogar. E ela lhi prometeu lealmente que o faria a todo seu poder. – Pois ora volo direi, disse a rai~a. Eu bem vejo que som morta e nom hei cras a chegar a manhãã e bem vos digo que nunca foi leda tanto de novas como destas. E de outra parte, pesame sobejo que o nom posso veer ante que moira. Ca me semelha que se o visse que mia alma seeria mais leda. E porque eu quero que ele veja e saiba que da sa vi~inda mi praz e que moiro com pesar e que de grado o queria veer, se podesse, por em vos rogo que, tam toste que eu moira, que me tiredes o coraçom e que lho levedes em este elmo que foi seu; e que Título Fólio 697197b lhi digades que, em renembrança de nossos amores, lh’envio o meu coraçom e que nunca el o esqueceu. Aquel dia mesmo passou a rai~a Genevra e a donzela fez seu mandado. Pero nom achou Lançalot e por esto nom acabou todo o que lhe mandara a rai~a. Mas ora leixa o conto a falar dela e torna a Lançalot e aos filhos de Mordaret. Título Fólio 698197b [Como Lancelot e os de Ginzestre se combaterom e Lionel foi chagado a morte.] Aqui diz o conto que, pois Lançalot ouviu estas novas da rai~a, que era morta, houve tam graam pesar que era maravilha. E com todo se partiu e andou aquel dia e sa companha atá que chegarom a Ginzestre. E os outros, que os atendiam, quando os virom, cavalgarom e ajuntaromse com eles. Em aquel ajuntar foram muitos mortos e chagados e grande o desamor antre eles. Pois britarom sas lanças meteram mão as espadas e começaromse a firir o mais que poderom, assi que, per este preito, veríades muitos mortos d’u~a parte e da outra e muitos chagados. A batalha durou atá hora de noa e ave~o que Miliam, o filho de Mordaret, ti~ia u~a lança pequena e grossa e de ferro mui talhador; e ele era mui bõõ cavaleiro d’armas e leixouse correr a Lionel e firiuo assi que escudo nem loriga nom lhi prestou que a lança nom foi da outra parte, per meo do peito, e meteuo em terra do cavalo e ao caer quebroulhi a lança, assi que o ferro com peça da haste ficou em ele. Este colpe viu rei Boorz e bem o conoceu sem falha que seu irmão era chagado a morte. E houve tam gram pesar que bem cuidou em a morre[r] com doo. Título Fólio 699197b [Como Boorz matou Miliam e como os outros faziam maravilhas.] Entom se leixou correr rei Boorz a Meliam e foilhi dar u~a espadada como aquel que muito gram colpe havia jádado que lhi talhou o elmo e o almofre e o fendeu atee as espádoas e tirou assi a espada e caeu Miliam em terra morto. E quando o vi~iu em terra disse: – Ai, traedor! Que mal hoje eu cobro o dano que mi tu fezeste! Certas, tu meteste em meu coraçom tam gram doo que ja mais em nom sairá. Entom se leixou correr aos outros, u via a maior pressa, a matar e a dirribar Título Fólio 699197c quanto podia, assi que nom há homem no mundo que se nom maravilhasse das maravilhas que faziam os cavaleiros de Gaunes. Virom caer rei Lionel, decerom e sa[c]aromno da pressa e deitaromno sô u~a árvor. E pero viromno tam mal chagado que nom ousarom fazer doo por seus enmigos nom haverem em prazer. Título Fólio 700197c [Como Lancelot matou o filho maior de Morderet e os outros começarom a fugir.] Assi foi ante Ginzestre a batalha começada, maa e dorosa, que durou atá hora de noa tam aficadamente que a adur podia homem conocer quem havia o melhor dela. Depois de hora de noa ave~o que Lançalot topou com aquel que era filho maior de Mordaret e era sem falha bõõ cavaleiro. Lançalot o conoceu porque tragia taes armas como seu padre soia trager. E leixouse correr a ele, sa espada na mão. E o outro nom receou o escudo contra o colpe quando a espada viu vi~ir. E Lançalot, que mortalmente o desamava, feriuo tam feramente que lhe fendeu o escudo até a broca assi que lhe talhou o punho com que o ti~ia. E, quando el sentiu que havia a mão perduda, quis fugir contra u~a furesta que era preto dali ca bem sabia que nom podia durar contra Lançalot. Mas Lançalot o teve em tam gram coita que nom houve poder de lhe escapar e deulhi u~u~ tam gram colpe que lhi fez a cabeça com seu elmo voar do corpo em terra mais longe de u~a lança. Quando os outros virom este morto, nom souberom em que houvessem cobro nem conselho. E começaram de fugir e os outros começarom ir após eles matandoos e dirribandoos per essas c[a]rreiras. E Lançalot, que ia acalçand[o]os ante toda sa companha, matava e chagava e dirribava tam feramente que bem poderia homem veer o rasto depós el dos que dirriba[va] e dos mortos e dos chagados. Tanto andou em tal guisa que acalçou u~u~ duc de Gorra que si ia já, que era traedor e desleal e que fezera muitas vezes pesar aos da linhagem de rei Bam. Título Fólio 701197c [Como Lancelot se alongava de sa companha.] Quando Lançalot acalçou aquel e o conoceu, disselhi: – Ai, traedor e desleal! Certas, vós sodes morto, que nom há rem no mundo que vos guaresça, fora Deus. E o outro catou pós si e, quando conoceu que era Lançalot e que assi o ameaçava, houve gram pavor, ca sabia bem Título Fólio 701197d verdadeiramente que era [o] melhor cavaleiro do mundo e ele bem viu que era morto se o aquel acalçasse. E começouse d’ir quanto o cavalo o podia levar contra u~a montanha. E ele andava em mui bõõ cavalo e Lançalot outrossi. Assi que bem correrom duas léguas. Entom cansou o cavalo do duc assi que de cansaço caeu morto sô ele. E Lançalot, que preto ia, quando o viu em terra, foi a ele assi como estava, a cavalo, e deulhi u~a espadada per cima do elmo que o fendeu atés os dentes. Dês i nom no catou chus e começouse a ir quanto pôde ca de canto se cuidava mais a ch[e]gar aa companha, tanto se alongava dela mais. Título Fólio 702197d [Como Lancelot achou o arcibispo e Bliobleris em u~a ermida e disse que ficaria i em serviço de Nosso Senhor.] Tanto andou Lançalot assi desviado que chegou a u~u~ vale mui fundo. Entom achou i u~u~ escudeiro que vi~ia contra Ginzestre e preguntoulhi unde vi~ia. E ele lhi disse que vi~ia do campo u fora a doorosa batalha. _ E eu cuido, a meu ciente, disse o escudeiro, que nom escapou ende homem vivo fora vós. E esto dizia el porque cuidava que Lançalot era do reino de Logres. – Pero tanto vos digo que os outros ham muito gram pesar de rei Lionel que perderom na batalha. – Como? disse Lançalot, é verdade que rei Lionel é morto? – Verdade, disse o escodeiro; eu o vi morto e nunca vistes tam gram doo como os seus por ele faziam. – Certas, disse Lançalot, aqui há gram dano ca muito era bõõ cavaleiro. Nosso Senhor lhi haja mercee da alma. Entom começou a chorar mui feramente. E o escudeiro lhi disse: – Senhor, u cuidades hoje albergar? ca muito é tarde. – Nom sei, disse el; nom daria rem por pousada tanto que hei gram pesar. E o escudeiro o preguntou como havia nome. – Eu hei nome Lançalot, diss’el. E o escudeiro começou a fugir, tanto que lhi ouviu dizer que era Lançalot, ca muito havia gram pavor de o matar, E Lançalot começou de andar, triste e mui coitado. E andou já aquela noite e todo aquele dia que nom comeu ele nem seu cavalo. Manhã aveolhi que a ventura o levou a u~a ermida u achou o arcibispo de Conturbe e Bliobleris que se metera i por servir Nosso Senhor. E quando os achou foi mui ledo; e eles, quando o virom, outrossi foram muito ledos e receberom-no Título Fólio 702198a mui bem e desarmaromno. E tanto que foi desarmado foi a u~u~ altar de Santa Maria que i estava e ficou os geolhos ant’el e jurou que, se Deus e Santa Maria e os santos o ajudassem, que ja mais nom se partiria do serviço de Nosso Senhor mas ficaria naquela ermida mentre vivesse. E assi como o jurou, assi o fez, ca ali morreo em serviço de Nosso Senhor. Mas ora leixa o conto a falar deles e torna a Boorz e a sa companha. Título Fólio 703198a [Como Boorz se partiu com metade da companha e a outra metade se ficou com Estor.] Pois os de Gaunes houverom sa batalha acabada, e desbaratados os de Ginzestre e que virom rei Lionel morto houverom em gram pesar e filharam conselho antre si que fariam. – Certas, disse rei Boorz, eu hei tanto perdudo no reino de Logres, pois i perdi meu irmão, que nom hei talam de morar i mais, ante me quero ende ir. Mas ele nom entendia ainda que Lançalot era deles partido e mandou meter seu irmão em u~u~ leito e partiuse do campo u a batalha fora e cavalgou tanto atee que chegou ao mar e quis passar e disseromlhi os da sa companha: – Senhor, mal havemos feito, ca já dous dias andamos, se nom de Lançalot nom sabemos nem u~u~ recado. Entom mandou a metade da gente com o corpo de rei Lionele e a outra meitade ficou. – Ca nunca tanto, disse rei Boorz, amei esta terra como ora mais nom a desamo por morte de meu irmão que perdi i. Título Fólio 704198a [Como o ermitam disse a Estor novas de Lancelot.] Assi como rei Boorz lhis mandou, assi o fezerom eles, ca ficou ende a meitade com Estor e a outra meitade com elrei Boorz. Os que ficarom esteverom #IIII dias em u~u~ castelo que é chamado Ambenic: e atenderom ali se poderiam haver novas de Lançalot. E Estor ficou com eles com gram pesar de seu irmão de que nom podiam haver nem u~as novas. E eles assi atendendo, aquevos vem u~u~ ermitam que disse a Estor: – Endoado atendês aqui vosso irmão que ele nom hásabor de vi~ir acá, ca se meteu em u~a ermida unde nom sairá já mais, ca o prometeu a Nosso Senhor. E é com ele o arcibispo de Conturber e Bliobleris. Aqueles dous outrossi som ermitães. – E u som? disse Estor. Podêlosia eu achar? – Esto vos nom direi eu, disse o ermitam. – Se mo vós nom quiserdes dizer, disse Estor, nom ficará por em que o eu nom va buscar atá que o ache. Título Fólio 705198a [Como Estor achou Lancelot e os outros e se ficou com eles na ermida.] Entom fez ante si vi~ir toda sa companha e fezeos jurar que fezessem todos seu mandado. E Título Fólio 705198b pois jurarom, disselhis: – Ora vos mando que saiades do reino de Logres e que vos vaades pera vossas terras. – E vós, disserom eles, Senhor, que faredes? – Eu ficarei, disse el, e, se me pois veer voontade de m’ir, irmiei pós vós. E eles assi o fezerom, ca se meterom no mar e foramse pera sas terras. Estor ficou. Entom rogou ao irmitam, por Deus, que o levasse onde está seu irmão e que queria i servir a Deus como el. Entom se partirom e levou[o] aa ermida u seu irmão era e os outros que vos disse. Tanto que os irmãos se virom chora[ro]m com ledice ca muito se amavam. E Esto[r] disse a Lançalot: – Senhor, pois vos eu acho em serviço de Jesu Cristo e vos praz de ficardes quero com vosco ficar pera nunca de vós partir. Quando os outros esto ouvirom forom mui ledos que bõõ cavaleiro entrava em serviço de Deus e receberomno mui bem com sigo dando graças a Nosso Senhor. Assi ficarom ambolos irmãos na ermida e, dês i a diante, trabalharomse de fazer serviço a Nosso Senhor. #IIII anos e mais foi Lançalot na ermida assi que nem u~u~ homem nom poderia d’afam mais e de trabalho sofrer ca el sofria em jeju~ar e em velar e em prezes e em orações fazer. E em estrenger sas carnes de todalas guisas que podia. Ao quarto ano passou Estor e soterra[ro]mno na ermida. Título Fólio 706198b [Como Lancelot rogou que o levassem aa Joiosa Guarda tanto que passasse e como passou.] Ao quinto ano, #XV dias ante Maio, deu enfirmidade a Lançalot tal que bem viu que nom podia escapar e rogou o arcibispo e Bliobleris que tanto que passasse que o levassem aa Joiosa Guarda e que o metessem em aquel moimento u jazia Gale[o]ti, o senhor da[s] Longas Insoas. E eles lho prometerom, que assi o fariam. #IIII dias depós este rogo viveu Lançalot e ao quinto dia çassou. Mas aaquela hora que ele passou nom estava com el o arcibispo nem Bliobleris ante dormiam fora sô u~u~ olmo. E aveo entom que Bliobleris s’espertou primeiro e viu o arcibispo jazer cabo de si dormindo. E em dormindo riia e fazia o maior sembrante de ledice que vós nunca vistes. E dizia per sono: – Ai, Deus, be~eito sejades vós, ca ora vejo eu quanto desejava a veer e a saber! Quando Bliobleris viu que el dormia assi e ouviu o que dizia maravilhouse e houve pavor de seer Título Fólio 706198c demo que entrava em el e espertouo. – Ai, Senhor! diss’el, porque me tolhestes de tam gram ledice em que era? – Em que ledice érades vós? disse Bliobleris. – Eu era, diss’el, em tam gram festa e em tam gram companha d’angios que nunca vi de gente tam grande assuãda . E levavam com tam gram ledice e com tam gram festa como vos eu digo a alma de dom Lançalot. Ora vaamos veer se é morto. – Vaamos, disse Bliobleris. E foramse logo u leixarom Lançalot e acharom que a alma era já dele partida. – Ai, Deus! disse o arcibispo, be~eito sejades vós! Ora sei eu verdadeiramente que aquela gram festa que os angios faziam que era com na alma deste. Ora posso eu bem dizer que pendença val sobre todalas cousas do mundo. Hoije a mais, mentre viver, nom me partirei de pendença. – Ora convém, disse Bliobleris, que o levemos aa Joiosa Guarda, ca lho prometemos. – Verdade é, disse o arcibispo. Entom guisarom u~u~s âmedes e deitarom i o corpo de Lançalot. E filhou u~u~ d’u~a parte e outro da outra e pertiromse da ermida e andarom tanto per sas jornadas que chegarom aa Joiosa Guarda. Mas sabede que esto foi grande afam e gram trabalho. Título Fólio 707198c [Como fezerom abrir o muimento de Galeote e meterom i Lancelot.] Quando os do castelo souberom que aquele era o corpo de Lançalot sairom contra el com gram chanto e chorando muito e fazendo mui gram doo como se todos vissem sa linhagem morta ante si. E levaromno aa maior eigreja do castelo e fezeromlhi canta honra mais poderom e quanto deviam aa fazer a tal homem. Aquel dia meesmo que esto foi ave~o que rei Boorz chegou i mui pobremente acompanhado como d’u~u~ soo cavaleiro e d’u~u~ soo escudeiro. E quando soube que o corpo de Lançalot era na eigreja foise alá e fezeo descobrir. E atanto o catou e afemeçou que bem o conoceu que era seu senhor. E tanto que o conoceu caeu esmorido sobr’el. E quando acordou começou a fazer seu doo o maior do mundo. Todo aquele dia e aquela noite foi muito grande o doo no castelo e fezerom abrir o muimento de Galeote que era tam rico que nom poderia mais. E manhãã meteromno i. Depois fezerom sobrela campãã entalhar leteras que diziam: “Aqui jaz Galeote, o senhor das Longas Insoas e com el Lançalot, o melhor cavaleiro que nunca trouxe armas na Gram Bretanha, fora solamente Galaaz, seu filho.” Pois Título Fólio 707198d o houverom metudo no moimento veeríades mais de mil darredor del fazer doo. E o arcibispo preguntou a rei Boorz como lhi aveera que chegara a tal hora ao soterramento de Lançalot. – Certas, senhor, disse rei Boorz, u~u~ ermitam de santa vida que há no reino de Gaunes me disse, nom há u~u~ mês, que se a este dia podesse vi~ir a este castelo que acharia i meu senhor, ou morto ou vivo. E ave~o assi como m’el disse. Mas, por Deus, se vós sabedes u morou atá aqui, dizedemo ca muito o desejo a saber. E o arcibipso lhi contou a vida de Lançalot que sempre fez dês que se partiu da batalha de Ginzestre e a fremosa fim que fez a seu passamento e quanto end’el viu. Título Fólio 708198d [Como Boorz se foi com os outros pera sa ermida.] Quando elrei, que muito de grado escutava o que o arcibispo dizia, ouviu toda sa vida, de Lançalot, respondeu: – Senhor, pois el com vosco viveu atá sa fim, eu som aquele que em logar dele vos teerei companha mentre viver. Ca já mais, sem falha, nom me partirei de pendença, ante me quero ir com vosco. E viverei em vossa companha em todolos dias de mia vida. E o arcebispo e Bliobleris lho gradecerom muito. E noutro dia partiromse do castelo de Joiosa Guarda. E rei Boorz enviou seu cavaleiro e seu escudeiro. E enviou dizer aos de Gaula e aos de Gaunes que fezessem rei quem quisessem ca ja mais el nom tornaria alá. E foise com no arcibispo e com Bliobleris a pee e mui pobremente quem bem catasse aa sa alteza e como era de gram guisa. Título Fólio 709198d [Como acharom Meraugis de Porlegues e se foi com eles.] Uu~ dia ave~o que, u se iam assi pera sa irmida que acharom Meraugis de Porlegues armado de todas armas. E quando el viu os #III homens bõõs pero que os nom conoceu, houve deles gram doo porque os viu andar descalços e bem lhi semelhou que eram bõõs e honrados e de bõa vida. E ele assi estando de cavalo lhis preguntou: – Que homens sodes? E eles responderom: – Nós somos homens pecadores que fazemos peendença de nossos pecados. E bem nos aveeria se per tam pouca lazeira podéssemos salvar nossas almas. E Meraugis o catou bem e semelhoulhi que o vira já outra vez. Mas nunca o pôde conocer. E por em lhi disse: – Eu vos rogo, pola fé que devedes a Aquel que servides, que me digades quem sodes. E el disse: – Eu som ermitam mas já foi arcibispo de Conturber e aquel dia o era ainda que foi a doorosa batalha de Salaber per que o reino de Logres foi destruido. E por aquel mau dia que vi entrei em hu~a ermida e morei i atá ora e morarei mentre Título Fólio 709199a viva. – E quem som esses outros #II, disse Meraugis, que andam assi encobertos? E ele lhos nomeou. Quando Meraugis esto ouviu foi maravilhado da maravilha que ende houve ca nom há rem per [que] cuidasse que tam honrados cavaleiros e de tam gram guisa se metessem tam toste em serviço de Deus; e deceu toste de seu cavalo e disse: – Senhores, pois eu vejo que lheixastes a cavalaria por servir Nosso Senhor, eu a leixo ca bem hei mester de mia alma salvar como vós; e eu mais armas nom filharei se mo gram coita nom faz fazer. Entom se desarmou e leixou todas sas armas em meo do caminho e foise com eles. Quando os outros #III esto virom houverom em gram prazer e gradeceromno a Nosso Senhor. Dis i começarom andar de su~u~ atá que chegarom a sa irmida. E Meraugis os preguntou se sabiam algu~as novas de Lançalot. E eles lhi contarom quanto em sabiam e como fora com eles ermitam. E ele o teve por maravilha ca nom cuidaria que tam viçoso cavaleiro como Lançalot saisse ermitam. Mais ora leixa o conto a falar deles e torna como rei Mars soube parte das mortes dos cavaleiros do reino de Logres e como eram todos da Távola Redonda. Título Fólio 710199a [Como rei Mars mandou que todo fosse destruido que rei Artur fezera.] Assi que as novas da morte de Lançalot forom sabudas per toda a Gram Bretanha e per Gaula e per Gaunes e per Benoic e pola Pequena Bretanha e per Escócia e per Irlanda e per Cornualha, rei Mars era ainda vivo e era tam velho que aquele tempo nom havia rei no mundo de tam gram idade. E cavalg[ava] ainda esforçadamente e ti~ia tam bem sa terra que nom dultava vizinho que houvesse. Mas de tanto era seu linhagem abaixado que Tristam seu sobrinho era morto. Mas nom havia end’el gram pesar. Mais da morte da rai~a Iseu andava ele mui triste, tam sobejamente a amava muito. Mas da morte de seu sobrinho nom era em triste mas mui ledo. Quando el ouviu falar da morte de Lançalot foi em mui ledo e disse entom: – Hoije mais nom vejo eu quem me possa defender que eu nom haja o reino de Logres pois os da linhagem de rei Bam som mortos. E ainda que fossem vivos a morte deste soo temeria. Mas vivendo este nom há homem no mundo que o acabar podesse. Entom assu~ou quanta gente pôde haver e passou o mar aa Gram Bretanha. E Título Fólio 710199b pois sairom das naves e sacarom o que haviam de sacar, disse rei Mars: – Ora som na terra em que recibi mais desonra e dano que lugar u nunca fosse. Ora quero que nunca me tenham por rei se me nom vingo. Entom mandou fazer aos seus u~a crueza que nunca rei cristão fez: que nunca achassem homem nem molher que o nom matassem. – Nem eu nom quero, disse el, que rem de quanto rei Artur fez que rem ficasse mas que todo seja destruido, e quantas egrejas e quantos mosteiros ele fez destruidos; ca já tantos nom destroiredes que os eu nom faça mais ricos e milhores. E eu faço este destroimento porque eu nom quero que depois da mia morte paresca em este reino rem que fezesse rei Artur. Esto mandou rei Mars fazer. Unde aveo que o reino de Logres foi perto de destruido. Título Fólio 711199b [Como fez perçar o moimento u jazia Lancelot e mandou deitar o corpo em u~u~ gram fogo.] Pois esto foi mandado começaromse a ir pela terra estragando toda per u iam. E tanto andarom que chegarom, a u~a meia noite, aa Joiosa Guarda e entrarom dentro e destruiromna em guisa que nunca pois valeu senom pouco. Quando rei Mars soube que ali jazia o corpo de Lançalot foi veer o muimento u jazia. E quando o viu tam fremoso e tam rico, disse: – Ai, Lançalot, quanto mal me hás feito mentre viveste! E nunca me pudi vingar. Mas ora me vingarei quanto posso. Entom fez perçar o moimento que era tam rico e tam fremoso que todo o haver de Cornualha nom seeria seu preço. E fezeo deitar fora do castelo em u~u~ lago onde nem u~u~ o podesse sacar. E filhou o corpo de Lançalot, que ainda era enteiro, e mandou fazer u~u~ gram fogo e mandouo deitar em ele e os ossos de Gale[o]t e leixouos i arder atá que foram tornados em ciinza. E bem vos digo que estavam i muitos homens bõõs a que pesava muito. Título Fólio 712199b [Como se foi a Camalot e como fez destruir a Tavola Redonda.] Pois rei Mars esto fez foise a Camalot, que eram mui poucos contra os seus e que eram de gram coraçom e de gram nomeada. E disserom que se nom leixariam cercar. E sairom logo todos fora da vila e combateromse com eles. Mas eram tam poucos que logo foram todos mortos assi que nem u~u~ nom escapou. E, sem falha, esto os fez morrer que eram de tam gram coraçom que nom quiserom fugir. Rei Mars entrou na cidade e destruiu ende o mais. E quando foi aa Távola Redonda e viu o logar de Galaaz, Título Fólio 712199c disse: – Este foi o logar daquele que destruiu em u~u~ soo dia mim e os do reino de Sansonha. E eu destruirei, por desamor dele, a Távola Redonda e seu logar primeiramente e dis i todolos outros. E bem assi como o disse o fez, que fez todo destruir que nom ficou rem. Título Fólio 713199c [Como u~u~ cavaleiro devisou a rei Mars a fazenda de Boorz e de Bliobleris e do arcibispo de Conturbel e de Meraugis.] Em aquela hora que rei Mars esto fez veo a ele u~u~ cavaleiro de Cornualha que sempre desamara rei Artur e a linhagem de rei Bam e disselhi: – Senhor, vós nom havedes feito nada se nom matardes rei Boorz e Bliobleris e o arcibispo de Conturbe e Meraugis. E aqueles foram da Távola Redonda. E viveram em esta terra e, se vos escapam assi, buscarám gente com que farám muito mal a vós e a todolos da vossa parte. E elrei lhi preguntou u eram. E ele lhi devisou toda a fazenda dos #IIII cavaleiros. – Esto nom há mester, disse rei Mars; em aquelhes convém que vingue eu mia sanha. Ora pensade de os ir buscar. E quem quer que me a eles leve eu lhi darei tal riqueza unde se terá por bem entergado. Por aquela promessa que ouvirom foram muitos cavaleiros polas irmidas buscálos. Título Fólio 714199c [Como os cavaleiros de rei Mars acharom os quatro cavaleiros.] Da linhagem de rei Mars forom [a]aquela demanda #IIII cavaleiros. E u~u~dia ave~o que chegarom preto da ermida u os #IIII cavaleiros moravam e acharom ante u~a fonte Meraugis jazer dormindo mui pobremente vistido e magro e amarelo e mui cambado do que s[o]ia a seer, ca muita lazeira sofrera. E espertaromno polo eles preguntarem do que buscavam. E ele lhis disse: – Enesta ermida os acharedes. E eu som Meraugis, u~u~ dos #IIII cavaleiros que buscades. Pois disserom: – E levadenos alá. E ele o fez. E quando eles virom os dous companheiros que foram tam bõõs cavaleiros d’armas e tam poderosos de todo e que se assi meteram em serviço de Nosso Senhor, houverom deles gram doo e sairomse da ermida e disserom antre si: – Matálosemos ou nom? E foi assi, aa cima, que se outorgarom que os nom matassem mas que o dissessem a elrei. Dis i tornaramse a elrei e disserom-lhi Título Fólio 714199d o que acharom. – Assi? disse elrei; estas som bõas novas. Estes muitas vezes me errarom. Eu me vingarei. Entom filhou u~u~ dos #IIII cavaleiros e disselhi: – Levademe alá. E ele disse que o faria. Entom se partiu elrei da sa companha todo armado e nom quis que o nengu~u~ soubesse fora aquele que o [guiava]. E ele desamava tanto aqueles #IIII que os quiria matar com sa mão. Quando ele chegou aa ermida achou dentro u~u~ cavaleiro da linhagem de rei Bam que chegara, que chamavam Paulas, mas era ainda armado. E quando viu que nom eram aqueles o qu’el buscava saiuse fora da ermida e ando[u] a redor catando os #IIII ermitães u estavam fazendo sa lidice polo hóspede que chegara. Quando rei Mars foi a pee onde estavam preguntou qual deles era rei Boorz. E rei Boorz disse: – Senhor, que vos praz? – Prazme de cousa que se torna depois em vosso dano, disse el. Sabedes vós quem eu som? Eu som rei Mars de Cornualha que vi~im acá por mi vingar de vós. Título Fólio 715199d [Como rei Mars meteu morto o arcibispo e como Paulas matou rei Mars e o soterrarom ante a ermida.] Entom meteu mão a espada e, quando o arcibispo viu que os quiria matar meteuse antre o golpe e deulhi elrei per cima da cabeça tam gram colpe que o meteu morto. Quando Paulas viu esto ergueuse com gram pesar e disse: – Ai, rei Mars, bravo e desleal! Tu fezeste a maior traiçom que nunca rei fez. Mas tu te acharás ende mal, se eu posso. Entom meteu Paulas mão a espada e leixouse ir a rei Mars e feriu[o] tam esquivamente como aquel que era de gram força que lhi nom valeu elmo nem almofre que o nom fendeu todo atés os dentes e o corpo caeu em terra. Quando o cavaleiro que veo com elrei viu este colpe, pidiulhi mercee que o nom matasse. – Pois prometeme, disse Paulas, que desta morte nom digas nilhur. E ele lho prometeu e partiuse ende assi dele. E os ermitães filharom o corpo delrei Mars e soterrararram-no ante a ermida, fora de sagrado, ca o ti~iam por u~u~ dos desleaes homens do mundo. Assi como vos digo morreu rei Mars de Cornualha. E os ermitães ficarom na ermida em serviço de Deus. E assi acabemos nós. Amen. 48 Projecto financiado por FCT-MCES. 1